O verdadeiro pioneiro do rock brasileiro não foi quem você pensa
Aos 80 anos, ROSEMARY: a mulher que quase foi a voz da Jovem Guarda
Ela estava lá em 22 de agosto de 1965 no palco do Teatro Record em São Paulo, no dia em que nasceu o programa que ia mudar para sempre a música brasileira. Ao lado de Roberto Carlos e Erasmo Carlos subiu ao palco uma cantora loira que a imprensa da época já chamava de fada do I I. Mas o nome que ficou gravado na história oficial da Jovem Guarda não foi o dela.
Décadas depois, o próprio Erasmo Carlos contaria, num depoimento guardado pelo Museu da Imagem e do Somio de Janeiro, porque essa cantora nunca virou a terceira integrante fixa do trio mais famoso da televisão brasileira. E o motivo não teve nada a ver com talento. Teve a ver com um papel assinado numa gravadora meses antes daquele domingo.
O nome dela é Rosemy. E o que você vai descobrir aqui não é a história de uma perdedora. É a de uma mulher que, depois de perder o lugar mais visado da televisão brasileira, construiu sozinha, longe do trio oficial, uma carreira de 60 anos. Uma carreira com um romance secreto, uma apresentação diante de um presidente americano, uma disputa por Carmen Miranda que quase ninguém lembra hoje e uma reinvenção atrás da outra numa indústria que raramente dá segunda chance.
Essa história começa bem antes das câmeras da Record ligarem, numa infância em bom sucesso, com um pai que tocava bandolim e uma irmã que abriu para ela as portas de um estúdio de rádio. Rosemy nasceu no Rio de Janeiro, provavelmente em 7 de dezembro de 1945. Essa é a data mais bem sustentada pelas fontes especializadas. Embora alguns registros posteriores cita em 1946 ou até 47, cresceu em bom sucesso, numa família em que a música e os meios de comunicação não estavam longe.
O pai Romário, tocava bandolinha em casa. A irmã mais velha, Terezinha, trabalhava como garota propaganda e levava a caçula pros ambientes ligados à chacrinha e à rádio, o mesmo universo de auditório, plateia e microfone que definiria o resto da vida dela. Com apenas 8 anos, Rosary já se apresentava no Clube do Guri, um dos programas de calouros mais tradicionais do Rádio Carioca.
Não era uma menina cantarolando numa festa de família. Era uma criança construindo ano após ano uma relação real com estúdio, plateia e microfone. Em 1961, ainda adolescente, gravou seu primeiro disco, Um 78 rotações pela gravadora Chantecler, com o bolero Fala Coração e o Samba também sou mulher. No ano seguinte, já pela Continental, registrou os twists Eu Sei e Reprovada.
O Twist, aquela dança que virou febre mundial no início dos anos 60, chegava ao Brasil quase junto com a adolescência de Rosemy e ela estava lá para gravar em cima da onda, não atrás dela. Depois assinou com a RCA Victor. Em 1963 gravou uma versão de um sucesso italiano associado a Rita Pavon e no ano seguinte lançou seu primeiro LP, Igual a Ti não há ninguém.
Um disco que misturava romantismo, repertório jovem e versões internacionais. Era um Brasil juvenil profundamente conectado aos sucessos europeus do momento. E Rosimery já cantava nessa língua havia anos. Numa entrevista de 2017 já adulta, Rosimeriy voltaria a esse período como parte da própria formação. Aquele contato cedo com estúdios, gravadoras e outros artistas, disse ela, funcionou como uma escola informal.

Uma educação musical que nenhuma sala de aula poderia ter dado. Isso quer dizer uma coisa simples, mas importante para entender o que vem a seguir. Quando a televisão transformou o I em fenômeno nacional, Rosemary não era uma desconhecida escolhida ao acaso. Ela já vinha, fazia anos tentando construir uma carreira sozinha, disco atrás de disco, muito antes de qualquer câmera de televisão ligar.
E é exatamente por isso que o que aconteceu alguns meses depois pesa tanto mais. Porque em 1965, quando a Record montou o programa que ia definir a Jovem Guarda pros próximos 60 anos, o nome de Rosemy esteve literalmente em disputa pelo lugar que a história inteira acabaria guardando para outra mulher. Se você gosta desse tipo de história, de quem quase entrou pra história oficial e do que aconteceu depois, esse é um bom momento para se inscrever aqui no canal e entrar também pro círculo por trás da fama.
A gente conta toda semana os bastidores que a Jovem Guarda Oficial nunca contou. E Rosimeriy é só um exemplo de quantas vozes ficaram de fora. A Jovem Guarda nasceu como resposta brasileira à explosão dos Beatles e do rock internacional. Uma geração inteira de jovens querendo seu próprio som, seu próprio programa, seu próprio jeito de se vestir.
A TV Record apostou tudo nisso e o resultado mudaria a cultura. pop do país pros próximos 60 anos. Quando a TV Record projetou o programa que ia apresentar Roberto Carlos pro Brasil inteiro, faltava definir quem completaria o trio ao lado dele e de Erasmo Carlos. Segundo o próprio Erasmo, em depoimento guardado pelo Museu da Imagem e do Somiro, o nome de Rosimeriy esteve entre os cotados para ocupar esse lugar.
A decisão final”, contou ele, pesou pro lado de Vanderleia, não por talento, mas porque ela já gravava pela CBS, a mesma gravadora de Roberto Carlos, o que facilitava a parceria comercial entre os dois. Uma decisão de contrato ajudou a fixar por décadas a imagem do trio Roberto, Erasmo e Vanderleia como o único rosto oficial da Jovem Guarda.
Faz sentido, dentro da lógica da indústria da época, ter os três artistas na mesma gravadora significava contratos mais simples, promoção casada entre os discos e o programa e menos atrito comercial. Uma decisão de escritório tomada longe das câmeras acabou pesando mais do que qualquer aplauso de plateia.
Vanderleia, do seu lado, cumpriria bem esse papel. Viraria a primeira popstar do país, ditando moda entre as garotas da época. A minissaia que ela usava no programa logo virou febre nacional. Não se trata de comparar talento, é que a máquina só tinha espaço na memória oficial para uma mulher por vez. Mas Rosemy não desapareceu por causa dessa escolha.
O site oficial de Roberto Carlos registra o nome dela entre os artistas que se apresentaram na estreia do programa naquele domingo de 22 de agosto de 1965, às 4 da tarde, no auditório da Record, na rua da Consolação. Em menos de 3 meses, o programa alcançaria cerca de 3 milhões de espectadores só em São Paulo.
Rosimeriy não assistiu de fora essa explosão. Ela esteve na cena inaugural, dividindo o palco com nomes como Os Incríveis, Tony Campelo, Ronicord e a cantora Regina Célia. Décadas depois, em 2021, ela mesma surpreenderia ao rejeitar publicamente o título de Musa da Jovem Guarda. Numa entrevista à Super Rádio Tupi, explicou que não pertencia à aquele núcleo fixo do programa e que quando Roberto e Erasmo se mudaram para São Paulo, seus caminhos profissionais se separaram naturalmente.

As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo. Ela esteve na estreia, mas nunca integrou o grupo estável que definiu o programa pro resto da história. Enquanto a Record construía o fenômeno em São Paulo, Rosemary seguia com contrato ativo na TV Tupi, no Rio, a emissora pioneira da televisão brasileira, ainda com prestígio e audiência próprios naquele momento.
lá apresentou o programa Menina Moça, sobreeção de Eduardo Sydney, e participou de Pissulino e Grande Parada, programas de auditório que, a sua maneira também formavam plateia jovem todo fim de semana. A imprensa da época já tinha um apelido para ela, fada do I, ou simplesmente fada loira, uma imagem forte, fotogênica, perfeitamente compatível com a cultura jovem do momento.
A decisão da Record, portanto, não significou um desterro profissional, significou apenas colocá-la noutro circuito de televisão, tão real quanto da Record, só que sem o mesmo alcance nacional. E foi justamente essa diferença de alcance que, décadas depois acabou decidindo quem a história ia lembrar e quem ia esquecer. A imprensa da época adorava fabricar rivalidades entre cantoras jovens e Rosemy logo seria colocada, goste ou não, numa disputa permanente com Vanderleia.
Pesquisas e reconstruções históricas posteriores já alertaram. Boa parte dessas brigas de revista misturava promoção, fofoca e estratégia de mercado, mais do que animosidade real entre as duas mulheres. Mas havia, no caso delas, algo mais concreto por trás do exagero, porque a história já as tinha colocado literalmente como alternativas pro mesmo posto.
E esse conflito, como você vai ver, teve pelo menos um episódio real e documentado. Quando o I perdeu força no fim dos anos 60, quase todos os artistas daquela geração enfrentaram a mesma pergunta: “O que fazer quando a linguagem que te transformou em ídolo deixa de ser novidade?” Muitos simplesmente sumiram das paradas e da memória popular.
Rosemy escolheu ampliar. O cinema também abriu as portas. Apareceu em Na onda do I de 1966. Adorável trapalhão e opinião pública. Os Dois de 67, Jovens para Frente de 68 e Som amor e Curtição, de 1972. Títulos que juntos mostram uma atriz presente em praticamente toda a comédia jovem que o cinema brasileiro produziu naqueles anos.
Seu papel mais substancial veio com Meus Homens, Meus Amores, em 1978, onde foi uma das protagonistas, não apenas uma aparição musical dos tempos do rock. Anos mais tarde ainda apareceria em Amor, estranho amor de 1982 e em Alô, Alô, Terezinha, já em 2009, uma filmografia que atravessa mais de quatro décadas de cinema brasileiro.
Na metade dos anos 70, sua carreira nos palcos ganhou um novo fôlego com o produtor Abelardo Figueiredo e a casa Obeco, em São Paulo. Um dos points mais concorridos da noite paulistana naquele momento, onde grandes nomes da música se apresentavam para plateias inteiras de pé. O show Rose Rose Rosemary ficou cerca de 8 meses em cartaz e depois viajou pro exterior.
A fórmula estava longe da estética juvenil básica de 1965. Banda completa, coreografia, figurino sofisticado, uma rosemy adulta, show woman, bem diferente da fadinha que a Jovem Guarda tinha vendido ao público. Foi o segundo nascimento profissional dela. Nesse mesmo período, ela se aproximou de uma causa que marcaria parte da sua identidade artística, a memória de Carmen Miranda.
Carmen tinha morrido em 1955, ainda jovem, depois de anos carregando o peso de representar o Brasil lá fora. E 15 anos depois, boa parte do seu acervo pessoal corria risco de se perder por falta de cuidado. A imprensa de 1970 mostrou Rosemary preocupada exatamente com isso, defendendo a criação de um museu dedicado a Carmen e dizendo contar inclusive com a autorização das próprias irmãs da artista para um projeto seu.
Essa mesma causa gerou o episódio de tensão pública mais documentado entre Rosemy e Vanderleia. Uma nota de imprensa da época, publicada sob um título sensacionalista, relatou o desconforto de Rosy diante de notícias de que Vanderleia também prepararia um espetáculo sobre Carmen Miranda.
As duas cantoras, mais uma vez disputando o mesmo espaço simbólico. Mais do que uma simples briga de divas, o episódio misturava competição artística, direitos sobre uma homenagem e um ativismo patrimonial genuíno. Em 1971, Rosemy chegaria a gravar um tributo dedicado a Carmen Miranda e Chiquinha Gonzaga. Carmen Miranda oferecia a Rosemary algo que a Jovem Guarda nunca poderia, um modelo de mulher madura, teatral, com repertório nacional e projeção internacional.
Não foi a última vez que ela buscaria esse tipo de reinvenção e o passo seguinte a levaria ainda mais longe de casa. No fim dos anos 70, Rosemy montou Meu Brasil brasileiro, um espetáculo de grande produção, do tipo que várias estrelas brasileiras da época usavam para tentar conquistar plateias fora do país, misturando samba, teatralidade e uma ideia de brasilidade pensada pro público estrangeiro.
com ele, levou sua carreira para fora do Brasil, circulando por palcos na Europa e nos Estados Unidos. Biografias brasileiras repetem: há décadas que ela chegou a cantar na Casa Branca pro presidente Jimmy Carter. A própria Rosemarry, numa entrevista de 2023 à Rádio Senado, voltou a contar esse convite com detalhes, como um dos pontos altos da carreira.
Existe, porém, um documento contemporâneo que permite precisar essa história com mais rigor. O jornal americano The Washington Post publicou em 20 de maio de 1980 uma reportagem sobre uma recepção na sede da Organização dos Estados Americanos em Washington, com a presença de Jimmy e Rosaline Carter. O texto identifica uma cantora brasileira chamada Rosemy como a atração principal do entretenimento daquela noite.
Descreve o ambiente formal da recepção diplomática e registra até a saudação dela ao presidente americano. Essa apresentação, diante do casal Carter está documentalmente garantida por uma fonte da própria época, independente da memória da própria artista. O que varia entre os relatos é o encadeamento exato dos eventos.
Se além da OEA, houve também uma apresentação separada dentro da Casa Branca. Mas o essencial dessa história não muda com esse detalhe. Uma menina que começou aos 8 anos cantando num clube de bairro do Rio de Janeiro terminou poucas décadas depois se apresentando diante do presidente dos Estados Unidos num salão a milhares de quilômetros de bom sucesso.
Nessa mesma fase de shows internacionais e reconhecimento oficial, Rosemy viveu, longe das câmeras a história mais guardada da sua vida pessoal. Enquanto construía essa carreira internacional, Rosemy viveu em segredo um dos episódios mais marcantes da sua vida pessoal, um relacionamento com Sócrates, capitão da seleção brasileira e uma das figuras mais emblemáticas da história do futebol do país.
Além de ídolo dentro de campo, Sócrates era médico formado em medicina e se tornaria símbolo de um movimento dentro do próprio futebol, a chamada democracia corintiana, que discutia liberdade e participação num momento delicado da história brasileira. Era, em resumo, muito mais do que um jogador famoso, um homem que carregava um magnetismo cultural raro dentro e fora dos gramados.
Ela só falaria publicamente sobre esse relacionamento décadas depois. Em 2016, contou que quando se conheceram, ele era casado com Regina e tinha filhos. Disse que nunca quis pressioná-lo a romper a família e definiu a relação como secreta, um dos momentos mais importantes da sua vida como mulher, nas palavras dela mesma. em 2021, deu mais detalhes numa entrevista à Super Rádio Tupi.
Antes de conhecer Sócrates, havia vivido nos Estados Unidos com outro parceiro, um homem que, segundo ela, queria que abandonasse a carreira por ciúme. Rosemary descreveu aquela exigência como se pedissem para ela abrir mão de uma parte do próprio corpo. Terminou a relação, voltou pro Brasil e passou cerca de do anos concentrada só no trabalho.
Foi então que conheceu Sócrates. O próprio Sócrates confirmou o romance em uma entrevista de 2004, mas falou de uma duração de cerca de 2 anos. Já o relato de Rosemary sugere encontros e reencontros, inclusive depois da passagem dele pela Itália, onde jogou por um time italiano, o que aponta para um vínculo mais longo ou intermitente.
As fontes disponíveis não permitem fechar essa diferença com certeza. O que se sabe dos dois lados da história é que o relacionamento existiu, foi extraconjugal e que Rosemy, décadas depois ainda a descrevia como um dos momentos mais importantes da sua vida. Não foi a única vez que ela escolheu a carreira antes de uma relação.
É um padrão que se repete ao longo da vida dela e talvez seja a chave real para entender uma carreira de 60 anos. Para cada porta que se fechou para Rosemary, houve uma decisão dela e só dela sobre o que fazer em seguida. E foi exatamente essa teimosia em continuar que a manteve, de um jeito ou de outro, sempre por perto dos holofotes, mesmo quando o Brasil parecia ter parado de prestar atenção.
Nos anos 80, Rosimeriy voltou a trabalhar com repertório ligado a Roberto e Erasmo Carlos, com shows como Rosimeriy Paixão e Rosimeriy Mulher. sustentando uma imagem romântica e adulta, bem distante da fadinha de 1965. Em 1985, pousou pra revista Playboy um gesto que, mais do que provocação, funcionava como uma afirmação, a de que ela era dona da própria imagem, décadas depois que a indústria ter decidido por ela que lugar ocupar.
Sua relação com a televisão seguiu sendo decisiva. No início dos anos 90, horas perdidas, entrou na trilha nacional da novela Barriga de Aluguel, como tema de dois personagens centrais, um registro que a Rede Globo mantém até hoje na memória oficial da novela. Ao longo desse tempo todo, Rosemary também construiu uma segunda pertença pública, a estação primeira de Mangueira, uma das escolas de samba mais tradicionais e respeitadas do Rio de Janeiro.
Já no ano 2000 comemorava 20 anos desfilando pela escola. Em 2020, foi destaque de chão do carnaval, personificando a estrela guia, uma das fantasias de maior prestígio dentro de um desfile. E em 2022 voltou a ser citada entre as personalidades da agremiação. Para uma artista associada a um movimento tão marcado por São Paulo e pela cultura jovem dos anos 60, essa presença duradoura em verde e rosa deu a ela uma identidade carioca, popular, atravessando gerações, um pertencimento que nada tinha a ver com o trio que a A Record havia escolhido em seu lugar.
Rosemary também usou sua visibilidade em causas que iam além da própria carreira. campanhas em torno da triagem sorológica em bancos de sangue, apoio a famílias nordestinas carentes e a defesa da chamada PEC da música, uma proposta que buscava garantir mais espaço para música e cultura nacional dentro da educação brasileira.
Nem todas essas causas tiveram o mesmo impacto nem resultado legislativo concreto, mas juntas revelam uma faceta pouco lembrada da carreira dela, a fama usada de tempos em tempos como ferramenta, não só como vitrine. Em 2009, participou de Elas Cantam Roberto Carlos, especial da TV Globo, que reuniu intérpretes de diferentes gerações para comemorar os 50 anos de carreira do rei, ao lado de nomes como Alion, Nana Caime, Marina Lima, Fafá de Belém, Ivete Sangalo e a própria Vanderleia.
Em 2017, depois de anos sem gravar um álbum de estúdio, lançou Ouça o soprar do Vento, o 38º trabalho da carreira, com o título escolhida pelos próprios fãs, uma nova leitura do hino A Bandeira com participações de Ivan Lins, Frejat, Leone e Lularo e uma faixa dedicada especialmente a Roberto Carlos. Em 2023, a rádio Senado dedicou a ela uma entrevista de 54 minutos, revisitando desde a infância até os trabalhos mais recentes.
E no mesmo ano, ela foi fotografada na gravação do especial de fim de ano de Roberto Carlos, ainda ativa, ainda presente. Em dezembro de 2025, a imprensa brasileira comemorou os 80 anos dela. Talvez seja isso que a história de Ros Mary ensina melhor do que que qualquer outra da Jovem Guarda. A memória cultural gosta de simplificar movimentos inteiros até reduzi-los a três ou quatro rostos.
Roberto, Erasmo, Vanderleia, os nomes que qualquer brasileiro reconhece de cabeça. Mas o movimento foi feito por dezenas de artistas, muitos deles tão presentes quanto esses três na época, e a maioria simplesmente não sobreviveu à edição que a história oficial fez depois. A história de Rosemary não é a de uma figura que desapareceu cedo demais, é a de uma sobrevivente de várias transformações do mercado musical brasileiro.
Alguém que, mesmo depois de perder o lugar mais visado da televisão dos anos 60, ainda está aqui, 60 anos depois, sendo lembrada por quem sabe procurar. No fim das contas, a pergunta que abriu esse vídeo já tem resposta. Uma decisão de gravadora, não de talento, decidiu quem seria a terceira voz oficial da Jovem Guarda, mas essa decisão não decidiu quem Rose Mary seria.
Isso ela decidiu sozinha ao longo de 60 anos no cinema, nos palcos, no carnaval, numa causa por Carmen Miranda, em um romance guardado em segredo por décadas e diante de um microfone cantando para um presidente americano. Ela mesma, décadas depois, faria questão de corrigir qualquer um que tentasse chamá-la de musa de um movimento que, segundo ela, nunca foi só um grupo de três pessoas.
E talvez seja exatamente aí que está o verdadeiro legado de Rosemy, não no lugar que ela quase ocupou em 1965, mas em tudo que ela construiu depois, com as próprias mãos, longe daquele palco, cinema, TV tupi, o beco, mangueira, um álbum atrás do outro, uma reinvenção atrás da outra. Se essa história te fez pensar em quantas outras vozes ficaram de fora da versão oficial que a gente conhece da Jovem Guarda, vale a pena conhecer a história também de Vanderleia, a mulher que ocupou o lugar que quase foi de Rosimery e que
carregou o peso e o preço da fama de um jeito que pouca gente conhece. Esse canal existe para contar exatamente isso tipo de história, as que ficaram por trás da fama. Se você chegou até aqui, se inscreve e entra também pro círculo por trás da fama para não perder nenhuma.