Aos 65 anos, NENÊ BENVENUTI: o baixista dos INCRÍVEIS que ajudou a construir a Jovem Guarda

Aos 65 anos, NENÊ BENVENUTI: o baixista dos INCRÍVEIS que ajudou a construir a Jovem Guarda

Tem gente que passa a vida inteira em cima do palco sem nunca precisar do próprio nome nas luzes. Nenei Benvenuti morreu aos 65 anos depois de uma carreira que atravessou o auge da Jovem Guarda, cruzou o caminho com Elis Regina e Raul Seixas e ajudou a formar dois músicos que se tornariam gigantes da música brasileira décadas depois.

 Só que o câncer que matou ele em poucos meses foi tão rápido quanto discreta tinha sido a carreira inteira. Um diagnóstico em outubro, uma internação em janeiro e uma despedida na manhã seguinte, sem tempo para turnê de encerramento, sem tempo para homenagem planejada com calma, biografias musicais, entrevistas de época e o próprio livro de memórias dele contam essa história com detalhes que raramente aparecem juntos numa reportagem só.

 Nem sempre existe glamur suficiente numa biografia de músico de acompanhamento para render matéria de capa. E talvez seja exatamente por isso que essa história específica nunca tenha sido contada com a atenção que merece. O que está em jogo aqui não é só uma carreira de bastidor, é a diferença entre os artistas que o Brasil aprende a cantar de cor e os músicos que tornam esse canto possível, sem nunca ganhar o mesmo tipo de reconhecimento por isso, mesmo depois de décadas de trabalho constante ao lado de alguns dos maiores nomes da

música popular do país. É a diferença entre quem assina o crédito principal de um disco e quem na prática decide como aquele disco vai soar. Você provavelmente já cantou. Era um garoto que, como eu amava, os Beatles e os Rolling Stones em algum momento da vida. E é bem provável que nunca tenha ouvido falar do baixista que tocou nela.

Lívio Benvenuti Júnior nasceu em São Paulo em 1947 e entrou pro mundo da música ainda criança. literalmente, aos 12 anos, começou a tocar bateria na banda do próprio irmão, aprendendo o ofício de dentro, cercado de instrumentos, ensaios e um repertório que, no fim dos anos 50, ainda girava em torno de covers de Chuck Berry e Elvis Presley, os mesmos nomes que estavam virando febre mundial e chegando com atraso, mas com força total até o Brasil.

 Numa época em que a maioria das crianças brasileiras de 12 anos brincava de bola na rua, nenê já estava atrás de uma bateria, tentando acompanhar o ritmo de canções que vinham de discos importados, ouvidos repetidas vezes até decorar cada batida. Dois anos depois, ainda adolescente, Nenê trocou a bateria pelo baixo instrumento que ia definir o resto da carreira dele.

 A troca não foi acidental. Baixo era naquele momento um instrumento mais raro entre os jovens músicos brasileiros, a maioria concentrada em guitarra e voz, deixando a base rítmica para segundo plano. Antes de entrar para qualquer banda de peso, ele ainda passou por um grupo cover dedicado especificamente aos Beatles, tocando as próprias canções da banda inglesa, que aquela altura já dominava rádios do mundo inteiro.

 um momento em que discos originais dos Beatles ainda eram artigo de luxo, importado, difícil de encontrar fora das grandes capitais. Era o tipo de formação que só existia através de repetição, disco importado e muita audição atenta. Não havia curso, não havia manual, só a vontade de reproduzir aquele som que chegava de fora e encantava uma geração inteira de adolescentes brasileiros, tentando decifrar de ouvido harmonias que ninguém no Brasil ainda sabia explicar em teoria musical formal.

 Essa formação inteiramente autodidata, construída disco a disco, ensaio a ensaio, sem nenhuma instituição formal por trás, era a norma para praticamente todos os músicos daquela primeira geração de rock brasileiro, cada banda, inventando o próprio caminho, testando o que funcionava, aprendendo pelos próprios erros num terreno onde ninguém tinha mapa.

Em São Paulo, no início dos anos 60, um grupo chamado The Cleversinha ganhando espaço, tocando principalmente Twist Ritmo derivado do rock and roll, que naquele momento dominava salão de baile e programa de auditório, inspirado diretamente em conjuntos instrumentais norte-americanos como The Ventures e The Shadow.

que faziam sucesso tocando sem vocal, só guitarra e ritmo. A formação original reunia Domingos Orlando, o Mingo, guitarrista e voz principal, Valdemar Mosema, o Risonho, Antônio Rosa Seixas, o Manito, Luís Franco Tomás, o Netinho, na bateria, nascido em Santos e considerado, com o tempo um dos maiores bateristas que o Brasil já produziu, e Demerval Teixeira Rodrigues, o Neno, no baixo.

 Cada integrante trazia um apelido próprio, quase todos batizados pela própria cena musical paulistana daquele início dos anos 60, uma prática comum entre bandas de bailinho que ajudava a criar identidade de grupo antes mesmo de qualquer disco existir. Só que problemas legais com o empresário da banda, dono registrado da marca The Clevers, forçaram o grupo a mudar de nome um lembrete de como, mesmo em plena efervescência criativa daquela cena musical nascente, questões contratuais e comerciais podiam determinar o destino de uma banda inteira, tanto quanto

qualquer decisão puramente artística. Em 1965 escolheram Os Incríveis e foi exatamente nesse mesmo ano que Nenê Benvenuti entrou paraa formação, assumindo o posto de baixista que Nenô tinha deixado vago. A semelhança entre os apelidos Neno e Nenê causaria ao longo dos anos uma confusão recorrente entre fãs menos atentos, dois baixistas, dois apelidos parecidos, duas fases distintas da mesma banda.

Ele chegava numa banda em transição, prestes a deixar de ser apenas mais um conjunto de twist de bairro para se tornar um dos nomes mais importantes da Jovem Gua. A entrada de Nenê coincidiu quase perfeitamente com o momento em que a banda passou a investir em composições próprias, deixando de lado os covers que tinham marcado a fase The Clevers.

 Foi essa decisão trocar imitação por autoria que ia definir o auge comercial da banda nos anos seguintes, transformando um grupo de bailinho em nome de rádio nacional. Não foi uma transição automática. exigiu de cada integrante um tipo de risco criativo que simplesmente cantar cover de sucesso estrangeiro nunca exigiu, arriscando com posição própria numa indústria que ainda estava aprendendo a confiar em material nacional para competir com o que vinha de fora.

Em julho de 1967, os incríveis lançaram pela RCA o compacto que ia se tornar o maior sucesso da carreira. Era um garoto que, como eu amava, os Beatles e os Rolling Stones. A canção era uma versão brasileira de Se era um ragazzo che me amava, I Beatles e I Rolling Stones. Sucesso do cantor italiano Dian Morandi, composto por Migliat e Lucini, uma música que no original italiano, contava a história de um garoto mandado pra guerra do Vietnã, apaixonado por rock and roll, que acabava morrendo em combate, um dos hinos antiguerra mais

conhecidos da música pop italiana daquela década. No Brasil, a versão adaptada virou um dos hinos mais tocados da Jovem Guarda e Nenê estava lá. no baixo, ajudando a construir a base daquele sucesso que decolava, mesmo carregando na origem, um peso temático que a maioria do público brasileiro provavelmente nem imaginava.

 A versão brasileira suavizava o drama bélico do original italiano, transformando a canção em algo mais próximo do universo romântico e nostálgico que dominava as rádios daquela geração. Mas a raiz da composição escrita do outro lado do Atlântico sobre um garoto que nunca voltou da guerra, seguia lá escondida sob a melodia animada que embalava salões de baile inteiros.

 O grupo emplacou ainda outros hits importantes na sequência. O milionário. Canção que brincava com a fantasia de riqueza repentina tão comum no imaginário pop daquela década, minha oração. O vagamundo. Título que já sugeria o espírito viajante que definiria a própria banda poucos anos depois, com a torneia internacional e Israel, uma faixa que explorava a temática mais ousada do que o repertório médio da Jovem Guarda costumava arriscar.

 Com o sucesso, vieram também os privilégios de banda grande. Os incríveis chegaram a realizar uma turnê internacional no momento em que viajar para fora do país ainda era privilégio raro entre bandas brasileiras de rock, durante a qual o baterista Netinho namorou a cantora italiana Rita Pavon, uma das maiores estrelas pop da Europa naquele momento episódio que virou parte do folclore da banda.

 Contado e recontado por décadas entre fãs da Jovem Guarda, prova de que o sucesso deles já ultrapassava a fronteira, cruzando com nomes da própria cena musical europeia que os tinha inspirado no começo. O grupo ainda estrelou um filme Os Incríveis neste mundo louco, dirigido por Brancato Júnior, cimentando de vez a imagem deles como um dos conjuntos mais populares daquela geração inteira, banda de rádio, de disco, de turnê internacional e agora também de cinema.

Poucos grupos da Jovem Guarda conseguiram acumular esse tipo de presença simultânea em tantas frentes diferentes, rádio, televisão, disco, turnê. e cinema, tudo dentro de um espaço de poucos anos, com a mesma formação de músicos, sustentando cada uma dessas frentes ao mesmo tempo. Se você gosta desse tipo de resgate histórico, essas vozes e mãos que construíram a trilha sonora de uma geração, mas que a memória coletiva deixou em segundo plano, vale a pena se inscrever no canal e ativar o sininho.

Toda semana a gente traz um documentário assim. E para quem quiser ir além, o círculo por trás da fama dá acesso antecipado a essas histórias, por menos que um cafezinho por mês. Mas o sucesso de Os Incríveis também ia esbarrar poucos anos depois numa canção que criou problema bem maior do que qualquer um esperava.

No início dos anos 70, já no auge do regime militar sob o governo Medicy, os incríveis lançaram Eu te amo, meu Brasil, uma canção de exaltação à pátria que virou sucesso popular enorme, tocando a exaustão no momento em que o país vivia sob censura pesada e um clima de nacionalismo oficial incentivado pelo próprio governo num período que ficaria conhecido décadas depois como um dos mais duros da ditadura militar brasileira, os chamados anos de chumbo, marcados por repressão política intensa e controle rígido sobre qualquer

conteúdo cultural que circulasse pelo país. Só que o sucesso dessa canção específica trouxe um tipo de pressão que nenhum hit anterior da banda tinha causado. Segundo registros da época, vieram cobranças simultâneas da imprensa, do próprio governo e da gravadora, cada um puxando a banda numa direção diferente, uns questionando o oportunismo político da faixa, outros exigindo mais do mesmo, a gravadora pressionando por continuidade comercial num momento em que a própria identidade do grupo já começava a ficar comprometida pelo peso

simbólico daquela única canção, uma banda que tinha construído a fama tocando sobre garotos apaixonados por Beatles e Rolling Stones, de repente carregava nas costas o peso de representar, quisesse ou não, um discurso político que não cabia no espírito original do grupo. Não existe registro de que a banda tivesse pretensão política nenhuma ao gravar a canção.

 era aparentemente apenas mais um single de exaltação nacional, um gênero comum naquela época em praticamente toda a gravadora do país, que via nesse tipo de faixa uma aposta segura de vendas num momento de forte sentimento patriótico oficial, incentivado inclusive pela propaganda estatal em torno de conquistas esportivas e do próprio milagre econômico que o governo apregoava.

 Mas o tamanho do sucesso, somado ao momento político especialmente sensível, transformou uma canção pensada como celebração em fardo difícil de carregar. O resultado veio rápido. Os incríveis encerraram as atividades no início de 1972, incapazes de sustentar ao mesmo tempo o peso político de “Eu te amo, meu Brasil!” e a identidade musical que os tinha consagrado anos antes.

 No ano seguinte, em 1973, Mingo, Nenê e Risonho retomaram o grupo, já acompanhados de músicos de estúdio, lançando ainda três álbuns e diversos compactos, uma segunda fase mais discreta, sem repetir o estrondo comercial do fim dos anos 60, mas mantendo viva a marca que tinha começado como The Cleverso. quase artesanal, bem diferente da euforia de turnê internacional e filme de cinema, que tinha marcado o auge, mas que ainda assim garantiu a banda mais alguns anos de atividade, sustentados por um núcleo pequeno de integrantes originais.

Ao longo dos anos 70, depois do período mais intenso com os Incríveis, Nenê formou o trio Silvas, ao lado de dois nomes que décadas depois se tornariam gigantes, cada um no próprio caminho. Leminha na guitarra e João Barone na bateria. O nome do trio, curiosamente simples para um grupo que reunia tanto talento em potencial, sugere o tipo de formação despretenciosa que era comum naquele momento de transição.

 Três músicos experientes se juntando para tocar, sem necessariamente almejar o mesmo tipo de estrondo comercial que os incríveis tinham vivido na década anterior. Minha se tornaria um dos produtores musicais mais respeitados e influentes da história da música popular brasileira, trabalhando com nomes de gerações inteiras, moldando o som de discos que definiriam décadas seguintes da música nacional.

 João Barone se tornaria baterista do Barão Vermelho, uma das bandas de rock mais importantes que o Brasil já produziu, parte fundamental de um dos capítulos mais celebrados do rock nacional dos anos 80. Nenhum dos dois, naquele momento, era o nome conhecido que se tornaria depois. eram apenas três músicos dividindo o palco, tocando juntos, sem saber exatamente qual caminho cada carreira ia tomar, ensaiando num porão ou numa sala qualquer, sem imaginar que 2/3 daquele trio estavam prestes a se tornar peças fundamentais da história do rock

brasileiro. Nenê também integrou o grupo The Originals, formação que reunia ex-integrantes de três bandas importantes da época, The Fevers, o próprio Os Incríveis, e Renato e seus Blue Caps, o mesmo grupo que, através de Renato Barros tinha descoberto e lançado a dupla Leno e Lilian na CBS anos antes. O nome The Originals carregava certa ironia.

 Um grupo formado inteiramente por músicos que já tinham passado por outras bandas, reunindo experiência coletiva em vez de originalidade, no sentido estrito da palavra, mas ainda assim capaz de produzir um som próprio a partir da soma de tantas trajetórias diferentes. É um daqueles pontos de conexão que raramente aparecem documentados, mas que mostram como pequena na prática era a cena musical brasileira daquela época.

os mesmos poucos estúdios, os mesmos empresários, os mesmos músicos de sessão, circulando entre banda e banda, formação e formação, ajudando a sustentar a trilha sonora inteira de uma década sem que o público sempre soubesse quem exatamente estava por trás de cada gravação. músico de sessão como Nenê podia na mesma década ter tocado ao lado de gente que definiu o pop romântico e gente que definiria décadas depois o rock mais pesado do país, todos passando pelas mesmas rodas, os mesmos bares, os mesmos estúdios de gravação espalhados

por São Paulo. Não existia naquela época o tipo de segmentação rígida de gênero musical que existe hoje. Um baixista experiente como Nenê era chamado tanto paraa sessão de gravação de balada romântica quanto para ensaio de banda de rock mais experimental, sem que isso soasse contraditório para ninguém dentro daquele meio profissional.

 Era um mercado pequeno suficiente para que praticamente todo músico de estúdio conhecesse todo outro músico de estúdio, ao menos de nome uma comunidade fechada, competitiva em alguns momentos, colaborativa em muitos outros, sustentando entre si boa parte da produção musical que definiu décadas inteiras da cultura pop brasileira.

Nos anos seguintes, Nenê seguiu como músico de estúdio e de acompanhamento, tocando ao lado de nomes que definiram a música popular brasileira em gêneros completamente diferentes, incluindo Elis Regina, uma das maiores intérpretes que o país já teve, conhecida pela exigência técnica que impunha a cada músico que dividia palco com ela, capaz de parar um ensaio inteiro por causa de um único compasso fora do lugar e Raul Seixas, o próprio símbolo nacional de resistência ao molde comercial que a indústria tentava impor a cada artista. Tocar ao

lado dos dois em momentos diferentes da carreira exigia de Nenê uma versatilidade rara. O rigor técnico de Elis não tinha nada a ver com a energia caótica e irreverente de Raul, e poucos baixistas conseguiam transitar entre os dois mundos com a mesma naturalidade, ajustando abordagem, repertório e até postura de palco, conforme o artista que estava acompanhando naquele momento específico.

 Um dos episódios mais marcantes dessa fase aconteceu em 1985. Nenê acompanhou Raul Seixas numa transmissão especial da TV Tupi, realizada direto de um garimpo no interior do Pará. Um cenário improvável para qualquer transmissão de televisão, muito menos para um show de rock. Imagina a cena. Equipamento de som e transmissão montado no meio da selva amazônica, perto de uma área de extração de ouro, uma plateia de garimpeiros, assistindo a um dos maiores nomes do rock brasileiro tocar ao vivo, longe de qualquer estúdio, qualquer teatro,

qualquer plateia urbana acostumada a esse tipo de show. Não existia estrutura de palco profissional, não existia camarim, não existia nenhuma das facilidades normais de uma turnê só geradores, cabos improvisados e a determinação de levar aquele som até um público que, de outra forma jamais teria acesso a um show ao vivo daquele tamanho.

 Foi esse tipo de trabalho versátil, disposto a acompanhar qualquer artista em qualquer cenário da TV nacional ao meio da floresta, que definiu boa parte da segunda metade da carreira de nenê, longe dos holofotes que tinha conhecido na fase de maior sucesso comercial com os Incríveis. Poucos músicos daquela geração podiam dizer que tinham tocado tanto num programa de TV visto por milhões, quanto num garimpo isolado da Amazônia na mesma década, com a mesma disposição profissional, extremos geográficos e sociais que a maioria dos artistas de

sucesso jamais precisou conciliar dentro da própria carreira. Entre 2001 e 2005, os incríveis voltaram a se reunir em algumas ocasiões, revivendo brevemente o nome que tinha marcado o auge da Jovem Guarda décadas antes. Mais um capítulo de nostalgia entre tantos que aquela geração inteira viveu.

 Plateias mais velhas reencontrando bandas que marcaram a juventude delas. e músicos como Nenê Topando Voltar ao palco por algumas noites, sem a pretensão de repetir o sucesso comercial de outrora, só o prazer de tocar de novo ao lado de quem tinha dividido tanto tempo de estrada. Em 2009, Nenê publicou pela editora Novo Século o livro Os Incríveis Anos 60 e 70.

 E eu estava lá, uma espécie de memória pessoal sobre o nascimento do rock brasileiro, contada por quem literalmente esteve dentro dele, tocando baixo, desde os primeiros anos da banda até a segunda fase mais discreta dos anos 70. Era o tipo de registro que só alguém que viveu aquilo por dentro conseguia escrever. Não uma biografia oficial encomendada, nem uma reconstrução jornalística feita décadas depois, com base em recortes de jornal, mas a própria memória de um músico contando a própria trajetória com as próprias palavras, incluindo detalhes de

bastidor que só quem esteve lá poderia lembrar os ensaios, as brigas de estúdio, as noites de turnê, os bastidores do filme, tudo aquilo que nenhuma matéria de revista da época teve espaço ou interesse de registrar. Décadas depois de deixar de ser notícia de capa, nenê ainda encontrava leitores curiosos o suficiente para querer saber como realmente tinha sido viver aquele período por dentro, prova de que o interesse pela Jovem Guarda nunca tinha desaparecido de verdade, só migrado para outro tipo de consumo, mais nostálgico,

mais voltado para detalhe histórico do que para sucesso de parada. Em 2012, já com 65 anos, Nenê lançou de forma independente um CD instrumental solo, só instrumentais, um projeto pessoal, fora de qualquer estrutura de banda ou gravadora grande, puro trabalho de baixo e composição feito por conta própria, décadas depois do auge comercial que tinha vivido com os Incríveis, sem selo grande, sem campanha de divulgação, sem pressão comercial nenhum. nenhuma.

 Só um músico veterano sozinho, registrando o próprio instrumento do jeito que sempre quis, livre de qualquer expectativa de sucesso de rádio. Depois de décadas tocando composição de outras pessoas, interpretando hit de banda, acompanhando artista famoso só instrumentais, representava algo raro na trajetória dele, um projeto inteiramente próprio, sem nenhum outro nome maior, compartilhando o crédito ou o palco.

 Foi também em 2012, em outubro, que Nenê recebeu o diagnóstico que ia mudar tudo. Câncer. A doença avançou rápido, rápido demais para qualquer tipo de tratamento prolongado, rápido demais para qualquer tipo de despedida planejada com calma, chegando bem no mesmo ano em que ele finalmente tinha lançado sozinho e por conta própria, o disco instrumental que carregava a assinatura mais pessoal de toda a carreira dele.

 Existe algo particularmente cruel nessa coincidência de calendário. Justo no ano em que Nenê finalmente tinha-se permitido um projeto inteiramente autoral, sem compromisso comercial, sem banda, sem produtor terceiro decidindo o rumo do trabalho, o corpo dele já carregava, sem que ninguém soubesse ainda a doença que ia interromper tudo em poucos meses.

No dia 29 de janeiro de 2013, Nenê foi internado no Hospital Santa Magiore em São Paulo, já em estado grave, com o câncer generalizado por complicações que os médicos não conseguiram mais reverter. Não existe registro detalhado de quem estava ao lado dele naquelas últimas horas, nem de quais foram as últimas palavras trocadas com familiares e amigos mais próximos.

 Só o fato seco e definitivo do desfecho. Na manhã do dia seguinte, 30 de janeiro de 2013, ele morreu aos 65 anos, menos de 4 meses depois do diagnóstico inicial. Um intervalo de tempo curto demais para qualquer família processar direito, curto demais para qualquer amigo de décadas se despedir com calma. foi velado no Beneficência Portuguesa em São Paulo, num comunicado breve, direto, sem grande alarde, o mesmo tipo de descrição que tinha marcado boa parte da carreira dele.

 presente em quase toda a cena importante do rock brasileiro daquelas décadas, mas raramente como o nome principal do cartaz, a notícia circulou rápido entre fãs da Jovem Guarda e entre músicos que tinham cruzado o caminho com ele em algum momento das décadas anteriores, mas sem o tipo de cobertura extensa que costuma acompanhar a morte de um artista que teve o próprio nome estampado em capa de disco.

 Poucos veículos de grande circulação dedicaram mais do que uma nota breve ao falecimento, um parágrafo, duas frases, o nome da banda mais lembrada entre parênteses, como se fosse preciso lembrar o leitor de quem exatamente estava sendo homenageado. Pensa no contraste. O músico que tocou a base de um dos maiores hinos da Jovem Guarda, que ajudou a formar dois nomes que se tornariam gigantes da música brasileira, que dividiu estúdio e palco com Eli Regina e Raul Seixas, que levou rock and roll pro meio de um garimpo na Amazônia

e que no fim teve uma doença que não deu nem 4 meses de aviso antes de levá-lo embora. Não houve tempo para turnê de despedida, para disco de encerramento, para homenagem cuidadosamente planejada. Só um diagnóstico em outubro, uma internação em janeiro e uma manhã de quarta-feira em que o Brasil perdeu um dos próprios pioneiros do rock, sem que a maioria das pessoas soubesse exatamente quem estava se despedindo.

Nem sempre a vida dá tempo suficiente para fechar um ciclo do jeito que a própria pessoa escolheria. vezes, o corpo simplesmente decide antes que qualquer plano de despedida possa ser colocado em prática. Nenê Benvenuti começou aos 12 anos tocando bateria na banda do irmão. Terminou aos 65 depois de décadas dividindo o palco com alguns dos maiores nomes da música popular brasileira, Os Incríveis.

 Elis Regina, Raul Seixas, os futuros integrantes de Barão Vermelho e uma legião de produtores e artistas que passaram pela vida dele em algum estúdio, em algum ensaio, em algum show do interior do Pará as rádios nacionais mais ouvidas do país. O disco instrumental que lançou sozinho, já perto do fim, talvez seja o retrato mais honesto de quem ele realmente foi.

 Um músico competente demais para ficar de fora de qualquer cena importante, mas discreto demais para insistir no próprio nome, quando podia simplesmente tocar bem e deixar o resto para quem gostava de Olofote. Não existe indício de amargura nessa trajetória, nenhuma entrevista de despedida reclamando de falta de reconhecimento, nenhum desabafo público sobre injustiça histórica, só um músico que trabalhou de forma constante, competente e discreta do início ao fim, sem nunca parecer incomodado por dividir os holofotes com quem estava na frente

do microfone. E ainda assim o nome dele raramente aparece nas listas de ouro da Jovem Guarda e quase nunca nas retrospectivas de rock brasileiro que mencionam Liminha ou João Baroni, sem lembrar quem tocou baixo ao lado dos dois antes da fama chegar para qualquer um. Não é uma injustiça deliberada, é simplesmente o destino comum de quem passa a carreira inteira sustentando o som de outras pessoas, em vez de exigir o próprio nome nas luzes.

 Existe um padrão silencioso em quase toda a indústria musical do mundo. O guitarrista principal, o vocalista, o compositor de crédito assinado costumam levar o reconhecimento público enquanto baixista, baterista de apoio e músico de sessão seguem trabalhando nos bastidores de sucesso atrás de sucesso, quase sempre sem que o público saiba os nomes deles de cor.

 Nené viveu essa lógica de forma quase exemplar. presente em praticamente todo o momento importante do rock brasileiro daquelas décadas. E ainda assim, décadas depois, um nome que precisa de documentário para ser lembrado. Isso não diminui em nada o tamanho real da contribuição dele, apenas mostra como a memória coletiva tende a favorecer quem está na frente do microfone, esquecendo com facilidade quem está logo atrás, sustentando cada nota que faz aquele microfone valer a pena.

 O próprio livro que ele escreveu em 2009 parece hoje quase uma tentativa consciente de corrigir essa lacuna antes que fosse tarde demais, como se ele mesmo soubesse que se não contasse essa história com as próprias palavras, ninguém mais ia se dar ao trabalho de contar. Essa não é a primeira vez que esse canal encontra esse tipo de história.

 Um pioneiro real cercado de nomes que a história decidiu lembrar, mas que ele mesmo ficou de fora da lista oficial e ainda tem mais um nome dessa mesma geração esperando para ser contado. Um cantor que morreu recentemente, cuja causa da morte nunca foi divulgada publicamente, deixando um mistério real que nenhuma legenda de revista jamais tentou explicar. Yeah.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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