A Horrivel Verdade Sobre a Hospitalização de Silvio Santos

A Horrivel Verdade Sobre a Hospitalização de Silvio Santos

17 de agosto de 2024, 4:50 da madrugada, no quarto privativo de um hospital em São Paulo, o homem mais conhecido da televisão brasileira parou de respirar. O Brasil ainda dormia. A família já sabia, havia horas. E a notícia que ia chegar pela manhã ia confirmar o que poucos sabiam. O dono do SBT estava internado havia mais de duas semanas e a primeira versão pública da própria emissora dele tinha sido negar que ele estivesse ali.

 O nome dele era Senr. Abravanel. O Brasil sempre chamou por Silvio Santos. Tinha 93 anos. Estava internado havia 16 dias. E pouco mais de um mês antes, quando os primeiros sintomas começaram, o próprio SBT tinha negado publicamente que ele estivesse no hospital antes de voltar atrás, algumas horas depois, e confirmar a internação por H1N1.

Fica até o final, porque você vai entender porque o homem que fez o Brasil rir todas as noites, por 65 anos, morreu cercado pelo mesmo silêncio que ele tinha construído em vida. E qual é o sombrio segredo por trás da última internação dele antes de chegar àquela madrugada de agosto? Tem uma coisa que você precisa entender, porque o que aconteceu no Hospital Albert Einstein com o SBT, negando a internação e depois confirmando com a família pedindo que não houvesse velório, não começou ali.

começou 62 anos antes numa pensão simples no Bexiga, em São Paulo, onde um carioca de pouco mais de 30 anos morava de aluguel e tinha acabado de se apaixonar pela filha da dona da casa e onde antes que qualquer público brasileiro descobrisse, ele tomou a primeira decisão de uma vida inteira dedicada a controlar o que o Brasil podia saber sobre ele.

 Se homem ia se casar em segredo, esconder a esposa por 15 anos, esconder as duas filhas e carregar até o fim da vida o que ele mesmo chamaria em 1988 de uma das coisas imperdoáveis que tinha feito. Senhor Abravanel nasceu em 12 de dezembro de 1930, no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. era filho de Alberto Abravanel, comerciante grego de origem judaica, e de Rebeca Abravanel, turca, também de família judia, cefardita.

 Eram sete filhos. A casa onde o Senhor cresceu era apertada, dividida com tios e primos. O pai morreu quando o senhor ainda era adolescente. E a partir daquela manhã, o menino mais velho da família virou homem na hora. Aos 14, senhor pegou um caixote, encheu de capas plásticas para títulos de eleitor e começou a vender no centro do Rio de Janeiro.

 Aprendeu no meio da multidão três coisas ao mesmo tempo: a gritar para vender, a fazer rir para segurar o público em torno do caixote e a transformar a própria voz em ofício. no centro do Rio dos anos 40, descobriu que aquela voz tinha um poder que ele ainda não entendia. Aos 18 anos, entrou na Rádio Guanabara como locutor.

Aos 22, escolheu o nome artístico que ia segui-lo o resto da vida e que substituiu para sempre o nome de nascimento, Silvio Santos. Em 1955 com 25 foi contratado pela Rádio Nacional e mudou-se para São Paulo. Alugou um quarto numa pensão da rua 13 de maio no Bexiga, num imóvel administrado por uma senhora cuja filha mais nova era telefonista e atendia o telefone de manhã.

 O nome da menina era Maria Aparecida Vieira. Os íntimos chamavam de Sidinha. Aqui é onde tudo começa. Em 1962, Silvio Santos e Sidinha se casaram em segredo e o resto da história dele é o resto de uma vida construída em torno de manter cada coisa importante fora do alcance do público, que adorava o sorriso dele todas as noites.

 Silvio explicou a decisão durante anos com a mesma frase. era apresentador de programa de auditório na TV paulista. As mulheres do público batiam palma, gritavam e mandavam beijo para ele. Se descobrissem que ele era casado, a fantasia ia acabar. Em entrevista ao jornalista Décio Pitini nos anos 60, ele justificou com naturalidade.

 As moças, segundo as palavras dele, achavam detestável bater palma para um homem que chegava em casa e abraçava a outra. Para o público feminino que aplaudia ele todas as noites, descobrir aquilo seria ridículo, humilhante, um golpe no amor próprio. Por isso, o casamento e depois as duas filhas ficaram fora dos jornais, dos programas e das colunas sociais.

 Em dezembro de 1962, nasceu Cíntia Abravanel, a primogênita. Em 1971, com sidinha desejando engravidar novamente, sem conseguir, a família Bravanel adotou uma menina recém-nascida com três dias de vida, por intermédio de uma senhora chamada Terezinha, conhecida no meio artístico paulistano pelo apelido de mãe cegonha.

 O nome dela foi Silvia. Décadas depois, Silvia revelaria no podcast Bagaceira Chique, conduzido por Luciana Jimenes, um detalhe que pouca gente conhecia. Ela tinha sido oferecida primeiro para Manuel de Nóbrega, pai do humorista Carlos Alberto de Nóbrega e amigo pessoal de Silvio. Manuel desistiu da adoção. Foi quando Cidinha pediu a Terezinha que entregasse a menina para a casa dela.

 Imagine por um momento que essa fosse a sua família. Uma esposa que ninguém pode ver, uma filha que ninguém pode contar e uma segunda filha adotada com três dias de vida que chegava em casa amarrada num coiro, porque tinha sido recusada antes. Essa era a vida dentro da casa do homem que o Brasil via na televisão todas as noites.

 No início dos anos 70, no fim de um jantar com amigos, Cidinha começou a se sentir mal. No dia seguinte foi fazer uma radiografia. O médico examinou o exame e soltou uma frase que ficou para sempre na memória da família, recontada anos depois pela ex-secretária Júnior Rosa. Tomara que seja benigno. Não era o laudo confirmou câncer no estômago.

Tinha 30 e poucos anos e começava ali a corrida contra o tempo que Silvio Santos ia perder dali a poucos anos. Silvio investiu tudo o que tinha, levou Cidinha para Nova York. A esposa ficou seis meses fazendo tratamento experimental num centro oncológico americano, inicialmente sozinha, depois com as filhas pequenas.

Voltaram ao Brasil já no fim. Cíntia Abravanel descreveu a cena anos depois num documentário sobre o pai. Lembro dele carregando ela no colo até a mesa para comer. Ele cuidou da minha mãe de verdade. Em 1977, aos 39 anos, Cidinha morreu em casa em São Paulo, 15 anos de casamento, duas filhas.

 E o Brasil inteiro descobriu da existência dela só depois do enterro. Era a primeira vez que Silvio Santos ia ter que aprender uma coisa difícil. O segredo que ele tinha guardado do por 15 anos ia voltar para ele todos os dias até o fim da vida em forma de arrependimento. 1988, 11 anos depois da morte da primeira esposa, durante uma viagem aos Estados Unidos para um tratamento médico pessoal, Silvio Santos deu uma entrevista que marcou o jeito que o Brasilia enxergá-lo dali em diante.

Falou, talvez pela primeira vez em público, sobre o arrependimento. As palavras dele transcritas naquela ocasião são essas. Quando eu me lembro que eu dizia ser solteiro, que eu escondia as minhas filhas para poder ser o galã, para poder ser o herói, quando eu falo com a minha consciência, acho que é uma das coisas imperdoáveis que eu fiz diante da minha imaturidade.

 Em 2020, num vídeo gravado durante a pandemia, ele resumiria a vida inteira numa frase: “Minha maior tristeza foi a morte da minha esposa chamada Sida. aos 39 anos com câncer no estômago. Mas o segredo de Sidinha foi só e por júnior o primeiro de uma longa série. E o que veio depois daquele luto, em três décadas de uma carreira que ia transformar Silvio Santos no homem mais influente da televisão brasileira, foi uma sequência de outros segredos que ele aprendeu a guardar com a mesma eficiência.

 Um deles, em agosto de 2001, quase custou a vida da filha favorita dele. Outro, em 2010, quase derrubou o império inteiro. E o último, em agosto de 2024, fechou o ciclo, do jeito mais sombrio que se poderia esperar, de uma vida construída em torno do silêncio. Morte de Sidinha. Em 1977, deixou Silvio Santos sozinho no apartamento dos jardins com duas meninas pequenas.

 Cíntia com 15 anos, nascida em dezembro de 1962. Silvia, com 6 anos, adotada bebê em abril de 1971. O luto foi público pela primeira vez na vida dele, porque o segredo de 15 anos tinha ficado curto demais para esconder também o enterro. As fotos da família aparecem nos jornais pela primeira vez no fim daquele ano. O Brasil descobre no mesmo movimento que o galã da TV paulista tinha sido o marido apaixonado, viúvo, precoce, pai de duas meninas.

 A imagem pública dele mudou em uma semana, mas a vida pessoal não suporta vazio por muito tempo. E o homem que ia ocupar aquele vazio já tinha aparecido antes na história de Silvio num casamento de outro homem, 10 anos antes. O ano era 1967. Silvio Santos foi padrinho de um casamento no Rio de Janeiro, onde uma noiva de 19 anos atravessou com o tapete do altar ao lado do marido escolhido. O nome dela era Iris Pássaro.

Tinha o sobrenome curioso. Aos 19 anos, naquele dia de 1967, ela apertou a mão do padrinho do próprio marido, sem desconfiar que 11 anos depois ia se casar com aquele mesmo homem. Guarde essa cena também, porque ela explica como Silvio Santos construía relações. 11 anos depois, em meados de 1978, Iris já estava divorciada do primeiro marido.

 Foi numa praia chamada Saco do Major, no Guarujá, no litoral sul de São Paulo, com acesso só por lancha, que os dois se reencontraram. Iris contou a cena em 2023, numa entrevista a Danilo Gentile, com a leveza de quem reconta uma cena de filme. Estava bronzeada comendo marisco cru. Um barco se aproximou da areia. Da embarcação desceu um homem branco, segundo as palavras dela, branquelo, transparente.

Era Silvio Santos, tinha 47 anos. era viúvo recente e carregava, segundo o que ela diria depois, a lembrança exata do dia e da hora em que tinha conhecido aquela mulher no casamento do antigo amigo. A família de Iris tentou impedir a relação. Era divorciada. Ele era 18 anos mais velho, pai de duas filhas, famoso demais para uma vida tranquila.

Silvio fez uma coisa que poucos pretendentes daquele perfil fariam. foi conversar com o pai dela. Levou também a mãe da Iris para a sala. saiu da conversa com a mensagem que mudou tudo. Segundo a versão do pai de Iris, contada anos depois pela própria, Silvio teria dito que se ela não aceitasse, ele estava disposto a levar a moça para fora do país.

 O pai voltou encantado em 1981, com três filhas pequenas já nascidas. Silvio Santos e Iris oficializaram a União em 20 de fevereiro daquele ano. Foi o segundo casamento da vida dele e o último. Naquele mesmo ano de 1981, num movimento que ninguém na imprensa esperava da velocidade que aconteceu, Silvio Santos recebeu do governo de João Figueiredo a concessão das antigas emissoras Tupi e Excelor.

 Em 19 de agosto de 1981, 2 meses depois do casamento, ia ao ar pela primeira vez o Sistema Brasileiro de Televisão. O SBT nasceu no auge da ditadura com a bênção de um general no Palácio do Planalto e com o homem mais popular da televisão, brasileira, como dono. Em poucos anos, virou a segunda maior emissora do país, encostada na liderança da TV Globo de Roberto Marinho.

 Mas tem uma coisa nessa fase que ninguém esperaria de um homem que tinha acabado de juntar tudo o que sempre quis. Em 1992, 11 anos depois do casamento, Iris Abravanel foi a uma delegacia de polícia em São Paulo e prestou queixa contra o próprio marido. O motivo, segundo o que Iris registrou em depoimento oficial, foi um ataque de ciúme.

 Silvio, segundo e relato dela, tinha abandonado a casa do casal, levando muitos objetos, inclusive obras de arte, num caminhão de mudança. A delegada registrou tudo. A imprensa especializada pegou o caso e a separação durou cerca de um ano. Depois, Silvio voltou para casa. Iris voltou a sentar ao lado dele em eventos.

 As quatro filhas continuaram crescendo no mesmo endereço. O segredo do ciúme foi tratado pela família com a mesma técnica do segredo de Sidinha. Silêncio até que o tempo apagasse a manchete. Naquela mesma casa do Morumbi, em São Paulo, foi onde nasceram as quatro filhas do segundo casamento. Daniela, em 11 de julho de 1976.

Patrícia em 4 de outubro de 1977. Rebeca em dezembro de 1980. Renata, em março de 1985. Cíntia e Silvia, as filhas mais velhas do casamento com Cidinha, foram criadas como irmãs das mais novas. Seis filhas no total, uma casa, um patriarca que controlava o que cada uma podia falar para um pré paraa imprensa e uma rotina familiar que para fora parecia o sonho doméstico de qualquer brasileiro.

 Até que num dia de agosto de 2001, esse sonho doméstico recebeu um telefonema que mudou tudo e que ia testar pela primeira vez o limite do silêncio que Silvio Santos tinha aprendido a impor de agosto de 2001, Patrícia Abravanel, na época com 23 anos, saía da mansão do Morumbi em direção ao trabalho. Era amanhã. Patrícia trabalhava na produção do SBT.

O carro dela era um Passate azul. O motorista pessoal dirigia. A rotina de uma das filhas do homem mais conhecido do Brasil incluía guarda particular, mas naquela manhã o esquema falhou. Na saída do condomínio, seis homens armados interceptaram o carro, renderam o motorista no banco da frente, tiraram Patrícia do banco de trás e levaram a filha de Silvio Santos para um cativeiro apenas 10 km de distância da própria casa.

 A família foi avisada na mesma manhã. Os sequestradores ligaram exigindo o resgate de R$ 500.000 R$ 1.000 em espécie, silêncio absoluto da imprensa e que ninguém da família tentasse manobrar pela polícia. A Polícia Civil de São Paulo entrou no caso. A Polícia Federal ofereceu apoio. O caso, mesmo assim ficou em sigilo nos primeiros dias.

 No SBT, a programação foi alterada sem aviso. O show do Milhão, o principal programa de Silvio na época, e o sorteio da tela e cena, não foram exibidos no domingo seguinte, 26 de agosto. O Brasil estranhou, as colunas começaram a especular. A TV Globo, emissora rival, foi obrigada a quebrar o próprio protocolo interno de cobrir casos envolvendo concorrentes e dar a nochuk dar a notícia.

 Estava sequestrada uma das filhas do dono do SBT e a família estava negociando o resgate no maior silêncio possível. O cativeiro durou uma semana. Patrícia foi mantida em uma casa simples, num bairro periférico de São Paulo, a apenas 10 km da mansão do Zabravanel. Os sequestradores trataram dela com algum cuidado, segundo o que ela contaria depois, sem feri-la nem humilhá-la fisicamente, mas mantendo-a vendada na maior parte do tempo e falando com ela apenas através de máscaras.

 Patrícia, evangélica, passou a semana de cativeiro rezando. Tinha 23 anos. Era a quarta das seis filhas de Silvio e era apontada pela imprensa, mesmo antes do sequestro, como uma das mais próximas dele. Na madrugada do dia 28 de agosto de 2001, o resgate foi pago R$ 500.000 em dinheiro vivo entregues numa transferência negociada por intermediários.

 Pouco depois, Patrícia foi colocada, vendada no banco do carona do próprio Passate azul dela e levada para Marginal Pinheiros. Os sequestradores pararam o carro, abriram a porta e mandaram que ela esperasse 5 minutos antes de tirar a venda. Em torno das 2:50 da madrugada, Patrícia chegou em casa por conta própria. A família abraçou ela na porta.

 Naquele momento, a história parecia ter um final feliz. Na tarde do mesmo dia, Silvio e Patrícia deram uma coletiva de imprensa na varanda da mansão. Patrícia disse, em tom religioso, que perdoava os sequestradores. Silvio agradeceu o Brasil pelas orações, mas a história não tinha terminado. tinha apenas pausado por algumas horas, porque o homem que coordenou o sequestro de Patrícia Abraanel ainda não tinha sido preso e ele tinha um plano para amanhã seguinte que ninguém naquela varanda imaginava. O nome dele era

Fernando Dutra Pinto. Tinha 22 anos. Era o irmão mais velho de outro dos sequestradores presos pela polícia naquela mesma semana. estava com a namorada, conhecida pelo apelido de Jennifer, e estava com os R$ 500.000 do resgate. Naquela mesma noite de 29 de agosto, ele se hospedou num hotel em Alfaville, em Barueri.

 A polícia descobriu o paradeiro, cercou o quarto, mas Fernando reagiu, trocou tiros com agentes do 91º distrito policial e matou dois investigadores na hora. Marcos Amorim Bezerra e Tamatsu Tamac. saiu do hotel ferido com um tiro nas nádegas descalço, fugindo a pé por ruas de Barueri, percorreu 22 km até chegar a um terreno baldio nas proximidades da mansão do Zabravanel, no Morumbi. Madrugada do dia 30 de agosto.

Tinha sangue no corpo, nenhum documento, nenhum plano de fuga e uma pistola automática e um revólver carregado ainda na cintura. ligou para o celular que ele e os comparsas tinham deixado dentro da casa de Silvio durante a primeira invasão. Do outro lado da linha, quem atendeu foi o próprio Silvio Santos. Fernando disse, segundo Quisil que Silvio narraria depois em depoimento, que estava com medo de morrer depois de matar dois policiais, pediu um advogado para se defender. Silvio negou.

 Foi quando Fernando soltou a frase que mudou amanhã. Eu vou tomar a sua casa. Por volta das 7 horas da manhã do dia 30 de agosto de 2001, enquanto Silvio Santos fazia ginástica no salão térrio da mansão do Morumbi, Fernando Dutra Pinto pulou o muro do quintal que entrou pela área de serviço.

 Estava com a pistola automática numa mão e o revólver na outra. encontrou primeiro a esposa Iris, depois as quatro filhas, depois os funcionários. Concentrou todo mundo na sala. Silvio Santos, com 70 anos, foi rendido ao lado do equipamento de ginástica. As armas ficaram apontadas para a cabeça dele. O que aconteceu nas 7 horas seguintes dentro daquela mansão do Morumbi é um dos episódios mais bizarros e fascinantes da história da televisão brasileira.

 Silvio Santos foi rendido com 70 anos em frente ao próprio aparelho de ginástica por um homem ferido com um tiro no corpo, com sangue ainda escorrendo das roupas, segurando uma pistola automática em uma mão e um revólver carregado na outra. A esposa Iris e as filhas, que estavam em casa junto com a empregada foram concentradas numa sala.

 A polícia, avisada por uma jornalista que estava parada na frente do portão querendo declarações sobre o sequestro da Patrícia, cercou o quarteirão em minutos. A Globo abriu a programação. O programa Mais Você Você da Ana Maria Braga foi interrompido. A voz do Anâncora soltou no ar uma frase que parou os brasileiros que estavam tomando café da manhã.

 A informação é quase inacreditável, mas a polícia de São Paulo acaba de dizer que o sequestrador Fernando Dutra Pinto, aquele que liderou a quadrilha que sequestrou a filha de Silvio Santos, refugiou-se na casa do apresentador. A transmissão começou ao vivo. Cerca de 100 viaturas chegaram ao local. A vizinhança foi evacuada e o Brasil parou para assistir.

 Mas dentro daquela casa, com as armas apontadas para a própria cabeça, Silvio Santos estava fazendo uma coisa que parecia impossível. Estava negociando. Em algum momento do começo da manhã, Iris e as filhas conseguiram sair da casa. Versões depois apuradas pela imprensa indicam que Fernando autorizou a saída para reduzir o número de reféns ou que a polícia conseguiu uma janela de retirada.

 O fato é que em torno das 9:30 da manhã, Silvio Santos estava sozinho com o sequestrador. Era exatamente o que ele queria, porque o homem de 70 anos que tinha aprendido a vender capa de plástico aos 14 no centro do Rio de Janeiro, agora estava em condição de aplicar a única arma que ele tinha levado para a vida toda, a capacidade de conversar.

 Fernando do Trapinto fez três exigências em ordem. Primeiro, um helicóptero para fugir do telhado da casa. A polícia respondeu negativamente. Depois exigiu a presença do próprio pai na casa para se entregar com ele ao lado. A polícia tentou localizar a família. Por último, soltou a exigência que pegou todo mundo de surpresa.

 Ele só se entregaria diante do governador Geraldo Alkmin em pessoa. Era uma exigência irreal. Governadores não vão às cenas de sequestro. Alkmin, que estava na Secretaria de Segurança Pública acompanhando o caso pelo lado de fora, foi aconselhado por todo mundo a não ir. O secretário de segurança, o capitão de Luca, da operação antisequestro da Polícia Militar, os assessores do palácio.

 Todos disseram para deixar a equipe especializada conduzir. Mas às 10:30 daquela manhã, o celular de Geraldo Alkmin tocou. Quem ligava era o secretário de segurança, dizendo que Silvio Santos tinha pedido pessoalmente a presença do governador. Alkminou de volta para o número que Silvio passou. Do outro lado, atendeu o próprio Silvio.

 Em entrevista à CNN em 2024, Alkminu ouviu naquele telefonema. Eu falei: “É Geraldo Alkmin”. E aí entrou o Silvio em ação. Ele falou: “Dr. Geraldo, o rapaz vai fazer faculdade. Dr. Geraldo, o rapaz vai fazer faculdade.” Era assim que Silvio Santos, rendido com duas armas apontadas para ir pra cabeça, descrevia o homem que tinha matado dois policiais 48 horas antes.

 entrou no carro com escolta e atravessou a cidade de São Paulo rumo ao Morumbi, chegando pouco antes das duas da tarde. A casa estava cercada, o capitão Deluca já estava lá dentro. Alkminou na residência, contornou um corredor estreito que passava pela cozinha e encontrou Silvio Santos e Fernando Drapinto sentados juntos num cômodo.

Silvio se apresentou ao sequestrador ali mesmo, com a calma de quem estava recebendo um visitante numa tarde qualquer. Anos depois, Alkmin descreveu a cena em poucas palavras. Lembrei de um professor de medicina que dizia: “Quando você tiver uma situação muito grave, nunca se omita. Resolvi ir”. A partir dali, em menos de 15 minutos, Fernando Dutra Pinto foi convencido a se render.

Alkmin garantiu que ele não seria espancado pela polícia. O capitão de Luca assumiu a operação. Fernando jogou as duas armas no chão junto com a munição. Antes de ser levado pelos policiais, ele pediu uma coisa que foi atendida na hora, quis tomar banho e trocar de roupa. Silvio Santos, em pessoa foi ao próprio armário, escolheu uma muda limpa e entregou ao homem que tinha ameaçado matá-lo.

 Uma médica cirurgiã foi chamada para atender o ferimento à bala. que Fernando tinha nas nádegas agora infeccionado. Fernando saiu da mansão do Zabravanel naquela tarde de 30 de agosto de 2001, vestindo roupas do próprio refém. Imagine por um momento que essa cena fosse na sua casa. Um homem que matou dois policiais, que ameaçou matar você, sai do crime vestindo roupas suas com banho tomado e com a garantia do governador de que ninguém ia tocar nele.

 Isso é o que aconteceu na casa de Silvio Santos e é a primeira parte do horrível segredo por trás dessa história. Porque o que Alkm garantiu na porta da mansão durou exatamente 125 dias. Logo depois de ser preso, Fernando Dutra Pinto foi levado para o Centro de Detenção Provisória do Belém, conhecido pela sigla CDP2, na zona leste de São Paulo.

 Por 4 meses, a administração do presídio manteve ele em cela individual, separado do convívio com outros detentos, para evitar exatamente aquilo que Alkmin tinha tentado prevenir na porta da mansão, que ele fosse morto por dentro do próprio sistema. Tanto policiais quanto outros presos tinham motivo para querer vingança.

 Os primeiros porque ele tinha matado dois colegas em Alfavilo. Os segundos porque ele tinha protagonizado um crime que tinha colocado o sistema penitenciário paulista sob lupa nacional. Mas no fim de novembro de 2001, a direção do CDP2 tomou uma decisão administrativa que ia mudar tudo. Fernando saiu da cela individual e foi transferido para o convívio com a população carcerária.

Ninguém da família dele foi avisado. Ninguém da justiça questionou Bom movimento. E em 10 de dezembro de 2001, 10 dias depois da transferência, Fernando Drapinto se envolveu em uma discussão com agentes penitenciários. Segundo o que ficou registrado em laudos médicos do dia, ele teria sido agredido por um carcereiro durante uma intervenção disciplinar.

 O carcereiro, segundo o próprio relato, agiu em legítima defesa. A versão dos carcereiros tinha um problema sério. Outro detento, que ocupava a cela vizinha da intervenção, viu a cena pela portinhola da própria cela e relatou em três depoimentos consecutivos que no dia 10 de dezembro ele tinha presenciado o começo de uma sessão de espancamento contra Fernando Dutra Pinto.

 O que aconteceu naquela cela, segundo a testemunha, foi uma agressão coordenada com vários carcereiros armados com barras de ferro, enquanto Fernando estava sozinho dentro da própria cela, sem qualquer objeto contundente para se defender. A versão oficial do confronto, mesmo assim, foi registrada pelo facultativo de plantão como uma briga entre iguais.

O médico que assinou o laudo se chamava Ricardo Gomes Soares. Nunca foi ouvido nos autos do inquérito. Fernando saiu daquela intervenção com uma ferida profunda na região escapular direita, Costas, lado direito. O carcereiro que se feriu na suposta legítima defesa recebeu 15 dias de licença médica.

 Fernando, com a ferida muito mais grave, foi mandado para uma cela solitária de regime disciplinar. A ferida não foi tratada com a urgência que pedia. A infecção avançou, a bactéria entrou na corrente sanguínea e atingiu os pulmões. 23 dias depois, em 2 de janeiro de 2002, Fernando Dutra Pinto morreu na enfermaria da própria penitenciária aos 20 e poucos anos, sem ter sido levado a um hospital externo em momento algum.

 A causa oficial da morte foi infecção generalizada decorrente de uma bactéria que se alojou nos pulmões. O comunicado da Secretaria de Administração Penitenciária trataria o caso como uma fatalidade médica. Mas a Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos, uma das organizações mais respeitadas do país em monitoramento prisional, abriu um relatório independente.

 As conclusões foram publicadas em abril de 2002. Fernando Dutra Pinto tinha sido vítima de sessão de espancamento. A negligência médica que veio depois tinha sido deliberada e os agentes penitenciários envolvidos precisavam ser afastados das funções até que a corregedoria concluísse a sindicância. Mas isso ninguém na imprensa brasileira viu com atenção, porque o Brasil tinha decidido em couro que o homem que tinha sequestrado a filha de Silvio Santos merecia o destino que tinha encontrado. Justiça popular, mesmo que

silenciosa, é a justiça que mais agrada a um país inteiro com vontade de vingança. E em 2002, Fernando Dutra Pinto era o homem que o Brasil queria ver morto. O que ninguém tinha conectado depois daquela morte é que a própria Comissão de Direitos Humanos da OAB de São Paulo em abril de 2003, sobi, também encaminharia um parecer ao juiz Eduardo Francisco Marcondes do Primeiro Tribunal do Juri de São Paulo, contestando ponto por ponto o inquérito policial.

 Seide apontou inconsistências graves no laudo na versão do carcereiro e no tratamento médico recebido. A morte de Fernando Drapinto, no ato técnico do parecer da OAB, era um homicídio dentro do sistema prisional do estado. Os pais de Fernando, Antônio Sebastião Pinto e Anésia de Jesus do Trapinto entraram com ação contra o Estado de São Paulo pela morte do filho.

 O processo correu na justiça por anos. A versão da família coincidia com o relatório da comissão teotonio Vilela e com o parecer da OAB. O filho deles tinha sido morto por dentro do próprio sistema que devia protegê-lo depois que Alkim tinha garantido pessoalmente a integridade física dele na porta da casa de Silvio Santos.

 Silvio Santos, sobre a morte do sequestrador da filha, manteve silêncio público. Em entrevistas posteriores, evitou comentar o relatório da comissão Vilela, não falou sobre a denúncia da OAB e nunca foi convidado a depor sobre a promessa que Alkmin tinha feito na porta da mansão. O assunto saiu das colunas em poucas semanas e ficou guardado no mesmo lugar onde Silvio guardava tudo o que era difícil de explicar.

 No silêncio. No dia 2 de setembro de 2001, três dias depois das 7 horas de refém, Silvio Santos voltou ao ar no programa Silvio Santos. sorriu para a câmera com a mesma desenvoltura de sempre, cumprimentou a plateia, fez ir a piada de costume e não respondeu a uma única pergunta sobre o sequestro.

 Para o público brasileiro era como se nada tivesse acontecido. Para a família dele e para uma outra família que enterraria o filho num cemitério da zona leste de São Paulo em 2 de janeiro do ano seguinte. A história estava apenas começando. Em novembro de 2010, 9 anos depois do sequestro, Silvio Santos recebeu uma notícia na mansão do Morumbi, que tinha um tom semelhante de catástrofe iminente.

 Tinham acabado de descobrir um rombo dentro do Banco Panamericano, o braço financeiro do grupo Silvio Santos. O número era difícil de processar, 4 bilhões 300 milhões de reais. Maquiados em balanços contábeis ao longo dos últimos 4 anos. O Banco Pan Americano tinha sido fundado em 1990. Silvio Santo comprou em 1991.

Por quase duas décadas, o banco financiou veículos populares para a classe média e operou crédito consignado para funcionários públicos. era a joia financeira do grupo. Mas entre 2006 e 2010, segundo o que a investigação posterior do Ministério Público Federal apurou, diretores do banco vendiam carteiras de crédito para outras instituições financeiras e mantinham, ao mesmo tempo, esses mesmos créditos no próprio balanço.

 era contabilidade duplicada, usada para maquiar resultados e inflarmente os lucros do banco perante o mercado. E quando o Banco Central descobriu, o tamanho do rombo era impensável. A reação de Silvio Santos quando soube do rombo ficou registrada em depoimentos posteriores publicados na série O rei da TV do Star Plus, em 2022. O apresentador, que tinha quase 80 anos, gritou pela casa uma frase que sintetiza a vida dele.

 Nós estamos prestes a perder tudo. Tudo. Imagine por um momento que toda a vida que você construiu do caixote no centro do Rio, em 1944 até a maior emissora de TV do país, em 2010 pudesse desaparecer numa única manhã de sábado por causa de um rombo no balanço de um banco que você comprou décadas antes. Esse era o tamanho do buraco diante de Silvio Santos naquele momento.

 Solução veio do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, organismo do sistema financeiro brasileiro responsável por evitar quebradela em cadeia. O FGC emprestou ao grupo Silvio Santos R bilhões deais com um prazo de 10 anos para pagamento, mas a condição do empréstimo foi a mais brutal possível. Silvio Santos teve que oferecer todo o patrimônio pessoal como garantia.

 Isso significava que o SBT, a Guti cosméticos, a liderança capitalização, o Baú da Felicidade e o próprio Banco Pan-Americano ficaram penhorados em caso de não pagamento. Em outras palavras, se Silvio falhasse no pagamento, perderia tudo, inclusive a emissora de televisão, que tinha o nome dele construído na grade desde 1981.

A imprensa especializada começou a circular informações de que Silvio tinha cogitado vender tudo, fazer as malas e mudar com a família para os Estados Unidos. Em poucas semanas, ele apresentou ao FGC um plano de recuperação. Em maio de 2011, o Banco Pan-Americano foi vendido ao Banco de Investimentos BTG Pactual do empresário André Esteves.

 O valor da operação não foi divulgado oficialmente. O BTG assumiu também o rombo contábil e a dívida. Silvio Santos saiu livre do problema. Mas aquele novembro de 2010 ficou marcado como o momento em que o império dele esteve mais perto de desaparecer. O Ministério Público Federal abriu uma investigação. 22 pessoas foram indiciadas.

 Os diretores do banco, encabeçados pelo executivo principal Rafael Paladino, foram processados mais de R milhões deais em saques em espécie suspeitos. foram identificados como benefício pessoal dos fraudadores. Silvio Santos nunca foi acusado nem indiciado de envolvimento direto, mas em entrevistas raras posteriores evitou comentar o caso: “O ciclo do silêncio se repetia, agora aplicado a uma das maiores crises financeiras pessoais da televisão brasileira.

 E é a partir desse ponto da história, com Silvio Santos beirando os 80 anos e o império salvo no último minuto, que começa a fase final da vida dele, a fase que ninguém previu, a fase que o Brasil ia chamar em retrospecto de O longo silêncio do Morumbi. A pandemia de Covid-19 chegou ao Brasil em março de 2020.

 Silvio Santos, então com 89 anos, estava no grupo de risco mais delicado da população. A família tomou uma decisão imediata. O apresentador ficaria recluso em casa, na mansão do Morumbi, sem visitas, sem contato externo, sem gravações. O programa Silvio Santos, dali em diante passaria a ser gravado por uma das filhas. A escolhida foi Patrícia Abravanel, que durante meses tinha sido apontada pela própria audiência como a herdeira natural do estilo de palco do pai.

 O Brasil aceitou a explicação no primeiro ano. Pandemia, idade, cuidado preventivo justificavam tudo. Em dezembro de 2020, no aniversário de 90 anos, Silvio Santos recebeu uma homenagem do próprio SBT pelas redes sociais. estava em casa vivo, mas longe das câmeras, quando a pandemia começou a se atenuar em 2021 e 2022, e quando outras figuras públicas do mesmo perfil Etário começaram a voltar gradualmente à vida pública, Silvio Santos não voltou.

 O afastamento, que tinha começado como cuidado contra um vírus, virou outra coisa. Em setembro de 2022, com 91 anos, Silvio Santos fez aquela que ninguém na produção do SBT sabia que seria a última gravação dele no estúdio. Foi para o programa Silvio Santos. O conteúdo ficou guardado por quase meio ano.

 Foi ao ar em fevereiro de 2023. Nessa última edição, ele participou de uma brincadeira ao lado da apresentadora Cristina Rocha e do humorista Marcão do Povo no clássico quadro Jogo das Três Pistas. A própria Patrícia Abravanel, que comandava o programa naquele dia, perguntou para o pai no ar qual era o motivo do afastamento dele da TV.

 A resposta de Silvio entrou para a história das frases curtas que dizem mais do que parecem. Preguiça de gravar. Preguiça de gravar. Era essa, viu-se a versão pública que o homem mais conhecido da televisão brasileira oferecia aos 91 anos para explicar uma reclusão que ia se estender por mais do anos.

 A versão privada era a outra e ninguém da família ia falar dela em câmera. A partir daquela gravação de setembro de 2022, Silvio Santos parou de aparecer publicamente em televisão. O SBT continuou exibindo edições com Patrícia no comando do programa, sem nunca confirmar oficialmente uma aposentadoria. A presença do velho dono do baú ficou diluída em ferramentas indiretas.

 A imagem dele continuou na grade, em vinhetas e chamadas. Os jingles e os bordões dele seguiram tocando nos sorteios da telecena. Mas o homem em pessoa, com cabelo grisalho e voz inconfundível, sumiu da televisão brasileira no segundo semestre de 2022 e nunca mais voltou em condições de trabalho. Em 12 de dezembro de 2023, no aniversário de 93 anos, a equipe do programa Fofocalizando do próprio SBT decidiu ir até a porta da casa de Silvio Santos, no Morumbi, sem aviso, para registrar a comemoração que os fãs faziam no portão. Foi a última

vez que o Brasil viu Silvio em vídeo. Ele apareceu brevemente para agradecer o gesto dos fãs e soltou uma frase que voltaria depois nas reportagens da morte. Muito grato com esse presente dos fãs. A ideia é sensacional e me dá um gás para voltar. Estava com voz fraca. O abraço foi rápido.

 A porta da mansão se fechou em seguida e foi a última imagem em movimento de Silvio Santos que o público brasileiro viu em vida. Mas o que o Brasil ainda ia descobrir s meses depois daquela porta se fechando é que o sistema de silêncio que Silvio Santos tinha aplicado a vida inteira ia funcionar pela última vez nos 15 dias finais da existência dele e que a ele mesmo o sistema também não ia poupar.

 Em 16 de julho de 2024, uma terça-feira à noite, Silvio Santos foi internado de urgência no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. O motivo registrado no prontuário foi H1N1, um subtipo do vírus influenza A. No dia seguinte, 17 de julho, o jornal Folha de São Paulo deu a notícia em primeira mão, com base numa fonte anônima dentro da equipe médica.

 A reação da assessoria do SBT foi imediata e categórica. Não procede. Não confirmamos. Ele está bem de saúde. Durante mais de 12 horas, a versão oficial da emissora dele era de que Silvio Santos não estava internado em hospital algum. A Folha mantinha a notícia. Walbert Einstein, seguindo o protocolo de privacidade dos pacientes, informava que não podia divulgar dados e o Brasil ficou suspenso entre duas versões opostas, sem saber em qual acreditar.

 Foi só 18 de julho que o SBT voltou atrás. A assessoria então divulgou nota, confirmando que o apresentador estava internado e que tinha sido diagnosticado com H um N1. A primeira mentira pública sobre a saúde dele tinha durado um dia e algumas horas e foi oficialmente desmentida pela própria emissora dele. 21 de julho, 5 dias depois da internação, Silvio recebeu alta, voltou para casa, mas voltou pouco.

 No primeiro de agosto, 13 dias depois da alta, ele foi internado de novo no mesmo Albert Einstein. versão oficial dessa segunda internação, segundo a assessoria do SBT, foi a de que Silvio precisava de exames de imagem que não podiam ser feitos em casa. Era uma versão tecnicamente verdadeira, mas o que estava por trás, segundo o que a imprensa apurou com fontes médicas, era um quadro de saúde mais complicado do que a primeira internação tinha sugerido.

 Em 3 de agosto, sob pressão da imprensa, a assessoria do SBT publicou nova nota oficial. negava que o estado de saúde do apresentador fosse crítico. Garantia que ele estava no hospital apenas para cuidados médicos necessários. Mas no mesmo dia, 3 de agosto, uma das filhas mais velhas dele, Ctia Abravânel, deixou de comparecer a um evento em Jundiaí, que ela mesma estava organizando para correr ao hospital.

 Não deu nenhuma justificativa pública aos convidados. foi direto para o Albert Einstein, ficou ao lado do pai e desapareceu do calendário social paulista pelas duas semanas seguintes. Famílias só fazem isso por um motivo. Entre 5 e 15 de agosto de 2024, o quadro clínico de Silvio Santos, no Hospital Albert Einstein, piorou de forma silenciosa.

 A H1N1 tinha sido tratada na primeira internação, mas o vírus tinha deixado sequelas pulmonares numa estrutura respiratória de 93 anos. No dia 5 de agosto, Patrícia Abravanel, em entrevista a CNN Brasil, afirmou ao vivo que o pai estava melhor e que estava melhorando. Foi a última declaração otimista pública. A partir dali, as filhas começaram a se revezar no hospital, sem que a imprensa soubesse a escala completa do que estava acontecendo.

 Em 15 de agosto, dois dias antes da morte, Thiago Abravanel, neto de Silvio e filho de Cíntia, foi parado por jornalistas na saída de um evento em São Paulo. Para a primeira pergunta sobre a saúde do avô, ele soltou uma frase que o Brasil leu como o primeiro sinal real de que o quadro estava grave, está sendo tratado nesse momento delicado.

 Palavra delicado na linguagem de família que tinha controlado a narrativa por décadas significava terminal. foi a tradução pública de uma despedida que já estava sendo feita dentro do quarto do Albert Einstein. E é nesse exato momento da história, com a família já sabendo, com o Albert Einstein, já alertado, e com a imprensa cercando o hospital, que aparece um detalhe que ninguém imaginava encontrar nesse vídeo, um pedido pessoal que Silvio Santos tinha feito anos antes a quem o cercava sobre o próprio funeral. Em entrevistas dadas pela

família depois da morte, ficou registrado que Silvio Santos, ainda em vida, durante a fase de saúde já frágil, tinha pedido pessoalmente que ninguém preparasse um obituário antecipado sobre ele. O motivo declarado pelo próprio Silvio foi inesperado para o homem que tinha construído um império em cima do controle absoluto da própria imagem.

 Ele disse que um obtuário antecipado iria causar azar. Esse era o verbo azar. O homem que tinha enfrentado um sequestro com duas armas apontadas para cabe a cabeça, que tinha sobrevivido a um rombo bilionário no próprio banco, que tinha cremado em silêncio a primeira esposa em 1977. Esse mesmo homem, no fim da vida, fazia uma única exigência supersticiosa para a equipe que o cercava, que ninguém escrevesse a história dele em letras pretas antes da hora.

 Era o último ato de controle de uma vida inteira dedicada a controlar quando, como e o que o público podia saber. O destino atendeu quando Silvio Santos morreu, às 4:50 da madrugada do dia 17 de agosto de 2024, não havia obituário pronto emissora nenhuma. O hospital israelita Albert Einstein divulgou o boletim médico oficial pouco depois do óbito.

 A causa da morte foi broncopneumonia decorrente da infecção por influenza H1N1 que tinha começado do quase um mês antes. Estava registrado em Letras Pretas no mesmo documento, 4:50. O homem que tinha entrado em milhões de salas brasileiras ao longo de 65 anos de televisão, saiu da vida num quarto privativo antes do sol nascer em São Paulo.

 A família foi avisada na hora. As seis filhas. A esposa Iris, agora viúva pela segunda vez na vida, depois de Silvio ter sido casado pela segunda vez na vida dele. Mas o que aconteceu na grade do SBT? Entre o boletim do Albert Einstein e o anúncio oficial é o detalhe que sintetiza toda a relação de Silvio Santos com o silêncio.

 Quando a notícia chegou à emissora na madrugada de um sábado, a programação infantil do canal estava no ar. Era o sábado animado, programa de desenhos da grade matinal. A direção do SBT naquela madrugada decidiu não interromper o desenho imediatamente. Por uma hora e meia, crianças continuaram assistindo o desenho enquanto a notícia da morte do dono da emissora circulava em todas as outras redações do Brasil.

 O SBT só interrompeu a programação para anunciar o falecimento depois de 90 minutos de retardo voluntário. Era o último ato de controle de imagem. aplicado pela própria emissora. No exato momento em que o homem que tinha construído aquela emissora já não podia mais decidir nada. Imagine por um momento que essa fosse a última imagem que você ia deixar.

 O dono da maior emissora popular do Brasil morrendo às 4:50 da manhã. E a emissora dele continuando a passar desenho animado por 1 hora e meia com medo de quebrar uma programação infantil. Esse era o tamanho do silêncio que Silvio Santos tinha imposto ao próprio canal. Mesmo morto, ele ainda mandava. A família decidiu o que fazer com o corpo nas horas seguintes.

 E essa decisão também levou à marca da vida inteira. A escolha foi fechar a saída para o mundo, sem velório público, sem homenagem aberta para os fãs, sem desfile de personalidades, passando diante do caixão para falar e diante das câmeras. O corpo de Silvio Santos foi enterrado em silêncio total no cemitério israelita do Butantã, em São Paulo, no rito da tradição judaica da família dele, na presença apenas dos parentes mais próximos.

 O Brasil, que tinha visto Silvio entrar em sala todas as noites por 65 anos, não pôde dizer adeus na porta de saída: “Aqui é onde a história fecha o ciclo completo”. Porque a cronologia do silêncio de Silvio Santos, vista de um vídeo só, junta tudo de uma vez. Em 1962, ele se casou com Sidinha em segredo, escondendo a esposa por 15 anos do público que adorava o galã solteiro.

 Em 1971, ele adotou Silvia em segredo, mantendo a menina fora de qualquer foto pública até a morte da mãe. Em 1977, ele enterrou Cidinha em silêncio absoluto, sem nunca ter falado dela em câmera em vida. Em 1992, escondeu uma separação dolorosa por ciúme, depois que Iris registrou queixa contra ele em delegacia.

 Em 2001, fechou as cortinas da mansão por 7 horas com um sequestrador armado e voltou ao ar três dias depois, sem responder uma única pergunta sobre o que tinha acontecido. Em 2002, calou sobre a morte do mesmo sequestrador, espancado dentro de uma cela do estado depois que Geraldo Alkmin tinha jurado na porta da casa dele que isso não ia acontecer.

 Em 2010, gritou pela casa que estava prestes a perder tudo, contornou o rombo do Pan-Americano e nunca mais comentou o caso em entrevistas. Em 2020, fechou-se em casa e parou de aparecer. Em 2022, gravou a última edição do programa dele, dizendo que estava com preguiça. Em 2023, na última imagem em vídeo da vida, agradeceu os fãs pela porta entreaberta da mansão.

 Em 20254, foi internado por H1N1 e a primeira reação da própria emissora dele foi negar que ele estivesse internado. E na madrugada de 17 de agosto, às 4:50 da manhã, ele morreu sem deixar Obituário antecipado, sem velório, sem despedida pública. O silêncio que tinha protegido 60 anos de vida pessoal e profissional aplicou-se também ao último ato.

 Esse é o sombrio segredo por trás da última internação de Silvio Santos. Ele não está numa doença, num diagnóstico, numa data específica. Está no padrão que atravessou seis décadas de vida do maior comunicador brasileiro, um homem que ensinou o Brasil inteiro a ouvir e que morreu sem deixar que o Brasil dissesse uma palavra de adeus em voz alta.

 Tem uma cena dessa esquistória que volta na cabeça depois que ela acaba, pode não ser a morte no Albert Einstein, nem o desenho animado que continuou passando por 90 minutos, nem o enterro silencioso no Butantã. É a cena de uma pensão simples da rua 13 de maio, no Bexiga, em 1956. Um carioca de 26 anos, recém-chegado a São Paulo, atravessava a sala da pensão para tomar café.

 A filha mais nova da dona da casa estava sentada perto do telefone, atendia chamadas para a pensão de manhã. O moço passou, olhou para a pô, para a moça, falou alguma coisa que ninguém ouviu nem registrou. Era o começo de uma história de amor que ia durar 15 anos e que ia ficar guardada dentro de quatro paredes pela vida inteira dele.

 Em 1988, 11 anos depois da morte daquela mesma menina, agora mulher, agora mãe, agora morta, Silvio Santos olhou para uma câmera de televisão e disse a frase mais sincera da carreira pública dele. Quando eu me lembro que eu dizia ser solteiro, que eu escondia as minhas filhas para poder ser o galã, para poder ser o herói, quando eu falo com a minha consciência, acho que é uma das coisas imperdoáveis que eu fiz.

 Não foi gravado para reportagem grande, não circulou em horário nobre, mas ficou. 36 anos depois, em 2024, quando ele morreu, essa frase ressurgiu nas redes sociais como o testamento real do homem que tinha controlado tudo em vida, menos o arrependimento de ter escondido demais aquilo que mais doía. Em algum lugar do Brasil, esta noite, um pai está em silêncio na sala de jantar com a família reunida.

 Outro avô em outro lugar está numa cama de hospital escolhendo o que vai contar e o que vai levar consigo. Outra pessoa em algum apartamento está adiando uma conversa difícil com a própria mãe por causa de um segredo que parece menor do que é. Histórias como a de Silvio Santos existem para que essas pessoas pensem duas vezes antes de fechar a porta.

 Porque o silêncio funciona em vida, mas custa caro na hora da despedida. O homem que tinha 500 milhões em dinheiro vivo, guardado para pagar resgate de filha sequestrada, o homem que tinham emprestado 2 bilhões e meio para salvar o próprio banco. O homem que tinha 65 anos de televisão na grade do país, no fim da vida, só conseguiu deixar uma única instrução clara para os que o cercavam.

 Não escrevam minha morte antes da hora, alegando que isso vai me dar azar. Era a confissão final de um homem que tinha aprendido vendendo capa de plástico no centro do rio aos 14 anos, que a única coisa que dava segurança era controlar o que os outros diziam sobre ele. Quando essa segurança o abandonou, ele simplesmente fechou os olhos e não havia mais ninguém para reclamar a ausência dele em câmera aberta.

 No cemitério israelita do Butantã, num jazigo discreto, longe do barulho das homenagens públicas, o nome dele está gravado em hebraico há mais de um ano. ali em silêncio total, deita o homem que tinha enchido o Maracanã com o programa dele, que tinha parado o Brasil inteiro nos sorteios da Telecena, que tinha feito milhões de brasileiros chorarem com a frase do baú da felicidade e que na hora do próprio adeus escolheu o lado oposto do palco que tinha ocupado a vida inteira.

Escolheu a porta dos fundos. Mas o que ninguém discute em nenhuma versão dessa história é a parte que importa de verdade. Silvio Santos morreu sozinho com o que sabia e o Brasil, que tinha 60 milhões de pessoas dispostas a chorar por ele, se fosse chamado para um velório, não foi chamado. Se essa história te fez lembrar de alguém que está guardando demais o que precisa contar, manda esse vídeo para essa pessoa hoje à noite.

 Às vezes, a coisa mais difícil que um homem aprende tarde demais é que silêncio em vida vira a ausência na hora da despedida e ninguém devia precisar morrer sozinho com o que sabia.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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