OS LUXOS ABSURDOS ABANDONADOS POR LUIZ GONZAGA APÓS SUA MORTE — O IMPÉRIO DO REI DO BAIÃO – H
Se hoje fosse o seu último concerto, que música o senhor tocaria? [música] Todos os meses de junho no Brasil inteiro acontece a mesma coisa. [música] A fogueira acende, a quadrilha começa, o acordeão en toca em Campina Grande, toca na festa da escola do seu filho, toca no rádio do carro na estrada e esta toca assim há quase 80 anos.
Nada de bom, meu [música][canto] compadre. Nada de bom. [sino] Bonitinhozinho, safadinho da natur. O homem que gravou aquilo chamava-se Luís Gonzaga, o rei do baião. Chapéu de couro, gibão, acordeão de 120 baixos. Ele saiu de [música] uma casa de barro batido no interior de Pernambuco e virou o maior nome da rádio brasileira.
Teve explorações, teve mais de 300 cabeças de gado, [música] tinha um apartamento no rio, sítio na serra, posto de combustível e construiu no meio do sertão um parque inteiro com museu, pousadas [música] e três palcos para guardar a própria história. Luís Gonzaga morreu em agosto de 1989. [música] E aqui surge a pergunta que quase ninguém parou para o fazer.
O que aconteceu com tudo isso? Onde foram parar as quintas, o gado, a casa onde viveu, os instrumentos, o dinheiro das canções? Neste vídeo [música] vais ver o inventário completo do que o rei do baião deixou. Pisei em falso e caí de 1,5 m, um cimento duro. A minha sorte é que eu estava sem acordeão. Se eu tivesse com a acordeão, ah, eu estava lá perto de mãe a essa hora.
E também vai descobrir o que aconteceu com o lugar mais importante de todos. aquele onde o corpo dele está enterrado até hoje. Prepara o coração porque esta parte é difícil de acreditar. Luís Gonzaga do Nascimento nasceu a 13 de de Dezembro de 1912 numa casa de Barô, batido na fazenda Caiçara a 12 km da cidade de Exu, [música] no extremo noroeste de Pernambuco.
Era o segundo filho de Ana Batista de Jesus, a mãe Santana. [música] com Januário José dos Santos. Ao todo, foram oito filhos naquela casa. O [música] pai era agricultor, trabalhava a terra de sol a sol, mas era também acordeonista de oito baixos, conhecido [música] em toda a região. E mais do que isso, era o homem que reparava os foles de toda a gente.
Quando a concertina de alguém se partia, ia parar à mão de Januário e era ali a ver o pai abrir aquele instrumento em cima da mesa que o menino aprendeu. Desde os 8 anos, já acompanhava o pai nas festas. Enquanto isso, trabalhava no campo. Um [música] vaqueiro que conviveu com a família conta que foi de enchada até aos 18 anos juntamente com o pai.
Ele não tinha registo de [música] nascimento e não sabia ler nem escrever. Aos 17 anos aconteceu o episódio que mudou tudo. Ele esteve envolvido com uma rapariga da região e a coisa acabou mal. Houve uma confusão com um coronel local. [música] Foi armado tirar de satisfação e quando o pai soube, deu uma sova no filho.
A vergonha foi tão grande que ele decidiu não ficar. Mentiu, disse que ia tocar no crato e foi-se embora de casa. Tudo o que ele tinha no mundo era uma acordeão de 80 baixos, conseguido com a ajuda de um coronel da região. E olha o que ele lhe fez. Chegados ao Crato, vendeu a concertina. vendeu a única coisa que possuía, o único bem da sua vida, aquilo que fazia dele quem era.
E com o dinheiro foi alistar-se no exército, mentindo à idade, porque ainda não tinha idade para servir. Passou cerca de 9 anos como militar e [música] corneteiro. Rodou Minas Gerais, Juiz de Fora, Ouro Fino, Belo Horizonte. Quando deu baixa, foi tentar a vida no Rio de Janeiro. [música] E o início lá foi duro.
Tocava na zona boia, perto do mangal, tocava em calçada, tocava para quem quisesse ouvir. Não foi sucesso da noite para o dia, demorou anos. Ele entrou em estúdio no início dos anos 40, mas só como acordeonista, acompanhando os outros. A sua própria voz só foi gravada em 1946. Quer dizer, entre fugir de casa e ouvir a [música] própria voz num disco, se passou quase uma década e meia.
Naquelas passeios do rio, ninguém que passasse por ele imaginaria uma coisa, que aquele homem ia mudar a música do Brasil e ficar rico o suficiente para comprar quintas inteiras no sertão, onde ele passou fome. A viragem aconteceu em 1941. Nesse ano, [música] ele inscreveu-se no programa de talentos de Ari Barroso na Rádio Nacional, que era nessa altura a maior estação emissora do país.
[música] Rádio Nacional era o que a Globo viria a ser depois. Era ela que dizia quem virava artista no Brasil. Ele tocou [música] vira e mexe e tirou nota máxima. [música] Dois anos depois surgiu o primeiro contrato fora [música] do Rio, uma temporada num casino em Curitiba. E os apelidos começaram a colar. O maior acordeonista do Brasil, o maior acordeonista nordestino.
Mas [música] a fortuna começou mesmo na segunda metade dos anos 40. Em 19467, ele gravou com o [música] Humberto Teixeira uma música sucesso. Aquilo é um de dois, uma atrás da outra. E existe uma frase de um dicionário de música brasileira que resume a dimensão deste. O novo género mudou [a música] o panorama musical do Brasil e impôs-se como o mais importante do país até ao surgimento da bossa nova, no [música] final dos anos 50.
Pensa no que isso significa. Durante mais de 10 anos, o som que mandava no O Brasil não era samba, não era bolero, não era música americana, [a música] era baião. Era um homem do sertão de Pernambuco com uma concertina ao peito. E foi nesta altura que criou a imagem que todo o brasileiro reconhece até hoje.

A [música] a partir de 1947, adotou o chapéu de couro de cangaceiro, inspirado em Lampião, o gibão, [música] a sandália, o trage inteiro. Ele não estava só a cantar o sertão, ele estava a colocar o sertão no palco, [música] vestido de sertão, na rosto da elite do Rio de Janeiro. Gravou pela RCA Victor, depois pela Odeon, depois pela Copacabana.
estrelou publicidade das casas pernambucanas, [música] que era uma das maiores lojas do país. Fez o jingle [música] dos colírios Moura Brasil no início dos anos 50 e a marca chegou a patrocinar excursões suas pelo Brasil inteiro. [música] Agora, uma coisa precisa de ser dita com honestidade aqui e é o que separa este vídeo dos outros.
Não existe registo público [música] de quanto ganhava. Nenhum documento com valor de cachet, nenhum contrato divulgado, nenhum salário da Rádio Nacional em Cruzeiros. Quem te mostrar um número exato [música] está inventando. O que existe é uma pista muito boa do tamanho [música] daquele dinheiro. Com o cachet de um único comercial, o das casas pernambucanas, comprou o primeiro automóvel 0 km da vida dele.
Era um Nash, carro [música] americano, e veio despachado de navio até ao Rio de Janeiro. Um anúncio publicitário, um carro importado, zero, [música] entregue de navio. Este era o patamar em que o rapaz que vendeu a concertina no Crato tinha entrado. E o dinheiro que começou a entrar a partir daí comprou coisas que ninguém imagina.
[música] A sua primeira grande compra não foi carro, não foi uma jóia e não foi uma mansão. No final dos anos 40, com o dinheiro entrando, Luís Gonzaga fez uma coisa: Mandou buscar a família toda ao sertão e trouxe toda a gente para o Rio de Janeiro. Pai, mãe, irmãos. bancou a viagem, bancou a mudança, bancou tudo e por volta de 1956 comprou um terreno em Santa Cruz da Serra, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Comprou-o a outro compositor famoso da época, o Ataúfo Alves. Naquele terreno, [música] ele instalou os pais e os irmãos. O lugar foi sendo dividido casa [música] por casa, até se tornar cerca de 15 casas de família. Aquilo existe até hoje. É conhecido como [música] o sítio dos Gonzagas. E ali vive um clã de aproximadamente 80 descendentes, um pedaço do sertão do Araari plantado no meio do Rio de Janeiro.
[música] Agora vamos ao património pessoal dele. O próprio Luís Gonzaga listou os bens numa entrevista que deu ao jornal O [música] Pasquim. E o que ele disse é curioso. Tinha um apartamento na ilha do governador, no bairro de Cocotá, e descreveu este apartamento de um jeito muito dele. Disse que era a sinfonia inacabada, porque ele estava sempre mexendo, sempre a reformar, sempre trabalhando naquilo.
E completou dizendo que o Luizinho, o filho Gonzaguinha, [música] tinha um bom apartamento dentro do apartamento dele. Tinha também um sítio em Miguel Pereira, na região serrana do Rio, e tinha [música] o sertão. Em Exu, para além do parque que a gente vai falar daqui a pouco, ele chegou a ter cinco quintas, terrenos espalhados pela cidade e um posto [música] de combustível.
Sobre o gado há um relato que vale ouro. O vaqueiro José Prachedes, que trabalhava para ele, conta que cuidou de mais de 300 cabeças de gado do cantor e que Luiz Gonzaga, vivendo no Rio, enviava o dinheiro da manutenção todos os meses sem falta. 300 cabeças de gado no sertão de Pernambuco, administradas à distância por um homem que vivia a mais de 2000 km dali.
Mas a obra da sua vida foi outra coisa. Por volta do início dos anos 70, comprou uma quinta nas margens de um açude em Exu. Em 1976 começou a construir e em 1982 deixou o Rio de Janeiro e foi para lá viver de vez, no mesmo ano em que lançou um disco chamado Não por acaso o rei regressa para casa.
O nome do local é Parque Asa Branca. E vejam só o que existe dentro dele. [música] Há o Museu do Gonzagão, que guarda o maior acervo original do artista. Há a casa do baião, a casa onde viveu com os móveis originais. [música] Há a casa onde viveu o pai, o Januário. Tem duas pousadas, uma chamada Santana e outra de nome Januário. Os nomes dos pais [música] dele.
Tem três palcos. Tem a cozinha da mundiça com letreiro de madeira. Tem uma réplica da casa de Reboco, onde nasceu. Tem um viveiro de asas brancas, [música] o pássaro da música, e tem o mausoléu, onde estão sepultados Luís Gonzaga, a esposa Helena, o [música] pai Januário, a mãe Santana e o irmão Severino. Ou seja, construiu com o seu próprio dinheiro o museu da própria vida e o túmulo da própria família.
E tem um pormenor no nome deste lugar que quase ninguém percebe. Asa Branca. [música] Aí escreve-se com Z, não é erro de português, é propositado. O Z está ali por causa do Z de Luiz e do Z de Gonzaga. Colocou o próprio nome dentro do nome do parque e nunca ninguém corrigiu porque não havia [música] o que corrigir.
Sobre o custo daquilo tudo, ele próprio tinha uma resposta pronta. Dizia que não acrescentava, que se fosse ver antes quanto ia custar, não faria nada. Olhando para esta lista, explorações, gado, posto, apartamento, sítio, parque, dá para imaginar um homem rodeado de [música] luxo, cheio de dinheiro guardado.
Só que quem conviveu com o Luiz Gonzaga de perto conta uma história completamente diferente. A maioria das pessoas olha para um artista deste tamanho e imagina a vida cheia de luxo. Carro importado na garagem, casa grande, dinheiro de sobra. E faz todo o sentido pensar assim. Ele era o maior nome da rádio brasileira. [música] Vendia discos em toda a banca, protagonizava publicidade de loja grande, tinha quinta e gado, só que a realidade dentro da casa dele era outra.
Quem diz isto é Dominique Drefus, [música] a biógrafa que escreveu o livro sobre a vida dele e que conviveu com o artista para escrever aquilo. [música] E ela é categórica. diz que não tinha nada de luxo na vida do Gonzaga, que o dinheiro dele ele dava, dava para ajudar os amigos, dava para ajudar a família e que o que ele queria [música] era mesmo fazer-se à estrada e fazer show.
Ela vai além e a explicação da mesma é uma das coisas mais reveladoras deste vídeo. Ela conta que gastava demais [música] e que havia uma profunda desorganização, uma confusão financeira tão grande que qualquer pessoa conseguia levantar dinheiro dele a torto e a direito. Segura essa informação porque ela [música] explica tudo o que vem depois e os exemplos são muitos.
Lembra-se da família que ele trouxe do sertão para o Rio? Ele bancou aquilo inteiro, casa, mudança, sustento, mas não parava na família. Ele hospedava músico nordestino [música] que estava a começar, gente que chegava no rio sem nada. Tem o caso registado da família de um compositor que viveu meses em suas casas em 1961. meses.
E há o relato do vaqueiro Praxedes, que é a imagem mais bonita desta história toda. [música] Às vezes, o rei do baião recebia o pagamento dos espectáculos em comida, não em dinheiro, em mantimento [música] mesmo. Ele chegava em Exu com as carradas de arroz, açúcar, bolacha e macarrão. E o que ele fazia com aquilo? montava cestos e saía distribuindo pelos sítios da região.
O maior [música] artista popular do Nordeste a chegar a casa e repartindo comida com os vizinhos. Ora, se por um lado que mostra [música] o tamanho do homem, por outro tem uma consequência prática, porque a generosidade não paga a conta. As quintas, por exemplo, davam prejuízo. Ele próprio dizia isso com aquela ironia dele.
Dizia que as fazendas não rendiam porque os capatazes estavam ali a gozar a vida. [música] À custa dele, um empresário que trabalhou com ele conta o desfecho. Além do parque, o cantor tinha mais cinco quintas e terrenos pela [música] cidade, mas cedo teve de vender as quintas e ficou meio apertado de dinheiro. Leia de novo esta frase.
Luiz Gonzaga, no auge da fama, ficou apertado de dinheiro. Ele não estava a ser roubado por uma editora discográfica. não tinha caído em golpe. Ele simplesmente ganhava muito, gastava ainda mais, sustentava meio mundo e não controlava nada disto no papel. Aquele [música] património todo do capítulo anterior, as quintas, os terrenos, o posto, foi encolhendo em vida, pedaço a pedaço.
E o que ainda estava para vir ia deixar tudo mais difícil, porque o gosto do Brasil estava prestes a mudar. E quando ele mudou, mudou contra o baião. No fim dos anos 50, [a música] apareceu no Brasil um som novo, violão baixinho, voz sussurrada, letra sofisticada, [música] apartamento em Copacabana. Chamava-se Bossa Nova.
E a bossa nova comeu o espaço do baião. De repente, o que era moderno era outra coisa. O sertão saiu de moda, as rádios foram trocando, as gravadoras foram trocando e o rei do baião, que 10 anos antes mandava no país, foi vendo as vendas cair. É o mesmo tipo de viragem que derruba a artista até hoje. Nada corre mal. [música] Ninguém faz nada de mal.
O gosto do público simplesmente muda de lugar. Foi nesta fase que chegou a pensar em parar. O regresso veio nos anos 70 e veio de um lugar inesperado. Os baianos Caetano, Gil e a turma da tropicalia puxaram o nome dele para trás para o centro, gravaram as músicas dele, disseram alto e bom som de onde vinha aquilo tudo.
Uma geração inteira redescobriu o Gonzagão por causa disso. E houve outra reaproximação, esta dentro de casa. [música] Ele e o filho, o Gonzaguinha, tinham uma relação difícil. O menino foi criado pelos padrinhos no Rio e os dois levaram anos a acertar. Nos anos 80, pai e filho subiram no palco juntos numa digressão chamada A vida do viajante.
Foi das coisas mais bonitas [música] da carreira dos dois, só que o corpo dele já estava a cobrar. Nos anos 80, Luiz Gonzaga já fazia um espectáculo sentado. Tinha osteoporose, sentia dores fortes e a concertina, de 120 baixos pesa cerca de 10 kg. um peso que ele já não conseguia sustentar. Muitas vezes subia ao palco [música] e nem sequer pegava no instrumento.

E houve um episódio que ficou marcado. Em julho de 1980, num evento no estádio do Castelão, em Fortaleza, tocou em homenagem à visita do Papa João Paulo, segundo ao Brasil. A multidão avançou e ele acabou derrubado no meio do tumulto. A camisa que usava nesse dia, manchada de sangue, está guardada até hoje no museu dele, juntamente com a concertina branca que ele tocou nessa ocasião.
Depois veio o cancro da próstata com metástase nos ossos. O último concerto da sua vida foi em 6 de junho de 1989, no Teatro Guararapes, no Recife. Ele subiu ao palco ao lado do filho Gonzaguinha de Alceu Valença e de Dominguinhos. Foi levado numa cadeira de rodas e não pegou na concertina. Duas semanas depois foi internado [música] no Hospital Santa Joana, no Recife.
Ficou aí 42 dias. Luiz Gonzaga morreu na madrugada do dia 2 de agosto de 1989. Aos 76 anos, o corpo foi velado na Assembleia Legislativa de Pernambuco e depois levado para Exu, para o parque que ele próprio construiu e sepultado no mausoléu, que ele próprio mandou erguer. Estava tudo pronto. [música] Ele tinha planeado até isso.
O que ele não podia planear era o que ia acontecer com aquele lugar depois de ele fechar os olhos. Comecemos pelos herdeiros, porque isso explica o resto. Quando Luiz Gonzaga morreu, os herdeiros legais eram três. A esposa no papel, Helena Cavalcante, de quem já estava separado, o filho Gonzaguinha, e a filha adotiva, Rosinha, adotada por ele e por Helena no início dos anos 50.
Gonzaguinha assumiu o legado do pai na hora. Foi ele quem inaugurou o museu em Exu ainda em 1989, poucos meses depois da morte. E foi ele quem mandou construir o mausoléu, onde o pai e a mãe ficariam sepultados. Menos de 2 anos depois veio a tragédia. [música] Em abril de 1991, Gonzaguinha morreu num acidente de viação em Renascença, no Paraná.
Tinha 45 anos, pai e filho, os dois sepultados num intervalo inferior a 2 anos. A parte da herança do Gonzaguinha passou para os três filhos dele, Daniel, Nanã [música] e Amora, os netos de Luís Gonzaga. E do anos depois, em 1993, faleceu também a dona Helena. Restou Rosinha, que vive no Rio de Janeiro e sempre levou uma vida reservada.
[música] E é aqui que esta história dá a viragem que quase ninguém conhece. O parque da Asa Branca, o museu, a casa do [música] baião, as pousadas, os palcos, todo o terreno e o mausoléu foi [música] vendido. Rosinha, a herdeira, vendeu a propriedade a um empresário de Exu.
Segundo a reportagem que apurou o caso, foi um negócio fechado por telefone. O comprador não era um investidor qualquer, era um grande fã de Luiz Gonzaga que vivia na cidade. Ele faleceu em 2014 e desde então o local é mantido pela sua família. Quer [música] dizer, o parque que Luiz Gonzaga construiu para guardar a sua própria memória e onde o corpo dele está enterrado até hoje já não pertence à família Gonzaga.
Não existe registo público do valor dessa venda, nem do ano exato. Nenhuma notícia divulgou o nome do comprador. Isso nunca veio a público. Agora, [música] quem gere o parque hoje? Uma ONG. E a ideia desta ONG saiu de uma visita ilustre. No ano 2000, Gilberto Gil foi a Exu conhecer o parque e sugeriu que a gestão fosse transformada em organização não governamental para poder procurar apoio e se sustentar.
A ONG Parque Asa Branca foi criada no ano seguinte e cuida do lugar desde então. [música] Em 2009, o governo de Pernambuco tombou o conjunto como património histórico e cultural do estado. Só que tombar não é a mesma coisa que sustentar. O Estado reconheceu o valor histórico, mas deixou claro que a posse e a manutenção continuam a ser responsabilidade do proprietário particular.
[música] E depois chegas ao presente e dói. A conta do parque é mais ou menos esta, cerca de R$ 20.000 de gasto por mês, contra uma cobrança que nos melhores meses atinge os 17.000. Todos os meses fecha no vermelho. O ingresso para visitar o museu do maior nome da A música nordestina custa entre quatro e 8, menos do que um snack.
O mausoléu, onde está sepultado, [música] já teve um problema de goteira e alaramento. E tem o pormenor mais triste de todos. O andar de cima da casa do baião, onde é o quarto em que Luís Gonzaga dormia, está [música] interditado desde dezembro de 2019. por causa da rachaduras. Ou seja, há mais de 6 anos que ninguém pode subir lá.
Em agosto [música] de 2025, o presidente da ONG cobrou publicamente ao governo do Estado e pediu restauração urgente. [música] O parque continua aberto à visitação de terça-feira a domingo. Continua a funcionar com bilhete, lojinha, as festas de 2 de agosto e 13 de dezembro e muito trabalho voluntário.
Mas então, se o parque saiu da família e vive apertado, o que sobrou de valor da herança do rei do baião? Sobrou [música] a coisa mais valiosa de todas. E ela não se vê. Não se visita e não enferruja o catálogo. Segundo o ECAD, que é o organismo que arrecada [música] direitos de autor no Brasil, Luís Gonzaga deixou 487 composições e 1258 gravações registadas.
[música] E agora vem o número que te vai fazer olhar para o mês de junho de um jeito diferente. Luiz Gonzaga é há mais de uma década seguida, o autor que mais arrecada [música] direitos de autor nas festas juninas do Brasil. Não é um dos mais tocados, é o primeiro [música] do ranking, ano após ano, ininterruptamente.
Em 2024, das 20 músicas mais tocadas nos festas juninas do país, [música] 10 eram dele, metade. Cada vez que uma dança da quadrilha, cada vez que uma autarquia [música] contrata um trio, cada vez que uma rádio toca Asa Branca no São João, há dinheiro a entrar para o nome de Luiz Gonzaga, 37 anos depois [música] da sua morte. branca.
Aliás, é a música mais regravada de toda a obra dele e foi a mais tocada da década. E quem recebe hoje esse dinheiro? A família Rosinha com a maior parte e os três [música] netos, filhos do Gonzaguinha com a parte mais pequena. Repare no detalhe. O imóvel saiu da família, mas o catálogo ficou e vai ficar por [música] muito tempo.
Pela lei brasileira, o direito de autor dura 70 anos, contados a a partir do ano seguinte [música] à morte do autor. Como morreu em 1989, as músicas de Luís Gonzaga são protegidas até, pelo menos, o dia 31 de dezembro de 2059. Ou seja, o rei do baião ainda vai sustentar a sua família por mais 33 anos.
E os netos não usam este legado só para receber. Em julho de 2020, os três, Daniel, [música] Nanã e Amora, publicaram uma nota pública de repúdio contra o uso da música Riacho do Navio, com a letra alterado numa transmissão oficial do governo federal. Eles [música] não estavam a lutar por dinheiro, estavam lutando pelo que a obra do avô representa.
Fora Exu, o seu nome também está guardado noutro local, o Museu Cis do Sertão, inaugurado [música] em 2014 no Recife Antigo, um museu grande e moderno dedicado ao sertão e a ele, onde são objetos pessoais, indumentárias [música] e uma concertina de 120 baixos, que foi dele e depois pertenceu a Dominguinhos. E ainda existe o sítio do Duque de [música] Caxias, aquele terreno comprado em 1956, onde vive até hoje o clã de cerca [música] de 80 descendentes.
Some tudo isso e a conta fica clara, só que não é a conta [música] que esperávamos fazer no início deste vídeo. Luís Gonzaga passou a vida a pensar que estava a construir o legado dele em terra. Comprou fazendas, comprou o gado, [música] comprou o terreno para a família toda no Rio e gastou o que tinha erguendo no meio do sertão, um parque com museu, pousada e três [música] palcos para guardar a própria história.
A terra saiu da família, as quintas ele mesmo vendeu ainda em vida. O parque foi vendido depois da morte. Hoje o quarto onde dormia está interditado por rachaduras. E o lugar onde ele está enterrado vive de um bilhete de R$ 4. Mas aquilo que fazia sem calcular. Sentado com Humberto Teixeira [música] e com o Zé Dantas a escrever música sobre seca, sobre a saudade e sobre a asa branca voando, aquilo ninguém conseguiu vender.
Cada vez que chega junho, a concertina toca e o seu nome volta a ser o primeiro do país. Não deixou uma fortuna no banco, [a música] deixou o mês de junho inteiro. Agora diga-me uma coisa, você acha que o Parque Asa Branca, o local onde Luís Gonzaga está sepultado, deveria ser comprado pelo poder público e tornar-se património de todos nós? Ou deve continuar como está [música] nas mãos de uma família particular que cuida dele há mais de 20 anos? Comenta lá porque eu quero ler. E responde-me outra também.
Qual a música dele que te leva diretamente para a tua infância? Se esta história valeu o seu tempo, deixa o like e subscreve o canal. e envia esse vídeo para aquele parente que ouve o Gonzagão todos os São João, porque no próximo vamos atrás de outro gigante da música brasileira, um nome que cresceu a ouvir para descobrir o que resta de tudo o que ele construiu. Até lá.