Aos 80 anos, Toquinho finalmente admitiu o que todos nós suspeitávamos há muito tempo.

Aos 80 anos, Toquinho finalmente admitiu o que todos nós suspeitávamos há muito tempo.

Aos 80 anos, Toquinho colocou finalmente por palavras uma contradição que ajuda a compreender muito do homem que existia antes do artista. Ele foi um miúdo nerdíssimo. Hoje, o seu nome lembra imediatamente o guitarra, as melodias delicadas, os palcos e uma trajetória construída ao longo de décadas.

 Mas antes de tudo isto, havia um menino que levava os estudos tão a sério que a chegada das provas podia ser sentida no próprio corpo. Não era apenas vontade de ter boas notas. Toquinho contou que era extremamente competitivo na escola e cobrava-se de uma forma quase obsessiva. Quando começava o período de exames, a tensão aumentava, o estômago reagia e aquela preocupação podia chegar à náusea e ao vómito.

 É uma imagem inesperada quando comparada com a serenidade que tantas pessoas aprenderam a associar ao músico. Antes das cordas da guitarra, havia cadernos, provas e um miúdo tentando transformar cada resultado numa espécie de confirmação de que tinha feito tudo bem. O mais curioso é que não foi alguém a tentar obrigá-lo a estudar que mudou essa rotina.

 Foi precisamente a sua mãe quem percebeu que aquela dedicação estava passando dos limites. Em vez de cobrar mais uma nota aguda, ela fez quase o contrário. Tentou convencer o filho a se desprender um pouco dos estudos e a reservar tempo para tocar guitarra. Para aquele menino competitivo, talvez isso significasse entrar num território completamente diferente.

 Uma prova tinha respostas certas e erradas. Uma nota podia ser 8, 9 ou 10. A música não. Uma melodia não tinha de entregar um boletim no final. O violão oferecia algo que os livros escolares não conseguiam oferecer naquele momento, um espaço no qual podia experimentar, errar, repetir e continuar sem transformar cada tentativa numa classificação.

Sim, é mais interessante ver o instrumento, não como aquela velha história de destino inevitável, mas como uma das primeiras válvulas de escape de um miúdo que estava a aprender, talvez sem perceber que nem tudo na vida precisava de ser medido. Há algo quase irónico nisso. O menino que tentava controlar os resultados acabaria escolhendo uma profissão em que aplausos, inspiração, encontros e até Os fracassos jamais poderiam ser previstos como uma nota de prova.

 E talvez seja é precisamente por isso que essa lembrança ganha outro peso quando reaparece tantas décadas depois. Aos 80 anos, Toquinho já pode olhar para trás e ver aquele nerdíssimo como alguém distante, mas reconhecível. O miúdo que chegava a sentir-se mal diante da possibilidade de não alcançar o resultado desejado, atravessou décadas de carreira, canções, viagens e transformações.

Só que existe uma segunda contradição ainda mais intrigante. Depois de construir um passado que milhões de as pessoas teriam orgulho em revisitar continuamente, o Toquinho não parece interessado em viver aprisionado nele. O homem que um dia se agarrava aos resultados começou com o passar do tempo a falar de uma forma muito diferente sobre aquilo que já passou.

 O Toquinho não gosta de viver no passado. Numa entrevista concedida em 2025, ao ser levado a olhar para aquilo que já tinha vivido, deixou transparecer uma característica que contrasta com a imagem que muitas vezes construímos de artistas veteranos. Ele não é especialmente nostálgico. Aos 80 anos, poderia passar horas a enumerar palcos, discos, parceiros e momentos de uma época que ficou para a história da música brasileira.

 Poderia transformar cada conversa numa viagem de regresso aos anos de ouro, mas a sua atenção parece preferir o presente. O passado existe, evidentemente, só não tem de ocupar todos os quartos da casa. Há, no entanto, uma recordação que torna esta postura muito mais complexa. Se o Toquinho evita viver rodeado pelo que já aconteceu, por ainda consegue falar de determinados momentos com Vinícius de Morais de uma forma tão dolorosamente precisa? A resposta nos conduz a 1979.

Depois de um problema relacionado com a circulação cerebral, Vinícius começou a apresentar momentos de desorientação. E o Toquinho estava perto o suficiente para perceber que alguma coisa tinha mudado. Não era necessário um grande acontecimento para provocar medo. Bastava uma frase. Numa ocasião, os dois estavam no Rio de Janeiro quando O Vinícius falou como se fosse perfeitamente possível ir naquele instante a um conhecido bar em Paris.

Durante alguns segundos, duas cidades separadas por milhares de quilómetros pareciam ocupar o mesmo lugar dentro da cabeça do poeta. Para quem escuta esta história décadas depois, pode soar apenas como um episódio de confusão. Para o Toquinho, que conhecia a voz, os hábitos, o humor e a presença daquele homem, era diferente.

 Vinícius continuava ali diante dele, mas algo parecia escapar silenciosamente. Talvez esta seja uma das experiências mais difíceis de explicar. Olhar para alguém profundamente conhecido e perceber que o seu corpo permanece presente enquanto determinadas referências começam a desaparecer ou tornam-se embaralhar.

 Não existia nenhum instrumento capaz de corrigir aquilo. Nenhum acorde devolveria imediatamente a Paris ao outro lado do oceano. Nenhuma canção poderia simplesmente reorganizar o tempo. Toquinho, habituado a dividir música, viagens e conversas com Vinícius, passou a assistir a uma transformação que não podia controlar. Anos mais tarde, ao recordar aquele período, descreveu a sensação de ter visto Vinícius ir-se embora aos poucos, antes mesmo da morte propriamente dita.

 A frase pesa precisamente porque não precisa de dramatização. Não fala apenas do instante final, mas do sofrimento de perceber pequenas ausências surgindo enquanto a pessoa amada ainda está sentada à sua frente. É uma imagem muito distante daquele miúdo nerdíssimo que acreditava que o esforço e a disciplina podiam ajudá-lo a dominar os resultados.

 Perante Vinícius, não havia nota 10 a atingir, não havia prova para refazer, não havia como estudar mais para mudar o que estava acontecendo. Restava estar perto e observar. Talvez seja também por isso que, tantos anos depois, Toquinho não queira permanecer demasiado tempo olhando para trás, porque a memória não abre apenas as portas das noites de música, das gargalhadas e dos palcos lotados.

Por vezes ela abre uma porta muito mais silenciosa, aquela em que alguém que ama ainda está diante dos seus olhos, mas começa pouco a pouco a parecer estranhamente distante. Toquinho quase não bebia. Vinícius de Morais adorava whisky. E só essa diferença já desmonta um pouco a imagem que muita gente criou dos dois.

 Quando pensamos naquela parceria rodeada de música, madrugada, poesia, mesas de bar e conversas intermináveis, seria fácil imaginar o Toquinho a acompanhar o Vinícius copo após copo. A realidade era mais engraçada. O seu organismo simplesmente não tolerava bem o álcool. Enquanto O Vinícius tinha uma relação conhecida com a bebida, o Toquinho não conseguia seguir o mesmo ritmo e o poeta chegava a brincar com o companheiro por causa disso.

 Ou seja, passaram inúmeras horas juntos, viajaram, trabalharam e partilharam uma intimidade artística enorme. Mas o Toquinho estava longe de ser o típico companheiro de copo que a lenda em torno de Vinícius poderia sugerir. Talvez precisamente aí esteja uma das partes mais humanas desta amizade. Não precisavam de ser iguais para permanecerem próximos.

 E havia outra característica de Vinícius que Toquinho acabaria por revelar, muito mais inesperada do que o whisky, o ciúme. Não necessariamente o ciúme romântico, mas aquele sentimento quase possessivo que pode aparecer quando alguém se habitua demasiado à presença de outra pessoa. Um episódio em Mar del Plata ajuda a ver isso.

 Imagine a cena sem transformá-la em escândalo. Os dois estiveram juntos como tantas vezes acontecia. Quando o Toquinho decidiu sair para encontrar a namorada, Vinícius ficou à espera. Para o Toquinho, provavelmente parecia algo absolutamente normal. Havia trabalho, amizade, mas existia também uma vida particular daquela parceria.

 Quando regressou, porém, encontrou um Vinícius verdadeiramente irritado. Não era apenas a impaciência por ter esperado. Segundo as memórias de Toquinho, o Vinícius podia sentir ciúmes sempre que alguém desviava a atenção do amigo. Homem ou mulher, pouco importava. Se outra pessoa ocupasse esse espaço durante algum tempo, o poeta poderia se incomodar.

 É precisamente aqui que a história deixa de ser uma curiosidade divertida e ganha outra camada. O que havia por detrás desse ciúme? Uma personalidade intensa, medo da solidão ou uma dependência emocional dentro de uma amizade que se tornara muito maior do que uma simples parceria profissional. O Toquinho era mais novo, estava constantemente ao lado de Vinícius e tornara-se parte importante do seu quotidiano.

 Entre viagens, apresentações e composições, a fronteira entre colega de trabalho e companheiro de vida podia certamente tornar-se cada vez menos nítida. Talvez por isso, uma simples saída para encontrar a namorada fosse suficiente para alterar o humor de Vinícius. E há uma ironia bonita nesta relação.

 Um gostava de whisky, o outro quase não conseguia beber. Um podia irritar-se quando o amigo afastava-se por algumas horas, enquanto o outro, décadas mais tarde, diria não gostar de se agarrar excessivamente ao que passou. Eram diferentes precisamente nos detalhes que poderiam separá-los. Mesmo assim, quando os dois encontravam-se diante de uma canção, estas diferenças pareciam produzir alguma coisa que nenhum deles conseguia criar, exatamente da mesma maneira sozinho.

 E talvez seja necessário olhar para o que aconteceu longe dos palcos para compreender porque Vinícius ocupou um espaço tão difícil de substituir na vida de Toquinho. Toquinho não gosta muito de celebrações e talvez este pormenor aparentemente banal diga mais sobre a sua relação com o tempo do que qualquer discurso sobre o envelhecimento.

Nem o próprio aniversário parece despertar nele aquela necessidade de transformar a data num grande ritual. Há ainda o incómodo de passar o dia recebendo telefonemas, felicitações e sendo repetidamente lembrado de uma marca no calendário. Isso combina com algo que já deixou claro. Não é um homem particularmente interessado em viver de nostalgia.

 O passado está ali, mas não necessita de ser visitado todos os dias. Por isso, uma ideia envolvendo tecnologia acabou por colocar toquinho perante uma situação muito mais estranha. partilhar o palco consigo mesmo. Quando surgiu a possibilidade de o toquinho atual tocar ao lado de uma projeção, um holograma da sua versão jovem, a sua reação não foi simplesmente de entusiasmo.

 Admitiu não saber se sentiria confortável. E basta imaginar a cena para compreender o motivo. À sua frente estaria um rapaz com o seu rosto, os seus gestos, a sua juventude, talvez segurando a guitarra como ele segurava décadas atrás. Todos poderiam dizer: “Este é o Toquinho”. Mas o homem de 80 anos que olha para aquela imagem sabe algo que o público facilmente esquece.

 Aquele rapaz já não existe. Não porque a sua história tenha desaparecido, mas porque ninguém continua a ser exatamente a pessoa que foi aos 20, 30 ou 40 anos. Aquele jovem possuía outro corpo, outras preocupações, outros medos, outra forma de ver o futuro. Para Toquinho, tocar ao lado dele poderia se aproximar da sensação de partilhar o palco com alguém que pertence definitivamente a outro tempo.

 E há nisto um eco delicado de Vinícius. Décadas antes, O Toquinho tinha observado um amigo profundamente próximo atravessar momentos em que as referências pareciam se baralhar, e certas partes daquele homem conhecido começavam a parecer distantes. Agora, a distância era outra. Não estava perante Vinícius, mas perante a possibilidade de encarar a própria juventude transformada em imagem.

 O rosto era o seu, mas o tempo daquele rosto já não era. Curiosamente, é quando sobe ao palco de verdade que Toquinho parece escapar a essa armadilha. Ele já contou que perante o público praticamente se transforma noutra pessoa. Observa o público, percebe as reações, improvisa, muda caminhos e permite que cada apresentação encontre o seu próprio ritmo.

 O repertório pode transportar músicas de muitas décadas atrás, mas a noite nunca é propriamente uma repetição. Uma pausa muda, uma frase surge inesperadamente. Uma reação do público altera o momento seguinte. Talvez seja por isso que o palco continue a fazer sentido mesmo para alguém que não deseja viver nas próprias recordações.

 Ali uma canção antiga precisa de acontecer novamente no presente. As luzes acendem-se. Na tela talvez apareça o rosto do jovem Toquinho. Diante dele está o homem que atravessou oito décadas. Aquele miúdo nerdíssimo. Vinícius. viagens, perdas, palcos e milhares de acordes. Por alguns segundos, observa aquele rapaz que possui o seu próprio rosto.

 Depois desvia os olhos para o público e coloca as mãos sobre o violão. Porque talvez aquilo que ainda desperte a sua curiosidade não seja exatamente quem ele foi, mas o que poderá acontecer nos próximos minutos? M.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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