A Trágica História de Odete Lara: A Musa Que Perdeu Quem Mais Amava e Abandonou os Holofotes – H
Numa casa simples de São Paulo, um menina de 6 anos acorda numa manhã que vai dividir a sua vida num antes e num depois. A mãe Virgínia já não está lá, tirou a sua própria vida e não existe registo de uma explicação clara, apenas o facto bruto, sem aviso, sem despedida. Uma criança de 6 anos, subitamente sem mãe.
Esta menina chamava-se Odet Bertolucci. Tinha nascido a 17 de abril de 1929, filha única de imigrantes italianos vindos de Beluno, no norte de Itália. O pai veio para o Brasil atrás de uma vida melhor. Depois da morte de Virgínia, Odet foi enviada para um orfanato dirigido por freiras e mais tarde uma madrinha assumiu a sua guarda.
A rotina de uma criança comum, a escola, as brincadeiras, uma casa fixa, tornou-se uma sequência de moradas e de adultos diferentes cuidando dela. Giuseppe continuava por perto, mas cada vez mais distante. Ele enfrentava a tuberculose, doença que na época exigia isolamento para não contaminar quem estivesse à volta. Mesmo assim, era dele que Odet mais se aproximava, a única referência afetiva que lhe restava num mundo que já tinha lhe tirado a mãe.
E depois, 12 anos depois, quando Odetos, a tragédia bateu com a porta pela segunda vez. Giuseppe também tirou a sua própria vida. Por duas vezes, com pouco mais de uma década de intervalo, a mesma família foi arrasada pela mesma dor. Odet viu-se órfã de pai e mãe, sem irmãos, sem rede familiar, necessitando de fazer sozinha aos 18 anos o que a maioria das pessoas dessa idade nem começa a considerar.
Sustentar a própria vida sem herança, sem apelido de peso, sem ninguém abrindo portas. Foi assim que ela conseguiu o seu primeiro emprego como secretária e dactilógrafa, uma rotina cinzento, distante de qualquer palco ou câmara. Ninguém, olhando para aquela jovem a bater com a máquina num escritório qualquer, imaginaria que ali estava o início de uma das trajetórias mais marcantes do cinema brasileiro.
A viragem começou de uma forma quase acidental. Uma amiga sugeriu que Odet fizesse um curso de modelo no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Ela aceitou e acabou participando num dos primeiros desfiles de moda organizados no Brasil. Realizado ali mesmo no museu, um evento pioneiro, num país onde a própria ideia de moda como espetáculo ainda gatinhava.
A jovem que até pouco antes dactilografava documentos, agora desfilava perante uma plateia que avaliava a beleza e a presença. Aqueles anos de orfanato e depois de casa da madrinha não deixaram muitos registos. Não existem fotos de infância largamente divulgadas, nem entrevistas em que Odet tenha descrito em pormenor o dia a dia daquele período.

O que se sabe é o contorno. Uma criança a ser criada por freiras que não eram da sua família. depois por uma madrinha que também não era, enquanto o único adulto que ela reconhecia como seu, o pai definhava isolado por causa de uma doença que na época não tinha cura garantida. Não é difícil imaginar o que isto ensina a uma criança sobre o mundo, que as pessoas que ama podem ser-lhe tiradas sem aviso e que a única coisa em que se pode confiar no fim é na própria capacidade de continuar.
Foi com esta lição já absorvida, ainda que nunca dita em voz alta, que a jovem dactilógrafa aceitou o convite da amiga para o curso de modelo. Foi aí que a sua imagem chamou a atenção de Otomar dos Santos, que a indicou para a TV Tupi, uma estação recém- inaugurada, e que naquele momento estava literalmente inventando o que a televisão brasileira viria a ser.
Odet começou pequeno como garota-propaganda, função modesta, mas que representava a porta de entrada para quem queria construir carreira diante das câmaras. Não ficaria ali muito tempo. Em 1954, estreou-se como atriz de teleteatro em Luz de Gás, contracenando com Tônia Carreiro e Paulo Altran, dois nomes que já eram referência absoluta na cena brasileira.
Para uma jovem sem tradição familiar no meio artístico, partilhar cena com eles era, ao mesmo tempo, uma oportunidade rara e uma prova de que o seu talento não era acidente. Pouco depois, tornou-se rosto conhecido do programa TV de Vanguarda, espaço que ficaria no ar durante mais de uma década, ajudando a moldar o teleteatro brasileiro.
Era uma época em que a televisão brasileira ainda ia toda em direto, sem edição, sem segunda oportunidade, um elenco a decorar cenas inteiras de peças clássicas e interpretando-as perante câmaras pesadas, sabendo que qualquer erro entraria diretamente na casa dos telespectadores. Para uma atriz que tinha aprendido desde os 18 anos a desenrascarem-se sem rede de segurança, aquele ambiente de tensão permanente não era um obstáculo.
de certa forma, terreno conhecido. O percurso da máquina de escrever até aos plateau de televisão tinha sido percorrido em poucos anos, mas aquilo ainda era só o começo. Na década de 1960, o Brasil vivia uma revolução silenciosa nas telas. Um grupo de diretores decidiu abandonar os padrões de Hollywood e mostrar o país como ele realmente era, filmar com pouco dinheiro em locações reais, em vez de estúdios iluminados.
Ficou conhecido como cinema Novo e no centro desta revolução estava o rosto de Odet Lara. Ela tinha estreado no cinema em 1956 em O Gato de Madame, ao lado de Mazarope, mas foi em 1963, em Boca de Ouro, adaptação de Nelson Pereira dos Santos para o texto de Nelson Rodrigues, que a sua carreira ganhou outra dimensão.
O papel exigia uma atriz capaz de sustentar, na mesma cena, sedução e desespero, alternando entre o glamor de uma mulher cobiçada e o desamparo de alguém encurralada pelas próprias escolhas. Foi essa capacidade que fez com que a crítica da época deixasse de tratá-la apenas como musa e passar a reconhecê-la como atriz de facto.
Vieram depois bonitinha, mas ordinária e a rainha de Aba, consolidando a sua fama como uma das intérpretes mais intensas e ousadas do país. Em 1972, em O Jogo da Vida e da Morte, ela viveu Girtrudes, um dos papéis que mais marcariam a sua trajetória. A imprensa da época chegou a apelidá-la de Deusa loira, do cinema brasileiro.
Em 1957, recebeu o prémio Sassi, um dos primeiros grandes reconhecimentos da sua carreira, e pelo menos dois dos seus filmes chegariam a ser exibidos no Festival de Cany, prova de que aquele cinema feito com pouco dinheiro e muita convicção estava sendo notado do outro lado do Atlântico. Já não era só uma atriz contratada, era um dos rostos que provavam que o Brasil tinha as suas próprias estrelas sem ter de copiar Hollywood.
Não era apenas atriz, também cantava. e a sua voz apareceu em produções como António das Mortes, de 1969, no clássico Carinhoso, formou uma parceria com Vinícius de Morais no espetáculo musical Skin, que resultou num disco e depois gravaria também ao lado de Sérgio Mendes e de Chico Buarkque. Nos estúdios e nos palcos de espectáculos, ela circulava entre os nomes que nesses mesmos anos estavam a inventar a bossa nova e a MPB moderna.
Noites de ensaio que se estendiam de madrugada, rodas de guitarra que misturavam música e discussão política, o tipo de ambiente onde a arte e a engajamento não eram coisas separadas. Partilhar palco e estúdio com estes nomes colocava Odet num círculo cultural que estava ali a redefinir a identidade artística do Brasil.
Ela já não era só presença em produções alheias, era protagonista de um movimento e que movimento tinha um preço. Em 1964, o Brasil mergulhou numa ditadura militar. Enquanto muitos artistas escolheram o silêncio para se protegerem, Odet integrou o grupo Opinião, coletivo carioca, que se tornaria um dos principais focos de resistência cultural ao regime.
Nos palcos, participou em montagens que desafiavam a censura. Fora deles esteve marchas e assembleias. O grupo Opinião tinha este nome por causa de um espectáculo de revista montado em 1964, que reunia música e testemunhos de artistas populares como forma de resistência cultural logo nos primeiros meses da ditadura. Era teatro feito quase na cara dos sensores.
Um espetáculo podia estrear numa noite e ser interditado na seguinte. Um ator podia sair do palco e encontrar um agente da polícia política à espera na saída do teatro. Havia informantes infiltrados em plateia, guiões que precisavam de ser reescritos à pressa para escapar à censura prévia. Colegas que desapareciam de cena por semana sem explicação e todos sabiam o motivo, mesmo sem o dizer em voz alta.
Uma cena resume bem o tom daquela época. Durante a apresentação da peça Electra em São Paulo, os agentes da repressão foram ao teatro atrás do autor da obra, acusado de subversão. Perante a pergunta sobre quem era o responsável pelo texto, a resposta foi que se tratava de Sófocles, dramaturgo grego, morto há mais de 2000 anos.
Questionada sobre onde ele vivia, disse que não podia informar o endereço. Questionada se estava a sonar dados, respondeu que não, uma vez que Sófocles simplesmente já não estava vivo para ser encontrado. O episódio circulava como símbolo do absurdo da vigilância da época e do tipo de coragem misturada a ironia que definia aquela geração de artistas.
Gente que respondia ao medo com humor, porque era a única arma que sobrava. Foi nesse mesmo ambiente de teatro engajado, censura e militância que Odet conheceu Viana Filho, o Vianinha, um dos nomes mais importantes do teatro de arena e fundador, ao lado de outros artistas do próprio grupo Opinião. Eles casaram e pela primeira vez desde a infância despedaçada, Odet parecia ter encontrado não só um parceiro, mas alguém que partilhava com ela a mesma visão do mundo, o mesmo compromisso com um teatro que confrontava a ditadura em vez de se
esconder dela. Não era um casamento de bastidores discretos, era vida e trabalho misturados o tempo todo. Ensaios que se transformavam em reuniões políticas, reuniões políticas que se transformavam em ensaios. Amigos em comum como Chico Buarque e Vinícius de Morais a passar pela casa. Vianinha vinha de uma família de teatro, filho do também ator e encenador Odvaldo Viana, e tinha entrado em cena ainda adolescente em 1955, antes de se tornar um dos autores mais respeitados da sua geração.
para Odet, que tinha construído toda a vida sozinha, sem herança e sem rede de apoio, aquele círculo de amigos, ideias e causas em comum deve ter parecido, finalmente alguma coisa parecida com um chão firme. A carreira de Vianinha, nesses anos ia de um pico para outro. Em 1973, criou e dirigiu na Rede Globo a série A Grande Família, um sucesso de público.
Ao mesmo tempo, escrevia a obra que seria considerado o seu texto mais ambicioso: Rasga coração, um retrato das lutas políticas brasileiras através da vida de um militante comunista anónimo, escrito entre 1971 e 1974. Era, para muitos críticos, o trabalho que o consagraria como o mais importante dramaturgo da sua geração. Foi durante este processo de escrita que Vianinha recebeu o diagnóstico de cancro do pulmão.
Esteve 17 meses em tratamento sem deixar de trabalhar, sem deixar de escrever, como se terminar aquele texto fosse mais urgente do que a própria doença. escreveu partes inteiras da peça entre sessões de tratamento, revendo cenas de hospital, recusando-se a deixar o cancro decidir por ele quando a obra estaria pronta.
Terminou o último ato de rasga coração já hospitalizado em estado terminal, poucos dias antes de morrer, em 16 de julho de 1974. Tinha 38 anos. A peça que deveria consagrá-lo em vida enfrentaria ainda a censura federal durante 5 anos antes de para poder estrear, em 1979, libertada tarde demais para que ele a visse encenada, tarde demais para que qualquer aplauso lhe chegasse.
Mais uma vez, a morte tirava a Odete, alguém que ela amava. Desta vez não em segredo, longe dos holofotes, como acontecera na infância, mas perante um país inteiro que acompanhava o luto pela perda precoce de um dos grandes nomes da cultura brasileira. Odet ficou viúva aos 45 anos, numa altura em que a ditadura apertava ainda mais o cerco sobre o teatro e o cinema.
Colegas do grupo Opinião viram peças invadidas, produções interrompidas. Alguns chegaram a ser exilados. O espaço para o tipo de arte engajada que a havia consagrado começava a fechar-se ao seu redor, ao mesmo tempo em que ela enterrava o homem com quem tinha imaginado construir uma vida. Nos anos seguintes, Odet envolveu-se com o autor Euclides Marinho.
Ele ainda não era o nome que se tornaria décadas depois, quando assinaria miniséries de grande impacto na televisão brasileira. Na altura em que esteve com Odet, era apenas mais um escritor construindo carreira, como ela própria tinha construído a sua, sem herança nem apadrinhamento. Depois veio o casamento com o realizador António Carlos Fontoura, com quem Odet dividia também o universo do cinema.

Ele estava do lado de trás das câmaras enquanto ela seguia diante deles, os dois circulando pelo mesmo meio, pelos mesmos festivais, pelas mesmas rodas de conversa sobre o futuro do cinema brasileiro. Nenhuma das duas uniões se sustentou. Os detalhes de cada separação não ficaram registados com precisão pela imprensa da época.
Odet nunca transformou este em material de entrevista descartável, mas o padrão é visível do exterior. Depois de perder vianinha para uma doença que nenhum dos dois escolheu, ela seguiu tentando construir um porto fixo com homens que desta vez a vida não lhe tirou. Foram eles ou ela ou simplesmente o tempo que decidiram que aquele porto não seria ali.
E de todo o modo o resultado se repetia. Mais uma despedida, mais um recomeço sozinha. Havia algo de irónico nisso tudo. A mulher que partilhava ecrãs com os maiores nomes do cinema nacional, que discutia arte e política com intelectuais como Vinícius de Morais, que tinha sido casada com um dos dramaturgos mais respeitados do país, não conseguia manter ao seu lado de forma duradoura, nenhum dos homens com quem se envolveu depois.
A vida pública seguia intensa, a vida privada repetidamente desmoronava. Ao longo dos anos 70, o ritmo da A carreira de Odet começou a mudar. Ainda atuava, ainda era procurada. Mas o brilho absoluto do auge, aquele período em que cada filme parecia redefinir o cinema brasileiro, já não se repetia com a mesma intensidade.
Era uma transição subtil, quase impercetível de fora. Menos papéis centrais, menos produções revolucionárias, mais silêncio entre um trabalho e outro. Por trás das câmaras, algo mais profundo se movia. Depois de décadas sobre os holofotes, depois de enterrar os dois pais na juventude e o marido na vida adulta, Odet começou a aproximar de um caminho que pouco tinha a ver com a fama, o budismo.
Não foi uma conversão súbita anunciada em manchetes, foi um processo silencioso, quase paralelo à vida pública que ela ainda mantinha. No final da década de 1970, ela tomou uma decisão que surpreendeu quem a observava de fora, para terminar aquela fase da carreira no cinema. O seu último trabalho no grande ecrã daquele período foi o Princípio do Prazer, realizado por Luís Carlos Lacerda.
Não houve anúncio grandioso, nenhuma despedida cheia de holofotes. Ela simplesmente parou. Pouco depois, formalizou o que já vinha amadurecendo por dentro há anos. converteu-se ao budismo, abandonou o circuito de estreias e vida social intensa que a tinha definido durante tanto tempo, e se mudou-se para a região serrana do Rio de Janeiro, para um sítio na serra.
Trocou os setes de filmagem por uma vida de reclusão e passou a traduzir obras sobre o budismo para o português. É difícil imaginar uma maior distância do que esta, da mulher fotografada em capas de revista, rodeado de diretores e produtores, para uma casa isolada nas montanhas, com rotina de meditação, silêncio e tradução de textos religiosos.
Não havia ali câmaras, não havia público, não havia ninguém para aplaudir a decisão. Depois de décadas em que a sua imagem pertencia ao público, musa, símbolo, voz de resistência, Odet escolheu um espaço que pertencia apenas a ela. Para quem tinha perdido, ainda menina qualquer controlo sobre a própria vida, aquele silêncio talvez fosse, pela primeira vez uma escolha genuinamente sua.
O teste mais claro desta escolha viria anos mais tarde. Em 1988, o autor Gilberto Braga convidou-a para viver Odette Heutman na novela Vale Tudo. Não uma novela qualquer, mas o fenómeno que pararia todo o país nas noites de exibição, discutido em jornais, em rodas de trabalho, em filas de banco, com direito a até um final alternativo negociado por causa da repercussão.
A personagem tornar-se-ia, décadas mais tarde, sinónimo de vilania na televisão brasileira, o tipo de papel que qualquer atriz da sua geração reconheceria como oportunidade única, o tipo de papel que garante que o seu nome é repetido por gerações de telespectadores que nunca viram atuar noutra coisa. Odet recusou.
Recusar vale tudo significava abdicar deliberadamente do tipo de papel que garante lugar permanente na memória popular. Ela abdicou mesmo assim. A mulher que o país conhecia como musa do O cinema Novo escolheu conscientemente não voltar ao centro do palco quando o convite mais tentador da sua geração bateu com a porta.
Era a mesma mulher que décadas antes tinha sido arrancada de uma vida normal por mortes que não escolheu e que depois vira à morte levar também o marido no auge da sua carreira dele. Agora, finalmente, exercia o único controlo que lhe restava: decidir por conta própria, quando dizer não à fama. Ela não desapareceu por completo.
Em 1985, regressou aos ecrãs em um filme 100% brasileiro de José 7. Em 1991, o próprio Gilberto Braga voltou a procurá-la, desta vez para viver a personagem Ester na telenovela O Dono do Mundo. O convite partiu diretamente dele e Odet aceitou, marcando a sua estreia na Rede Globo aos 63 anos, depois de décadas a circular pelas TVs Tupi e Excelsior.
Fez ainda uma participação em Vai Trabalhar vagabundo II à volta também em 1991. O seu último trabalho diante das câmaras foi na novela Pátria Minha em 1994, mais uma vez sob a pena de Gilberto Braga. Depois disso, o silêncio que ela mesma tinha escolhido anos antes voltou a fechar-se, desta vez de forma definitiva. Em 2002, a sua vida ganhou uma cinebiografia denominada Simplesmente Lara, realizado por Ana Maria Magalhães.
Três atrizes diferentes dividiram o papel para cobrir fases distintas da vida real de Odet. uma criança, uma adolescente, uma mulher adulta a enfrentar o auge da fama e o peso das perdas. Foi talvez a primeira vez que o público teve pistas, ainda que romanceadas, de que existia uma história bem mais dura por detrás da musa do Cinema Novo.
Só que pistas romanceadas não eram suficientes para Odet. Em 2011, décadas depois de ter vivido tudo aquilo em silêncio, ela finalmente passou para o papel o que nunca tinha dito às revistas. Publicou eu, nu, o primeiro de uma trilogia autobiográfica que incluiria ainda a minha viagem interior e os meus passos na busca da paz.
Aí, pela primeira vez com as suas próprias palavras e não pela boca de uma personagem interpretada por outra atriz, escreveu sobre a mãe, sobre o pai, sobre a vianinha, sobre as buscas e os excessos que tentaram preencher aquilo que a vida lhe tinha tirado cedo demais. Já não era o Brasil a contar a história de Odet Lara, era ela contando finalmente a própria história nos seus termos.
passou os últimos anos vivendo de forma reservada na mesma clínica de repouso no Rio de Janeiro, depois de sofrer uma queda que resultou numa fratura do fémor. Na madrugada de 4 de de fevereiro de 2015, cerca das 7:15 da manhã, Odet Lara teve um enfarte enquanto dormia. Tinha 85 anos. Não houve luta, não houve aviso. O coração que tinha sobrevivido a duas mortes na infância, a um marido perdido para o cancro, a três casamentos desfeitos e há décadas de silêncio voluntário, simplesmente parou.
O velório realizou-se no Parque Lage, na zona sul do Rio de Janeiro. Depois, o corpo seguiu para Nova Friburgo, na região serrana, a mesma região onde ela tinha escolhido viver em reclusão décadas antes para ser cremado. Não houve cerimónia pública de grande porte. foi até ao fim, do jeito que ela tinha escolhido para si, discreto longe do centro do palco.
Ao longo de quase 40 filmes, Odet Lara construiu a imagem de uma mulher forte, intensa, símbolo de um cinema brasileiro que ousava mostrar o país sem filtros. O O Brasil celebrou-a como musa, mas por trás de cada papel, de cada capa de revista, de cada personagem ousada que ela emprestou o seu rosto, havia uma menina que perdeu a mãe aos 6 anos e o pai aos 18, uma mulher que enterrou o marido aos 45 e que demorou décadas a finalmente contar esta história com as próprias palavras, longe das câmaras que a tinham tornado famosa. Décadas depois,
atrizes de gerações seguintes ainda seriam compadas a ela, quando o assunto era força de carácter e coragem para viver papéis que expunham as contradições morais do país. A deusa loira do Cinema Novo virou, sem que ela procurasse isso, uma referência de como uma mulher podia ser, ao mesmo tempo, objeto de desejo do público e autora da própria imagem.
Nenhuma outra atriz de a sua geração levou esta lógica tão longe ao ponto de recusar o papel mais desejado da televisão brasileira, só porque não fazia mais sentido para a vida que ela tinha escolhido viver. Quase 40 anos separam a menina que soube numa qualquer manhã que a mãe já não estava lá.
E a mulher de 85 anos, que fechou os olhos pela última vez numa clínica de repouso, rodeada pelo silêncio que ela mesma tinha escolhido para os últimos capítulos da própria vida. Entre uma coisa e outra, houve quase 40 filmes, dois discos, três livros, três Os casamentos, um movimento cultural inteiro que a teve como um dos seus rostos mais reconhecíveis e uma decisão tomada sozinha numa casa nas montanhas, de trocar tudo isto por outro tipo de vida.
No final, a mesma mulher que recusou o papel mais cobiçado da sua geração, optou também por recusar os holofotes na hora de partir. Uma vida grande o bastante para ser recordada durante décadas e ainda assim contada até ao último capítulo nos seus próprios termos. Yeah.
ejo do público e autora da própria imagem.
Nenhuma outra atriz de a sua geração levou esta lógica tão longe ao ponto de recusar o papel mais desejado da televisão brasileira, só porque não fazia mais sentido para a vida que ela tinha escolhido viver. Quase 40 anos separam a menina que soube numa qualquer manhã que a mãe já não estava lá.
E a mulher de 85 anos, que fechou os olhos pela última vez numa clínica de repouso, rodeada pelo silêncio que ela mesma tinha escolhido para os últimos capítulos da própria vida. Entre uma coisa e outra, houve quase 40 filmes, dois discos, três livros, três Os casamentos, um movimento cultural inteiro que a teve como um dos seus rostos mais reconhecíveis e uma decisão tomada sozinha numa casa nas montanhas, de trocar tudo isto por outro tipo de vida.
No final, a mesma mulher que recusou o papel mais cobiçado da sua geração, optou também por recusar os holofotes na hora de partir. Uma vida grande o bastante para ser recordada durante décadas e ainda assim contada até ao último capítulo nos seus próprios termos. Yeah.
ejo do público e autora da própria imagem.
Nenhuma outra atriz de a sua geração levou esta lógica tão longe ao ponto de recusar o papel mais desejado da televisão brasileira, só porque não fazia mais sentido para a vida que ela tinha escolhido viver. Quase 40 anos separam a menina que soube numa qualquer manhã que a mãe já não estava lá.
E a mulher de 85 anos, que fechou os olhos pela última vez numa clínica de repouso, rodeada pelo silêncio que ela mesma tinha escolhido para os últimos capítulos da própria vida. Entre uma coisa e outra, houve quase 40 filmes, dois discos, três livros, três Os casamentos, um movimento cultural inteiro que a teve como um dos seus rostos mais reconhecíveis e uma decisão tomada sozinha numa casa nas montanhas, de trocar tudo isto por outro tipo de vida.
No final, a mesma mulher que recusou o papel mais cobiçado da sua geração, optou também por recusar os holofotes na hora de partir. Uma vida grande o bastante para ser recordada durante décadas e ainda assim contada até ao último capítulo nos seus próprios termos. Yeah.