MORREU AOS 25 INDO BUSCAR UM DISCO DE OURO — O QUE REALMENTE SOBROU DE EVALDO BRAGA
MORREU AOS 25 INDO BUSCAR UM DISCO DE OURO — O QUE REALMENTE SOBROU DE EVALDO BRAGA
Em 31 de janeiro de 1973, por volta das 7:30 da manhã, um Volkswagen T descia antiga BR3, a estrada que ligava Belo Horizonte ao Rio de Janeiro. Dentro dele viajava o homem que o Brasil inteiro chamava de ídolo negro. Evaldo Braga tinha acabado de fazer show em Minas e voltava correndo para a Guanabara por um motivo muito específico.
Naquela noite, ele ia ao programa do Chacrinha receber um disco de ouro pelas primeiras 100.000 cópias vendidas do ídolo negro volume 2. Ele nunca chegou. Na altura de Alberto Torres, o carro se chocou de frente com uma carreta Scaniavabis. Evaldo ainda foi levado com vida para o Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Três Rios. e morreu lá.
Tinha 25 anos, 3 anos de carreira e dois LPS gravados. E aqui começa a parte que quase ninguém conta, porque Evaldo Braga não morreu pobre. Ele morreu no ponto mais alto que um cantor negro tinha alcançado no mercado de discos brasileiro. Até ali. Foram entre 1 milhão e 2 milhões de discos vendidos.
O primeiro compacto, só quero, passou de 150.000 cópias sozinho. Sorria, sorria tocava em todas as rádios populares do país. A Philips da Alemanha chegou a mandar uma medalha de ouro para ele. Havia dinheiro de direitos autorais entrando todo mês. Só que Evaldo não deixou esposa registrada, não deixou filhos, não deixou nenhum herdeiro e o dinheiro que era dele simplesmente sumiu do mapa.
Neste vídeo você vai saber exatamente o que estava em nome de Evaldo Braga no dia em que ele morreu, incluindo o único bem material que aparece documentado em jornal da época, com placa e tudo. Você vai saber o que a gravadora anunciou publicamente que faria com o dinheiro dele e o que se sabe até hoje sobre se aquilo foi mesmo cumprido.
você vai entender porque uma pessoa que não é da família acabou recebendo parte dos direitos das músicas dele. E o motivo por trás disso é uma das histórias mais bonitas dessa biografia. E você vai conhecer o homem que apareceu anos depois na justiça, dizendo ser irmão de Evaldo e o detalhe na certidão dele que derrubou a versão inteira.
Nada de mansão inventada e carro de luxo que nunca existiu. Aqui vai o que está em documento e em reportagem da época. Se sorria, sorria toca na sua memória até hoje. Deixa o like e se inscreve no canal. Essa história merece ser contada direito de uma vez. O nome que o Brasil inteiro aprendeu a cantar era o nome do homem que o entregou.

Quem conta isso é o próprio irmão do cantor, o músico e cabeleireiro Antônio Sebraga. em depoimento ao documentário Evaldo Braga, o ídolo negro, dirigido por Armando Bemendes, filho, em 1997. Segundo ele, Evaldo era filho de Antônio Braga, nascido de uma relação fora do casamento. Chegou a viver algum tempo na casa do pai, ao lado dos irmãos, mas não era aceito pela esposa dele.
E foi por causa dessa rejeição que o pai entregou o menino a uma senhora. É nesse mesmo depoimento, aos 6 minutos e 19 segundos do documentário, que o irmão dá uma data de nascimento que contraria quase toda a imprensa. 26 de maio de 1945, o dicionário Cravo Albim, a Folha de São Paulo e o próprio álbum póstumo lançado pela Polidor registram outra data, 28 de setembro de 1947.
Até hoje ninguém fechou essa conta. O que todas as fontes confirmam é o lugar Campos dos Goitacazes, no interior do estado do Rio. E aqui precisa ficar uma coisa muito clara, porque é o ponto em que quase todo mundo erra ao contar a salar história dele. Existe uma versão repetida há 50 anos de que a mãe de Evaldo era prostituta e que o jogou dentro de uma lata de lixo quando bebê.
Isso é boato e foi desmentido de forma categórica pelo irmão dele nesse mesmo documentário. Segundo o biógrafo Gonçalo Júnior, autor do livro Eu não sou lixo, publicado pela editora Noar em 2017, o que aconteceu foi diferente. Um morador de campos contou a Evaldo ter conhecido uma prostituta com as características que o cantor sempre descrevia e disse que essa mulher teria abandonado um bebê no lixo.
Foi dessa conversa que saiu o título da canção. A música não narra a vida dele. Ela nasceu de uma dor que ele carregava sem nunca ter conseguido confirmar. O próprio Evaldo deu a versão dele em entrevista publicada pelo jornal O Dia. disse que, infelizmente, não teve a sorte de conhecer os pais, mas que sabia o nome dos dois, Evaldo e Benedita Braga, e que eles não podiam sustentá-lo.
Na mesma reportagem está o detalhe mais concreto de todos. Uma senhora chamada Maria o encontrou no meio da rua, no bairro do Caju, e o levou ao juiz de menores. Como não havia vaga no instituto local, o menino foi transferido para o rio e internado no Instituto Edson, dirigido por dona Noêmia. Nas palavras dele, foi criado no serviço de amparo ao menor durante 20 anos.
E quando saiu para a vida, tinha um sonho só: cantar no rádio e gravar discos. Dentro daquele internato havia outro menino que ia ficar famoso e os dois se odiavam. O nome dele era Dadá Maravilha. Ele estava ali por um pequeno furto. Evaldo estava ali por não ter ninguém. Em entrevistas e no documentário, Dadá contou que a rivalidade era diária e barulhenta.
Ele chamava Evaldo de pato rouco e Evaldo devolvia chamando ele de perna de pau. Só que Evaldo trabalhava na cozinha do internato e Dadá conta que de propósito o outro servia menos comida no prato dele. Um queria ser jogador de futebol, o outro queria ser cantor e cada um achava que o sonho do outro era uma bobagem. Segundo o biógrafo, não há nenhuma evidência de que Evaldo tenha se envolvido em crime naqueles anos.
E tem um detalhe que contraria a imagem que muita gente tem dele. Ele foi abstêmio até a fama chegar. Saiu do orfanato com um diploma de cozinheiro debaixo do braço. Trabalhou como garçom. Trabalhou como agente de viagens. Trabalhou numa funerária, largou tudo pelo palco. Antes disso, engrachou o sapato dos artistas na rádio Myink Veiga e virou, segundo a reportagem do dia, um colecionador de promessas, porque muita gente prometia uma chance no microfone e ninguém cumpria.
A entrada de verdade veio por um caminho torto. Ele começou trabalhando como divulgador de outros cantores, entre eles Lindomar Castilho e Newton César. batendo de porta em porta nas redações de rádio, jornal e televisão. Foi assim que ficou amigo de Roberto Muniz da Rádio Globo, que passou a levá-lo ao programa do Chacrinha.
E aí acontecia o seguinte, quando um artista famoso faltava, Evaldo entrava no lugar e cantava as músicas dos cantores que ele mesmo divulgava. divulgando os outros, ele acabou divulgando a si próprio. O nome Roberto Muniz vai voltar nesta história de um jeito que ninguém espera e é ele que explica para onde foi parte do dinheiro das músicas de Evaldo Braga.
Antes de gravar o primeiro disco, Evaldo Braga já tinha perdido o maior sucesso da vida dele. A música se chamava Última Canção, de autoria de Carlos Roberto Nascimento. Evaldo estava dentro do estúdio de uma gravadora chamada Caraveli, com a voz pronta gravando. Segundo o biógrafo Gonçalo Júnior, o cantor Paulo Sérgio e o produtor dele entraram naquele estúdio, ouviram e perceberam na hora que aquilo ia estourar.
O produtor teria então feito uma proposta ao autor da música. colocaria outras seis canções dele no álbum de Paulo Sérgio, com uma condição que o intérprete de última canção fosse Paulo Sérgio e não Evaldo. Foi o que aconteceu. A música virou o maior êxito da carreira de Paulo Sérgio. Muitos anos depois, numa entrevista, perguntaram a Paulo Sérgio se ele já tinha pisado na cabeça de alguém para subir.
Ele respondeu que não, mas que outras pessoas haviam pisado por ele. A virada veio pelas mãos de Osmar Navarro, produtor e compositor que Evaldo conheceu em 1969. Foi Navarro quem o levou a gravar o primeiro disco, Um compacto simples com a música Só quero. O resultado foi imediato e brutal para um estreante. Primeiro lugar nas paradas em 1971, com mais de 150.000 cópias vendidas.
O sucesso foi tão fora da curva que a revista americana Billboards registrou o nome dele na sessão internacional, na edição de 4 de setembro daquele ano. Um menino criado no serviço de amparo ao menor tinha acabado de entrar numa lista de vendas publicada nos Estados Unidos. Veio o primeiro LP, o ídolo negro, pelo selo Polidor, da gravadora Fonogram.
E veio um apelido que colou para sempre. Em 1972, ele lançou um novo compacto com todas as noites de Carlos Odilon e Jair Rodriguez e nunca mais, nunca mais parceria dele com Cesão. E lançou o disco que mudaria tudo, o Ídolo Negro, volume 2. Dentro dele estavam Mentira de Osmar Navarro.
Tudo fizeram para me derrotar. Dele com Isaías de Souza, já entendi. De Edson Melo e Carlos Odilon. A vida passando por mim, de Juovenil Santos e Paulo de Souza e a canção autobiográfica Eu não sou lixo, escrita por ele com Pantera. E estava claro, sorria, sorria. Agora o nome que ficou pendurado no fim do bloco anterior.
Sorria sorria aparece nos créditos como parceria de Evaldo Braga com uma compositora chamada Carmen Lúcia. Durante décadas se especulou quem era essa mulher. Inventaram namorada, inventaram amante, inventaram nome falso. A história real apurada pelo biógrafo Gonçalo Júnior é outra e é muito mais bonita. Carmen Lúcia era filha de Roberto Muniz, aquele amigo da Rádio Globo que abria as portas do Chacrinha para Evaldo quando ele ainda era um divulgador desconhecido.
Carmen Lúcia tinha síndrome de Down e perdeu o pai poucos meses antes de Evaldo gravar o primeiro álbum. Sem ter como agradecer ao amigo que tinha morrido, Evaldo agradeceu a filha dele. Colocou o nome de Carmen Lúcia como parceira na música. Não foi um gesto simbólico. Crédito de composição significa direito autoral, significa dinheiro entrando toda vez que a canção toca.
E sorria, sorria tocou em todas as rádios populares do Brasil. O jeito como ele construiu esse sucesso também foge do que se imagina. Evaldo praticamente não fazia shows. Nas palavras do biógrafo, era um gênio do marketing pessoal e dizia abertamente que ia focar na televisão, porque era ali que o sucesso se construía. Os números comprovam a estratégia.
Só no ano de 1971, ele foi quase 40 vezes ao programa do Chacrinha e 30 vezes ao programa de Silvio Santos. Enquanto os colegas rodavam o país de ônibus, ele conquistava a sala de estar do brasileiro e entrava naquele palco impossível de não ser visto. Daá maravilha, o mesmo menino do internato, descreveu o velho rival assim: usava um monte de anel e roupas brilhantes.
O vermelho era a cor preferida e está registrado nos vídeos do cassino do Chacrinha que sobraram. O apresentador Flávio Cavalcante chegou a dizer que ele parecia louco de tanto que gritava ao cantar. O radialista Assir Antão explica que a primeira referência vocal de Evaldo era Caubi Peixoto, mas que ele foi se afastando disso até criar uma assinatura própria de letra simples e batida marcada.
A gravadora Philips da Alemanha mandou para ele uma medalha de ouro pelo desempenho dos discos no Brasil. Em 3 anos de aparição na música popular entre LPS e compactos, o total já passava de 500.000 discos vendidos. Faltavam poucos meses de vida e foi exatamente nesses últimos meses que Evaldo Braga mudou tudo o que vinha fazendo e começou a subir em palco quase todos os dias.
70 apresentações por mês. Esse é o número que explica por Evaldo Braga estava numa estrada às 7:30 da manhã de uma terça-feira. O cantor, que tinha construído a carreira inteira dizendo que não precisava de palco, que bastava a televisão, mudou de estratégia nos últimos meses de vida e passou a rodar o país.
Segundo o levantamento do biógrafo Gonçalo Júnior, eram cerca de 70 apresentações mensais. Isso é mais de dois shows por dia, em média, incluindo domingos. Numa época sem avião barato, sem estrada duplicada e sem ônibus de turnê equipado, isso significava estrada de madrugada, hotel ruim e sono roubado. Nesse ritmo, ele comprou o carro que ia matá-lo.
E aqui entra o primeiro registro concreto de patrimônio na vida de Evaldo Braga, o único que aparece em documento público da época. Não era mansão, não era importado, não era coleção, era um Volkswagen T, placa GBRJ 5823. Está escrito assim, com placa e tudo, na reportagem publicada pelo jornal O dia em 1eo de fevereiro de 1973, citando o perito Luisiot da delegacia de três rios.
O documento diz textualmente que o TL era de propriedade dele. Guarde essa informação, porque é literalmente o único bem material de Evaldo Braga que a imprensa da época registrou com identificação. O homem que vendeu mais de 1 milhão de discos aparece nos autos como dono de um carro nacional de quatro portas que qualquer médico ou comerciante de classe média do Rio também tinha na garagem.
O que ele exibia de fato era outra coisa. Anéis, muitos anéis e roupa brilhante, quase sempre vermelha. Isso está no depoimento de Dadá Maravilha e nas imagens que sobraram do cassino do Chacrinha. Era luxo de palco comprado para ser visto por câmera. Não é o mesmo que patrimônio. Agora o último dia.
Ele estava em Minas Gerais. Segundo o radialista Antão, Evaldo tinha acabado de fazer show em Belo Horizonte e discutiu com a namorada. Amigos pediram que ele adiasse a viagem e voltasse no dia seguinte. Ele não quis. Antão atribui isso ao temperamento explosivo que o cantor formou por ter vivido na rua. Havia também um motivo prático e concreto para a pressa.
Ele tinha cancelado uma apresentação numa cidade próxima para conseguir chegar ao rio a tempo do programa do Chacrinha. E o motivo dessa ida era o maior reconhecimento da carreira dele até ali. Evaldo ia receber ao vivo um disco de ouro pelas primeiras 100.000 cópias vendidas do ídolo negro volume 2. Ele nunca recebeu esse disco de ouro.
O carro pegou a estrada com três pessoas dentro. Evaldo, o motorista e o empresário Paulo César Santoro. Segundo o relato reunido pelo biógrafo, eles pararam na cidade de Três Rios e voltaram à estrada cerca de 40 minutos antes do acidente. Na localidade de Alberto Torres, então distrito de Três Rios e hoje o município de Areal, na antiga BR3.
O Volkswagen TL chocou-se de frente com uma carreta Scania Vabbs, placa HA0553 da cidade de Barbacena. O relógio marcava 7:30 da manhã de 31 de janeiro de 1973. Sobre um ponto, as fontes brigam até hoje, e é honesto dizer isso. A reportagem do dia, citando o perito, afirma que era o próprio Evaldo Braga quem dirigia em alta velocidade.
Praticamente todas as fontes posteriores, incluindo a imprensa mineira e o levantamento do biógrafo, afirmam que quem estava ao volante era o motorista. Até o nome desse motorista muda conforme a fonte que se consulta. A versão popular repetida na época era de que tudo aconteceu numa tentativa de ultrapassagem forçada.
Evaldo não morreu na hora. Ele e o motorista foram levados com vida para o Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Três Rios, e morreram lá. O empresário Paulo César Santoro e o motorista da carreta, Juraci Alves de Paula, deram entrada no mesmo hospital em estado grave. Santoro ainda resistiu até o dia seguinte. Evaldo tinha 25 anos pela contagem da maioria das fontes.
No enterro, o cemitério São João Batista em Botafogo ficou lotado. A comoção foi tanta que precisou ser contida com apoio da tropa de choque da Polícia Militar. E entre a multidão, calado num canto, estava um menino do internato, que tinha jurado ódio eterno a ele. Dadá maravilha foi a última pessoa a conversar com Evaldo Braga antes da morte.
E o que os dois disseram um ao outro naquela conversa é uma das coisas mais impressionantes desta história. Poucas semanas antes daquela terça-feira, dois homens que se detestaram a infância inteira fizeram as pazes num camarim. Dadá Maravilha já era Dadá Maravilha, artilheiro conhecido no Brasil todo. Ele contou em entrevistas que voltou ao colégio onde os dois tinham estudado para tirar um documento.
Lá dentro, alguém avisou que Evaldo também tinha estado ali e que queria falar com ele. Dadá foi atrás, encontrou o rival antes de um show. Segundo o relato dele, Evaldo resumiu tudo numa frase curta: “Nós vencemos”. Os dois meninos do serviço de amparo ao menor, o do furto pequeno e o que não tinha ninguém tinham conseguido.
Pouco tempo depois, Evaldo morreu. Dadá contou que acordou na manhã seguinte com a empregada em prantos diante da televisão. Foi ao enterro em Botafogo, ficou no canto dele e passou o tempo todo pensando em quantos anos os dois tinham perdido sem se ver. Ele lamenta até hoje que o encontro marcado para selar de vez a paz nunca tenha acontecido.
Feito o enterro, começou a pergunta que ninguém respondeu até hoje. Evaldo Braga vendeu, segundo a apuração do biógrafo Gonçalo Júnior, entre 1 milhão e 2 milhões de discos. Deixou uma quantia considerável de dinheiro em direitos autorais correndo e não deixou herdeiro nenhum, sem esposa registrada, sem filhos.
sem pai reconhecido em vida, sem mãe localizada, apesar de ter procurado a vida inteira. O biógrafo conta que encontrar a mãe era uma obsessão real e que Evaldo chegou a dizer que só queria o sucesso para conseguir achá-la. Chegaram a ser feitos concursos e várias mulheres apareceram-se dizendo mãe do cantor. Nenhuma convenceu. Ele morreu sem saber.
Isso cria uma situação jurídica muito específica. Existe dinheiro entrando e não existe ninguém com nome para recebê-lo. Uma parte tinha destino certo e é a parte bonita da história. Carmen Lúcia, a filha de Roberto Muniz, constava nos créditos como coautora de Sorria, Sorria. Como parceira, ela naturalmente recebeu a parte que lhe cabia.
Aquele gesto de gratidão que Evaldo fez em vida continuou funcionando depois que ele morreu e continuou pingando na conta de uma moça com síndrome de Down, que tinha perdido o pai. Provavelmente é a coisa mais generosa que Evaldo Braga fez com dinheiro e ele fez sem saber que estava fazendo. Agora a parte que ninguém explicou.
Os fundos que diziam respeito ao próprio Evaldo tiveram paradeiro desconhecido. É essa a conclusão do biógrafo depois de dezenas de entrevistas e de pesquisa documental para escrever o livro. Não é uma acusação contra uma pessoa com nome e sobrenome. E este canal não vai inventar um culpado. É um fato mais desconfortável que isso.
O dinheiro do maior fenômeno de vendas da música popular daquele momento não tem rastro público conhecido. Na época, houve um anúncio. A gravadora declarou que doaria tudo a um orfanato que o cantor ajudava e a Fena Bem, órgão que depois virou Febem e que hoje é a Fundação Casa. a mesma instituição na sua origem, onde Evaldo passou a infância e a adolescência.
No papel seria o encerramento perfeito de um ciclo, o dinheiro do menino abandonado voltando para a casa que o criou. Só que, segundo o levantamento do biógrafo, não se sabe se essa doação foi de fato realizada. O anúncio existe, a confirmação não. E anos depois apareceu um homem dizendo ser irmão de Evaldo Braga.
Ele levou o caso à justiça para ser reconhecido como parente do cantor. O processo de comprovação de parentesco correu em segredo de justiça e foi o biógrafo quem apontou o problema que derruba a versão inteira. O homem afirmava ter convivido com Evaldo, ter conhecido o cantor pessoalmente. Só que pela documentação ele nasceu dois anos depois da morte de Evaldo Braga.
É matematicamente impossível ter convivido com alguém que já estava enterrado no São João Batista antes de você existir. Entenda o tamanho do que aconteceu aqui. Um homem que passou a vida procurando a mãe e morreu sem achar, acabou virando alvo de gente, aparecendo com parentesco depois de morto.
Em vida ele implorava por uma família e ninguém aparecia. morto e com direito autoral rendendo, apareceu. Existe uma última pergunta que sobra dessa história toda e ela não é sobre dinheiro, é sobre o que aconteceu com o nome de Evaldo Braga nos 50 anos seguintes e sobre uma coisa que acontece todo dia 2 de novembro no cemitério São João Batista.
Todo dia 2 de novembro no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, um túmulo recebe fila. é o Dievaldo Braga. Ele é apontado como um dos mais visitados do cemitério no feriado de finados. Ninguém organiza isso. Não há gravadora patrocinando, não há canal de televisão cobrindo, não há campanha. São pessoas comuns, muitas delas com mais de 60 anos, que aparecem por conta própria diante do túmulo de um cantor que morreu em 1973.
Aquilo que a indústria não fez, o público fez sozinho durante cinco décadas, porque o esquecimento foi real e é preciso dizer com todas as letras. Depois da morte saíram discos póstumos. Ainda em 1973 veio um terceiro LP, que na prática era uma coletânea e outros lançamentos apareceram ao longo dos anos, mas o nome do cantor foi sumindo do circuito oficial.
Nenhuma emissora de televisão se deu ao trabalho de produzir um especial sobre a vida e a carreira dele. Nas listas de grandes nomes da música brasileira, ele não entrava. O crítico Mauro Ferreira tem uma explicação direta para o que sustentou a memória de Evaldo mesmo assim. O povão não se influencia pelo suposto bom gosto ditado pela mídia e é muito fiel aos seus ídolos.
Os números do rádio comprovam. O radialista Assir Antão, apresentador de um programa matinal na rádio Itatia em Minas Gerais, afirma que as músicas de Evaldo Braga estão entre as mais pedidas do programa, rivalizando com Nelson Gonçalves. Isso quatro décadas depois da morte dele.
E foram outras pessoas, uma a uma, que foram remontando o que restou. Em setembro de 2011, o fotógrafo e pesquisador cultural Wellington Cordeiro montou no SESC de Campos, Cidade Natal do Cantor, uma exposição com fotos e objetos de Evaldo Braga. Em 1997, Armando B. Mendes Filho tinha produzido o documentário O ídolo Negro, que hoje é a única fonte em vídeo em que o irmão do cantor fala e desmente boato.
E em 2017, 44 anos depois do acidente, saiu a primeira biografia dele. A história de como esse livro nasceu diz tudo sobre o lugar que reservaram a Evaldo Braga. O jornalista Gonçalo Júnior bateu em 11 editoras com o projeto. Em todas ouviu a mesma coisa que ninguém se interessaria. 11 recusas para contar a vida de um artista que vendeu mais de 1 milhão de discos.
O livro acabou publicado pela editora No ar com 308 páginas, dezenas de entrevistas e pesquisa documental. E o título escolhido foi Eu não sou lixo, o nome da canção mais autobiográfica do cantor. O próprio autor explicou o duplo sentido. Era uma resposta aos editores que recusaram e resumiu a tese do trabalho em uma frase que serve de epitáfio melhor do que qualquer lápide.
O livro não é um lixo. A música brega não é um lixo e o Evaldo não era um lixo. Muito pelo contrário, era um grande cantor. Fecha o círculo de um jeito quase insuportável. Um menino recolhido da rua no bairro do Caju, passou a infância inteira sendo tratado como descarte. Cresceu, virou artista e escreveu uma música gritando que não era lixo.
Vendeu discos suficientes para ganhar medalha de gravadora estrangeira. morreu aos 25 anos a caminho de receber um disco de ouro que nunca chegou às mãos dele. O dinheiro que produziu sumiu sem rastro e quando alguém finalmente quis contar essa vida em livro, ouviu 11 vezes que aquilo não valia nada. Então o que Evaldo Braga deixou? Afinal, não deixou mansão, não deixou frota de carros, não deixou herdeiro.
O único bem que a imprensa da época registrou com placa foi um Volkswagen TL nacional. Os direitos autorais dele viraram um paradeiro desconhecido. A doação anunciada nunca foi confirmada. Do ponto de vista de patrimônio, ele saiu do mundo praticamente do mesmo jeito que entrou. Só que ele deixou uma parceria de composição no nome de uma moça com síndrome de Down, que tinha acabado de perder o pai.
Deixou uma frase dita num camarim a um velho inimigo de orfanato: “Nós vencemos”. Deixou uma voz que ainda hoje disputa pedido de ouvinte com Nelson Gonçalves na rádio e deixou uma fila diante de um túmulo em Botafogo, todo dia 2 de novembro, formada por gente que ninguém convocou. Evaldo Braga passou a vida inteira tentando provar que valia alguma coisa para um mundo que o tinha jogado fora ainda menino. Provou.
Vendeu mais de 1 milhão de discos, colocou o nome numa revista americana, encheu a televisão brasileira e virou o ídolo negro. E ainda assim morreu sem receber o disco de ouro que estava indo buscar, sem encontrar a mãe que procurou a vida toda, sem herdeiro para receber o que ganhou e sem que ninguém explicasse para onde foi o dinheiro dele.
A herança verdadeira dele não estava em cofre nenhum. Estava numa parceria de composição dada de presente a uma moça que tinha acabado de perder o pai. Estava numa frase de três palavras dita a um velho inimigo de internato. Está na fila que se forma diante do túmulo dele em Botafogo, todo finados, sem que ninguém convoque ninguém.
Se essa história te pegou de algum jeito, faz o seguinte por ele. Deixa o like, que é o que faz esse vídeo chegar, em quem também cresceu ouvindo essa voz. Se inscreve no canal porque tem muita história dessas ainda por contar direito. E vai nos comentários responder uma coisa específica: se você fosse juiz do caso, o que deveria ter sido feito com os direitos autorais de um artista que morreu sem nenhum herdeiro? Deviam ter ido mesmo para a instituição que criou ele ou para outro lugar? Quero ler a sua
resposta. E antes de sair, olha aí na tela. O próximo vídeo já está aparecendo e é a história de mais um nome que o Brasil cantou e depois deixou cair no esquecimento. Clica ali que eu te espero do outro lado.