OS LUXOS ABSURDOS ABANDONADOS POR MAZZAROPI APÓS SUA MORTE — O IMPÉRIO SECRETO DO JECA

OS LUXOS ABSURDOS ABANDONADOS POR MAZZAROPI APÓS SUA MORTE — O IMPÉRIO SECRETO DO JECA

Você lembra do Mazarope?  Você queria casar, não tinha dinheiro. Juntou dinheiro, agora tem dinheiro e, né? Já não não não dá mais para casar, já tá fora de distribuição.  Aquele jeito de caipira meio desajeitado, o chapéu torto, o chinelo arrastando no chão, tropeçando nas próprias palavras. A gente ria.

 O Brasil inteiro ria. Sua mãe ria. Seu avô ria. Era domingo, sessão da tarde, a família toda na sala e o Jeca ali fazendo a gente esquecer a vida por 1 hora e meia. Pois é, esse mesmo homem de chinelo construiu um império e não é força de expressão, não. A gente tá falando de fazendas com centenas de alqueires de terra, apartamentos em São Paulo, um complexo com hotel, piscina, lago, restaurante e um estúdio de cinema de 1000 m² no interior de Taubaté.

160.000 m² de estrutura. Ele tinha uma cidade do cinema e quase ninguém sabia. E tem mais, quando a Vera Cruz, o maior estúdio de cinema do Brasil na época, quebrou e foi a leilão. Adivinha quem apareceu para comprar metade dos equipamentos? O caipira de Taubaté. O mesmo que a crítica dizia que fazia filme simples demais.

 Só que quando Mazarope morreu em 1981, tudo o que ele construiu ficou ali parado, sem mão firme para segurar. E o que veio depois foi briga na justiça, cofre aberto sem nada dentro, leilão, filmes tirados de circulação e um patrimônio que foi se desmanchando aos poucos. Essa é a história que quase ninguém te contou sobre o Jeca.

 E ela começa muito antes do cinema, lá no interior, onde tudo faz sentido. Masarope nasceu em São Paulo em 1912, mas a alma dele foi moldada no interior, no Vale do Paraíba, entre Taubaté e Tremembé, no meio de festa de roça, viola caipira e gente simples. O tipo de lugar onde todo mundo se conhece, onde o almoço de domingo dura até de tarde e onde criança cresce correndo no terreiro sem sapato no pé.

 Quem viveu o Brasil dos anos 60, 70 conhece esse cenário de perto, ou porque cresceu assim, ou porque ia pra casa do avô no interior e via aquilo tudo acontecendo. O Mazarope não inventou o caipira, ele era o caipira e foi exatamente isso que fez a diferença. ainda adolescente, ele se aproximou do circo e olha que curioso, a registro de que ele falsificou a própria idade para poder se apresentar em números mais ousados, como se fosse adulto, um moleque que já sabia que o palco era o lugar dele, custasse o que

custasse. A partir de 1926, ele entrou de vez no circuito de espetáculos. Viajava pelo interior, montava pavilhão, organizava a própria trupe de teatro Mambembe, aquele teatro de lona que ia de cidade em cidade, com cadeira de madeira e chão de terra batida. Não tinha glamor, não tinha nada de luxo, mas tinha público.

 E foi ali, naquele chão, que ele aprendeu uma coisa que ia carregar pro resto da vida. O que funciona é o que faz o povo rir e aplaudir. Não é o que agrada a crítica. Só que o Maarope não queria ser só artista de circo pelo resto da vida. Em 1946, ele entrou na Rádio Tupi com o programa Rancho Alegre e aí pode acreditar, o Brasil parou para ouvir.

 Na estreia, a emissora recebeu milhares de cartas de ouvintes, milhares. Num tempo em que para mandar uma carta você precisava ir até o correio, comprar envelope, escrever a mão e esperar dias. Mesmo assim o povo escreveu porque aquele humor do Mazarope tocava num lugar que o brasileiro reconhecia como seu.

 A partir de 1950 veio à televisão e ele foi um dos primeiros humoristas a ocupar a TV no Brasil. Programa de auditório, variedades, aquele formato que quem tem mais de 40 anos lembra bem. A TV de antigamente, onde o apresentador olhava pra câmera e parecia que estava falando com você dentro da sua casa.

 O rádio fez dele conhecido, a TV fez dele estrela, mas nenhum dos dois fez dele rico. E foi exatamente aí que ele tomou uma decisão que ninguém do cinema brasileiro tinha tomado antes. No começo dos anos 50, o cinema brasileiro vivia um sonho chamado Vera Cruz, um estúdio grande com estrutura de Hollywood que queria provar que o Brasil sabia fazer cinema de verdade.

 E foi ali que o Mazarop ganhou sua chance na tela grande. protagonizou Sai da frente, depois Nadando em Dinheiro, depois Candinho, filme atrás de filme e o público ia, lotava, o caipira de chinelo enchia as salas como ninguém. Mas tem um detalhe que muda tudo. O Mazarope fazia o filme, o público pagava o ingresso e o dinheiro ia pro estúdio, pro distribuidor, para todo mundo, menos para ele, do jeito que ele achava justo.

 Ele era o rosto do cartaz, a razão pela qual a fila dava volta no quarteirão, mas na hora de dividir ele era só mais um contratado. E aí é que fica interessante, porque em 1958, o Mazarope olhou para essa conta e decidiu que ia mudar o jogo, não ia mais trabalhar pro cinema dos outros, ia fazer o próprio e não foi com investidor, não foi com banco, não foi com um sócio rico.

 Ele vendeu a casa, vendeu o carro, vendeu tudo que podia e com esse dinheiro criou a Pan Filmes, a produtora dele. O primeiro filme da Pan foi de praça e a partir dali ele não era mais só ator, era produtor, distribuidor e dono do negócio inteiro. E isso mesmo que você tá ouvindo. No Brasil dos anos 50 e 60, um homem que veio do circo e do teatro de lona, montou uma operação de cinema completa do roteiro até a sala de exibição.

 ele produzia, ele controlava o lançamento, ele decidia onde o filme ia passar. Num país onde cinema era coisa de estúdio grande e de gente com dinheiro, o caipira de Taubaté fez sozinho o que ninguém tinha feito. E a crítica? A crítica torcia o nariz. achava os filmes simples demais, repetitivos, sem sofisticação.

 Tem quem diga que a crítica tinha razão, que o cinema dele não tinha pretensão artística, mas tem também quem argumente que ele entendia o Brasil melhor do que qualquer intelectual de São Paulo. E aí fica a pergunta para você. O que ninguém discutia era o resultado. Mas era, nas palavras de um jornal da época, a maior bilheteria do cinema nacional.

 E ele mantinha um ritmo que parecia impossível, quase um filme por ano, ano após ano, com público garantido. Só que o Mazarop não era homem de guardar dinheiro no banco e ficar olhando o saldo crescer. Cada ingresso vendido, cada bilheteria recorde. Ele transformava em algo que podia ver e tocar.

 Porque o dinheiro do cinema não ficou no banco, ele virou terra e concreto. Em 1961, o Maarope fez a primeira grande jogada fora do cinema. Comprou a Fazenda da Santa em Taubaté, 184 alqueires de terra. Para você ter uma ideia, isso dá quase 450 haares, uma área maior do que muitos bairros inteiros de cidade grande.

 E não era terra para deixar parada, não. Foi ali que ele montou o primeiro estúdio. O caipira, que o Brasil inteiro conhecia do cinema, agora tinha o próprio pedaço de chão para filmar do jeito que quisesse, na hora que quisesse. E olha que curioso, um jornal do Rio de Janeiro, em 1968 publicou uma matéria que dizia assim: O tipo caipira rendeu a Mazarope fazendas em Taubaté e apartamentos em São Paulo.

Fazendas no plural e apartamentos na capital também no plural. Tudo isso comprado com bilheteria, com ingresso de cinema, com o povo que ia assistir o Jeca e saía da sala rindo. Prepara o coração, porque esse é o tipo de informação que você vai querer mandar para alguém.

 O ator que aparecia na tela de chinelo, bermuda e chapéu de palha colhendo fruta no quintal com aquele jeitão de qualquer homem simples do interior que você já conheceu na vida. Esse mesmo homem era dono de quase 450 haares de terra. Tinha apartamentos na maior cidade da América Latina e ainda por cima era apontado pelo mesmo jornal como a maior bilheteria do cinema nacional.

 Não era empresário de terno, não era herdeiro de família rica, era o jeca. Essa frase sozinha já vale uma mensagem no grupo da família, mas ele não parou na fazenda e nos apartamentos, porque para Mazarope terra e imóvel era bom, mas não era suficiente. Ele queria mais. Queria uma estrutura que desse conta de tudo que ele precisava para continuar fazendo filme no ritmo dele, do jeito dele, sem depender de ninguém.

 E foi aí que ele começou a planejar algo que pra época parecia loucura. Em 1961 mesmo, ali na fazenda da Santa, ele rodou tristeza do Jeca, o primeiro filme dele em cores. E não foi uma produção qualquer. O laboratório de revelação ficava no México. O filme passou em festival televisivo. O homem do interior estava pensando grande, operando com ambição técnica que ia muito além do que qualquer um esperava de um comediante popular.

 A essa altura, Mazarope já não era só um ator engraçado, era um fenômeno econômico. O estado reconhecia isso. Em 1969, os registros mostram que ele recebeu prêmio do Instituto Nacional de Cinema, equivalente a 5% da renda de bilheteria. O próprio governo calculava quanto o Jeca valia e tem mais. No acervo do museu existe um bilhete de Austreésilo, de Ataide, presidente da Academia Brasileira de Letras na época, chamando Mazarope de artista de categoria mundial.

  Enquanto uma parte da crítica de cinema continuava torcendo o nariz, o presidente da Academia de Letras mandava elogio por escrito. Só que tudo isso, a fazenda, os apartamentos, os prêmios, o reconhecimento, era só o começo. Em 1975, ele começou a construir algo que parecia coisa de filme, literalmente.

 Em 1975, Mazarope começou a erguer o que seria a obra mais ambiciosa da vida dele. Não era um filme, era um lugar, um complexo inteiro num bairro rural de Taubaté, com uma dimensão que é difícil de acreditar quando você ouve pela primeira vez. 160.000 m². Para colocar isso em perspectiva, é mais do que 20 campos de futebol lado a lado.

Tudo isso num pedaço do interior de São Paulo, longe de qualquer grande estúdio, longe de qualquer capital do cinema. E era dele, só dele. Mas espera, porque o tamanho é só o começo. Dentro desses 160.000 1000 m². Ele construiu um estúdio de filmagem com 1000 m², 20 apartamentos, restaurante, piscina, lago, alojamentos pra equipe técnica, oficinas de escenografia e carpintaria.

Tudo funcionando ali dentro, como se fosse uma pequena cidade dedicada a fazer cinema. E aí vem o detalhe que muda tudo. Aquilo não era capricho, não era mansão de milionário querendo impressionar visita. Era ferramenta de trabalho. Cada peça daquela estrutura tinha função. O hotel hospedava elenco e equipe.

 As oficinas construíam os cenários. O estúdio filmava, o restaurante alimentava todo mundo, mas AOP tinha montado uma linha de produção completa, do roteiro ao rolo de filme, sem precisar sair de Taubaté. E ele não começou do zero com os equipamentos. Lembra da Vera Cruz, aquele estúdio grande que queria ser a Hollywood brasileira? Pois é, a Vera Cruz quebrou e quando os bens foram a leilão em 1962, adivinha quem apareceu? O Mazarope.

[música] Arrematou metade dos equipamentos. As mesmas câmeras, as mesmas máquinas que tinham sido usadas para tentar fazer cinema de elite no Brasil, agora estavam nas mãos do caipira de Taubaté. E ele usou cada peça. Isso mesmo que você tá ouvindo. O homem que a crítica chamava de simples demais comprou o espolho do estúdio que a crítica adorava.

 Quem visitava o complexo naquela época descreve um lugar que não combinava com nada do que você esperava encontrar no interior paulista dos anos 70. Parecia um resorte, mas funcionava como fábrica. Tinha cara de hotel cinco estrelas. Mas o produto que saía dali era filme popular brasileiro, um atrás do outro, quase todo o ano, com público fiel que já sabia.

 Se tem mazarope no cartaz, pode ir que é bom. E ele circulava ali no meio de tudo isso, do mesmo jeito de sempre, sem frescura, sem ostentação. O mesmo homem que tinha uma estrutura desse tamanho aparecia de chinelo e chapéu fiscalizando o cenário, conversando com o peão, resolvendo o problema de carpintaria.

 Quem conheceu gente do interior sabe exatamente esse tipo. O sujeito que pode ter o que tiver, mas não muda o jeito. Tudo funcionava como uma máquina bem azeitada. Cada filme novo alimentava a estrutura. A estrutura viabilizava o filme seguinte, um ciclo perfeito que parecia que ia durar para sempre, até 1979. A partir de 1979, alguma coisa mudou.

 O Mazarope, que sempre foi aquele homem de energia incansável, que produzia, dirigia, atuava e ainda fiscalizava a obra no estúdio, começou a ficar doente. E não era coisa passageira. O diagnóstico era grave. Mieloma múltiplo, um câncer na medula óssea, o tipo de doença que vai tirando a força devagar, dia após dia, sem pressa e sem piedade.

 Pro público que assistia os filmes dele, nada aparecia. O Jeca continuava nos cartazes, mas por trás da tela, o homem que sustentava tudo aquilo estava definhando. Ele ainda conseguiu lançar um último filme, O Jeca. e a Égua milagrosa. E tinha mais um projeto anunciado para 1981 chamado Maria Tomba Homem. Já tinha roteiro, já tinha plano, mas o filme nunca saiu do papel.

 Em junho de 1981, Amáccio Mazarope foi internado no Hospital israelita Albert Einstein em São Paulo, e não voltou para casa. morreu no dia 13 de junho. A causa imediata foi septicemia, uma infecção generalizada que o corpo já destruído pelo câncer não teve força para combater.

 Foi sepultado em Pindamonhangaba no mesmo jazigo do pai. O Brasil perdeu o Jeca, mas o que veio depois da morte foi tão dramático quanto qualquer roteiro que ele já tinha escrito. E aí começa a parte da história que quase ninguém conta. Quando alguém morre e deixa um patrimônio desse tamanho, fazendas, estúdios, apartamentos, equipamentos, direitos de dezenas de filmes, a primeira coisa que precisa acontecer é o inventário.

 Alguém tem que abrir, contar, organizar e dividir. Só que no caso do Mazarope, essa conta não era simples. Os herdeiros diretos eram dois, a mãe dele, dona Clara, que já era idosa, e o filho adotivo, duas pessoas, um patrimônio enorme e entre esses dois polos, uma tensão que não demorou para virar briga.

 Menos de um ano e meio depois da morte, o Jornal do Brasil publicou uma manchete que diz muita coisa em poucas palavras. Cofre de Mazarope vazio leva curador a pedir que inventariante se afaste. Setembro de 1982, o cofre vazio, o curador pedindo o afastamento do inventariante. Isso é linguagem de crise, de desconfiança, de patrimônio que já começava a escapar por entre os dedos.

 O que exatamente aconteceu com o dinheiro que deveria estar ali? Essa é uma pergunta que até hoje não tem resposta pública documentada. A manchete existe, a matéria foi publicada, mas os detalhes do que se apurou, do que se provou, do que deu em resultado judicial, isso não tá disponível em fonte aberta.

 O que se sabe é o que os fatos mostram. Algo deu muito errado naquele inventário. E enquanto a briga corria na justiça, o que acontecia com tudo que ele tinha construído, com o estúdio, com a fazenda, com os filmes, com os equipamentos? A resposta é simples e dura. Quando ninguém manda, nada funciona.

 Quando não tem uma mão firme segurando, o que era a fábrica começa a virar ruína. O que era a máquina vira sucata. O que era cinema vira silêncio, porque quando ninguém manda, tudo se desfaz. Com a morte de Mazarope e o inventário travado na justiça, o império que ele construiu tijolo por tijolo, começou a se desfazer na mesma velocidade em que foi erguido.

 Só que para baixo tudo vai mais rápido. Os filmes dele, aqueles mesmos filmes que lotavam o cinema em todo o Brasil, simplesmente sumiram de circulação. Não passavam mais na TV, não estavam mais em nenhuma distribuidora. não rodavam em lugar nenhum. O Jeca, que durante décadas foi o rosto mais popular do cinema brasileiro, tinha desaparecido das telas.

 E não foi por falta de público, foi porque ninguém sabia quem tinha o direito de exibir o quê. Pois é, a briga pela herança não travou só imóvel e conta bancária, travou a própria obra. Enquanto mãe e filho adotivo disputavam na justiça, os filmes ficaram ali parados como se nunca tivessem existido. Uma produção inteira engavetada por causa de papel e assinatura.

 Mas espera porque tem mais. Quando a mãe dona Clara faleceu, a disputa ganhou outro capítulo. Sem acordo entre as partes, os bens começaram a ir para leilão. E em 1984 aconteceu o que talvez seja o momento mais simbólico de toda essa história. O complexo de Taubaté, aqueles 160.000 1000 m² com hotel, estúdio, piscina, lago, oficinas, foi arrematado em leilão, tudo junto.

 O sonho inteiro do Mazarope, vendido numa batida de martelo. Quem comprou foi João Roman Júnior, um empresário local. E é justo dizer que se não fosse por ele, talvez aquela estrutura toda tivesse virado estacionamento ou loteamento. Tem quem diga que Roman salvou o patrimônio. Tem quem argumente que o patrimônio nunca deveria ter ido a leilão em primeiro lugar. E aí fica a pergunta para você.

Os filmes só voltaram a circular em 1986, quando uma distribuidora chamada BDF comprou os direitos de distribuição 5 anos. Durante 5 anos, o Brasil ficou sem acesso à obra do maior fenômeno de bilheteria do cinema nacional. 5 anos de silêncio, de tela apagada, de um legado cultural tratado como mercadoria de disputa judicial.

 E o curioso é o que aconteceu com os direitos depois disso, porque até hoje a situação não é simples. Os negativos de boa parte dos filmes estão na cinemateca brasileira em São Paulo, sob guarda técnica, mas os direitos de exibição e comercialização estão divididos. Alguns filmes pertencem ao Instituto e ao Museu Mazarope, que funciona ali no antigo complexo de Taubaté.

 Outros pertencem a outros titulares. É uma colxa de retalhos jurídica que ninguém costurou inteira até hoje. E tem um número que coloca tudo em perspectiva. Pela lei brasileira, os direitos autorais patrimoniais duram 70 anos depois da morte do autor. Mazarope morreu em 1981, faz a conta.

 A obra dele só entra em domínio público em 2052. Até lá, cada filme, cada cena, cada imagem ainda depende de autorização, contrato e negociação. 26 anos ainda até o Jeca ser livre de verdade. Mas essa história tem um último capítulo. Hoje, se você pegar a estrada e for até Taubaté, na estrada Amácio Mazarope, número 249, você ainda encontra o complexo de pé.

 O hotel funciona? A piscina tá lá e dentro daquela estrutura que um dia foi a cidade do cinema do Mazarope, existe um museu criado em 1992 com dezenas de milhares de itens: fotos, objetos, documentos, cenários, figurinos, pedaços de uma vida inteira dedicada a fazer o Brasil rir. Fazenda da Santa, aquela de 184 alqueires, que ele comprou em 1961 também não desapareceu.

 Em 2000, o instituto dedicado à memória dele assumiu a administração da propriedade. Houve restauração, houve projetos educativos. A terra que viu nascer os primeiros filmes do Jeca ainda tá ali guardando o que sobrou daquele tempo. E os filmes, aos poucos, eles voltaram. Seis obras foram digitalizadas num projeto público junto com a cinemateca brasileira.

 Sai da frente nadando em dinheiro. Candinho, Chico Fumaça, chofer praça e Jeca Tatu disponíveis de novo. Depois de anos trancados em disputa em lata enferrujando em prateleira de tribunal, o Jeca voltou a aparecer numa tela. Mas tem uma coisa que precisa ser dita e essa talvez seja a parte mais importante de toda essa história.

 O Mazarope nunca foi um homem de luxo. Os 160.000 m², o hotel, o estúdio, a piscina, o lago, nada daquilo era ostentação. Era a ferramenta de trabalho de um homem que decidiu fazer cinema do jeito dele, no lugar dele, sem pedir autorização para ninguém. Cada tijolo daquela estrutura existia para virar filme.

 Cada apartamento hospedava ator e técnico. Cada oficina construía cenário. O luxo dele era a independência. E talvez seja exatamente por isso que dói tanto ver o que aconteceu depois. Porque quando ele morreu, o que ficou para trás não era uma coleção de caprichos de rico, era uma máquina de produzir cultura popular brasileira. E essa máquina parou, não porque quebrou, mas porque ninguém soube ou quis manter ela funcionando.

 Quem cresceu no Brasil dos anos 60, 70, 80 sabe o que o Maarope representava. Não era só um ator, era o espelho de uma parte do Brasil que a televisão e o cinema de elite nunca souberam mostrar. O caipira, que não era bobo, o simples que não era burro, o homem que ria de si mesmo, mas que no final do filme sempre dava a volta por cima.

Paulo Emílio Sales Gomes, um dos maiores críticos de cinema que esse país já teve, disse que Mazarope atingia o fundo arcaico da sociedade brasileira e atingia mesmo, porque ele não estava falando pra plateia de festival europeu, ele tava falando pra sua mãe, pro seu avô, pro seu vizinho, pro Brasil, que almoçava arroz com feijão no sábado e ia pro cinema no domingo.

 E aí fica a pergunta: “O que você acha que deveria ter acontecido? com o legado do Mazarope, deveria ter ficado nas mãos dos herdeiros do jeito que ficou? Ou o Brasil deveria ter protegido isso como patrimônio público? Me conta nos comentários, deixa o like, se inscreve no canal e no próximo vídeo a gente vai falar de outro império brasileiro que ninguém imaginava que existia. E esse ainda tá de pé, será? M.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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