Assim Era a Vida de Dom Pedro I | Ano 1829 | Teve a Amante Dentro do Palácio ao Lado da Esposa

Assim Era a Vida de Dom Pedro I | Ano 1829 | Teve a Amante Dentro do Palácio ao Lado da Esposa

No coração do Rio de Janeiro, no palácio mais poderoso das Américas, vivia um homem que parecia ter tudo o que um imperador poderia desejar, um novo trono em folha, um povo que gritava o seu nome nas ruas e uma esposa amada por toda a nação, uma princesa vinda da Europa, culta, bondosa, admirada por todos os que a conheciam.

Mas havia  algo que o Brasil inteiro comentava em voz baixa. Há poucos passos da Imperatriz, praticamente colada ao palácio, vivia a mulher que dividiria o coração do imperador e destruiria a paz da família imperial, a amante, aquela por quem tinha perdido a cabeça, aquela a quem deu um título de nobreza, uma casa luxuosa colada à residência imperial e um lugar dentro da própria corte.

 diante dos olhos da esposa, diante dos olhos de toda a cidade, não escondeu, não teve vergonha,  ele exibiu. O seu nome era Dom Pedro I, o homem que rasgou os gritos da independência e fundou um império, e também o homem que despedaçou o coração da mulher que mais amou-o numa das traições mais escandalosas que um palácio brasileiro já testemunhou.

Para compreender como o herói de uma nação tornou-se o vilão da própria casa, é preciso voltar ao princípio, porque Dom Pedro nunca foi um homem feito para a calmaria. Assim era a vida de Dom Pedro I. Ele nasceu no dia 12  de outubro de 1798, no Palácio de Queluz, em Portugal. recebeu o nome de Pedro de Alcântara e era filho de Dom João, futuro rei Dom João VI, e de Carlota Joaquina, uma princesa espanhola de temperamento difícil e ambições enormes.

 A infância de Pedro não foi a de um príncipe mimado e protegido. Pelo contrário, os seus pais viviam em guerra um com o outro, um casamento gélido e cheio de ódio.  E os filhos cresceram um pouco soltos, um pouco abandonados no meio daquela briga. A mãe, Carlota Joaquina era uma mulher de intrigas e ambições, envolvida em conspirações pelo poder e tinha pouca paciência para a criação cuidadosa dos filhos.

 O pai, Dom João, era tímido, indeciso e medroso. No meio dos dois, o Pedro cresceu praticamente solto, sem freios e sem rumo. Foi um menino de educação descuidada. Aprendeu a montar a cavalo antes de aprender a estudar com seriedade e nunca teve verdadeiro gosto pelos livros. era impulsivo, agitado, fisicamente forte, cheio de energia e desde cedo mostrou a que seria a marca da sua vida inteira.

Uma paixão sem freios por tudo, por cavalos, pela música, pela aventura e mais tarde por mulheres. Havia nele, porém, contradições que o acompanhariam para sempre. Apesar da educação descontraída, Pedro tinha talentos genuínos e surpreendentes. Era um músico dotado, capaz de tocar vários instrumentos e de compor com verdadeiro talento.

 Mais tarde, seria o autor da música de hinos que embalariam tanto o Brasil como Portugal. Gostava também de trabalhos manuais, das forjas e das ferramentas. e não tinha vergonha de sujar as mãos como um ferreiro ou um carpinteiro, algo impensável para um príncipe da sua época e carregava ainda um fardo secreto. Sofria de crises, ataques súbitos, que o derrubavam  para o chão, uma forma de epilepsia que o atormentaria pela vida inteira.

 era, em síntese, um homem de extremos, brilhante e descontrolado, generoso e violento, capaz da maior ternura e da maior frieza, por vezes no mesmo dia. E, então, quando Pedro tinha apenas 9 anos, o mundo virou de cabeça para baixo. Decorria o ano de 1807. Os exércitos de Napoleão Bonaparte marchavam sobre a Europa e Portugal estava no caminho.

 Perante a ameaça de invasão, a família real portuguesa tomou uma decisão sem precedentes na história. Em vez de resistir e cair, eles fugiriam. Toda a corte, milhares de pessoas, embarcou apressadamente em navios e atravessou o Oceano Atlântico para se refugiar-se na maior colónia do império, o Brasil.

 Foi assim que o menino Pedro chegou ao Rio de Janeiro e foi aí sob o sol dos trópicos, entre as montanhas e o mar daquela cidade, que ele se tornaria homem. O Brasil deixou de ser apenas uma colónia distante, tornou-se o lar da família real e tornou-se para Pedro a terra que ele um dia transformaria em nação.

 A travessia em si foi épica e terrível. Milhares de pessoas amontoadas nos navios, semanas de mar revolto, fome, doença e pavor. Quando a frota chegou finalmente ao Brasil, o que tinha começado por ser uma fuga humilhante transformou-se em algo extraordinário. Pela primeira vez na história, uma colónia recebia  a corte do seu próprio rei.

 O Rio de Janeiro, de uma hora para a outra, deixou de ser uma qualquer cidade colonial e virou a capital de um império. E o menino Pedro cresceria no centro de tudo isto. Crescendo no rio, Pedro tornou-se um jovem irrequieto e sedutor. Gostava de escapar do palácio, de se misturar com o povo, de cavalgar pelos arredores, de frequentar tavernas e lugares que um príncipe jamais deveria frequentar.

Conhecia as ruas, os becos e a gente comum de um jeito que assustava os cortesãos. Era bonito, intenso, charmoso e já colecionava casos amorosos antes mesmo de pensar em casamento. As mulheres eram desde sempre a sua grande fraqueza e ele nunca fez muito esforço para resistir a elas, mas chegava a hora de um príncipe se casar.

>>  >> E o casamento de um futuro rei não era assunto do coração, era assunto de estado. Escolheram para ele uma noiva à altura,  uma arquiduquesa da Áustria, filha de uma das casas mais antigas e poderosas da Europa. O nome dela era Maria Leopoldina e é aqui que entra uma das figuras mais comoventes desta história inteira.

 Leopoldina era filha do imperador Francisco I da Áustria. Foi criada em uma das cortes mais refinadas do continente e era  tudo o que se poderia esperar de uma grande princesa e muito mais. Inteligentíssima. Falava várias línguas. Era apaixonada por ciências naturais, por botânica, por mineralogia. Uma mulher de verdadeira erudição numa época em que pouco se esperava do intelecto de uma esposa real.

 Não era considerada  uma grande beleza pelos padrões da corte, mas tinha uma alma generosa, doce e profundamente  leal. Eles se casaram por procuração em 1817, antes mesmo de se conhecerem pessoalmente. Leopoldina atravessou o oceano, deixando para trás tudo o que conhecia, a família, a pátria, o conforto da Europa para viver num país tropical e distante, ao lado de um homem que nunca tinha visto.

 E quando finalmente desembarcou no Rio de Janeiro e pousou os olhos no Jovem Príncipe, aconteceu algo que selaria o seu destino. Ela se apaixonou, verdadeira, completa, irremediavelmente. Nas cartas que escrevia para a família na Áustria, Leopoldina falava de Pedro com uma ternura tocante. Ela o amava, admirava sua energia, sua coragem, seu jeito apaixonado.

 estava disposta a dedicar a vida inteira a ele e ao novo país que adotara como seu. E o Brasil, por sua vez, adorou Leopoldina. O povo via nela uma princesa boa, sincera, que se interessava de verdade pela Nova Terra. Ela aprendeu sobre o Brasil com uma curiosidade que poucos europeus tinham. Estudou as plantas, os minerais, os animais da nova pátria, financiou expedições científicas, recebeu sábios e naturalistas e quis de verdade entender e amar a terra que adotara.

 Onde Pedro era impulso e fogo, Leopoldina era estudo e profundidade. Em outro mundo, eles poderiam ter formado um par perfeito, a energia dele equilibrada pela sabedoria dela. Mas não foi esse o destino que os esperava. Por um tempo, parecia o começo de um grande romance. Mas Pedro, embora gostasse da esposa e respeitasse a sua inteligência, não era um homem de um amor só.

 Nunca seria. E a sombra  que arruinaria aquele casamento já estava se formando. Antes, porém, do escândalo, veio a glória. No início da década de 1820,  a situação política mudou drasticamente. Dom João VI, o pai de Pedro, foi obrigado a voltar para Portugal e deixou o filho no Brasil como príncipe regente.

 Mas as forças políticas em Lisboa queriam reverter o relógio, queriam rebaixar o Brasil de volta  à condição de simples colônia, retirar os seus privilégios e ordenar que o príncipe Pedro também regressasse a Portugal, como se nada do que havia sido construído ali importasse. Os brasileiros não aceitaram e Pedro, jovem, ousado e ambicioso, viu a sua chance.

 No dia 9 de janeiro de 1822, pressionado a partir, ele tomou a decisão que entraria para a história. [aplausos] Diante do povo, declarou que ficaria. Aquele momento ficou conhecido como o dia do fico. Foi o primeiro passo rumo a uma ruptura definitiva. E o passo final veio meses depois. No dia 7 de setembro de 1822, às margens de um riacho chamado Ipiranga, em São Paulo, Pedro recebeu cartas de Portugal com novas exigências humilhantes.

 Conta a história que ali mesmo a cavalo tomado pela emoção, ele desembanhou a espada e proclamou a separação. Independência ou morte era o grito do Ipiranga, o nascimento de uma nação. Poucos meses depois, Pedro foi aclamado e coroado, não mais príncipe, não mais regente. Agora ele era Dom Pedro I, imperador do Brasil. Aos 20 e poucos anos, havia fundado um  império.

 E é importante lembrar de uma coisa que muitas vezes se esquece. Foi a própria Leopoldina quem, num momento decisivo assinou documentos e apoiou firmemente a causa da independência enquanto Pedro estava viajando. A mulher que ele trairia teve um papel decisivo nos acontecimentos que levaram à independência e é frequentemente lembrada como uma das figuras centrais daquele processo.

Mas enquanto a nação celebrava o seu imperador dentro do palácio, uma tragédia silenciosa já havia começado, porque aquela altura Pedro já tinha conhecido a mulher que mudaria  tudo. O nome dela era Domitila de Castro Canto e Melo. Eles se conheceram por volta da época da independência. E o que começou como mais um dos muitos casos de Pedro, logo se transformou em algo muito mais perigoso.

 Ele não apenas se encantou por Domitil-la, ficou obsecado. E Pedro, que nunca soube colocar limites em nada, mergulhou de cabeça numa paixão que o consumiria por inteiro. Domitila era uma mulher bonita, carismática e ambiciosa, e rapidamente conquistou a atenção do imperador. Em pouco tempo, ela não era apenas uma amante escondida.

Pedro a trouxe para perto. Cada vez mais perto, deu a ela e a sua família títulos, terras, dinheiro e influência. Ela recebeu primeiro o título de Viscondessa e depois o de Marquesa de Santos. E o imperador chegou ao ponto de instalá-la em uma residência  luxuosa, praticamente ao lado do palácio imperial, para tê-la sempre por perto.

 E o poder de Domitila não parou na Alcova. A sua família inteira foi elevada. Parentes ganharam cargos e fortunas. E a marquesa passou a influir nos assuntos da corte e até nas decisões do governo. Ministros tinham de contar com ela. Pedidos passavam por suas mãos. Para muitos, o imperador do Brasil estava sendo governado nas sombras pela própria amante.

 As cartas trocadas entre Pedro e Domitila, que sobreviveram até hoje, revelam uma paixão ardente e quase doentia, um homem completamente dominado pelo desejo, escrevendo a amante com uma intimidade febril, enquanto a esposa definhava em silêncio a poucos metros dali. Pense no que isso significava. A esposa, a imperatriz, a mãe dos herdeiros do trono, vivia em um palácio.

E a poucos passos dali, exibida  diante de toda a corte e de toda a cidade, vivia a amante do marido, coberta  de honras, tratada quase como uma segunda soberana. Pedro chegou a nomear Domitila dama de honra da própria imperatriz, forçando Leopoldina a conviver com a rival sob o mesmo teto, a servi-la, a fingir naturalidade diante daquela humilhação.

Foi uma crueldade que se arrastou por anos e as cartas de Leopoldina, que antes transbordavam amor, foram aos poucos se enchendo de dor. Ela descrevia a sua solidão, a sua tristeza, o abandono, a humilhação de ser preterida não em segredo, mas publicamente diante de um país inteiro que a amava e que assistia impotente ao seu sofrimento.

 A mulher culta e generosa, que havia atravessado o oceano por amor, agora vivia confinada a sua dor, dando a luz, filho após filho, de um homem, cujo coração pertencia à outra. Existem relatos contemporâneos que apontam episódios de agressão e maus tratos, embora os detalhes e as circunstâncias continuem sendo objeto de debate entre os historiadores.

  O que não se discute é o essencial. Leopoldina foi profundamente infeliz  e o homem que a fazia sofrer era o mesmo herói que o Brasil aclamava. Domitila, por sua vez, teve vários filhos com o imperador. Pedro reconheceu alguns deles,  deu-lhes títulos, tratou os filhos da amante quase com a mesma pompa dos filhos legítimos.

 A linha entre a família oficial e a família secreta foi se apagando dentro daquele palácio. E o escândalo crescia, alimentando fofocas, revoltando políticos e desgastando, dia após dia, a imagem do imperador diante do seu povo. E então veio o golpe final na vida de Leopoldina. No fim do ano de 1826, a imperatriz, já fragilizada de corpo e de alma, adoeceu gravemente.

 Estava abalada por uma nova gravidez interrompida e pela tristeza que carregava havia anos. No dia 11 de dezembro de 1826, Maria Leopoldina morreu. Tinha apenas 29 anos. A nação ficou de luto. O povo que amava a imperatriz chorou a sua morte  como se fosse a de uma mãe. E muitos, em voz baixa e depois em voz alta apontaram o dedo para o imperador e para a sua amante.

 Para muitos brasileiros da época, Leopoldina não havia morrido apenas da doença que a consumia. Na imaginação popular, ela morreu também de tristeza,  desgastada por anos de humilhação e sofrimento. Foi um divisor de águas. A morte de Leopoldina transformou a opinião pública. O encanto do herói da independência começou a ruir.

 As pessoas já não viam apenas o homem que fundara o império. Viam o marido que humilhara e abandonara a imperatriz querida. E a popularidade de Domitila despencou, transformada agora no símbolo de tudo o que havia de errado na corte. Até o próprio Pedro, enfim, pareceu compreender que havia ido longe demais. Com a morte da esposa, ele precisava se casar de novo, tanto por razões de estado quanto pela necessidade de uma mãe para os seus filhos.

 Mas havia um problema. Nenhuma corte europeia respeitável queria entregar uma princesa a um imperador com a reputação manchada por um caso tão escandaloso e por uma amante instalada dentro do palácio. As propostas de casamento eram recusadas uma após a outra por causa de Domitila. E foi então que Pedro tomou a decisão que deveria ter tomado muito antes.

 Ele afastou a marquesa de Santos, encerrou o relacionamento, mandou-a embora da corte, cortou os laços públicos que por tantos anos haviam envergonhado o seu reinado. A grande paixão que custara tão caro chegava enfim ao fim. Limpa a sua imagem, Pedro conseguiu uma nova noiva e desta vez o destino lhe trouxe algo que ele talvez não merecesse, a felicidade.

No ano de 1829, ele se casou com Amélia de Leenberg, uma jovem princesa europeia de notável beleza e doçura. E por uma ironia do destino, este segundo casamento foi feliz. Amélia trouxe ordem, dignidade e afeto à vida do imperador. Pedro, o homem das mil paixões, parecia finalmente acalmado ao lado dela, mas a paz dentro do palácio chegava tarde demais para salvar o seu trono.

 Porque fora dos muros do palácio, o Brasil estava farto. Os anos de escândalo haviam corroído a autoridade do imperador. Mas não foi só o escândalo, havia também a política. Pouco depois de fundar o império, Pedro entrara em choque com aqueles que queriam limitar o seu poder. Quando uma assembleia foi reunida para escrever a primeira constituição do país, e os seus rumos não agradaram ao imperador, Pedro simplesmente a dissolveu a força, cercando o prédio com tropas.

  Em seguida, impôs ele mesmo uma constituição feita à sua maneira, garantindo a si próprio enormes poderes. Foi um gesto autoritário que muitos nunca lhe perdoaram. A reação não tardou. No nordeste do país estourou uma revolta contra o imperador e Pedro a esmagou com dureza, mandando  executar líderes do movimento.

 Somava-se a isso uma guerra desastrosa no Sul, em que o Brasil acabou perdendo uma província  inteira, a região que viria a se tornar o Uruguai. Um conflito caro, sangrento e humilhante. Vinham ainda a crise econômica, os conflitos constantes com os políticos e a crescente desconfiança de que Pedro, nascido português, se importava mais com as questões de Portugal do que com as do Brasil.

 O herói da independência havia se transformado, aos olhos de muitos, num governante autoritário e distante. A tensão explodiu no início do ano de 1831. Houve protestos, conflitos nas ruas, uma onda de revolta contra o imperador. Pedro se viu encurralado e então, fiel ao seu temperamento dramático e impulsivo, ele tomou a mais surpreendente das decisões.

 A gota d’água veio quando o povo e as tropas do Rio de Janeiro se levantaram, exigindo mudanças e a demissão de ministros impopulares. Pedro, ferido no seu orgulho, recusou-se a ceder à pressão. Dizia que faria tudo pelo povo, mas nada por imposição do povo. E então, numa madrugada tensa, cercado pela revolta e abandonado por boa parte do seu apoio, ele tomou a sua decisão final e irreversível.

 Na madrugada do dia 7 de abril de 1831, Dom Pedro I abdicou do trono do Brasil, mas não abdicou em favor de um rival ou de um general. Abdicou em favor de uma criança, o seu filho, um menino de apenas 5 anos de idade, que se tornaria, com o tempo, o segundo e último imperador do Brasil, Dom Pedro I. O pai entregou a coroa ao filho pequeno, deixou-o no país que havia fundado e partiu de volta para a Europa.

 O homem que gritara independência ou morte às margens do Ipiranga deixava para sempre a terra que tornara nação. E havia naquela partida uma dor que muitos esquecem. Ao deixar o Brasil, Pedro não abandonou apenas um trono, abandonou os próprios filhos. O pequeno imperador de 5 anos e as suas irmãs menores ficaram para trás, entregues aos cuidados de tutores, enquanto o pai cruzava o oceano rumo à outra guerra.

 Pedro jamais voltaria a vê-los. O menino que ele deixou no CIS cresceria sem nunca mais abraçar o pai, tornaria-se Dom Pedro I e governaria o Brasil por quase meio século com uma seriedade e uma prudência que eram o oposto exato do furacão que o gerara. Foi como se o filho passasse a vida inteira tentando ser tudo aquilo que o pai nunca conseguiu ser.

 E por que ele voltava à Europa abandonando tudo por causa de outra coroa? E mais uma vez por amor, mas desta vez o amor de um pai. Em Portugal, uma grave injustiça havia sido cometida. Anos antes, quando o seu próprio pai morrera, Pedro herdara  por um breve momento o trono português, tornando-se o rei Pedro IV. Mas ele renunciou a esse trono em favor da sua filha, uma menina chamada Maria da Glória, que deveria reinar como Maria Segunda.

 Aconteceu, porém, que o irmão de Pedro, Dom Miguel, usurpou o trono,  roubando a coroa da própria sobrinha e governando como um tirano. Pedro não podia aceitar aquilo. A coroa pertencia à sua filha. E assim o ex-imperador do Brasil cruzou novamente o oceano, não mais como soberano de um vasto império, mas como um homem disposto a guerrear pelo direito da própria filha.

 Ele reuniu apoiadores, montou exércitos e lançou-se numa guerra civil sangrenta em Portugal para derrubar o irmão e restaurar Maria Segunda no trono. Foi a última grande batalha da sua vida. E aqui apareceu mais uma vez o lado admirável do seu caráter contraditório. Pedro não comandou a guerra de longe, confortável e protegido.

 Ele se trancou junto com os seus soldados dentro da cidade do porto, que foi cercada pelas forças inimigas durante meses. Passou fome com a tropa, sofreu o frio, as doenças e os bombardeios, como qualquer soldado raso. dividiu o pouco que havia, expôs-se ao perigo e recusou-se a abandonar os homens que lutavam por ele e pela sua filha.

 O imperador, que humilhara uma esposa era também o general que se deitava na lama ao lado dos seus soldados. Pedro lutou com a mesma intensidade feroz que marcara tudo o que ele já fizera. Enfrentou o cerco, as privações e o cansaço de uma guerra brutal. e venceu. Dom Miguel foi derrotado e a jovem Maria I foi finalmente reconduzida ao trono, que era seu por direito.

 O pai havia cumprido a sua missão,  havia recuperado a coroa da filha, mas a vitória lhe custou tudo o que ainda restava. Os anos de guerra, as viagens, o esforço sobre humano destruíram a sua saúde. Pedro, que sempre fora a imagem da força e da energia, definhou rapidamente, consumido pela tuberculose.

 E num último golpe de ironia do destino, o homem que cruzara o mundo, fundara um império e travara guerras, voltou para morrer exatamente onde a sua história havia começado. Dia 24 de setembro de 1834, Dom Pedro I morreu no Palácio de Queluz, em Portugal, no mesmo quarto em que havia nascido. Tinha apenas 35 anos de idade. Pense nisso. 35 anos.

 Numa única vida curta, ele havia atravessado o oceano duas vezes, fundado uma nação, sido imperador de um continente e rei de outro, lutado guerras, amado e traído, partido corações e recuperado coroas. Viveu como um furacão e como um furacão, passou depressa. Então, quem foi Dom Pedro I? Ele foi, sem dúvida, um herói, o homem que teve a coragem de proclamar a independência e dar à luz a maior nação da América do Sul.

 Por isso, o seu nome está gravado para sempre na história do Brasil. E por isso, até hoje, o seu coração literalmente repousa guardado numa igreja na cidade do Porto, enquanto o seu corpo foi trazido de volta ao Brasil, a terra que ele libertou. Mas ele foi também, e é impossível negar, o homem que fez de uma mulher boa e amorosa a personagem mais triste desta história.

 Maria Leopoldina atravessou o mundo por amor, ajudou a fundar uma nação e foi recompensada com a humilhação de ver a amante do marido instalada ao seu lado, dentro do seu próprio lar, até definhar de tristeza e morrer jovem,  longe de tudo o que um dia conhecera. Talvez seja essa a verdade mais dura sobre Dom Pedro I.

 Ele foi capaz de grandeza e de crueldade na mesma medida. Foi capaz de libertar um país inteiro e, ao mesmo tempo, de aprisionar no sofrimento a mulher que mais o amava. Foi pai dedicado ao ponto de guerrear por uma filha e marido, cujas escolhas causaram profundo sofrimento à esposa, herói de uma nação, vilão da própria casa.

 E é assim, entre a glória e a vergonha, entre a espada erguida no Ipiranga e a amante instalada ao lado da imperatriz,  que a história se lembra dele. Dom Pedro I conquistou um império, derrotou reis e mudou o destino de um continente, mas nunca conseguiu vencer a si mesmo. E talvez tenha sido essa a única batalha que realmente perdeu.

 Assim era a vida de Dom Pedro I.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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