MUITA COMOÇÃO, FILHOS E AMIGOS DE GLÓRIA MENEZEZ DÂO O ÚLTIMO ADEUS NO VELORIO
MUITA COMOÇÃO, FILHOS E AMIGOS DE GLÓRIA MENEZEZ DÂO O ÚLTIMO ADEUS NO VELORIO
Na tarde de terça-feira, 18 de agosto de 2026, um pequeno comunicado encerrou uma das histórias mais longas da televisão brasileira. Glória Menezes tinha morrido aos 91 anos dentro do próprio apartamento no Rio de Janeiro, rodeado pela família. Ela nasceu com outro nome, Nilsedes Soares de Magalhães, um apelido que quase ninguém no Brasil chegou a pronunciar, porque em algum momento dos anos 50, esta mulher decidiu que seria chamada de outra forma, um nome que ela escolheu para si própria antes mesmo de a televisão
brasileira existir de verdade. Mais de seis décadas depois, este nome tinha-se tornado sinónimo de teledramaturgia nacional. Mais de 40 novelas. Um Brasil inteiro que cresceu a ver o rosto dela entrar em casa semana após semana, década após década. Mas a mulher que passou a vida sendo vista por milhões, escolheu na hora final o oposto disso.
Uma despedida fechada só para quem ela amava de verdade. Antes de continuar, se Glória Menezes fez parte da sua infância, se você lembra-se da sua família parada em frente da televisão por causa de uma cena dela, deixa já o like. Não é só um like, é uma forma de agradecer a quem ajudou a construir a TV brasileira com as suas próprias mãos, porque o que vem a seguir muita gente nem sabe.
Pelotas, no extremo sul do Rio Grande do Sul, 1934. Foi aí que nasceu a menina batizada Nilsedes Soares de Magalhães, nome inventado pelos próprios pais, fundindo os dois deles numa única palavra. Seis anos depois, a família deixou o sul rumo a São Paulo e foi na capital Paulista que esta menina cresceu. O O Brasil dos anos 1950 não facilitava a vida a uma jovem que quisesse tornar-se atriz.
Existiam dois obstáculos praticamente automáticos: o preconceito da sociedade em relação à profissão e a resistência da própria família. Os pais de New Sedes não aprovavam. A escola de arte dramática em São Paulo era um sonho vetado dentro de casa. Ela resolveu isso aos 17 anos e com uma solução que hoje soua estranha, mas que na época era na prática a única porta disponível.
Casou com Arnaldo Brito, um primo afastado, não por amor adolescente, por estratégia. Anos depois, ela contaria sem rodeios o que aquilo realmente significava. Os maridos é que mandavam em nós. Ele me levava na EAD. Aí já não podiam se meter. Um casamento usado como salvo conduto. Uma jovem que aprendeu cedo a negociar a liberdade dentro das regras que impediam-na de ser livre.

Foi dentro da escola de arte dramática que a atriz começou a existir de verdade. E foi aí, ainda muito jovem, que ela escolheu o nome que o Brasil inteiro usaria dali paraa frente. Glória, porque a palavra soa quase igual em qualquer língua. Menezes, puxado da origem portuguesa da família. Nilsedes Soares de Magalhães morreu ali num cartório informal de bastidor de teatro.
Nascia Glória Menezes em 1959, ainda no início da televisão brasileira, Glória estreou-se na TV Tupi na novela Um lugar ao Sol, ao lado de uma atriz principiante chamada Laura Cardoso, parceria que os dois manteriam viva durante as seis décadas seguintes. Em 1962, veio o salto que mudaria tudo, um papel no elenco de O Pagador de Promessas de Anselmo Duarte.
O filme venceu a Palma de Ouro no Festival de Canes desse ano. Até hoje, a única longa-metragem brasileira a conquistar o prémio máximo do festival mais importante do cinema mundial. Glória tinha 28 anos. Ainda em 1962, dentro dos estúdios da TV Exelsior, ela contracenava na primeira telenovela diário da história da televisão brasileira.
ao lado de um ator de 27 anos chamado Tarcísio Meira. A câmara registou química. A vida real não ficou muito atrás. Naquele mesmo ano, os dois casaram. Ninguém sabia naquele estúdio que aquele encontro criaria o que a televisão brasileira passaria a entender, literalmente como sinónimo de casal. Durante os 20 anos seguintes, Glória e Tarcísio praticamente definiram o que era o casal da Globo.
Contracenaram em Irmãos Coragem de 1970, onde viveu uma mulher com três personalidades diferentes, Diana, Lara e Márcia, feito técnico que poucas atrizes da época teriam coragem de tentar. Em cavalo de aço de 1973, foi Miranda, uma agricultora que não recuava perante ninguém. Em corpo a corpo de 1984, trocou a heroína pela vilã.
Teresa, enfermeira com um lado obscuro. Em 1988, a Globo levou a parceria ao extremo e criou um folhetim batizado literalmente com os dois nomes, Tarcísio e Glória. A a ficção e a vida real já não tinham mais fronteira clara. Em 1990 surgiu talvez o papel mais lembrado de toda la carreira. Laurinha Figueiroa, a vilã de rainha da sucata, construída com uma frieza tão calculada que o Brasil inteiro aprendeu ao mesmo tempo, a odiar e a admirar aquela mulher.
Em 2001, foi dona Coló, ex-dona de casa de tolerância em Porto dos Milagres. Em 2004, a baronesa com Alzheimer de Senhora do Destino. Em 2008, já com 73 anos, voltou a tela em A Favorita, com uma presença de cena que constrangia atrizes 40 anos mais jovens. O público via uma mulher que nunca envelhecia dentro da ficção.
Glória sentia por dentro o peso real da seis décadas inteiras, dividindo a vida entre o estúdio e a casa, entre ser Glória Menezes, a atriz, e ser apenas Nils Sedes, a mulher. Em agosto de 2021, Glória e Tarcísio estavam isolados havia mais de um ano na quinta da família em Porto Feliz, no interior de São Paulo.
Vacinados, cuidadosos, em conjunto, como sempre tinham sido. Mesmo assim, o vírus encontrou uma brecha. Os dois foram internados no mesmo os hospital de São Paulo. Ela com sintomas ligeiros. No quarto ele entubado em hemodiálise contínua na UCI. A 12 de agosto de 2021, Tarcísio Meira morreu.

Glória estava no mesmo edifício, no mesmo piso, e não conseguiu chegar a tempo de estar ao lado dele. Foi o filho dos dois, Tarcísi e o filho, que teve de contar à mãe que o pai não resistiria. 59 anos de casamento, 59 anos da mesma voz, do mesmo olhar, terminaram assim num corredor de hospital em silêncio. Quem convivia de perto com glória depois disso descrevia uma mulher que continuava a acordar e estranhando o silêncio do outro lado da cama.
Mais de meio século sendo metade de alguém. E agora, aos 86 anos, necessitando de reaprender sozinha o que era estar inteira. Ela não deu entrevistas melodramáticas sobre isso. Seguiu em frente do mesmo forma como resolveu aos 17 anos o problema de não poder estudar teatro, com dignidade, em silêncio, sem pedir licença para ninguém.
Glória deixa três filhos com histórias praticamente opostas entre si. João Paulo e Maria Amélia do primeiro casamento com Arnaldo Brito, escolheram viver longe dos estúdios. O público nunca chegou a associar os dois apelidos à mãe mais famosa da televisão brasileira. Uma espécie de silêncio escolhido, quase irónico diante da mãe, que passou seis décadas a ser o rosto mais reconhecido do país.
Tarcísi o filho é a outra ponta dessa história. O mais novo, batizado com o nome do pai, seguiu os dois para o interior da profissão e tornou-se ator. Foi ele quem esteve ao lado da mãe nos últimos momentos, a 18 de agosto de 2026. E foi a nora, Mocita Fagundes, casada com Tarcísio Filho, que descreveu Glória como a própria referência materna dos últimos 18 anos.
Um tipo de vínculo que raramente aparece nos créditos de uma toda a carreira em novelas. Depois de perder Tarcísio, Glória praticamente desapareceu da vida pública. O seu último trabalho como atriz tinha sido em 2015, na novela Totalmente Demais, ainda em plena forma, aos 81 anos. Nos anos seguintes, a mobilidade foi ficando mais difícil e em alguns registos ela já aparecia em cadeira de rodas.
A última aparição documentada foi no Dia das Mães de 2026, quando a Nora Mocita publicou fotos das duas num restaurante no Rio. Pouco antes de morrer, Glória enfrentou uma pneumonia que a afastou de qualquer compromisso. E aconteceu então uma coincidência que ninguém teria coragem de escrever num guião de ficção.
No dia 12 de agosto de 2026, exatamente 5 anos depois da morte de Tarcísio, a TV A Globo organizou uma cerimónia na calçada da fama dos seus estúdios, no Rio, para eternizar o nome de glória com uma estrela no chão. Ela não foi. Tarcísio filho recebeu a homenagem em nome da mãe e explicou a ausência com a voz embargada.
A Dona Glória sempre foi muito emotiva, estaria demasiado emocionada e especialmente por uma coincidência. No no dia 12 de agosto foi o dia em que o Tarcisão foi para o andar de cima. Ela recebeu a homenagem sozinha em casa, na mesma data em que tinha perdido o homem da vida dela, 5 anos antes. Seis dias depois, a 18 de agosto de 2026, por volta das 14 horas, Glória morreu em casa de causas naturais.
Tarcísio Filho resumiria aquele fim, dias depois, numa frase que dizia mais sobre a mãe do que qualquer biografia. A minha mãe morreu por excesso de vida. A minha mãe era muito vivaz, muito cheia de vida. Ela sorveu esta vida com todas as as forças que ela tinha, de uma forma muito bonita sempre. A assessoria da família confirmou no dia seguinte que a despedida seria privada.
Só a família e amigos próximos, sem transmissão, sem tapete vermelho do adeus. Para uma mulher vista por milhões durante mais de 60 anos, a escolha dizia muito por si só. Glória entrou na televisão brasileira pela porta da frente e optou por sair pela porta de casa. O luto ainda assim tomou o país inteiro nas redes.
Débora Block escreveu que tinha começado a carreira fazendo filha de glória na sua primeira novela. Lázaro Ramos despediu-se, dizendo que ela tinha ido ao encontro do seu grande amor. Ana Maria Braga chamou-lhe dona de personagens marcantes que fizeram parte da história de toda a gente que cresceu em frente à TV. Zeca Camargo demorou dias a se manifestar só porque queria encontrar a foto certa antes.
Fica a Laurinha Figueiroa que o Brasil aprendeu a odiar e a admirar ao mesmo tempo. Fica a mulher de três personalidades de irmãos coragem. Fica a rosa de O Pagador de Promessas com a única palma de ouro que o cinema brasileiro já levantou. Fica sobretudo uma decisão tomada aos 17 anos por uma jovem de nome Nil Sedes, que resolveu escolher o próprio nome antes de qualquer estúdio escolher por ela.
Ela quis ser chamada Glória e foi por mais de 60 anos face a milhões de brasileiros que nunca souberam o nome verdadeiro por detrás daquele rosto. Agora, 5 anos depois de perder o homem com quem partilhou quase 60 deles, Glória foi encontrá-lo e ao Brasil que ela ajudou a construir, novela a novela, geração a geração, ficou aqui a sentir a falta. M.