A DOLOROSA VERDADE SOBRE COMOROBERTO CARLOS VIVE HOJE AOS 85 ANOS – H

Mais de 140 milhões de discos vendidos em 50 países. 67 anos de carreira sem uma única interrupção. O maior cantor romântico que o Brasil já produziu. Esse é o rei Roberto Carlos. Só que existe uma verdade sombria por detrás dos 85 [música] anos de vida deste homem que o Brasil nunca ouviu.

Uma verdade que atravessa três décadas de perdas no seio da família dele e que envolve tudo o que ele nunca quis que os fãs soubessem. Fica até ao final deste vídeo, porque o que vai descobrir agora muda para sempre a forma como vê o maior artista. que este país já teve. Como é que um homem que ganhou o mundo termina os dias sozinho? Mas antes de te contar como o artista vive hoje, há uma coisa que é preciso entender, porque o auge comercial de Roberto Carlos aconteceu ao mesmo tempo que uma dura sequência de perdas atravessou a sua família. Uma

sequência que começou em 1990 dentro de um hospital do Rio de Janeiro. Nesse ano morreu Cleonice Rossi, a Nice. Tinha sido a primeira mulher dele. Casaram em 1968, tiveram dois filhos e separaram-se em 79.º Nice morreu de cancro da mama. Roberto Carlos já estava casado com outra mulher quando isso aconteceu e mesmo [música] assim acompanhou o tratamento da ex-mulher de perto até ao fim. Foi a primeira.

Nos 31 anos seguintes viriam mais quatro. Em Dezembro de 1999, faleceu Maria Rita Simões Braga, a sua terceira mulher, aos 38 anos de cancro. [música] Tinham casado na igreja 3 anos antes, na Urca, o poucos metros do prédio onde vive. [música] Em abril de 2010, faleceu a dona Laura, a mãe, a mulher da música Lady Laura. Tinha 96 anos.

Em abril de [música] 2011, morreu Ana Paula, a filha mais velha de enfarte, aos 47 anos. E aqui há um pormenor que ninguém [música] no Brasil comentou. Roberto Carlos faz anos no dia 19 de abril. A mãe morreu no dia 17, a filha no dia 16 do ano seguinte. Duas mortes na mesma semana do seu aniversário com um ano de intervalo.

E em setembro de 2021 faleceu Dudu Braga, o filho. Aos 52 anos de cancro. Três meses [música] depois, em dezembro, Roberto Carlos subiu ao palco e fez o especial de fim de ano, como faz todos os anos. Ele nunca falta. E é precisamente aí que esta história torna-se sombria, porque enquanto o O Brasil vê aquele homem a cantar sobre amor todos os meses de dezembro, [música] a vida dele do outro lado do ecrã é outra coisa.

Hoje, Roberto Carlos tem 85 anos e vive sozinho na Urca, no Rio de Janeiro, desde 1980. É viúvo há mais de 25 anos e nunca mais casou. Ele comprou [música] quase todo o prédio onde vive. Faltam dois apartamentos para ser proprietário do edifício. Um deles é o apartamento da dona Laura, onde ela viveu até aos 96 anos. Ele nunca vendeu nem alugou aquele apartamento e continua a viver um andar acima.

Toda tarde faz o mesmo percurso de 5 minutos até um palacete sem placa na fachada, onde está o seu estúdio. No terreno daquele palacete existe uma capela onde reza e um jardim que ele mandou fazer para a Maria Rita. 26 anos depois de perder Maria Rita, ele continua a trabalhar ao lado desse jardim.

Todos os dias regressa a casa por volta das 9 da noite e assiste novela. Este é o dia a dia do maior artista da música brasileira. Mas ainda há uma coisa que ele guardou durante 79 anos e que é a raiz de tudo isto. Porque em 2007 fez uma coisa que nenhum artista brasileiro tinha conseguido fazer antes. Tirou 11.000 livros das livrarias do país para que ninguém contasse a sua história.

E o que estava escrito naqueles livros começa numa manhã de 1947, quando tinha 6 anos de idade, cachoeiro de Itapmirim, no interior do Espírito [música] Santo. 29 de junho de 1947, dia de São Pedro. A cidade estava na rua desde cedo. Fogueira, bandeirinha, criança a correr solta no meio dos adultos.

Por volta das 9h30 da manhã, um menino de 6 anos estava perto da linha do comboio [música] com duas amigas a olhar a festa. Uma delas chamava-se Eunice Solino. Ela contaria esta história décadas depois ao biógrafo do cantor. O alcunha do menino na cidade era Zunga, uma professora que [música] estava pur. Perto viu que aquelas crianças tinham chegado demasiado perto dos carris e viu o que vinha pela linha, uma locomotiva a vapor carregada de minério.

A professora gritou para alertar as crianças e foi este grito que causou tudo. O menino assustou-se com o grito, tropeçou e caiu. Caiu em cima dos trilhos. A professora ainda tentou avisar o maquinista. Já era tarde. A locomotiva passou por cima da perna direita daquele menino de 6 anos. O que aconteceu nos minutos seguintes foi registado por quem lá estava.

Um grupo de homens tentou levantar-se e a locomotiva para tirar a criança de baixo. Enquanto isso, um rapaz que estava no local entendeu que aquilo ia demorar demasiado tempo. O seu nome era Renato Espíndola e Castro. Tirou o próprio palitó de linho, improvisou um torniquete na perna do menino e levou a criança para o hospital no carro dele.

Aquele torniquete de palitó é a razão pela qual Roberto Carlos chegou vivo ao hospital. Guarda o nome deste rapaz, porque o Brasil nunca soube que existiu um homem que salvou a vida do maior cantor do país num dia de festa junina. No hospital, quem atendeu o menino foi o médico Romildo Gonçalves. Anos mais tarde, este médico deu uma entrevista sobre essa manhã e contou uma coisa que ninguém consegue ouvir sem sentir um aperto.

O menino não parecia ter percebeu a gravidade do que tinha acontecido com ele. uma criança de 6 anos com a perna destruída por uma locomotiva, deitada numa mesa de hospital do interior, conversando com o médico como se estivesse tudo bem. E aí aquele médico do interior tomou uma decisão que mudou a história da música brasileira.

Ele próprio provavelmente nunca soube disso. O procedimento padrão daquela época, num caso como aquele, era amputar ao nível do joelho. Romildo Gonçalves decidiu amputar um pouco abaixo do joelho. Com isto, o menino manteve o movimento da articulação. Pensa no que esta [música] escolhe significou. Amputação. Um acima do joelho, tira a dobra da perna.

A pessoa depende de prótese muito mais limitada e a caminhada nunca se torna natural. A amputação abaixo do joelho preserva a dobra. A pessoa [música] consegue caminhar e estar de pé durante horas. Um médico do interior do Espírito Santo, em 1947, sem [música] tecnologia nenhuma, tomou uma decisão de segundos que permitiu que aquele rapaz subisse ao palco pelos 70 anos seguintes.

Mas o preço foi cobrado na infância. Roberto Carlos passou a infância de muletas. só recebeu a primeira prótese na adolescência feita por um médico alemão que era pioneiro neste tipo de recurso no país. Naquela época, a prótese era um artigo caro e raro e a tecnologia mal existia. Ou seja, entre os 6 [música] anos e a adolescência, o rapaz que ia tornar-se o rei atravessou [música] a escola e a rua de muleta na mão.

E foi neste período que tomou a decisão que atravessa este vídeo, do início ao fim, ele decidiu que nunca falaria daquilo em público e cumpriu. Em 67 anos de carreira e milhares de entrevistas, Roberto Carlos nunca deu uma declaração sobre aquela manhã. O assunto tornou-se tabu tão grande no Brasil que existe gente que até hoje duvido o que seja a verdade.

Este país conhece cada música deste homem de cor e não sabe dizer com certeza o que aconteceu à perna dele. Entretanto, dentro daquela casa no Cachoeiro, uma mulher tomava outra decisão. A Dona Laura olhou para aquele rapaz de muletas [música] e decidiu colocá-lo na música. Roberto entrou no Conservatório Musical de Cachoeiro de Itapemirim e aprendeu guitarra e piano ainda criança.

Aos 9 anos, a mãe conseguiu que ele se apresentasse num programa infantil da rádio da cidade. Ele cantou um bolero e ganhou o primeiro prémio da vida. O prémio era um punhado de doces. Três anos depois de perder parte de uma perna, aquele menino descobriu que existia um lugar onde ninguém olhava para as pernas dele em cima de um palco.

Aos 15 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro com a família, gravou o primeiro disco em 1959 e esteve anos sem emplacar nada. Cantava Bossa Nova numa época em que ninguém queria saber dele e os discos não vendiam. A reviravolta surgiu em 63, quando ele deixou a bossa nova e gravou uma versão de rock chamada Splish Splash.

Dois anos depois disso, o Brasil mudou numa noite de agosto, 22 de agosto de 1965. A TV Record anuncia a estreia de um novo programa no auditório da Rua da Consolação em São Paulo. Chamava Jovem Guarda. E há um pormenor sobre como aquele programa nasceu que quase ninguém sabe. Quem o Record chamou primeiro foi Erasmo Carlos.

E Erasmo respondeu que só toparia se a direção trouxesse consigo um amigo dele do Rio de Janeiro, um tipo calmo, mas [música] muito gira, chamado Roberto. A maior carreira da A música brasileira começou porque um amigo recusou-se a entrar sozinho. Dois ou três programas depois, o Brasil tremeu. 3 milhões de pessoas na frente da televisão em dia de programa.

Bota blusão e boneca. começaram a ser fabricadas à escala industrial com o selo da Jovem Guarda. As vendas de disco bateram o maior número já registado no Brasil desde a chegada das editoras discográficas ao país. E no final desse ano saiu a música que se tornou assinatura de tudo aquilo. Quero que vá [música] toda para o inferno.

Roberto e assinaram juntos. Virou o encerramento do programa com todos os convidados a cantar de pé. Aos 24 anos, aquele menino de cachoeiro tinha-se tornado o maior vendedor de discos do Brasil. E foi exatamente aí que começou o bombardeamento. Porque enquanto o país cantava, uma boa parte da elite cultural brasileira decidiu que aquele tudo era lixo.

A Igreja Católica classificou o I como atividade profana por causa daquela música. A crítica chamou o grupo de alienado. Estavam em plena ditadura militar e a acusação era sempre a mesma, [música] que aqueles os jovens cantavam disparates enquanto o país era torturado. E depois veio o golpe que ninguém esperava e ele veio de dentro da própria classe artística.

Em 1967, artistas da música popular brasileira organizaram uma marcha pelas ruas. uma marcha contra a guitarra elétrica. À frente daquela caminhada estava Elis Regina, cantores marchando na rua contra um instrumento musical. E o que estava por baixo daquilo era o programa que Roberto Carlos apresentava. Um rapaz de 26 anos, o maior vendedor de discos do país, tornou-se o inimigo cultural da geração dele.

Guarda essa cena porque ela explica muita coisa sobre o homem que hoje, aos 85 anos, escolhe a dedo cada palavra que sai sobre ele. E o que ele fez logo a seguir é a primeira peça desse puzzle. Roberto Carlos tornou-se cada vez mais religioso ao longo dos anos. tornou-se católico praticante dos de missa e oração diária. E continua assim até hoje.

Ele tem uma capela no terreno do seu atelier e por causa desta aproximação com o catolicismo, ele proibiu a própria música no seu repertório. Quero que vá tudo para o inferno. saiu dos concertos de Roberto Carlos, o maior sucesso da carreira dele e a música que colocou 3 milhões de brasileiros na frente da televisão. Ele tirou do próprio espetáculo.

Presta atenção a isso, porque é o padrão que atravessa a vida deste homem do princípio ao fim. A primeira coisa que [música] Roberto Carlos apagou da história dele foi uma música dele próprio. E fê-lo 40 anos antes de tirar 11.000 1 livros das livrarias do Brasil. Este homem edita a própria vida desde os anos 60 e quase ninguém deu por isso.

Décadas mais tarde, a mesma classe artística que marchou contra ele mudou de opinião. Caetano Veloso, um dos maiores nomes da música brasileira, chegou a dizer que [música] quero que vá tudo para o inferno, fez mais pelo país do que qualquer canção de protesto dessa época. Só que quando esse reconhecimento chegou, a canção já tinha saído do seu repertório e não voltou.

Enquanto isso, a vida daquele rapaz mudava [música] de tamanho. Em 1968, aos 27 anos, Roberto Carlos casou com Cleonice Rosse. A Nice. Ela já era mãe de uma menina, Ana Paula, que ele assumiu e criou como filha desde os 3 anos de idade dela. Depois vieram o Dudu e Luciana. Guarda estes três nomes, porque dois deles vão estar enterrados antes do Pai.

Mas antes de isso acontecer, aquele rapaz que mandava tudo para o inferno ia tornar-se uma coisa completamente diferente. Nos anos 70, aquele rapaz que gritava contra [a música] tudo se tornou outra coisa. Saiu o blusão de cabedal, entrou o fato em 1971, ele lançou pormenores e a partir daí o O Brasil deixou de ver Roberto Carlos como roqueiro.

Ele tornou-se o cantor que embalava o casamento e a separação de milhões de casais brasileiros. Em 1974 começou uma coisa que dura até hoje, o especial de fim de ano na Rede Globo, todos os meses de dezembro, há mais de 50 anos, aquele homem entra na casa do brasileiro na semana do Natal. [música] É o programa mais longevo da televisão brasileira com um só artista.

E em mais de 50 anos, faltou uma vez, uma única vez. [música] Vais entender o motivo daqui a pouco. Mas enquanto o O Brasil via aquele homem a cantar sobre amor uma vez por ano, a sua vida dentro de casa [música] era outra história. E existe um filho de Roberto Carlos, que o país só soube que existia quase 30 anos depois de ele nascer.

O nome dele é Rafael Braga. O Rafael é o primogénito. Veio de um relacionamento rápido com uma mulher chamada Maria Lucila Torres [música] e só foi reconhecido pelo pai nos anos 90 depois de um teste de ADN. Pensa nessa conta. O maior cantor do Brasil tinha um filho mais velho que os outros três.

E este filho passou quase [música] três décadas sem ter o nome do pai reconhecido. Guarda também esse nome, porque daqui a pouco vai entender porque esta história nunca virou manchete no Brasil. Em 1979, após 11 anos de casamento, Roberto e Nice separaram-se. No ano seguinte, começou a viver com a atriz Miriam Ross. Estiveram juntos 10 anos.

E o motivo do fim daquela relação por ela contado mesma anos depois é uma das coisas mais duras desta história. Miriam Ros contou que a relação terminou quando ela descobriu que Roberto Carlos tinha feito vaseectomia. Ela queria ter filhos e descobriu, depois de 10 anos de convivência, [música] que ele não podia dar-lhe isso.

Ela publicou isto em dois livros e voltou a falar sobre o assunto numa entrevista em 2022. Um homem que já tinha quatro filhos e que ia perder dois deles, tinha decidido em algum momento da vida que já não teria nenhum. E aí chegou 1990. Foi o ano em que Nice morreu vítima de cancro no Rio de Janeiro. E foi também o ano em que a sua vida amorosa recomeçou num espectáculo no interior de São Paulo.

Ninguém no Brasil liga [pigarreando] uma coisa à outra. Em 1990, num concerto em Campos do Jordão, Roberto Carlos reencontrou uma mulher chamada Maria Rita Simões. Os dois já se conheciam de anos antes. Ela tinha sido colega de escola de Ana Paula, a filha mais velha dele. Naquele reencontro, os dois iniciaram um romance.

Em 1991 já estavam a viver juntos. E em 8 de Abril de 1996, casaram na Igreja Nossa Senhora do Brasil, na Urca, numa cerimónia pequena e sem alaridos. Ela foi a única das mulheres da sua vida com quem Roberto Carlos casou pela igreja. E aquela igreja fica a poucos metros do edifício onde vive até hoje.

Ou seja, todo o dia da sua vida, ao sair de casa, este homem passa em frente da igreja, onde casou com a mulher, que ele próprio chamou o grande amor da sua vida. Eles não tiveram filhos e o casamento durou 3 anos, porque no terceiro ano de casamento aquela mulher recebeu-lhe um diagnóstico e o que veio depois é o início do homem que existe hoje, 1998.

Maria Rita descobriu um cancro na região pélvica. Tinha 37 anos e era pedagoga. Fazia dois anos que estava casada com ele. O tratamento funcionou durante algum tempo e a família chegou a se acreditar que tinha passado. Alguns meses depois, o cancro voltou e voltou agressivo. Roberto Carlos parou tudo. Passou a fazer vigília no hospital Albert Einstein em São Paulo e não saiu de perto da mulher.

Era a segunda vez que aquele homem fazia vigília naquele mesmo hospital. anos antes, tinha feito igual por Nice. 19 de dezembro de 1999, Maria Rita morreu com 38 anos, segurando a mão do marido. Foi sepultada no dia seguinte no cemitério da aclimação em São Paulo. E depois veio a única falta em 50 anos.

Pela primeira vez em 25 anos, Roberto Carlos suspendeu o especial de fim de ano da Rede Globo. O programa de Dezembro de 1999 não existiu e também não registou o disco desse ano. A Sony teve de lançar uma coletânea de êxitos antigos no local para não deixar a data em branco. Tem atenção ao tamanho disso. Aquele homem entrou na casa do brasileiro todos os dezembro por 25 anos sem falhar uma vez.

E nas décadas seguintes enterraria a mãe e os dois filhos e apareceria no ecrã em todos esses anos. Também existe uma única mulher no mundo capaz de tirar Roberto Carlos da televisão brasileira no Natal e foi ela. Depois disso veio o desaparecimento. 11 meses sem palco e sem disco. O maior artista do país desapareceu da vida pública e ninguém sabia se ele ia voltar.

Ele regressou em Novembro de 2000 e a forma como ele voltou é a coisa mais devastadora desta história. O lugar escolhido [música] foi o ginásio Geraldão no Recife, multidão à porta, coletiva [música] de imprensa antes do concerto. E naquela conferência de imprensa em frente dos jornalistas, ele disse uma frase, deu um longo suspiro e desabou em choro.

Ele [música] disse que a sua vida era dura porque tinha que enfrentar tudo aquilo sem a presença física da pessoa que amava. Depois, agradeceu ao público pelo colo e pela força, [música] ainda com a voio embargada. Mas o que ele fez em cima do palco nessa digressão é de outra ordem. Durante o concerto, fotos de Maria Rita eram exibidas num ecrã atrás dele e Roberto Carlos falava dela no tempo presente, como se os dois tivessem conversado naquela tarde.

Ele contava ao público que [música] ela tinha dado palpites no figurino dele, que tinha opinado sobre o penteado diante de um ginásio lotado quase um ano depois do funeral. Esse é o mesmo homem que hoje, aos 85 anos, trabalha todos os dias ao lado de um jardim que ele lhe mandou fazer. O disco dessa volta chamava-se Amor sem limite.

A faixa que dá nome ao álbum [a música] foi escrita para ela e ele adiou a entrega do trabalho por três vezes. A editora teve que montar um esquema para garantir que os discos chegavam às lojas no dia 18 de Dezembro de 2000. Um homem que gravava um disco por ano, há quatro décadas não conseguia terminar aquele. E nesse mesmo ano ele rompeu com a editora que estava com tinha 39 anos.

Cortou tudo o que dava para cortar. E em 2003 lançou uma música chamada Acróstico. Acróstico é um poema em que as primeiras letras de cada verso formam uma palavra escondida. Nesta canção, as iniciais dos versos formam a frase Maria Rita, meu amor, 4 anos depois do enterro. Milhões de brasileiros cantaram aquela canção no rádio sem fazer ideia do que estava escrito na vertical.

Esse homem escondeu o nome da mulher morta dentro de uma canção de sucesso e deixou o Brasil cantar aquilo durante 23 anos sem se aperceber. [música] Guarda isso. Porque 3 anos depois do acróstico, ia fazer uma coisa muito maior para controlar o que o O Brasil [música] sabia da vida dele. 2 de Dezembro de 2006. Chega às livrarias do Brasil [música] um livro de 502 páginas.

O título é Roberto Carlos em Detalhes. O autor chama Paulo César de Araújo, historiador formado pela Universidade Federal Fluminense e jornalista formado pela PUC do Rio. E o que estava dentro daquele livro demorou 16 anos para ser reunido. 16 anos de inquérito, cerca de 200 pessoas entrevistadas, pessoas que acompanharam aquele artista de cachoeiro de Itapemirim até ao topo.

Era o trabalho de vida de um investigador e não uma recolha de mexericos montada em 3 meses e o público apressou-se a comprar. Em muito pouco tempo, 22.000 exemplares saíram das prateleiras. O livro estava havia oito dias nas lojas quando tudo mudou. 10 de dezembro de 2006, Roberto Carlos recorreu à justiça com duas ações, uma contra a editora Planeta e outra contra o autor do livro.

No fim de Fevereiro de 2007, a justiça mandou tirar o livro das lojas, mas o golpe de verdade veio dois meses depois no Fórum Criminal da Barra Funda em São Paulo, 27 de Abril de 2007. Depois de uma audiência longa, saiu a decisão. Recolha de todos os exemplares. 11.000 livros retirados de circulação no Brasil.

Pensa no que isso significa na prática. Camião indo de livraria em livraria, estante a ser esvaziada num país de 200 milhões de pessoas. E teve multa. Qualquer loja que deixasse aquele livro na vitrina pagaria R$ 5.000 por dia e o autor pagaria 500.000$ pela simples circulação da obra. R$ 500.000 para um professor de de história. Guarda este número porque abriu no Brasil é uma época de medo que durou 8 anos dentro das editoras.

E é aqui que a história sai da vida de um homem e entra na vida do país. Porque aquele caso ele tornou-se o exemplo mais citado do Brasil sobre biografia não autorizada. Editora ficou com medo e o Livro Pronto ficou na gaveta. Em 2013, um grupo de artistas tornou-se organizou para defender a exigência de autorização prévia.

Roberto Carlos estava entre eles, ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento e de Javan. O grupo chamava-se Procure Saber. Acabou por sair do grupo por divergências e criou um instituto próprio para defender a sua posição. E aí a coisa chegou ao lugar mais alto do país. E o que ali se passou é uma das maiores ironias da história cultural brasileira.

10 de junho de 2015, Supremo Tribunal Federal. O plenário julgou biografia não autorizada necessita de permissão do biografado para ser publicada. A decisão foi nove votos a zero. Os ministros derrubaram a exigência de autorização prévia e classificaram aquilo como censura. Durante o julgamento, o advogado do cantor comparou biografias não autorizadas a um crime sexual violento.

A escolha de palavras teve repercussões no país quase tanto como a própria decisão. O ministro Luís Roberto Barroso citou outros livros que tinham sido barrados no Brasil pelo mesmo motivo. Entre eles, a biografia de Garrincha, escrita por Rui Castro, junta agora as peças. A ação que Roberto Carlos moveu para impedir a própria biografia [música] acabou por gerar a decisão que libertou todas as biografias do Brasil, 9 a 0 contra ele.

O próprio autor do livro resumiu isso depois, disse que foi uma grande vitória e que sem o seu livro aquele julgamento não teria acontecido. Uma atitude radical acabou por alterar a lei do país no sentido oposto ao que [música] ela pretendia. E tem uma frase deste historiador sobre Roberto Carlos, que é a coisa mais triste desta história toda.

Contou anos depois que Roberto acha que ele é um inimigo e completou dizendo que, na verdade, é um dos milhões de amigos que aquele homem desejou ter. Em 2021, o mesmo autor publicou um novo livro sobre Roberto Carlos. 105 páginas. O livro voltou. Só que o homem que passou 16 anos pesquisando aquela vida e o homem que viveu aquela vida nunca se falaram.

Enquanto esta briga toda corria nos tribunais, começava para Roberto Carlos a década mais dura da sua vida. Voltamos a abril [música] de 2010. 17 de Abril de 2010, dona Laura Moreira Braga faleceu aos 96 anos no Rio de Janeiro. A mulher que pôs aquele menino de canadianas dentro de um conservatório de música em Cachoeiro.

Faltavam dois dias para o filho completar 69 anos. O enterro foi no cemitério do Jardim da Saudade em Sulacap, na zona oeste do Rio. E ali aconteceu uma cena que quem esteve presente nunca esqueceu. Do lado [música] dele estavam Vanderlea, Erasmo Carlos, Rosemary e Jerry Adriane. A turma da Jovem Guarda, 45 anos depois, junto a um túmulo, Roberto Carlos começou a cantar Lady Laura na Beira da Cova, a música que [música] ele escreveu para aquela mulher em 1978.

É uma canção em que um homem adulto diz que por vezes tem vontade de voltar a ser menino para poder gritar por ela na hora do desespero. [música] Ele cantou aquilo com 69 anos, com a mãe dentro do caixão. E o Brasil não fazia ideia de que aquilo era só o início. Um ano depois, quase no mesmo dia, aconteceu de [música] novo 16 de Abril de 2011.

Ana Paula Rossi, Braga, morreu de ataque cardíaco aos 47 anos, três dias antes do 70º aniversário anos do pai. E há uma coisa sobre esta filha que altera o tamanho dessa perda. Ana Paula não era filha biológica de Roberto Carlos. Era já filha de Nice quando os dois se casaram. E ele assumiu aquela menina como filha quando ela tinha 3 anos de idade, criou [música] como filha e sepultada como filha.

Em dois abris consecutivos, aquele homem foi de um enterro para o próprio aniversário e o pior ainda estava a 10 anos de distância. Setembro de 2021, Dudu Braga morreu aos 52 anos. Ele era produtor musical, trabalhou ao lado do pai desde jovem e estava em tratamento contra um cancro no peritoneu. Mas tem uma coisa que o Dudu fez em vida e que faz dele a única pessoa daquela família a tocar naquele assunto em público.

Em 2018, Dudu Braga deu uma declaração sobre o silêncio do pai a propósito da perna. Ele disse que respeitava a posição do pai e lembrou que Roberto Carlos esteve sempre ligado a causas sociais e humanitárias. Foi o mais próximo que a família chegou de comentar aquele assunto em 79 anos e veio da boca de um filho que viria a falecer 3 anos depois, três meses depois de enterrar esse filho.

Em Dezembro de [música] 2021, Roberto O Carlos gravou o especial de fim de ano. Foi gravado sem público, ainda por causa da pandemia. E fez uma homenagem ao Dudu em frente às câmaras, um pai de 80 anos a falar do filho morto em palco para o Brasil trs meses depois do enterro. E ainda faltava a última despedida, a mais antiga de todas.

Novembro de [música] 2022 morreu Erasmo Carlos e agora recorda de quem era este homem nesta história. Erasmo foi o homem que se recusou a entrar sozinho no auditório do Record em 65.º Os dois assinaram juntos algumas das canções mais cantadas da história do Brasil e foram parceiros durante mais de 60 anos.

estavam juntos no dia em que a Estreou-se a Jovem Guarda e estiveram juntos na beira da sepultura da dona Laura em 2010. O homem que se recusou a entrar sozinho naquele auditório [música] em 65 deixou o Roberto Carlos sozinho em palco em 2022. Faz a conta do que [música] este homem enterrou. A mãe, duas mulheres, dois filhos e o amigo de 60 anos.

Tudo isto enquanto continuava a entrar na casa do brasileiro todo o [música] mês de dezembro. E há um lugar onde este homem se esconde uma vez por ano, que explica tudo o que ouviu até agora. Fica no meio do oceano. Todos os anos Roberto O Carlos faz uma coisa que mais nenhum artista brasileiro faz.

Ele aluga um navio. É o projeto Além do Horizonte, um transatlântico que sai da costa brasileira lotado de fãs que pagaram para passar dias no mesmo barco que ele. Espetáculo todas as noites e o sonho de qualquer pessoa que tenha crescido a ouvir aquele homem. E há um pormenor sobre onde Roberto Carlos dorme dentro deste navio que resume [música] tudo o que ouviu até agora.

A cabine dele está escondida atrás de uma parede falsa e ninguém a bordo sabe ao certo em que piso do navio ele se encontra. Pensa nessa imagem. Um homem no meio do oceano, rodeado por milhares de pessoas, que pagaram precisamente para chegar perto dele, a dormir atrás de uma parede que não aparece na planta do navio.

Aos 85 anos, este homem ainda está a construir parede agora até dentro do mar. Na Urca é a mesma coisa. Fã e turistas sobem até a rua do seu prédio na esperança de ver aquele homem na varanda. As aparições são raras, mas há outra coisa a acontecer naquele bairro que quase ninguém conta e ela muda a leitura de tudo.

Roberto Carlos comprou uma casa na Urca para o seu motorista e deu uma casa no mesmo bairro para a governanta que trabalha com ele. Ele não colocou aquelas pessoas para viverem longe. Colocou dentro do mesmo bairro, a poucas ruas de distância. E há uma coisa que ele faz todos os meses de dezembro depois de gravar o especial para o Brasil, Roberto Carlos passa o Natal com os funcionários dele.

Depois de tudo o que enterrou, a sua ceia é montada com o motorista, o governanta e a equipa que trabalha com ele. Esta são as pessoas que sobraram e ele comprou casa para elas ficarem perto. E há uma coisa que aconteceu em abril desse ano, que fecha esta história de uma maneira que ninguém no [música] Brasil comentou. 19 de abril de 2026.

Roberto Carlos completou [música] 85 anos e ele optou por passar esse aniversário em Cachoeiro de Itapemirim, a [música] cidade onde nasceu, a cidade onde perdeu a parte da perna aos 6 anos de idade. O concerto foi no Parque de [música] Exposição Carlos Caiado, Barbosa, no bairro do Aeroporto, para mais de 7.000 pessoas.

Ele abriu cantando Emoções. Disse ao público que Cachoeiro é a cidade mais bonita do mundo. Cortou o bolo de aniversário em cima do palco, à frente de toda a gente, e distribuiu rosas aos fãs, como faz desde sempre. Mas presta atenção a duas músicas que cantou nessa noite. Ele cantou [música] Lady Laura, a música da mãe na cidade onde a mãe criou aquele [música] menino de muletas e cantou o meu pequeno cachoeiro.

Uma declaração de amor à cidade onde aconteceu a pior manhã da vida dele. Agora olha outra vez para a data, porque é aqui que dói. 19 de abril. [música] A mãe morreu num dia 17 de abril. A filha morreu num dia 16 de abril, ou seja, naquela noite em Cachoeiro, Roberto Carlos estava em cima de um palco [música] a cortar bolo de aniversário dois dias depois do aniversário da morte da mãe e três dias depois do da filha. 7.

000 pessoas cantando os parabéns a um homem que tinha acabado de atravessar as duas datas mais duras [música] do calendário dele. E o nome da digressão que ele está levando pelo Brasil agora é Eu Ofereço Flores. Um homem de [música] 85 anos, viúvo, oferecendo flores ao país numa digressão que passa pela Praia Grande, São Luís e mais uma dezena de cidades.

E tem ainda um último pormenor e ele é o mais irónico desta história toda. Lembra do primeiro prémio da sua vida aos 9 anos na rádio de Cachoeiro, O punhado de Doces. Essa lembrança existe registada porque Roberto Carlos contou ela ao biógrafo em [música] entrevista quando ainda conversava com aquele homem.

E ela está impressa dentro do livro que ele retirou das livrarias do Brasil. Pensa no tamanho disso. A memória mais doce da infância deste homem, a do menino nervoso e feliz por poder [música] cantar na rádio da sua cidade, sobrevive dentro das páginas que ele mandou recolher para apagar a versão dos outros, teve de apagar a sua junto.

Há uma frase [música] que a gente repete no Brasil sem pensar, a de que a fama é a solidão. Só que o caso deste homem mostra outra coisa. [música] O que esvaziou a vida deste homem foram as pessoas a irem embora, uma atrás da outra, num intervalo de 31 anos enquanto ele ficava. É o que acontece a quem chega aos 85.

Sobrevive-se a todo o mundo. E a parte cruel vem depois da perda, quando precisa de subir ao palco e cantar sobre o amor mesmo assim. Toda a terceira semana de dezembro, este homem entra na sala da sua casa pela televisão. Ele canta sobre o encontro e sobre a saudade. E milhões de brasileiros cantam junto, sem se lembrarem que aquele senhor de fato acabou de sair de um apartamento onde não está mais ninguém.

Agora pensa no que ele passou a vida escondendo. Uma perna, uma coisa que não é crime nem vergonha. é o resultado de um acidente com uma criança de 6 anos numa manhã de festa junina. Esse homem passou 79 anos, gastou processo advogado e 11.000 livros para proteger uma informação que não o desabonava em nada.

E é aí que esta história deixa de ser sobre ele e passa a ser sobre a gente. Porque toda a gente tem uma coisa assim, uma pergunta que ninguém faz no almoço de domingo. Uma parte da história que ficou combinada, sem que ninguém combinar nada, que não se toca. E o mais estranho é que quase sempre aquilo que a gente esconde com tanta força é apenas uma coisa dorida.

A gente esconde o que dói e chama-lhe vergonha para não ter de explicar. E depois acontece o que aconteceu com Roberto Carlos. Ele protegeu aquela informação toda a vida e o resultado foi o país a falar disso [música] do mesmo jeito. Os 11.000 livros não impediram a história de ser contada, só impediram que ela fosse contada com a versão dele dentro.

O que conseguiu guardar no fim foi apenas o silêncio. Aos 85 anos, aquele rapaz que caiu na linha do comboio em Cachoeiro de Itapemirim ainda acorda ao fim da manhã, atravessa 5 minutos de calçada na urca e vai trabalhar. Ele continua a compor, continua a gravar e continua a encher casa de show. é o maior cantor que este país já produziu e ainda está de pé.

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Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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