POR DENTRO DA CASINHA ABANDONADA POR CLARA NUNES APÓS SUA MORTE — VEJA O QUE ENCONTRARAM LÁ DENTRO – H

Ah, Clara Nunes. Conto de areia a tocar no rádio do carro numa estrada [música] de domingo. O pai a conduzir e ninguém falando nada. É água no mar, é água no mar. É mar [música] cheia [canto] ho morena de Angola a escapar do rádio da cozinha enquanto a panela de pressão apitava. Morena de Angola que leva o chucalho amarrado [música] na canela.

Será que ela mexe o chucalho? E o canto das três raças, essa voz subindo, arrepiando toda a gente que estava por perto. Um canto de revolta pelos ares do quilombo dos palmares, onde se refugiou. Foi a maior cantora de samba que este país já teve. Vendeu [música] disco como poucas mulheres venderam. Encheu o teatro, viajou pelo mundo, [a música] tornou-se nome de rua no Rio.

E é fácil imaginar o que veio junto com tudo isto. Fortuna, casa grande, imóvel de sobra, é o que qualquer um pensaria. Só que tem uma parte desta história que quase ninguém te contou. Em Minas Gerais existe uma casa simples de portas para a rua, daquelas de Vila Operária. Foi aí que a Clara nasceu, cresceu, perdeu o pai, perdeu a mãe e aprendeu a cantar.

Depois [música] que ela morreu, aquela porta fechou-se e esteve fechada durante décadas, com o mato batendo na janela e entulho até [música] o teto. Até que um dia entraram lá dentro. E eu vou mostrar-te tudo, cômodo por quarto. O que encontraram naquela casa, o que sobrou de verdade da menina que ali viviam, o que essas paredes esconderam este [música] o tempo todo? E uma coisa sobre o proprietário daquele imóvel que te vai apanhar de surpresa, porque não é a família dela e não é a câmara municipal.

Mas antes [música] de abrir essa porta, vamos relembrar junto a história desta mulher, as canções, a voz, a menina de [música] Minas que se tornou rainha. Deixa o telefone de lado uns minutinhos e vem comigo. Porque tudo isto começa num lugar chamado Cedro, no interior de Minas, muito antes da Clara existir.

Ela vinha aqui, mas não se restringia. ficar só em camarote ou dentro da quadra. Ela falava com com o pessoal da comunidade. [música] Nunca vi coisa mais bela. Cedro, pequeno distrito de Minas, colado numa fábrica de tecidos destas que sustentavam toda a cidade. Agosto de 1942, nasce aí a mais nova de sete irmãos, filha do Manoel, o Mané serrador, que serrava a madeira para cedro e cascata, e da dona Amélia.

Aqui no canal já contou esta vida inteira com calma num vídeo só dela. Hoje é diferente. Hoje eu vou passar rapidamente por essa parte, porque o verdadeiro assunto é outro. Mas passar rápido não quer dizer passar por cima. Clara tinha do anos quando o pai morreu. Pouco tempo depois foi a mãe de cancro. Aos 6 anos, aquela menina já não tinha nem pai nem mãe.

Sete crianças órfãs numa casa de uma vila operária e naquele Brasil [a música] dos anos 40 tinha um caminho quase certo para uma situação assim: separar tudo, espalhar as crianças pelas casas dos parentes, cada um para o seu canto. E depois acontece uma coisa [música] que muda a história. A irmã mais velha, a Maria Gonçalves, que todos chamavam de Mariquita, e o irmão José o Zé Chilau, [música] decidiram que ninguém ia sair dali.

Assumiram os menores, trabalharam, criaram, educaram, seguraram aquela família com as próprias mãos dentro daquela mesma casa. E foi ali [música] que a voz apareceu. Clara cantando ladaainha em latim no couro da igreja, menina, decorando palavra que ela nem entendia bem. Aos 14 anos, entra na fábrica. Tellã, a mesma empresa onde o pai tinha trabalhado.

[música] O destino parecia escrito e toda a gente daquela aldeia sabia qual era. Fiar [música] algodão até envelhecer. Só que aos 16 ela apanhou um autocarro para Belo [música] Horizonte, fez um curso normal à noite, descia de dia, cantava no coro Renascença. Em 1960 ganhou [música] a etapa mineira de um concurso de caloiros. Depois veio a Rádio Inconfidência.

[música] Depois, um programa com o nome dela na TV Itacolomi. E de Minas [música] ela foi para o Rio de Janeiro. Chegou a viver de vaga na Barata Ribeiro em Copacabana. Um quarto dividido, sem nada de seu. Foi ali naquela rua que [música] ela viu o mar pela primeira vez na vida, uma mineira de uma fábrica de tecido parada na areia, a olhar para aquilo.

Cantou bolero num programa de auditório, Chacrinha, José [música] Messias, aquela turma. Discoteca de subúrbio, palco pequeno, público distraído. Em 1966, gravou o primeiro disco, Voz linda, escolha errada, falhou. E foi exatamente esse fracasso que empurrou a Clara para o lugar onde ia virar outra coisa, porque no início dos anos 70 ela largou o bolero e foi para o samba.

E o O mercado brasileiro nunca mais foi o mesmo depois disso. 1972, festival de música popular em Juiz de Fora. Clara sobe ao palco e canta tristeza pé no chão. Ganha. [música] O compacto sai nas lojas e passa de 100.000 exemplares vendidos. Hoje este parece número normal, mas naquela altura era uma barreira que nenhuma cantora brasileira tinha atravessado.

E existia uma frase que rodava dentro das gravadoras dita com a maior naturalidade do mundo, as mulheres não vendem discos. Clara enterrou esta frase com um compacto só. Em 74 surge o disco alvorecer com um conto de areia. E conto de areia tornou-se aquilo que ninguém consegue explicar bem. [música] A música que toca na rádio do automóvel e o condutor aumenta o volume sem pensar. Passou de meio milhão de exemplares.

É água no mar. É água no mar. [canto] É mar cheia. [música] O disco seguinte, Claridade chegou perto de 600.000. Presta atenção a este número. [música] Nessa altura, no Brasil inteiro, só um artista tinha alcançado esta marca antes dela, Roberto Carlos, uma mineira que era tecedeira de fábrica aos 14 anos, chocando de frente com o rei.

E depois veio uma sequência, que quem tinha rádio ligado nos anos 70 viveu de perto. O canto das três raças, aquela voz a abrir, arrepiando. Um canto de revolta pelos ares [música] do quilombo dos palmares, onde se refugiou. O mar serenou, que se transformou em música obrigatória de uma roda de samba no quintal, cerveja na mesa, prato e faca a marcar o ritmo.

Morena de Angola que se colava à cabeça e não mais saía. [música] Morena de Angola que leva o chucalho atado na canela. Será que [música] ela mexe o chucalho? Feira de mangaio, guerreira. Brasil mestiço de 1980. Mas há uma parte desta história que não é sobre música. Clara virou o rosto de uma coisa maior. Ela subia ao palco de branco, coberta de guias e colares e não escondia de ninguém aquilo em que acreditava.

Numa época [música] em que muita gente fazia questão de esconder, ela cantava candomblé em [música] rede nacional, em programa de auditório, na sala da casa de milhões de brasileiros no domingo à tarde. E o Brasil abraçou, somando a carreira inteira. Foram mais de 4.400.000 discos vendidos, mais de 18 discos de ouro pendurados.

Em 82, ela fez uma digressão no O Japão do outro lado do mundo, cantando samba para a plateia, que não falava uma palavra de português. Ela e o marido, o Paulo César Pinheiro, chegaram a ter um teatro com o seu nome no Shopping da Gávia, na zona sul do Rio. A imprensa da época tinha uma alcunha para ela. Chamavam à Clara uma máquina de fazer dinheiro.

Guarda esta expressão porque a gente vai voltar a ela daqui a pouco. Agora, com tudo isto, o teatro, [a música] os discos de ouro, os milhões de cópias, o Japão, pode imaginar-se exatamente o tipo de património que esta mulher construiu. Só que lá nas Minas, naquela vila operária onde tudo começou, tem uma casa que conta uma história completamente diferente.

E o dono dela não é quem imagina. Caitanópolis, no interior de Minas Gerais, uma rua anti antiga, [música] daquelas de pequena cidade, no meio da antiga aldeia operária da fábrica de tecidos. É ali que fica em a casa terrea, de porta e janela para a rua, no meio de uma fila de casas iguais. Nada de portão, nada de jardim, nada de recu.

Você abre a porta e já está na calçada. E agora vem a informação que quase ninguém sabe sobre essa casa. Ela nunca foi da família da Clara. Aquela casa pertencia à companhia de fiação e tecido de cedro e [música] cascata, a fábrica. Nos anos 30, a empresa levantou uma aldeia inteira de casas ali e entregava uma a cada encarregado morar enquanto trabalhasse para ela.

Era assim que funcionava naquele Brasil. Não recebia só salário, recebia um teto. E o teto continuava a ser do patrão. O Manuel, o Mané [música] serrador, era serrador da cedro. Foi assim que ganhou aquela casa para [música] criar os sete filhos dentro. Quer dizer, a maior cantora de samba que este país já produziu nasceu numa casa que era da empresa onde o pai batia o ponto. E vejam o tamanho da ironia.

Aos 14 anos, a Clara entrou para trabalhar de Tcelã nessa mesma fábrica. Vivia numa casa do Cedro. Trabalhava dentro da Cedro. Vila Operária de Minas era isso. A empresa [música] era dona do lugar onde se dormia. do local onde comia, do local onde acordava às 5 da manhã. Só que há uma coisa nesta história que é ainda mais estranha.

Passaram-se os anos, a Clara passou a ser a Clara Nunes, vendeu 4.400.000 discos, ganhou 18 discos de ouro. Foi chamada de máquina de fazer dinheiro pela imprensa do Rio de Janeiro. [música] Cantou no Japão e nunca comprou aquela casa. Nunca. A casa onde ela nasceu, onde perdeu o pai, onde perdeu [música] a mãe, onde os irmãos se seguraram para não deixar a família se desmanchar, continuou a ser da fábrica todo este tempo, até hoje.

[música] Tem quem diga que faz sentido. Ela saiu de aí aos 16, refez a vida no Rio. A família toda se tinha mudado. Comprar aquilo seria [música] comprar recordação. Há quem argumente o contrário, que com o dinheiro que ela ganhava, aquela casa não custaria nada perto do que representava? E aí fica a questão para você.

Ora, se a casa não era dela, uma pergunta óbvia aparece. [música] Quanto a Clara tinha? Então quanto sobrou? Quanto valia o património desta mulher que vendia discos como poucos no Brasil? E é aqui que a história se trava, porque não existe. Não existe um único documento público com o valor da fortuna da Clara Nunes. Nenhum inventário [música] acessível, sem cifra oficial, nenhuma escritura, nada.

Tudo o que encontra na internet dizendo que ela tinha 20, [música] 30 milhões é chute. Texto de site automático escrito no presente sobre uma mulher que morreu em 1983. Então não te vou dar número inventado. O que tenho para te dar é uma casa, aquela casa. Porque em [música] 2022 alguém finalmente abriu aquela porta.

E o que estava lá dentro é o assunto do próximo capítulo. Entra-se e a primeira coisa que impressiona é o tamanho. É pequena, muito pequena. Aquele tipo de casa [música] onde da porta da frente se quase vê o quintal dos fundos. [música] Pé direito baixo, janela pequena, cómodo, apertado, emendado no outro.

Foi ali dentro que nove pessoas viveram. o Manoel, a dona Amélia e sete filhos. Pára um segundo e pensa nisso. A secretário de cultura da cidade, [música] quando falou sobre a casa na inauguração, utilizou exatamente essa palavra, [música] uma casa muito simples, onde o senhor Manoel e a dona Amélia criaram os sete filhos. Não tem outro maneira de descrever.

Não tem sala de visita, não tem corredor, não tem espaço sobrando para nada. [música] E o que que encontra lá dentro hoje é o retrato de uma casa mineira dos anos 40. Cama de solteiro simples, daqueles de estrutura [música] magra, sem cabeceira trabalhada, sem nada. Mesa de madeira no meio da sala, que era a mesa de comer, mesa de fazer os trabalhos de casa, mesa de conversar, [música] tudo na mesma cristaleira encostada à parede.

E quem cresceu em casa da avó sabe o peso que tinha aquela cristaleira, [música] guardar louça, que só saía dali em dia de festa. Na parede, quadro de santo. [música] Aquele quadro que existia em toda a casa daquela época, olhando para a sala de cima. Mas o que dá [a música] o retrato mais exato daquela vida, está na cozinha. Pote de água. Nem torneira, nem filtro. Pote.

Era assim que aquela família bebia água, panela de pedra para cozer o feijão, daquelas pesadas que ficavam horas no fogo e panela de ferro. E aqui tem um pormenor que muita gente nova nem sequer entende quando [a música] ouve. Panela de pressão praticamente não existia naquele Brasil dos anos 40.

Não era um item comum de cozinha de família operária. [música] Cozinhava-se numa panela de ferro no tempo que o fogo levasse. O feijão demorava a tarde inteira. [música] Aquela conveniência que hoje qualquer cozinha tem ali não existia. Vasilhame de cozinha simples empilhado. Nada de serviço de jantar, nada de talheres bonito guardado.

Nas traseiras, o quintal que hoje [a música] se tornou um pequeno palco para roda de samba, saral e apresentação. Naquela altura era só quintal mesmo. Chão batido, roupa no estendal, criança correndo. É essa a casa. sem luxo, sem segredo, [música] sem nada escondido por baixo do açoalho. E foi dali que saiu a mulher que encheu o teatro no Rio de Janeiro e cantou do outro lado do mundo.

[música] Só que há uma coisa nesta mobília que quase ninguém repara quando visita. Nada daquilo é original. Nenhuma daquelas camas foi onde a Clara dormiu. Nenhuma daquelas panelas foi a panela da dona Amélia. [música] Nenhum daqueles quadros estava ali pendurado quando a família vivia naquela casa.

Tudo o que vês lá dentro hoje foi [música] doado. Peça a peça, garimpada em pequena cidade de Minas, pedida de porta em porta para [música] população. Quem estava à frente do Conselho de Património da Cidade falou isso abertamente, [música] sem esconder de ninguém. Eles sabiam desde o início, que não iam conseguir os móveis originais.

Sabiam. saíram atrás de móveis e objetos da década de 40 em qualquer lugar onde tivesse, cama, mesa, recipiente, cristaleira, quadro de parede e pediram para quem tivesse alguma coisa daquela época do ar, porque o que era da Clara, o que era daquela família tinha desaparecido [música] muito antes.

E para compreender como uma casa inteira se esvazia desse jeito, é preciso ver como aquele lugar estava antes de 2022. Não era casa, era outra coisa. Mato, sujidade, entúho. Foram essas as três palavras que a reportagem local utilizou para descrever como estava a casa antes da reforma. Não é força de expressão minha, não é um exagero de guião.

Foi assim que registaram uma casa tomada por muito mato, sujidade e entúho. [música] O mato a subir pela parede, a janela fechada, a porta trancada e ninguém entrando ali há muito, muito tempo. Décadas. Depois de a família sair, aquela casa foi ficando para trás. [música] Como disse a própria Secretaria da Cultura, com o passar dos anos, a casa foi perdendo as características.

[música] Perder as características é uma forma educada de dizer que ela foi se desmanchando sozinha. Telhado, [música] parede, chão, tudo cedendo lentamente, do maneira que casa velha cede quando ninguém olha. E vejam o tamanho disto. A casa tinha mais de 80 anos de construída quando finalmente alguém decidiu levantá-la de novo. 80 anos.

Nesse entretanto, a Clara tornara-se a maior cantora de samba do Brasil. Morrido virou nome de rua, no Rio de Janeiro. Virado documentário, [música] virado disco relançado várias vezes. E a casa onde ela nasceu continuava lá, fechado, com o mato a bater na janela numa [música] rua de Caitanópolis. Aí, em fevereiro de 2022 iniciou-se a obra.

O custo da reforma foi de 300.000$, [música] dinheiro público que veio de emenda parlamentar. Para que tenha uma ideia do que isso significa na [música] pequena cidade de Minas, é mais ou menos o valor de uma casa de padrão médio na mesma região. Só que gasto para recuperar uma casa de vila operária de dois quartos.

E é aqui que surge a parte mais estranha desta história toda. A câmara municipal não podia simplesmente renovar aquela casa porque, como eu te contei, aquele imóvel não é da família da Clara e nunca foi da câmara municipal. É da Companhia de Fiação e Tecido Cedro e Cascata até hoje. Então, o que aconteceu foi um acordo.

[música] A empresa cedeu o uso da casa pro concelho durante 21 anos. 21.º Ou seja, a autarquia pode usar, pode abrir para visitação, pode fazer um workshop lá dentro, [música] pode contar a história da Clara ali, mas o imóvel continua a ser da fábrica. Quando esse prazo terminar, a conversa recomeça. A casa onde nasceu a rainha do samba brasileiro é emprestada.

[música] Antes disso, em 2003, a casa já tinha sido classificada por decreto municipal, reconhecido oficialmente como património da cidade. Só que o tombamento no Brasil, sabe, a obra saiu em 2022, 19 anos entre uma coisa e outra, com o mato a crescer no meio. A inauguração foi no dia 7 de agosto de 2022, [música] um domingo, a abrir o 17º Festival Cultural Clara Nunes. E houve um motivo paraa data.

Era o ano em que ela completaria 80 anos. Houve roda de samba, houve coral, houve teatro musical, houve gente da cidade inteira na rua. Só que quando abriram a porta paraa visitação tinha [música] um problema. A casa estava pronta e vazia. Parede pintada, telhado novo, chão arrumado e sem móveis no interior.

Foi aí que o Conselho do Património fez o pedido que te contei [música] no capítulo passado. Apelou à população do Ar Mobiliário dos anos 40, cama, mesa cristaleira. Basilhame, quadro de santo, pote de água, uma cidade inteira mobilando a casa da menina que saiu daí aos 16 anos. Há [música] quem ache isto lindo, a comunidade a juntar-se para reconstruir a memória de uma filha da terra.

E há quem olhe para isto e pergunte porque foi necessário esperar 40 anos e uma emenda parlamentar para alguém abrir aquela porta. [música] Fica a pergunta para si. Mas agora vem a parte que talvez explique o silêncio de todos estes anos. Porque para compreender por aquela casa ficou abandonada tanto tempo, temos que voltar para março de 1983 e falar [música] do dia em que tudo parou.

5 de março de 1983. Clara tinha 40 anos. Estava no auge absoluto da carreira com um disco a vender e digressão marcada. Ela entrou numa clínica na Gávia, no Rio, para fazer uma cirurgia de varizes. Cirurgia comum daquelas que toda a gente conhece alguém que fez, só que o corpo dela reagiu ao anestésico.

Foi uma reação violenta, do tipo que ninguém consegue prever antes. O organismo simplesmente não aceitou aquela substância. [música] O coração parou ali na mesa e começaram 28 dias. 28 dias de coma, quase um mês com o Brasil inteiro parado, à espera de notícia na rádio, na televisão, no jornal da manhã, fã à porta da clínica. Reza, promessa, [música] gente a acender vela.

Ela não voltou. Clara Nunes morreu na madrugada [música] do dia 2 de abril de 1983, aos 40 anos. O velório foi na quadra da Portela [música] e ali aconteceu uma coisa que dá a dimensão exata do que aquela mulher representava. 50.000 pessoas foram despedir-se dela. 50.000 mais gente do que cabe em muito estádio de futebol daquele país, na quadra de uma escola de samba, num subúrbio do Rio de Janeiro, num sábado.

Depois disso, a rua da quadra da Portela [música] passou a passar a chamar-se Rua Clara Nunes. Agora, e o resto? Porque a essa altura deve estar a perguntar-se: “E as casas do Rio? Onde é que ela morava de verdade?” E aqui vou ser honesto consigo, porque é assim que trabalhamos aqui no canal. Circulam três endereços ligados a Clara na cidade do Rio de Janeiro.

[música] Uma casa no Jardim Botânico, onde ela teria vivido até à morte. um apartamento em Ipanema que ela teria comprado com o dinheiro de um espetáculo de teatro [música] e um endereço em Copacabana, onde teria vivido antes. Fora um sítio em Jacarpaguá, onde ela se casou com Paulo César Pinheiro em 1975. Repara que eu disse teria o tempo todo, porque é isso que existe, relato.

Não tem escritura pública, não tem registo de propriedade acessível, não tem documento nenhum que confirme que aqueles imóveis estavam em nome dela. E o que aconteceu com eles depois? Se foram vendidos, quem ficou, quanto valiam? Ninguém consegue dizer com documento na mão. Eu prefiro dizer-te isso na cara do que inventar história para encher vídeo.

Então, o que resta de verdade da Clara Nunes? Não foi tijolo. O seu viúvo, o Paulo César Pinheiro, fez uma coisa que praticamente encerrou qualquer conversa sobre querela de herança. Ele doou o acervo pessoal da Clara, doou à irmã dela a Mariquita [música] e para a cidade de Caetanol, figurino de palco, discos de ouro, fotografia, recorte de jornal, colar, guia, santo, sapato, bolsa, documento pessoal, objeto de casa.

Tudo isto hoje está no Memorial Clara Nunes, na sua cidade natal. Mais de 6.000 peças catalogadas e tem ainda coisa à espera de ser contada. [música] Houve gente da universidade ajudando na catalogação e quem coordena o acervo hoje é um sobrinho da Clara. Uma cantora que vendeu 4.400.000 discos, deixou como património visível uma casa emprestada e 6.

000 objetos guardados numa pequena cidade de Minas. Mas há uma última parte. A Clara era intérprete, não compositora. Intérprete tem direito sobre a gravação, aquilo que a lei chama de direito conexo. São mais de 200 gravações em nome dela. Cada vez que conto de areia passa hoje na rádio. [música] Cada vez que o mar serenou entra numa novela.

Cada vez que alguém carrega no play em morena de Angola no telemóvel, hoje, agora, neste momento, esse dinheiro continua a ser pago e vai para os herdeiros dela, para os sobrinhos, incluindo os três, que formaram um grupo musical e passaram a carregar o nome da tia. 43 anos depois de morrer, a Clara ainda sustenta a própria família.

E é aí que toda esta história ganha um sentido que confesso que não esperava quando Comecei a pesquisar. Pensa comigo, a casa onde a Clara nasceu não era dela, era da fábrica. Continua sendo até hoje emprestada por 21 anos. Os móveis que estão lá dentro não são dela, [música] são doados, garimpados de porta a porta numa pequena cidade de Minas.

As casas do Rio, aquelas que a gente imagina quando pensa em cantora famosa, ninguém sabe dizer com o documento na [música] mão o que aconteceu com elas. E mesmo assim, mesmo assim há uma cidade inteira que se mexeu para voltar a levantar aquela casa. Tem 6000 objetos guardados com cuidado. Tem uma família que continua a carregar esse nome.

Tem uma voz que não parou de tocar um único dia desde 1983. Talvez seja isso. A gente passa [música] a vida a pensar que o que fica é o que se compra. A casa própria, a escritura [música] no nome, o imóvel para os filhos. E é uma coisa boa de se querer, não há nada de mal nisso. Só que a Clara saiu de uma casa que nunca foi sua, [música] com 14 anos de fábrica nas costas e dois pais sepultados, e deixou uma coisa que escritura nenhuma segura.

O que ficou dela não tem parede. [música] E o mais bonito é que começou com dois irmãos, a Mariquita e o Zé Shilau, decidindo que aquelas sete crianças não se iam separar sem dinheiro, sem casa própria, sem nada. Foi essa decisão que segurou tudo. Agora quero saber de ti o que mais te pegou nesta história? Foi descobrir que a casa nunca foi da família e é da fábrica até hoje? Foi ver aquela casa fechada tomada pelo mato durante décadas? Ou foi saber que nenhum móvel lá dentro é original, que tudo foi doado pela

população? Escreve lá em baixo, eu leio todos. E se esta história te tocou de alguma forma, deixa o like e subscreve no canal, porque tem muita história destas ainda para contar.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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