Para Joana Fomm, aos 86 anos, talvez isso seja uma forma de aliviar sua dor.
Para Joana Fomm, aos 86 anos, talvez isso seja uma forma de aliviar sua dor.
Aos 86 anos, Joana Fom carrega na própria história recordações de momentos em que o corpo pareceu dizer não antes mesmo que ela estivesse pronta para parar. Imagine uma situação aparentemente banal, erguer-se de uma cadeira, dar alguns passos e, de repente, sentir as pernas perderem a firmeza. A pressão desce, o equilíbrio desaparece por alguns segundos e a primeira reação já não é continuar a andar, mas procurar rapidamente uma parede, uma mesa, qualquer ponto de apoio capaz de impedir uma queda. Para uma atriz habituada
durante décadas a controlar cada movimento diante das câmaras, o momento de entrar em cena, a direção do olhar, a posição das mãos, a intensidade de uma frase, existe algo especialmente angustiante em perceber que o próprio organismo pode deixar de obedecer sem aviso. E é precisamente esta contradição que ajuda a compreender uma parte delicada da trajetória de Joana Fom.
não significa que hoje, aos 86 anos, ela esteja a enfrentar simultaneamente todas as as doenças que já apareceram na sua vida. É preciso recuar no tempo para perceber quantas vezes a sua saúde colocou obstáculos no caminho. Por volta de 2007, surgiu um dos episódios mais duros, o cancro da mama.
Segundo relatos feitos posteriormente pela própria atriz, foram encontrados tumores nas duas mamas. A a partir desse momento, o problema deixou de ser algo distante, pertencente à história de outras pessoas. Estava em o seu corpo, exigindo decisões concretas e difíceis. A Joana precisou de passar pela remoção das duas mamas e, posteriormente por cirurgia de reconstrução.
Não era apenas uma questão médica. Havia também a dimensão íntima de uma mulher, vendo o próprio corpo ser transformado, e, ao mesmo tempo, a dimensão pública da uma atriz, cuja imagem atravessara décadas face a milhões de brasileiros. Durante tantos anos, o seu rosto, os seus gestos e a sua presença fizeram parte da televisão.

Agora, longe da iluminação dos estúdios, aquele mesmo corpo precisava de atravessar cicatrizes, recuperação e adaptação. Ainda assim, existe uma diferença fundamental que não pode ser apagada em nome do drama. Joana contou mais tarde que venceu o cancro. Portanto, aquele diagnóstico de 2007 não deve ser apresentado como se fosse um cancro que continuasse a avançar aos 86 anos.
Foi uma batalha pertencente a outro capítulo da sua vida, embora as suas marcas tenham inevitavelmente entrado para a sua história. Só que sobreviver a uma doença tão assustadora não significaria nunca mais experimentar a vulnerabilidade física, porque talvez a enfermidade que obrigou Joana a perder uma parte do próprio corpo nem tenha sido aquela capaz de produzir os momentos mais imprevisíveis.
Depois do cancro, surgiriam situações em que o perigo não tinha de anunciar a sua chegada com exames ou salas de cirurgia. Por vezes, bastava estar de pé, bastava tentar caminhar, bastava uma queda súbita da pressão para transformar alguns segundos comuns numa luta para permanecer de pé. E depois aparecia uma pergunta muito mais inquietante.
Quando as suas pernas voltariam a ceder, o inimigo mais inquietante nem sempre tinha um rosto, um tumor visível ou uma cirurgia marcada no calendário. Em outro período da sua trajetória, Joana Falou sobre a desautonomia, uma alteração relacionada com o sistema nervoso autónomo, precisamente aquele que participa no controlo de funções que o organismo normalmente executa, sem que tenhamos de pensar nelas, como a pressão arterial e os batimentos cardíacos.
A explicação pode parecer técnica, mas a experiência descrita por Joana era brutalmente concreta. A pressão podia baixar de repente, ela podia desmaiar, as pernas podiam ficar fracas, o equilíbrio desaparecer e uma queda acontecer antes que houvesse tempo suficiente para perceber o que estava errado. Era uma ameaça diferente da representada pelo cancro.
Contra o cancro, havia um diagnóstico, procedimentos, uma etapa difícil que precisava de ser atravessada. Aqui, porém, existia a imprevisibilidade. Imagine não temer apenas cair, mas começar a desconfiar do instante seguinte. Levantar-se deixa de ser simplesmente levantar-se. Caminhar de um divisão para outro já exige atenção. Um movimento demasiado rápido pode despertar aquela pergunta silenciosa.
Será que as minhas pernas vão responder? E esse talvez seja um dos aspetos mais cruéis de episódios. Assim. O chão continua exatamente no mesmo local, os móveis permanecem imóveis. Tudo à volta parece absolutamente normal, mas dentro do corpo alguma coisa pode mudar em segundos. A Joana relatou episódios de queda de pressão, desmaios, fraqueza nas pernas, desequilíbrio e quedas repetidas.
Numa dessas quedas, a consequência foi ainda mais dolorosa. Chegou a fraturar uma costela. Nesse momento, aquilo que poderia parecer apenas um desequilíbrio passageiro ganhou outra dimensão. Uma queda dura poucos segundos. A marca deixada por ela pode permanecer muito mais tempo. E quando se olha para esta história a a partir da velice, pequenos movimentos passam a carregar um significado diferente.

Na juventude, atravessar uma sala é tão automático que ninguém regista o número de passos. Ninguém pensa no equilíbrio necessário para virar o corpo, alcançar uma porta ou simplesmente ficar de pé. Depois de décadas de vida e de diferentes problemas de saúde, contudo aquilo que antes era invisível pode exigir cautela. Para alguém que fez do corpo um instrumento de trabalho, esta mudança parece ainda mais simbólica.
Durante décadas, a Joana precisou de saber exatamente onde parar diante de uma câmara, quando avançar, quando virar o rosto, quando transformar um pequeno gesto emoção. Mas nenhuma experiência de palco ou televisão poderia garantir o controlo absoluto sobre uma pressão que despencava ou sobre pernas que subitamente perdiam força.
E é importante não acrescentar a esta história cenas que não foram documentadas. Não é necessário imaginar hospitais, despedidas ou familiares chorando para compreender o peso destes episódios. A realidade conhecida já carrega tensão suficiente. Uma costela quebrada pode aparecer num exame. Uma queda deixa marcas que podem ser observadas, mas existem feridas que nenhuma imagem consegue registar.
E houve também anos em que aquilo que pesava sobre Joana estava precisamente no local onde o público não conseguia enxergar. Depois de tantas batalhas travadas no próprio corpo, houve também um peso que não tinha de provocar uma queda para a derrubar por dentro. Joana F já falou publicamente sobre a sua experiência com a depressão e sobre o uso prolongado de antidepressivos.
Aqui a história pede silêncio, porque nem todo o sofrimento chega acompanhado de um acontecimento dramático que possa ser apontado com o dedo. Às vezes, ele se instala precisamente nos intervalos. Para uma mulher que passou décadas rodeada por câmaras, colegas, guiões, ensaios e personagens, a diminuição das oportunidades profissionais podia tornar o vazio ainda mais perceptível.
O contraste é duro. Durante boa parte da vida havia sempre uma cena seguinte, uma fala para decorar, alguém à espera do seu entrada. Quando o trabalho se torna menos frequente, sobra um tipo diferente de tempo, aquele em que os pensamentos podem ocupar espaços anteriormente preenchidos pela rotina.
Ao longo de diferentes momentos, a Joana também mencionou dificuldades emocionais como ansiedade, crises de pânico e experiências relacionadas com a depressão pós-parto. Não é preciso transformar tudo isto num catálogo de diagnósticos. O que importa é perceber que a sua saúde mental também atravessou períodos delicados, alguns provavelmente muito menos visíveis para quem conhecia apenas a atriz da televisão.
O público podia reconhecer o seu rosto imediatamente e ainda não saber o que acontecia quando as câmaras eram desligadas. E, então, por regresso de 2014, corpo, emoção e profissão acabariam por se encontrar em um ponto particularmente sensível. A voz. Durante a sua participação em Bug, Joana enfrentou alterações vocais. Para qualquer pessoa, perceber a sua própria voz diferente pode ser desconfortável.
Para uma atriz existe outra camada. A voz não serve apenas para pedir alguma coisa, conversar ou responder a alguém. Ela é um instrumento de trabalho. É por meio dela que uma personagem demonstra medo sem ter de chorar, ameaça sem levantar a mão, revela fragilidade apenas diminuindo o volume de uma frase. Segundo explicações dadas pela própria Joana, aquela dificuldade vocal estava relacionada com o stress e também a medicamentos neurológicos utilizados durante o tratamento da desautonomia.
Isto não significa dizer que ela simplesmente perdeu a voz. O que houve foi um problema que exigiu cuidados e A Joana fez terapia vocal para trabalhar essa dificuldade. Talvez seja precisamente esse pormenor que torne aquele período tão simbólico. Antes, a doença podia atingir partes de sua vida que permaneciam longe do olhar do espectador.
Ora, algo essencial para a sua presença profissional também estava a ser afetado. Não era necessário mostrar uma cicatriz. Não era necessário explicar ao público cada comprimido ou cada episódio de pressão arterial baixa. Bastava abrir a boca diante de uma câmara para que aquilo que acontecia dentro do corpo pudesse aproximar-se do trabalho.
Uma atriz consegue esconder uma cicatriz sob o figurino, mas quando a própria voz começa a alterar-se, a distância entre o doença e o palco quase desaparece. Aos 86 anos, talvez já não faça sentido olhar para a trajetória de Joana Fom, tentando contar quantas doenças apareceram pelo caminho. Os nomes médicos colocados um depois do outro dizem muito pouco sobre aquilo que realmente muda quando o corpo começa a impor limites.
É mais revelador observar aquilo que cada período ameaçou retirar-lhe. cancro da mama colocou-a diante de uma transformação física profunda e de cirurgias importantes. Anos depois, a desautonomia fez com que o equilíbrio, pressão arterial e até a segurança dos permanecer de pé deixassem de ser coisas completamente banais.
A depressão e a ansiedade tocaram uma região que nenhuma câmara poderia registar com facilidade, o mundo interior. E quando surgiram as alterações na voz, a fragilidade alcançou precisamente uma das ferramentas que Joana usara durante décadas para construir personagens: corpo, mente, movimento, voz. Não como capítulos de uma competição para descobrir qual o sofrimento que foi maior, mas como partes diferentes de uma mesma vida que continuou a avançar enquanto o organismo também se transformava.
E talvez exista aí uma das imagens mais difíceis do envelhecimento de um artista. Para o público, o tempo pode permanecer congelado. Basta procurar uma novela antiga e Joana reaparece com determinada idade, caminhando com segurança pelo cenário, pronunciando-se cada frase no momento exato, repetindo uma cena as vezes que forem necessárias.
A televisão preserva aquela versão. O corpo real, porém, não permanece dentro da gravação. Ele continua a atravessar anos, tratamentos, recuperações, mudanças e limitações. É por isso que dizer simplesmente que ela venceu tudo seria reduzir uma história muito mais complexa. Algumas dificuldades ficaram para trás, outras tiveram os seus próprios tratamentos e consequências.
E envelhecer não é uma batalha com uma linha de chegada à espera no último capítulo. Existe apenas continuidade. Um dia depois do outro, com aquilo que ainda pode ser feito e com aquilo que passou a exigir mais cuidado. Também é fundamental separar passado e presente. Joana afirmou posteriormente que superou o cancro da mama enfrentado anos antes.
Portanto, aquele cancro não deve ser recuperado agora como recurso dramático para sugerir que aos 86 anos ela esteja enfrentando novamente a doença sem que exista evidência para tal. A verdade conhecida já é suficientemente humana sem ter de ser aumentada. Talvez por que a imagem final não necessite de hospital, música triste ou grandes palavras.
A câmara está desligada, o cenário ficou para trás. Não existe mais nenhuma fala. à espera para ser decorada, nenhum diretor a pedir outra tomada. Há apenas uma mulher de 86 anos que se levanta lentamente, mantém a mão apoiada no braço da cadeira durante alguns segundos e só depois dá o primeiro passo. E talvez esse pequeno instante seja suficiente para guardar uma parte inteira da sua vida que até ela nunca conseguiu contar por completo.