POR DENTRO DA CASA ABANDONADA DO SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO: VEJA COMO ESTÃO HOJE OS ATORES DE 1977?
POR DENTRO DA CASA ABANDONADA DO SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO: VEJA COMO ESTÃO HOJE OS ATORES DE 1977?
Quantos anos você tinha quando viu o sítio do Pica-Papau Amarelo pela primeira vez? Ah, cara, que momento. Esses são daqueles pedacinhos da infância que ficam grudados na gente para sempre. todo dia naquele horário certinho. A criançada largava tudo e corria pra frente da televisão. E se tinha uma coisa que todo mundo sonhava, todo mundo mesmo, era poder entrar um dia naquela casa mágica, caçar saci com o Pedrinho, comer um bolinho da tia Anastasia direto do fogão à lenha, sentar na varanda com a dona Benta,
trepar na jabuticabeira com anarizinho. E aí vem o que pouca gente sabia na época. Aquela casa existia de verdade. Não era cenário de estúdio, não era pintura de fundo, era uma casa de tijolo, de pé, lá no fim de uma estrada no Rio de Janeiro. Só que o tempo passou.
E se tem uma coisa que o tempo faz bem, é apagar história, derrubar parede, enferrujar tudo que um dia foi bonito. Aquela casa que encantou o meio Brasil ficou para trás esquecida. Mas como será que ela tá hoje? É isso que eu vim te mostrar de volta para dentro daquele sítio. E você vai sair daqui sabendo como tá a casa que marcou a sua infância e o que foi feito de cada um daqueles atores que davam vida aqueles personagens incríveis.
Cadê o Sassi? Cadê a narizinho? Tão vivos? Sumiram? Foram para onde? Tem ator que largou a fama no auge e foi morar do outro lado do mundo. Tem um que terminou numa tragédia que chocou o país e tem o segredo do sassi, da perna dele, que a televisão escondeu do Brasil por mais de 30 anos. Queria ver a cara dos meus amigos se eu te levasse numa das festas da galera. Você ia se amarrar no funk.
Funk é um bicho da cidade. Então senta aí, pega um café e vem comigo. A gente vai voltar no tempo. Antes de ser aquele programa que tomava conta da sua tarde, o sítio era livro e nasceu de uma bobagem. Em 1920, o Monteiro Lobato ouviu numa partida de xadrez a história de um peixe que ficou tanto tempo fora d’água que desaprendeu a nadar e morreu. Coisa de mesa de bar.

dessas que a gente esquece no minuto seguinte. Só que o lobato não esqueceu, foi para casa e escreveu. Saiu daí uma menininha num reino mágico embaixo d’água num livro de só 43 páginas. O povo gostou tanto que ele esticou no ano seguinte para 181 páginas e foi criando personagem atrás de personagem.
Entre os anos 20 e os anos 40, foram 34 livros formando esse mundo todo. E para você ter ideia do capricho da coisa, a Emília, aquela que não calava a boca, no comecinho era muda. Só ganhou voz quando o Mulobato precisou de mais diálogo para encher as páginas. Mas livro é livro. O sítio só virou febre quando entrou na televisão e aí a história fica boa.
A primeira versão foi em 1952 na velha TV Tupi. Muito séria. Deve estar pensando em alguma coisa muito importante. A gente nunca sabe as coisas que a Emília vai inventar. Segura essa. Naquela época não existia videotape. Não dava para gravar e passar depois. Então, cada episódio era feito ao vivo, igual peça de teatro, sem direito a errar.
Pronto, Nizinho, aqui estão as pipocas que você pediu. Foram cerca de 300 episódios, assim, todos ao vivo, de 1952 até 1963. E tinha um detalhe, como não existia intervalo gravado, os próprios personagens paravam no meio da cena para anunciar o pão da padaria que pagava o programa.
Imagina a dona Benta parando tudo para vender pãozinho. Era assim que funcionava. O sítio rodou por vários canais ao longo das décadas. Passou pela TV Cultura, pela Bandeirantes, trocou de elenco, trocou de emissora. Mas a versão que ficou marcada na sua cabeça, aquela que provavelmente é a sua, só chegou em 1977, quando a Rede Globo comprou a obra e aí sim explodiu.
A Globo botou dinheiro de produção grande, entregou a direção pro Geraldo Cé, que ficou conhecido como pai do sítio, e tocou aquilo por 10 anos, e chamou ninguém menos que o Gilberto Gil para fazer a abertura que você canta de coratri. Pegaram personagem que mal aparecia nos livros, como a Cuca, e transformaram em figura central, aquela bruxa verde que tirava o sono de criança no Brasil inteiro.
[roncando] Isso não está me cheirando bem, mas eu posso fazer um trato. Botaram minotauro, pirata, mula sem cabeça e não pararam. De 1977 a 1986, foram mais de 1500 episódios só nessa fase da Globo. Agora, prepara o coração pro número que fecha tudo. Somando todas as versões que passaram no Brasil, ao longo de mais de 50 anos, o Sítio do Pica-Pau Amarelo passou de 3.100 episódios.
Para você comparar, é mais episódio do que a maioria das novelas que você assistiu na vida inteira, todas juntas. E não ficou só aqui dentro, foi exportado paraa Espanha, pras Filipinas, paraa Indonésia, pro Timor Leste e até para Portugal. A UNESCO chegou a apontar como um dos melhores programas infantis do mundo.

Tudo isso de um peixe que desaprendeu a nadar. Mas tem uma coisa que pouca gente parou para pensar enquanto assistia. Todo aquele sítio, a casa da dona Benta, o pomar, a varanda da cadeira de balanço, era um lugar de verdade. Existia e existe até hoje lá no fim de uma estrada no Rio de Janeiro. Quando a Globo decidiu fazer o sítio, ela podia ter feito o mais fácil, montar tudo dentro de um estúdio, quatro paredes de mentira e acabou.
Mas não fez. Foi lá, num pedaço de mato em Barra de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, na antiga estrada da Barra de Guaratiba, hoje, estrada Roberto Burle Marx, e construiu uma casa de verdade. Casa de taipa, com varanda, com horta, com pomar, o tipo de casarão que parecia ter saído mesmo do interior do Brasil.
E é aqui que tá a graça. Muita coisa que você jurava que era cenário, era cenário mesmo, mas muita coisa era real de pegar com a mão aquele poço onde a tia Anastasia tirava água era de mentira cenográfico. Hoje sobrou só uma marca redonda no chão para contar que ele existiu ali. Mas a fonte do jardim, aquela que aparecia em capítulo atrás de capítulo, essa era de verdade.
Tá lá desde os anos 70. Com água passando intacta, o galinheiro ficava nos fundos, o forno, a lenha do lado, o tanque logo adiante, tudo num cantinho só. E lembra do arraial dos tucanos, aquela vilazinha onde o pessoal ia fazer compra na venda e que dava essa impressão de ficar tão longe que precisava pegar charrete para chegar? Pois é, ficava ali do lado, coladinho num terreno vizinho.
A charrete saía do sítio, dava uma voltinha boba e tava na cidade. A distância toda era truque de televisão. E olha que a gente caía direitinho. Tinha a jabutabeira onde a narizinho aparecia trepada, árvore de verdade que ainda tá de pé e tinha as praias. Porque o sítio não era só a casa. Aquelas cenas dos piratas, do capitão gancho, do minotauro saindo da água, foram gravadas nas praias ali pertinho em Grumari e na Barra de Guaratiba, naquele pedaço de costa que mais parece cartão postal.
Então, pega a dimensão do que era aquilo. Não era um sete apertado, era um sítio inteiro, casa, bicho, jardim, praia e cidadezinha. Tudo no mesmo lugar, funcionando como um mundo de verdade pra criança poder acreditar. E funcionou. Funcionou de 1977 a 1986, 10 anos. Só que aí a série acabou, as câmeras foram embora, o elenco se espalhou e aquela casa toda ficou para trás.
E o que aconteceu com ela depois disso é de doer o coração. Acabou a série em 1986 e aquela casa que encantou o meio brasilou nada. Ficou para trás. E aí começou a parte triste dessa história. Sem programa, sem gravação, sem ninguém para cuidar, o sítio foi sendo comido pelo tempo. O mato cresceu por cima, as árvores tomaram conta, a casa foi se desmanchando e, para piorar, gente entrava ali para depredar.
Quebravam o piso, quebravam o que via pela frente, pichaxavam parede. Chegou um ponto em que um homem, sem nenhuma condição de cuidar daquilo, morava no meio das ruínas. A casa mágica da dona Benta, aquela que toda criança sonhou em visitar, tava caída, abandonada, esquecida. Por mais de duas décadas foi assim, até que lá, por 2016, um movimento de fãs começou a se mexer para não deixar aquilo virar pó de vez.
E em 2021, uma mulher chamada Marlete Galdino fez o que ninguém tinha feito, comprou o terreno e começou a levantar a casa de novo, tijolo por tijolo, com a ajuda fanzada. E aqui é onde a coisa fica bonita. Eles não quiseram só consertar, quiseram trazer de volta. Foram atrás de cada detalhe.
Aquela fonte do jardim que eu te falei, a original dos anos 70, tá lá do mesmo jeito, com peixe nadando dentro e tudo. As pedras do jardim foram recolocadas na mesma posição de 1977. E quando um azulejo da cozinha quebrava, daqueles que não se fabrica mais, tem mais de 40 anos, eles davam um jeito, mandavam fazer um adesivo com o desenho idêntico e colavam por cima para ninguém perceber a diferença. Olha o cuidado.
E muita coisa que tá ali dentro hoje veio do coração dos fãs. Telefone antigo, rádio de época, uma garrafa igualzinha a que ficava atrás da dona Benta nas cenas. Móvel parecido com o original. Tudo doado por gente que cresceu vendo o sítio e quis devolver um pedacinho daquilo e tem o melhor de tudo.
Hoje você pode visitar, pode entrar naquela casa, andar pela sala, ver o quarto da Narizinho e sentar para tomar um café da manhã na cozinha da tia Anastasia. broa, pãozinho, bolinho, aquele sonho de criança de entrar no sítio virou coisa que dá para fazer de verdade. Mas foi justamente entrando nessa casa, mexendo nessa história toda, que veio à tona o segredo mais bem guardado do Sítio do Pic-apau Amarelo.
Um segredo sobre o personagem que mais assustava e encantava a criançada ao mesmo tempo. O segredo do sassi. Pensa no saci do Sítio, aquele moleque levado de uma perna só, gorrinho vermelho que aparecia no meio da ventania para aprontar. Pulando num pé só, sumindo no redimoinho, todo mundo lembra.
E todo mundo achava que sabia quem fazia o sassi. O ator que aparecia de rosto era o Romeu Evaristo. Carioca, talentoso, marcou a personagem. Só que tem um detalhe. O Romeu tem as duas pernas normais, inteiras. Aí você pergunta: “Mas como assim?” E o Sassi de, uma perna só, como é que aparecia pulando lá longe, naquele jeito que a gente via na tela? Pois é aqui que tá o segredo que a televisão escondeu por mais de 30 anos.
O saci de verdade, o sem perna mesmo, não era o Romeu, era outro homem, um dublê chamado Francisco Paz. E o Francisco tinha uma perna só de verdade. Não era truque de câmera, não era perna escondida atrás da roupa, não era efeito. Ele perdeu a perna ainda criança com uns 9 anos num atropelamento de ônibus lá em Salvador.
E o truque era o seguinte, quando a cena era de perto, no rosto, era o Romeu. Mas na hora que o Sassi tinha que aparecer pulando lá longe, naquele jeito que só quem tem uma perna pula, a câmera abria e quem estava ali era o Francisco. O Brasil inteiro assistiu aquele saci pulando por anos e anos e nunca, nenhuma vez viu o rosto do homem que de verdade dava aquele movimento pro personagem.
Ele ficou escondido a vida inteira atrás do sassi. Deixa eu repetir, porque é de não acreditar. O saci de verdade do sítio do Picapa-Papau Amarelo tinha uma perna só e a televisão escondeu o rosto dele do Brasil por mais de 30 anos. E o que foi feito do Francisco? Largou a fama que nunca foi dele direito.
Seguiu a vida longe das câmeras. Hoje trabalha num hospital em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Um homem comum que carregava um dos maiores segredos da televisão brasileira na história de uma perna só. Agora, se o saci escondido teve esse destino, espera até saber o que foi feito dos rostos que você conhecia de cor, daqueles que apareciam todo dia na sua sala, porque a partir de agora é um por um.
Vamos começar pelo Pedrinho e não por qualquer Pedrinho, pelo primeiro de todos, o da Globo de 1977. O nome dele é Júlio César. E pensa no tamanho que era esse papel. Naquela época, ser o Pedrinho não era ser só mais um personagem. Pedrinho era o sonho de todo o garoto do Brasil. Era um menino esperto, valente, que caçava Sassi, que enfrentava a Cuca, que vivia aventura ao lado da Narizinho e da Emília. Todo moleque queria ser ele.
E foi o Júlio César que deu rosto a esse sonho ali no comecinho, entre 1977 e 1980. Depois do sítio, ele ainda fez umas aparições aqui e ali. Passou por outras novelas, por programa de humor, mas nunca mais teve um papel daquele tamanho. E aí vem a parte que surpreende.
Não foi por falta de oportunidade que o Júlio César sumiu. Não é a história do ator que ninguém quis mais. Foi escolha dele. Ele simplesmente decidiu que não queria aquela vida de holofote, de câmera, de gente reconhecendo na rua. virou as costas pra fama e foi viver longe de tudo isso. Hoje o primeiro Pedrinho tá com 61 anos, vivo, bem, mas longe das câmeras por vontade própria.
Não dá entrevista, não aparece em programa, não tá nas redes ostentando que um dia foi o menino mais famoso do Brasil, escolheu o sossego. E olha que curioso, tem gente que mataria por 5 minutos de fama. E ele, que teve o Brasil inteiro aos pés, preferiu o silêncio. Mas se o Pedrinho escolheu sumir, a menina que vivia grudada nele, a narizinho, tomou um caminho que ninguém imaginava.
Ela não saiu da televisão, ela só trocou de lado. A primeira narizinho da Globo se chama Rosana Garcia. E essa menina já era praticamente da casa antes mesmo do sítio. Começou na televisão com 5 anos de idade. Cinco quando ela pegou o anarizinho. Lá em 1977, atuar já era a coisa mais natural do mundo para ela.
E que narizinho ela fez? Aquela menina de cabelo cacheado, esperta, sonhadora, que conversava com a Emília, que trepava na jabuticabeira, que ia parar no reino das águas claras. Para muita gente que cresceu naquela época, a narizinho era ela. Ponto. Era a carinha que vinha na cabeça quando alguém falava o nome. Só que aí o tempo passou.
A menina virou mulher e a Rosana fez uma coisa que pouca gente esperava. Ela não largou a Globo, não brigou com a televisão, não sumiu magoada. Ela continuou ali na mesma casa, só que do outro lado da câmera. Por um tempo ainda apareceu na frente, apresentou o programa, fez algumas coisas, mas a partir dos anos 2000 ela tomou uma decisão de carreira.
Foi pros bastidores de vez. Hoje a Rosana é preparadora de elenco e diretora. É ela que treina ator, que ajuda a moldar os personagens que a gente vê na tela. Trabalhou em produção grande como a novela Reis em 2023. Ou seja, aquela menininha que era dirigida virou quem dirige. Hoje ela tá com 60 anos, mora no Rio, é casada, tem dois filhos e quatro netos.
A Narizinho virou avó e continuou fazendo o que sempre fez, só que agora ensinando os outros a fazer. Agora, se a Narizinho ficou na televisão a vida toda, a boneca mais famosa daquela casa fez exatamente o contrário. A Emília largou tudo e foi parar do outro lado do mundo. A Emília pensa na importância dessa boneca.
Tem gente que diz, e com razão, que a Emília era a alma do sítio. Quando a Emília acertava, o programa todo acertava. Aquela boneca de pano respondona, atrevida, que falava o que ninguém tinha coragem de falar, era ela que segurava a graça da coisa. E a Emília clássica, aquela que marcou entre 1978 e 1982, era vivida por uma atriz chamada Renny de Oliveira.
Ela deu pra boneca aquela língua fiada, aquele jeito sapeca e caiu no gosto do Brasil inteiro. Virou referência. Até hoje tem gente que quando pensa em Emília pensa nela, só que aí vem a virada que ninguém imaginava. No auge, no auge mesmo. Com o país inteiro amando aquela boneca, a Renny olhou pra própria carreira e enxergou uma armadilha.
Ela percebeu que ia ficar para sempre presa àquela imagem, que ia ser a Emília até o fim da vida e nada além disso. E aquilo não era o que ela queria. Então, ela fez uma coisa que pouquíssimo artista tem coragem de fazer. Largou, tentou virar a chave, mudar de perfil, chegou a pousar para Playboy em 1984 para mostrar que era outra pessoa, uma mulher, não uma boneca.
Mas no fim das contas, lá pelo finalzinho dos anos 80, ela simplesmente abandonou a atuação de vez. Deu a Deus à televisão brasileira e olha onde ela foi parar. A Ren mudou de país, foi morar no Canadá, lá em Toronto, onde vive há anos. Estudou psicologia, virou terapeuta, trabalha com terapias do corpo, uma vida quietinha do outro lado do mundo, longe de tudo que um dia foi. Pensa na ironia.
A boneca mais faladeira da televisão brasileira hoje passa os dias em silêncio, ajudando gente a se cuidar num país de neve, há milhares de quilômetros daqui. Mas teve outra Emília e essa fez tudo ao contrário da Ren. Quando a Rene saiu, a boneca não morreu. Alguém precisava pegar a Emília e quem pegou foi a Suzana Abranches, que fez a personagem nas últimas temporadas da Globo de 1983 a 1986.
E a Susana mandou bem. A Emília dela também caiu no gosto do povo, também ficou marcada, também fez história naquele sítio. Mesma boneca, mesma língua afiada, mas com a digital dela. Só que aqui tá o contraste bonito dessa história. Lembra que a Henny largou tudo, virou as costas pra televisão e foi embora pro Canadá? Pois a Suzana fez exatamente o oposto.
Ela nunca parou nem por um minuto. Quando o sítio acabou, ela seguiu trabalhando como se nada tivesse mudado. Emendou novela, emendou série, emendou teatro, atravessou os anos 80, os 90, os 2000 e continuou ali firme na ativa. apareceu em produção recente da Globo como a série Gênesis lá em 2021. Ou seja, décadas depois do sítio, ela ainda estava na tela fazendo o que sempre amou.
Duas mulheres, a mesma boneca, dois caminhos completamente opostos. Uma largou no auge e sumiu do outro lado do planeta. A outra ficou, insistiu e fez da atuação a vida inteira. E o mais curioso é que as duas, cada uma do seu jeito, deram certo, só que com ideias bem diferentes do que significa dar certo. Agora, voltando àquele saco, comecinho do vídeo, eu te contei do dublê do Francisco, o homem da perna só, mas faltou te contar o que foi feito do outro Sassi, o ator que dava o rosto.
O Romeu Evaristo, aquele que dava o rosto ao sassi, lembra? O carioca de duas pernas que aparecia de pertinho enquanto o Francisco fazia os pulos lá de longe? Pois o Romeu é prova de que dá para fazer um personagem marcante e mesmo assim não ficar preso a ele a vida inteira. Porque diferente de tanta gente que vira refém de um único papel, o Romeu seguiu em frente e foi virando outras coisas.
Ele virou comediante. E bons, daqueles de fazer rir em programa de humor, esteve no Zorra Total. Andou por novela, por minisérie, sempre trabalhando. Não teve aquela história de sumir, de largar tudo. Ele só foi crescendo, pegando papel de adulto, mudando de fase. Apareceu em produção recente, como a novela Cara e Coragem em 2022, décadas depois do Sassi, lá tava ele, ainda na ativa.
E tem um detalhe de família que talvez você não saiba. Romeu é pai de uma atriz que muita gente conhece hoje, a Dandara Mariana. Quer dizer, o talento ficou em casa, passou de pai para filha. O Sassi virou avô da nova geração da televisão, de certa forma. Pensa só na história completa desse personagem. Um saci feito por dois homens.
Um que apareceu e nunca foi preso à fama, outro que nunca apareceu e carregou o segredo à vida toda. Os dois, do seu jeito, deram aquele moleque de uma perna só pro Brasil. Mas se tem um nome daquele sítio que deu certo como ninguém esperava, que pegou um papelzinho e transformou numa carreira gigante, é o do caipira da venda, o Zé Carneiro.
O Zé Carneiro, aquele caipira de fala enrolada, meio trapalhão, que cuidava das coisas no sítio. Quem fazia era o Tonico Pereira. E a história desse papel é uma das mais curiosas de todas, porque ele quase não foi do Tonico. Olha só que detalhe. O Zé Carneiro era para ser um personagem pequeno de poucos episódios.
Ia ser feito por outro ator, o André Vale, que acabou ficando no sítio como o Visconde de Sabugosa. Mas as coisas mudaram. O Tonico foi escalado no lugar e aí aconteceu o que ninguém previa. O tal caipira de pontinha caiu no gosto do povo. Caiu tanto que o que era para durar uns capítulos virou 8 anos.
8 anos fazendo o Zé Carneiro. E aqui tá a grande sacada dessa história toda. Para muita gente daquele elenco, o sítio foi o ponto alto, o auge, e depois veio a descida. Pro Tonico, foi o contrário. O sítio foi o trampolim. Foi dali que ele se firmou como um dos grandes atores do Brasil. Porque o Tonico não parou nunca.
Seguiu na Globo por décadas, fez novela, fez cinema, fez de tudo e ganhou uma geração inteira nova de fã quando virou o Mendonça, lá em A Grande Família, aquele programa que parava a casa do brasileiro nas noites de quinta. Quem é mais novo e nem sabe que ele foi o Zé Carneiro conhece ele de lá. Então pensa na conta.
Um papelzinho de poucos episódios que era para ser de outro ator virou 8 anos no ar. E o começo de uma das carreiras mais sólidas da televisão brasileira. Às vezes, a vida vira numa escala de elenco que ninguém prestou atenção. Agora falando da cuca, daquela bruxa que tirava o sono de criança no Brasil inteiro.
Tem duas histórias por trás dela. Uma é linda de dar orgulho, a outra é de arrepiar. Vamos começar pela história bonita. A Cuca, que ficou marcada na cabeça da maioria. Aquela que pegou o papel a partir de 1979 e levou até o fim da série era a Catarina Abdala. Nascida em Nilópolis, ali na Baixada Fluminense, foi ela que deu a bruxa aquela voz autoritária, aquele jeito de meter medo que ninguém esquece.
E olha um detalhe bonito que pouca gente parou para notar. A estreia dela na televisão foi justamente ali, como a bruxa do sítio, começara a carreira sendo o pesadelo de uma geração inteira de criança. Não é para qualquer um, mas aqui tá a virada que faz sorrir. Aquela mulher que botava medo, que fazia a criança dormir de olho aberto com medo da cuca te pegar, virou uma das comediantes mais queridas do Brasil.
A bruxa que assustava virou a tia que faz rir, porque a Catarina seguiu carreira na comédia e foi longe. Fez personagem marcante em várias coisas, mas o grande estouro veio anos depois, quando ela virou a dona Jô lá no Vike Cola, aquele programa que faz a casa toda gargalhar, atravessando temporada atrás de temporada. Quem assiste hoje e ri da dona Jô, provavelmente nem imagina que tá rindo da mesma mulher que um dia foi a cuca mais temida da televisão.
Pensa na volta que a vida deu. O rosto, que era sinônimo de medo, virou sinônimo de risada. A mesma atriz, a mesma carreira, os dois extremos da emoção de uma criança, o susto e a gargalhada. Essa foi a história bonita da Cuca, mas eu falei que eram duas. E a outra, a da primeira cuca de todas, é uma das histórias mais sombrias que a televisão brasileira já viu.
Antes da Catarina teve a primeira cuca de todas, a que inaugurou a bruxa na televisão lá em 1977. O nome dela era Dorinha Duval. E a Dorinha não era uma atriz qualquer, era Vedete, mulher conhecida, dona de uma presença forte. Quando ela pegou a cuca, deu pra bruxa aquela voz rouca, aquela risada sinistra, aquele jeito que fazia a criançada se encolher no sofá.
Foi ela que plantou o medo. Foi a cuca dela que começou a fazer mãe pelo Brasil inteiro dizer: “Ou você obedece, ou a Cuca te pega”. Mas a vida da Dorinha tomou um rumo que ninguém, ninguém mesmo, podia imaginar. Em 1980, poucos anos depois de virar o pesadelo querido das crianças, a Dorinha foi condenada pela morte do próprio marido.
Isso mesmo que você ouviu. A mulher que fazia a cuca tirou a vida do companheiro um publicitário e acabou presa por isso. O país que conhecia ela como a bruxa da televisão infantil de repente via aquele nome estampado na manchete de jornal por um motivo bem mais escuro. E aqui é onde a gente precisa parar um pouco, porque é fácil ouvir uma história dessas e cravar um lado.
[música] Tem quem olhe e veja só o crime, o fato frio, a condenação. Mas tem também quem lembre que por trás de todo o personagem tem uma pessoa com uma vida inteira, com dramas que a gente não viveu e não conhece de dentro. O que levou aquilo? O que se passou naquela casa? Só quem estava lá sabe.
E aí fica a pergunta para você, que pode deixar aí embaixo nos comentários. O que se sabe é o que veio depois. A Dorinha cumpriu a pena, saiu e desapareceu das telas para sempre. Largou a atuação, se recolheu e foi se dedicar à arte. Virou artista plástica, pintou e mais tarde até escreveu suas memórias tentando contar a própria versão de uma vida marcada por um único dia.
Viveu seus últimos anos quietinha, longe de tudo, longe das câmeras e morreu em 2025, já com 96 anos. Pensa no peso disso. A mesma mulher que fez milhões de crianças sonharem com o medo da cuca carregou até os 96 anos o peso de ser lembrada por uma tragédia. A bruxa do sítio e a mulher de carne e osso.
Duas coisas que o Brasil nunca conseguiu separar direito. Oito rostos, oito destinos, uns que escolheram sumir, um que escondeu a vida toda atrás de uma perna só, uns que viraram lenda e um que terminou numa tragédia. E no meio de tudo isso, um sítio que, no fim das contas era muito mais do que um cenário. Quando a gente para para olhar tudo isso junto, cai a ficha de uma coisa.
O sítio nunca foi um personagem só. Não era a Emília, não era a Narizinho, não era a Cuca, era todo mundo junto. Tira a Cuca e some o medo. Tira a Emília e some a graça. Tira o sassi e some magia. Era o conjunto, era a turma inteira que fazia aquilo virar o que virou. E talvez seja por isso que o sítio nunca foi embora de verdade da gente.
Os atores envelheceram, alguns se foram, a casa caiu e teve que ser levantada de novo do chão. O tempo fez com tudo aquilo o que o tempo sempre faz. Passou por cima. Mas tem uma coisa que ele não conseguiu derrubar, porque aquele sítio não vivia só lá em Barra de Guaratiba, no fim daquela estrada. Ele vivia na sala da sua casa na tarde em que você sentava no chão, perto da televisão, com o pai e a mãe ainda por perto, sem preocupação nenhuma na cabeça, a não ser caçar saci junto com o Pedrinho.
A casa de tijolo pode ter enferrujado, mas essa, a que ficou plantada na sua memória, essa não enferruja. Essa o tempo não derruba. E é engraçado pensar nisso. Hoje a gente cresceu, virou o adulto que resolve os problemas. que paga as contas, que carrega o mundo nas costas. Mas basta aquela flautinha tocar, basta alguém falar: “Marmelada de banana, que por um segundo a gente volta a ser aquela criança no chão da sala.
Isso, meu amigo, não tem dinheiro que compre.