A Vida Secreta de Tônia Carrero: A Musa do Cinema Brasileiro Que Viveu Muitos Amores
A Vida Secreta de Tônia Carrero: A Musa do Cinema Brasileiro Que Viveu Muitos Amores
Se eu disser o nome Tônia Carreiro, você provavelmente pensa numa diva elegante do cinema brasileiro. Mas poucas pessoas sabem que essa mesma mulher, no auge da fama, aceitou interpretar uma prostituta numa peça censurada pela ditadura militar e lutou para que ela pudesse chegar aos palcos.
Poucas sabem que ela casou três vezes, ajudou a criar duas importantes companhias de teatro e que décadas antes de tudo isto, tomou uma decisão que transportaria consigo por toda a a vida, deixar o filho pequeno aos cuidados da família e partir para Paris em busca de formação como atriz. Ela nasceu Maria Antonieta de Farias, Porto Carreiro, a 23 de agosto de 1922, no Rio de Janeiro.
Filha de um oficial do exército brasileiro que chegaria à patente de general, cresceu numa casa de disciplina militar, rodeada de irmãos que seguiriam o mesmo caminho do pai. Nesta família, a vida já vinha com o guião pronto, ordem, hierarquia, tradição. A menina não seguiu o guião. Desde cedo se interessou pelo ballet, por teatro, por tudo o que a farda do pai não previa.
Contrariando a vontade da mãe, escolheu o caminho oposto ao da caserna. Licenciou-se em educação física, mas o corpo que ela queria treinar não era para desfiles, nem para Ordens Unidas, era para o palco. Ainda muito jovem, casou com o artista plástico Carlos Artur Tiré, tornando-se esposa aos 17 anos e mãe pouco tempo depois, com o nascimento do único filho do casal, Cecil Tiré.
E foi ali, na maternidade recém-estreada, que veio a primeira grande escolha de uma vida inteira marcada por escolhas difíceis. Deixar o filho pequeno aos cuidados da avó e da mesma ama que a tinha criado e partir para Paris. Na capital francesa, estudou teatro com Jean Louis Barrot e aproximou-se do balé. Não chegou a trabalhar nos palcos parisienses.
Foi um tempo de formação, não de estreia, mas foi o suficiente para moldar nela algo que o Brasil ainda não conhecia. Uma mulher com ambição própria, disposta a afastar-se do que era esperado dela como esposa e como mãe para ir atrás do que queria ser como artista. De volta ao Brasil, o regresso não tardou a dar resultado.

Estreou-se no filme Querida Susana e pouco depois uma crónica na imprensa anunciou num título que ficaria famoso que nascia uma estrela. Não era exagero de jornalista. Era o início da um dos nomes mais duradouros da história do entretenimento brasileiro. Ela recusou o caminho mais fácil. não quis fazer chanchada, o género popular e cómico que dominava as bilheteiras da época, nem assinar com a Atlântida, a maior produtora deste tipo de filmes.
Em dezembro de 1949, estreou-se no teatro profissional no palco do teatro Copacabana, na companhia do encenador Fernando de Barros, com a peça Um Deus dormiu lá em casa, ao lado de um jovem ainda desconhecido, Paulo Altran. Pela sua prestação, Tônia recebeu o prémio de atriz revelação da Associação de Críticos Cariocas.
Aquela noite mudou também a vida de Altran. Era advogado há 7 anos, formado pela faculdade de direito do Largo São Francisco, e via o teatro apenas como um passatempo de fim de semana com um grupo amador. O sucesso da peça e o convívio com Tônia foi o empurrão que faltava. Pouco depois, a Altran fechou o escritório em São Paulo para se dedicar inteiramente aos palcos.
A amizade e a parceria de cena entre os dois duraria mais de 50 anos. O nome artístico já estava definido. Tô Carreiro, uma versão mais sonora e cinematográfica do apelido de família. A mulher que nascera dentro de uma casa de general e depois se tornara esposa e mãe ainda adolescente, aos poucos deixava de pertencer apenas àele papel doméstico que a família tinha planeado para ela.
Em 1950, o empresário Franco Zampari, fundador de dois dos maiores projetos culturais da época, o Teatro Brasileiro de Comédia e a companhia cinematográfica Vera Cruz, convidou Tônia para integrar a sua equipa. A Vera Cruz era então o projeto mais ambicioso já tentado no cinema brasileiro.
Um estúdio nos moldes de Hollywood com técnica de ponta e a promessa de colocar o país no mapa do cinema internacional. Tôi tornou-se uma das suas atrizes mais importantes e em poucos anos emprestou o seu rosto a títulos que se tornariam marcos da chamada era dourada do cinema nacional. Apassionata, tico tico no fubá, é proibido beijar.
Enquanto outras as estrelas de cinema contentavam-se em ser apenas isso, Tôia dividia este período com o palco do TBC, uma combinação pouco comum que a diferenciava da maioria das musas da sua geração e ajudava a consolidar a fama de recusar o caminho mais fácil que já tinha demonstrado ao evitar a chanchada.
Foi essa passagem simultâneo pela Vera Cruz e pelo TBC que transformou Tônia de uma estrela de cinema em ascensão numa das grandes atrizes do teatro brasileiro. E foi nesse ambiente que ela se aproximaria do homem que mudaria o rumo da sua vida pessoal e profissional pelos 15 anos seguintes. Ainda nos primeiros anos da televisão brasileira, Tônia também começou a ocupar este novo espaço.
participou em programas das extintas TVs Tupi e Excelsior, construindo uma presença que mais tarde se estenderia às grandes telenovelas. A imagem pública crescia, a vida privada ao mesmo tempo começava a rachar. O casamento com Carlos Artur Tiré, assinado ainda na juventude, não resistiu à distância entre os dois mundos que Tony agora habitava.
De um lado, a rotina de esposa e mãe que a família esperava dela. Do outro, os sets de filmagem, as viagens, os ensaios, a vida de quem pertencia, cada vez mais ao público. No início dos anos 1950, o casal separou-se. Era o primeiro fim de um padrão que se repetiria. Uma mulher capaz de conquistar públicos inteiras, mas incapaz de manter dentro de casa o mesmo equilíbrio que exibia diante das câmaras.

O filho Cecil crescia entre a presença de uma mãe famosa e a ausência de uma mãe disponível. Duas coisas que na vida da Tônia raramente vinham juntas. Mesmo assim, nada naquele momento parecia declínio. A Vera Cruz colapsaria financeiramente ainda nessa década, levando consigo o sonho de uma indústria cinematográfica brasileira de grande porte.
Mas o nome de Tônia já não dependia mais de um único estúdio. Ela estava prestes a atravessar este colapso e sair do outro lado, ainda maior como uma das figuras centrais de um novo capítulo da vida artística brasileira, desta vez nos palcos de teatro. Em 1953, no palco do TBC em São Paulo, Tônia interpretava uma certa cabana sob a direção de um italiano recém-chegado ao O Brasil, refugiado do fascismo de Mussolini, Adolfo Celli.
Foi aí, entre ensaios e marcações de cena, que nasceu o romance que mudaria o rumo da sua vida artística e pessoal pelos anos seguintes. Mas o romance não começou num terreno simples. Nesse momento, Cell ainda estava ligado a Cassilda Becker, uma das maiores atrizes do TBC e um dos nomes mais respeitados do teatro brasileiro.
Tô sabia disso e, segundo relatos de quem com ela conviveu, chegou a admitir, anos depois que via em Cassilda uma espécie de modelo, a atriz que gostaria de ter sido. O fim da relação entre Cell e Cassilda e o início da relação entre Cell e Tônia deixaram marcas que iriam para além do sentimental.
Mudaria também o desenho das companhias de teatro que se formariam dali em diante. Três anos depois, em 1956, Tônia, Cell e Paulo Altran fundavam no Rio de Janeiro a empresa Tônia Cel Altran. Não era apenas mais um grupo teatral, era a reunião de três dos nomes mais respeitados do TBC, agora com casa própria e ambição de repertório internacional.
A estreia, com uma montagem de hotelo, chamou imediatamente a atenção da crítica e do público carioca. Entre 1956 e 1962, a companhia levou aos palcos 25 peças entre autores estrangeiros e brasileiros. Tôn esteve em 17 delas, nem sempre como protagonista, uma escolha própria, calculada, que revelava tanto o seu instinto de atriz quanto o seu faro empresarial.
Ela não era apenas o rosto da empresa, também pesava nas decisões de repertório, ao lado do olhar de conjunto de Cell, equilibrando peças de vanguarda com produções de maior apelo comercial. Tôn Carreiro não era apenas uma estrela contratada, era uma das três pessoas que decidiam o destino de uma das companhias mais importantes da história do teatro brasileiro.
Em 1957, o romance com Cell transformou-se em casamento. Ao seu lado, Tônia deixou de ser apenas uma atriz de cinema e teatro a tornar-se algo maior no imaginário brasileiro. metade de um casal de artistas que dividia a direção de uma companhia, a assinatura de um repertório e os holofotes de uma época inteira. Nos anos seguintes, a empresa mudaria para o teatro Mesbla, aproximando-se cada vez mais da chamada Sociedade Carioca, das colunas sociais, dos salões onde escritores e artistas se cruzavam com a elite do Rio. Foi nestes salões
literários em que Tônia se tornou, para uma geração de intelectuais brasileiros, mais do que uma atriz, uma presença capaz de dominar uma sala só de entrar nela. Ao contrário da imagem séria e quase inacessível que o cinema tinha construído, a Tônia dos Salões era faladora, espirituosa, ousada, o tipo de mulher que discordava, provocava, ria alto.
O cronista Paulo Mendes Campos, um dos muitos que acercavam nestes encontros, ficou conhecido por uma resposta acutilante quando alguém comentou num tom de crítica que ela falava demais. Ele rebateu na hora, elogiando exatamente aquilo que os outros criticavam. Era esse contraste, a diva contida das telas e a mulher exuberante das rodas de conversa que tornava a Tônia tão difícil de resumir numa única imagem.
O casamento com Adolfo Cell durou até 1962. C anos depois de terem subido juntos ao altar e de terem transformado a União num das mais celebradas parcerias artísticas do teatro brasileiro, o casal separou-se e a companhia Tônia Celi Altran encerrou as suas atividades praticamente ao mesmo tempo. O fim do casamento também fechava o capítulo dos seis anos em que os três partilharam palco e direção artística.
Após a separação, Cell voltou para a Itália, onde retomaria a carreira longe do Brasil. longe da companhia que ajudara a afundar-se e longe de Tônia. Anos depois, em 1979, quando Cell regressou ao Rio para dirigi-la novamente pela primeira vez desde o fim do casamento, comentou meio de brincadeira que nunca tinha realmente deixado de a ver.
Bastava ligar a televisão na sua casa de Roma para encontrá-la em algum filme brasileiro exibido na Europa. Tôi seguiu em frente. Em 1964, casou pela terceira vez agora com o engenheiro César Tedim, cujo apelido passaria a assinar para o resto da vida, mesmo depois de também este casamento terminar em 1977. No ano seguinte ao casamento com Tedin em 1965, criou a sua própria companhia de teatro, a companhia Tônia Carreiro, depois de anos dividindo o comando de uma companhia com outros dois nomes.
Agora era ela sozinha quem decidia o repertório e assinava o projeto, um passo natural depois do fim da quetinca e de mais um casamento desfeito. 13 anos depois de subir ao altar com Tedin, o casamento mais longo da sua vida, veio mais um divórcio. Depois dele, Tônia manteve outros relacionamentos, mas não voltou a casar.
A sua vida afetiva continuou despertando curiosidade, embora ela preservasse parte dessa dimensão longe dos olhos do público. Em 1967, quando já era considerada uma diva consolidada, com décadas de papéis elegantes e sofisticados nas costas, Tônia tomou a decisão mais radical de a sua carreira. Aceitou viver Neusa Suellei, uma prostituta em Ana Navalha na Carne, do dramaturgo Plío Marcos, sob a realização de Faus Aarap, ao lado de Emiliano Queiroz e Nelson Xavier.
Era a demolição completa da imagem que ela tinha construído havia mais de uma década. Nada de vestidos de gala, nada de salões, nada de charme requintado, apenas um texto cru, incómodo, num momento em que o país vivia sob a ditadura militar. A peça foi proibida pela censura e a luta para a levar ao palco não terminou nos ensaios.
Tô se envolveu diretamente no processo para conseguir a libertação do espetáculo. Em 1968, ela também esteve na linha da frente das manifestações de artistas contra a censura e a ditadura militar. Uma fotografia de 13 de fevereiro daquele ano feita durante uma greve de artistas e produtores de teatro no Rio de Janeiro regista Tônia ao lado de outras grandes atrizes da sua geração, Eva Wilma, Odet Lara, Norma Bengel, Leila Diniz e Eva Todor.
não estava apenas a interpretar Neusa Suelle, estava a defender o direito de contar aquela história, mesmo sabendo que isso poderia custar a imagem elegante que levara 20 anos a construir. A montagem tornar-se-ia um dos espetáculos mais aplaudidos da temporada e o divisor de águas definitivo na sua carreira. Ainda em 1968, ela recebeu o prémio Molier de melhor atriz pela interpretação.
Foi este tipo de coragem que a acompanhou durante as décadas seguintes, agora também na televisão das telenovelas. Em 1970, estreou na TV Globo em Pigmão 70, vivendo Cristina Guimarães, numa adaptação da peça de George Bernard Shaw, a sua primeira grande novela na emissora que se tornaria a maior do país.
Ao longo da década, Tônia foi-se tornaria um rosto recorrente da teledramaturgia. Emendou uma novela na outra em títulos como A Próxima Atração, O Cafona e Uma Rosa com Amor, partilhando sempre este trabalho com o cinema e o teatro. Quando chegou aos anos 1980, portanto, ela já não era uma estreante na TV. Era uma das suas grandes estrelas havia 10 anos.
Em Água Viva viveu a socialite Stella Simpson, um papel que lhe valeria o troféu APCa de melhor atriz e um dos episódios mais comentados da sua carreira. Numa cena gravada na praia de Ipanema, Stella protagonizava um topless simulado como um ato de libertação feminina perante um polícia da história. A cena provocou reação imediata do público presente na gravação, que chegou a hostilizar as atrizes na areia, obrigando a produção a mudar de local.
7 anos depois, em Saçaricando, viveu Rebeca Rocha, mulher disputada por dois pretendentes ao longo de toda a trama. Outro papel que a manteve entre os nomes mais lembrados da teledramaturgia brasileira dessa década. No teatro, seguiu arriscando mesmo depois de consagrada. Em 1986, mergulhou numa linguagem bem mais experimental com Quarted Heiner Müller, sob a direção do jovem ensenador Gerald Thomas, recebendo por esta interpretação um segundo prémio Molier de melhor atriz.
Em 1990, reencontrou Paulo Altran. amigo e parceiro de cena desde os tempos do TBC e da CTK, para o que seria o último trabalho dos dois juntos, uma montagem de textos de Carlos Drumon de Andrade. Atran morreria em 2007. Na mesma entrevista desse ano, aos 68 anos, Tônia falou sobre uma humilhação antiga.
Relembrou ter sido deixada no passado por outra mulher muito mais jovem. A dor ainda estava lá, mas a atriz nela conseguia distanciar-se o suficiente para tratar a própria história como personagem, com o mesmo olhar irónico que reservava as imperfeições dos grandes homens que conhecera ao longo da vida. Aos 80 anos, em 2002, Tônia subiu ao palco outra vez, mas desta vez para contar a sua própria vida no solo Amigas para Sempre, realizado por Luís Artur Nunes e construído a partir de entrevistas com os própria atriz. Ela revisitava décadas de
carreira perante o público que a havia acompanhado desde os anos 40. Ao todo, seriam 54 peças de teatro, 19 filmes e 15 novelas. ao longo de mais de 60 anos de carreira. Em 2004, fez a sua última novela Senhora do Destino. No ano seguinte, ainda faria uma última aparição na televisão num episódio da série Sob Nova Direção.
Em 2007, terminou a carreira nos palcos com Um Barco para o Sonho, peça dirigida por um dos próprios netos, Carlos Tiret, geração seguinte da mesma família de artistas que ela tinha fundado sem querer, décadas antes. No mesmo ano fez o seu último trabalho no cinema em Chega de Saudade de Laí Bodansk. No ano seguinte, em 2008, foi distinguido com o Prémio Shell pelos 50 anos de carreira.
Em 2009, já com a saúde bastante debilitada, Tônia ainda fez questão de comparecer no lançamento da sua biografia. Tôn Carreiro, movida pela paixão, escrito pela jornalista Tânia Carvalho. Centenas de pessoas foram ter com ela. Era como se o público ainda não estivesse pronto para se despedir. A sua última aparição pública aconteceu em abril de 2011, quando foi ao teatro assistir a um espetáculo protagonizado pelo próprio filho, Cecil, o mesmo menino que ela deixara com a avó e a ama, para partir em direção a Paris décadas antes, agora de regresso ao seu
lado numa plateia. Em dezembro de 2015, Cecil falou publicamente sobre o estado de saúde da mãe. A atriz enfrentava hidrocefalia oculta, uma condição herdada da própria mãe, e tinha sido submetido a uma cirurgia em 2000 para a instalação de uma válvula que drenava o excesso de líquido cerebral.
Nos anos seguintes, deixara gradualmente de conseguir comunicar ou caminhar normalmente, embora os parentes próximos garantissem que ela seguia lúcida. atenta à televisão e com o sentido de humor intacto, rodeada pela mesma família que décadas antes ela tinha deixado aos cuidados da avó e do babá. Foi assim que os últimos anos se passaram num apartamento na zona sul do Rio de Janeiro, longe das câmaras, longe dos palcos, com grandes dificuldades para falar e se deslocar, mas rodeada pelos filhos, netos e bisnetos que seguiram o mesmo ofício. Em 3 de março
de 2018, aos 95 anos, Tônia Carreiro faleceu na clínica de São Vicente, na Gávia, Rio de Janeiro, onde esteve internada desde a sexta-feira anterior para tratar uma úlcera. Durante o procedimento, sofreu uma paragem cardíaca e não resistiu. O corpo foi velado no átrio principal do teatro municipal, o mesmo tipo de palco que ela ocupara por mais de 60 anos, reunindo agora quem viera despedir-se.
O realizador Gilberto Braga, que a dirigira como a inesquecível Estela Simpson em Água Viva, chegou a dizer que ela talvez tivesse sido a mulher mais bela que o O Brasil já teve. uma opinião, não um veredicto, acrescentando que a beleza também lhe trouxera dificuldades no início de carreira, num meio que desconfiava de quem era demasiado bonita.
Ela deixou 54 peças de teatro, 19 filmes, 15 novelas. Deixou um filho, Cecil, netos e bisnetos que seguiram o mesmo ofício. Deixou duas companhias de teatro que ajudou a fundar e a dirigir, e o nome de uma atriz capaz de arriscar tudo, no auge da fama, para viver uma prostituta num texto que enfrentava a censura da ditadura e de ir para a rua defender este direito.
Deixou ainda três casamentos que terminaram em divórcio. Mas a história de Tônia Carreiro não é, no fim, a de uma mulher sozinha. até os últimos anos foi rodeada por uma família que a acompanhou, por um público que insistia em ir vê-la mesmo quando ela mal conseguia caminhar até eles e por um filho que se tornou a sua voz quando a dela já não chegava mais ao mundo.
Tô Carreiro foi uma das grandes divas do cinema, do teatro e da televisão brasileira, mas olhando para trás, talvez o que realmente a define não seja a beleza nem os romances que o público tanto quis ver nela. e sim os mais de 60 anos que ela passou a recusar os papéis, os casamentos e as imagens que outros tentaram impor-lhe, insistindo em decidir sempre quem seria a Tónia Carreiro. Não.