MANÉ GARRINCHA: A SOMBRIA VERDADE OCULTA POR 43 ANOS

MANÉ GARRINCHA: A SOMBRIA VERDADE OCULTA POR 43 ANOS 

Duas Copas do Mundo. Melhor jogador do planeta em 1962. E esse mesmo homem, 21 anos depois, morreu num hospital público com o fígado destruído e 13 centavos no bolso. Como é que um homem perde toda a fortuna em 10 anos? Garrincha não perdeu. Roubaram dele alguém de dentro da própria família, alguém que ele nunca denunciou.

 E o nome dessa pessoa nunca apareceu em jornal nenhum. até hoje. Mas antes de chegar naquela cama de hospital, tem uma coisa que você precisa entender, porque o que aconteceu na madrugada de 20 de janeiro de 1983 não começou ali. Começou 50 anos antes. Pau Grande, 28 de outubro de 1933. A parteira pegou o menino, olhou um tempão e ficou quieta. Chamou o médico.

O médico examinou o recém-nascido. A perna direita 6 cm mais curta, a coluna torta, os pés virados para dentro. Anotou na ficha três palavras: deformidade congênita múltipla. Falou para a mãe que o menino ia precisar de várias cirurgias. A mãe perguntou quanto custavam. O médico falou o preço. A mulher ficou quieta.

 Ganhava 30 cruzeiros por mês, lavando roupa para fora. Cada cirurgia custava 200. Voltou para casa andando 2 horas, porque não tinha dinheiro nem para a passagem do ônibus. E quando chegou, entregou o recém-nascido para a irmã mais velha. A irmã pegou o menino, olhou e riu. Falou que o bebê parecia um passarinho feio do mato.

 Ali na região, esse passarinho o povo chamava de garrincha. O que aquela menina não podia imaginar é que o apelido ia sobreviver ao próprio menino e que 50 anos depois ia estar gravado numa lápide sem flores, num cemitério onde ninguém ia fazer o esforço de ir. O pai do Garrincha, o Amaro, já tinha 20 anos de fábrica quando o menino nasceu.

Bebia cachaça desde o café da manhã. A bebida não deixava ele violento, deixava ele em silêncio. Chegava em casa, sentava na frente da parede e ficava ali olhando até pegar no sono. 12 horas de fábrica, seis dias por semana. Era essa a vida. Aos 15 anos, o pai dele deu uma coisa que ia marcar a vida inteira.

 Não foi um conselho, não foi um abraço, foi uma garrafa de cachaça. E guarda essa imagem, porque foi naquela noite que começou de verdade a morte que chegou 34 anos depois. Era dezembro de 1948. Garrincha tinha entrado para trabalhar na fábrica. Primeiro dia voltou para casa morto de cansaço, com as mãos cheias de corte das máquinas.

 O pai já estava esperando ele com uma garrafa em cima da mesa. Serviu um copo. Falou duas frases. A primeira foi: “Agora você é homem”. A segunda foi: “Bebe”. O menino bebeu, queimou a garganta, deu vontade de vomitar, mas o pai, pela primeira vez em anos, deu uma risada, passou o braço por cima do ombro do filho e falou que ele era a cara dele.

 Naquela noite, o menino aprendeu errado uma palavra. Aprendeu que ser homem era beber, que a cachaça era o laço entre um pai e um filho. 34 anos depois, numa enfermaria de hospital público, Garrincha ia morrer, ainda tentando aprender direito o que aquela palavra significava. Imagina seu próprio pai te ensinando isso aos 15 anos. Garrincha carregou pelo resto da vida e o que veio depois foi pior.

 1953, um olheiro do Botafogo subiu à serra para ver outro jogador. Esqueceu na hora do jogador que tinha ido buscar. O interesse dele virou outro. O moleque das pernas tortas que estava humilhando três zagueiros sozinho. Levou Garrincha para o estádio do Botafogo no dia seguinte. O moleque tinha 19 anos, nunca tinha saído do interior, não conhecia o rio, não sabia mexer em telefone, chegou de calça remendada e sapato emprestado.

 Os técnicos botaram ele para fazer um teste contra o Newton Santos, lateral titular do time que jogava na seleção brasileira. Um dos melhores zagueiros do mundo, passaram a bola para o Garrincha. Ele baixou o ombro, avançou e em 5 segundos o Newton Santos estava sentado no gramado, sem entender o que tinha acontecido. Nilton Santos levantou do chão, foi até o técnico e falou: “Contrata esse moleque agora.

 E aqui aparece o primeiro detalhe que ninguém costuma contar. Garrincha assinou aquele contrato com a digital, não com a assinatura, porque aos 19 anos o moleque que ia ser o melhor jogador do mundo não sabia escrever direito o próprio nome. Aquela digital, aquela marquinha de polegar, foi o começo de tudo, porque alguém soube tirar proveito.

 Carrincha estreou no Botafogo duas semanas depois, fez três gols na primeira partida. Driblou cinco zagueiros numa jogada só, que até hoje o povo lembra. Os jornalistas escreveram que tinha chegado um fenômeno, que as pernas tortas não eram defeito, eram bênção, que Deus tinha entortado as pernas dele de propósito para ninguém conseguir marcar. Mas é mentira.

 As pernas do Garrincha eram resultado de uma poliomielite maltratada na infância. Uma doença que qualquer criança de família com dinheiro resolvia com três cirurgias bobas. Garrincha não fez nenhuma porque a família ganhava menos num mês do que custava uma consulta. O Brasil preferiu contar a versão bonita da história. Doía.

Mas enquanto Garrincha começava a lotar estádio, alguma coisa já estava acontecendo e ninguém ia contar nada disso durante 40 anos. Uma coisa que ele mesmo escondeu até o dia da morte e que só apareceu numa fita cassete encontrada 10 anos depois dele ser enterrado. Existe uma gravação, 47 minutos, foi feita sem querer por um jornalista esportivo em 1981, 2 anos antes da morte do Garrincha.

[música] Os dois estavam bebendo. O jornalista tinha comprado um gravador novo e esqueceu de desligar. Naquela gravação, Garrincha confessa quatro coisas. Nós vamos chegar nas quatro, mas ainda não. A primeira esposa do Garrincha se chamava Nair. Casaram em 1952. Tiveram a primeira filha aos 9 meses de casamento, a segunda no ano seguinte, a terceira 18 meses depois.

 Quando Garrincha completou 30 anos, já tinha oito filhas com Anair. E aqui é onde a história oficial começa já se desfazer. Porque enquanto Garrincha e Nair faziam filha no rio, lá em Pau Grande estava crescendo um menino que também era filho dele. Um menino que ele tinha feito aos 18 anos antes de casar com uma vizinha mais velha, casada com outro homem.

 Esse menino viveu os primeiros 30 anos da vida, acreditando que o pai dele era o marido da mãe. Até que, em 1979, uma vizinha do interior resolveu falar a verdade. O rapaz foi atrás do Garrincha. Garrincha já tinha 45 anos, alcoolizado, quase acabado. Recebeu o filho, olhou para ele e falou sete palavras que o rapaz nunca conseguiu esquecer.

 Meu filho, você chegou 40 anos atrasado. 40 anos atrasado. Essa frase ele repetiu para todo mundo durante o resto da vida. Para os 14 filhos reconhecidos, para as cinco mulheres com quem morou. Você chegou tarde e é aqui que tudo começa a virar. 1958, Copa do Mundo na Suésia. O Brasil nunca tinha ganhado uma. Três finais perdidas.

A pressão em cima daquele time ali era brutal. Se voltassem sem o título, melhor não voltarem. Era o que os jornais escreviam e escreviam a sério. Garrincha estava na lista, mas os técnicos não queriam botar ele para jogar. Tinham feito um teste psicológico no moleque. Um psicólogo da comissão técnica perguntou para ele o que ele faria se perdesse numa cidade estrangeira.

 Garrincha respondeu: “Nunca me perdi.” Pediram para ele desenhar uma figura humana. Ele desenhou um pauzinho com duas riscas. O psicólogo escreveu no relatório: “Este jogador tem a capacidade mental de uma criança de 12 anos. Não deveria disputar a Copa e sabe quem decidiu que ele jogasse mesmo assim? Não foi o técnico, foi o próprio Newton Santos.

entrou na sala do treinador e falou uma frase que mudou a história do futebol mundial. Se Garrincha não joga, eu também não jogo. O técnico cedeu na hora. Garrinch entrou no terceiro jogo contra a União Soviética, 24 anos, primeira partida numa Copa do Mundo. E os russos, considerados impossíveis de marcar, nunca entenderam o que tinha passado por cima deles.

 O Brasil ganhou aquela Copa. O time voltou para o Rio. 40 milhões de brasileiros nas ruas. Uma carreata que demorou 5 horas para chegar no palácio presidencial. Garrincha num conversível acenando sem entender o que estava acontecendo. Mas a Nair, esposa dele, também estava esperando no aeroporto com a primeira filha de 2 anos no colo.

 Chegou de vestido novo, penteada. Ele não viu ela. Tinha gente demais. Botaram garrincha no conversível e levaram ele embora. A Nair ficou parada na pista por duas horas com a menina chorando no colo, até que um policial pediu para ela ir embora porque estava atrapalhando. Naquela mesma noite, Garrincha dormiu num hotel de Copacabana com uma dançarina que tinha conhecido no jantar oficial.

 Mas entre 1958 e 1962, enquanto Garrincha era considerado intocável, alguém já mexia no dinheiro dele pelas costas, alguém que ele mesmo tinha botado dentro da vida sem desconfiar de nada. E nós vamos chegar nesse nome em menos de 5 minutos. 1962, Copa do Mundo no Chile. Pelé se machucou no segundo jogo.

 O Brasil parecia condenado. Garrincha botou o time inteiro nas costas tortas e carregou aquilo até o título. Dois gols contra a Japã Inglaterra, dois gols contra o Chile dentro do próprio estádio chileno. Brasil bicampeão. E Garrincha, oficialmente eleito o melhor jogador do planeta.

 voltou para o Brasil com 60 milhões de pessoas esperando. O presidente condecorou ele no palácio. Apareceram contratos milionários, empresa brigando pela imagem dele. Uma marca de cigarro ofereceu uma fortuna. Garrincha assinou tudo sem ler, com a digital ainda, porque continuava sem saber escrever direito o próprio nome.

 Em 1963, Garrincha ganhava mais que o presidente do Brasil. Em 1973, não tinha dinheiro para pagar o hospital onde a mãe dele estava morrendo de pneumonia, 10 anos. Foi o que bastou. E a pergunta que sobra é a única que importa. Para onde foi todo esse dinheiro? Eu prometi no começo que você ia saber o nome do homem que destruiu o Garrincha, aquele que assinou o documento pelas costas dele durante 12 anos, que vendeu o nome dele.

 Chegou a hora. O nome era Roberto. Roberto era o irmão mais velho do Garrincha. O irmão que tinha ficado em pau grande enquanto Garrincha virava famoso. O irmão que falava com o caçula com carinho e que quando Garrincha chegou no Botafogo em 1953, se ofereceu para ajudar com os papéis, porque ele, o Roberto, tinha terminado o primário.

 Garrincha aceitou, deu para ele uma autorização para assinar contrato no nome dele, deu acesso à conta no banco e o Roberto, durante 12 anos, fez o que nenhum irmão direito teria feito. Cobrou comissão de 20% em cima de cada contrato, às vezes 30, às vezes 50. Vendeu a imagem do Garrincha para a marca que pagou fortuna enquanto Garrincha recebia migalha.

 comprou duas casas em pau grande no próprio nome. Comprou carro, comprou terra, tudo com dinheiro que não era dele. Garrincha assinava o que o irmão botava na frente porque confiava. Em algum momento, alguém começou a falsificar também a assinatura por extenso. Essas assinaturas falsificadas eram do próprio Roberto. Em 1973, quando Garrincha já estava aposentado, sem dinheiro, morando num apartamento alugado, o irmão Roberto sumiu.

 Foi morar lá pelo sul do país com uma família nova, sem avisar, sem deixar endereço, sem devolver nada. O Roberto tinha levado até o último centavo e Garrincha, o homem que tinha sido eleito o melhor do planeta 11 anos antes, terminou pedindo 200 cruzeiros emprestados para um companheiro velho do Botafogo para pagar o aluguel daquele mês.

 A família nunca falou abertamente sobre isso. A Nair sabia, as filhas sabiam, mas nenhum jornalista brasileiro contou essa história até que um livro acadêmico mencionou em 2012, quase 30 anos depois da morte do Garrincha. E aquele livro vendeu 1000 exemplares. 1000? Porque para o Brasil continuava sendo mais conveniente a versão oficial, a da cachaça, a do Garrincha, que se autodestruiu.

 Mas a traição do irmão foi só e da primeira camada, porque enquanto o Roberto tirava o dinheiro, alguém mais estava tirando uma coisa ainda mais valiosa. E é aqui que tudo muda. Existe um papel dobrado em quatro. A enfermeira encontrou debaixo do travesseiro do Garrincha, 3 horas depois da morte dele, na madrugada de 20 de janeiro de 1983.

Ela abriu o papel, leu e chorou por 10 minutos seguidos. Quando ligou para o chefe do hospital, ele mandou ela guardar, mandou ela não mostrar para ninguém, mandou ela não entregar nem para a família. Aquele papel existe. Está hoje numa caixa no Rio de Janeiro com o filho da enfermeira. O que aquele papel diz muda toda esta história oficial e você vai saber agora.

 Mas antes de chegar no papel, é preciso entender o que aconteceu depois da Copa de 1962, porque ali alguma coisa já estava acontecendo na vida dele, que ia destruir tudo em menos de 6 anos. 1962. Garrincha conheceu a Elsa Soares num evento beneficente no Maracanã. Elsa era a cantora mais famosa do Brasil. Tinha 30 anos, já tinha sido viúva, já tinha enterrado um filho.

 Era uma mulher marcada pela tragédia. se apaixonou pelo Garrincha em 15 minutos e Garrincha se apaixonou por ela na mesma noite. O problema é que Garrincha era casado, já tinha oito filhas com Anair. A relação clandestina durou 3 anos. Em 1965 virou pública. Em 1966, Garrincha pediu o divórcio para Conair. A igreja condenou, os jornalistas detonaram, o povo xingava ele na rua, mas Garrincha não voltou atrás.

 O Brasil escolheu a Elsa como culpada. A Elsa destruiu o Garrincha. A Elsa arrastou ele para a cachaça. Mentira. A Elsa foi a única pessoa durante 15 anos que tentou salvar aquele homem. Garrincha não bebia por causa da Elsa. Já bebia antes. Bebia desde os 15 anos. Bebia depois de cada partida, bebia nos hotéis de concentração.

Bebia no avião da seleção. O que mudou em 1966 foi só uma coisa. Ninguém mais estava escondendo. Anair tinha te escondido durante oito anos. Levantava o corpo dele do chão, esquentava a sopa, mentia para os jornalistas. Quando a Nair ficou sozinha, as mentiras acabaram e a Elsa, em vez de continuar escondendo, fez o contrário.

 Internou ele três vezes em 1967, quatro vezes em 1968, uma vez por mês em 1969. Madrugada de 17 de abril de 1969. Estrada Rio Petrópolis estava chovendo. O Mercedes do Garrincha a 200 km/h, bêbado. E ele não estava com a Elsa, estava com outra mulher, uma dançarina de boate de 22 anos. E atrás, dormindo no banco de trás, ia a mãe do Garrincha, Maria Carolina, a mulher que tinha carregado ele no colo quando os médicos disseram que ele nunca ia andar.

 O Mercedes bateu num caminhão de carga, capotou três vezes, encravou num árvore. Garrincha foi cuspido pelo para-brisa e caiu numa vala a 15 m. Quebrou três costelas. A dançarina foi arremessada pela porta do carona. resgataram ela com vida, mas a mãe do Garrincha, que ia dormindo no banco de trás sem cinto, morreu na hora. 71 anos.

 Morreu com a cabeça apoiada no encosto do banco, enquanto o filho bêbado corria com uma mulher que não era a esposa dele numa estrada molhada que ele conhecia de cor. Imagina carregar isso por dentro. Imagina carregar a morte da própria mãe, sabendo que foi por sua culpa até o último dia da sua vida. Garrincha carregou por 14 anos e a cachaça depois daquela madrugada deixou de ser vício.

 Virou um jeito de não lembrar. O que nunca foi publicado é que a dançarina não era uma desconhecida. Era prima de segundo grau do Garrincha, sangue da mesma família, e estava grávida três meses do Garrincha. Quando os policiais chegaram, ela, semiconsciente, pediu para o oficial não ligar para a família dela. Falou: “Pelo amor de Deus, meu pai me mata.

 Ela perdeu o bebê no hospital naquela mesma madrugada, mas tem uma coisa ainda mais sombria daquela madrugada. A polícia revistou de Mercedes e no porta-luvas achou um envelope com dinheiro, 50.000 cruzeiros. Uma fortuna em 1969. O envelope tinha um bilhete. O nome no bilhete não era do Garrincha.

 O nome era do irmão dele, do Roberto. Garrincha estava levando o envelope para entregar para o irmão em pau grande, sem que a Elsa soubesse. Quando a polícia chegou, o envelope sumiu. Foi roubado por um dos oficiais antes da imprensa chegar. E Garrincha não teve coragem de denunciar, porque denunciar significava admitir que o próprio irmão estava roubando dele há anos.

 Naquela noite, na sala de espera do hospital, enquanto dois médicos confirmavam que a mãe dele tinha morrido, Garrincha ligou para Elsa, falou quatro palavras e a Elsa, 30 anos depois repetiu essas palavras numa entrevista. As quatro palavras foram: “Já não sou ninguém”. E daquela noite em diante, Garrincha deixou de ser. A carreira acabou em menos de se meses.

 O Botafogo dispensou ele. A marca de cigarro cancelou o contrato. As empresas que tinham caçado ele em 1962 fingiam que não conheciam. Garrincha passou por times cada vez menores. Corinthians, Flamengo, Olaria. No Olaria dispensaram ele porque chegou bêbado num jogo oficial. Tinha 39 anos, era 1972. Sabe quantas pessoas estiveram na partida de despedida do Garrincha? Zero.

Não teve partida de despedida, não teve homenagem, não teve faixa nas arquibancadas. Um dia, simplesmente ele não apareceu mais nos treinos e ninguém ligou para perguntar. A gravação dos 47 minutos foi feita numa dessas noites, 1981. Garrincha tinha 47 anos, mas parecia ter 70.

 Estava na casa de um jornalista esportivo chamado Wilson Souza. Os dois bebiam fazia 3 horas. Wilson tinha comprado um gravador novo, deixou ligado em cima da mesa. Garrincha não percebeu e começou a falar de coisas que não tinha contado para ninguém em 20 anos. Garrincha conta o que aconteceu na noite em que o pai morreu.

  1. Amaro estava na cama agonizando com cirose, pediu para o filho uma última cachaça. Garrincha falou que não. Falou para o pai que ele ia morrer de qualquer jeito, mas que ele, o filho, não ia ser quem desse o último copo. Saiu do quarto, fechou a porta e foi para o boteco de pau grande tomar ele mesmo várias cachaças.

 Quando voltou, duas horas depois, o pai já tinha morrido. Na gravação, Garrincha chora, chora com a voz quebrada e solta uma frase que o gravador pegou quase inteira. Ele fala assim: “Eu deixei o velho morrer com a sede que ele mesmo tinha me ensinado a ter. E daquela noite em diante, eu não consegui mais ficar um dia sem beber.

 Cada cachaça eu tomo por ele, pela cachaça que eu neguei. Existe um caderno de couro preto. Foi achado na gaveta da mesinha de cabeceira do quarto, onde Garrincha passou os últimos seis meses numa pensão modesta do bairro de Bom Sucesso. O caderno tem 42 páginas escritas com a letra grande de um homem que mal aprendeu a escrever.

Na primeira página, o título: Ass pessoas a quem eu tenho que pedir perdão. Nas páginas seguintes, 14 nomes. 12 dos 14 já estavam mortos quando Garrincha escreveu: “O primeiro nome é Amaro dos Santos, o pai. Do lado do nome, uma linha só. Eu te deixei morrer sozinho. Eu vou morrer sozinho igual a você.

 O segundo nome é Maria Carolina, a mãe. Do lado, eu te levei para a morte sem que você soubesse. O terceiro nome, surpreendentemente, não é a Nair, não é a Elsa. O terceiro nome é Roberto, o irmão. E do lado do nome, Garrincha escreveu três palavras que viram do avesso tudo isso que a gente sabia. As três palavras são: “Eu te perdoo igual.

Eu te perdoo igual”. Três palavras. o irmão que tinha roubado tudo, o que tinha sumido em 1973, o que tinha levado embora até o último centavo. E Garrincha, no leito de morte, pedia perdão para ele e não o contrário. Por quê? Porque tem uma coisa que a família escondeu durante 40 anos. Roberto, o irmão, não tinha roubado o dinheiro por avareza pessoal.

 Tinha roubado para sustentar uma outra família. Uma família que Garrincha não conhecia. Roberto tinha dois filhos não reconhecidos em Pau Grande, filhos de uma mulher do interior que Roberto tinha abandonado por pressão do próprio pai, do Amaro, em 1949. E durante 20 anos, Roberto vinha mandando dinheiro escondido para essa mulher.

 Dinheiro que ele tirava da conta do Garrincha, não para ele, para aquelas duas crianças. Quando Garrincha descobriu em 1972, foi porque um dos meninos, já um rapaz de 22 anos, foi atrás dele para pedir desculpa. Falou que o dinheiro vinha dele, que a mãe tinha contado tudo. Garrincha, naquela tarde, sentado numa mesa com o sobrinho que estava vendo pela primeira vez na vida, falou duas frases.

 A primeira foi: “Você não me deve nada”. A segunda foi: “Quem errou foi o seu pai e não por ter roubado, por não ter me contado”. E daquele dia em diante, Garrinch não foi mais atrás do Roberto. Deixou ele viver, não denunciou, não pediu para devolver nada. É isso que a família escondeu durante 40 anos. Não foi para proteger Garrincha, foi para proteger Roberto, que ainda está vivo, que tem hoje 94 anos e em toda a vida dele nunca deu uma entrevista, 94 anos e continua calado.

 A única pessoa viva que sabe o que aconteceu de verdade com o dinheiro, com os contratos, com as assinaturas falsificadas, ainda mora numa casa de pau grande e ninguém teve coragem até hoje de bater na porta dele. Mas isso ainda não é a parte mais escura. A parte mais escura vem agora. Na noite de 18 de janeiro de 1983, dois dias antes de morrer, Garrincha pediu para dona Rita, a dona da pensão, uma folha de papel.

 Uma só, dona Rita levou. Garrincha fechou a porta do quarto. Dona Rita passou pelo corredor duas vezes durante a noite e ouviu ele escrevendo devagar, uma palavra por minuto, como um homem que não estava acostumado a descrever. Na noite de 19, Garrincha caiu no chão do quarto. Dona Rita chamou ambulância. Quando os paramédicos botaram ele na maca, Garrincha agarrou a mão de dona Rita e falou seis palavras.

 Fala para Elsa que eu perdoo. Desceram ele pela escada, botaram ele na ambulância e enquanto levavam o homem embora, dona Rita lembrou da folha, subiu correndo, achou debaixo do travesseiro, botou no bolso do avental. Quando Garrincha morreu, às 4:20 da madrugada de 20 de janeiro, no hospital estadual de Bom Sucesso, a enfermeira Cristina ligou para a pensão, pediu paraa dona Rita levar para o hospital qualquer objeto pessoal que o homem tivesse.

 Dona Rita pegou a mochila velha, pegou o caderno e pegou a folha dobrada em quatro. Quando dona Rita entregou no balcão, a enfermeira Cristina abriu a folha na frente dela, leu e começou a chorar. Dona Rita perguntou o que estava escrito. Cristina não respondeu, dobrou a folha de novo, guardou no bolso do uniforme e subiu correndo para falar com o chefe do hospital. O chefe do hospital, Dr.

Pereira, leu a folha na sala dele. Releu, chamou a enfermeira. falou para ela que a folha ia ficar no hospital, que ela não entregasse para família. Cristina perguntou por quê. O Dr. Pereira respondeu duas frases. A primeira foi: “O que esta folha diz? Se vier a público, vai destruir mais coisa do que já está destruída.

 A segunda foi, aquele homem já sofreu o suficiente. Vamos deixar ele em paz.” Cristina obedeceu, mas naquela mesma noite, antes de ir embora do hospital, fez uma cópia manuscrita, palavra por palavra, e levou para casa. guardou numa caixa de sapato. 27 anos depois, em 2009, quando Cristina estava morrendo de câncer, pediu para o filho único abrir a caixa.

 Dentro estava a cópia e uma folha com instruções. As instruções diziam: “Não publica enquanto o Roberto estiver vivo”. E quando publicar, faz pelo Garrincha, por mais ninguém. A Folha tinha três parágrafos. O primeiro era para Elsa. Garrincha pedia perdão por ter parado de procurar ela.

 Falava que sabia que ela tinha pago durante 8 anos a pensão do filho não reconhecido de pau grande, sem que ele soubesse com o próprio dinheiro dela. Pedi uma coisa só, que quando ela soubesse da morte dele, não fosse no enterro, que ficasse em casa, que cantasse uma música para ele sozinha, que ele ia ouvir. O segundo parágrafo era para o Roberto.

 Falava que ele sabia de tudo. do dinheiro dos filhos não reconhecidos, que ele Garrincha perdoava, que dinheiro era papel, que filho era sangue e que sangue valia mais que papel. E o terceiro parágrafo, o mais curto, uma linha só. Essa linha cordeira marcha a que o Dr. Pereira leu e foi por causa dela que ele o mandou que a folha não saísse do hospital.

 A linha tinha sete palavras. E você vai saber agora. As sete palavras eram: “Eu me deixei morrer por vocês. Eu me deixei morrer por vocês. Pela Elsa que pagou pensão que não era dela. Pelo Roberto que sustentou família com dinheiro que não era dele. Pela Nair, que aguentou 8 anos calada. pelas 14 filhas, pela mãe que morreu no acidente, pelo pai que ele negou a última cachaça, pelo Brasil que tinha transformado ele em símbolo e depois soltou no meio do nada.

 Garrincha tinha se deixado morrer, escreveu, assinou com a dor dele e um médico num hospital público decidiu que aquela frase era pesada demais para o país aguentar. A pergunta que sobra é: Quem destruiu de verdade o Garrincha? Não foi o Roberto. Roberto só tirou o dinheiro, mas Garrincha tinha decidido perdoar. Não foi a Elsa. Elsa pagou pensão que não era dela. Não foi a Nair.

Nair aguentou 8 anos sem reclamar. Não foi o Amaro, o pai alcólatra. Não foi a Maria Carolina, a mãe que morreu no banco de trás do Mercedes. Quem destruiu o Garrincha foi uma ideia. A ideia de que um homem pobre do interior do Brasil, com pernas tortas podia salvar um país inteiro do complexo de inferioridade.

 A ideia de que um único corpo, uma única vida, podia carregar o orgulho de 60 milhões de pessoas durante 15 anos sem se quebrar. Essa ideia foi mantida pelos jornalistas, pelos técnicos, pelos presidentes de clube que espremeram ele até a última gota, pelos torcedores que iam para o estádio ver ele driblar.

 como se o corpo dele não envelhecesse pelo Brasil inteiro durante 15 anos, até que o corpo não aguentou mais. Roberto só levou o dinheiro. O Brasil levou a vida. Em 21 de janeiro de 1983, 150.000 pessoas passaram pelo Maracanã para se despedir do Garrincha. Homens de 50 anos chorando igual criança. Depois o cortejo atravessou a serra rumo a pau grande.

 Enterraram ele no cemitério da cidade numa cova simples com uma placa com duas palavras só: alegria do povo. As flores frescas duraram seis meses, as visitas um ano. Hoje, quando um turista chega em pau grande, levam ele para a estátua de bronze. Ninguém leva ele para a cova. Tem uma frase que a Elsa Soares falou numa entrevista no ano de 2015, 7 anos antes de morrer.

 Perguntaram para ela se Garrincha tinha sido feliz alguma vez nos 15 anos em que viveram juntos. Elsa ficou calada por um tempão e aí respondeu: “Garrincha foi feliz 90 minutos a cada quatro dias quando jogava. O resto do tempo era um homem fazendo o papel de garrincha. Tem milhões de homens assim neste exato momento.

 Homens que aprenderam igual o Garrincha que o valor deles depende daquilo que fazem e não daquilo que são. Homens que sorriem no trabalho e se quebram sozinhos dentro do banheiro. Homens que tm sete filhos, mas não tem para quem ligar às 3 da manhã. Garrincha nunca aprendeu a parar, nunca aprendeu a dizer não.

 Nunca aprendeu que um homem vale por aquilo que ele é e não por aquilo que ele produz. e morreu sem aprender. Igual morrem milhões de homens comuns que ninguém chora em estádio, mas que morrem do mesmo jeito sozinhos, em quartos alugados, com 13 centavos no bolso, sem ninguém na sala de espera. Se você conhece algum, não deixa ele sozinho hoje à noite.

 Liga para ele, mesmo que ele responda mal, mesmo que ele diga que não precisa de nada, liga a si mesmo. Se essa história fez você pensar em alguém, liga hoje, não amanhã, hoje. E se você quer continuar conhecendo as histórias dos ídolos que tiveram tudo e terminaram igual o Garrincha, se inscreve no canal, porque a próxima é ainda mais sombria. Ja.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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