OS LUXOS DEIXADOS POR BELCHIOR APÓS A SUA MORTE — DOCUMENTÁRIO COMPLETO DO ÍCONE DA MPB
OS LUXOS DEIXADOS POR BELCHIOR APÓS A SUA MORTE — DOCUMENTÁRIO COMPLETO DO ÍCONE DA MPB
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Demais. Você já cantou essa frase? Todo mundo já cantou. Ela tocou em rádio de padaria, em festa de aniversário, em churrasco de domingo. Essa frase acompanha o brasileiro há quase 50 anos.
Quem escreveu foi um rapaz do sertão do Ceará. Cantava na feira quando o menino foi frad cantor. Largou o quarto ano de medicina e foi pro rio de carona num avião do correio aéreo, sem violão, sem dinheiro, dormindo em canteiro de obra. Não quero lhe falar, meu grande amor, as coisas. Esse rapaz virou Belkior, vendeu meio milhão de cópias com um disco só e as músicas dele entraram na casa da gente e não saíram mais.
Eu sei [canto] que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canta [canto] menor do que a vida. Só que aí a história dá uma guinada que ninguém esperava. Um belo dia, no auge da vida, esse homem simplesmente parou. Parou de cantar, parou de atender, parou de aparecer. Moro lugar comum, junto daqui, [canto] chamado Brasil.
Sumiu do mapa por quase 10 anos e o Brasil inteiro perguntando: “Cadê o Belor?” Quando ele morreu, em 2017, veio a pergunta que sempre vem: “O que será que ficou de tudo aquilo?” Quero começar dizendo que não concordo em absoluto com a a posição demonstrada. E aí começou a bagunça. Tem gente que jura que ele deixou uma fortuna escondida.
Tem gente que jura que ele morreu sem um tstão furado. Cada um conta uma versão diferente e ninguém mostra prova nenhuma. Eu fui atrás e o que eu encontrei é bem mais estranho do que as duas versões. Vem comigo. Essa história começa numa casa de esquina em Sobral, numa noite de lua cheia de 1946. Sobral, Ceará, 26 de outubro de 1946, 6 horas da tarde de um sábado, lua cheia no céu.
Numa casa da rua Santo Antônio, dona Mariinha Paiva, a parteira mais conhecida da cidade, a mesma que dizem ter feito o parto do Renato Aragão, traz ao mundo mais um menino. Botaram nele o nome de Antônio Carlos, em homenagem ao compositor que fez o guarani. O sobrenome já era da família Del Kor. Agora presta atenção no tamanho dessa família, porque isso explica muita coisa.
O pai, seu Otávio, era comerciante e juiz de paz, homem respeitado, daqueles que a cidade inteira conhece pelo nome. Tinha a letra mais bonita da região e naquele tempo isso era título, viu? Quem escrevia bonito escrevia os documentos de todo mundo. Seu Otávio teve 23 filhos. 23. Você ouviu direito? Com a dona Dolores, a segunda mulher, foram 11.
E o nosso Antônio Carlos era o 13º da fila toda. Se você cresceu no Brasil dos anos 50 e 60, você sabe o que é uma casa dessas. Panela grande no fogão, prato para todo mundo, roupa passando de irmão para irmão. Ninguém era o centro das atenções porque não dava. Você aprendia cedo que para ser ouvido tinha que ter alguma coisa boa para dizer. E ele tinha.

Dona Dolores cantava no coral da igreja e foi dela que veio a primeira lição de música. O avô tocava flauta e saxofone. Naquela casa som era coisa normal do dia a dia. O menino saiu cantador de feira. Veja bem, chegava na feira e cantava. E era repentista, respondia em verso na hora. Que é aquele dom que ou você tem ou não adianta querer.
Estudou o piano no colégio dos padres, pegou o canto gregoriano, línguas, filosofia. Aos 16 foi paraa Fortaleza estudar. Você já deve estar montando o quadro na cabeça. Menino pobre do interior que estudou e venceu na vida. E não é bem assim. Não era pobre. Era família simples com pai respeitado e livro dentro de casa, que é outra coisa.
Mas o que aconteceu com ele aos 17 anos ninguém adivinha, porque antes de qualquer palco, antes de qualquer disco, esse rapaz entrou num mosteiro e ficou lá dentro 3 anos atendendo por outro nome. Em 1963, o rapaz sobe à serra de Guaramiranga e entra no mosteiro dos capuchinhos, frades italianos. Silêncio.
Rotina rígida, hora marcada para tudo. Deixou de ser Antônio Carlos e passou a atender por Frei Antônio de Sobral, 3 anos ali dentro. Filosofia, latim, os clássicos lidos devagar. Depois foi pra Fortaleza continuar os estudos no convento. E aí, no fim de 66 fez as malas e foi embora. Aquele caminho não era o dele, mas repara numa coisa, nada daquilo se perdeu.
Porque o Bkoris, aquele das letras compridas e cheias de ideia nasce ali. Homem que lia Dante no original, que discutia a filosofia alemã, que sabia mexer nas palavras como quem mexe em ferramenta. Isso não caiu do céu. Isso foi construído em três anos de silêncio na serra. Saiu do convento e foi fazer o que a família queria.
medicina na Federal do Ceará. E o rapaz ia bem, ia muito bem. Só que Fortaleza naquela época estava fervendo. Fim dos anos 60, faculdade cheia de gente jovem, muita conversa, muito violão em roda. E foi aí que ele encontrou a turma dele. Wagner, que era de Oóz, Ednardo, Roger, Rogério, Tete, Amelinha, Fausto Nilo, gentei que tinha ido pra capital estudar e acabou fazendo outra coisa.
A imprensa depois batizou aquele grupo de pessoal do Ceará. Ele estudava de dia e cantava de noite. Festival aqui, programa de rádio ali. Até que veio a hora de escolher. Em 71, no quarto ano de medicina, Belquior larga a faculdade. Quarto ano, pensa comigo, faltando pouco. A família orgulhosa, o diploma quase na mão, a vida resolvida e o rapaz vira as costas para tudo aquilo para ir cantar.
Se você tem filho, você sabe o tamanho dessa conversa em casa. E se você foi esse filho um dia, sabe melhor ainda. Ele pegou o rumo do Rio de Janeiro. E aqui a história fica boa. Foi de carona num voo do Correio Aéreo Nacional, sem passagem, sem dinheiro, sem plano nenhum. Chegou lá, ficou uns dias na casa de um tio, depois foi rodando, sofá de amigo, apartamento emprestado em Copacabana e teve época em que dormiu em obra mesmo.
Construção civil, cimento, andime, um homem culto, quase médico, dormindo em obra para tentar a vida na música. E foi assim, sem violão e sem lugar para dormir, que ele arrumou coragem de encarar a maior cantora do Brasil, ainda em 71, o rapaz, sem endereço fixo, ganha o Festival Universitário da MPB na TV Tupi com Na hora do almoço.
Quem cantou foram Jorginho Teles e Jorge Neri. No centro da sala, diante da mesa, no fundo do prato, comida e tristeza foi o primeiro nome dele numa bolacha de vinil. Bom, mas festival ganha muita gente. Prêmio não paga aluguel e ele nem aluguel tinha. O que muda a vida do homem é outra coisa.
Belquior descobre que eles Regina vai estar num estúdio ensaiando num dia em que também rolava a gravação de Toquinho e Vinícius e ele decide ir lá. Agora imagina a cena. Um cearense magrinho, de voz esquisita, morando em obra, sem violão, sem gravador, sem nada para mostrar, a não ser a boca. E do outro lado, Elise Regina, a maior, a mulher que fazia a gravadora inteira tremer.
Ele chegou e pediu assim, na cara dura, me dá as condições de mostrar minhas músicas e olha o detalhe que só quem conhece Elise entende. Ela deu. Ela ouviu o rapaz e levou Mucoripo com Fagner pro disco dela de 72 Elizando Belor. O Brasil inteiro ouviu. Depois disso, a coisa engrenou. Roberto Carlos gravou, Nelson Gonçalves gravou, Osvaldo Montenegro gravou, mas o golpe de mestre veio em 75 com falso brilhante, aquele espetáculo que virou disco e virou Marco.
Elis pegou duas músicas dele, velha roupa colorida e Como Nossos Pais, como Nossos Pais, na voz da eles, em plena ditadura, virou outra coisa, virou hino. Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo. Gente cantando aquilo com a garganta apertada, entendendo cada palavra sem precisar de explicação. Ele nunca fez pouco disso, viu? Dizia que Eliz descobriu a música dele e reinventou, que o aval dela foi o que abriu tudo.
E aí, com esse crédito na praça, ele entra em estúdio para fazer o disco dele. Só que teve gente na gravadora que não queria esse disco de jeito nenhum. O problema era a voz, aquele jeito anasalado, meio arrastado, que não parecia com nada que tocava no rádio. Ouviu e torceu o nariz. Isso não vende, ninguém vai querer ouvir.
Quem bancou foi André Midani, o presidente da gravadora. bateu o pé e mandou gravar. Junho de 76, sai a alucinação. Capa com aquela foto solarizada do Januário Garcia. Produção do Marco Mazola. Dentro, uma sequência de música que até hoje ninguém explica direito como saiu tudo de uma vez só. Apenas um rapaz latino-americano, como nossos pais, velha roupa colorida, sujeito de sorte a palo seco, fotografia 3×4, 30.
000 1 cópias no primeiro mês e passou de meio milhão no total. Meio milhão de discos numa época sem streaming, sem internet, sem nada. Cada cópia dessas foi alguém entrando numa loja, tirando o dinheiro do bolso e levando para casa. O rapaz que dormia em obra tinha virado ídolo nacional. E é justamente aí, com o Brasil na mão, que a vida dele começa a tomar um rumo que ninguém, nem os amigos mais próximos, conseguiu prever.
Depois de alucinação, Belkior virou outra coisa. Os parceiros de estrada descrevem ele como máquina. E não é força de expressão, não. Teve noite de fazer três shows. Três. Descia de um palco, entrava no carro, subia em outro. Jorge Melo, que trabalhou anos com ele, resume assim: era um homem completamente entregue à carreira.
Veio coração selvagem em 77. Era uma vez um homem e o seu tempo em 79, paraíso em 82 e foi emendando praticamente um disco por ano até virar o século. Ele circulava com Caetano, com Chico, com Gil, com Rita ali, com Zé Ramalho, né? Estava na TV, estava no festival, estava no rádio, passou por gravadora grande, teve até selo próprio.
E aí vem a pergunta que você já deve estar fazendo aí do outro lado. Quanto será que esse homem juntou? É uma pergunta justa. Cara que vendeu meio milhão de cópias, que teve música gravada por Eliz, por Roberto Carlos, que rodou o Brasil 25 anos em cima de palco, a conta na cabeça da gente fecha sozinha, ganhou muito.
Só que aqui a história trava porque não existe, nunca apareceu. Não tem documento, não tem declaração, não tem cifra confiável em lugar nenhum sobre quanto o Belkior faturou na vida. O que tem é gente falando. Tem site por aí que fala em a fortuna milionária, patrimônio escondido.
Naquela conversa tem quem jure o contrário, que ele nunca viu dinheiro de verdade. Cada um conta uma versão e ninguém mostra um papel. E olha só a ironia dessa história. O único número sólido que apareceu não apareceu no auge, apareceu depois, muitos anos depois, quando ele já tinha sumido do mapa e a justiça foi mexer nas contas dele.
Aí descobriram que as músicas do Belkor estavam rendendo por volta de R$ 40.000 por mês, todo mês direitinho, R$ 40.000 mensais, salário de diretor de empresa pingando sem parar. Só que ele não podia encostar naquele dinheiro, estava tudo bloqueado. Guarda isso na cabeça, porque quando a gente chegar lá na frente, esse detalhe vira a coisa mais estranha da história toda.
Agora volta comigo para meados dos anos 2000, porque foi aí, num atelier de artista plástico em São Paulo, que Belkior conheceu uma mulher e dali pra frente nada mais foi igual. 200526 São Paulo, Ateliê do Aldemir Martins, um dos grandes da pintura brasileira. É lá que Belquior conhece Edna Assunção de Araújo, produtora cultural, gente do meio das artes.
E o negócio pegou fogo rápido, só que tinha um detalhe. Belki era casado com Angela havia 35 anos. 35. dois filhos criados, uma vida inteira construída junto. Ele terminou e não terminou só o casamento, foi se afastando dos filhos, dos irmãos, dos amigos de estrada, um por um. No fim de 2006, liga pro empresário e dá o recado: “Para de marcar show, não quero mais”.
O motivo que ele deu queria pintar e queria terminar uma tradução da Divina Comédia do Dante para uma linguagem que o brasileiro comum entendesse. Pensa nisso um segundo. O homem estava trocando o palco por Dante Aliguieri. 2007. A família diz que perdeu o contato de vez. Último telefonema, última notícia, 2008. E a coisa desanda.
Angela entra na justiça cobrando R$ 7.000 de pensão. Ele não paga. Tem outra filha em São Carlos com pensão atrasada também, não paga. E é em outubro desse ano que acontece a cena que ficou marcada. Melor estaciona um carro no aeroporto de Congonhas, um Hyundai Sonata e vai embora. Simplesmente vai embora, não volta para buscar.
O carro ficou lá semana, mês, ano. Quando os jornalistas foram atrás, a dívida de estacionamento já passava de R$ 18.000. R$ 18.000 R$ 1.000 de estacionamento, só de deixar o carro parado. Março de 2009, ele deixa o flat em São Paulo sem pagar os últimos meses. E o que ficou para trás naquela mudança é de embrulhar o estômago.
O segundo carro, um Mercedes largado na garagem ao lado. Roupa, rascunho de música, cartão de crédito, documento, o passaporte, o computador com a tradução do Dante, anos de trabalho ali dentro e os quadros. Belkior tinha uma coleção guardada da naquela casa que servia de atelier.
Obra dele, obra dos outros. A casa foi lacrada e ficou fechada. Quando abriram, a humidade tinha comido tudo. Anos de pintura, telas que ninguém nunca mais vai ver. Apodrecendo dentro de uma casa trancada em São Paulo, enquanto o dono já estava do outro lado da fronteira, porque foi para lá que ele foi, Uruguai, com Edna. E aqui a coisa vira novela nacional.
O Brasil percebe que Belquior sumiu e vira febre. Cadê o Belquior? Em todo canto. A internet, que naquela época estava começando a dar as caras, não perdoou. Botaram ele na ilha do Lost, botaram ele na capa de disco dos Beatles. Cada dia aparecia uma.
Enquanto o país ria, dois mandados de prisão eram expedidos contra ele. As contas bloqueadas. Todo mundo achava que ninguém ia achar aquele homem nunca mais. Só que aí o Fantástico foi atrás e achou. Agosto de 2009, domingo à noite. Você provavelmente estava em casa jantando na frente da TV quando aquilo entrou no ar. A repórter Sônia Brid tinha encontrado Belquior numa cidadezinha do Uruguai chamada San Gregório de Polanco, lugar pequeno, longe de tudo.
E aí vem a parte que ninguém esperava. Ele não fugiu da câmera, não se escondeu, não fez cara de quem foi pego, deu entrevista, falou com calma e disse que não tinha assumido coisa nenhuma. em São Paulo. Adição do Fantástico passou quatro semanas te procurando, não conseguiu te achar. Evidentemente eu tava aqui.
Mas eu vivo em São Paulo. Estava descansando, compondo, pensando na vida, trabalhando num projeto novo, traduzindo música pro espanhol. Prometeu o disco de inéditas, prometeu voltar aos palcos. Falava como quem estava de férias, não como quem estava foragido. Agora, quem viu aquilo em casa ficou dividido, porque de um lado tinha um homem lúcido, tranquilo, dono do próprio nariz.
Do outro tinha filho sem pensão, gente processando, mandado de prisão na mesa do delegado. Os dois quadros eram verdade ao mesmo tempo e é isso que torna essa história difícil de julgar. Ele continuou rodando Monte Videl, colonia Del Sacramento e depois Artigas lá na fronteira. Ficou hospedado num hotel cassino e saiu devendo por volta de R$ 35.000.
O hotel deu queixa na polícia, aconteceu parecido no Rio. Aconteceu em São Paulo, 2013 e ele reaparece, dessa vez em Porto Alegre. foi bater na porta da Defensoria Pública aquele homem, o autor de Como Nossos Pais, procurando Defensoria Pública. Chegaram a vê-lo entrando num prédio de bairro de classe média, com uma malinha na mão e material de pintura debaixo do braço.
Quem segurou a barra foram fãs e um advogado, o Jorge Cabral, que abriu a casa dele. Belkior passou uma temporada num sítio em Guaíba. E o que ele fez lá é a parte mais bonita disso tudo. Não bebia, não comia carne vermelha, tomava chá, caminhava, cuidava das ovelhas. Lia, lia muito. Foram uns 40 livros naquele período.
Escrevia sem parar, tanto que gastou duas canetas até o fim. Duas canetas. Pensa no tanto de papel que isso dá. Quem conviveu com ele jura: não era depressão, não era loucura, não era senilidade. O homem estava inteiro, escrevia música nova, tinha mais de 20 prontas, só que cantar ele não cantava e quando insistiam respondia com uma frase que diz tudo sobre aquele sujeito.
Dentista não sai no meio da rua fazendo canal. Agora eu preciso que você fique comigo nos próximos minutos, porque é aqui que essa história vira do avesso. E a pergunta que abriu esse vídeo começa a ganhar resposta. Chegou a hora de colocar as duas versões na mesa. E eu vou te contar as duas com o mesmo peso, porque as duas existem de verdade. Começa pela que dói.
Tinha filho esperando pensão que não chegava. A dívida com Ângela juntou uns R$ 300.000, com a filha de São Carlos, uns R 90.000. Hotel cobrando na justiça, mais 47.000. e ainda tinha um processo trabalhista movido pelo ex-secretário dele, o Célio Silva, com condenação de 1 milhão deais, dois mandados de prisão, contas bloqueadas, apartamento em execução.
E tem uma coisa que pesa mais que dinheiro. Em 2011, morreu dona Dolores, a mãe, a mulher que ensinou aquele menino a cantar. Ele não foi ao enterro. Quem é filho sabe o que isso significa. Não tem como não sentir. Agora há outra versão. E ela também é verdade. Em 2009, a General Motors ofereceu um cachê milionário para ele fazer um comercial.
Dinheiro na mesa resolvia metade dos problemas dele de uma atacada. Ele disse não. Um homem endividado, com a justiça no pé, recusando dinheiro grande para não vender o nome. Isso não é comportamento de golpista. golpista pega o dinheiro e ele nunca pousou de vítima, nunca deu entrevista chorando, nunca pediu vaquinha, nunca culpou ninguém, vivia de favor e não reclamava de nada sobre a Edna.
Então, a discussão nunca acabou. Tem amigo dele que diz até hoje com todas as letras que ela fez lavagem cerebral naquele homem, que a vida dele só andou para trás depois que os dois se conheceram. Tem outro que diz o contrário. O artista plástico José Roberto Aguilar, por exemplo, via ali dois sonhadores que juntaram as utopias e resolveram viver do jeito deles.
Quem tem razão? Sinceramente, ninguém sabe e provavelmente ninguém vai saber nunca. Mas o detalhe mais estranho de toda essa história é outro e é esse aqui. Lembra dos R$ 40.000 por mês que as músicas dele rendiam? Aquele dinheiro continuou entrando o tempo todo, enquanto ele dormia em sítio emprestado, enquanto pegava fiado em hotel, enquanto tomava chá e dando de ovelha no interior gaúcho, como nossos pais, tocava em rádio de todo canto do Brasil e virava dinheiro no nome dele. Só que estava tudo travado
pela justiça. Belkior passou os últimos anos da vida sendo um homem que gerava renda todo mês e não podia tocar nela. rico no papel, sem um tstão no bolso. E foi assim, nessa situação que ele chegou ao lugar onde tudo terminou. Santa Cruz do Sul, interior do Rio Grande do Sul, uma casa de dois andares confortável, emprestada por um empresário jovem que virou fã.
Foi ali que Belquior passou o último ano e pouco da vida, ao lado de Edna. Meditava, escrevia, desenhava, andava na rua sem ninguém reconhecer. Madrugada, de 30 de abril de 2017, ele foi dormir ouvindo música clássica e não acordou mais, 70 anos, rompimento da horta, morte natural, dormindo. O Brasil acordou no domingo com a notícia.
Camilo Santana, governador do Ceará, decretou três dias de luta oficial e mandou trazer o corpo para casa. E aí aconteceu uma coisa que quem viu não esquece. Velaram ele no Teatro São João em Sobral de manhã à tarde, no Dragão do Mar em Fortaleza. Passaram mais de 11.000 pessoas nos dois velórios. 11.000 para um homem que passou 10 anos fugindo de gente.
Foi enterrado no dia 2 de maio no mesmo jazigo do pai e da mãe. E agora a pergunta que abriu esse vídeo. O que ficou? De bem material? Quase nada. Os carros foram parar em depósito público com dívida maior que o valor deles. O apartamento penhorado, os quadros comidos pela humidade, as roupas foram doadas. Teve inventário, sim, mas número nunca apareceu, nem naquela época, nem hoje.
Quem fala em fortuna está chutando. A Edna sumiu de novo. A família precisou intimar ela judicialmente para tratar do inventário. E em fevereiro de 2018, ela ficou de fora das decisões sobre a obra. Foi embora sem cobrar nada. Falam até de uma maleta de couro preta com as últimas criações dele dentro.
Uns dizem que ficou com ela, outros que se perdeu. Até hoje ninguém achou. Mas tem uma coisa que nenhum oficial de justiça conseguiu penhorar. 218 músicas, 348 gravações registradas. Como Nossos Pais, é a música dele mais tocada e mais regravada do Brasil. E continua sendo. Isso rende e vai render pros filhos dele até por volta de 2087.
Tem mais de 30 músicas inéditas guardadas com Jorge Melo. Tem sete letras que apareceram no Arquivo Nacional dentro de Papel da Censura. E tem uma geração que nem era nascida cantando ele hoje. O hemicida pegou sujeito de sorte e colocou em amarelo. Os moços descobriram Belkior sozinhos. Belkior escreveu que morreu o ano passado, mas nesse ano não morre.
Ele fez essa frase aos 29 anos. sem imaginar que ela ia explicar a própria vida dele. Porque o homem foi embora de tudo aquilo que a gente costuma achar que é a vida da gente. Carro, casa, palco, aplauso, dinheiro no banco, tudo isso ele largou e tudo isso apodreceu, foi penhorado ou virou dívida.
Só que a música ficou ficou na sua casa, na minha, no rádio, no violão do vizinho, na garganta de um menino de 20 anos que nem sabe direito quem foi esse cearense. No fim das contas, é isso que fica de qualquer um da gente. Não é o que a gente junta, é o que a gente deixa na vida dos outros.
E nisso, meu amigo, o rapaz de Sobral foi rico como poucos. Agora eu quero saber de você. Belkior fugiu da vida ou escolheu a vida dele? Escreve aí embaixo: “Um, foi irresponsável com quem dependia dele. Dois, foi corajoso. Largou tudo e viveu do jeito que quis.” Ou três, foi um pouco dos dois. Deixa seu like e se inscreve no canal que ajuda demais.
E se essa história te tocou de alguma forma, manda para alguém que também cresceu ouvindo Belkior. Um abraço e até a próxima.
OS LUXOS DEIXADOS POR BELCHIOR APÓS A SUA MORTE — DOCUMENTÁRIO COMPLETO DO ÍCONE DA MPB – YouTube
Transcripts:
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Demais. Você já cantou essa frase? Todo mundo já cantou. Ela tocou em rádio de padaria, em festa de aniversário, em churrasco de domingo. Essa frase acompanha o brasileiro há quase 50 anos.
Quem escreveu foi um rapaz do sertão do Ceará. Cantava na feira quando o menino foi frad cantor. Largou o quarto ano de medicina e foi pro rio de carona num avião do correio aéreo, sem violão, sem dinheiro, dormindo em canteiro de obra. Não quero lhe falar, meu grande amor, as coisas. Esse rapaz virou Belkior, vendeu meio milhão de cópias com um disco só e as músicas dele entraram na casa da gente e não saíram mais.
Eu sei [canto] que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canta [canto] menor do que a vida. Só que aí a história dá uma guinada que ninguém esperava. Um belo dia, no auge da vida, esse homem simplesmente parou. Parou de cantar, parou de atender, parou de aparecer. Moro lugar comum, junto daqui, [canto] chamado Brasil.
Sumiu do mapa por quase 10 anos e o Brasil inteiro perguntando: “Cadê o Belor?” Quando ele morreu, em 2017, veio a pergunta que sempre vem: “O que será que ficou de tudo aquilo?” Quero começar dizendo que não concordo em absoluto com a a posição demonstrada. E aí começou a bagunça. Tem gente que jura que ele deixou uma fortuna escondida.
Tem gente que jura que ele morreu sem um tstão furado. Cada um conta uma versão diferente e ninguém mostra prova nenhuma. Eu fui atrás e o que eu encontrei é bem mais estranho do que as duas versões. Vem comigo. Essa história começa numa casa de esquina em Sobral, numa noite de lua cheia de 1946. Sobral, Ceará, 26 de outubro de 1946, 6 horas da tarde de um sábado, lua cheia no céu.
Numa casa da rua Santo Antônio, dona Mariinha Paiva, a parteira mais conhecida da cidade, a mesma que dizem ter feito o parto do Renato Aragão, traz ao mundo mais um menino. Botaram nele o nome de Antônio Carlos, em homenagem ao compositor que fez o guarani. O sobrenome já era da família Del Kor. Agora presta atenção no tamanho dessa família, porque isso explica muita coisa.
O pai, seu Otávio, era comerciante e juiz de paz, homem respeitado, daqueles que a cidade inteira conhece pelo nome. Tinha a letra mais bonita da região e naquele tempo isso era título, viu? Quem escrevia bonito escrevia os documentos de todo mundo. Seu Otávio teve 23 filhos. 23. Você ouviu direito? Com a dona Dolores, a segunda mulher, foram 11.
E o nosso Antônio Carlos era o 13º da fila toda. Se você cresceu no Brasil dos anos 50 e 60, você sabe o que é uma casa dessas. Panela grande no fogão, prato para todo mundo, roupa passando de irmão para irmão. Ninguém era o centro das atenções porque não dava. Você aprendia cedo que para ser ouvido tinha que ter alguma coisa boa para dizer. E ele tinha.
Dona Dolores cantava no coral da igreja e foi dela que veio a primeira lição de música. O avô tocava flauta e saxofone. Naquela casa som era coisa normal do dia a dia. O menino saiu cantador de feira. Veja bem, chegava na feira e cantava. E era repentista, respondia em verso na hora. Que é aquele dom que ou você tem ou não adianta querer.
Estudou o piano no colégio dos padres, pegou o canto gregoriano, línguas, filosofia. Aos 16 foi paraa Fortaleza estudar. Você já deve estar montando o quadro na cabeça. Menino pobre do interior que estudou e venceu na vida. E não é bem assim. Não era pobre. Era família simples com pai respeitado e livro dentro de casa, que é outra coisa.
Mas o que aconteceu com ele aos 17 anos ninguém adivinha, porque antes de qualquer palco, antes de qualquer disco, esse rapaz entrou num mosteiro e ficou lá dentro 3 anos atendendo por outro nome. Em 1963, o rapaz sobe à serra de Guaramiranga e entra no mosteiro dos capuchinhos, frades italianos. Silêncio.
Rotina rígida, hora marcada para tudo. Deixou de ser Antônio Carlos e passou a atender por Frei Antônio de Sobral, 3 anos ali dentro. Filosofia, latim, os clássicos lidos devagar. Depois foi pra Fortaleza continuar os estudos no convento. E aí, no fim de 66 fez as malas e foi embora. Aquele caminho não era o dele, mas repara numa coisa, nada daquilo se perdeu.
Porque o Bkoris, aquele das letras compridas e cheias de ideia nasce ali. Homem que lia Dante no original, que discutia a filosofia alemã, que sabia mexer nas palavras como quem mexe em ferramenta. Isso não caiu do céu. Isso foi construído em três anos de silêncio na serra. Saiu do convento e foi fazer o que a família queria.
medicina na Federal do Ceará. E o rapaz ia bem, ia muito bem. Só que Fortaleza naquela época estava fervendo. Fim dos anos 60, faculdade cheia de gente jovem, muita conversa, muito violão em roda. E foi aí que ele encontrou a turma dele. Wagner, que era de Oóz, Ednardo, Roger, Rogério, Tete, Amelinha, Fausto Nilo, gentei que tinha ido pra capital estudar e acabou fazendo outra coisa.
A imprensa depois batizou aquele grupo de pessoal do Ceará. Ele estudava de dia e cantava de noite. Festival aqui, programa de rádio ali. Até que veio a hora de escolher. Em 71, no quarto ano de medicina, Belquior larga a faculdade. Quarto ano, pensa comigo, faltando pouco. A família orgulhosa, o diploma quase na mão, a vida resolvida e o rapaz vira as costas para tudo aquilo para ir cantar.
Se você tem filho, você sabe o tamanho dessa conversa em casa. E se você foi esse filho um dia, sabe melhor ainda. Ele pegou o rumo do Rio de Janeiro. E aqui a história fica boa. Foi de carona num voo do Correio Aéreo Nacional, sem passagem, sem dinheiro, sem plano nenhum. Chegou lá, ficou uns dias na casa de um tio, depois foi rodando, sofá de amigo, apartamento emprestado em Copacabana e teve época em que dormiu em obra mesmo.
Construção civil, cimento, andime, um homem culto, quase médico, dormindo em obra para tentar a vida na música. E foi assim, sem violão e sem lugar para dormir, que ele arrumou coragem de encarar a maior cantora do Brasil, ainda em 71, o rapaz, sem endereço fixo, ganha o Festival Universitário da MPB na TV Tupi com Na hora do almoço.
Quem cantou foram Jorginho Teles e Jorge Neri. No centro da sala, diante da mesa, no fundo do prato, comida e tristeza foi o primeiro nome dele numa bolacha de vinil. Bom, mas festival ganha muita gente. Prêmio não paga aluguel e ele nem aluguel tinha. O que muda a vida do homem é outra coisa.
Belquior descobre que eles Regina vai estar num estúdio ensaiando num dia em que também rolava a gravação de Toquinho e Vinícius e ele decide ir lá. Agora imagina a cena. Um cearense magrinho, de voz esquisita, morando em obra, sem violão, sem gravador, sem nada para mostrar, a não ser a boca. E do outro lado, Elise Regina, a maior, a mulher que fazia a gravadora inteira tremer.
Ele chegou e pediu assim, na cara dura, me dá as condições de mostrar minhas músicas e olha o detalhe que só quem conhece Elise entende. Ela deu. Ela ouviu o rapaz e levou Mucoripo com Fagner pro disco dela de 72 Elizando Belor. O Brasil inteiro ouviu. Depois disso, a coisa engrenou. Roberto Carlos gravou, Nelson Gonçalves gravou, Osvaldo Montenegro gravou, mas o golpe de mestre veio em 75 com falso brilhante, aquele espetáculo que virou disco e virou Marco.
Elis pegou duas músicas dele, velha roupa colorida e Como Nossos Pais, como Nossos Pais, na voz da eles, em plena ditadura, virou outra coisa, virou hino. Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo. Gente cantando aquilo com a garganta apertada, entendendo cada palavra sem precisar de explicação. Ele nunca fez pouco disso, viu? Dizia que Eliz descobriu a música dele e reinventou, que o aval dela foi o que abriu tudo.
E aí, com esse crédito na praça, ele entra em estúdio para fazer o disco dele. Só que teve gente na gravadora que não queria esse disco de jeito nenhum. O problema era a voz, aquele jeito anasalado, meio arrastado, que não parecia com nada que tocava no rádio. Ouviu e torceu o nariz. Isso não vende, ninguém vai querer ouvir.
Quem bancou foi André Midani, o presidente da gravadora. bateu o pé e mandou gravar. Junho de 76, sai a alucinação. Capa com aquela foto solarizada do Januário Garcia. Produção do Marco Mazola. Dentro, uma sequência de música que até hoje ninguém explica direito como saiu tudo de uma vez só. Apenas um rapaz latino-americano, como nossos pais, velha roupa colorida, sujeito de sorte a palo seco, fotografia 3×4, 30.
000 1 cópias no primeiro mês e passou de meio milhão no total. Meio milhão de discos numa época sem streaming, sem internet, sem nada. Cada cópia dessas foi alguém entrando numa loja, tirando o dinheiro do bolso e levando para casa. O rapaz que dormia em obra tinha virado ídolo nacional. E é justamente aí, com o Brasil na mão, que a vida dele começa a tomar um rumo que ninguém, nem os amigos mais próximos, conseguiu prever.
Depois de alucinação, Belkior virou outra coisa. Os parceiros de estrada descrevem ele como máquina. E não é força de expressão, não. Teve noite de fazer três shows. Três. Descia de um palco, entrava no carro, subia em outro. Jorge Melo, que trabalhou anos com ele, resume assim: era um homem completamente entregue à carreira.
Veio coração selvagem em 77. Era uma vez um homem e o seu tempo em 79, paraíso em 82 e foi emendando praticamente um disco por ano até virar o século. Ele circulava com Caetano, com Chico, com Gil, com Rita ali, com Zé Ramalho, né? Estava na TV, estava no festival, estava no rádio, passou por gravadora grande, teve até selo próprio.
E aí vem a pergunta que você já deve estar fazendo aí do outro lado. Quanto será que esse homem juntou? É uma pergunta justa. Cara que vendeu meio milhão de cópias, que teve música gravada por Eliz, por Roberto Carlos, que rodou o Brasil 25 anos em cima de palco, a conta na cabeça da gente fecha sozinha, ganhou muito.
Só que aqui a história trava porque não existe, nunca apareceu. Não tem documento, não tem declaração, não tem cifra confiável em lugar nenhum sobre quanto o Belkior faturou na vida. O que tem é gente falando. Tem site por aí que fala em a fortuna milionária, patrimônio escondido.
Naquela conversa tem quem jure o contrário, que ele nunca viu dinheiro de verdade. Cada um conta uma versão e ninguém mostra um papel. E olha só a ironia dessa história. O único número sólido que apareceu não apareceu no auge, apareceu depois, muitos anos depois, quando ele já tinha sumido do mapa e a justiça foi mexer nas contas dele.
Aí descobriram que as músicas do Belkor estavam rendendo por volta de R$ 40.000 por mês, todo mês direitinho, R$ 40.000 mensais, salário de diretor de empresa pingando sem parar. Só que ele não podia encostar naquele dinheiro, estava tudo bloqueado. Guarda isso na cabeça, porque quando a gente chegar lá na frente, esse detalhe vira a coisa mais estranha da história toda.
Agora volta comigo para meados dos anos 2000, porque foi aí, num atelier de artista plástico em São Paulo, que Belkior conheceu uma mulher e dali pra frente nada mais foi igual. 200526 São Paulo, Ateliê do Aldemir Martins, um dos grandes da pintura brasileira. É lá que Belquior conhece Edna Assunção de Araújo, produtora cultural, gente do meio das artes.
E o negócio pegou fogo rápido, só que tinha um detalhe. Belki era casado com Angela havia 35 anos. 35. dois filhos criados, uma vida inteira construída junto. Ele terminou e não terminou só o casamento, foi se afastando dos filhos, dos irmãos, dos amigos de estrada, um por um. No fim de 2006, liga pro empresário e dá o recado: “Para de marcar show, não quero mais”.
O motivo que ele deu queria pintar e queria terminar uma tradução da Divina Comédia do Dante para uma linguagem que o brasileiro comum entendesse. Pensa nisso um segundo. O homem estava trocando o palco por Dante Aliguieri. 2007. A família diz que perdeu o contato de vez. Último telefonema, última notícia, 2008. E a coisa desanda.
Angela entra na justiça cobrando R$ 7.000 de pensão. Ele não paga. Tem outra filha em São Carlos com pensão atrasada também, não paga. E é em outubro desse ano que acontece a cena que ficou marcada. Melor estaciona um carro no aeroporto de Congonhas, um Hyundai Sonata e vai embora. Simplesmente vai embora, não volta para buscar.
O carro ficou lá semana, mês, ano. Quando os jornalistas foram atrás, a dívida de estacionamento já passava de R$ 18.000. R$ 18.000 R$ 1.000 de estacionamento, só de deixar o carro parado. Março de 2009, ele deixa o flat em São Paulo sem pagar os últimos meses. E o que ficou para trás naquela mudança é de embrulhar o estômago.
O segundo carro, um Mercedes largado na garagem ao lado. Roupa, rascunho de música, cartão de crédito, documento, o passaporte, o computador com a tradução do Dante, anos de trabalho ali dentro e os quadros. Belkior tinha uma coleção guardada da naquela casa que servia de atelier.
Obra dele, obra dos outros. A casa foi lacrada e ficou fechada. Quando abriram, a humidade tinha comido tudo. Anos de pintura, telas que ninguém nunca mais vai ver. Apodrecendo dentro de uma casa trancada em São Paulo, enquanto o dono já estava do outro lado da fronteira, porque foi para lá que ele foi, Uruguai, com Edna. E aqui a coisa vira novela nacional.
O Brasil percebe que Belquior sumiu e vira febre. Cadê o Belquior? Em todo canto. A internet, que naquela época estava começando a dar as caras, não perdoou. Botaram ele na ilha do Lost, botaram ele na capa de disco dos Beatles. Cada dia aparecia uma.
Enquanto o país ria, dois mandados de prisão eram expedidos contra ele. As contas bloqueadas. Todo mundo achava que ninguém ia achar aquele homem nunca mais. Só que aí o Fantástico foi atrás e achou. Agosto de 2009, domingo à noite. Você provavelmente estava em casa jantando na frente da TV quando aquilo entrou no ar. A repórter Sônia Brid tinha encontrado Belquior numa cidadezinha do Uruguai chamada San Gregório de Polanco, lugar pequeno, longe de tudo.
E aí vem a parte que ninguém esperava. Ele não fugiu da câmera, não se escondeu, não fez cara de quem foi pego, deu entrevista, falou com calma e disse que não tinha assumido coisa nenhuma. em São Paulo. Adição do Fantástico passou quatro semanas te procurando, não conseguiu te achar. Evidentemente eu tava aqui.
Mas eu vivo em São Paulo. Estava descansando, compondo, pensando na vida, trabalhando num projeto novo, traduzindo música pro espanhol. Prometeu o disco de inéditas, prometeu voltar aos palcos. Falava como quem estava de férias, não como quem estava foragido. Agora, quem viu aquilo em casa ficou dividido, porque de um lado tinha um homem lúcido, tranquilo, dono do próprio nariz.
Do outro tinha filho sem pensão, gente processando, mandado de prisão na mesa do delegado. Os dois quadros eram verdade ao mesmo tempo e é isso que torna essa história difícil de julgar. Ele continuou rodando Monte Videl, colonia Del Sacramento e depois Artigas lá na fronteira. Ficou hospedado num hotel cassino e saiu devendo por volta de R$ 35.000.
O hotel deu queixa na polícia, aconteceu parecido no Rio. Aconteceu em São Paulo, 2013 e ele reaparece, dessa vez em Porto Alegre. foi bater na porta da Defensoria Pública aquele homem, o autor de Como Nossos Pais, procurando Defensoria Pública. Chegaram a vê-lo entrando num prédio de bairro de classe média, com uma malinha na mão e material de pintura debaixo do braço.
Quem segurou a barra foram fãs e um advogado, o Jorge Cabral, que abriu a casa dele. Belkior passou uma temporada num sítio em Guaíba. E o que ele fez lá é a parte mais bonita disso tudo. Não bebia, não comia carne vermelha, tomava chá, caminhava, cuidava das ovelhas. Lia, lia muito. Foram uns 40 livros naquele período.
Escrevia sem parar, tanto que gastou duas canetas até o fim. Duas canetas. Pensa no tanto de papel que isso dá. Quem conviveu com ele jura: não era depressão, não era loucura, não era senilidade. O homem estava inteiro, escrevia música nova, tinha mais de 20 prontas, só que cantar ele não cantava e quando insistiam respondia com uma frase que diz tudo sobre aquele sujeito.
Dentista não sai no meio da rua fazendo canal. Agora eu preciso que você fique comigo nos próximos minutos, porque é aqui que essa história vira do avesso. E a pergunta que abriu esse vídeo começa a ganhar resposta. Chegou a hora de colocar as duas versões na mesa. E eu vou te contar as duas com o mesmo peso, porque as duas existem de verdade. Começa pela que dói.
Tinha filho esperando pensão que não chegava. A dívida com Ângela juntou uns R$ 300.000, com a filha de São Carlos, uns R 90.000. Hotel cobrando na justiça, mais 47.000. e ainda tinha um processo trabalhista movido pelo ex-secretário dele, o Célio Silva, com condenação de 1 milhão deais, dois mandados de prisão, contas bloqueadas, apartamento em execução.
E tem uma coisa que pesa mais que dinheiro. Em 2011, morreu dona Dolores, a mãe, a mulher que ensinou aquele menino a cantar. Ele não foi ao enterro. Quem é filho sabe o que isso significa. Não tem como não sentir. Agora há outra versão. E ela também é verdade. Em 2009, a General Motors ofereceu um cachê milionário para ele fazer um comercial.
Dinheiro na mesa resolvia metade dos problemas dele de uma atacada. Ele disse não. Um homem endividado, com a justiça no pé, recusando dinheiro grande para não vender o nome. Isso não é comportamento de golpista. golpista pega o dinheiro e ele nunca pousou de vítima, nunca deu entrevista chorando, nunca pediu vaquinha, nunca culpou ninguém, vivia de favor e não reclamava de nada sobre a Edna.
Então, a discussão nunca acabou. Tem amigo dele que diz até hoje com todas as letras que ela fez lavagem cerebral naquele homem, que a vida dele só andou para trás depois que os dois se conheceram. Tem outro que diz o contrário. O artista plástico José Roberto Aguilar, por exemplo, via ali dois sonhadores que juntaram as utopias e resolveram viver do jeito deles.
Quem tem razão? Sinceramente, ninguém sabe e provavelmente ninguém vai saber nunca. Mas o detalhe mais estranho de toda essa história é outro e é esse aqui. Lembra dos R$ 40.000 por mês que as músicas dele rendiam? Aquele dinheiro continuou entrando o tempo todo, enquanto ele dormia em sítio emprestado, enquanto pegava fiado em hotel, enquanto tomava chá e dando de ovelha no interior gaúcho, como nossos pais, tocava em rádio de todo canto do Brasil e virava dinheiro no nome dele. Só que estava tudo travado
pela justiça. Belkior passou os últimos anos da vida sendo um homem que gerava renda todo mês e não podia tocar nela. rico no papel, sem um tstão no bolso. E foi assim, nessa situação que ele chegou ao lugar onde tudo terminou. Santa Cruz do Sul, interior do Rio Grande do Sul, uma casa de dois andares confortável, emprestada por um empresário jovem que virou fã.
Foi ali que Belquior passou o último ano e pouco da vida, ao lado de Edna. Meditava, escrevia, desenhava, andava na rua sem ninguém reconhecer. Madrugada, de 30 de abril de 2017, ele foi dormir ouvindo música clássica e não acordou mais, 70 anos, rompimento da horta, morte natural, dormindo. O Brasil acordou no domingo com a notícia.
Camilo Santana, governador do Ceará, decretou três dias de luta oficial e mandou trazer o corpo para casa. E aí aconteceu uma coisa que quem viu não esquece. Velaram ele no Teatro São João em Sobral de manhã à tarde, no Dragão do Mar em Fortaleza. Passaram mais de 11.000 pessoas nos dois velórios. 11.000 para um homem que passou 10 anos fugindo de gente.
Foi enterrado no dia 2 de maio no mesmo jazigo do pai e da mãe. E agora a pergunta que abriu esse vídeo. O que ficou? De bem material? Quase nada. Os carros foram parar em depósito público com dívida maior que o valor deles. O apartamento penhorado, os quadros comidos pela humidade, as roupas foram doadas. Teve inventário, sim, mas número nunca apareceu, nem naquela época, nem hoje.
Quem fala em fortuna está chutando. A Edna sumiu de novo. A família precisou intimar ela judicialmente para tratar do inventário. E em fevereiro de 2018, ela ficou de fora das decisões sobre a obra. Foi embora sem cobrar nada. Falam até de uma maleta de couro preta com as últimas criações dele dentro.
Uns dizem que ficou com ela, outros que se perdeu. Até hoje ninguém achou. Mas tem uma coisa que nenhum oficial de justiça conseguiu penhorar. 218 músicas, 348 gravações registradas. Como Nossos Pais, é a música dele mais tocada e mais regravada do Brasil. E continua sendo. Isso rende e vai render pros filhos dele até por volta de 2087.
Tem mais de 30 músicas inéditas guardadas com Jorge Melo. Tem sete letras que apareceram no Arquivo Nacional dentro de Papel da Censura. E tem uma geração que nem era nascida cantando ele hoje. O hemicida pegou sujeito de sorte e colocou em amarelo. Os moços descobriram Belkior sozinhos. Belkior escreveu que morreu o ano passado, mas nesse ano não morre.
Ele fez essa frase aos 29 anos. sem imaginar que ela ia explicar a própria vida dele. Porque o homem foi embora de tudo aquilo que a gente costuma achar que é a vida da gente. Carro, casa, palco, aplauso, dinheiro no banco, tudo isso ele largou e tudo isso apodreceu, foi penhorado ou virou dívida.
Só que a música ficou ficou na sua casa, na minha, no rádio, no violão do vizinho, na garganta de um menino de 20 anos que nem sabe direito quem foi esse cearense. No fim das contas, é isso que fica de qualquer um da gente. Não é o que a gente junta, é o que a gente deixa na vida dos outros.
E nisso, meu amigo, o rapaz de Sobral foi rico como poucos. Agora eu quero saber de você. Belkior fugiu da vida ou escolheu a vida dele? Escreve aí embaixo: “Um, foi irresponsável com quem dependia dele. Dois, foi corajoso. Largou tudo e viveu do jeito que quis.” Ou três, foi um pouco dos dois. Deixa seu like e se inscreve no canal que ajuda demais.
E se essa história te tocou de alguma forma, manda para alguém que também cresceu ouvindo Belkior. Um abraço e até a próxima.