Aos 62 anos, WILSON SIMONAL: a TRAGÉDIA de MORRER à espera de um PERDÃO
Aos 62 anos, WILSON SIMONAL: a TRAGÉDIA de MORRER à espera de um PERDÃO
Wilson Simonell morreu aos 62 anos, ainda esperando um perdão que nunca chegou. E isso é estranho, porque anos depois da morte dele, o Estado brasileiro fez algo que ninguém esperava. reconheceu oficialmente que um homem foi torturado por causa de uma acusação ligada a Simonal, mas nunca conseguiu provar que ele fosse o traidor que os jornais disseram que era.
E o motivo pelo qual essa história ficou décadas sem resposta está escondido em documentos que só vieram à tona há pouco tempo. Documentos do Arquivo Nacional e um processo oficial de reparação julgado em 2021 contam uma versão bem diferente da que virou Manchete em 1971. O que estava em jogo não era só a reputação dele era o maior contrato publicitário já assinado por um artista brasileiro, uma carreira internacional prestes a começar e, no fim o próprio nome dele na história da música brasileira. Todo mundo aprendeu a versão
de que Wilson Simonell foi o delator que traiu amigos paraa ditadura. Mas os documentos que a justiça guardou por 50 anos contam uma história bem mais complicada e bem mais triste do que essa palavra sozinha. Era 5 de julho de 1969 e o Maracanãzinho estava lotado. O ginásio, um dos maiores palcos cobertos do Rio de Janeiro, era reservado [limpando a garganta] para eventos do tamanho de uma seleção brasileira de basquete ou de um festival internacional de música, não para qualquer show.
30.000 pessoas foram lá para ver Sérgio Mendes, o pianista brasileiro que tinha virado estrela internacional o orgulho do país lá fora. Wilson Simonal era só a abertura da noite. O que aconteceu depois não estava no rotator de ninguém. Simonal subiu ao palco, cantou e a plateia virou o couro. 30.000 vozes repetindo cada palavra atrás dele.
Quando terminou seu tempo e saiu de cena, aquela multidão não deixou. gritaram o nome dele cada vez mais alto. E quando finalmente Sérgio Mendes, o astro da noite, pisou no palco para começar seu próprio show, parte da plateia ainda reclamava, ainda queria Simonal de volta. Mendes chegou a ouvir vaias.

A solução foi chamar os dois juntos. Simonel voltou ao palco e ele e Mendes cantaram Samarina, composição de César Mariano, que já era sucesso do ano anterior, lado a lado, uma dupla que ninguém tinha planejado naquela noite e que a plateia recebeu de pé. nos bastidores. Segundo relatos de quem estava lá, Simonal chegou a desmaiar de emoção.
Ele esperava que o público cantasse com ele, não esperava aquilo. Semanas depois, numa entrevista, ele tentou explicar o que sentiu. Disse que naquela noite a reação do público tinha deixado de ser entusiasmo e virado outra coisa. Emoção pura, dos dois lados do palco. O jornal O Pasquim resumiu o que tinha acontecido numa manchete curta e definitiva.
Wilson Simonal jantou Sérgio Mendes. A mesma publicação que dois anos depois escreveria sobre ele um tipo de manchete completamente diferente. E o impacto daquela noite não ficou só dentro do Maracanãzinho. A noite tinha sido pensada como uma vitrine internacional. Além de Sérgio Mendes, dividiram o palco nomes como Jorge Ben, Marcos Vale e os Mutantes, um time de peso reunido justamente para consagrar o artista brasileiro que a Shell e a organização queriam projetar lá fora.
E foi o nome que ninguém tinha escalado como atração principal que roubou a noite inteira. Poucos meses depois, jornais da época chamaram o novo contrato publicitário que Simonal assinou com Aell de O contrato de publicidade mais fabuloso, já firmado por um artista brasileiro até então, bem no meio da campanha que a marca fazia em cima da Vaz, seleção brasileira que ia buscar o tricampeonato no México.
O rosto dele passou a estampar comerciais de televisão ao lado dos craques da seleção em jornais, em revistas e não parou aí. Em janeiro de 1970, Simonal se apresentou no Miden, o grande encontro da indústria musical mundial em Kh, na França. Viajou pro México com o entorno da seleção, lançou disco por lá e numa entrevista daquele mesmo ano chegou a falar da possibilidade de gravar nos Estados Unidos com uma gravadora americana.
Ainda era só uma possibilidade, mas pela primeira vez parecia real. Um cantor negro, criado numa favela do Leblon, estava a um passo de virar um nome internacional numa época em que quase nenhum artista brasileiro conseguia isso. Noites como aquela não acontecem duas vezes na carreira de ninguém. E é exatamente por isso que o que vinha a seguir doeria tanto.
Se você também acha que toda a história tem mais de um lado, principalmente as que a gente só ouviu contadas de um jeito só, esse é o tipo de documentário que vale a pena ver até o final. se inscreve aqui no canal e se quiser fazer parte de verdade dessa missão de resgatar essas histórias, o círculo por trás da fama tá aberto. Por menos que um cafezinho por mês, você ajuda o canal a continuar contando o que ninguém mais conta.
Mas para entender como aquele homem conseguiu fazer 30.000 1 pessoas gritarem o nome dele numa única noite. É preciso voltar muito antes do Maracananzinho, voltar para uma favelinha no Leblon, onde um garoto negro crescia numa realidade bem diferente daquela luz de palco que um dia seria só dele. Wilson Simonell nasceu no Rio de Janeiro no carnaval de 1938.
A mãe dele, Maria Silva de Castro, era mulher negra, trabalhava como cozinheira e empregada doméstica. O pai Lúcio Pereira de Castro, técnico de rádio, se afastou cedo e foi Maria quem sustentou Wilson e o irmão dele, José Roberto, sozinha. A infância passou entre dependências de empregada, nas casas onde a mãe trabalhava, um colégio assistencial e depois a região do Leblon, só que não o Leblon dos cartões postais.

Fui criado no Leblon, numa favelinha”, contou o próprio Simonal numa entrevista de 1969. Uma favela de 17 barracos, uma das poucas que já tinha televisão e água encanada. Ele fazia questão de lembrar como quem mede orgulho em detalhes pequenos até quem se lembre dele menino. Segundo uma recordação atribuída ao produtor Luís Carlos Miele, a mãe de Wilson chegou a trabalhar como cozinheira numa casa na rua Carlos Gois e deixava comida no quintal para ele buscar sem entrar, sem ser visto pelos patrões.
Foi dessa realidade que nasceu a banda Dry Boys, formada por Wilson e o irmão José Roberto com mais alguns amigos do bairro. Cantavam covers de dop americano, ensaiavam nas ruas do Leblon, se apresentavam onde davam espaço. Não durou muito, mas foi o suficiente para chamar a atenção do produtor Carlos Imperial, que enxergou ali algo diferente de tudo que estava tocando no rádio e apostou na carreira solo do garoto.
O que Imperial tinha visto era uma combinação rara, voz afinadíssima, senso de humor e uma capacidade quase hipnótica de conduzir uma plateia inteira como se fosse um coral. Simonal batizou aquilo de pilantragem musical, um jeito de cantor malandro, cheio de interação direta com o público, de chamado e resposta, de brincadeira dentro da própria música.
Numa gravação, ele parava a canção no meio, brincava com a plateia, fazia todo mundo repetir um verso e só depois retomava, como se estivesse regendo um coral inteiro sem partitura. Anos mais tarde, levaria esse mesmo estilo pra fase com a banda Som cada vez mais afiado, cada vez mais dono do próprio palco.
Ele mesmo dizia: “Não era pretencioso, era só um jeito de cantar que ninguém mais tinha”. A carreira decolou rápido. Vieram os sucessos que qualquer pessoa daquela geração ainda canta de cor. Mamãe passou açúcar em mim. Nem vem que não tem. Meu limão, meu limoeiro. Virou também apresentador de televisão, comandou o programa Spotlight na TV Tupi e depois dois programas próprios na TV Record Show and Se Monal.
e vamos simbora que fizeram dele uma presença semanal na casa de milhões de famílias brasileiras. Chegou a dividir estúdio num programa nacional patrocinado pela própria Shell com a cantora de jazz americana Sarah Wen, uma das maiores vozes do jazz mundial ali cantando ao lado de um garoto que tinha crescido numa favela do Leblon.
Naquela geração foi um dos poucos artistas negros a alcançar o status de grande estrela nacional dentro e fora dos estúdios de gravação. Em 1967, gravou Tributo a Martin Luther King, uma canção que assumia, sem rodeios, a identidade negra dele. A censura da ditadura segurou a música por quatro meses antes de liberar. Foi nessa época que a imprensa começou a chamar de o Harry Bela Fonte brasileiro.
Uma comparação que ao mesmo tempo, reconhecia o talento e mostrava como o Brasil ainda enxergava um artista negro de sucesso, sempre em referência a outro nome, quase nunca, só pelo próprio. Na última entrevista que deu na vida, já perto do fim, Simonal resumiu numa frase só o que sentiu ao longo de toda a trajetória.
Eu provocava muita inveja e o Brasil é um país racista. Entre 1967 e 1969, Simonal viveu a fase mais produtiva da carreira, uma sequência de quatro discos batizados de Alegria Alegria. O último deles saiu bem em 1969, o mesmo ano do Maracanãzinho, o mesmo ano em que a imprensa já o chamava de rei da pilantragem. E olhando para trás, especialistas em música brasileira vão apontar esse disco como uma peça dupla.
Ao mesmo tempo, o auge da consagração dele e o primeiro sinal, ainda invisível do início do declínio. O cantor Tony Tornado, que dividiu palcos com ele naqueles anos, resumiria depois, num documentário o que viu acontecer, que foi justamente ali, na noite do Maracananzinho, que nasceu a inveja que, segundo ele, deu início a todo o resto.
Simonal contaria tornado, jogava o jogo do sistema sem visão política, mas isso não foi suficiente. Ele era naquele momento o maior cantor do Brasil, prestes a estourar internacionalmente, e isso por si só incomodava gente demais. Essa inveja, esse incômodo que ele mesmo sentia ao redor ia se tornar importante demais para ignorar, porque foi bem no auge quando Simonal parecia ter tudo.
Fama, o Carisma, o Maracanãzinho Lotado, os programas de TV, o contrato mais falado do país, que alguém bem perto dele, ia acender o estopim que levaria tudo aquilo pro fundo do poço. Em meados de 1971, Simonal demitiu seu contador, Rafael Viviani, desconfiado de um desfalque nas contas da Simonal Produções Artísticas. Viviane tinha sido contratado em outubro de 1970.
Foi demitido em junho de 1971. reagiu, processando o cantor na justiça do trabalho, o caminho legal, o que existia para resolver esse tipo de disputa. Esse processo trabalhista ainda estava correndo sem decisão nenhuma, quando Simonal decidiu não esperar mais. Segundo consta no próprio processo, Simonal chegou a alegar que vinha recebendo ligações de ameaça do ex-contador. Foi armado com essa versão.
A de que era ele, Simonal, quem estava sendo ameaçado, que cometeu o erro que mudaria o resto da vida dele. Pediu ajuda a policiais conhecidos para resolver o caso de uma vez por todas. Só que esses policiais, sem que ele tivesse controle nenhum sobre isso, eram agentes do DOPS.
o órgão de repressão política da ditadura militar. Em agosto daquele ano, quatro dias depois de Simonal procurar o órgão, os agentes foram até a casa de Viviane. Ele foi levado primeiro ao escritório dele mesmo em Vila Isabel, depois pro prédio do DOPS, no centro do rio, e lá dentro foi torturado. Choques, socos, pontapéis. Um exame de corpo de delito comprovou as lesões depois.
Sob coação, Viviane assinou uma confissão do desfalque que nunca chegou a se provar de verdade. O processo judicial completo revisado pela Folia DS, Paulo, décadas depois, em 2009, com base em mais de 600 páginas de arquivo, deixa um ponto claro. Simonal não participou da tortura, nem esteve presente enquanto ela acontecia.
O que o processo mostra é outra coisa, que ele colaborou para Viviane ser levado até lá, que chegou a emprestar seu próprio carro como motorista pros agentes fazerem diligências do caso e que num documento assinado de próprio punho, ele se descreveu como antigo colaborador do DOPS. Um dos policiais envolvidos, o inspetor Mário Borges, tomou depoimento no processo.
Em outro contexto, seu nome apareceria num relatório de direitos humanos como um dos responsáveis por episódios de tortura contra presos políticos da ditadura. Viviane nunca se recuperou completamente do episódio. As sequelas físicas da tortura foram graves o suficiente para levá-lo anos depois à aposentadoria por invalidez. Viviane denunciou o sequestro.
A notícia virou manchete. Simonal, junto com outros dois homens ligados ao caso, respondeu ao processo. E de uma hora para outra, o homem que tinha feito 30.000 mil pessoas gritarem seu nome no Maracananzinho, se tornou pros jornais outra coisa completamente diferente. A história se espalhou rápido, de jornal em jornal, de rádio em rádio, numa velocidade que pra época era quase tão impressionante quanto a ovação que ele tinha recebido dois anos antes.
Anos depois, ao noticiar a morte dele, a própria Folha relembraria que um juiz do caso tinha apontado Simonal, como informante, um detalhe que a imprensa repetiria por décadas, como se fosse a última palavra sobre o assunto, mesmo com tanta coisa ainda em disputa no processo. É assim que funciona esse tipo de escândalo. A acusação nasce complicada, cheia de nuances, com um homem torturado de um lado e um homem que nunca chegou a presenciar aquela tortura do outro.
Mas quando vira manchete, a complicação desaparece, sobra só a palavra. Uma palavra começou a se colar no nome dele, uma palavra que ele carregaria pelo resto da vida e que décadas depois ainda estaria em disputa. A palavra era later. O jornal Pasquin estampou o caso e a acusação de que Simonal tinha sido informante do DOPS virou manchete nacional.
Outros veículos repetiram a mesma versão e ela grudou. A indústria de música reagiu em bloco. André Midani, então executivo da gravadora Philips, contaria mais tarde que precisou explicar pessoalmente para artistas importantes do selo por continuava trabalhando com Simonal. Anos depois, o próprio cantor disse à Folha que músicos evitavam gravar com ele.
Corria o boato de que quem se aproximasse ia se queimar junto. Shows que já estavam contratados foram cancelados. Convites que antes chegavam toda semana simplesmente pararam de vir. Casas noturnas que faziam fila para contratá-lo dois anos antes, agora nem respondiam mais o telefone dos empresários dele.
Rádios que tocavam os discos dele o dia inteiro passaram a evitar até mencionar o nome. Na justiça, o processo avançou. Registrado sob número 3540 de 1972, o caso chegou às mãos do juiz João de Deus Lacerda Mena Barreto. Em 1974. Ele condenou Simonel por extorção mediante sequestro a 5 anos e 4 meses de reclusão.
Ele ficou preso cerca de 10 dias. Em recurso, 2 anos depois, o crime foi reclassificado para constrangimento ilegal e a pena caiu para três meses. Mas a pena judicial nunca foi o castigo de verdade. O castigo de verdade foi o silêncio que se instalou depois um telefone que parou de tocar e não voltou. A carreira internacional que parecia tão perto com o Midam, o México, a possibilidade de gravar nos Estados Unidos simplesmente parou de existir.
Ninguém mais falou nisso. Décadas depois, jornalistas e historiadores da música passariam a chamar o caso de Simonal de o primeiro cancelamento da cultura brasileira, muito antes de essa palavra existir, com o sentido que ela tem hoje. o mesmo sentido que qualquer pessoa reconhece agora nas redes sociais, uma acusação que se espalha mais rápido do que qualquer versão dos fatos e que já condena antes de qualquer processo terminar. e o mais duro.
Nem mesmo colegas que oficialmente também tinham sido perseguidos pela ditadura sentiram necessidade de romper com ele em público. Anos mais tarde, Gilberto Gil e Caetano Veloso, os dois exilados pelo regime, declarariam nunca ter tido problema de convivência com Simonal e Veloso chegaria a elogiar as qualidades dele como artista.
Mas naquele momento isso não foi suficiente para deter avalanche. Existe uma diferença enorme entre ser processado e ser condenado, e outra diferença ainda maior entre ser condenado na justiça e ser condenado pela opinião pública. A pena de 3 meses Simonal cumpriu. A outra pena do julgamento social não tinha data para acabar.
E o homem que sabia como fazer 30.000 pessoas cantarem seu nome, descobriu ali o que era o silêncio completo. Os anos que vieram foram de erosão lenta. O casamento com Teresa Leite Puglies, mãe de dois dos filhos dele, não resistiu à pressão do escândalo e ao álcool, que virou companhia cada vez mais constante. Aos poucos, alguns produtores voltaram a chamá-lo, não para grandes shows, mas para participações pontuais em gravações de outros artistas.
Não era o mesmo Simonal do Maracanãzinho, mas era pelo menos uma porta entreaberta a prova de que talento daquele tamanho não desaparece de vez, mesmo depois de tanto tempo trancado do lado de fora. Foi nessa fase que Sandra Manzini, Cerqueira, advogada, se tornou sua segunda esposa e também sua defensora mais ativa. quanto ele definhava.
Era ela quem falava publicamente sobre o caso, sobre inveja, sobre racismo, sobre os documentos que o próprio Simonal reunia um a um, tentando provar a própria versão. Sandra chegou a levar o caso a instâncias oficiais do Estado, a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, o Centro de Inteligência do Exército, a Secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, atrás de qualquer documento que confirmasse ou desmentisse de vez a suposta colaboração dele com a repressão.
Ela seria nos anos seguintes, a pessoa que mais insistiu em público que a história contada sobre ele estava incompleta. Em 1991, uma admiradora, cujo nome chegou até nós, pagou horas de estúdio e músicos para Simonal gravar Os sambas da minha terra com produção de Roberto Menescal. O disco chegou a sair pela Colúmbia na Venezuela.
Não era o retorno em grande estilo que ele sonhava. Mas era prova de que ainda havia gente disposta a apostar nele. Três anos depois, saiu uma coletânia, a bossa, e o balanço de Wilson Semanel. E em 1995, o disco de Inéditas Brasil, o 36º e último álbum da carreira dele. Em outubro de 1994, um repórter da Folha o encontrou no apartamento onde morava, em Moema, São Paulo.
Simonal leva sempre consigo numa pasta o abá de 1991, o documento que, segundo ele, provava que nunca tinha sido informante de coisa nenhuma. Mostrava aquela pasta para quem quisesse ver, como quem já tinha aprendido, a força, que a palavra sozinha não bastava mais, era preciso o papel, o carimbo, a prova. disse que fazia 22 anos que não gravava por uma grande gravadora, nem produzia um grande show, mas fez questão de dizer: Nunca tinha parado de trabalhar por completo.
Numa fase ainda anterior, segundo uma crônica da jornalista Léa Penteado, que acompanhou de perto aqueles anos, ele viveu num apartamento alugado, sustentado pela ajuda de amigos, meses sem trabalho nenhum carregando. Mesmo assim, a mesma pasta de documentos, de endereço em endereço, como quem carrega uma prova de inocência que ninguém parecia querer ouvir.
Tem um tipo de solidão que não é falta de gente por perto, é a sensação de estar cercado e mesmo assim não ser realmente visto. Foi essa a solidão que Simona carregou por boa parte dessas duas décadas, cercado pela família, pela segunda esposa, por amigos que continuavam por perto, mas cada vez mais isolado de um público que um dia tinha sido seu por inteiro.
Ele continuava sendo, para quem o conhecia de perto, o mesmo homem espirituoso e caloroso do Maracanãzinho. Só que quase ninguém fora desse círculo pequeno ainda estava disposto a enxergar isso. O homem que enchia o Maracanãzinho agora cabia inteiro numa pasta e o tempo, mais do que qualquer processo, ia decidir se ainda dava tempo de alguém abrir aquela pasta e ler.
Nos últimos 5 anos, Simoninha se afastou parcialmente do pai o álcool. e os problemas de saúde tornavam o convívio difícil, mas nunca deixou de ajudar. E segundo o próprio filho contou depois, os dois se reaproximaram no fim. Simona ia escondido, assistir aos shows dos filhos.
tinha medo de que sendo visto, pudesse prejudicar a carreira deles. Em 2000, foi internado duas vezes no Hospital Siro Libanês em São Paulo. A primeira de 4 de abril a 12 de maio, a segunda a partir de 30 de maio. A doença foi vivida quase inteiramente longe da imprensa, a mesma imprensa que, 30 anos antes não parava de escrever sobre ele.
Nas duas últimas semanas, o quadro piorou. Na sexta-feira anterior à morte, entrou em coma hepático. A família manteve tudo em silêncio até o fim. Não houve entrevista, não houve boletim médico público, não houve nenhuma daquelas coberturas que costumam acompanhar a doença de um artista desse tamanho.
Simonel morreu do mesmo jeito que tinha vivido os últimos anos. Fora do noticiário, o crítico Zuza, homem de Melo visitou na semana anterior e contou depois que Simonal ainda usava o humor para falar do próprio estado rindo, mesmo ali, de um jeito que só quem o conheceu de verdade reconheceria como genuinamente dele. Mais devagar é o momento mais grave.
Wilson Simonel morreu em 25 de junho de 2000, aos 62 anos. de falência múltipla de órgãos causada por disfunção hepática. No enterro apareceram cerca de 60 pessoas. Entre os poucos colegas de profissão presentes estavam Jair Rodriguez, Silvio Brito e Pedro Mariano. 60 pessoas pro homem que uma vez tinha feito 30.000 gritarem o nome dele ao mesmo tempo dentro de um estádio.
No mesmo dia, Simoninha fez questão de dizer: “A família não guardava rancor da imprensa, nem da indústria. Só queria um dia conseguir reunir uma compilação digna da obra do pai. Ele morreu sem saber que essa compilação e muito mais estava por vir. Foram os filhos que começaram a reconstruir o que sobrou. Wilson Simoninha e Max de Castro, os dois cantores, dedicaram décadas a resgatar a obra do pai, discos, participações, um musical, o projeto Baile do Simonal, que segue até hoje levando a música dele para novas plateias, cantada pela
própria voz da família. Em cada apresentação, é como se o Maracanãzinho de 1969 ganhasse por algumas horas uma plateia nova 30.000 vozes substituídas por centenas, mas com a mesma função. Lembrar em voz alta de um nome que por décadas quase ninguém teve coragem de dizer em público para dois filhos que cresceram vendo o pai carregar uma pasta de documentos, como quem carrega uma cruz, subir no palco e cantar as canções dele virou também uma forma de justiça.
Em 2009, saiu o documentário Simonal Ninguém sabe o duro que dei reunindo depoimentos de Sandra Cerqueira, de Max de Castro e até do próprio Rafael Viviane as duas versões e Rágica, lado a lado, pela primeira vez numa mesma obra. No mesmo ano foi publicada a biografia Nem Vem que não tem de Ricardo Alexandre, com apoio da família.
10 anos depois, em 2019, chegou aos cinemas a cinebiografia Simonal, revisitando a vida dele para uma geração inteira que nem tinha nascido quando tudo aconteceu. “A novas gerações não conhecem os sucessos dele,” resumiria Simoninha, na época do lançamento. Simonal teve três filhos, Patrícia, Simoninha e Max de Castro. O ator que o interpretou no cinema Fabrício Boliveira resumiu uma leitura que ganhou força nesses anos de resgate.
Para ele, parte da razão de Simonal nunca ter sido plenamente perdoado tem a ver com o racismo. Um artista negro, arrogante aos olhos de muitos, rico e talentoso demais para ser perdoado com facilidade. Antes mesmo documentário e da cinebiografia, em 2002, a pedido da própria família, a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil abriu um processo só para investigar essa história.
documentos da época, ouviu artistas que tinham convivido com o Simonal, entre eles Chicoísio, Ronnie Von e Jair Rodriguez, e revisou reportagens antigas tentando entender décadas depois o que realmente tinha acontecido. E em 2021, mais de 50 anos depois daquela noite no DOPS, o Estado brasileiro reconheceu oficialmente Rafael Viviani como perseguido político, concedendo a ele uma reparação de 30 salários mínimos, o equivalente a R$ 33.
000 na época. Não era sobre o dinheiro, era o estado dizendo em documento oficial que aquilo que aconteceu com ele tinha sido real depois de 50 anos sendo tratado por boa parte da imprensa como um personagem secundário na queda de Simonal. Isso não resolve sozinho. A outra pergunta a que segue em aberto até hoje.
O próprio Simonal reuniu documentos ao longo da vida tentando provar que nunca constou nos arquivos do SNI ou do exército como informante. Mas a revisão completa do processo judicial feita pela Folha de S. Paulo em 2009 encontrou declarações do próprio cantor e depoimentos que o descrevem como colaborador do DOPS.
E a justiça manteve essa caracterização em recurso já em 1976. O que ninguém encontrou, nem de um lado, nem do outro, foi uma lista de artistas que ele de fato tenha denunciado. Histórias da ditadura como essa raramente tem um arquivo perfeito com todas as respostas guardadas num único lugar. O que existe são pedaços. Um documento aqui, um depoimento ali, uma reparação décadas depois que confirma parte da história, sem confirmar o resto.
Reconstruir esse tipo de passado é isso, juntar pedaços e aceitar que alguns nunca vão se encaixar por completo. A obra foi resgatada. A música dele voltou a tocar nas rádios, nos documentários, nas vozes dos próprios filhos. O baile do Simonal continua rodando o país. Casa cheia, plateia jovem descobrindo um repertório que os pais e avós já conheciam de cor.
Mas a história continua desconfortável, documentada demais para caber numa absolvição simples, humana demais para caber num julgamento definitivo. Talvez seja esse o verdadeiro legado de Wilson Simonel. A prova de que uma voz pode ser silenciada por anos inteiros, mas nunca completamente apagada. 30.000 pessoas cantaram o nome dele numa única noite de 1969.
Décadas depois, são os próprios filhos que sobem no palco, cantam as mesmas canções e garantem que ninguém esqueça de novo. Para quem acompanhou tudo isso ao vivo, quem gritou o nome dele no Maracanzinho, quem depois leu as manchetes sobre o Dops, quem ouviu anos mais tarde as canções voltando a tocar no rádio.
Essa não é só a história de um artista, é a história da própria época em que viveram. Histórias como essa mostram uma coisa. Por trás de toda a fama enorme, sempre existe uma versão que a gente nunca ouviu contar inteira. E quanto maior a fama, maior costuma ser essa distância entre a imagem pública e a vida real por trás dela.
E se tem um nome que carrega décadas de silêncio parecido, mesmo sem nenhum escândalo por trás, é o do próprio rei da música brasileira. Roberto Carlos guarda atrás dos mais de 120 milhões de discos vendidos, uma rotina de solidão que pouquíssima gente conhece de verdade. Esse documentário já está aqui no canal esperando por você. Yeah.