OS LUXOS DEIXADOS POR AGEPÊ APÓS SUA MORTE — DOCUMENTÁRIO DO REI DO SAMBA ROMÂNTICO – H

Ah, o AGP. Novela das 8 de 1984. Aquela voz a entrar na sala de casa. Deixa-me amar-te. Deixa-me amar-te. O rádio de pilha em cima do lava-loiça, da cozinha a tocar mo, onde não mora ninguém, enquanto a louça do almoço não acabava nunca. Moro onde não vive ninguém. Churrasco de domingo, coluna de som pendurado no muro, cama em mesa e todo o mundo a cantar a letra errada.

Esse era o AGP, um sujeito que saiu de um barraco na zona norte do rio, trabalhou transportando mala de passageiro e reparando linha telefónica e virou o primeiro sambista da história do Brasil a vender 1 milhão de discos. A maioria das pessoas guarda-o assim, o cantor romântico do sambão, o dono da música que tocava em toda a festa de casamento dos anos 80.

E é certo pensar isso, porque foi exatamente o que aconteceu. Só que há uma parte desta história que quase ninguém te disse. Nos próximos minutos vai entender por as rádios FM fingiam que ele não existia. O que aconteceu quando dois sambistas foram chamados a explicar uma letra de música para militar fardado? Se você encontrar o meu amor por aí, diga que estou a sofrer.

E porque até hoje ninguém consegue dizer onde foi parar o dinheiro do homem que vendeu mais discos que quase toda a gente naquele país. Uma vida inteira de recorde. E um fim que quase ninguém viu chegar. Senta-te aí, pega num café, porque tudo inicia-se num morro da zona norte carioca, no início dos anos 50, com um rapaz que tinha acabado de perder o pai.

Rio de Janeiro, 10 de Agosto de 1942. Nasce Antônio Gilson Porfího, filho de uma alagoana que veio ao Rio tentar a vida e conseguiu o trabalho de fachineira e de um pai músico, homem que sabia ler uma partitura, que chegou a dirigir orquestra e que dava aulas de teoria musical. A casa era no Morro do Juramento, zona norte do Rio de Janeiro.

E o rio dos anos 40 e 50 não era esse cartão postal que hoje vemos. Lá em cima do monte era barro no pé quando chovia, candeeiro, água carregada em lata na cabeça e vizinho a conhecer a vida do outro pela parede fina. O tipo de lugar onde criança aprendia a desenrascar-se antes de aprender a ler. O pai era duro.

Duro no sentido antigo da palavra, daquele pai que ensinava e cobrava. E se o filho errasse a nota, o filho apanhava. O O próprio ADP contou isso anos mais tarde numa entrevista quase a rir. Para aprender, apanhou. E aí vem o pormenor que muda todo o desenho dessa infância. O pai morreu cedo. Ficou órfão ainda menino.

Sabe o que isso significa numa casa de monte em 1950? Significa que a mãe passa a sustentar tudo sozinha a limpar casa dos outros. E significa que o menino com aquela idade que hoje é idade de estar na quinta série, já está na rua a fazer alguma coisa para ajudar dentro de casa. Com uns 8, 9 anos, já vivia praticamente por conta própria.

Não porque a família o tenha abandonado. Família que ele tinha e boa. Mas a vida apertou de uma maneira que foi mandado para um colégio interno e o menino não se adaptou. Não adaptou-se de jeito nenhum. Então ele fugiu, só que a fuga tem um pormenor que parece um guião de cinema. Ele fugiu do colégio, chegou à central do Brasil e escondeu-se dentro de uma mala.

Isso mesmo que estás a ouvir? Um menino de 11 anos enfiado dentro de uma mala no meio do maior fluxo de gente do Rio de Janeiro, à espera da hora de desaparecer. Não sumiu. A sua madrinha passou pela central por acaso, no meio de todo o aquele povo, e encontrou o menino, levou-o de volta para o morro.

E foi ali de volta para casa que aquele miúdo começou a ouvir uma coisa que ia decidir o resto da vida dele. Bloco de rua a passar, cavaquinho, surdo, pandeireta, gente cantando na esquina de madrugada, o samba a entrar pelo ouvido dele sem pedir licença. Este menino ia crescer, ia estudar, ia conseguir um dos empregos mais seguros que um pobre podia sonhar naquela época.

Carteira assinada, salário no final do mês, plano de carreira e ia largar tudo. Aqui cabe uma questão que quase ninguém no Brasil parou para fazer. De onde vem o nome AGP? Não é um apelido, não é alcunha de infância, não é nome de santo. António, Gilson, Porfírio, AGP. É isso. Pegou nas iniciais do próprio nome e escreveu AGP.

O gajo transformou a assinatura do mesmo num nome artístico e o Brasil inteiro cantou aquilo durante 20 anos sem desconfiar de nada. Mas antes de para virar a GP, o Antônio Gilson foi muita coisa. Foi Office Boy na embaixada da Alemanha enquanto estudava. Depois entrou na Escola Técnica Nacional, que era o caminho que o menino pobre com cabeça boa seguia nessa altura para tentar subir na vida.

Aos 18 anos, serviu na aeronáutica e durou pouco tempo. Foi expulso por insubordinação e por fugir do quartel. E fugia do quartel para namorar. Anos mais tarde, já famoso contando isto numa entrevista para a Veja, ele resumiu o próprio fracasso militar com uma frase que só um brasileiro consegue construir.

Queria ser piloto, mas acabou tirando o brevet de passageiro e só de ida. fora do quartel, foi trabalhar transportando bagagem de passageiro. Magro daquela maneira, os colegas puseram-lhe o alcunha de ripinha. Depois veio o bom emprego, o emprego real, técnico projetista da Telerg, a telefónica do Rio de Janeiro. Trabalhava na parte de projeto e expansão da rede e gostava.

Dizia que adorava aquela profissão. Chegou a passar no exame de admissão e começou engenharia à noite na Veiga de Almeida. Pensa no que isso representava. Homem do morro, órfão de pai, com diploma técnico, contrato assinado em estatal e faculdade em curso. Naquele Brasil, que era chegar. A mãe dele devia dormir tranquila pela primeira vez na vida e ele largou.

Agora, o mais impressionante nem é isso. O mais impressionante é que nunca ninguém ensinou este homem a tocar violão. Ninguém. O pai era músico e morreu antes de ensinar. Ele aprendeu sozinho por curiosidade, catando em livro, pondo disco a tocar, parando, voltando à agulha, pegando no andamento no ouvido e copiando na mão até sair.

O que lhe entrava no ouvido era coisa grande. João Gilberto, Noel Rosa, Ataúfo Alves e principalmente Jorge Ben, que era gente da região. Estácio, praça 11, o mesmo pedaço. Foi vendo o Jorge muito de perto que criou coragem de pegar num violão. Faltava apenas uma peça e ela apareceu na própria escola técnica um rapaz chamado Raimundo Macedo. Toda a gente chamava de canário.

Canário trabalhava na obra da Ponte Rio Niterói. Tinha mesmo cara de menino depois dos 20 e vivia com a cabeça na música em vez de estar na cabeça da obra. Os dois olharam-se e entenderam na hora que dava liga. Ali nasceu a dupla que ia mudar a história do samba brasileiro. Em 1975, os dois entram num estúdio e gravam um compacto simples, coisa pequena, sem promessa nenhuma, numa editora que não apostava um cêntimo naquilo.

E o Brasil respondeu de uma forma que ninguém na Continental estava preparado para ver. Vivo onde não vive ninguém. AGP e Canário Compacto Simples. Gravadora Continental, 1975. Moro onde não vive ninguém. Um compacto naquele tempo era o produto mais barato da prateleira. Duas músicas, um pequeno disquinho de vinil, aquilo que a editora lançava para testar se o artista pegava ou se ia logo para o esquecimento. Esse pegou.

Em 1976, vivo onde não vive, ninguém tinha vendido 950.000 1 exemplares, quase 1 milhão, num compacto de um cantor que ninguém conhecia, que tinha acabado de deixar o emprego na companhia telefónica e que fazia música fora de todo o padrão do que se considerava samba direito naquela época. Para que tenha noção do tamanho deste, era mais disco vendido do que uma boa parte dos artistas consagrados do país fazia com um LP inteiro, com grande produção e divulgação em rede nacional. E não parou no Brasil.

O compacto atravessou fronteira, chegou à Itália, em Portugal, na Argentina e aí vem o mais curioso desta história toda. Ainda não era famoso, vendia como poucos, mas não era o tipo da capa de revista, não era o nome que a rapariga anotava no papel para pedir na rádio, era o disco que vendia sozinho, na força do passa-palavra, na feira, na loja de bairro, em casa do vizinho que comprou e emprestou.

Enquanto isso, vivia dentro da Portela. Não como visita, como gente da casa, fazia parte da ala dos compositores, era figura certa em ensaio, presença garantida em desfile. O sujeito que a rapaziada da quadra tratava como um ídolo de serviço, muito antes de o Brasil saber quem era. E ali dentro foi montando um jeito próprio de fazer música que não era só samba, ele misturava.

Entrava baião, entrava o jechá, entrava a gerê, entrava aquilo que ele tinha ouvido a vida inteiro de mãe alagoana dentro de casa. Ele próprio explicava a fórmula sem nenhuma humildade falsa. Eu conheço a língua brasileira porque já vivi de A a Z. E era verdade. Ele tinha sido menino de monte, interno fujão, escritório rapaz, embaixada, carregador de malas, militar expulso, técnico de telefonia.

Quando cantava sobre gente comum, não estava a imaginar gente comum, estava a lembrar. Entre 1975 e 1981 vieram os primeiros LPS um atrás do outro, construindo um público fiel que crescia sem aparecer em lado nenhum da imprensa. Faltavam 9 anos. 9 anos para uma novela da Globo apanhar este homem, pô-lo dentro da sala de jantar de todo o brasileiro numa noite de 1984 e transformar tudo isto em número que o samba nunca tinha visto na vida.

23 de julho de 1984, estreia vereda tropical na Globo e no meio do trilho nacional entre Gal Costa, Nei Mato Grosso, Lulu Santos, Gonzaguinha, Marina e Ziz Posse, gente do primeiro escalão da música brasileira, tem uma faixa assinada por um sambista que as rádios FM não tocavam. Deixa-me amar-te.

Deixa-me te amar. Vá que são o primeiro. A partir daí, não houve volta a dar. A música saía da televisão da sala, ia para o rádio do carro, do rádio do carro ia para o salão de festas, do salão de festas ia para o casamento, do casamento ia ao churrasco de domingo. Era aquela hora em que o pessoal já tinha comido, o gelo tinha acabado e alguém aumentava o volume.

Todos cantavam, inclusive quem jurava que não gostava. O álbum chama-se Mistura Brasileira. Saiu pela Som Livre com produção de Aramis Barros. E o que aconteceu com este disco entrou para história da música brasileira por um motivo muito específico. Foi o primeiro álbum de samba a passar de 1 milhão de exemplares vendidos.

O primeiro em toda a história do género e não se ficou pelo milhão, chegou perto de 15 milhões. Eio. Agora percebe o peso disso. Não existia streaming, não existia download, não existia um vendedor ambulante com um CD pirata em cima do pano na calçada. 15 milhões e meio de cópias significa 15 milhões e meio de pessoas que levaram dinheiro de verdade do bolso, foram a uma loja e compraram aquele vinil uma a uma.

e tem um número que resume melhor do que qualquer explicação. Em 1985, o AGP era o terceiro artista que mais vendia discos no Brasil inteiro. Na frente dele só tinha duas coisas, o Roberto Carlos e a Turma do Balão Mágico. Isso mesmo, um sambista do morro do Juramento que as estações de IFM tratavam como se não existisse, vendendo mais do que praticamente todo o resto da música brasileira.

Só que tinha uma coisa naquele arranjo que ninguém do samba tinha feito antes. Teclado. Parece disparate hoje, mas naquela época era quase heresia. Samba gravava-se com cavaquinho, surdo, tamboril, pandeireta, bateria de escola. Era assim. E já está. E o AGP detestava barulho. Ele dizia que com todas as letras.

Tinha o horror a barulho. Então, montou uma banda que era outra coisa: guitarra, contra baixo, bateria, teclado e coro. Deixa-me te amar. Foi pioneira na utilização de teclado dentro do samba. O homem que a crítica chamava de antiquado estava a fazer o samba mais moderno do país. E no palco ele apareceu da forma que ficou marcado na retina de quem viu fato de cetim branco, sapato de cromo branco a condizer, luz a bater em cima.

Quanto mais disco vendia, mais gente ficava incomodada. E em janeiro de 1986, este incómodo chegou à banca de jornal da esquina. 29 de janeiro de 1986, banca de jornal todo o Brasil. Na capa da Veja, o AGP, a chamada O Samba Romântico Explode com AGP. Pensa no caminho que este homem fez. Barraco no morro do juramento, pai morto cedo, mãe empregada de limpeza, menino escondido dentro de mala na central do Brasil.

40 e poucos anos depois, capa da revista que a classe média lia no consultório do dentista. Dentro da reportagem, não não fez cerimónia nenhuma. Perguntaram o que achava do seu próprio sucesso e ele respondeu que aquilo era coisa de fenómeno e emendou dizendo que era o terceiro maior vendedor de LPS do país. Atrás só do Roberto Carlos e da turma do Balão Mágico.

Não era a Brava, era a conta certa. Na mesma reportagem, quem explicou melhor o que estava a acontecer foi a Bet Carvalho. Ela disse, sem ofensa e sem elogio, que os sambistas que ela e o Martinho da aldeia gravavam tinham a cara do povão, enquanto o AGP e os românticos falavam com o homem médio e que era exactamente daí que vinha o sucesso.

Traduzindo para português da mesa de bar, o AGP achou o brasileiro que ninguém estava a cantar. o sujeito que trabalhava a semana inteira, que tinha mulher, filho e prestação, e que no sábado à noite queria uma música para dançar agarrado. Mas dois anos antes desta capa, ainda em 1984, com a ditadura de pé e a mesma música a tocar na novela, esse mesmo homem tinha-se metido numa situação bem menos glamurosa.

A GP e Canário foram chamados a explicar perante militares o que exatamente queriam dizer com aquela letra. A acusação era de que me deixa te amar pregava o sexo e fomentava a pornografia. Imagina a cena. Dois sambistas sentados de um lado, homens fardados do outro e tendo os dois que dsear metáfora de música romântica, verso a verso, explicando o que era a figura de retórica e o que não era, com a carreira, dependendo daquilo, um samba de amor considerado ameaça.

E deu no que deu. A música que quiseram enquadrar como imoral tornou-se o maior sucesso comercial da história do samba brasileiro até então. Só que existia um preço nisto tudo e o AGP pagou-lhe por inteiro, porque o mesmo país que estava comprando 1 milhão e meio de exemplares do disco dele tinha uma outra metade que nem queria ouvir falar o nome do homem.

Sambão jóia. Foi esse o nome que colaram naquilo que fazia. E não era um elogio, não era carimbo. Era o modo educado de dizer brega, ultrapassado, música de gosto duvidoso. O resultado prático desse carimbo era simples. As rádios FM não tocavam, simplesmente não tocavam. A A FM era o território do rock nacional, do pop, do que se considerava moderno naquele Brasil dos anos 80.

O AGP ficou do lado de fora, empurrado para o AM, para o rádio de cozinha, pro rádio de oficina mecânica. Roqueiro fazia piadas com ele, intelectual, torcia o nariz, crítico de jornal, tratava o seu trabalho como coisa mais pequena, música feita para vender e nada além disso. E aqui precisamos pôr os dois lados na mesa, porque tem os dois, há quem diga que foi puro preconceito de classe, que o Brasil culto simplesmente não suportava que o gosto do povão vendesse mais do que o gosto dele e que chamar-lhe brega era um forma elegante de dizer que aquilo era

música de pobre. Mas há também quem argumente que a questão era estética, não social, que o samba romântico dos anos 80 tinha realmente uma fórmula repetida. arranjo padronizado, letra de esquema e que a crítica só estava fazendo o trabalho dela. Quem tem razão? Fica a pergunta para si aí em baixo nos comentários.

O facto é que viveu a contradição mais estranha que um artista pode viver. Vender mais do que quase todo o mundo no país e ao mesmo tempo não ser levado a sério por ninguém que decidia o que era boa música no Brasil. E aí a história dele torna-se mais desconfortável, porque contar apenas o lado bonito de uma pessoa não é contar uma história, é fazer propaganda.

E aqui contamos, existe um registo na Folha de São Paulo sobre a sua segunda mulher, Érica Valéria. Ela apresentou queixa numa esquadra do Rio acusando o AGP de injúria e apresentava marcas de um soco na face. Ele tinha na altura 43 anos, ela 28. Este é o facto documentado. A queixa existiu, foi registada e foi noticiada. E é só é isso que existe.

Não há registo público de julgamento, de condenação, divertimento dele sobre o episódio, nem de como aquilo terminou. Ficaram casados ​​até à morte deste, 10 anos depois. O que aconteceu dentro daquela casa naquela noite e no que deu a seguir é uma página que ninguém preencheu. Fica registado do jeito que está.

um homem que o Brasil inteiro amava cantando o amor. E uma noite em que a sua mulher saiu de casa e foi até uma esquadra. Enquanto isso, do lado de fora, o chão começava a mexer. Chegaram os anos 90 e o mercado virou. O pagode tomou conta, veio gente nova, som novo, público novo. O samba romântico que tinha dominado a década anterior foi ficando para trás.

Ele continuou a gravar. Saiu leva-me em 1992. Depois, feliz da vida, em 1994, que seria o último disco de estúdio da vida dele. Bons discos, feitos com cuidado. Só que o estrondo de mistura brasileira não voltou mais e o corpo também começou a cobrar. úlcera, diabetes, problema de fígado, tudo juntos, tudo ao mesmo tempo.

Agora, a pergunta que ninguém fez naquela altura e que continua sem resposta até aos dias de hoje. 1 milhão e meio de discos vendidos, capa de revista, novela da Globo, espetáculo por todo o canto do Brasil, do Acre ao Nordeste. Onde está o dinheiro? Comecemos pelo que se pode ver. O luxo do AGP tinha uma imagem e essa imagem era o palco.

Fato de cetim branco inteiro, brilhando debaixo da luz. Sapato de cromo branco da mesma cor, a combinar com o fato. Nada de camisa aberta, sem corrente grossa no pescoço, nada de suar em cima do palco. Subia arrumado como quem vai a um casamento chique. E não era pormenor de vaidade, era declaração, porque o resto do samba nessa altura subia de outro jeito.

Bateria de escola, miniateria, cavaquinho, suor, camisa colada ao corpo, aquela coisa quente e ruidoso que é o samba na quadra. O A AGP montou o oposto disso. Violão contra baixo, bateria, teclado e um coral atrás. Uma banda de estúdio em cima do palco. O homem tinha horror ao barulho e transformou esse horror em assinatura. Naquele Brasil era quase uma provocação.

Ele estava a dizer, sem falar que samba também podia ser sofisticado, que dava para ser do monte e usar cetim branco no palco. E o público comprou. comprou 15 milhão e meio de vezes. Aí você pergunta: “Mas então o gajo ficou rico? Onde estão as casas, os carros, os terrenos, a quinta no interior, o apartamento na praia? E aqui esta história tem um buraco que nada preenche.

Não existe registo público nenhum sobre o património do AGP. Nenhum. Procura em acervo de jornal, procura em revista da época, procura em reportagem de depois da sua morte. Não tem levantamento de fortuna, não tem lista de imóveis, não tem carro, não tem inventário divulgado, não há luta de herança numa página de jornal. O recordista de vendas do samba brasileiro é um homem sobre quem o Brasil nunca contou o dinheiro.

E o mais impressionante é que ele próprio já tinha dado uma pista disso muito antes de para ficar famoso numa entrevista da época em que ainda estava a começar. Perguntaram do lado financeiro da carreira e ele desconversou. disse que o compromisso com o público vinha em primeiro lugar e que o dinheiro vinha depois e completou com uma frase que hoje pesa de forma diferente.

O dinheiro não é tudo. Que ele valorizava mais a paz, a tranquilidade e fazer aquilo de que gostava. Há quem ouça isto e veja um homem íntegro que nunca correu atrás da fortuna e nunca fez questão de contar dinheiro em público. E há quem ouça isto e veja outra coisa. Veja um artista da época em que contrato de gravadora era um papel que o cantor assinava sem advogado e sem compreender direito, e em que o direito de autor chegava tarde, chegava pouco ou não chegava.

Ele próprio, naquela mesma entrevista, queixou-se que a questão dos direitos de autor no Brasil era séria e que recebia pouco. Qual das duas versões é a verdadeira? Talvez as duas. O que se sabe é o seguinte: no meio dos anos 90, com o mercado virado e a saúde piorando, continuava a ir pra quadra da Portela como sempre foi, o mesmo lugar de sempre, a mesma turma de sempre.

E foi aí, numa noite de Agosto de 1995, que aconteceu a coisa mais bonita e mais cruel desta história toda. Quadra da Portela. Agosto de 1995. Disputa, enredo para o carnaval do ano seguinte. Aquele ritual que quem é de escola de samba conhece de cor. As parcerias defendendo o seu samba, a quadra cheia, o povo a cantar junto e no fim uma só vencendo.

O samba que venceu chamava-se Essa Gente bronzeada mostra o seu valor. Assinado pela AGP, Canário e Biracaboclo, com 53 anos de idade. Uma vida inteira dentro da Portela. Desde miúdo na ala dos compositores, num ensaio, num desfile, numa madrugada de quadra. E finalmente ia acontecer. O samba dele ia descer a Sapucaí, o sonho da vida ali realizado naquela noite, com o povo a cantar na cara dele.

Faltavam poucos dias. No dia 27 de agosto de 1995, foi internado na clínica São Bernardo, no Rio, úlcera gástrica agravada pela diabetes. No dia 28, entrou em coma. Dia 30 às 19h30 morreu três dias. foi apenas o que separou a maior alegria da sua vida do fim de tudo. E é justo dizer que as fontes divergem sobre o que exatamente o levou.

O obituário da Folha de São Paulo, publicado no dia seguinte, fala em coma profundo, provocado por úlcera gástrica, problemas de fígado e diabetes. Outras fontes falam em cirros, as duas coisas conversam entre si, mas o registo não é único. Ele foi sepultado no cemitério de São Francisco Xavier. no Caju.

E a manchete do Jornal do Brasil de 1 de Setembro de 1995 resume a despedida em quatro palavras que dizem tudo sobre quem ele era para aquele país. Multidão enterra a GP com samba. Não foi um enterro de silêncio, foi enterro de samba. No Carnaval de 1996, a Portela desceu a Sapucaí com o samba dele. Outro cantou por ele.

O intérprete foi o Richa. A escola ficou em segundo lugar. O AGP nunca ouviu o seu próprio samba na avenida. Mas esta história não termina em 1995. Em agosto de 2019, 24 anos depois dessa noite na clínica de São Bernardo, uma cantora pernambucana chamada Duda Bit regravou Deixa-me amar-te. Versão nova, roupagem pop, som eletrónico.

E a música entrou na senda do Bom Sucesso, novela das sete da Globo. Repara na simetria. Uma novela da Globo levou aquela música para dentro da casa do brasileiro em 1984. E outra novela da Globo levou a mesma música para dentro da casa de outra geração. 35 anos depois. A Duda contou que aquela música fazia lembrar as serestas de domingo em casa do avô dela.

Adolescente que nem sequer era nascido. Quando o AGP morreu, passou a cantar uma melodia feita por um rapaz do monte do Juramento, que aprendeu a guitarra sozinho, catando em livro e parando a agulha do disco. E é aí que esta história fecha, porque nós passámos 20 minutos, não é, à procura do que o AGP deixou.

Procurou casa, procurou carro, procurou conta, procurou inventário, não não encontrou nada. Não existe registo de nada disso, mas talvez estivéssemos procurando no lugar errado o tempo inteiro. O homem deixou uma música que atravessou 35 anos e continua a tocar. Deixou um recorde que ninguém tinha feito antes dele no samba. Deixou um caminho aberto para que o sambista pudesse cantar o amor sem pedir desculpa por isso.

Fortuna a gente não encontrou. Herança a gente encontra cada vez que aquela música começa a tocar algures no Brasil.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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