AOS 81 anos , A Batalha de Erasmo Carlos Pela Vida É De Partir o Coração

AOS 81 anos , A Batalha de Erasmo Carlos Pela Vida É De Partir o Coração

 É preciso [canto] saber. Aos 81 anos, Erasmo Carlos enfrentava os últimos capítulos de uma vida extraordinária. Mas o que tornaria aqueles dias tão dolorosos não era apenas a fragilidade de um homem idoso, era a história inteira que existia por detrás daquele nome. Um miúdo do Rio de Janeiro [pigarreia] que encontrou o rock, um jovem que ajudou a criar a O Jovem Guarda, o parceiro inseparável de Roberto Carlos, o homem que escreveu músicas que atravessaram gerações, e, finalmente, um artista que ainda estava

trabalhando quando o próprio corpo começou a exigir uma pausa. Para perceber o que aconteceu a Erasmo Carlos em 2022, é preciso recuar muito antes daquele hospital. muito antes dos 81 anos,  muito antes das notícias que deixariam o Brasil em choque. Porque a história do tremendão começou noutro Rio de Janeiro.

 Numa época em que a televisão ainda estava a consolidar-se, o rock americano começava a influenciar os jovens brasileiros. E os bairros da zona norte carioca revelavam personagens que décadas depois seriam responsáveis por transformar completamente a música popular do país. Erasmo Esteves  nasceu a 5 de junho de 1941 no Rio de Janeiro e cresceu no meio de uma cidade que vivia intensamente as mudanças culturais do pós-guerra.

 Mas o jovem Erasmo  ainda estava longe de imaginar que o seu nome um dia estaria ligado a Roberto Carlos, Vanderleia e a um dos maiores movimentos musicais brasileiros do século XX. >>  >> E há um pormenor curioso nesta história que ajuda a contextualizar a personalidade que viria a surgir. Ainda jovem, Erasmo aproximou-se de outros rapazes apaixonados por música e acabou entrando em contacto com um universo que Nessa altura parecia quase revolucionário, o universo do rock and rolo. Entre essas amizades estava Tim

Maia, então conhecido pelo seu nome de nascimento, Sebastião Rodrigues Maia. E os dois conheceram-se ainda na adolescência, em circunstâncias que hoje parecem quase cinematográficas. Tim Maia cresceu na Tijuca, na zona norte do rio, e a própria memória da A Globo regista que conheceu Erasmo, quando os dois eram miúdos, muito antes de qualquer um deles imaginar a dimensão que as suas carreiras alcançariam.

 E foi precisamente naquele ambiente de juventude, amizade e paixão pelo roque que Erasmo começou a construir as relações que mudariam a sua vida.  Porque em determinado momento apareceu outro jovem que também queria conquistar espaço na música. Um rapaz vindo de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito  Santo, chamado Roberto Carlos Braga.

 Roberto chegara ao Rio de Janeiro, ainda muito jovem,  carregando o sonho de cantar, e acabou encontrando naquele círculo de amigos as pessoas que seriam fundamentais para a sua trajetória.  Erasmo e Roberto se aproximaram, começaram a partilhar referências musicais e pouco a  pouco se aperceberam que existia entre eles uma afinidade criativa que poderia produzir algo muito maior do que simples amizade.

 Décadas depois, esta parceria seria reconhecida como uma das mais importantes da música brasileira. Mas naquele início ninguém tinha a garantia de sucesso. Eram apenas jovens, tentando encontrar um caminho. E isso é importante porque ajuda a compreender a dimensão da transformação que aconteceria nos anos seguintes. O Brasil ainda não conhecia o tremendão.

 Roberto ainda não era o rei e a Jovem Guarda ainda não existia como fenómeno nacional. Havia apenas uma geração de jovens a querer cantar. tocar, compor e experimentar uma linguagem diferente daquela que dominava a rádio. E Erasmo, com o seu corpo alto, o seu jeito irreverente e a sua paixão pelo rock, acabaria por se tornar uma das figuras mais reconhecíveis desta transformação.

Depois, chegou a década de 1960 e o cenário brasileiro mudou rapidamente. A televisão passou a ocupar um espaço cada vez maior dentro das famílias. Os programas musicais ganharam força e os jovens começaram a procurar ídolos que representassem o seu comportamento, a sua roupa, a sua maneira de falar e a sua vontade de romper com padrões anteriores.

 Foi neste ambiente que surgiu a Jovem Guarda, movimento que colocou Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Vanderleia no centro de uma verdadeira febre nacional. Não era apenas música, era o comportamento, a moda, a televisão, a linguagem  e identidade juvenil. Erasmo estava no centro de tudo aquilo. Em 1965, o programa Jovem Guarda estreou na TV Record em São Paulo, e rapidamente transformou os seus principais membros nos fenómenos populares.

 Roberto Carlos comandava o programa, Vanderleia dividia o protagonismo e Erasmo Carlos tornou-se uma das figuras mais marcantes daquela geração. O apelido tremendão passou a acompanhá-lo, enquanto as suas músicas e composições ajudavam a construir uma identidade própria para aquele movimento. O jovem, que alguns anos antes circulava pelo Rio em busca de espaço, estava agora perante milhões de brasileiros.

 E ao lado de Roberto começava a nascer uma parceria que produziria algumas das músicas mais conhecidas da música brasileira. E aqui é um dos pontos mais fortes desta história. Erasmo não era simplesmente o amigo de Roberto Carlos que aparecia ao lado dele na televisão. Ele era compositor, cantor,  ator músico.

 E a sua participação na construção daquele repertório foi fundamental. Os dois passaram a compor juntos, transformando experiências, referências do rock e sentimentos quotidianos em canções que seriam gravadas por eles e por outros  artistas. Uma dessas obras, o Calambeck, por exemplo, ganhou uma versão de Erasmo e tornou-se um dos símbolos daquela fase.

 A própria estreia do primeiro Roberto Carlos Especial em 24 de Dezembro de 1974 recordou a importância desta parceria, mas a Jovem Guarda não duraria para sempre. E essa é outra parte importante para compreender o percurso de Erasmo. Movimentos culturais surgem, explodem  e depois perdem força, mas os artistas que conseguem sobreviver à mudança permanecem.

Quando a febre da Jovem Guarda começou a diminuir,  Erasmo precisou provar que não era apenas uma personagem daquela década. Ele precisava de construir uma carreira que sobrevivesse ao fim daquele programa, a mudança dos gostos musicais e ao aparecimento de novas gerações de artistas e conseguiu. Durante os anos seguintes, continuou gravando, compondo e aparecendo na televisão, enquanto a sua parceria com Roberto permanecia como um dos pilares da sua trajetória.

 A amizade entre os dois atravessou décadas e que ficou evidente em inúmeros momentos televisivos. Em 21 de novembro de 1980, por exemplo, a Rede Globo exibiu o especial Erasmo Carlos Convida, um programa que reuniu nomes gigantes da música brasileira para interpretar canções de Erasmo e Roberto. Participaram artistas como Caetano Veloso, Gal Costa, Jorge Benjor, Maria Betânia e Nara Leão, para além do próprio Roberto Carlos.

 As gravações decorreram durante três dias em estúdio e dois dias em exteriores, incluindo locações no Rio de Janeiro, como a Marina da Glória, mostrando o tamanho que Erasmo já tinha alcançado dentro da música brasileira. E quando pensamos nisso hoje, existe algo profundamente simbólico. Aquele homem que tinha começado entre os jovens apaixonados pelo rock, recebiam agora grandes nomes da MPB num programa dedicado à sua obra.

 Erasmo já não precisava de provar que pertencia à história da música brasileira. Ele já fazia parte dela, mas o tempo continuava passando. Em 1985, quando a televisão comemorava os 20 anos da Jovem Guarda, Roberto Carlos reuniu novamente Erasmo, Vanderleia e outros nomes daquele movimento no seu especial. Em 1993, os três voltaram a cantar juntos no Especial Roberto Carlos no Teatro Municipal de São Paulo.

 Em 1995, durante a comemoração dos 30 anos da Jovem Guarda, Roberto Erasmo e Vanderleia voltaram a partilhar o palco em uma celebração que reuniu diversos artistas daquela  geração. E em 2009, no especial que celebrou os 50 anos de carreira de Roberto Carlos, Erasmo estava novamente ao lado do amigo, recordando os tempos em que os dois passavam horas a compor juntos.

Perceba o que significa. Décadas tinham passado, novos estilos musicais tinham surgido, novos artistas tinham tomado conta das rádios e da televisão, mas Erasmo continuava a ser chamado quando a história de Roberto Carlos precisava de ser contada. Isto revela a dimensão daquela amizade e daquela parceria.

 Eles não eram simplesmente dois cantores que trabalharam juntos durante alguns anos. As suas trajetórias ficaram permanentemente ligadas e talvez seja precisamente por isso que o que aconteceu em 2022 tenha sido tão doloroso para Roberto Carlos e para milhões de brasileiros. Porque Erasmo não estava apenas a envelhecer, ele estava a chegar ao fim de uma trajetória que tinha começado mais de seis décadas antes.

 Mas, surpreendentemente, aos 81 anos, ainda não parecia disposto a retirar-se completamente da música. Pelo  contrário, em 2022, lançou o álbum O futuro pertence à Jovem Guarda, uma obra que dialogava diretamente com aquela juventude que tinha transformado a sua vida. E o título carregava uma ironia quase perfeita. Um homem de 81 anos a olhar para a Jovem Guarda, um movimento que tinha surgido quando ele era jovem e dizendo que o futuro ainda pertencia àquela energia.

 Só que naquele mesmo ano aconteceria algo que transformaria completamente [a música] o significado daquele lançamento. A saúde de Erasmo começaria a tornar-se o centro da atenção e desta vez não seria uma nova fase artística, uma nova música ou uma homenagem da televisão. Seria uma luta contra o próprio corpo. E o que ninguém imaginava era que o último grande reconhecimento da sua carreira chegaria precisamente quando ele estava enfrentando essa batalha.

 Erasmo Carlos tinha acabado de completar 81 anos quando a história começou a ganhar um contorno que ninguém gostaria de acompanhar. De um lado, [a música] havia um artista veterano que ainda encontrava forças para gravar, criar e celebrar a sua própria trajetória. Do outro, havia um homem que começava a enfrentar problemas de saúde que exigiam cuidados cada vez maiores.

 E esta combinação tornou os últimos meses de 2022 especialmente marcantes, porque Erasmo parecia ainda ter planos pela frente quando o seu corpo começou a impor limites que não poderia simplesmente ignorar. Em 5 de junho de 2022, Erasmo Carlos completou 81 anos. Uma idade que, para alguém que tinha começado a sua carreira profissional, ainda muito jovem,  representava mais de seis décadas a viver entre estúdios,  palcos, televisão e viagens.

 Mas aquele aniversário tinha um significado diferente, porque ele não estava simplesmente olhando para uma carreira encerrada, estava a trabalhar em um novo projeto. O seu álbum O futuro pertence à Jovem Guarda, seria lançado nesse ano e a proposta tinha uma força simbólica enorme,  revisitar algumas das músicas que ajudaram a construir a Jovem Guarda, mas apresentá-las a partir da experiência de um artista que já tinha atravessado várias gerações.

  O título do álbum, por si só, parecia quase uma provocação ao tempo. futuro pertence à Jovem Guarda,  aquele jovem que tinha ajudado a comandar uma revolução cultural nos anos 60, tinha agora 81 anos e continuava a falar sobre futuro. Era como se Erasmo dissesse através da própria obra que a idade não tinha de apagar aquilo que tinha sido construído décadas antes.

rock, a irreverência, a amizade e a energia daquela geração ainda faziam parte  dele. Mas enquanto o projeto avançava, a saúde começava a ocupar  um espaço cada vez maior. Erasmo já tinha passado por um episódio muito grave no ano anterior. Em 2021, contraiu Covid-19 e teve de ser internado no hospital Barrador, no Rio de Janeiro.

 A hospitalização durou 8 dias e depois de ter alta, falou publicamente sobre o período difícil que havia enfrentado. Para um homem de 80 anos naquele momento, aquela experiência já tinha sido um alerta importante, mas Erasmo conseguiu [a música] recuperar e voltou à sua rotina. E talvez tenha sido precisamente esta recuperação que fez com que muitos acreditassem que ele ainda teria bastante tempo para continuar trabalhando.

 Só que, em 17 de outubro de 2022, Erasmo voltou a ser internado no mesmo hospital, o Barrador, na zona oeste do Rio de Janeiro. Desta vez, a informação divulgada inicialmente era de que tinha sido hospitalizado para realizar exames e fazer ajustes nos medicamentos que utilizava continuamente. Pouco depois, vieram informações mais específicas sobre o quadro de saúde.

 Ele estava a ser tratado de uma síndrome edemigénica, uma condição relacionada com a acumulação de líquido nos tecidos do corpo. Para quem acompanhava apenas as notícias, aquele momento ainda não parecia representar uma despedida. Muito pelo contrário, as informações divulgadas nesse período indicavam que Erasmo estava acordado, lúcido e deambulando, e havia expectativa de que pudesse ter alta nos dias seguintes.

Isto é importante porque mostra como os acontecimentos desenrolaram-se de maneira inesperada. Não houve nesse primeiro momento uma comunicação pública dizendo que o cantor estava nos seus últimos dias. Existia uma expectativa de recuperação, existia uma perspectiva de regresso a casa, existia, portanto, esperança.

 E então aconteceu uma situação estranha. Enquanto Erasmo estava internado, começou a circular nas redes sociais uma notícia falsa, afirmando que tinha morrido. Imagine a situação. O homem estava vivo, internado, lutando para recuperar, e pessoas do lado de fora já estavam partilhando a sua suposta morte. Mas Erasmo, era Erasmo, e respondeu à situação com o humor que sempre fez parte da sua personalidade.

 Depois de ter alta em 2 de novembro de 2022, ele publicou uma mensagem a brincar com o facto de ter sido morto  antecipadamente. Uma resposta que olhando hoje para aquele momento ganha um significado extremamente doloroso, porque ninguém poderia imaginar que poucas semanas depois  o rumor deixaria de ser falso.

 Naquele dia, porém, Erasmo estava  vivo, tinha saído do hospital, tinha conseguido regressar a casa e ainda tinha uma notícia extraordinária para comemorar. O seu novo trabalho havia sido reconhecido internacionalmente. No dia 17 de novembro de 2022, durante a cerimónia dos Grammy Latinos realizada em Las Vegas, nos Estados Unidos, o álbum O Futuro pertence à Jovem Guarda venceu o prémio de melhor álbum de rock ou música alternativa em língua portuguesa.

 Aos 81 anos, Erasmo Carlos recebia um dos maiores reconhecimentos da sua carreira, precisamente numa fase em que a sua saúde estava a ser posta à prova. E existe um pormenor desta vitória que torna tudo ainda mais emocionante. Erasmo não estava em Las Vegas para receber o prémio pessoalmente. Ele estava no Rio de Janeiro e a notícia chegou até ele enquanto ainda se recuperava.

 Segundo relatos divulgados na altura, o diretor musical Marcos Preto conseguiu falar com Erasmo por vídeochamada para contar a novidade. O cantor apareceu emocionado, com lágrimas nos olhos, ao saber que o seu álbum tinha vencido. Depois de mais de 60 anos de carreira, aquele reconhecimento chegava quando já tinha 81 anos e acabara de atravessar um internamento.

 É impossível olhar para aquela sequência de acontecimentos sem se aperceber da ironia da vida. Um homem que tinha ajudado a criar a Jovem Gu década de 1960. Um homem que escrevera clássicos ao lado de Roberto Carlos, um homem que tinha passado décadas nos palcos, agora recebia um Gramy latino por um álbum que precisamente revisitava aquela juventude.

E tudo isto enquanto enfrentava problemas de saúde. Mas Erasmo ainda teria poucos dias. Na noite de 21 de novembro de 2022, teve de voltar ao  hospital Barrador, no Rio de Janeiro. Depois de apresentar uma pioria no seu estado de saúde, a família acompanhava a situação e naquele momento o quadro tinha mudado novamente.

 Já não era aquela hospitalização de outubro em que se falava em exames, ajuste de medicamentos e possível alta. Agora havia uma nova emergência. E então chegou amanhã dia 22 de novembro de 2022. O Brasil recebeu a confirmação que ninguém queria ouvir. Erasmo Carlos tinha morrido aos 81 anos. O mesmo homem que tinha brincado com uma falsa notícia de morte poucas semanas antes, agora realmente tinha partido.

 A informação provocou uma enorme onda de homenagens e entre as manifestações mais aguardadas foi precisamente a de Roberto Carlos, o seu parceiro de composição, amigo e companheiro de uma das histórias mais importantes  da música brasileira. Durante décadas, os dois tinham partilharam sucessos, palcos e momentos que ficaram registados na memória de milhões de pessoas.

 Mas para compreender porque é que aquela perda atingiu Roberto Carlos de forma tão profunda, Precisamos de voltar novamente aos primeiros anos daquela amizade. Porque Erasmo não foi simplesmente um compositor que escreveu música para Roberto. Foi uma das pessoas que ajudaram a construir o próprio personagem artística que o Brasil passou a chamar rei.

  E há uma história específica envolvendo uma música, uma amizade e uma conversa entre dois jovens no Rio de Janeiro que ajuda a explicar como esta parceria se tornou tão poderosa. Uma história que começou muito antes da fama, antes da Jovem Guarda e antes de qualquer deles imaginar que um dia seriam recordados como dois dos maiores nomes da música brasileira.

 O mais doloroso na história de Erasmo Carlos talvez esteja precisamente no contraste. O homem que passou a vida inteira a cantar sobre liberdade, juventude, amizade e amor, chegou aos seus últimos dias carregando uma história com mais de seis décadas. E quando finalmente olhamos para trás, percebemos que aquela carreira não foi construída apenas por grandes sucessos, mas por encontros decisivos.

 perdas, recomeços e, principalmente por uma amizade que começou quando dois jovens ainda estavam a tentar descobrir se conseguiriam sobreviver no mundo da música. >>  >> Para compreender a importância de Erasmo Carlos, é impossível separar a sua trajectória da de Roberto Carlos, mas também seria injusto reduzir Erasmo simplesmente ao papel de parceiro do rei.

 Os dois construíram uma das parcerias mais duradouras da música brasileira. E esta história começou muito antes de existirem milhões de discos vendidos, grandes programas de televisão ou multidões à espera dos dois. No final dos anos 50 e início dos anos 1960, o Rio de Janeiro era o cenário onde os jovens músicos procuravam espaço e Erasmo já circulava por ambientes ligados ao rock, aproximando-se de nomes que depois tornar-se-iam gigantes da música brasileira.

 Um desses nomes era Tim Maia, que conheceu Erasmo ainda na juventude, quando os dois frequentavam os mesmos círculos musicais no Rio. Tim, Erasmo e Roberto fizeram parte de uma geração que descobria novas influências e procurou adaptar o rock estrangeiro à realidade brasileira. Eram jovens, tinham poucos recursos, mas tinham uma coisa que não podia ser comprada, vontade de fazer música.

 E naquele ambiente, Erasmo acabou por se aproximar cada vez mais de Roberto Carlos, que tinha chegado ao rio vindo de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, determinado a construir uma carreira artística. A relação entre os dois cresceu rapidamente e não demorou a que a amizade se transformasse em parceria criativa.

 Eles começaram a compor em conjunto, trocar ideias e experimentar diferentes  sonoridades. O resultado foi uma combinação que funcionou de uma forma extraordinária. O Roberto tinha a sua voz e o seu estilo interpretativo. enquanto Erasmo, possuía uma presença mais irreverente, ligada ao rock e à imagem rebelde que posteriormente seria associada ao tremendão.

 Esta diferença, em vez de os afastar, ajudou a criar uma identidade musical  que conquistaria o país. Quando a Jovem Guarda estreou-se na TV Record, em 1965, tudo mudou. Roberto Carlos assumiu o comando do programa ao lado de Erasmo Carlos e Vanderleia, e  o trio rapidamente se tornou símbolo de uma nova juventude brasileira.

 O programa era exibido nas tardes de domingo e não era apenas uma atração musical, era um fenómeno cultural. Roupas, cabelos, calão, comportamentos e músicas passaram a ser imitados por jovens de várias regiões do país. Erasmo ganhou o alcunha de Tremendão. O Roberto se consolidou como o líder daquele movimento e Vanderleia passou a ser chamada de ternurinha.

 Os três formavam uma espécie de representação de uma nova geração que se queria expressar de maneira diferente. E por detrás daquele fenómeno  havia uma máquina poderosa de televisão, editoras discográficas, concertos e divulgação, mas também havia algo mais difícil de fabricar, identificação com o público.

 Erasmo tinha uma característica que o diferenciava. Ele não precisava tentar parecer perfeito. O seu jeito descontraído, o seu corpo alto, o seu postura e a sua imagem de rapaz rebelde faziam com que muitos jovens se identificassem com ele. Enquanto Roberto começava a construir a imagem do grande cantor romântico, Erasmo mantinha uma ligação muito forte com o rock e com a irreverência.

 Mas a parceria dos dois ia muito para além da imagem. Eles compuseram juntos algumas das músicas mais importantes da carreira de Roberto Carlos e também do próprio Erasmo. Entre estas obras está Quero que vá tudo para o inferno. Lançada por Roberto Carlos em 1965. Uma canção que se tornou um dos grandes sucessos da Jovem Guarda e ajudou a consolidar definitivamente o nome de Roberto no panorama nacional.

  A composição assinada por Roberto e Erasmo, mostrava que os dois tinham encontrou uma fórmula capaz de transformar sentimentos simples em músicas que milhões de pessoas conseguiam cantar. Erasmo também participou diretamente noutros momentos fundamentais daquela história. E a parceria continuou a atravessar décadas, mesmo depois de a Jovem Guarda deixou de ser o centro da música brasileira.

 Isto é importante porque muitos artistas ficam presos ao movimento que os tornou famosos.  Erasmo conseguiu escapar a esta armadilha. Nos anos 1970, enquanto a Jovem Guarda já pertencia ao passado, continuou construindo a sua carreira a solo, lançando discos e experimentando  novas sonoridades. O rock continuava presente, mas a sua A música também incorporava elementos da MPB, do Sou e de outras influências.

 Ele já não era simplesmente o tremendão da televisão. Era um compositor respeitado por diferentes gerações de músicos e depois veio uma das fases mais importantes da sua maturidade artística. Em 1980, a televisão brasileira dedicou um especial inteiro a Erasmo. O programa Erasmo Carlos Convida, exibido pela Rede Globo a 21 de novembro desse ano, reuniu artistas de enorme importância.

 Entre eles Caetano Veloso, Ga Costa, Jorge Benjor, Maria Betânia e Nara Leão, para além do próprio Roberto Carlos. As gravações incluíram estúdio e externas no Rio de Janeiro, incluindo na região da Marina da Glória. Aquilo representava algo muito maior do que uma simples homenagem televisiva.

 Mostrava que o homem que se iniciara no rock juvenil dos anos 1960 era agora reconhecido por artistas de diferentes vertentes da música brasileira. A carreira continuou. Os anos passaram. Erasmo envelheceu, Roberto envelheceu, a televisão mudou, a indústria musical mudou, mas a amizade permaneceu. Em 1985, quando a televisão celebrou os 20 anos da Jovem Guarda, Erasmo voltou a reunir com Roberto Carlos e Vanderleia.

Em 1993, os três apareceram novamente juntos no Teatro Municipal de São Paulo durante o Roberto Carlos Especial. Em 1995, na comemoração dos 30 anos da Jovem Guarda, o trio voltou ao palco para reviver aquela época. E em 2009, durante o especial que celebrou os 50 anos de carreira de Roberto Carlos, Erasmo novamente estava ao lado do amigo.

 Olhe para essa sequência. 1965, 1985, 1993,  1995, 2009, décadas a separar cada encontro. Isto significa que a amizade entre os dois sobreviveu. Não apenas as mudanças da música, mas também as mudanças pessoais que acontecem quando uma pessoa envelhece. Eles viram colegas desaparecer, viram amigos morrer, viram filhos crescer, viram o Brasil mudar e chegaram a uma idade em que já carregavam mais passado do que futuro.

 E ainda assim, quando Roberto precisou recordar a sua história, Erasmo  estava ali. Quando Erasmo precisou para falar sobre a sua carreira, Roberto continuava a ser uma presença fundamental. Por  que, quando Erasmo morreu a 22 de novembro de 2022, aos 81 anos, a notícia tinha um peso que ultrapassava a morte de um cantor.

 Era o fim de uma parte importante da própria história de Roberto Carlos. Mas existe algo ainda mais impressionante. Poucos dias antes de morrer, Erasmo tinha recebido o reconhecimento de uma carreira inteira. O Gramy Latino de 2022,  do álbum O Futuro pertence à Jovem Guarda, chegou precisamente quando a sua saúde estava fragilizada.

 Era como se, depois de mais de 60 anos de estrada, o mundo da música estivesse a dizer uma última vez: “Nós ainda nos lembramos de ti”. Erasmo recebeu esta notícia emocionado, depois voltou ao hospital e no dia seguinte à sua morte o Brasil começou a descobrir a dimensão das homenagens que estavam por vir. Mas havia uma questão que permanecia.

 Como foram exatamente os últimos dias de Erasmo Carlos? O que aconteceu entre aquela falsa notícia de morte no início de novembro e a internamento definitivo de 21 de novembro? E como a sua família e os seus amigos reagiram quando perceberam que daquela vez o tremendão estava realmente partindo. Esta é a parte mais delicada da história. E foi assim.

 Depois de uma vida inteira desafiando o tempo que Erasmo Carlos chegou aos seus últimos dias, precisamente quando parecia ter recebido mais uma prova de que ainda havia muito para viver, porque poucos dias antes da sua morte, aquele homem de 81 anos, que já tinha atravessado décadas de mudanças na música brasileira, que tinha visto o rock nascer e transformar-se, que tinha participado na Jovem Guarda, que tinha escrito escrito canções que atravessaram gerações, ainda estava a receber reconhecimento por aquilo que havia construído ao longo de mais de seis

décadas. E talvez seja precisamente essa sequência de acontecimentos que torne sua história final tão dolorosa. Porque no dia 17 de novembro de 2022, quando estava internado no Rio de Janeiro, Erasmo recebeu uma notícia que poderia ter sido uma das maiores alegrias de os seus últimos anos.

 O seu álbum O Futuro pertence à Jovem Guarda, tinha vencido o Gramy Latino para melhor álbum de rock. ou música alternativa em língua portuguesa. Uma conquista que chegou quando ele já enfrentava uma situação delicada de saúde e que mostrava de uma forma quase simbólica que mesmo depois de tantos anos, o público e a indústria ainda reconheciam a força daquele homem que tinha ajudado a construir o rock brasileiro.

 Mas há uma parte dessa história que precisa de ser contada com cuidado, porque enquanto o Brasil celebrava novamente o artista, a realidade dentro do hospital era muito diferente. Asmo estava internado desde 2 de novembro no hospital Barrador, no Rio de Janeiro, depois de apresentar um quadro de paniculite associado a uma infecção.

 E aquela hospitalização, que inicialmente tinha sido encarada como mais um episódio médico, acabou por se prolongando-se por cerca de 20 dias, até que a situação se tornou extremamente grave. E no dia 22 de novembro de 2022, o homem conhecido por Tremendão morreu aos 81 anos no Rio de Janeiro, encerrando uma trajetória que havia começado décadas antes, quando ainda era um jovem apaixonado pelo rock, pelo guitarra, por Elvis Presley e por todos os aquilo que parecia novo e revolucionário.

 E talvez uma das imagens mais fortes deste capítulo tenha acontecido precisamente no momento  em que a notícia da sua morte começou a espalhar-se, porque Erasmo não era apenas um cantor conhecido, [a música] não era apenas um compositor famoso e não era apenas um dos rostos da Jovem Guarda. Ele era parte da memória afetiva de milhões de brasileiros.

 E para Roberto Carlos, aquele momento significava perder alguém que tinha estado ao seu lado desde o finais dos anos 1950, quando os dois se conheceram por causa de Elvis Presley, construíram uma amizade, escreveram canções juntos e acabaram por formar uma das parcerias  mais importantes da música popular brasileira.

 Por isso, Roberto Carlos falou publicamente sobre a dor de perder aquele amigo, chamando Erasmo de seu grande irmão e destacando a sua lealdade, inteligência e bondade. No dia 23 de novembro, apenas um dia depois da morte, Roberto Carlos foi ao Memorial do Carmo, no bairro do Caju, no Rio de Janeiro, para se despedir pessoalmente do amigo.

  E a cerimónia foi reservada a familiares e pessoas próximas. longe da exposição de um grande funeral público, enquanto do lado de fora estavam fãs que sabiam que estavam perante uma despedida histórica, porque aquele  lugar não recebia apenas o corpo de um artista, recebia os restos mortais de uma parte importante da história do rock brasileiro.

  E o Roberto, ao abandonar o local, transportava consigo mais de seis décadas  de recordações, desde os primeiros encontros entre dois jovens apaixonados pela música até aos grandes palcos, os êxitos, as brigas, as reconciliações e os momentos em que um esteve presente na vida do outro. E nesse mesmo dia, outra imagem revelou a dimensão humana dessa perda.

 Fernanda Passos, mulher de Erasmo, apareceu profundamente emocionada durante a despedida, sendo consolada por Léo Esteves, filho do cantor, numa cena que mostrava que, por trás do nome gigantesco, das músicas conhecidas e da história registada nos livros, existia uma família a enfrentar a ausência de um marido, de um pai e de uma pessoa que fazia parte do seu rotina.

 E Fernanda tinha acompanhado o Erasmo, precisamente nos últimos anos de a sua vida, período em que os dois tinham construiu uma relação marcada  por forte vínculo afetivo, até que a doença mudou completamente os últimos dias dessa relação. Fernanda também publicou um desabafo depois da morte, revelando a intensidade da dor que estava a viver.

 E as suas palavras mostraram como aqueles últimos momentos tinham sido difíceis para ela, porque segundo o seu próprio relato, ela acompanhou o marido durante a fase final da doença e descreveu a sensação de vê-lo perder forças, afirmando que ele ainda demonstrava vontade de viver. E é é precisamente neste ponto que a expressão batalha pela vida ganha o seu sentido mais humano, não como uma descrição médica de algo que possamos afirmar para além dos registos existentes, mas como a forma de uma esposa descrever emocionalmente a

luta  que testemunhou junto do homem que amava. Erasmo morreu no dia 22 de novembro de 2022, depois de um quadro de paniculite agravado por uma infecção posteriormente descrito em relatos da época como sépsis de origem cutânea.  e a família, a banda do cantor e o hospital Barrador divulgaram conjuntamente uma nota sobre a sua morte, lembrando o artista como Erasmo Esteves,  o gigante gentil, o tremendão e um dos pioneiros do rock nacional.

 Mas talvez a parte mais significativa daquela mensagem estivesse precisamente na forma como a família pediu que as pessoas o homenageassem, não com grandes cerimónias públicas, mas ouvindo as suas músicas e recordando as suas mensagens, porque Erasmo tinha passado a vida fazendo exatamente isso, transformando experiências pessoais, amores, conflitos, juventude, amizade e passagem do tempo em canções que continuariam a existir depois dele.

 E existe uma ironia dolorosa nesta despedida, porque apenas cinco dias antes, Erasmo tinha recebido um dos últimos grandes reconhecimentos da sua carreira, o Gramy  Latino, pelo álbum que celebrava precisamente a Jovem Guarda, o movimento que ajudou a transformar a sua vida e a vida de Roberto Carlos.

 E isso fez com que a sua história terminasse rodeada por uma espécie de círculo completo. jovem que um dia entrou no mundo da música influenciado pelo rock americano, que ajudou a criar uma nova linguagem para os jovens brasileiros dos anos 1960, que enfrentou mudanças de gosto, crises, transformações culturais e diferentes fases da indústria, chegava aos 81 anos, sendo novamente reconhecido por aquilo que tinha ajudado a construir décadas antes.

 Mas quando olhamos para Erasmo apenas como o tremendão, podemos perder precisamente aquilo que torna a sua história tão extraordinária. Porque antes do apelido, antes dos grandes palcos, antes de Roberto Carlos, antes da Jovem Guarda e antes dos discos, existia Erasmo Steves, um carioca que encontrou na música uma forma de construir a sua própria identidade, que passou por diferentes fases, que teve sucessos e dificuldades,  que viu morrer amigos, que viu o mercado musical mudar completamente e que mesmo depois de envelhecer continuou a trabalhar, compondo e se

apresentando, como se soubesse que parar completamente seria uma forma de abandonar uma parte essencial de si mesmo. E talvez seja por isso que a sua morte tenha causado uma sensação tão forte de fim de uma era. Porque quando Erasmo partiu, não desapareceu apenas um cantor de 81 anos.  desapareceu um dos últimos grandes protagonistas de uma geração que ajudou a apresentar o rock a uma juventude brasileira que estava a descobrir novos comportamentos, novas roupas, novos ídolos e uma nova forma de ver a

música. E ao lado de Roberto Carlos, Vanderleia e tantos outros nomes, Erasmo participou numa transformação cultural que ultrapassou os discos, os programas de televisão e os palcos. chegando diretamente à vida quotidiana das famílias que cresceram a ouvir aquelas músicas. E quando a porta daquele capítulo finalmente se fechou, ficaram as canções, ficaram as imagens a preto e branco, ficaram as fotografias da Jovem Guarda, ficaram os encontros com Roberto Carlos, ficaram as histórias de Tim Maia, ficaram os discos, os filmes, os

palcos, os prémios, ficaram os filhos, a esposa, os amigos e milhões de brasileiros que aprenderam a reconhecer aquele homem alto, de voz marcante. e personalidade inconfundível como o tremendão. E ficou também uma frase que depois da sua morte ganhou um significado ainda mais profundo. O futuro pertence à jovem guarda.

 Porque Erasmo sabia que o futuro não seria dele, mas também sabia que aquilo que uma pessoa cria pode continuar a viver quando ela já não está cá. Asmo Carlos partiu, mas não saiu completamente de cena. Porque cada vez que uma música tua  toca, cada vez que Roberto Carlos canta uma composição dos dois, cada vez que alguém recorda a Jovem Guarda, cada vez que uma nova geração descobre aquelas canções e pergunta quem foi aquele homem chamado tremendão, Erasmo volta a aparecer, não como alguém preso ao passado, mas como

alguém cuja obra conseguiu atravessar o próprio tempo. E talvez seja essa a verdadeira vitória de uma vida dedicada à música. Porque a morte pode interromper a voz de um artista, mas não consegue necessariamente silenciar aquilo que ele deixou gravado na memória de milhões de pessoas. E no fim, depois de 81 anos, depois de tantas músicas, tantos palcos, tantas amizades, tantos capítulos, tantos recomeços e tantas histórias, a despedida de Erasmo Carlos deixou uma questão que talvez nunca ter uma resposta completa. Como pode

um homem morrer e ainda assim continuar tão presente? E talvez a resposta esteja precisamente naquilo que ele construiu? Porque Erasmo não deixou apenas uma carreira, deixou uma banda sonora. E algumas bandas sonoras não terminam quando chega o último acorde. E talvez seja precisamente aqui, no silêncio que ficou depois da última notícia que a história de Erasmo Carlos torna-se ainda mais profunda.

 que durante décadas o O Brasil conheceu o homem do rock, o tremendão,  o parceiro de Roberto Carlos, o compositor de êxitos que ajudaram a definir uma geração. Mas só quando a sua vida chegou ao fim, a 22 de novembro de 2022, aos 81 anos, é que muita gente percebeu a dimensão completa do caminho que aquele menino carioca tinha percorrido desde os primeiros passos na música.

  Ainda no Rio de Janeiro, dos anos 50, até aos grandes palcos,  os discos, a televisão, o cinema, a Jovem Guarda, as parcerias com Roberto Carlos e os últimos trabalhos realizados quando muitos artistas da sua geração já tinham desaparecido dos holofotes. Asmo Esteves nasceu a 5 de junho de 1941, no Rio de Janeiro e cresceu numa cidade  que se transformava rapidamente, onde o rádio ocupava um enorme espaço dentro das casas e onde os os jovens começavam a descobrir  uma música diferente daquela que os seus

pais tinham escutado. E foi nesse ambiente que encontrou no rock uma espécie de linguagem própria, uma música que parecia traduzir a energia, a rebeldia e a  vontade de mudança daquela juventude. Até que o destino colocou no seu caminho dois nomes que seriam fundamentais para a sua história. Maia, amigo dos primeiros tempos, e Roberto Carlos, o rapaz vindo de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, que também sonhava viver de música.

 Com Roberto Carlos, Erasmo encontrou muito mais do que um parceiro profissional. Encontrou um amigo que permaneceria ligado à sua trajetória por mais de seis décadas. E dessa amizade nasceram algumas das composições mais conhecidas da música brasileira. Entre elas, quero que vá tudo para o inferno. É proibido fumar, sentado à beira do caminho  e tantas outras canções que ajudaram a transformar a linguagem do rock brasileiro.

 E quando os dois começaram a escreverem juntos, provavelmente não imaginavam que aquelas parcerias atravessariam gerações e seriam cantadas por pessoas que ainda nem sequer tinham nascido quando os primeiros discos chegaram às lojas. Depois veio 1975 e veio a Jovem Guarda, o programa da TV Record que colocou Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Vanderleia no centro de uma revolução cultural que ultrapassava a música, porque aquele programa não apresentava apenas canções, apresentava comportamento,  roupas, cabelos, expressões, calão e

uma nova imagem de juventude. Erasmo, com o seu corpo alto, o seu jeito descontraído e a sua presença marcante, acabou por receber o apelido de Tremendão, um nome que se tornou indissociável da sua identidade artística e que continuaria sendo utilizado há  décadas. Mas o tempo passou, a Jovem Guarda terminou, os cabelos ficaram brancos, a televisão mudou, os estilos musicais tornaram-se transformaram e muitos dos artistas que tinham dominado os programas dos anos 1960 ficaram restritos às recordações daquela

geração. Asmo, porém continuou trabalhando. E essa é talvez uma das partes mais importantes da sua história, porque não tentou viver eternamente preso ao passado. Continuou a gravar, compondo, fazendo espectáculos e procurando novas formas de dialogar com o público,  demonstrando que a sua carreira não dependia apenas da nostalgia da Jovem Guarda.

 Nos anos seguintes, Erasmo também passou por períodos difíceis. Enfrentou mudanças pessoais e profissionais, viu companheiros de estrada desaparecerem e acompanhou a A própria transformação do mercado musical, mas continuou a produzir. E esta permanência ajuda a explicar porque o seu nome chegou aos anos 2000 e depois aos anos 2020, sendo ainda reconhecido por diferentes gerações.

 Porque para alguns ele era o tremendão da televisão a preto e branco. Para outros era o compositor que escreveu ao lado de Roberto Carlos. E para uma nova geração, ele passou a ser descoberto precisamente através das músicas que os seus pais e avós tinham ouvido décadas  antes. Depois chegou 2022, o ano que deveria ser apenas mais um capítulo de uma carreira extraordinária, mas acabou transformando-se no último capítulo.

Erasmo completou 81 anos no dia 5 de junho. lançou o álbum O Futuro  pertence à Jovem Guarda, voltou a receber a atenção da imprensa e em novembro recebeu a notícia de que havia venceu o Gramy Latino na categoria de melhor álbum de rock ou música alternativa em língua portuguesa. uma  conquista que chegou poucos dias antes da sua morte e que, por isso mesmo, acabou por adquirir um significado especial para aqueles que acompanhavam a sua trajetória.

 Poucos dias depois, no entanto, a história mudou completamente e no dia 22 de novembro de 2022, o Brasil recebeu a confirmação da morte de Erasmo Carlos aos 81 anos no Rio de Janeiro, depois de um internamento marcado por complicações de saúde. E naquele momento, uma geração inteira se apercebeu que estava a perder um dos últimos grandes símbolos daquele período em que o rock brasileiro começava a conquistar espaço na televisão, na rádio e na vida quotidiano de milhões de pessoas.

 Roberto O Carlos perdeu um amigo com mais de 60 anos. A família perdeu um marido, um pai  e uma presença insubstituível. Os músicos perderam um parceiro e o público perdeu um artista. Mas a história não terminou nesse dia, porque algumas pessoas deixam algo maior do que a própria presença física. deixam uma obra capaz de continuar a funcionar como uma ponte entre épocas diferentes.

E Erasmo deixou exatamente isso, uma ponte entre a juventude dos anos 1960 e as gerações que continuam [a música] descobrindo as suas músicas décadas depois. E quando alguém pergunta porque é que Erasmo Carlos foi tão importante, a resposta não está apenas na quantidade de discos vendidos, nos programas de televisão ou nos prémios recebidos, está na transformação cultural de que ele participou, porque ele ajudou a mostrar que o rock também podia ser cantado em português, que os jovens brasileiros poderiam ocupar o centro da televisão

falando a sua própria linguagem e que uma parceria musical construída entre amigos poderia produzir canções capazes de sobreviver ao tempo. Talvez por isso, a história de Erasmo não deva terminar com a palavra morte, porque a morte explica o fim da vida, mas não explica o tamanho do legado.

 E  no caso do Tremendão, o legado continua a aparecer sempre que alguém coloca uma música antiga para tocar. Sempre que o Roberto Carlos canta uma composição feita pelos dois. Sempre que um documentário revisita a jovem guarda, sempre que um jovem descobre, quero que vá tudo para o inferno, ou sentado à beira do caminho e percebe que aquela música criada há décadas ainda consegue dizer alguma coisa sobre a sua própria vida.

 E talvez existir uma última imagem capaz de resumir tudo.  Erasmo Carlos, já com 81 anos, depois de uma vida inteira dedicada à música, recebendo um dos maiores reconhecimentos da sua carreira precisamente no mês em que morreria, como se tivesse recebido uma última confirmação de que a sua obra tinha ultrapassado o tempo e poucos dias depois, abandonando o palco  definitivamente, não porque as suas músicas tivessem perdido força, mas porque a sua viagem humana chegara ao fim.

 O tremendão já se foi, mas Erasmo Carlos continua a ser ouvido, lembrado e descoberto. E essa é talvez uma das maiores conquistas que um artista pode alcançar. Porque enquanto existir alguém disposto a ouvir uma das suas músicas, enquanto alguém se lembrar da sua amizade com Roberto Carlos,  enquanto a história da Jovem guarda continuar a ser contada, enquanto uma nova geração perguntar quem era aquele homem chamado tremendão, Erasmo continuará a encontrar uma maneira de voltar através da música, através da

memória, através das histórias e, principalmente através das canções que ele ajudou a colocar para sempre na memória brasileira. E se esta história mexeu consigo, deixe nos comentários qual a música de Erasmo Carlos que marcou a a sua vida. Aquela que ouviu na juventude? Aquela que faz lembrar alguém que já partiu ou simplesmente aquela que ainda consegue fazer com que pare por alguns minutos e voltar atrás no tempo? Porque talvez seja isso mesmo que Erasmo gostaria que acontecesse, que a sua música continuasse a ser ouvida, lembrada e

partilhada muito depois de o último aplauso ter terminado.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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