O segredo que o R.E.M. guardou por 30 anos
O segredo que o R.E.M. guardou por 30 anos
Em 2008, os fãs do ORM, pelo menos aqueles que eram mais atentos, perceberam que os caras mal tavam se olhando no palco. E esses que eram mais atentos, talvez não ficaram surpresos quando em setembro de 2011 a banda soltou um comunicado. Aos nossos fãs e amigos decidimos nos separar como banda. Disseram que terminaram porque aquela era a hora. Mas vamos lá.
Uma banda que ganha milhões, se separa por pura educação. Como é que uma das maiores bandas da história do rock alternativo conseguiu acabar sem ter nenhum processo judicial, nem uma briga pública? Uma banda que começou como um grupo de nerdes saiu de uma universidade numa pequena cidade americana e estourou mundialmente com uma das músicas que definiu o pop dos anos 90.
Até hoje, muitos mistérios envolvem a história deles e é por isso que existem as boas biografias como essa que acaba de chegar ao Brasil. A gente vai mergulhar em tudo nos bastidores desde os primeiros dias até o Pacto de Silêncio, a história do REM. Então vamos lá que essa história começa em 1980.
A cidade era Athens, no estado da Geórgia, onde o governo mantém o principal campus da Universidade de Georgia, onde Michael Type estudava artes. Michael conheceu o guitarrista Peter Buck na loja de discos onde o cara trabalhava. Os dois amavam punk rock e música alternativa. E aí chamaram o baixista Mike Mills e o baterista Bill Barrick.
Já tocavam desde a escola juntos. Eles estrearam numa festa de aniversário de um amigo ainda sem nome e depois adotaram a sigla R. Esse é um outro mito da banda, né? De onde vem o nome. A versão mais difundida que eles pensaram no Rapid Eye Movement, movimento rápido dos olhos, que é a fase do sono onde ocorrem os sonhos. Bom, vamos lá.

O jornalista Peter Clin lançou em 2024 esse livro aqui, ó. O nome dessa banda é Rem e ele anota o seguinte: Michael pegou um dicionário, abriu em uma página qualquer e viu Rem, a sigla da parada do sonho. Mas Michael insistiria mais tarde que não pensou em sono ou sonho naquele momento. Ele simplesmente gostou do termo. O que ele mais gostou, dizia eram os pontos.
Podia significar qualquer coisa. Então não, não era porque ah, o nosso som é para sonhar. Aliás, você curte o RM e ficou interessado? Tem uma boa notícia. Seu livro acaba de chegar ao Brasil pela editora Belas Letras. Só podia ser ela. Tá quente ainda, ó. Como você vai ver ao longo do vídeo, o Peter passa toda essa história a limpo e vai além das clássicas histórias de sexo, drogas e rock and roll. Não que não tenha.
para contar como esses nerdolas saíram do indie rock pro mainstream mundial e por que largaram tudo. E se eu fosse você, aproveitava para levar não só esse, mas outros títulos, porque é mês do rock e tá rolando o Bookstock, Festival da Belas Letras, que todo ano traz descontos e condições especiais. Tem até pôster e bilhetinho para mim, ó, queridos.
E os pedidos com dois, ó, Joey Ramone aqui, por exemplo, ou mais livros, tem frete grátis para todo o Brasil. E mais, pela primeira vez, praticamente todo o catálogo da Belas Letras faz parte da campanha, incluindo os livros de cinema e cultura pop. Esses aqui são os únicos que não participam. Como é que faz? Não precisa usar cupom, é só ir no link que tá lá na descrição e é só até o dia 31 de julho.
Não deixa passar, tá? Mas então, tá retomando. O RMM foi descoberto graças ao circuito universitário e ao lançamento independente do compacto Radio Free Europe em 1981 por uma gravadora local. A música virou um fenômeno nas rádios estudantis americanas. Elas eram muito fortes por lá. E aí o selo IRS, uma outra sigla, contratou o quarteto em 82, abrindo caminho pro primeiro disco.
Só que, cara, sempre que alguém contratava uma banda de rock alternativo, era aquela coisa, pô, esses caras tem talento, vamos fazer eles estourarem. E aí a banda falava: “Ah, não, pera aí que a gente é anti mainstream, não vamos seguir as regras do mercado”. E nesse caso o problema era que ninguém entendia o que Michael cantava em muitas músicas.
Os caras do RMs intelectuais no meio de um monte de punk, mas como os punks eles tocavam bem meia boca. E assim como os punks, eles eram anti rockstars. A voz do Michael era um mistério à parte. O cara soltava um murmúrio enigmático. As palavras se misturavam aos instrumentos. Uma entrega vocal abstrata e quase incompreensível que virou marca registrada do grupo, mas jamais iria para o topo das paradas.

Quando a banda foi gravar o álbum de estreia, o produtor decidiu que não ia forçar Skype a cantar do jeito convencional. Falou: “Ah, Dani, se vai assim mesmo”. E aí acabou gerando uma mística em torno da banda. Quem comprou o disco ficava tentando decifrar as letras. E o nome do disco é adivinha? Murmur ou murmúrio, lançado em 83.
Esse disco fugia dos clichê da época e até por isso gerou uma conexão com outros estudantes universitários nerds americanos. E a banda ficou um tempo assim nesse circuito underground universitário, mas cara quando ela é boa, uma hora vai estourar. Seguiram-se cinco álbuns de estúdio e em 87 o RM furou a bolha. A música foi The One I Love, single principal do álbum Document.
A música alcançou a nona posição impulsionada por um rif de guitarra marcante de Peter Buck e uma batida forte e direta. >> [canto] >> This one goes out to the one I love. Esta vai para quem eu amo. Virou dedicatória entre casais nas rádios americanas, mas a letra de Michael escondia uma pegadinha.
Ela fala sobre manipulação, frieza e o uso egoísta da outra pessoa. Muita gente não percebeu. Em seguida, veio It’s the end of the world as we know it. É o fim do mundo como o conhecemos. Os caras decidiram largar a IRS porque eles não estavam distribuindo bem os discos, né? Tinha que chegar na Europa e assinaram com All Warner, que tinha uma estrutura muito maior, uma multinacional e foi lá que eles conquistaram o mundo de vez.
O primeiro lançamento pela Warner foi um divisor de águas, Green, um sucesso comercial que testou a integridade artística da banda. Ao mesmo tempo em que trazia o rock de arena político e barulhento, também tinha experimentos acústicos com bandolin em Youard Everything, cara. De repente, o Warry M era a maior força do rock alternativo mundial.
O Michael continuava escrevendo suas letras oblíquas com bastante ativismo político, mas o auge mesmo chegou em 91. Nesse ano, o RM lançou Out of Time. Uma das ideias era compor músicas com instrumentos não convencionais pro rock daquela época, como violão, órgão e bandolim. Uma das faixas apresentadas pelo grupo causou horror nos caras da Warner. Chamava-se Losing My Religion.
perdendo a minha religião na tradução literal. Primeiro, os caras acharam que movimentos religiosos iriam se voltar contra a banda. Olha só, esses caras são obra do demônio. E depois sabe o que que os caras falaram? Adivinha que história é essa de rock com bandolim? Isso nunca vai colar. Tava todo mundo errado.
O título era uma expressão típica do sul dos Estados Unidos, que significa perder a paciência ou ficar desesperado. A letra fala da angústia de uma paixão não correspondida e a obsessão de tentar decifrar cada gesto do outro. O videoclipe misturou iconografia religiosa fazendo uma brincadeira e também tinha referências à pintura barroca, tornando-se o marco na MTV.
>> Contra todas as expectativas da indústria pra época, a canção chegou ao quarto lugar, ganhou dois Grammy e provou que o rock alternativo podia dominar o topo do pop mundial. Ao mesmo tempo, Michael passava por uma mudança estética nos anos 90. do time do intelectual de cabelos longos. Ele virou um careca performático.
Era um reflexo tanto de sua evolução artística quanto uma libertação pessoal. No início do RM, ele queria ser o antiherói do rock, se escondendo atrás dos seus cabelos, evitando contato com o público e cantando baixo. Só que Stype passou a sofrer com a calvice e em vez de tentar disfarçar, ele raspou a cabeça por completo.
Aquilo funcionou como rito de passagem. O vocalista foi obrigado a assumir seu papel de frontman com presença cênica teatral. Mas o sucesso é um veneno e quando tomado em doses altas pode fazer mal. O RMM não passou impune aos anos 90. Em 92 a banda tentou se reinventar no disco automatic for the People. O grupo sentia todo o peso do sucesso e o cansaço de uma rotina opressiva.
No momento em que o Nirvana e o Grandy abriam outro flanco no rock alternativo, o plano deles era fazer rock pesado, rápido e barulhento. O tiro saiu pela culatra. As músicas não funcionavam. Quanto mais eles tentavam, mais o som saía sem vida, criando um clima de tensão e desânimo no estúdio. Então eles viraram tudo do avesso. Volta pro bandolim, vamos fazer faixas lentas, acústicas e melancólicas.
E é daí que saiu uma obra prima, um disco sombrio sobre mortalidade e perda, com clássicos como Everybody Hurts e Drive. [canto] >> Aliás, Michael e Kurt Ben se aproximaram. A biografia conta que o vocalista do Orem chegou a prestar apoio emocional ao líder do Nirvana pouco antes de ele morrer. Sua carta de despedida em 94 abolou bastante os caras do Rem.
Em 94 saiu Monster, que gerou o último hit 40 nos Estados Unidos. What’s the frequency Kenneth e Bank and Blame? >> >> Mas o que também rolava é que, por exemplo, Peter Buck e Mike Mills começaram a divergir sobre os rumos da banda. Enquanto um queria ser mais experimental e continuar com pé no alternativo, o outro queria fazer rock arena, que é comercial por excelência.
Mas quem saiu não foi nenhum deles, e sim o baterista Bill Barry. Tudo começa em 95, quando Barry desmaiou no palco por causa de um aneurisma cerebral. Ele foi operado, se recuperou, finalizou a turnê e gravou o disco New Adventures in HiFi de 96, um dos mais elogiados da banda, mesmo não tendo vendido tanto.
Só que o cara começou a repensar a vida. Seguindo a estrada com a pressão da indústria e dos fãs, não fazia mais tanto sentido depois de tudo aquilo. O que ele queria mesmo era viver numa fazenda na Geórgia. Bill avisou os caras que estava fora, mas numa boa, só queria parar. Só que tinha um acordo na banda. Se um saísse, a banda tinha que acabar.
Eles cogitaram encerrar o Rem, mas o próprio Batera insistiu: “Negativo, vocês vão ter que continuar, cara”. E assim foi. Quando eles se reuniram para compor sem o baterista, cara, foi uma tortura, porque ao contrário da maior parte das bandas, o Bill era um baterista ativo nas composições. E não só isso, eleva conflitos, mais ou menos como Nick Mason do Pink Floyd.
Uma outra história que eu contei aqui, baseado na biografia dele, também da Belas Letras. O primeiro disco gravado sem bill foi Up de 98 com Single Day Sleeper. Eles vendiam cada vez menos nos Estados Unidos e cada vez mais na Inglaterra, curiosamente, reveal de 2001 produziu um grande hit Imitation of Life.
Naquele ano, o Rocken Real foi o maior show da banda até então, 195.000 pessoas. Será que o RM já tinha morrido? Os caras continuaram por pura teimosia? Olha, se foi isso, foram bem teimosos, porque ainda levou um tempo para terminarem. Nos últimos anos da sua carreira, o Rem enfrentou um desgaste invisível pro público, mas sufocante nos bastidores.
Michael, Peter e Mike começaram a se distanciar, o que atingiu níveis cada vez mais altos nos álbuns Reveal e principalmente Around the Sun de 2004. Nas sessões de gravação, os caras mal se encontravam na sala. Um fazia o seu e embora pro outro fazer o dele. Você tinha um recado para passar? Era repassado pelos produtores e técnicos de som. Drogas. que nada.
O mais próximo que elas afetaram a banda eram as pílulas para dormir que Peter tomava e às vezes o deixavam alucinado. Em 2001, ele ficou tão louco no meio de um voo para Londres misturando os remédios com vinho, que jogou o carrinho de serviço em cima da comissária de bordo.
Teve até que responder na justiça por isso. Então, eram tretas? Não, cara, era cansaço. Stype às vezes não sabia do que escrever. Buck sentia-se sofocado pelo excesso de tecnologia nos estúdios. O disco de 2004 fracassou. A crítica falava que eles eram o Codepuxo. Michael ficou pé da vida. O CD foi puxado por Living New York, que foi top cinco no Reino Unido.
A rotina continuava a mesma, cara. Ah, vamos se juntar. Ah, qual vai ser o conceito desse disco? Quem vai ser o produtor? Quanto tempo vamos gravar? Como é que vai ser o lançamento? Qual vai ser o single? Vamos sair em tornê. E aquilo começou a ficar meio mçante. Eles se reuniram e decidiram que iam fazer só mais dois.
O último show completo do RM foi em 2008 na Cidade do México. Era tê do Accelerate, um disco elogiado. Mas a decisão de fazer só mais dois discos já tinha sido tomada e faltava apenas um. Em 2009, teve a última apresentação deles no Cornig Hall dentro de um tributo ao próprio RM. Quando o último disco Collapse Inter Now saiu em março de 2011, era só uma questão de tempo pra banda parar, mas eles mantiveram segredo e foi só como comunicado que os fãs ficaram sabendo.
Eles juraram que nunca mais iriam se reunir, mas houve uma breve reunião em junho de 2024, quando os quatro tocaram losing my religion numa versão acústica. [canto] Recentemente eles foram vistos aparecendo em shows na cidade de Athens, separadamente, o que alimentou rumores, mas não há nada que sugir a qualquer possibilidade de reunião.
Cara, um caso raríssimo de uma banda que terminou sem brigar, não entrou na justiça e sobretudo não quis virar cover de si mesma, nem ficasse utilizando da nostalgia dos fãs para ganhar dinheiro, como é regra hoje em dia, né? O legado do RM foi levar o rock alternativo ao topo do mundo. Claro, fãs podem debater se eles se venderam ou não, se a fase anos 80 era melhor ou não, mas os caras escreveram bases do rock independente americano, influenciaram Nirvana, Por Jam e Radioh OM também tinha um lado bem politizado, defendiam ideais liberais
progressistas, nem sempre concordavam sobretudo, mas eram unânimes no apoio a candidatos democratas, que às vezes os decepcionavam, além de causas ambientais e direitos humanos. Mas cara, sabe qual foi um dos segredos deles serem amigos? Ainda hoje os caras decidiram dividir os direitos autorais entre todo mundo.
Não tinha aquela parada de, “ah, o Michael faz a letra, então ele recebe mais”. E isso acabou com muitas bandas no exterior e principalmente aqui no Brasil. E nesse caso o RM é um grande exemplo a ser seguido.