LEMBRA DE FERNANDO MENDES? FEZ MUITO SUCESSO NA RÁDIO E NA TV, PERDEU QUASE TUDO E HOJE VIVE ASSIM…
LEMBRA DE FERNANDO MENDES? FEZ MUITO SUCESSO NA RÁDIO E NA TV, PERDEU QUASE TUDO E HOJE VIVE ASSIM…😭
Imagina a cena, um cantor que o Brasil inteiro já cantou junto, sobe no palco,começa a música e trava, esquece a letra. Fica parado olhando pro nada, procurando uma palavra que não vem. O povo lá embaixo se olha e o veredito veio rápido, como sempre vem.Tá bêbado. E faz sentido pensar assim: “Quantas vezes você já viu o ídolo antigo aparecer num vídeo meio perdidono palco e todo mundo já sabe o que comentar? A gente viu isso acontecer com tanta gente que virou quase automático. Só que dessa vez não
era bebida, não era nada disso. Era uma doença que ninguém tinha percebido ainda, nem a família dele, nem ele mesmo.E o mais cruel é a coincidência, porque o homem em cima daquele palco é oautor de Você não me ensinou a te esquecer. Você não me ensinoua te esquecer.
Você só me ensinou a [canto] teer. Isso mesmo que você tá ouvindo. O cara que escreveu a música sobre não conseguir esquecer estava começando a esquecer as próprias letras.O nome dele é Fernando Mendes. E se você tem mais de 40 anos, pode apostar que já cantou uma música dele sem nem saber que era dele.
Hoje a gente vai fazer uma viagem pela vida de um dos maiores cantores românticos que esse país já teve. Deonde ela [canto] veio? Para onde ela vai? Vendeu disco aos milhares, teve música proibida pela ditadura,foi humilhado pela crítica e sumiu da televisão. E eu vou te mostrar onde ele está agora,com quem ele está e como ele passa os dias.
Prepara o coração. Mas para entender o tamanho dessa queda, você precisa entender o tamanho que esse homem já teve. E isso começa numa cidade pequena de Minas Gerais. Pai pedreiro, chegar no Rio de Janeiro. Sim, é só pegar o ônibus, ir pro Rio de Janeiro. Conselheiro Pena, interior de Minas Gerais, 7 de maio de 1950.
É ali que nasce Luís Fernando Mendes Ferreira, numa família pobre, pobre daquele jeito que o Brasil dos anos 50 conheciabem. Cidade pequena, rua de terra, todo mundo se conhecendo pelo nome. O rádio ligado na cozinha era a janela pro mundo. Não tinha televisão para ver artista, tinha rádio para imaginar artista.
E é nesse tipo de casa que apareceo primeiro sinal. Aos 15 anos, ele ganhou um violão de presente de aniversário do pai. Pensa no que era um violão numa casa daquelas, naquela época. Não era brinquedo, era um investimentoque a família fazia num sonho que ninguém sabia se ia dar em alguma coisa. Deu.

Aos 17 anos, o menino junta uns amigos e monta um conjunto chamado Blue Boys, nome em inglês que era a moda da época. O Brasil inteiro tinha acabado de descobrir a Jovem Gua. E todo grupo de garoto queria ter cara de banda estrangeira.E eles tocavam onde? Em baile de cidade pequena, festa de clube, aniversário, arraial, aquele salão com lâmpada colorida, o pessoal dançando agarradinho, a mãesentada na cadeira de lado vigiando a filha.
Se você tem 50 e poucos anos, você já esteve num salão desses, só que conjunto de garoto em cidadepequena dura o que dura. Os Blue Boys acabaram rápidoe aí acontece a coisa que muda tudo. A família se muda pro Rio de Janeiro. Imagina o choque sairde Conselheiro Pena e cair na Copacabana do começo dos anos 70, a cidade mais barulhenta,mais bonita e mais impiedosa do país naquele momento.
E o mineiro tímido, de voz mansa, arruma emprego de Kruner numa boate, a boate Plaza, em Copacabana. Aqui tem um detalhe que quase ninguém conta.Kuner é o cantor que canta a música dos outros. Ele passava as noites naquela boate interpretando sucesso alheio para um salão de gente que nem sempre estava prestando atenção.
Enquanto isso, guardava as músicas que ele mesmo escrevia.Ninguém ali imaginava que aquele rapaz que estava cantando o repertório dos outros ia dali a pouco ter o repertório dele cantado pelo Brasil inteiro. Foi naquela boate que a sorte encostou nele.Ele conheceu um cara da promoção de gravadora que apresentou ele ao Miguel Plops,músico do The Fevers, uma das bandas mais tocadas daquele tempoe que também trabalhava divulgando o artista para Odeon.
O Miguel gostou e arrumou para ele o que todo cantor daquela época queria. Um teste em gravadora. Agosto de 1972, Fernando Mendes faz o teste na IMI Odeon e é contratado. Mas ser contratado não era garantia de nada. Gravadora contratava dezenas decantores por ano naquela época e a maioria sumia sem deixar rastro.
O que separava um do outro era umacoisa só a aparecer na televisão. E naquele Brasil só existia uma porta que abria o país inteiro de uma vez. o chacrinha. Sábado à tarde, a família inteira em volta do aparelho na sala, a buzina, a chuva de papel picado, o velho guerreiro gritando: “Um artista desconhecidoentrava naquele palco e saía de lá, conhecido em Manaus, em Recife, e em Porto Alegre, no mesmo dia.
Não existia isso hoje.Não existe mais nada com esse poder.” Fernando Mendes entrou e o Brasil ouviua desconhecida pela primeira vez. De onde [música][canto] ela veio? para onde ela vai. Só que o disco que ia transformar esse mineiro tímido num fenômeno de verdade ainda estava por vir.
E o tema dele era o tipo de coisa que ninguém tinha coragem de cantarem 1975. Sentada na porta em sua cadeirade rodas ficava. A desconhecida pegou. e pegou forte para um estreante. Foram por volta de 400.000 compactos vendidos. Aquele disquinho pequeno de umamúsica de cada lado que a molecada comprava com o dinheiro que sobrava e tocava até riscar. Mais uns 60.000 discos grandes.
Um número desses para um cara que mesesantes estava cantando música dos outros em boate é coisa de outro mundo. E tem uma história por trásdessa música que vale a pena você saber. contam que ela nasceu de um encontro de verdade, uma mulher que ele não conhecia,que apareceu, contou a história da vida dela para ele e sumiu.Nunca mais viu.
Se é lenda de bastidor ou se aconteceu exatamente assim, ninguém consegue provar hoje. Mas é o tipo de coisa que combina demais com aquele Brasil, com aquela música e com aquele jeito dele. Aí veio Recordações que emplacou de novo 100.000 discos em menos de tr meses. Recordações [canto][música] fazem chorar.E o que aconteceu com a vida dele foi o que acontecia com todo artista que estourava naquela época.
Ele sumiu de casa. Em 1974, Fernando Mendes fazia excursão por 10, 15 cidades por mês.Pensa nisso. Não era avião, não era estrada boa, não era hotel bonito, era rural wheies, era ônibus, era estrada de terra, era ginásio de esporte lotado,era chegar numa cidade de madrugada, cantar, dormir 3 horas e ir pra próxima, 10 a 15 cidades todo mês.
espera porque o grande veio depois. No terceirodisco, ele grava uma música chamada Cadeira de Rodas. Sentada na porta, em sua cadeirade rodas ficava. Agora, presta atenção noque isso significava naquele momento. A gente tá falando de um Brasil onde a palavra acessibilidade nãoexistia, onde não tinha rampa, não tinha vaga, não tinha ônibus adaptado, onde cadeirante era escondidodentro de casa pela própria família, porque dava vergonha, porque dava dó, porque não se falava sobre isso. E o cara pega
esse assunto e faz uma canção de amor, não de pena, de amor. Ninguém tinha coragem de fazer isso naquela época. E o Brasil comprou. E aí vem o número que assusta. Só que eu vou ser honesto com você aquiporque tem confusão nessa conta. Tem fonte que diz que cadeira de rodas passou de 1 milhão de cópias vendidas e tem fonte tão séria quanto, que fala em mais de 250.
000 discos em poucos meses. Não existe uma certificação oficial que resolva essa briga. Mas olha só, mesmo se a gente ficar com o número menor, o mais tímido dos dois, a gente tá falando de 250.000 discos vendidos em questão de meses num país ondedisco era caro e Vitrola era luxo de casa de classe média.
Era gente juntando dinheiro para comprar um disco. E juntando aos milhares veio o disco de ouro e veio o que todo artista queria naquele tempo.A novela Sorte tem quem acredita nela. Virou o tema da novela Duas Vidas da Globo. Nãoadianta um pé de coelho no bolso traseiro. E você sabe o que era isso? Novela das 8 no Brasil dos anos 70 era o país inteiro parado na frente da televisão.
No mesmo horário. A música tocava na abertura da cena e no dia seguinte estava na boca de todo mundo, no ônibus, na fila do açoug, no rádio da oficina. No mesmo período veio a menina da calçada, depois deusa do amor. Ele emplacava um atrás do outro. Vocêé a frase de amor que ninguém escreveu. E em 1978 chega o ponto mais alto de todos.
Sexto disco. Nona faixa, terceira do lado B. Quer dizer,nem estava na frente, nem era a aposta principal do disco. Chama Você não me ensinou a te esquecer. Você não me ensinou [música][canto] a te esquecer. Você só me ensinou a te querer e te querendo. Essa música ganhou o prêmio Vila Lobos de disco mais vendido do ano.
Ganhou o prêmio da ABPD e fez uma coisa que quase nenhuma canção faz. Ela sobreviveu ao próprio autor no gosto do povo, mas essa parte da história a gente conta daqui a pouco. E tem umdetalhe nesse mesmo disco de 1978, que quase ninguém sabe.Nele tem a participação de Luís Gonzaga. Isso mesmo.
O rei do baião, o homem do gibão e do sanfonão, o sujeito mais respeitado da música nordestina,entrou no disco do rapaz de conselheiro pena. Vendendo tudo isso, com prêmio na mão e com Luiz Gonzaga no disco, você imagina que ele era intocável. Só que 4 anos antes o governo militar já tinha proibido uma música dele e o motivo é de arrepiar.
No ano seguinte, ao primeiro grande estouro, Fernando Mendes gravou uma música chamada MeuPequeno Amigo, uma canção sobre uma criança e a censura da ditadura militar sentou em cima dela. E o que foi que fizeram com meu pequenoamigo? A música lembrava demais o caso Carlinhos.
E se você tem mais de 50 anos, esse nome sozinho já mexeu com alguma coisa aí dentro. Carlinhos era um menino pequeno, filho de uma família do Rio de Janeiro, sequestrado no começo dos anos 70.O Brasil inteiro acompanhou. Foi capa de jornal, foi assunto de rádio, foi conversade mesa de jantar por anos e nunca mais se soube dele. Nunca.
Até hoje é uma das feridas abertas mais antigas desse país. Só que num Brasil governado por militares, dor nacional era assunto controlado. Não se falava, não se cantava, não se lembrava em público. A música saiu de circulação e não é que a censura bateu de novo. Alguns anos depois, no mesmo disco, que deu a ele o maior prêmio da carreira, tinha uma faixa chamada Sádico Poeta, também proibida.
Eu querote comer feito antropófago, sugar teu sangue assim que nem vampiro. Os versos foram considerados chocantes demais pra época. Pensa no tamanho da contradição aqui. A gente tá falando do cantor romântico, o cara da voz mansa, do disco de amor, da música que a moça ouvia chorando no quarto. E ele teve duas músicas proibidas pela ditadura militar.
Uma delas porque falava de uma criança sequestrada.Isso mesmo que você tá ouvindo. O cantor, que chamavam de brega, incomodou o regime militar duas vezese olha que a censura nem foi a parte que mais doeu, porque tinha outra coisa acontecendo ao mesmo tempo e essa era todo dia. Enquanto o povo comprava os discos dele aos milhares, os jornais e a crítica de música tratavam ele como piada.
O nome que davam era esse, cafona, brega, música de mau gosto. E não era só com ele, era com a geração inteira. Odair José, Wald Soriano, Reginaldo Ross, Amado Batista, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Paulo Sérgio, todos vendendo horrores, todos tratados como vergonha nacional por quem escrevia nos cadernos de cultura. Você provavelmente lembra disso.
Talvez tenha sentido na pele, porque era assim. Tinha a músicaque se dizia que gostava e tinha a música que se ouvia de verdade. Tinha o disco que ficava na estante da sala para visita ver. E tinha o disco que rodava na vitrola quando não tinha ninguém. Tinha até um nome para isso. E era um nome feio.
Chamavam de música de empregada, como se gostar de canção de amor fosse defeito de instrução. Aí você pergunta: “Mas por que o povo comprava tanto?” Então, porque falava a língua dele. Simples assim. Enquanto uma parte da música brasileira estava fazendo letra para ser decifrada, esses caras estavam cantando exatamente o que o sujeito sentia e não sabia dizer pra mulher.
Amor, ciúme, saudade, arrependimento, cadeira de rodas, mulher que foi sem embora. E aí fica a pergunta para você, que eu não vou responder no lugar de ninguém. Tem quem diga que a crítica tinha razão, queera música simples demais, letra fácil, fórmula repetida. Mas tem também quem argumente que a crítica errou feio, que o povo é que sabe o que emociona e que o tempo provou isso.
Porque essas músicas continuam sendo cantadashoje e muita coisa elogiada naquela época ninguém lembra mais. Qual dos dois lados é o seu? Guarda essa resposta porque daqui a pouco ela vai voltar de um jeito que você não espera. Ele aguentouo desprezo e continuou vendendo. Só que nos anos 80 veio uma coisa que ele não tinha como enfrentar.
O Brasil inteiro mudou degosto ao mesmo tempo. Não teve um dia, não teve um escândalo, uma briga, uma capa de jornal dizendo que acabou. Foi mais cruel do que isso, porque foi devagar. Os anos 80 chegaram e o Brasil virou outro. Entrou o rock nacional, entrou a discoteca, entrou o aché, entrou a Xuxa dominando a televisão de manhã.
A programação de rádio mudou. O tipo de artista que a Globo colocava no ar mudou e aquele romantismo dos anos 70 que tinha sido dono do país, foi sendo empurrado pra beirada sem ninguém avisar. E aqui eu preciso ser direto com você, porque tem muita coisa errada circulando na internet sobre isso. Fernando Mendes não sumiu,não parou, não desistiu.
Ele continuou gravando disco atrás de disco, saiu da Modeon,foi pra RCA, depois pra RGE e seguiu lançando até meados dos anos 90. Ao todo, passou de 20 discos na carreira, continuou rodando o país o ano inteiro, subindo em palco todo fim de semana. Masmudou o andar. E é isso que quase ninguém entende quando fala em queda.
Não é o artista que para, é o lugar que muda. Quem lotava ginásio passou a cantar em festa de padroeira. Quem entrava no programa de sábado à tarde da Globo passou a fazer o circuito das cidades do interior, das festas do Nordeste, dos festivais de comida,das prefeituras, Palco de Praça, Som Médio, Público de Pé, segurando o copode cerveja, gente cantando junto de cor cada palavra.
Um artista chega a fazer as duas coisas na mesma vida. Primeiro é o dono da noite, depoisé a atração nostálgica da festa da cidade. E o engraçado é que opovo nunca deixou de cantar junto. Quem deixou de chamar foi a televisão. Foi assim por quase 20 anos, até que veio uma coisa que ninguém nem ele poderia ter previsto.
Em 2003, estreou nos cinemas Lisba, e o Prisioneiro doGuel Aris com Celton Melo e Débora Falabela. Você provavelmente viu esse filme. Se não viu no cinema, viu na Globo num domingo à tarde, porque passou milhões de vezes. E na trilha desse filme tinha uma música na voz de Caetano Veloso. Era: “Você não me ensinou a te esquecer”.
25 anos depois de ser gravada por um mineiro que a crítica chamava de brega, a música caiu na boca do Brasil de novo, só que agora cantada por um dos nomes mais respeitados da música brasileira. num filme que o país inteiro assistiu. E olha o que aconteceu. Virou um dos maiores sucessos da carreira dopróprio Caetano.
Chegou à 13ª posição nas paradas e foi indicada ao Gramy Latino de melhor canção brasileira. Agora, deixa eu te falar uma coisa que talvez você não saibae que é o tipo de informação que dá vontade de mandar para alguém agora mesmo. Aquela música do Caetano, do filme do Lisba, que todo mundo acha que é do Caetano.
Não é do Caetano, é do Fernando Mendes. Ele escreveu junto com dois parceiros, muito antes e ficou 25 anos esperando Brasil descobrir. Lembra da pergunta que eu deixei com vocêno capítulo passado? aquela sobre quem tinha razão, a crítica ou opovo. Pois é, foi preciso um dos maiores nomes da música erudita brasileira gravar a canção para que a críticafinalmente dissesse que ela era boa.
A música era exatamente a mesma. O que mudoufoi quem estava cantando. E tem um bastidor dessa história que é lindo demais para ficar de fora.Eles marcaram um encontro. A ideia era surpreender o Fernandocom a notícia da gravação. Só que quando os dois se encontraram, quem surpreendeu foi ele.
Fernando Mendes começou a cantar mãe, uma canção íntima do próprio Caetano. O mineiro tímido, o cara chamado de Cafona a vida inteira chegou sabendo de cor, a música pessoal do homem que ia homenagear ele. E o efeito prático disso na vida dele foi real. Em entrevista ao Correio Brasiliense, ele contou que depois da regravação o cachê subiu e ele pôde comprar mais um apartamento.
Vieram outras regravações em cima. Bruno e Marron, Christian e Ralf, Leonardo, Gilmelândia, cavaleiros do forró. Cada uma delas pingando o direito autoralna conta de um homem que já tinha sido dado como coisa do passado. Ele voltou à televisão, cantou Você não me ensinou a te esquecer no Som Brasil, na Globo.Gravou o DVD ao vivo na própria conselheiro Pena, na cidade onde nasceu, no meio da gente dele.
Depois disso, ele voltou a cantar por mais quase 20 anos, até o dia em que o público começou a reparar que tinha alguma coisa errada com ele em cima do palco. E o que falaram dele foi cruel. Sim. Começou pequeno, do jeito que começa. Uma letra que fugiu no meio do refrão, um verso trocado, uma pausacomprida demais entre uma estrofe e outra.
Numa noite, num show, isso não é nada. Qualquer cantor com50 anos de estrada já esqueceu letra em cima do palco e riu junto com o público, só que foi ficando mais frequente. E aí a gente precisa falar do que acontece hoje que não acontecia antes.Naquele tempo, um tropeço no palco terminava ali dentro do ginásio. Hoje tem celular em cada mão da plateia.
Basta um sujeito gravar 30 segundos e aquilocorre o Brasil em uma tarde com legenda, com piada, com risada. E o veredito veio rápido. Não precisou de investigação, não precisou de conversa, não precisou de ninguém perguntar nada pra família. Diziam que ele estava bêbado, que o cantor românticodos anos 70 tinha se entregado à bebida, que era um homem acabado e aquilo colou.
Colou no público,colou na internet, chegou até a imprensa. Agora eu vou te pedir uma coisa, prepara o coração, porque essa parte dói. Não era bebida, nunca foi. Era Alzheimer, o homemestava esquecendo e não sabia. E a família também não sabia ainda. E é isso que transforma essa históriaem algo muito maior do que uma fofoca de show.
Quem contou tudo isso foi a esposa dele, Elisperatoni. E as palavras dela são estas: diziam que ele estava bêbado ou alcoolizado no palco. Até a gente descobrir, foi um sofrimento grande. Fica um minuto com o tamanho dessa frase. Até a gente descobrir.Quer dizer que teve um período, meses, talvez mais, em que essa família assistiu o homem que eles amam ser chamado de bêbado publicamente,sem ter uma explicação, nem para dar aos outros, nem para dar a si mesma.
Eles não estavam defendendo o Fernando de uma mentira. Eles estavam vivendo no escuro junto com ele, vendo alguma coisa acontecer e sem saber o nome daquilo. E aqui eu não vou julgar ninguém porque não dá. Tem quem diga quequem riu foi cruel, que faltou respeito com um homem de mais de 70 anos que deu meio século de música para esse país.
E tem também quem argumente que eraimpossível saber que ninguém na plateia tinha como adivinhar um diagnóstico e que a gente julga por aquilo que vê. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo. E talvez seja exatamente por isso que essa história incomoda tanto. O que ficoué o estrago. Porque desconfiança em cima de artista antigo não se desfaz.
Ela vira comentário, vira convite que não chega, vira contratante que pensa duasvezes. Por volta de 2022, ele parou, saiu dos palcos de vez.E o Brasil só entendeu o motivo três anos depois, quando Elis publicou um vídeo nas redes sociais contando o queestava acontecendo. Foi aí que caiu a ficha do país inteiro.
Todo mundo que tinha rido, todo mundo que tinha compartilhado o vídeo com piada,descobriu de uma vez o que estava vendo de verdade. E agora, presta atenção na coincidênciamais cruel dessa história toda. O homem que escreveu: “Você não me ensinou a te esquecer”. A música sobre não conseguir esquecer alguém de jeito nenhum.
A música que ficou 25 anos guardada e voltou pelavoz do Caetano. A música que deu a ele o maior prêmio da carreira. Esse homem estava perdendo a memória. Ele já não lembra as letras das próprias canções.O cara que ensinou o Brasil a chorar cantando, que não sabia esquecer. Aprendeu a esquecer do pior jeito possível.
E aí fica a pergunta que talvez você já esteja se fazendodesde o começo desse vídeo. Depois de tudo isso, como é que o Fernando Mendes vive hoje? Primeiro, a resposta que interessa mais. Ele está vivo. E eu preciso dizer isso com todas as letras, porque tem muita mentira rodando por aí. De vez em quando aparece post dizendo que Fernando Mendes morreu. Não morreu.
Está vivo com 70 e poucos anos e está com a família. Agora, onde ele está? Conselheiro Pena, Minas Gerais, a mesma cidade pequena onde ele nasceu, onde ganhou o violão do pai, onde montou o conjunto com os amigos e tocou nos bailes de clube, antes de qualquer pessoa no Brasil saber quem ele era.
O menino saiu de lá para conquistar o país, rodou o Brasil inteiro, cantou pra multidão, apareceu na televisão, vendeu disco aos milhares, foi censurado, foi humilhado pela crítica, foi ressuscitado por Caetano Veloso. 50 anos de estrada e no fim de tudo ele voltou para exatamente o mesmo lugar de onde saiu. A vida faz isso. Fecha o círculo quando a gente não tá esperando.
Vive recluso, longe de palco, longe de imprensa, longe de rede social, em tratamento, cercado pela mulher e pelo filho. E sobre como ele passa os dias, eu vou ser honesto com você, porque é assim que a gente trabalha só. Aqui não existe reportagem séria mostrando a casa dele, o quarto dele, o dia a dia dele.
A família não abriu isso para ninguém e é direito deles. Quem quiser te vender,detalhe de dentro daquela casa tá inventando. O que existe é a palavrada esposa. Elis disse assim: “Ifizmente Fernando está fora dos palcos há mais de 3 anos. Desde quefoi diagnosticado com Alzheimer, ele está em tratamento e muito bem, graças a Deus, porémnão há previsão de shows.
E ela pediu uma coisa aos fãs, que parassem de pedir vídeo, que parassem de pedir áudio, porque hoje cada gravação dessas custa alguma coisa dele.E aqui eu também preciso derrubar dois boatos, porque os dois circulam e os dois são falsos. O primeiro diz que ele ficou milionário e vive numa fazenda enorme. Não tem prova nenhuma disso.
O segundo diz que ele perdeu tudo, que morreu na miséria, que está passando necessidade. Também não tem prova nenhuma disso. O que se sabe de concreto é o que ele mesmo contou em entrevista. tinha apartamento, comprou mais um quando o cachê melhorou depois do Caetano. E é razoável imaginar que a obra dele continue rendendo direito autoral, porque música regravada por Caetano Veloso, Leonardo, Bruno e Marron e Cristian e Ralf não para de tocar nesse país.
Mas número certo, ninguém tem e eu não vou inventar para você. A verdade honesta é essa. Ele vive de forma reservada com a família na cidade dele, tratando de uma doença. Mas tem uma cena gravada em maio de 2026 que resume tudo isso melhor do que qualquer coisa que eu possa te dizer. Um músico chamado Tom Brito publicou um vídeo caseiro.
Nada de produção, nada de palco, nada de holofote. Uma sala comum. Fernando Mendessentado numa cadeira com uns músicos ao lado dele segurando o violão e eles começam a tocar a desconhecida, aquela mesma música do começo de tudo,a primeira, a que o Chakrinha apresentou ao Brasil quando ele era um rapaz magro recém-saído, de uma boate de Copacabana.
E o homem que já não lembra as letras das próprias canções começou a cantar não perfeito, não como antigamente, mas cantou. O vídeo passou de 20.000 comentários. 20. mil pessoas escrevendo para um homem que talveznunca leia nenhuma delas. E é aí que tá a coisa mais bonita dessa históriatoda.
O Alzheimer levou muita coisa, levou nome, levou data, levou rosto, levou letra, mas a música ficou. Ela estava guardada num lugar mais fundo, num lugar que a doença ainda não alcançou. Porque uma canção que o sujeito escreveu e cantou por 50 anos não mora só na memória. Mora nocorpo, mora na garganta, mora naquilo que a gente é, quando não sobra mais quase nada.
Só que tem uma última pergunta nessa história e é a pergunta que eu queria deixar com você. Se ele não lembra mais das músicas, quem é que lembra? E a resposta é simples e é bonita.A gente. Você lembra? A sua mãe lembra? O motorista de táxi que colocou o disco no rádio, lembra? O casal que dançou cadeira de rodas agarradinho num salão de clube em 1970 e alguma coisa lembra.
O sujeito que ouviu Você não me ensinou a te esquecer no cinema na voz do Caetano, sem fazer ideia de quem tinha escrito aquilo. Hoje ele já sabe e agora ele lembra também. É esse o negócio. A gente passa a vida achando que memória é uma coisa que fica guardada dentro da nossa cabeça e que quando a cabeça falha acabou.
Mas não é bem assim. O que a gente faz de bom pros outros fica guardado na cabeça dos outros. fica solto por aí,na boca das pessoas, em festa de aniversário, em rádio de oficina, em pen drive de caminhoneiro. Fernando Mendes esqueceu as canções dele,mas o Brasil não esqueceu e é o Brasil que segue cantando por ele.
No fim das contas,talvez seja isso que a gente deixa. Não é o dinheiro, não é a casa, não é o número do disco vendido, é a lembrança que fica na vida das pessoas que a gente nem chegou a conhecer. E olha só a ironia final. O homem que passou a carreira inteira sendo chamado de brega, de cafona, de música de mau gosto, hoje é ele que tá na memória afetiva do país.
Enquanto muita coisa elogiada naquela época, ninguém canta mais. O povo estava certo, sempre esteve. Agora eu quero saber de você. Qual dessas músicas é a sua? A desconhecida cadeira de rodas ou você não me ensinou a te esquecer? Escreve aí nos comentários e conta também de onde vem essa lembrança, se foi de casa, se foi do rádio, se foi de alguém que já se foi. Eu leio todos.
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