Chiquinha Gonzaga: A pioneira que perdeu quatro filhos e escondeu o amor da vida até morrer

Chiquinha Gonzaga: A pioneira que perdeu quatro filhos e escondeu o amor da vida até morrer

Rio de Janeiro, 28 de Fevereiro de 1935. Numa casa simples, longe do brilho dos teatros que ela ajudou a encher por décadas, uma mulher de 87 anos respira pela última vez, vítima de uma pneumonia que já se arrastava há semanas. Ao lado da cama, segurando a sua mão, está o homem que ela amou em segredo durante 36 anos.

 Um segredo tão bem guardado que para o mundo lá fora ele era apenas o seu filho adotivo. Ela nasceu numa época em que uma mulher necessitava de autorização do marido, até para assinar o próprio nome num papel. Morre sendo a compositora mais prolífica que o Brasil já produziu, com centenas de obras, e a primeira mulher da história do país a dirigir uma orquestra inteira.

 Para chegar até aqui, ela teve de ser declarada moralmente morta pelo próprio pai. perder a guarda de quatro filhos ao longo da vida, ser julgada num tribunal por adultério e esconder o amor real da a sua vida atrás de uma mentira que durou mais de três décadas. Esta é a história de Chiquinha Gonzaga. 87 anos antes daquela madrugada de Fevereiro, Francisca Edvides Neves Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro no dia 17 de outubro de 1847.

Francisca nasceu de uma união que a A sociedade do segundo reinado preferia fingir que não existia. O seu pai, José Basileu Neves Gonzaga, era um militar de família ilustre, ligado por parentesco distante ao próprio Duque de Caxias, que viria a ser mais tarde padrinho de casamento na sua família.

 A sua mãe, Rosa Maria de Lima, era mestiça, filha de uma mulher que tinha nascido escravizada. Os dois só se casaram quando Francisca já tinha 3 anos de idade. Até lá, aos olhos da lei e da sociedade carioca, ela era filha ilegítima de um oficial branco com uma mulher negra e pobre. Uma combinação que a elite do império fazia questão de manter invisível.

 Quando a família paterna finalmente aceitou a menina, tratou de apagar qualquer vestígio da origem humilde da mãe. A Francisca foi criada como uma cinhazinha de bem, com a educação esmerada reservada às raparigas de família: leitura, escrita, cálculo, catecismo, prendas domésticas. Havia um piano em casa, símbolo de refinamento numa família que fazia questão de esquecer de onde realmente tinha vindo.

Ainda antes de completar 10 anos, a menina já tocava sozinha, sem professor, decifrando por conta própria o que ouvia. Aos 11 anos, apresentou a sua primeira composição, A Canção dos Pastores, cantada numa festa de Natal, com versos escritos pelo próprio irmão Juca, acompanhados por um tio flautista. Mas o talento não era propriamente o que se esperava de uma cinhazinha do império.

 O que se esperava era um casamento vantajoso, arranjado pelo pai, sem espaço para a opinião da filha. E aos 16 anos, em 1863, José Basileu escolheu o marido Jacinto Ribeiro do Amaral, proprietário de terras e gado na ilha do governador, quase 10 anos mais velho do que ela. Como presente de casamento, recebeu do próprio pai um piano, o mesmo instrumento que poucos anos depois se transformaria no principal motivo de guerra dentro daquele casamento.

Francisca teve o primeiro filho, João Gualberto, ainda com 16 anos, em julho de 1864. No ano seguinte, em novembro, nasceu Maria do Patrocínio. Jacinto esperava uma esposa inteiramente dedicada ao lar e aos filhos, nos moldes exatos do que se esperava de qualquer senhora casada do Rio de Janeiro imperial, administrar a casa, criar os filhos, aparecer bem vestida ao lado do marido em ocasiões sociais e nada mais.

 Francisca, no entanto, continuava sentada ao piano nos intervalos da maternidade, compondo valsas e poucas para desgosto crescente do marido, que via no instrumento praticamente um rival dentro do próprio casamento. Não era incomum, segundo relatos da época, que Jacinto interrompesse as sessões de piano, exigindo que a esposa se dedicasse a tarefas consideradas mais adequadas para uma senhora.

 Em 1865, o casamento entrou numa fase ainda mais dura. Jacinto tornou-se coproprietário de um navio, o São Paulo, fretado pelo governo imperial para transportar tropas durante a guerra do Paraguai. Como comandante da Marinha Mercante, ele passou a viajar constantemente em direção ao sul e decidiu levá-lo junto da esposa de temperamento rebelde, numa tentativa clara de afastá-la definitivamente do piano.

 Foi assim que Francisca, ainda muito jovem, viu de perto cenas de guerra que a marcariam para o resto da vida. Testemunhou o tratamento desumano dado aos negros recém-forreados, que serviam como voluntários da pátria. Homens que, mesmo libertos, continuavam sendo tratados exatamente como se ainda fossem escravizados. Esta experiência plantaria nela uma consciência abolicionista que, décadas depois levá-la-ia a vender partituras de porta a porta para financiar cartas de alforria.

 Em janeiro de 1870, nasceu o terceiro filho, Hilário. Mas o casamento essa altura já não tinha mais conserto possível. Os desentendimentos por causa do piano haviam se transformado, segundo relatos biográficos posteriores, em maus tratos psicológicos e físicos por parte do marido. E foi então que Francisca tomou uma decisão que praticamente nenhuma mulher da sua classe social ousava tomar naquela época. Ela foi embora.

 Levou consigo apenas o filho mais velho, João Gualberto. Jacinto não permitiu que ela ficasse com os outros dois. Maria do Patrocínio e Hilário permaneceram com o pai e Francisca perdeu o direito de vê-los crescer. A resposta do próprio pai dela foi ainda mais dura do que a do marido. Ao saber que a filha havia abandonado o casamento arranjado por ele, José Basileu declarou Francisca moralmente morta e proibiu que seu nome fosse sequer pronunciado dentro de casa.

Para um militar de linhagem ilustre, ligado por parentesco ao próprio Duque de Caxias, ter uma filha separada era uma mancha social praticamente irreparável, e a solução encontrada por ele foi simplesmente apagá-la, como se nunca tivesse existido. educada com todo o esmero para se tornar uma dama de salão respeitável, tinha aos 23 anos se tornado uma pária, sem marido, sem a maior parte dos filhos, sem família, sem um tstão de renda própria e sem absolutamente nenhuma rede de apoio a qual recorrer.

livre, mas absolutamente sozinha. Francisca precisou aprender a se sustentar sozinha, algo praticamente inédito para uma mulher da sua origem social naquele Brasil imperial, onde mulheres de família raramente trabalhavam fora de casa e muito menos sozinhas, separadas e sem o amparo de um marido ou de um pai.

 Não havia rede de apoio. A família paterna a havia riscado do mapa e a sociedade, em geral enxergava uma mulher separada como sinônimo de mulher deshonrada, quase à margem da lei moral. Ela começou a dar aulas particulares de piano e a se apresentar em bailes populares, tentando transformar em renda o mesmo talento que até pouco tempo antes havia sido tratado dentro do próprio casamento como um capricho inadequado.

Foi nesse período de reconstrução, ainda no fim da década de 1860, que ela se aproximou do engenheiro João Batista de Carvalho, 3 anos mais velho. Quando ele foi contratado para trabalhar na construção da estrada de ferro Mogiana, Francisca decidiu ir viver com ele no interior de Minas Gerais, não como esposa legal, já que tecnicamente ainda estava casada com Jacinto, mas como companheira, a revelia de tudo que a sociedade esperava dela.

 Os dois viveram em acampamentos improvisados e canteiros de obra. Uma vida dura, muito distante do conforto da casa onde ela havia nascido, mas também muito distante da vigilância que a perseguia no Rio de Janeiro. Em 1875, com a inauguração da ferrovia, o casal voltou à capital. Francisca estava grávida de uma menina que nasceria com o nome de Alice, mas a relação já vinha se desgastando havia tempo.

 E, segundo relatos biográficos, as traições do próprio João Batista se tornaram o motivo final da separação. Em 1876, os dois romperam e mais uma vez foi o pai da criança quem ficou com a guarda. Francisca perdia agora também a filha que acabara de ter. repetindo, quase palavra por palavra, o mesmo roteiro de dor que já havia vivido no primeiro casamento.

 No ano seguinte, 1877, veio o golpe final e público. Jacinto, o marido de quem ela havia se separado 7 anos antes, moveu formalmente um processo no tribunal e por abandono de lar e adultério. Francisca foi julgada e condenada à separação perpétua, tornando-se, na prática uma mulher divorciada quase um século antes de o divórcio existir como direito civil no Brasil. O escândalo era duplo.

 Não bastava ter deixado um casamento arranjado. Ela havia sido formalmente condenada por isso num processo público, numa sociedade carioca que já sussurrava seu nome como sinônimo de vergonha nos salões que antes a teriam recebido. Aos 29 anos de idade, sem nenhum dos dois maridos, sem quatro dos seus quatro filhos, rejeitada pela própria família de sangue, Francisca Gonzaga havia perdido tecnicamente tudo o que uma mulher do império deveria valorizar acima de qualquer coisa.

 Foi exatamente no fundo desse poço que ela começou aos poucos a se transformar em Chiquinha. Foi como professora de piano e musicista de salão que ela conseguiu enfim se manter. E foi justamente nesses bailes populares do Rio de Janeiro que ela se aproximou de um grupo de músicos liderado pelo flautista Joaquim Antônio Calhado, os pioneiros daquilo que ficaria conhecido como choro carioca.

Eram rodas informais, muitas vezes noturnas, em casas simples ou nos fundos de armarinhos e vendas, onde flautistas, violonistas e pianistas se revesavam em improvisos que misturavam a polca europeia com ritmos de origem africana, trazidos pelos escravizados e seus descendentes. Era um universo musical inteiramente distante dos salões requintados onde Francisca tinha sido criada.

 E era exatamente aí, entre músicos populares e mestiços como ela, que a Chiquinha finalmente encontrou o seu lugar. Pela primeira vez na vida, ninguém ali se importava com o apelido dela, com o divórcio ou com a cor da pele da sua mãe. Importava apenas se ela sabia tocar e ela sabia. Em 1877, o mesmo ano do processo judicial que o condenara publicamente, ela publicou a sua primeira polca, chamada Atraente, composta de improviso ao piano durante uma roda de choro em homenagem a outro músico. A composição fez sucesso

praticamente imediato entre os frequentadores dos salões populares. A mulher que a sociedade oficial queria apagar do mapa estava ironicamente começando a tornar-se conhecida por aquilo mesmo que lhe tinha destruído o casamento e o seu nome de família. Ao longo da década de 1880, A Chiquinha aproximou-se cada vez mais das grandes causas políticas do seu tempo.

 O movimento abolicionista e o movimento republicano. Não era um engajamento distante ou apenas simbólico, era pessoal. Neta de uma mulher que tinha nasceu escravizada, filha de uma mãe mesti que precisou de ser escondida do próprio registo de nascimento para viabilizar o seu futuro casamento, A Chiquinha carregava a causa abolicionista.

 quase como uma dívida de família. Ela vendia partituras de porta à porta pelas ruas do Rio de Janeiro para recolher dinheiro e comprar cartas de alforria de pessoas escravizadas. Entre elas, o músico conhecido por José Flauta, cuja liberdade ela ajudou a comprar diretamente com o dinheiro de as suas próprias composições.

 Quando a lei Áurea foi finalmente assinada em 1888, Chiquinha chegou a compor uma peça em homenagem à princesa Isabel e participou de uma recolha popular para a presentear com uma pena de ouro, símbolo da assinatura da lei que abolia formalmente a escravatura no Brasil. Em 1885, ela atingiu um marco que nenhuma mulher brasileira tinha alcançado antes.

Musicou a opereta A corte na Roça, encenada no Teatro Príncipe Imperial. Depois de passar pela censura do Conservatório Dramático da época. Suas duas primeiras tentativas de compor para o teatro tinham sido recusadas não por falta de qualidade musical, mas pelo simples facto de ela ser mulher num meio artístico dominado inteiramente por homens.

 Em 1889, no teatro São Pedro de Alcântara, ela deu um passo ainda mais ousado, promoveu e dirigiu pessoalmente um concerto de guitarras, instrumento considerado na época demasiado vulgar para salas de concerto respeitáveis, associado a ambientes populares e boémios. O gesto consolidaria formalmente o seu lugar na história como a primeira mulher a dirigir uma orquestra em todo o Brasil.

Mas foi exatamente 10 anos depois, em 1899, que a vida da Chiquinha iria dar uma reviravolta que nem ela própria poderia prever. Nesse ano, já consagrada como compositora e com 52 anos de idade, A Chiquinha conheceu um jovem estudante de música português chamado João Batista Fernandes Lage. Tinha 16 anos, a quem ela, segundo consta, começou por dar aulas de piano.

 A diferença de idades entre os dois era de 36 anos. Um abismo social e etário que, tornado público, teria significado o fim definitivo da tudo o que ela levara décadas a reconstruir depois de dois casamentos escandalosos e duas separações públicas, A Chiquinha já sabia, por experiência própria e dolorosa, exatamente qual era o preço de desafiar abertamente as convenções da sociedade carioca.

 Dessa vez ela optou por não pagar esse preço à luz do dia, optou por esconder. O casal tomou uma decisão que os acompanharia para o resto da vida dela, manter o relacionamento inteiramente em segredo. Para justificar a intimidade e a convivência diária entre os dois perante da sociedade, a Chiquinha adotou informalmente João Batista como filho.

Publicamente, perante vizinhos, plateias, jornalistas e até de parte da própria família, passou a ser apresentado como filho adotivo da compositora, um rapaz que ela teria acolhido por caridade ou afeto maternal, nunca como parceiro amoroso. na intimidade da casa. Porém, era o grande amor da sua vida, o companheiro com quem partilharia a cama, o trabalho e quotidiano pelos 36 anos seguintes até ao último dia.

 A mentira precisava de ser sustentada em cada detalhe, nos documentos, nas conversas de salão, nas fotografias que os dois posavam juntos ao longo de décadas, sempre com a distância protocolar de mãe e filho, nunca há de duas pessoas apaixonadas. Foi também em 1899 que a Chiquinha compôs a obra que a tornaria eternamente popular, muito para além dos círculos musicais.

 A marcha rancho O abrealas, escrita para o cordão carnavalesco rosa de ouro. É considerada a primeira marchinha de carnaval da história brasileira e ainda hoje é cantada por multidões em blocos de rua espalhados por todo o país. A esmagadora maioria das pessoas que a canta todos os anos nunca soube o nome da mulher que a escreveu, muito menos o preço que ela pagou para chegar até ali.

 Em 1902, Chiquinha e João Batista se mudaram juntos para Lisboa, em Portugal, onde viveriam por cerca de 8 anos, uma temporada inteira longe dos olhos da sociedade carioca, que ainda vigiava cada passo dela, e que jamais teria aceitado a verdadeira natureza daquela relação. Segundo relatos de biógrafos, os próprios filhos de Chiquinha, no início, resistiram ao relacionamento antes de finalmente aceitá-lo.

 Ao retornarem ao Brasil, por volta de 1910, o casal, ainda publicamente disfarçado como mãe e filho, passou a atuar juntos numa nova frente de batalha, a defesa dos direitos autorais dos próprios artistas. Ao longo de décadas de carreira, Chiquinha havia sido sistematicamente explorada financeiramente por empresários teatrais que lucravam com suas composições, sem repassar a ela a parte que lhe era devida.

 chegou a descobrir anos depois que partituras suas estavam sendo impressas e vendidas sem qualquer autorização, até mesmo na distante Berlim, do outro lado do Atlântico. Um sinal de como sua música já havia ultrapassado fronteiras, enquanto o próprio sistema brasileiro ainda não garantia a ela nenhuma proteção legal sobre o próprio trabalho.

 foi motivada por essa experiência de exploração recorrente que em 1917 Chiquinha liderou a fundação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, Abate, a primeira entidade do país, dedicada a proteger legalmente os direitos autorais de compositores e dramaturgos, transformando décadas de prejuízo pessoal em proteção legal para gerações inteiras de artistas que viriam depois dela.

Mesmo já consagrada, Chiquinha continuou colecionando escândalos ao longo da vida adulta. Em outubro de 1914, seu maxixe corta foi tocado dentro do palácio do Catete, sede da presidência da República, interpretado ao violão pela primeira dama da época, Nair de Tefé, diante de convidados oficiais do governo.

 Para uma parte da sociedade carioca, aquilo era simplesmente impensável. O maxixe, dança de origem popular e afro-brasileira, era associado havia décadas a ambientes considerados vulgares, quase proibidos em rodas respeitáveis. Vê-lo tocado dentro do próprio palácio presidencial por uma primeira dama, soou como afronta direta aos costumes da elite.

 A imprensa mais conservadora reagiu com indignação. Jornais publicaram críticas mordazes, tratando o episódio como sintoma de decadência moral da República. Mas para outra parte do país e para a própria Chiquinha, aquele foi o instante exato em que a música popular brasileira, nascida nos morros e nos bailes de subúrbio, finalmente atravessava a porta principal do poder oficial.

 Enquanto sua obra crescia sem parar, chegaria a mais de 300 partituras para o teatro ao longo da vida, além de centenas de outras composições em pouca, valsa, tango brasileiro, abanera, mazurca e modinha, seu maior sucesso teatral ainda estava por vir. Em junho de 1912, estreou no Teatro São José a burleta Forroodó, contexto de dois autores praticamente estreantes e música de Chiquinha.

 Antes da estreia, a produção enfrentava um clima geral de descrédito. Depois da estreia, tornou-se um fenômeno sem precedentes. Chegou a 1500 apresentações consecutivas, um recorde de bilheteria para o teatro de revista brasileiro daquela época, com músicas como Lua Branca, cantadas por toda a cidade. Mas o sucesso profissional não impediu que as perdas pessoais continuassem se acumulando.

 Em agosto de 1928, seu filho mais velho, João Gualberto, o único que ela havia conseguido manter por perto desde a separação de 1870, o único elo formal que lhe restava com a família que fora obrigada a deixar para trás décadas antes, morreu em São Paulo. Chiquinha, então com 81 anos de idade, enterrava o último vínculo direto que ainda tinha com aquela primeira vida que havia abandonado ainda jovem.

 Aos 85 anos, já fisicamente fragilizada pela idade, Chiquinha escreveu em 1933 sua última partitura, a opereta Maria, com libreto do escritor Viriato Correa. Foi o último gesto criativo de uma vida inteira dedicada, sem interrupção, à composição musical. Um ano depois, em 1934, sua filha Maria do patrocínio, a menina que Jacinto havia mantido sob sua guarda quando Chiquinha deixou o primeiro casamento e que ela nunca havia conseguido criar de fato, também morreu.

Restava a Chiquinha, então com 87 anos de idade, apenas João Batista, o homem que o mundo inteiro conhecia como seu filho adotivo e que na realidade era havia 35 anos. o único companheiro que ela jamais precisou esconder de si mesma, ainda que tivesse necessitado escondê-lo de absolutamente todos os outros, inclusive durante muito tempo dos próprios filhos.

No início de 1935, já com 87 anos e o corpo enfraquecido por décadas de trabalho ininterrupto e por perdas sucessivas, a Chiquinha contraiu uma pneumonia. A doença avançou rápido. Em 28 de fevereiro de 1935, faleceu no Rio de Janeiro, na mesma cidade onde nascera, onde fora declarada moralmente morta pelo próprio pai, onde fora julgada por adultério num tribunal eclesiástico e onde, apesar de tudo isto, se tornara a maior compositora popular que o Brasil já tinha produzido até então.

 Ao seu lado, no momento exato da morte, estava João Batista Fernandes Laje, o adolescente português de 16 anos que ela conhecera 36 anos antes, agora um homem de 52, o mesmo homem que passara toda a vida sendo apresentado ao mundo como filho, nunca como companheiro. Décadas de fotografias, registos e depoimentos públicos sustentavam esta versão oficial, a de uma mãe adoptiva dedicada e um filho agradecido.

 Enquanto a realidade, conhecida apenas pelos dois e por um punhado de pessoas próximas, era a de duas pessoas que tinham construído uma vida inteira juntos, correndo o risco constante de serem descobertas. O segredo que os dois tinham sustentado com tanto cuidado para proteger aquele amor da fúria moral da sociedade carioca só terminou aí com a morte dela e mesmo depois ainda demoraria muitos anos, décadas, até que os biógrafos e investigadores reunissem documentos e depoimentos suficientes para revelar publicamente a verdadeira natureza

daquela relação de mais de três décadas escondida à vista de todos. Dias depois do seu funeral, no sábado de Carnaval desse mesmo ano, aconteceu, pela primeira vez na história oficial do Rio de Janeiro, o desfile das escolas de samba. Nas ruas da cidade, milhares de vozes cantavam, ó, abrialas em couro, sem que a maioria delas soubesse que a mulher que havia composto aquela marchinha tinha acabado de ser enterrada havia poucos dias.

Chiquinha Gonzaga passou toda a vida sendo julgada por escolhas que hoje mal fariam alguém levantar uma sobrancelha, separar-se de um marido violento, viver com quem realmente amava, dedicar-se à própria arte, em vez de se entregar exclusivamente à maternidade que a sociedade exigia dela sem exceção. Ela pagou por essas escolhas com a perda de quatro filhos ao longo da vida, com o próprio nome apagado pelo pai, com dois processos e julgamentos públicos e com mais de três décadas a esconder o único amor que realmente sustentou até ao

último dia. E, no entanto, é o nome dela, não o do pai que a rejeitou, não o dos homens que tentaram calá-la ao longo da vida, que o Brasil inteiro canta ano após ano em praticamente todas as esquinas do país durante o carnaval, muitas vezes sem sequer saber de quem se trata. Foi preciso perder quase tudo, uma vez atrás da outra, ao longo de mais de 80 anos de uma vida que se recusou a seguir o guião que lhe haviam imposto ainda criança para que Chiquinha Gonzaga se tornasse definitivamente a primeira.

M.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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