Aos 85 anos, Roberto Carlos admitiu ter cometido erros em relação às suas três esposas.

Aos 85 anos, Roberto Carlos admitiu ter cometido erros em relação às suas três esposas.

22 e 17. O quarto já estava em silêncio, mas três nomes ainda pareciam capazes de devolver Roberto Carlos há anos que nenhum homem, por mais famoso que seja, consegue viver pela segunda vez. Nice, Miriam e Maria Rita. Aos 85 anos, olhar para trás talvez já não seja uma questão de descobrir quem deixou quem, quem teve razão ou quem sofreu mais.

 O peso está em outra parte. nas escolhas que não podem ser corrigidas, nas distâncias que cresceram sem que ninguém percebesse, e nas perdas, diante das quais até um dos maiores nomes da música brasileira teve de aceitar a própria impotência. Cleonice Rossi Martinelli Aice foi a primeira dessas páginas. Ela esteve ligada a uma fase em que Roberto ainda construía não apenas uma carreira gigantesca, mas também uma vida familiar.

 O casamento terminou, porém, transformar essa separação numa história simples de traição seria ir além do que está comprovado publicamente. Não há base segura para afirmar que Nice tenha deixado Roberto por uma única infidelidade ou por um episódio específico. E talvez seja justamente essa ausência de uma resposta definitiva que torne a lembrança mais inquietante.

Quantas coisas podem terminar não por causa de uma explosão, mas pelo acúmulo silencioso de pequenas ausências? Quantas palavras poderiam ter sido ditas antes que duas pessoas percebessem que já estavam caminhando em direções diferentes? Depois veio Miriam Ross e com ela surge uma ferida de natureza completamente diferente.

 Aqui a questão não parece ser simplesmente falta de amor. Miriam contou publicamente que desejava profundamente ser mãe enquanto Roberto havia feito uma vasectomia. De repente, o futuro dos dois deixou de ser apenas uma questão sentimental. Era uma escolha de vida. Permanecer significaria para ela possivelmente abrir mão de um desejo que carregava dentro de si.

 Partir significava deixar para trás um homem por quem ainda existia sentimento. É nesse ponto que a história deixa de caber na fórmula confortável de um casamento fracassado. Às vezes, duas pessoas podem se amar e ainda assim desejar futuros incompatíveis. Mas o terceiro nome muda completamente o tom, Maria Rita.

 Com ela não existe a pergunta sobre quem pediu o divórcio. Não houve uma porta fechada depois de uma discussão, nem uma assinatura encerrando oficialmente o amor. Maria Rita morreu em 1999 após enfrentar um câncer e Roberto ficou diante de uma separação contra a qual nenhuma reconciliação seria possível. Talvez por isso, ao colocar essas três mulheres lado a lado, surjam três perguntas muito diferentes.

 O que realmente se perdeu com Nice? O que Roberto e Miriam teriam vivido se seus projetos de futuro fossem outros? E o que um homem pode fazer quando, depois de tantas escolhas que poderiam ter seguido caminhos diferentes, finalmente encontra uma perda sobre a qual não possui escolha alguma. Naquela noite imaginada às 20ites de 17, os três nomes permanecem diante dele como três fotografias de épocas distintas.

 Nice representa aquilo que terminou e deixou perguntas. Miriam, aquilo que talvez ainda tivesse amor, mas não o mesmo destino. Maria Rita, aquilo que terminou sem que nenhum dos dois pudesse decidir. E Roberto permanece ali sem precisar dizer que se arrepende de tudo, porque algumas histórias pesam justamente pelo que nunca foi dito em voz alta.

 No fim dos anos 1960, Cleonice Ross Martinelli a Nice entrou na vida de Roberto Carlos em um momento em que quase tudo ao redor dele parecia acelerar. A carreira crescia, as músicas atravessavam fronteiras, os compromissos se multiplicavam e o homem que começava a ocupar um espaço gigantesco na música brasileira precisava ao mesmo tempo, aprender a existir dentro de uma família.

 Nice foi sua primeira esposa e talvez seja justamente por ter ocupado esse lugar que sua história não possa ser reduzida a uma fotografia antiga ou a uma linha perdida numa biografia. Havia ali um casamento acontecendo, enquanto, do lado de fora, Roberto se transformava em um fenômeno. Shows, gravações, viagens, entrevistas, expectativas.

Quanto desse movimento entrou pela porta de casa? Quanto permaneceu do lado de fora? Não existe uma resposta simples. O que sabemos é que aquela união não durou para sempre. Em algum momento, a distância entre os dois se tornou maior do que aquilo que ainda conseguia mantê-los juntos. Eles se separaram.

 E é exatamente aqui que aparece um vazio que durante décadas foi preenchido por versões, especulações e explicações fáceis demais. Seria outra mulher? Uma traição, o peso da fama, a ausência provocada pelo trabalho, diferenças que já não podiam ser conciliadas? É possível formular dezenas de hipóteses.

 O problema começa quando uma hipótese passa a ser repetida como se fosse uma confissão. Não há base fiável para colocar na boca de Roberto ou Dinice uma explicação definitiva que reduza o fim daquele casamento a um único ato de infidelidade ou traição. E talvez a parte mais desconfortável desta história seja precisamente aceitar que algumas questões permanecem sem resposta.

Porque a vida real raramente oferece a simplicidade de um guião. Não existe sempre um vilão, uma frase definitiva ou uma noite específica em que tudo desmorona. Às vezes o fim acontece devagar, um compromisso adiado, uma conversa que não ocorreu, uma cadeira vazia durante demasiado tempo, dois projetos de vida que começam a afastar alguns centímetros por dia, até que anos depois a distância já parece impossível de atravessar.

 Nice deixou de ser a mulher ao lado de Roberto Carlos, mas não podia deixar de fazer parte da história que já tinha vivido. E depois o tempo acrescentou algo muito mais definitivo do que uma separação. Em 1990, Nice morreu vítima de cancro da mama. A a partir desse momento, qualquer questão que ainda pudesse existir sobre o passado ganhou outro peso.

 Já não seria possível recuar décadas, sentar-se diante dela e perguntar: “Em que momento começamos a perder-nos? Não seria possível ouvir novamente a sua versão, corrigir uma recordação ou descobrir se aquilo que um considerava imperdoável talvez tivesse sido entendido de outra maneira pelo outro?” A morte transformou uma antiga separação numa página que nunca poderia ser reaberta pelos dois.

E talvez seja por isso que, tantos anos depois, o nome Nice transporta uma espécie particular de silêncio. Não o silêncio de uma resposta escondida, mas o de uma resposta que talvez nunca chegue. Roberto seguiu em frente. Outras histórias começaram, outros sentimentos ocuparam espaço, mas nenhuma nova relação poderia alterar aquilo que já estava escrito nesse primeiro casamento.

 Se houve erros, só quem viveu aquela intimidade poderia medir o seu verdadeiro tamanho. Se houve arrependimentos, não precisamos de inventar quais foram. O que permanece é algo mais humano. A impossibilidade de refazer uma época quando uma das pessoas que poderia completá-la já não está aqui. Mas se o primeiro casamento deixou uma questão sem solução clara, a mulher seguinte deixaria uma resposta concreta e suficientemente dolorosa para mostrar que por vezes o amor não termina porque deixou de existir. Miriam Ros queria uma

coisa aparentemente simples, ser mãe. Não era uma exigência construída para alimentar uma crise, nem uma disputa sobre a fama, o dinheiro ou o ciúme. Era um desejo de futuro. Ela imaginava filhos, uma família em crescimento e uma etapa da vida que para ela ainda necessitava acontecer.

 Foi precisamente nesse ponto que a sua história com Roberto Carlos encontrou um obstáculo muito maior do que qualquer discussão quotidiana. Segundo relatos feitos pela própria Miriam, ao recordar aquele relacionamento, ela descobriu que Roberto tinha realizado uma vasectomia e que até então não sabia disso. Para uma mulher que desejava profundamente a maternidade, aquela informação não era apenas um pormenor médico.

 De repente, ela tocava diretamente na pergunta mais difícil de uma relação. Estamos caminhando para o mesmo lugar. O impacto não precisava de gritos. Bastava imaginar o silêncio depois da descoberta. Roberto já carregava as suas próprias decisões e a sua própria história. Miriam, por seu lado, olhava para os anos seguintes e via algo que não queria abandonar.

 E então surgiu o paradoxo que torna esta separação tão diferente de uma narrativa convencional de divórcio. O sentimento podia continuar a existir e mesmo assim não ser suficiente. Porque o mais doloroso nem sempre é deixar de amar. Às vezes, duas pessoas ainda sentem algo uma pela outra, mas começam a olhar para futuros completamente diferentes.

 A Miriam queria experimentar a maternidade. Permanecer naquela relação, nas circunstâncias que ela descreveu, significava confrontar a possibilidade de abdicar desse sonho. E nenhum dos caminhos parecia indolor. Anos mais tarde, ao falar sobre aquele período, ela também reconheceria outros desencontros.

 Roberto vivia rodeado por uma agenda intensa de apresentações e compromissos, enquanto ela desejava viajar, conhecer lugares e experimentar uma liberdade que talvez não se coadunasse com aquela rotina. A própria Miriam, olhando para a mulher que era naquele época, reconheceu aspetos da sua imaturidade. Havia ainda um outro ponto sensível, o ciúme.

 Como atriz, precisava interpretar personagens, contracenar com outros homens e participar em cenas afetivas que pertenciam ao trabalho. Segundo o que Miriam relatou sobre a relação, o Roberto tinha dificuldade em determinadas situações deste tipo. Separadamente, cada uma destas diferenças talvez parecesse administrável.

 Juntas revelavam duas pessoas a tentar encaixar desejos, profissões e expectativas que nem sempre caminhavam ao mesmo ritmo. Mas seria um erro transformar todos estes elementos numa lista de motivos do divórcio, como se existisse uma equação perfeita. Entre tudo o que Miriam contou, a questão da maternidade e da vasectomia ocupa um lugar especialmente importante, porque atingia diretamente a vida que ela desejava construir.

 Não se tratava simplesmente de decidir onde viver ou quantas viagens fazer por ano. O tempo biológico avançava. A decisão de ser mãe não podia ser adiada indefinidamente e talvez seja aí que a história se mais dura. Ninguém precisava ser necessariamente o vilão para que alguém saísse profundamente ferido. O Roberto não precisava de ser transformado num homem cruel, assim como Miriam não precisava de ser apresentada como alguém que abandonou um grande amor por capricho.

 Havia uma incompatibilidade capaz de atravessar o próprio sentimento. Ela precisava de escolher não apenas entre ficar ou partir, mas entre duas versões possíveis da sua própria vida. Nice tinha deixado uma separação, cuja causa não pode ser reduzida com segurança a uma única resposta. Miriam, ao contrário, falou de forma muito mais clara sobre aquilo que pesou na sua decisão de seguir outro caminho, mas faltava ainda o terceiro nome, e seria precisamente Maria Rita quem faria a palavra separação, perder completamente o significado que tivera até então.

Maria Rita Simões Braga não se divorciou de Roberto Carlos e é precisamente aqui que a lógica das duas histórias anteriores se rompe. Depois de Nice e Miriam, seria fácil esperar mais um casamento que começou rodeado de esperança e terminou porque duas pessoas decidiram seguir caminhos separados, mas desta vez ninguém escolheu ir embora.

Roberto e Maria Rita casaram e a união manteve-se até que uma doença transformou aquilo que poderia ter sido apenas mais um capítulo amoroso na perda mais definitiva desta história. Maria Rita enfrentou um cancro e morreu em 1999, aos 38 anos. Não houve uma conversa final sobre a separação capaz de alterar o rumo das coisas.

 Não houve papéis de divórcio, uma nova casa ou a possibilidade de cada um reconstruir a própria vida longe do outro. Houve algo contra o qual o sentimento, a fama e a dinheiro tinham pouco poder, o tempo tornava-se tornando-o limitado. E essa diferença muda completamente a forma de olhar para as três mulheres.

 Com Nice, existiu uma relação que terminou e anos mais tarde a morte fechou definitivamente qualquer possibilidade de um novo diálogo entre os dois. Com Miriam, houve uma escolha dolorosa, certamente, mas ainda assim uma escolha feita face a futuros que já não pareciam compatíveis. Maria Rita representa outra coisa.

 O casamento não acabou porque o amor se tornou insuficiente, porque alguém desejou uma vida diferente ou porque um deles decidiu fechar a porta. A própria possibilidade de continuar foi interrompida. É por isso que falar em erros neste ponto exige cuidado. Não há necessidade de inventar uma confissão de Roberto Carlos que ele nunca tenha feito.

 Talvez a pergunta mais poderosa seja outra. Uma questão que poderia servir não só para ele, mas para qualquer pessoa que chegue à velice transportando décadas de memórias. Se fosse possível voltar, o que alguém faria diferente? Teria aquela conversa que ficou para mais tarde? diria uma verdade mais cedo? Pediria desculpa antes que o orgulho ocupasse demasiado espaço? Cancelaria um compromisso para permanecer algumas horas ao lado de alguém? Ou simplesmente prestaria mais atenção a um dia aparentemente comum, sem saber que décadas depois daria tudo

para o viver novamente? É uma questão sem resposta, porque o passado possui uma crueldade particular. Nós só compreendemos o valor de certos minutos quando já não podemos regressar a eles. Aos 85 anos, Roberto Carlos carrega uma trajetória que poucas pessoas poderiam imaginar viver. Palcos cheios, discos, aplausos, viagens, reconhecimento e canções que acompanharam gerações inteiras.

 Mas nenhuma destas conquistas altera uma regra básica da existência. Há coisas que o sucesso permite recuperar. O tempo não é uma delas. E talvez por isso os três nomes, quando colocados lado a lado, contem histórias tão diferentes sem ter de transformar Roberto em culpado ou inocente. Nice, uma questão para a qual não existe uma explicação única comprovada.

 Miriam, uma mulher que explicou porque precisava de escolher outro futuro. Maria Rita, uma perda perante a qual escolher já não era possível. Uma deixou perguntas, outra deixou uma explicação, a terceira deixou ausência. 22 e 17. O quarto está novamente calmo. Nice, Miriam, Maria Rita. Três nomes permanecem sobre páginas antigas, como se cada um guardasse uma versão diferente do homem que Roberto Carlos foi.

 E talvez o maior peso da velice não esteja em lembrar-se quantas vezes alguém adorou, mas em perceber que existem anos que, mesmo com todo o dinheiro, toda a fama e todos os aplausos do mundo, não podem ser comprados de volta nem por mais um minuto. Tu?

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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