OS LUXOS DEIXADOS POR JERRY ADRIANI APÓS SUA MORTE — DOCUMENTÁRIO DO ÍDOLO DA JOVEM GUARDA

OS LUXOS DEIXADOS POR JERRY ADRIANI APÓS SUA MORTE — DOCUMENTÁRIO DO ÍDOLO DA JOVEM GUARDA

Doce, doce, amor. Onde está? Diga, por favor, doce amor.  Se você tem mais de 30 anos, provavelmente já ouviu essa voz. Talvez no rádio do carro do seu pai, talvez num disco antigo que sua mãe guardava, talvez naquele programa de domingo à tarde, quando televisão era em preto e branco e o Brasil inteiro parava para assistir a mesma coisa.

 Jerry Adriane, o galã do topete da voz macia do terno impecável, o homem que fazia menina desmaiar na porta do teatro, um dos maiores nomes da jovem guarda. Agora eu já sei que você me  E teve época em que ele foi grande de um jeito que hoje quase ninguém lembra direito. Quando ele morreu, em abril de 2017, veio aquela pergunta que sempre vem quando um artista desse tamanho se vai.

 O que sobrou? Onde foram parar as mansões, os carrões, o dinheiro de mais de 50 anos de carreira? Quem ficou com o quê? E por que até hoje tem tanta gente perguntando e tão pouca resposta clara? A gente foi atrás, procurou casa, procurou carro, procurou herança, procurou cifra e o que a gente encontrou não é nada, mas nada mesmo do que você está imaginando agora.

 Mas antes de chegar lá, você precisa entender quem foi esse homem, porque a história dele começa num lugar bem mais humilde, do que o terno bem cortado deixava transparecer. Mais do que um músico, mais do que a contribuição que o Jerry deu eh pro cenário musical do nosso país, ele deu para nós humanos. O nome dele nem era Jerry Adriane.

 Ele nasceu Jair Alves de Souza em 29 de janeiro de 1947 em São Paulo, no bairro do Brás, neto de calabreses, família de italiano, daquelas em que a música fazia parte do ambiente antes mesmo de alguém pensar em carreira. essa família de espanhóis, dona Josepa, seu Luiz, e eu aí tive uma outra influência que foi a influência da Espanha.

 E quem conhece São Paulo daquela época sabe o que era o BRZ nos anos 40 e 50. Bairro de imigrante, de fábrica, de gente que chegava com uma mala e um sobrenome difícil de pronunciar. CTIço, casa geminada, quintal compartilhado, rádio ligado alto na cozinha, porque televisão ainda era coisa de outro mundo.

 Ainda menino, a família se mudou pra Vila Prosperidade, na região do ABC Paulista. Naquela época pertencia a Santo André, depois passou a ser São Caetano do Sul, terra de operário, de metalúrgico, de gente que acordava cedo para bater cartão. E aí vem o primeiro detalhe que muda a leitura dessa história. Em 1959, com apenas 12 anos de idade, aquele menino começou a estudar música formalmente em Conservatório, em Santo André e São Caetano. para na idade.

Enquanto os moleques da rua estavam jogando bola no campinho de terra, ele estava aprendendo o canto lírico. E isso mesmo que você tá ouvindo, canto lírico, aquele de ópera. Cantou pela primeira vez em público numa festa do dia dos professores no teatro Santos do Mont. Mas o rock chegou.

 E quando o rock chega na cabeça de um adolescente, não tem conservatório que segure. Ele passou por um grupo vocal chamado The Condors. Depois formou uma banda com um nome que já dizia tudo, Os Rebeldes. Em 1962, com 15 anos, já estava cantando na rádio Cassic. Agora presta atenção no que aconteceu em seguida, porque é uma velocidade que hoje seria impensável.

 Em 1964, com 17 anos de idade, ele lançou o primeiro LP, italianíssimo, repertório em italiano, homenagem direta às raízes da família. E no mesmo ano, ainda em 1964, saiu o segundo disco Crediami, dois LPs. No mesmo ano, com 17 anos, tem cantor hoje que passa 5 anos para lançar um álbum só.

 Ele lançou dois antes de completar 18 e o nome artístico. Isso é uma das coisas mais curiosas da história dele. Segundo os relatos biográficos, Jerry Adriane nasceu da mistura de duas admirações do garoto. Jerry do comediante americano Jerry Lewis, que fazia o Brasil inteiro rir no cinema. e Adriane do cantor italiano Adriano Celentano, que era o galã da música italiana daquele tempo.

 Metade humor americano, metade charme italiano, coube tudo dentro de um nome só. Em 1965 veio Um Grande Amor, o primeiro disco em português. E foi aí que a coisa virou de vez, porque naquele mesmo ano de 1965, a televisão brasileira ia inventar um fenômeno que mudaria a cabeça de uma geração inteira.

 E aquele menino do ABC, com 18 anos recém completados, estava exatamente no lugar certo, na hora certa. O que veio depois transformou Jerry Adriane numa das coisas mais raras que existem neste país. Agora eu já sei que você me  Um ídolo capaz de fazer fã, brigar na rua por causa dele. A maioria das pessoas ouve Jovem Guarda e pensa em três nomes: Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Vanderleia.

 E faz todo sentido pensar assim, porque eram eles os donos do programa que ia ao aringo na TV Record, a partir de 1965. Eles apresentavam, eles comandavam, eles eram o rosto daquilo. Só que a Jovem Guarda era muito maior que um programa de televisão. Era um mundo inteiro. Tinha disco, tinha revista, tinha filme, tinha roupa, tinha corte de cabelo, tinha jeito de falar.

 Foi a primeira vez que o Brasil inventou uma cultura só de jovem e Jerry Adriane estava no primeiro escalão desse universo. Mas ele não era só mais um cantor que aparecia no programa dos outros. Ele tinha os programas dele em 1965. Assumiu o Excelor A GooG na TV Excelor. Entre 1967 e 1968 comandou a Grande Parada na TV Tupi.

 E olha o que isso significava naquela época. ter um programa musical próprio. Quando a televisão era o centro absoluto da vida cultural do país, colocava ele entre os protagonistas do mercado, não entre os figurantes. E teve cinema também, três filmes em dois anos. Essa gatinha é minha, de 1966, Jerry A Grande Parada e Jerry em Busca do Tesouro, ambos de 1967.

Filmes feitos em cima da imagem dele com o nome dele no título. Ninguém faz filme com o nome de um artista no título, se esse artista não vende ingresso. Mas agora vem o número que muita gente vai custar a acreditar. Uma das obras de referência sobre a história do rock brasileiro registra o seguinte: Na segunda metade dos anos 1960, em determinados momentos no Rio de Janeiro e nas regiões Norte e Nordeste, Jerry Adriane chegou a ser mais popular que Roberto Carlos.

 Isso mesmo, mais popular que o Roberto. Agora, para ser justo com a história, não dá para dizer que ele era maior que Roberto Carlos no Brasil inteiro. Não era. Isso é uma medição regional de um momento específico. Mas o simples fato de existir esse registro já diz tudo sobre o patamar em que esse homem jogava. Manda essa informação para alguém da sua família que curte Jovem Guarda e me conta a reação.

 E a fama tinha um efeito que hoje sou até absurdo. Existia uma rivalidade famosa entre Jerry Adriane e Vanderlei Cardoso. Começou por causa de um impasse bobo. Quem ia fechar um show em Niterói, quem era a atração principal, quem entrava por último. Só que os fã clubes pegaram aquilo e transformaram em guerra. E não era guerra de comentário na internet não, porque internet não existia, era guerra de verdade.

 Existem relatos de fãs que chegavam às vias de fato, brigavam fisicamente na rua por causa de qual dos dois era melhor. Imagina o nível de paixão que um artista precisa despertar para duas garotas se pegarem no meio da calçada, defendendo o ídolo. Mas tem um detalhe que quase ninguém sabe e que é a parte mais bonita dessa história.

 Jerry e Werley eram amigos. A rivalidade era, em boa parte construção. Empresário incentivava, imprensa alimentava, fã clube comprava a briga. Nos bastidores, os dois se davam bem e anos depois fizeram show juntos no mesmo palco cantando um do lado do outro. Enquanto os fãs brigavam na rua, os dois tomavam café no camarim.

 E é aqui que essa história ganha uma camada que ninguém espera de um galã romântico, porque tem um episódio na vida de Jerry e Adriane que não tem nada a ver com topete, com balada romântica ou com fã gritando. Tem a ver com um baiano cabeludo, uma banda falida e um roubo de instrumentos. E esse baiano você conhece muito bem.

Antes de ser Raul Seixas, ele era Raulzito, um rapaz de Salvador, cabeludo, esquisito pros padrões da época, líder de uma banda chamada Os Panteras. Tocavam no circuito da Bahia, sonhavam com o Rio de Janeiro e não tinham a menor ideia de como chegar lá, porque naquela época o Brasil da música funcionava de um jeito muito simples e muito cruel.

 Se você não estava no eixo Rio São Paulo, você não existia. Gravadora ficava lá, televisão ficava lá, rádio que tocava no país inteiro ficava lá e ninguém abria a porta para baiano desconhecido. Aí Jerry Adriane apareceu na Bahia. Ele estava em turnê, cruzou o caminho dos Panteras, ouviu a banda tocar e gostou. Chamou o grupo para acompanhar ele numa excursão.

Depois foi além. incentivou os rapazes a se mudarem pro Rio de Janeiro. Mas o favor de verdade veio depois e é uma história que quase ninguém conta. Os Panteras tiveram os instrumentos roubados. Para você entender o tamanho da tragédia, banda sem instrumento. Naquela época não era um problema, era o fim.

 guitarra, bateria, amplificador, tudo importado, tudo caro, tudo impossível de repor para um grupo de garotos sem dinheiro que tinha acabado de chegar numa cidade estranha. Era a hora exata de todo mundo voltar para Salvador e desistir. E aí, segundo o depoimento do guitarrista da banda, o Eládio Gil Braz, foi Jerry Adriane quem segurou a barra.

 Ele acolheu o grupo e fez uma coisa que pouquíssima gente faz por alguém que mal conhece. Ele virou fiador dos músicos para que eles pudessem comprar equipamento novo. Fiador. Pensa no peso dessa palavra. É colocar o próprio nome, o próprio crédito e o próprio bolso na linha por uma banda de desconhecidos. Se aqueles rapazes não pagassem, a conta ia bater na porta dele.

 Mas a mão que Jerry estendeu não parou por aí, porque quando Raul chegou de vez no mercado, foi Jerry quem ajudou a abrir a porta da CBS para ele e não como cantor, como produtor. Raul Seixas trabalhou dentro da gravadora produzindo disco de outros artistas, inclusive discos do próprio Jerry anos antes de virar o mito que a gente conhece.

 Ou seja, antes de Ouro de Tlo, antes de Metrolinha 743, antes de Maluco Beleza, Raul Seixas estava numa sala de gravadora e quem tinha ajudado a colocar ele ali era o galã de topete, que as meninas gritavam. E aí vem o encontro perfeito das duas histórias. Em 1971, Jerry lançou o LP Pensa em mim. E dentro desse disco tinha uma canção assinada por Raul Seixas e Mauro Mota.

 O nome dela era Doce Doce Amor.  Doce doce amor. Digas, por favor. Virou o maior sucesso da carreira de Jerry Adriane. A música que até hoje toca, que até hoje o brasileiro reconhece nas primeiras notas, que virou sinônimo do nome dele, escrita pelo baiano, que ele tinha ajudado quando ninguém queria saber.

 Só que isso é importante pro que a gente vai ver mais paraa frente. Jerry era o intérprete, não o compositor. E na música, essa diferença vale dinheiro, muito dinheiro. O compositor recebe de um jeito, quem canta recebe de outro. Guarda essa informação porque ela vai fazer sentido daqui a pouco. A amizade dos dois durou a vida inteira.

 Jerry apareceu no batizado da filha de Raul em 1983, numa homenagem na televisão. Raul entrou de surpresa no palco e os dois cantaram Doce Doce amor juntos ali ao vivo na frente do Brasil. E décadas depois, já homem grisalho, num programa de TV, Jerry resumiu tudo numa frase simples. Raul Seixas foi um dos grandes amigos da vida dele.

 Nos últimos meses antes de morrer, sabe o que Jerry estava preparando? Um disco de rock com repertório de Raul. 50 anos depois de bancar o fiador daqueles instrumentos, ele ia voltar pro amigo. Mas essa é uma história para daqui a pouco, porque agora a gente precisa responder a pergunta que trouxe você até aqui. Cadê o dinheiro? Agora chegou a hora.

 53 anos de carreira, programa próprio na televisão, três filmes, dezenas de discos, uma das maiores estrelas de uma geração inteira. Alguém com esse currículo tem que ter deixado alguma coisa. Mansão, fazenda, carro importado, conta gorda no banco. É o que a lógica manda pensar. E faz todo sentido pensar assim, porque é o que a gente vê acontecer com artista desse tamanho.

 Então, a gente foi procurar item por item e o resultado é surpreendente. Vamos começar pelos carros porque é o que todo mundo imagina primeiro. Jovem guarda e carrão são coisas que andam juntas na cabeça do brasileiro. Foto de época, capa de revista, artista encostado num conversível. Só que tem um problema. Carro em fotografia não é carro registrado no nome de ninguém.

 E é exatamente aí que a investigação trava. Procurou-se Mustang, procurou-se Aerowis, procurou-se qualquer modelo que a internet atribui a ele. Não existe um único automóvel de luxo cuja propriedade tenha sido comprovada como sendo de Jerry Adriane. Nenhum documento, nenhuma entrevista em que ele diga: “Esse carro é meu”.

 Nenhuma reportagem de época, nada. E olha, isso não quer dizer que ele nunca teve carro bom. Provavelmente teve. O que a gente está dizendo é outra coisa. Ninguém consegue provar. E se ninguém prova aqui, a gente não afirma. Agora as casas. Aqui tem um pouco mais de chão. Nos últimos anos de vida, Jerry morava numa casa na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Isso está documentado.

Teve entrevista gravada dentro da casa dele. Em dezembro de 2016, teve visita de equipe de televisão. Teve gente do meio musical que esteve lá e contou. Mas aí vem a pergunta chata que a gente precisa fazer. A casa era dele? Não dá para afirmar. Não foi encontrada escritura, matrícula de imóvel, valor de mercado, metragem, nada.

 Morar numa casa e ser dono da casa são duas coisas diferentes. E no Rio de Janeiro, então, mais diferentes ainda. Fazenda não encontrada, sítio não encontrado. Casa de praia não encontrada, apartamento de investimento não encontrado. E o valor da fortuna dele não existe. Não foi localizado inventário público, declaração de patrimônio, partilha de bens, nada que permita colocar um número na tela e dizer: “Jerry, Adriane deixou tanto”.

 Aí você me pergunta: “Mas então ele estava quebrado?” Não. E é aqui que a história vira, porque tem documentos sim, só que é de outro tipo e é muito mais revelador. Em 2005, o BNDS contratou um show do Jerry chamado Minhas Canções num projeto cultural do banco. O valor do contrato está publicado, R$ 10.900. 6 anos depois, em 2011, a prefeitura de São Desidério, uma cidade da Bahia, contratou um show dele.

 Está no portal da transparência do município, o valor R$ 44.000 por uma noite em 2011, para um cantor que tinha estourado quase 50 anos antes. E atenção num detalhe importante, porque é aqui que muita gente erra. Esse é o valor do contrato, não é o dinheiro que entrava no bolso dele. Desse montante sai banda.

 Sai equipamento, sai transporte, sai produção, sai empresário, sai imposto. O que sobra pro artista é uma fração. Mas mesmo sendo fração, o número diz uma coisa importante. O nome Jerry Adriane ainda valia dinheiro em 2011 e não era um show aqui e outro ali. Numa entrevista, aos 64 anos de idade, ele soltou um número que derruba qualquer teoria de artista esquecido.

 Ele disse que tinha feito 17 shows no mês anterior. 17. Em 30 dias aos 64 anos. Isso é mais de um show a cada dois dias. É estrada, é aeroporto, é hotel, é palco, é voz. Tem artista jovem hoje no auge da fama que não faz isso. E tem mais. Em 1999, quando já tinha 52 anos e mais de três décadas de carreira nas costas, Jerry lançou um disco chamado Forza Sempre, em que cantava músicas da Legião Urbana em italiano.

 Ideia estranha, talvez, mas vendeu cerca de 200.000 cópias. 200.000 cópias em 1999 para um cantor identificado com os anos 60. Tem artista lançando disco hoje que não chega perto disso. Então vamos organizar o que a gente descobriu até aqui. Jerry Adriane não quebrou, não faliu, não perdeu tudo em negócio ruim, não terminou a vida pedindo ajuda, trabalhou, faturou, manteve mercado e viveu com conforto até o último ano.

 Mas também não existe prova nenhuma de mansão, de coleção de carros, de fazenda ou de fortuna milionária. O que existe é o retrato de um profissional, um homem que ganhava a vida com o próprio nome no palco, mês após mês, década após década. E aí fica a pergunta: que essa investigação inteira construiu? Se não foram carros e não foram mansões, o que exatamente Jerry Adriane deixou quando morreu? Porque ele deixou? E o que ele deixou está guardado até hoje, catalogado.

 E uma parte disso qualquer pessoa pode ir lá ver. Em janeiro de 2017, Jerry Adriane completou 70 anos e fez três festas. Três, não uma, não duas, três comemorações diferentes, porque era muita gente para caber num lugar só. estava animado, cheio de projeto, planejando o disco de rock com músicas do Raul, planejando shows, planejando talvez um DVD.

 Estava também escrevendo a autobiografia. vinha escrevendo desde 2008, quando a mãe dele, dona Angelina, morreu. Pouco antes do carnaval daquele ano, ele entregou o material pro produtor que ia ajudar a organizar tudo. 70 anos, agenda cheia, livro em andamento, disco novo a caminho. E aí, em março, ele foi internado com uma trombose.

 Foi nos exames feitos depois dessa internação que apareceu o que ninguém esperava, um câncer. E aqui a gente precisa ser honesto com você, porque a internet não é. Na época a família não divulgou qual era o tipo, nem onde estava o câncer. Os jornais da época registraram isso claramente. Só depois é que começaram a aparecer reportagens dizendo que era no pâncreas.

Então é isso que dá para dizer com segurança. Era câncer. E o tipo não foi anunciado pela família naquele momento. Jerry Adriane morreu no dia 23 de abril de 2017, às 3:30 da tarde, num hospital da Barra da Tijuca. Tinha 70 anos. E agora repara nesse detalhe, porque ele é a coisa mais impressionante desse vídeo inteiro.

 Quando ele morreu, o site oficial dele ainda listava 11 shows marcados até dezembro daquele ano. E o compromisso seguinte era pouquíssimos dias depois da data da morte. Ele morreu com a agenda cheia. Não morreu esquecido. Não morreu sem trabalho. Não morreu esperando alguém lembrar dele. Morreu no meio do serviço. Aos 70 anos, com show marcado pros próximos 8 meses.

Foi velado e enterrado no dia seguinte no cemitério São Francisco Xavier, no Caju, no Rio. Erasmo Carlos estava lá. Vanderlei Cardoso, Ron Von, Vanderleia e um monte de gente que dividiu o palco com ele nos anos 60 se manifestaram. Os programas da tarde fizeram homenagem. E aí veio a pergunta que a gente vem construindo esse vídeo inteiro.

 O que ficou? A resposta começa numa mulher, dona Angelina, a mãe dele. Aquela senhora, ao longo de décadas, guardou tudo. Foto, recorte de jornal, letra de música escrita à mão, revista, carta de fã, tudo com cuidado, com carinho, com aquele zelo de mãe brasileira que não joga fora nada que tenha a ver com o filho.

 E você provavelmente conhece uma mulher assim. Talvez seja a sua mãe, talvez seja a sua avó com aquela caixa de sapato cheia de foto amarelada em cima do guarda-roupa. Pois foi essa caixa muito maior, claro, que virou a verdadeira herança de Jerry Adriane. Quando ele morreu, os três filhos assumiram a guarda desse acervo, Thago, Tadeu e Joseph, e não deixaram o material se perder num porão.

 5 anos depois, apareceram na televisão mostrando o trabalho de preservação. falaram em mais de 30 horas de gravações inéditas do pai, 30 horas de material que ninguém nunca viu. Em 2023, Tadeo fez uma coisa que muda tudo. Ele doou parte do acervo para Funarge, a Fundação de Artes do Estado do Rio de Janeiro. discos de vinil, letras de música, instrumentos, objetos usados em show, entregues para uma instituição pública, catalogados, conservados, não foi vendido, não foi leiloado, foi doado.

 E em 2025 aquilo tudo virou uma exposição com o nome perfeito: Doce, Doce Amor, a vida de Jerry Adriane. E o que estava lá dentro? O violão dele, um disco de ouro, as roupas de palco, troféus, cadernos de fã, daqueles que menina fazia à mão colando foto de revista, fotografias de todas as fases da vida e a faixa de Rei do Rio que ele ganhou.

 Esse é o luxo que Jerry Adriane deixou. Não é um Mustang na garagem, não é uma mansão com piscina, é um violão, um disco de ouro e um caderno de fã que alguma menina de 16 anos montou em 1966, colando recorte de revista com cola caseira, sonhando com um cantor que ela nunca ia conhecer. E hoje esse caderno está guardado numa fundação pública catalogado como patrimônio cultural do estado do Rio de Janeiro.

 Tem coisa mais valiosa que isso? No fim das contas, a gente entrou nessa história procurando uma coisa e encontrou outra. Procurou carro e não achou. Procurou mansão e não achou. Procurou cifra de milhões e não achou. mas achou um homem que começou a estudar música aos 12 anos numa cidade de operário que gravou dois discos aos 17 que virou fiador de uma banda falida só porque acreditou naqueles rapazes que aos 64 anos fazia 17 shows em um mês e que morreu com show marcado pros próximos 8 meses.

 Pois é, talvez a gente esteja medindo a coisa errada, porque tem gente que junta patrimônio e tem gente que junta história. E às vezes o segundo dura mais. O dinheiro do Jerry e Adriane ninguém sabe onde foi parar. E sinceramente talvez isso nem importe tanto assim. O que a gente sabe é que a mãe dele guardou cada recorte, os filhos dele guardaram cada fita e hoje o violão daquele menino do brás está num acervo público para quem quiser ver.

 Ele trabalhou até o último mês da vida, fazendo exatamente o que sonhou aos 12 anos. Se isso não é luxo, eu não sei mais o que é. Agora me conta você o que te surpreendeu mais nessa história? Descobrir que Jerry Adriane foi fiador da banda do Raul Seixas ou descobrir que ele fazia 17 shows por mês aos 64 anos? Escreve aí embaixo.

 E se tem alguma música dele que marcou a sua vida ou a da sua família, comenta o nome. Eu quero ler todas. Deixa o like, se inscreve no canal e ativa o sininho para não perder o próximo.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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