Aos 78 anos, LAFAYETTE: a TRAGÉDIA por trás do ÓRGÃO mais famoso do Brasil
Aos 78 anos, LAFAYETTE: a TRAGÉDIA por trás do ÓRGÃO mais famoso do Brasil
Durante mais de 50 anos, o Brasil inteiro dançou, se apaixonou e sofreu ao som do órgão dele, mas quase ninguém sabia o nome de quem estava tocando. Ele está atrás de Roberto Carlos, nos discos que venderam milhões de cópias. Está atrás de Erasmo Carlos, de Vanderleia, dos Golden Boys, do trio Esperança. Aquele som de órgão que grudou numa geração inteira.
Esse mesmo que ainda toca hoje nas rádios de música antiga tem um dono. E esse dono passou mais de duas décadas tocando em bailes de bairro e num shopping de Niterói, sem que quase ninguém soubesse quem ele era, vivendo a poucos quilômetros dos mesmos estúdios, onde tinha ajudado a construir a trilha sonora de uma geração inteira.
Cruzamos mais de 15 reportagens e entrevistas dos últimos 20 anos, incluindo o relato que o próprio músico deu ao jornal O Globo em 2015 para reconstruir essa história. Porque o dia em que esse homem morreu guarda uma coincidência tão exata que parece roteiro de cinema. E ela só veio à tona anos depois, contada pela própria pessoa que viveu os dois lados dela.
O nome dele é Lafayet. E para entender por ele passou a vida sendo essencial e invisível ao mesmo tempo, precisamos voltar numa esquina da Tijuca, no Rio de Janeiro, com um menino que devia estar tocando piano clássico. Essa história começa em 1943, no Rio de Janeiro. O menino se chamava Lafayete Coelho Varges Limp e aos 5 anos já estava sentado ao piano no Conservatório Nacional de Música, primeiro sob a orientação da professora Nair Bevilacoa Barroso Neto, depois de Zilá Moura Brito, aprendendo escalas clássicas sob os olhos de professoras
exigentes. A família queria um pianista erudito. Na casa deles, música séria era bar, era chopan, era o tipo de repertório que se tocava de terno em salas de conserto. Não era o barulho que vinha das vitrolas dos vizinhos mais jovens. Mas no fim dos anos 50, o rock and roll chegou nas rádios do Rio de Janeiro e o menino de formação clássica ouviu aquele som e não conseguiu mais voltar atrás.
O Brasil daquele momento vivia uma transformação que ainda não tinha nome. Elvis Presley e as guitarras elétricas americanas chegavam pelos discos importados, misturando-se ao gosto local, criando uma geração de adolescentes de classe média que queria, ao mesmo tempo, imitar aquele som estrangeiro e cantar em português sobre os próprios namoros e desencontros.
Ninguém sabia ainda que aquilo se chamaria jovem guarda. Era só um bando de garotos experimentando um jeito novo de fazer barulho. Ele começou a aparecer numa esquina da Tijuca, na rua do Matoso, onde um grupo de adolescentes se juntava depois da escola para tocar violão, ouvir discos importados e discutir os primeiros ídolos do rock brasileiro.

Não eram só amigos de bairro, eram Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Jorge Ben, Tima, Wilson Simonal. Nenhum deles sabia ainda, mas aquela calçada ia mudar a música brasileira inteira. Lafayet entrou nessa turma como pianista, o único, na verdade, com formação de conservatório. Em 1958, montou sua primeira banda, a Blue Jeans Rock.
E no começo dos anos 60 migrou pro conjunto de bossa nova Sambrasa. Tocava por gostar de tocar, não porque imaginasse que aquilo um dia ia virar profissão de verdade. Vale lembrar o que aconteceria anos depois com boa parte daquela turma da rua do Matoso. Roberto Carlos se tornaria o maior nome da música popular brasileira de todos os tempos.
Erasmo Carlos, o parceiro de composição mais duradouro da história do país. Wilson Simonel, um dos maiores intérpretes de sua geração. Uma carreira marcada por triunfos e por controvérsias que o tempo levaria décadas para reavaliar com mais justiça. George Ben e Tim Ma seguiriam caminhos musicais próprios, cada um redefinindo a sua maneira, o que a música popular brasileira podia soar, praticamente todo mundo daquela esquina viraria, de um jeito ou de outro, parte da história oficial da música brasileira, menos Lafaet, que ficou décadas por trás de
todos eles, literalmente atrás do teclado, mas o talento dele não passou despercebido para sempre. E o que aconteceu a seguir não teve nada de espetacular, foi, na verdade, quase um acidente. Em 1964, uma gravadora chamada RGE precisava de alguém pro álbum de estreia de um dos garotos daquela turma, Erasmo Carlos.
E foi aí que a vida de Lafaet mudou de rumo, não por um golpe de sorte espetacular, mas por causa de um órgão desligado, coberto de poeira, esquecido a um canto do estúdio. Se você também cresceu ouvindo essas músicas sem nunca ter pensado em quem estava tocando o órgão por trás delas, talvez vale a pena garantir que essas histórias continuem sendo contadas.
Quem se inscreve ajuda a manter esse trabalho de pé e quem quiser apoiar ainda mais pode conhecer o círculo por trás da fama, nossa comunidade de apoio ao canal. Agora, de de volta à história de Lafaet. O convite da RGE era para Erasmo Carlos, que iria gravar seu primeiro disco solo. Anos depois, em 2015, o próprio Lafaet contou pro jornal O Globo exatamente como foi aquele dia.
Ele entrou no estúdio, viu o instrumento largado em um canto, tirou a capa que protegia da poeira e simplesmente começou a tocar. Erasmo ouviu aquilo e reagiu na hora. É isso. Vamos botar isso aí no disco. Foi só o começo. Erasmo gostou tanto do resultado que mais tarde falou do organista pro amigo mais próximo, Roberto Carlos.
Roberto comprou a ideia na hora e levou Lafaette para dentro da CBS. Mexendo no órgão Hamon B trees do estúdio, testando combinações que ninguém mais estava testando, Lafaet chegou a um som que conquistou até Evandro Ribeiro, o presidente da gravadora A mesma CBS, que naquele momento tinha sob contrato quase todos os ídolos da Jovem Guarda e havia um motivo pro som dele suar tão diferente de tudo.
Como o próprio Lafayet explicou, ele sabia que precisava achar algo diferente do que Ed Lincoln e o Welmir Deodato faziam na época, os outros dois grandes tecladistas do momento, cada um com sua própria escola. Em vez de copiar, ele inventou um caminho só dele. A partir daí, Lafaet gravou regularmente com Roberto Carlos em uma parceria que durou de 1965 até meados dos anos 70 presente ainda em Amada Amante, já na virada da década, em faixas que hoje são consideradas clássicas, como quero que vá tudo pro inferno e eu não quero ver você triste
assim. Também entrou na gravação de Terror dos Namorados, um dos hinos daquela geração, ao lado de Jerry, Adriani, Vanderleia, Roberto e Erasmo, quatro nomes que o Brasil inteiro reconhecia de cor, com o órgão dele tocando por trás de todos eles, sem crédito nenhum na capa. talento dele também chamou atenção de fora do Brasil.
>> [roncando] >> Lafayet até participou de shows de Neil Seda e Jimmy Cliff em turnê pelo país, dois astros internacionais de gerações e estilos completamente diferentes, o que dá uma idéia da versatilidade que ele tinha ao teclado. Vale entender por esse som importava tanto. Entre 1965 e 1968, o programa de televisão Jovem Guarda, apresentado por Roberto Erasmo e Vanderleia, transformava cantores em ídolos nacionais praticamente da noite pro dia, com uma plateia de jovens gritando em estúdio. Era um fenômeno de
televisão ao vivo transmitido aos domingos, que reunia milhões de telespectadores em torno do mesmo ritual semanal. ver os próprios ídolos cantando ao vivo, sem intermediários, em um estúdio decorado como se fosse a sala de qualquer adolescente do Brasil. E o som que embalava tudo isso, aquele órgão que entrava baixinho e segurava a emoção por trás da voz do cantor, tinha uma origem.
as mãos de um pianista de conservatório que resolveu contra a expectativa da própria família, aprender a tocar diferente de todo mundo. Mas o que ele fez não parou nos discos dos outros. Em 1965, gravou seu primeiro álbum solo dedicado à esposa dele, esmeraldina conhecida como todos como Dina Lúcia, com quem tinha acabado de se casar um gesto que diz muito sobre as prioridades dele logo no início da carreira.
O primeiro disco com o nome dele sozinho na capa não era uma declaração de ambição artística, era uma declaração de amor. Foi um casamento que duraria o resto da vida dele, mais de cinco décadas, atravessando os anos de auge na CBS, os anos de silêncio depois da demissão e a segunda vida musical ao lado dos tremendões.
No ano seguinte começou a série Lafaet apresenta o sucessos. Versões só de órgão pros hits da época não eram simples covers instrumentais, mas rearranjos que deram a cada música um clima novo, quase de trilha sonora de cinema, mantendo a melodia reconhecível, mas trocando toda a roupagem. Foram 30 long plays ao longo de 12 anos pela CBS, alguns hoje disputados a peso de ouro por colecionadores no Japão e na Europa, que enxergavam naquelas versões instrumentais um tipo de exotismo sofisticado que o próprio Brasil, ocupado demais dançando as versões
cantadas, nunca soube valorizar da mesma forma. pelo caminho ganhou pelo menos um disco de ouro. Vale notar que essa série não se limitava a releituras de sucessos brasileiros. Lafayet também gravou versões instrumentais de nomes internacionais como Chicago, Bert Basharak e Paul McCartney. Um repertório que na época a crítica especializada rotulado com desdém de Easy Listening, ou pior, Musac, a chamada música de elevador.
Era mais um capítulo do mesmo preconceito que perseguiu Lafaet a vida inteira. O talento dele produzia algo que o público comprava aos milhares e a inteligência musical torcia o nariz. E enquanto isso, ele continuou sendo a base invisível de tudo. Tocou ao lado de centenas de artistas diferentes, Vanderleia, Sérgio Reis, Golden Boys, Trio Esperança, Renato e seus Blue Caps, Martinha e tantos outros.
Praticamente não existia um sucesso da Jovem Guarda nos anos 60 e 70 que não tivesse a mão dele por trás do teclado. Só que o nome dele nunca esteve na capa dos discos dos outros. E quando as capas eram as dele, o rosto de Lafaet não vendia nada perto do rosto de Roberto Carlos. Isso não era um problema enquanto durasse o contrato.
Em 1980, a CBS dispensou Lafayet, a gravadora que ele tinha ajudado a definir sonoramente, a mesma paraa qual gravou 30 discos em 12 anos, simplesmente não renovou o contrato. Não houve escândalo, não houve briga pública, foi uma decisão comercial, seca, do tipo que acontece o tempo todo dentro de uma indústria que troca de artista quando o mercado muda.
Ele passou a gravar em selos menores Copacabana, Continental Companhias que na época já perdiam espaço pro mercado cada vez mais dominado pelas grandes multinacionais. continuou animando bailes com o grupo Lafaet e seu conjunto. Mas em 1989 o declínio se tornou definitivo. Foi o ano em que ele deixou de gravar por completo.
Não foi uma queda espetacular, com escândalo ou tragédia pública, foi mais silenciosa do que isso? Foi o tipo de esquecimento que acontece quando a indústria decide que alguém já deu tudo o que tinha para dar e passa a olhar pro próximo nome. Um crítico da época chegou a chamar esse período de ostracismo, de um crime imperdoável por conta da classe artística snob.
O tipo de julgamento que só se faz depois, olhando para trás, quando já é tarde demais para mudar alguma coisa. A indústria fonográfica brasileira, naquele momento, estava passando por uma transformação profunda. As grandes multinacionais consolidavam seu domínio sobre o mercado, os departamentos artísticos das gravadoras trocavam de comando e o músico de estúdio, por mais essencial que tivesse sido uma década antes, deixava de caber nos planos assim que o gênero que ele ajudou a construir saía de moda.
não era pessoal, era sobretudo estrutural. O tipo de decisão fria que a indústria toma o tempo todo, sem se perguntar quem fica pelo caminho. Lafayet continuou vivo, continuou tocando, só que cada vez mais longe dos holofotes, cada vez mais perto do anonimato completo. E é aqui que a história dele se separa da história de quase todo o mundo que ele acompanhou nos discos.
Roberto Carlos seguia enchendo estádios pelo Brasil e pelo mundo. Erasmo Carlos seguia na televisão com programas próprios. Vanderleia seguia gravando e se apresentando. Lafayet, o homem cujo órgão vinha antes de qualquer um deles para dar o clima daquelas músicas, tocava em bailes de bairro no Rio de Janeiro, e depois em bares e praças de alimentação de shopping em Niterói, do outro lado da Bahia, pros mesmos brasileiros.
que sem saber tinham crescido dançando ao som que ele mesmo tinha inventado décadas antes. Passaram-se 15 anos assim entre o fim do contrato com a CBS e a parada completa das gravações, e depois mais alguns só tocando covers em bailes. Uma geração inteira nasceu, cresceu, virou adulta e teve os próprios filhos sem nunca ter ouvido o nome do homem por trás do som que embalava a infância dos pais.
E não é difícil imaginar como era essa rotina. mesmo sem um relato detalhado de cada noite, um músico de mais de 60 anos montando e desmontando o próprio equipamento, tocando os mesmos clássicos que ele tinha ajudado a gravar décadas antes, para plateias que aplaudiam a música, sem fazer ideia de que aquele senhor ao teclado era, em boa parte o autor daquele som, não era decadência.
Ele continuava tocando bem, continuava sendo profissional. Era só invisibilidade completa, sustentada semana após semana, ano após ano. A primeira pista pública de que Lafaet ainda estava vivo e tocando chegou por telefone. Um jornalista e radialista carioca fez uma entrevista com ele que na época se apresentava semanalmente numa praça de alimentação de shopping da zona norte do rio e deixou o músico falar livremente sobre a Jovem Gua, sobre o rock dos anos 50 e sobre a amizade antiga com Erasmo Carlos. Foi a
primeira vez em muito tempo que alguém deu voz pública a essa história, mas foi um encontro pessoal que mudou tudo de verdade. Num dia de 2004, um guitarrista carioca chamado Gabriel Tomás soube que o organista dos discos de Roberto Carlos estava vivo e tocava toda semana ali perto.
foi atrás dele numa churrascaria em Alcântara, encontrou o homem que sempre tinha admirado como um gênio do Hammond e pediu um autógrafo. Só que não parou no autógrafo. Gabriel tinha uma banda com amigos músicos independentes do Rio, a Os Tremendões, dedicada justamente ao repertório da Jovem Gua, e convidou Lafaette para aparecer num ensaio.
Nunca tinha participado de uma banda que não fosse a minha”, contou Lafayet. anos depois numa entrevista. [roncando] Mas logo no primeiro ensaio eu gostei muito do pessoal e topei tocar com eles. Naquele mesmo ano, o grupo estreou no teatro Odisseia, na Lapa. André Nervoso, um dos guitarristas da banda, lembra até hoje daquela noite. As lembranças do nosso primeiro show em dezembro de 2004 são eternas.
O nome do grupo virou Lafaiete e os Tremendões em homenagem a ele. Não era mais Lafaiete acompanhando os outros. Pela primeira vez em décadas, o nome dele vinha primeiro. O que veio depois foi uma segunda vida musical que ninguém esperava, nem o próprio Lafayet. Em 2005, ano em que a Jovem Guarda completava 40 anos, receberam no palco convidados como o cantor Leoni e a roqueira mexicana Julieta Venegas.
Em fevereiro de 2007, encerraram uma temporada de shows lotados na casa Estrela da Lapa e no mesmo ano participaram de um episódio da novela A Grande Família, tocando um sucesso de Roberto Carlos. Em 2009, lançaram o primeiro disco do grupo, As 15 Lafayete e os Tremendões, com 13 faixas da época da Jovem Guarda.
Em 2012, Lafayet voltou à Rede Globo no programa Encontro com Fátima Bernardes, ao lado de Jerry Adriani e Vanderleia, numa homenagem à própria época que ele tinha ajudado a construir décadas antes. Em 2015, o mesmo ano em que deu aquela entrevista pro Globo contando a história do órgão coberto de poeira, o grupo lançou um segundo disco, A nova guarda de Lafaete e os Tremendões.
Dessa vez só com músicas inéditas como Eu tenho mil garotas e o carimbó Deixa que eu Deixo apresentado num show na Casa Imperator, no Meer. faixa do carimbó teve uma participação de peso. João Baroni, baterista do Paralamas do Sucesso, uma das maiores bandas de rock do Brasil, que também subiu ao palco no show de lançamento.
Não era mais só reverência de fãs independentes, era o reconhecimento de uma geração de roqueiros consagrados, gente que também tinha crescido ouvindo aquele órgão sem saber décadas antes, quem estava por trás dele. O grupo levou esse repertório para diferentes estados do Brasil. Um projeto que começou como brincadeira de fã e virou, ao longo de mais de uma década uma banda de verdade com formação estável três guitarras, baixo, bateria, uma vocalista e Lafaet, sempre ao centro no teclado, guiando o repertório que ele mesmo tinha ajudado a inventar décadas
antes. O projeto durou 14 anos e pela primeira vez desde os anos 80 tinha gente nova, muita gente nova, gente que nem tinha nascido quando ele gravou seus últimos discos paraa CBS descobrindo o nome do homem por trás daquele som. Vale notar quem eram esses jovens músicos que foram atrás dele.
Gabriel Tomás tocava numa banda chamada Autoramas, hoje um dos nomes mais respeitados do rock independente brasileiro. Para essa nova geração, Lafaet não era um senhor esquecido tocando covers. Era uma lenda viva, tratada com o mesmo respeito que se trata um mestre. Foi essa reverência, vinda de gente que nem tinha nascido na época de ouro dele, que devolveu a Lafaet indústria discográfica nunca soube dar.
Reconhecimento pelo nome, não só pelo som. Um episódio em especial resume bem o tamanho dessa segunda vida. No dia 19 de abril de 2009, aniversário de Roberto Carlos, o grupo fez um show no teatro Odisseia, inteiramente dedicado a homenagear o rei, tocando canções de mais de 40 anos de idade, muitas delas gravadas originalmente com o próprio Lafaet no órgão.
E o que se viu naquela noite foi gente jovem que nem sonhava em nascer quando aquelas músicas foram lançadas, cantando e dançando com o mesmo entusiasmo de quem descobre uma novidade. Um cronista que esteve lá descreveu o show como algo que tirava a jovem guarda de dois tipos de prisão ao mesmo tempo. a prisão do tempo, que trata aquele movimento como o passado morto e enterrado, e a prisão do preconceito, que sempre tratou aquele repertório romântico como somor, quase brega.
Lafayet, sentado ao teclado, era a prova viva de que nem uma coisa nem outra era verdade. Mas enquanto essa segunda vida acontecia nos palcos, uma outra história mais silenciosa e bem mais dura corria em paralelo. Mas o corpo de Lafayet não acompanhou no mesmo ritmo essa segunda juventude musical. Nos últimos anos de vida, ele precisou lidar com uma insuficiência renal que foi piorando aos poucos, somada a dificuldades financeiras que se acumulavam desde o fim dos anos de contrato fixo com gravadoras.
passou a fazer sessões regulares de hemodiálise várias vezes por semana num hospital do Rio de Janeiro, a rotina de quem precisa de horas conectado a uma máquina só para manter o corpo funcionando entre um show e outro. Os amigos da cena musical carioca, sabendo da situação, organizaram mais de um evento beneficente para ajudar a arcar com o tratamento.
Em 2017, a própria banda promoveu um show no Teatro Revol no centro do Rio, com toda a renda revertida diretamente para ele. que num gesto que fechava o círculo aberto seis décadas antes, Erasmo Carlos, o mesmo amigo que o tinha indicado para Roberto Carlos na rua do Matoso, também apareceu num desses eventos para prestigiar e ajudar.
Em fevereiro de 2021, já debilitado pela doença renal, Lafaet fraturou o fêmor e precisou ser internado às pressas. O corpo dele não tinha muita reserva para absorver mais esse golpe. Durante a internação, contraiu uma pneumonia. Foi levado pro Hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. E lá, na madrugada de uma quarta-feira, tudo terminou.
Há algo de particularmente cruel nessa sequência de acontecimentos. Um homem que aos 778 anos ainda subia num palco toda semana para tocar com gente com menos da metade da idade dele, foi derrubado não pela música, não pelo esgotamento de uma carreira longa demais, mas por uma fratura banal, o tipo de acidente doméstico que num corpo mais jovem e mais saudável seria só um contratempo.
foi a soma de pequenas fragilidades uma sobre a outra, que finalmente cobrou a conta. Lafayet morreu na madrugada de 31 de março de 2021, aos 78 anos. A esposa dele, Dina Lúcia, a mesma mulher a quem ele tinha dedicado o primeiro disco solo ainda em 1965, confirmou a notícia numa publicação nas redes sociais.
Sobre a causa exata da morte, os próprios jornais nunca chegaram a um consenso. Um deles registrou o pneumonia, outro um infarto sofrido durante a internação. Um terceiro disse apenas que a causa não estava clara. O que se sabe com certeza é que o corpo dele, depois de anos de hemodiálise e de uma fratura recente, simplesmente não aguentou mais.
Erasmo Carlos, o amigo de mais de 60 anos, escreveu nas redes sociais no dia seguinte: “Uma impiedosa pneumonia nessa madrugada levou seu som para tocar no céu. Saudades do seu pioneirismo.” As filhas de Renato Barros, parceiro de tantas gravações ao lado de Renato e seus blue caps, também prestaram homenagem pública, lembrando da amizade construída na convivência nos estúdios das gravadoras ao longo de décadas.
Mas há um detalhe dessa história que nenhum jornal registrou na hora porque só veio à tona anos depois, numa entrevista com o próprio Gabriel Tomás, o guitarrista que tinha resgatado Lafaet do anonimato em 2004. Gabriel também tinha acabado de passar por uma internação grave, 22 dias com COVID, praticamente no mesmo período.
E o dia em que ele finalmente recebeu alta do hospital foi o mesmo dia em que soube que Lafaet tinha morrido. Lafaet morreu no dia em que saí do hospital depois de 22 dias internado com Covid, contou o Gabriel anos mais tarde numa entrevista. Uma montanha russa de emoções. Pensa nisso com calma. O homem que num dia qualquer de 2004 foi atrás de um simples autógrafo num shopping de Niteroy e que sem querer devolveu a Lafayet o nome que ele tinha perdido durante mais de duas décadas.
saiu vivo do hospital no exato dia em que o amigo que ele mesmo tinha resgatado se foi, como se as duas pontas daquela história precisassem se tocar mais uma vez antes de se fechar de vez. Hoje, o som do órgão Hamen de Lafayet continua tocando em mais de 50 discos nas vozes de Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Vanderleia, Jerry Adriani e tantos outros que o Brasil inteiro reconhece de cor.
Só que agora, pelo menos para quem chegou até aqui, esse som já não é mais anônimo. Nas plataformas de streaming, esses discos continuam disponíveis. tocados diariamente por quem busca as versões originais de Quero que vá tudo pro inferno ou terror dos namorados, sem fazer ideia, na maioria das vezes, de que aquele teclado específico, aquele fraseado específico, tem uma história inteira por trás.
É esse o tipo de legado mais difícil de medir, não em prêmios, não em vendas, mas na presença invisível dentro de milhares de horas de música que continuam sendo ouvidas todos os dias, décadas depois de gravadas. E talvez essa seja a única forma de justiça possível para uma história como essa. Não apagar os anos de esquecimento, porque eles aconteceram e fazem parte de quem ele foi, mas garantir que daqui paraa frente quem ouvir aquele órgão nas rádios de música antiga saiba finalmente de quem são aquelas mãos. Existe um tipo de
personagem que toda história coletiva tem e quase nunca reconhece. o artesão por trás do artista, aquele cuja contribuição é essencial demais para ser removida, mas discreta demais para ser lembrada. A jovem guarda teve seus reis e suas rainhas, seus rostos estampados em capa de revista, mas teve também gente como Lafayet, cuja assinatura sonora tá em praticamente cada faixa que definiu aquela geração, sem que o nome dele jamais tenha entrado na conversa.
A história dele não é sobre inveja do que os outros tiveram, é sobre o tipo de contribuição que só se torna visível quando alguém décadas depois se dá ao trabalho de perguntar quem estava tocando aquilo. Fica, no fim das contas, um convite simples. Próxima vez que uma dessas canções tocar no rádio, vale a pena prestar atenção, não só na voz que canta, mas no que acontece por trás dela, no órgão que entra baixinho, segura a emoção e sai de cena sem nunca pedir aplauso.
Fica então a pergunta que vale bem além da história de Lafayet. Quantos outros sons que vocês reconhecem de cor ainda hoje tem um nome por trás que ninguém nunca parou para procurar. Tem pelo menos mais um caso parecido dentro dessa mesma turma da Jovem Guarda. Alguém que também ajudou a construir o som de uma geração inteira.
Também foi esquecido por anos. E também tem uma uma história que merece ser contada com o mesmo cuidado que contamos essa. Se você quiser continuar essa jornada pela Jovem Guarda, é só seguir assistindo.