Aos 84 anos, a vida de Susana Vieira, marcada por doenças, é verdadeiramente comovente.
Aos 84 anos, a vida de Susana Vieira, marcada por doenças, é verdadeiramente comovente.
Em 2015, Susana Vieira entrou para fazer análises ao sangue antes de uma cirurgia, sem imaginar que alguns números impressos naquele resultado alterariam a forma como ela enxergaria os anos seguintes. Era, a princípio, apenas mais uma etapa médica daquelas que antecedem um procedimento e quase sempre desaparecem da memória assim que tudo termina.
Só que naquele caso, o exame revelou algo que não estava nos planos. leucemia linfocítica crónica, LC, um tipo de cancro do sangue. E talvez seja precisamente aí que a história se mais difícil de absorver. Não houve necessidade de transformar aquele instante numa cena de hospital cheia de gritos, corredores escuros ou frases definitivas.
A realidade já transportava peso suficiente. Susana continuava a ser a mulher que o Brasil conhecia tinha décadas. presença forte, voz reconhecível, personalidade expansiva, uma atriz habituada às câmaras e ao olhar permanente do público. Mas enquanto a sua imagem permanecia familiar do lado de fora, dentro do organismo iniciava uma convivência completamente diferente.
A LC costuma apresentar evolução relativamente lenta em muitos doentes. Portanto, receber este diagnóstico não significava que Susana estivesse perante uma emergência fatal imediata. Significava, no entanto, aprender a conviver com uma palavra que dificilmente passa despercebida, cancro. Aos poucos, a vida que durante tanto tempo fora organizada por gravações, personagens, entrevistas e compromissos, ganhou também outro calendário, exames, acompanhamento médico e atenção constante aos sinais do próprio corpo.
Susana foi submetida a tratamento com quimioterapia e imunoterapia. Para alguém cuja profissão sempre exigiu presença, energia e capacidade de continuar, mesmo quando as câmaras começavam a rodar, havia agora uma realidade impossível de resolver, simplesmente decorar um texto ou atravessando mais um dia de trabalho.
O corpo precisava de ser observado, os resultados precisavam de ser acompanhados e o tempo, antes marcado por novelas, temporadas e novos papéis, passava também a ser contado entre consultas e avaliações. É isso que torna a sua trajectória aos 84 anos tão humana e dolorosa. Não a ideia exagerada de que estaria permanentemente à beira da morte, mas o facto de uma mulher conhecida por parecer quase inesgotável ter precisado de aceitar que havia algo acontecendo silenciosamente dentro dela.

Como alguém habituado a ser observado por milhões de pessoas aprende de repente a observar o seu próprio sangue? Como se continua a viver normalmente quando um simples exame de rotina deixava uma informação que já não pode ser apagada? A vida pública não parou naquele dia de 2015.
As câmaras continuaram a existir, os compromissos chegaram, as pessoas continuaram a reconhecer Susana Vieira nas ruas. Algures, porém, aquela folha de exames foi dobrada e guardada. O papel podia desaparecer dentro de uma pasta, mas os números que estavam nele escritos passariam a acompanhar silenciosamente os anos que ainda viriam.
A leucemia não seria a única condição sanguínea a ocupar espaço na vida de Susana Vieira. Em outro momento desta longa convivência com exames e acompanhamento médico, ela também confirmou ter anemia hemolítica autoimune. O nome parece complicado, quase distante da vida quotidiana, mas o mecanismo pode ser entendido de forma muito mais simples e talvez, por isso mesmo, seja tão inquietante.
O sistema imunológico, criado para reconhecer ameaças e proteger o organismo, passa a atacar as próprias hemácias. fazendo com que estas células sejam destruídas mais rapidamente do que deveriam. De um lado, portanto, havia uma doença instalada no sangue. Do outro, uma condição em que o O próprio sistema de defesa se voltava contra células que deveria preservar.
Duas realidades diferentes a acontecer dentro do mesmo corpo. Para a Susana, viver com estas doenças crónicas não precisava de significar passar todos os dias numa cama de hospital, nem enfrentar permanentemente situações dramáticas. O peso estava precisamente em algo menos visível, saber que existiam e que precisavam de continuar a ser acompanhadas.
Os exames deixavam de ser apenas procedimentos ocasionais. Resultados ganhavam importância. Pequenas alterações podiam exigir atenção. Tratamentos e avaliações médicas passavam a fazer parte de uma rotina que seguia paralelamente aquela conhecida pelo público. E essa é talvez uma das contradições mais marcantes da sua trajetória.
Perante as câmaras, Susana continuava a ser Susana Vieira. Luzes bem posicionadas podiam suavizar marcas do tempo. A maquilhagem podia esconder sinais de cansaço. Os figurinos podiam reconstruir uma personagem em questão de minutos. Um resultado laboratorial, no entanto, não reconhece a fama, os aplausos ou décadas de televisão.
Para uma folha cheia de números, não existe protagonista de novela nem celebridade nacional. Existe apenas um organismo sendo observado. Aos poucos, Susana necessitou de ocupar simultaneamente dois lugares que pareciam pertencer a mundos completamente diferentes. Em um deles estava a atriz, habituada a entrar em cena, conversar com os jornalistas, sorrir diante das câmaras e continuar trabalhando.
O outro estava a doente, aquela que precisava de esperar resultados, acompanhar indicadores e compreender que certas condições não desaparecem simplesmente quando termina uma consulta. Talvez o mais desgastante dos uma doença crónica esteja exatamente nessa permanência silenciosa. Ela pode deixar de dominar cada conversa, pode sair das manchetes, pode passar meses sem produzir uma grande mudança visível, mas continua a fazer parte da vida.
E quando são duas doenças relacionadas com o sangue, essa consciência ganha outra dimensão. O sangue circula sem que ninguém se aperceba. Não existe um botão para desligar esta preocupação ao sair do consultório. Assim, os anos foram passando. A Susana aprendeu a conviver com aqueles números, com os exames repetidos e com necessidade de acompanhar aquilo que acontecia dentro do seu próprio corpo.
A mulher, perante das câmaras seguia em frente, enquanto a doente aprendia uma rotina que o público raramente via. Até que em 2022, depois de tantos anos a olhar atentamente para o sangue, uma nova preocupação surgiria noutra parte do corpo. Os pulmões, em 2022, a preocupação deixou por alguns dias de estar concentrada apenas nos números do sangue. Susana Vieira contraiu Covid-19.
E para uma mulher que já carregava um antecedentes de leucemia linfocítica, crónica e uma condição autoimune, qualquer alteração importante na sua saúde precisava de ser observada com atenção. Isto não significa dizer que o coronavírus tenha provocado um agravamento da leucemia. Não há necessidade de criar uma ligação que não esteja comprovada.
O que aconteceu já é suficientemente significativo. Depois da infecção, Susana teve de ser internada por aproximadamente se dias para tratar repercussões que lhe atingiram os pulmões. Seis dias. No calendário, quase nada, menos de uma semana entre a entrada e a saída. Mas o tempo dentro de um hospital possui outra medida.
Para alguém que desde 2015 que aprendera a viver com exames, tratamentos e duas doenças do sangue, voltar a ocupar o lugar de doente, era também reencontrar uma realidade que nunca tinha desaparecido completamente. Não é preciso imaginar Suzana numa UTI inconsciente ou lutando desesperadamente pela vida, porque essas imagens transformariam informação médica em espetáculo sem base confirmada.
O que sabemos permite uma narrativa muito mais concreta. Ela teve Covid-19. Houve consequências pulmonares que exigiram internamento e acompanhamento. Permaneceu cerca de seis dias no hospital e depois teve alta. Talvez seja precisamente a simplicidade destes factos que dê peso àquele episódio. Durante décadas, Susana viveu num ambiente no qual seis dias podiam significam gravações, entrevistas, compromissos, viagens, cenas decoradas e personagens construídas perante as câmaras.
Em 2022, seis dias ganharam outro significado. Eram dias em que respirar, recuperar e permitir que os médicos acompanhassem os pulmões se tornavam mais importantes do que qualquer agenda do lado de fora. E havia uma diferença essencial em relação à descoberta de 2015. Nesse momento, tudo começara silenciosamente numa folha de exame de sangue.
Agora havia uma infecção concreta, um internamento e um órgão diferente a exigir atenção. O corpo parecia recordar que nenhuma parte da sua história médica existia completamente isolada da outra, mesmo que não fosse correto estabelecer relações de causa e efeito sem evidências. A Susana já conhecia a linguagem dos hospitais, conhecia a espera por avaliações, a importância de acompanhar resultados e, sobretudo, aquela sensação peculiar de ter a vida quotidiano temporariamente suspensa enquanto o organismo dita o ritmo. Ainda
assim, aqueles seis dias não terminaram numa imagem de despedida. Terminaram com uma alta hospitalar. Em algum momento após o tratamento, uma porta se abriu novamente. Susana deixou o hospital e regressou a casa. Os corredores ficaram para trás, assim como aquele período de observação mais intensa.
Do lado de fora, a vida continuava à espera dela. Só que depois de tantos anos a conviver com doenças que exigiam vigilância, voltar para casa não significava simplesmente apagar tudo o que tinha acontecido. E talvez seja por isso que os anos seguintes sejam ainda mais importantes compreender o que Susana passou a dizer sobre o próprio corpo, sobre a leucemia e sobre a forma como aprendeu a envelhecer, carregando diagnósticos que continuavam a fazer parte da sua história.
Quando a história chega às entrevistas de 2023 e 2024, existe uma informação que muda completamente a maneira de olhar para esses anos anteriores. Susana Vieira contou que o seu leucemia estava em remissão depois daquele exame de sangue de 2015, dos tratamentos, da quimioterapia, da imunoterapia e de uma rotina em que acompanhar o próprio organismo passou a fazer parte da vida, a palavra que aparecia agora era outra, remissão.
Ela não apaga o diagnóstico, nem transforma tudo o que aconteceu numa lembrança sem importância. Em termos simples, significa que naquele momento relatado por Susana, a doença estava controlada a ponto de os seus sinais terem diminuído significativamente ou não se manifestarem como antes. É uma diferença essencial, principalmente quando se fala de uma atriz idosa que conviveu durante anos com uma doença oncológica.
Dizer que a Susana teve leucemia não significa dizer que ela esteja atualmente em fase terminal. Dizer que precisou de tratamento não significa colocá-la permanentemente à beira da morte. E talvez seja exatamente neste espaço entre estas duas ideias, que a sua história adquira uma dimensão mais verdadeira. Não é necessário acrescentar novos diagnósticos, imaginar corredores de hospitais ou transformar cada aniversário numa contagem regressiva.
Basta voltar a três momentos. 2015, um exame de sangue feito antes de uma cirurgia, uma rotina aparentemente banal que revelou a leucemia linfocítica crónica. 2022, seis dias de internamento depois da COVID-19, tratando consequências nos pulmões até ter alta e regressar a casa. 2023 e 2024. Uma pequena palavra depois de tantos anos de acompanhamento. Remissão.
Três momentos separados pelo tempo, mas unidos pelo mesmo corpo. E aos 84 anos, talvez seja isso que torna a trajetória de Susana Vieira tão marcante. Não saber o quanto ela está doente, como se fosse necessário medir o sofrimento para tornar uma história emocionante, mas perceber durante quanto tempo as questões de saúde puderam caminhar ao lado da sua vida.
sem necessariamente ocupar todo o espaço. Porque as doenças crónicas possuem esta estranha característica, mesmo quando controladas, deixam uma memória. Existe o exame que necessita de ser repetido, a consulta que regressa ao calendário, o resultado que passa a ser lido com mais atenção.
Existe também tudo aquilo que continua a acontecer fora dos consultórios. Uma conversa, uma câmara, uma maquilhagem a ser preparada, um guião à espera sobre a mesa. Talvez uma folha de exames de 2015 ainda esteja guardada algures entre tantos documentos médicos. Quase uma década passou desde o momento em que aqueles números revelaram algo que Susana não esperava encontrar.
Desde então, muita coisa coube nesse intervalo. tratamento, acompanhamento, uma pandemia, uma internamento, a recuperação e, finalmente, a notícia de que a leucemia estava em remissão lá fora, porém, as luzes continuam a acender, a câmara continua à espera e Susana Vieira volta a caminhar na sua direção, mais velha do que naquela manhã de 2015, levando consigo uma história médica que não pode ser apagada, mas sem permitir que essa história por si só diga tudo o que ainda existe. para ser contado sobre ela.