Aos 36 anos, PAULO SÉRGIO foi ENTERRADO ao som da sua ÚLTIMA CANÇÃO
Aos 36 anos, PAULO SÉRGIO foi ENTERRADO ao som da sua ÚLTIMA CANÇÃO
30 de julho de 1980, um caixão desce devagar numa cova do cemitério do Caju, no Rio de Janeiro, e enquanto ele desce, toca uma música, a mesma música que 12 anos antes tinha transformado aquele homem num dos maiores sucessos de vendas da música brasileira. O nome dela era a última canção. Paulo Sérgio tinha 36 anos.
Dois dias antes, ele estava num palco sentindo a cabeça latejar e pediu desculpa paraa plateia. Prometeu que ia voltar para terminar o show. Não voltou. Ele vendeu mais de 10 milhões de discos. As mulheres do Brasil inteiro cantavam as músicas dele baixinho, na cozinha, no rádio de pilha. Mas enquanto elas o amavam, existia um Brasil que fingia que ele não existia.
para entender por o maior romântico do país foi enterrado ao som da própria estreia. E porque a crítica quis esquecer dele, a gente precisa voltar pro comecinho para um menino que aprendia a costurar num cantinho do Espírito Santo e que um dia trocou a agulha pelo microfone. A cidade se chama Alegre. fica no sul do Espírito Santo, longe do mar, cercada de morro e de roça.
Foi ali que, no dia 10 de março de 1944, nasceu Paulo Sérgio de Macedo, o filho mais velho de dona Hilda e de seu Carlos. E seu Carlos era alfaiate. Então, a vida do Paulo começou do jeito que começava a vida de quase todo menino pobre do interior naquela época, dentro da oficina do pai. Com 10 anos, Paulo já conhecia a agulha e a tesoura de cor.

Passava as tardes sentado no meio dos retalhos, olhando seu Carlos medir o tecido, riscar com o giz, cortar e costurar. O cheiro de pano novo, o barulho da máquina, era esse o mundo dele e o futuro parecia já desenhado ali. Paulo ia ser alfaiate como o pai e talvez o filho dele também fosse um dia. Só que teve um dia que entortou esse destino.
Paulo tinha só 6 anos quando uma caravana de artistas das rádios do Rio passou por Alegre para fazer um show. No fim da apresentação, os organizadores montaram um concursinho de calouros ali mesmo num palco improvisado para animar a plateia. E aquele menino de 6 anos criou coragem, subiu e cantou e ganhou. foi escolhido o melhor de todos na frente de gente muito mais velha do que ele.
A partir daquele dia, a cidade inteira descobriu que o filho do alfaiate tinha voz e começaram a chamar o Paulo para cantar nas festas, nos aniversários, nas quermeces da região, costurar de dia, cantar de noite. Foi assim durante boa parte da infância e da adolescência dele. Quando Paulo ainda era jovem, a família juntou o que tinha e desceu pro Rio de Janeiro, atrás de uma vida melhor.
Foram morar em Braz de Pina, na zona norte, um bairro de gente trabalhadora igualzinha a eles. E foi no Rio que o destino do menino Alfaiate começou a virar de verdade. Com 15 anos, Paulo arrumou um emprego numa loja em Bom Sucesso, a Casas Rei da Voz, que vendia disco e eletrodoméstico. Para um rapaz apaixonado por música, era o paraíso e a tortura no mesmo lugar.
Ele passava o dia inteiro cercado de disco, ouvindo os ídolos dos outros tocarem, enquanto dedilhava um violão nas horas vagas e mostrava pros amigos as musiquinhas que ele mesmo inventava. E as músicas do Paulo eram boas, boas demais para ficarem presas atrás de um balcão de loja. Um radialista chamado Álvaro Menezes acreditou no rapaz e passou a levar ele para programas de auditório como o do Haroldo de Andrade.
E toda vez que Paulo cantava, o auditório reagia com um entusiasmo que ninguém conseguia ignorar. Aquele rapaz tímido, de fala mansa, tinha alguma coisa na voz que mexia com as pessoas por dentro. Em 1967 veio o primeiro sinal grande. Uma canção chamada Benzinho começou a tocar nas rádios e não foi um sucessinho qualquer, não.
Uma medição do Ibop, publicada pela revista Intervalo em novembro daquele ano, colocou o Benzinho em quinto lugar entre os compactos mais tocados na Guanabara. O menino de Alegre tinha, enfim, entrado na parada nacional, disputando espaço com os grandes nomes da época, mas o que veio no ano seguinte, ninguém, nem o próprio Paulo, era capaz de imaginar.
Em 1968, ele lançou o primeiro disco de longa duração e dentro dele estava a música que ia mudar tudo. Última canção. O disco estourou. As faixas foram parando nas paradas de todo o país, uma atrás da outra, sem dar trégua. Do dia paraa noite, aquele rapaz de sorriso tímido e olhos tristes, que costurava roupa poucos anos antes, se transformou num dos maiores fenômenos de venda da música brasileira.
Ao longo da carreira, foram mais de 10 milhões de discos, 13 álbuns, uma legião de fãs que crescia a cada mês que passava e não parou no primeiro disco. Um sucesso puxava o outro. Paulo Sérgio virou presença constante nas paradas nos programas de rádio na boca do povo. Os shows lotavam em pouquíssimo tempo. Aquele rapaz que ganhava a vida atrás de um balcão em bom sucesso tinha o Brasil inteiro cantando as músicas que ele mesmo compunha.
Foi uma ascensão rápida, quase vertiginosa, do tipo que pouquíssimos artistas viveram na vida. E tem uma ironia escondida nessa história, uma ironia que só o tempo ia revelar. A música que abriu a carreira do Paulo, a que fez o nome dele explodir no Brasil inteiro, se chamava justamente Última Canção.
O primeiro grande sucesso de um rapaz de 20 e poucos anos carregava logo no título a palavra última. Ninguém deu a menor importância para isso na época. Era só um nome bonito para uma canção de amor, mas guarda essa ironia na memória, porque ela vai voltar lá no fim dessa história de um jeito que ninguém poderia imaginar.
O menino Alfaiate de Alegre tinha virado ídolo nacional, só que o preço desse sucesso ainda ia se revelar. E vale a pena a gente parar um segundinho aqui, porque histórias como a do Paulo Sérgio, dos artistas que embalaram a vida da sua família, só continuam vivas se alguém insistir em contar elas direito, com respeito. É isso que a gente faz aqui no canal toda semana.
Então, se essa história já tá te tocando, se inscreve no Por Trás da Fama. E se você puder ir além, entrar pro nosso círculo por R$ 3,99 por mês, você ajuda a manter de pé esse trabalho de resgatar a memória de quem a gente ama. Fica o convite com carinho. Agora vamos falar da sombra que chegou junto com a fama. Quando Paulo Sérgio estourou, existia um outro nome que reinava sozinho no coração do Brasil, Roberto Carlos, o rei da Jovem Guarda.
E os dois tinham uma coisa em comum, uma coisa que ia perseguir o Paulo até o último dia da vida dele. voz. O timbre dos dois era parecido, grave, aveludado, romântico, do jeito que o público adorava. E foi só o Paulo aparecer nas rádios para que uma pergunta cruel começasse a rondar cada música dele. Será que esse aí não é só uma imitação do Roberto? A imprensa não demorou a cravar o rótulo.
Em agosto de 1968, a revista O Cruzeiro publicou uma grande reportagem sobre as brigas no mundo da jovem música e sobre o Paulo escreveram uma frase que machucou fundo. Ouvir a voz de um ou de outro praticamente não faz diferença. Com uma penada só transformaram o Paulo numa cópia, numa espécie de Roberto de segunda mão.
Pensa no tamanho da injustiça. O rapaz tinha talento de sobra, compunha as próprias músicas, escrevia sobre a vida da gente simples, sobre o amor do trabalhador e mesmo assim, cada elogio vinha embrulhado num lembrete envenenado. Ele parece com o outro. Cada aplauso trazia uma pegadinha. Imagino o que é construir uma carreira inteira ouvindo que você não passa da sombra de outra pessoa.
Aquilo foi corroendo o Paulo por dentro. Ele mesmo desabafou numa frase que ficou registrada pelos que estudaram a vida dele. Já não aguento mais ouvir todo mundo dizer que eu imito o Brasa. Brasa era o apelido do Roberto Carlos. Dá para sentir o cansaço na frase, o cansaço de um homem que só queria ser ele mesmo e que não deixavam.
E foi esse cansaço que levou o Paulo a uma decisão que mostra o tamanho do desespero dele. Paulo Sérgio se submeteu a uma cirurgia na garganta. Isso mesmo que você ouviu. Ele deixou um médico mexer na própria voz, no instrumento de trabalho dele, na coisa mais valiosa que ele possuía. Tudo para tentar soar diferente, para tentar arrancar de dentro do próprio corpo uma semelhança que ele nunca tinha escolhido ter.
Pouquíssimos artistas na história do Brasil chegaram a esse ponto. Operar a garganta para fugir de uma comparação. É de cortar o coração só de imaginar o tamanho da angústia que leva alguém a fazer uma coisa dessas. E o mais triste é que a comparação não foi embora. Ela seguiu ali colada na carreira do Paulo. Ano após ano, disco após disco.
Ele podia vender milhões, podia lotar auditório, mas sempre aparecia alguém pronto para dizer que ele era só uma imitação. É um peso que pouquíssima gente conseguiria carregar, continuando a sorrir pro público. E o Paulo tentou responder do único jeito que ele sabia. cantando, seguiu compondo, seguiu gravando, seguiu colocando no disco as histórias que só ele sabia contar.
Cada música nova era um jeito silencioso de dizer pro Brasil que ali tinha um artista de verdade com voz própria e alma própria. O público entendia isso muito bem. Uma parte da crítica é que insistia em não querer enxergar. E aqui é preciso deixar uma coisa muito clara. com todas as letras. Nada disso era briga do Roberto Carlos com o Paulo Sérgio.
O Roberto era um gigante, seguia o próprio caminho. E a gente já contou aqui no canal a história por trás da fama de um dos grandes nomes que marcaram gerações. A comparação não nasceu entre os dois artistas. Ela nasceu na imprensa e no mercado, que viviam de manchete e de polêmica. Naquele mesmo ano de 68, a gravadora do Roberto lançou um disco chamado O inimitável.
Muitos pesquisadores enxergam nesse título uma jogada para explorar a polêmica do momento. O nome já entregava de bandeja o recado que o público queria escutar. E o tempo, no fim das contas, foi dando razão ao Paulo. Ele continuou vendendo, continuou implacando sucesso atrás de sucesso. Em 1977, com a música Eu te amo, eu te venero, ele se firmou de vez, a ponto de gente na imprensa, começar a apontar o Paulo como o possível sucessor do próprio Roberto.
Aquele que já tinha sido chamado de cópia agora era cotado para herdar o trono. Mas mesmo no auge, o pior ainda estava ali escondido, porque a comparação, por mais dolorosa que fosse, não era a ferida mais profunda. A ferida mais profunda era um Brasil inteiro que preferia fingir que o Paulo não existia. Para entender o Paulo Sérgio de verdade, você precisa entender quem amava ele.
E poucas pessoas explicam isso melhor do que dona Adelina Macedo. Adelina era diarista. Virou fã do Paulo em 1967, quando ainda morava no interior, na cidade de Itu. E o amor por aquele cantor era tão grande, tão inteiro, que reorganizou a vida dela por completo. Adelina se mudou de Itu para São Paulo só para ficar mais perto da carreira do ídolo.
Escolheu trabalhar como diarista de propósito, porque o horário mais livre deixava ela acompanhar as viagens e os shows do Paulo. Ao longo dos anos, ela juntou um arquivo inteirinho guardado com cuidado de relíquia, foto, revista, recorte de jornal, objeto pessoal, uma vida organizada em volta da voz de um homem que ela talvez nunca tenha nem abraçado.
Agora multiplica a dona Adelina por milhões. Esse era o público do Paulo Sérgio. Gente trabalhadora, humilde, de coração aberto. Mulheres, na maioria, que ouviam aquelas músicas na cozinha. no ponto de ônibus, no radinho de pilha em cima da geladeira e sentiam que cada letra tinha sido escrita para elas, pra saudade delas, pro amor delas, pra dor calada de quem trabalhava demais e sonhava baixinho.
E o que era que o Paulo cantava afinal para emocionar tanta gente? Ele cantava a vida como ela é. O amor que dá certo e o amor que acaba, a saudade de quem foi embora, a esperança de dias melhores. Ele cantava pro pedreiro, pra empregada doméstica, pro casal que namorava escondido, pra mãe que criava os filhos sozinha e fazia isso num tempo pesado de ditadura militar, em que o país vivia sob censura e medo.
As músicas do Paulo eram um consolo simples e direto, sem frescura nenhuma, que falava a mesma língua do povo. Esse amor atravessou até as gerações. Anos depois, uma reportagem encontrou na própria Alegre uma adolescente fã do Paulo. E ela contou que tinha aprendido a amar aquelas músicas ouvindo junto com a mãe, uma filha herdando da mãe a paixão por um cantor que já tinha partido antes mesmo de ela nascer.
É esse tipo de raiz funda que a gente tá falando. E os números confirmam o tamanho do fenômeno. Mais de 10 milhões de discos ao longo da carreira. Sucesso atrás de sucesso. Desde o benzinho lá em 67, Paulo Sérgio era de longe um dos artistas mais vendidos do Brasil inteiro. Se você tem uma certa idade, é bem capaz que tenha crescido ouvindo alguma dessas músicas.
Última canção, Benzinho. Eu te amo, eu te venero. Melodias que tocaram em festa de casamento, em rádio de cozinha, em vitrola de sala, pelo Brasil inteiro durante mais de uma década. O Paulo fazia parte da trilha sonora da vida das pessoas. Só que é aqui que mora o paradoxo mais cruel dessa história. Enquanto o povo lotava as lojas para comprar disco do Paulo, uma parte da chamada crítica culta simplesmente virava o rosto.
Artistas como ele, os românticos populares, os que faziam sucesso de verdade com o povão, ganharam um rótulo criado para diminuir cafona, como se emocionar milhões de pessoas simples fosse motivo de vergonha e não de orgulho. Décadas mais tarde, a Folha de São Paulo resumiu num texto o que tinha sido feito com esses artistas.
Ao apresentar a pesquisa de um historiador, o jornal escreveu que gente como o Paulo Sérgio tinha sido riscada do mapa da história oficial, riscada por elitismo, por preconceito, por um descaso que fingia que aquela música toda comprada e cantada por milhões de brasileiros simplesmente não tinha valor nenhum. Repara na conta que não fecha.
De um lado, 10 milhões de discos e uma legião de gente que reorganizava a própria vida em volta das músicas dele. Do outro, uma parte da imprensa que preferia agir como se o Paulo nunca tivesse existido. Ele foi grande demais para ser ignorado pelo povo e popular demais para ser aceito por quem se achava dono do bom gosto.
A boa notícia é que a história mais cedo ou mais tarde cobra essas contas e esse resgate acabou ganhando nome e forma. Um pesquisador dedicou um livro inteiro a entender artistas como Paulo Sérgio, essa música que o povo amava e a elite desprezava. E o Paulo virou uma das figuras centrais desse estudo, não como uma curiosidade do passado, mas como a prova viva de que existia um Brasil de milhões de pessoas cuja memória tinha sido varrida para debaixo do tapete.
E não foi só um livro. Com o tempo, pesquisadores da música popular brasileira também voltaram os olhos pra obra do Paulo, estudando as canções dele com a seriedade que a crítica da época tinha negado. O que antes era tratado como música descartável. passou a ser reconhecido como um retrato precioso do Brasil real, aquele que amava, sofria e trabalhava ao som daquelas melodias.
A academia fez, décadas depois a justiça que os jornais da época não quiseram fazer e a memória do Paulo se recusou a morrer. Muitas décadas depois da partida dele, o túmulo continuava recebendo romaria. A filha da dona Adelina, a Jaqueline, contou como todo dia de finados o túmulo do Paulo se enchia de cartaz, de música e de admiradores vindos de todos os cantos e de todas as idades.
E em 2021, uma emissora de televisão revelou um verdadeiro tesouro escondido. Duas músicas inéditas do Paulo Sérgio, chamadas A vida é um jogo e o amor falou mais forte, guardadas numa fita cassete por mais de 40 anos. Quatro décadas depois da morte, o homem que a crítica quis apagar ainda dava as caras, ainda emocionava, ainda tinha coisa nova para dizer.
Mas esse reconhecimento todo chegou tarde. Chegou tarde demais, porque sem que ninguém percebesse, o relógio do Paulo Sérgio já estava correndo pro fim. E o fim ia acaber em dois dias apenas. 27 de julho de 1980, um domingo. Naquele dia, Paulo Sérgio fez a última aparição da vida dele na televisão, no programa do Bolinha, na Rede Bandeirantes.
Cantou duas músicas: O que mais você quer de mim e coroação? E ninguém na plateia, nem em casa, fazia ideia de que aquela era a despedida dele das câmeras. Era só mais um domingo, só mais um show. Naquela manhã, o Paulo ainda era uma máquina de vender disco, um artista no auge com muitos anos de carreira pela frente.
Ninguém, nem no pior pesadelo, imaginava que ele não veria o mês de agosto chegar. Depois do programa, aconteceu um episódio estranho daqueles que ficam marcados na memória de quem conta a história. Na saída, uma mulher que se dizia fã começou a hostilizar o Paulo e, num momento de fúria, jogou uma pedra que acertou e trincou o para-brisa do carro dele.
Paulo desceu do veículo e correu atrás dela. Essa cena aparece registrada em mais de uma biografia, então a gente pode contar ela com segurança, mas é preciso ter um cuidado enorme aqui. Muitos fãs, com o tempo, quiseram ligar essa pedra à morte do Paulo como se uma coisa tivesse causado a outra. Isso é o que a dor dos fãs imaginou.
Não existe nada, nenhuma prova que ligue aquele episódio ao que aconteceu poucas horas depois. O que se sabe é que dali paraa frente vieram as dores de cabeça fortes. Paulo se queixou, mas não procurou um médico. Ele tinha compromisso marcado, tinha show para cumprir e seguiu em frente do jeito que o artista daquela época seguia, engolindo a dor para não decepcionar quem esperava por ele.
Porque aquele domingo do Paulo foi um domingo de trabalho, como tantos outros. Um compromisso aqui, outro ali. Agenda cheia de um artista que vivia na estrada, sempre indo cantar em mais uma cidade. Era essa a rotina de um ídolo popular naquela época. Pouco descanso, muito palco. E o Paulo seguiu nessa toada, mesmo sentindo a cabeça rachar de dor.
Ainda naquela noite, depois de já ter cumprido outros compromissos ao longo do dia, Paulo Sérgio foi fazer a última apresentação da vida dele. Foi num circo, na cidade de Itapecerica da Serra, na grande São Paulo. Ele entrou no picadeiro e começou a cantar pro público que tinha ido vê-lo. como fazia havia mais de 10 anos. Mas depois de algumas músicas, ficou claro que alguma coisa estava muito errada.
A dor de cabeça tinha se tornado insuportável e a vista do Paulo começou a embaçar. Ele mal conseguia enxergar a plateia que estava logo ali na frente dele. Foi então que Paulo Sérgio fez o que nenhum artista quer fazer na vida. Ele parou o show, se virou para aquela plateia, avisou que não estava se sentindo bem e pediu desculpas.
prometeu que voltaria outro dia para terminar o que tinha começado e foi caminhando com dificuldade em direção aos bastidores. Aquela promessa feita num circo lotado em Itapecerica da Serra foi uma das últimas coisas que Paulo Sérgio disse em cima de um palco. Uma promessa que ele não teve como cumprir. Nos bastidores, quem estava com ele encontrou Paulo já num estado grave.
A esposa dele estava por perto junto com dois amigos da gravadora. E o que eles viram foi de assustar. Paulo gemia de dor, tremia, mal conseguia se manter em pé. Aquilo já não era enxaqueca nenhuma. Era um derrame cerebral se instalando ali naquele exato momento, sem que ninguém pudesse fazer coisa alguma para impedir. Pensa na cena.
Um homem que passou a vida inteira em cima de palco, cercado de luz e de aplauso, vivendo os últimos momentos de consciência num camarim de circo, cercado de gente desesperada, que não sabia o que fazer, levaram o Paulo às pressas pro hospital, primeiro pro Piratininga e depois paraa UTI do Hospital São Paulo.
E foi ali que Paulo Sérgio mergulhou num coma que se arrastou por quase 48 horas, dois dias inteiros lutando pela vida, em silêncio, num quarto de hospital, bem longe dos holofotes e dos aplausos que tinham iluminado toda a existência dele, foram dois dias de agonia e de esperança. Dois dias em que os amigos, a família e os fãs se agarraram à ideia de que o Paulo era forte, de que ele ia acordar, de que ainda tinha muita música para cantar, mas dessa vez o corpo dele não resistiu.
No dia 29 de julho de 1980, por volta das 9 da noite, o coração do Paulo Sérgio parou. Ele tinha apenas 36 anos. deixou a promessa de voltar ao palco sem cumprir e deixou um país inteiro em choque, sem entender como um dos ídolos mais amados do Brasil podia ter ido embora assim, tão de repente, tão jovem, no auge absoluto da carreira.
A notícia da morte do Paulo correu o Brasil e deixou todo mundo em estado de choque. Como assim o Paulo Sérgio, tão novo, tão de repente? O corpo dele foi velado em São Paulo e muita gente simples, gente que só conhecia o ídolo pelos discos e pelo rádio, foi se despedir dele chorando, cantando as músicas dele baixinho.
Depois o corpo fez a última viagem de São Paulo pro Rio de Janeiro para descansar no cemitério do Caju. No dia 30 de julho, por volta das 4 da tarde, no cemitério do Caju, o caixão dele desceu pra cova. E foi aí que aconteceu a cena que abriu esse vídeo. Enquanto o corpo descia devagar, tocava Última Canção! A mesma música que tinha aberto a carreira dele 12 anos antes foi a música que fechou a vida dele, a estreia e a despedida com o mesmo nome, como uma profecia escrita lá atrás que ninguém tinha sido capaz de enxergar. Pros milhões de fãs, aquilo
teve o peso de um sinal, como se lá em 1968 o destino já soubesse como essa história ia terminar e tivesse escrito o roteiro com 12 anos de antecedência, o primeiro sucesso e o último a Deus. A mesma canção, o mesmo nome, última canção começou como o nome de um grande sucesso e terminou como o resumo de uma vida inteira. E não foi um adeus solitário.
Artistas que eram amigos e companheiros de estrada apareceram para se despedir. Antônio Marcos, Jerry Adriani, Agnaldo Timóteo, Zé Rodrigues, gente que sabia melhor do que qualquer crítico o tamanho do que o Brasil estava perdendo naquele dia. E logo depois, ainda em agosto daquele ano, uma rua no bairro do Butantã, em São Paulo, ganhou o nome dele, Paulo Sérgio de Macedo, para que o menino Alfaiate de Alegre jamais fosse esquecido pela cidade que um dia o acolheu.
E tem uma coisa nessa história que precisa ser dita bem alto. Paulo Sérgio morreu no topo, vendendo discos, lotando shows, amado por milhões de pessoas. Um historiador que estudou a fundo a trajetória dele resumiu tudo numa frase certeira. foi um artista que nunca conheceu o fracasso. Enquanto uma parte da crítica tentava riscar o nome dele da história, o povo fazia exatamente o contrário.
Até hoje, o túmulo do Paulo no Caju é um dos mais visitados, sempre cheio de flor, de cartaz e de gente de várias gerações, que continua cantando as músicas dele em voz alta ali mesmo ao lado da lápide. A última música que Paulo Sérgio chegou a gravar, segundo as biografias, se chamava O amor é cada vez maior, registrada mais ou menos duas semanas antes da morte.
Ela acabou abrindo um disco lançado só depois que ele já tinha partido, como se o Paulo tivesse deixado, sem nem saber, um último recado de despedida guardado num estúdio. E os amigos e colegas não deixaram a obra dele morrer. Anos depois da partida, artistas que admiravam o Paulo se juntaram para regravar as músicas dele em forma de dueto, misturando as vozes deles com a voz original do Paulo, que já estava gravada nos discos.
Nomes como Antônio Marcos, Jerry Adriane, Perla, Jair Rodriguez, Martinha e Vanderlei Cardoso emprestaram a voz para manter o Paulo Sérgio cantando. Era a própria música brasileira dizendo do jeito dela que aquele homem tinha valor, mesmo que uma parte da crítica tivesse se recusado a admitir isso em vida. E os tributos não pararam por aí.
Em 1996, uma gravadora lançou um disco inteiro em homenagem ao Paulo com as músicas dele regravadas. Ano após ano, novos artistas descobriam aquele repertório e devolviam ele pro público. A obra do menino de Alegre se recusava a envelhecer, se recusava a assumir. Cada nova gravação era mais uma pá de terra em cima da tentativa de apagar o nome dele.
Mas o gesto mais bonito de toda essa história veio de dentro de casa. Em 1975, Paulo Sérgio gravou uma música chamada Quero ver você feliz, dedicada ao filho, o Rodrigo, que era só um bebê de colo. Uma declaração de pai para filho, guardada para sempre num disco. Quando Paulo morreu, o Rodrigo tinha apenas 6 anos.
Cresceu sem o pai por perto, ouvindo aquela voz nos discos que ficaram espalhados pela casa. E então, em 1987, aconteceu uma coisa que parece roteiro de cinema. Já um garoto maior, o Rodrigo entrou num estúdio e gravou a resposta dele por cima da voz do pai. O pai chamando o filho de um lado da música, o filho respondendo do outro, os dois cantando juntos numa mesma canção, separados pela morte e reunidos por um estúdio de gravação, um dueto entre um homem que já tinha partido e o menino que ele deixou para trás.
E talvez seja essa a maior vitória do Paulo Sérgio. Tentaram apagar ele da história oficial, mas não conseguiram calar a voz dele. Essa voz continuou tocando na cozinha da dona Adelina, no túmulo cheio de flores do caju, nas rádios que nunca deixaram de tocar as músicas dele e até na resposta de um filho que cresceu ouvindo o pai cantar.
O menino que trocou a agulha pelo microfone virou uma voz que nem a morte foi capaz de silenciar. A história do Paulo Sérgio é a história de um homem que foi amado demais para ser esquecido pelo povo e simples demais para ser aceito por quem decidia o que tinha valor. Mas ele não foi o único a carregar esse peso nas costas.
Teve outro artista que encheu o Brasil de música e também levou o mesmo fardo, um homem que veio de muito baixo, que foi chamado de brega pelos mesmos que torciam o nariz pro Paulo e que transformou a própria dor, a própria pobreza, a própria história de sofrimento em canado por milhões e olhado de cima por uns poucos. O nome dele é Waldick Soriano.
E essa história tão forte quanto a que você acabou de ouvir, a gente vai contar muito em breve aqui no Por trás da Fama. Até lá. M.