Por que Lamine Yamal nos faz repensar nossos ídolos?

Por que Lamine Yamal nos faz repensar nossos ídolos?

Em 2007, Lionel Messi ainda era um jovem jogador de 20 anos em ascensão. Naquele ano, ele participou de uma sessão de fotos para um calendário beneficiente produzido pelo jornal espanhol Esporte em parceria com o UNICEF. Famílias de Catalunha participaram de um sorteio para que seus filhos aparecessem nas fotos ao lado de jogadores do Barcelona.

Entre os bebês escolhidos estava um menino de apenas alguns meses chamado Lamine Amal. Durante o ensaio, Messi apareceu dando banho no bebê, segurando-o cuidadosamente diante de uma pequena banheira. E naquele momento, ninguém poderia imaginar que o bebê nos braços de Messi também se tornaria um dos maiores talentos do futebol mundial.

A imagem só ganhou repercussão mundial em 2024, quando o pai de Amal a publicou nas redes sociais com a frase: “O início de duas lendas”. Quase duas décadas depois, aquele bebê se tornou Lameni Amalu, um jogador que carrega no próprio nome, na família, na aparência e nas comemorações a história de seus antepassados e do bairro onde cresceu.

Mas a história desse rapaz de 19 anos começou muito antes dele entrar em campo, vestir a camisa da seleção espanhola ou ser apontado como uma das maiores promessas do futebol mundial. Sua história começou com uma mulher que atravessou o Mediterrâneo sozinha, deixando para trás os filhos e assumindo uma decisão que mudaria o destino de toda a família.

 Na década de 90, aos 40 anos, Fátima, avó paterna de Laminiam, deixou a cidade marroquina de Lara e partiu paraa Espanha. Sua motivação não era simplesmente conhecer outro país. Ela buscava trabalho e condições econômicas que lhe permitissem oferecer um futuro mais seguro aos filhos. A estratégia era bem dolorosa, mas muito comum em trajetórias migratórias.

Primeiro, o integrante da família parte sozinho, consegue emprego, organiza a própria vida e somente depois tenta trazer os demais. Fátima foi paraa Espanha levando apenas o passaporte e o dinheiro que havia conseguido economizar. Depois ainda precisou pagar uma viagem de ônibus até a Catalunha. Ela desembarcou sozinha em uma cidade cujo idioma e costumes ainda desconhecia.

Além da solidão, carregava uma responsabilidade enorme. Precisava sobreviver, enviar recursos pros filhos que haviam ficado no Marrocos e economizar o suficiente para reuni-los novamente. Ela trabalhou como empregada em jornadas longas e a cada ano, quando conseguia reunir dinheiro e condições, Fátima trazia um dos filhos pra Espanha.

Abdu, o mais velho, foi o primeiro. Depois veio Monir Nazaroi, pai de Laminiamal, que chegou a Catalunha quando tinha aproximadamente 9 anos. Aos poucos, a separação familiar provocada pela migração foi sendo substituída pelo reencontro. Fátima acabou se estabelecendo e Rocafonda, bairro operário, que recebeu muitas famílias estrangeiras, principalmente vendas do Marrocos.

 E foi assim que, graças ao esforço da mãe, Munir chegou ainda criança Catalunha e pôde construir sua vida na Espanha. Anos depois, conheceu Sheila Ebana, nascida em Bata, na Guiné Equatorial. Ele trabalhava como pintor de construção e ela como garçonete e em serviços ligados à hotelaria. Em 13 de julho de 2007, nasceu Lamini Amalu Nazaroió Ebana.

 Seu nome completo já revelava o encontro de diferentes histórias. Nasraoióio, herdado do pai marroquino, e ébana da mãe equatuginense. Mas existe também uma história especial por trás de Lamini Amalu. Embora muitas pessoas pensem que Yama seja seu sobrenome, Lamine Yama é, na verdade um nome próprio composto. Segundo relatos, antes de seu nascimento, duas pessoas chamadas Lamin e Amalu ajudaram financeiramente os pais do jogador em um período de grande dificuldade, inclusive com despesas de moradia.

 E como gesto de gratidão, Monir e Sheila decidiram homenageá-las, dando os dois nomes ao filho. Inclusive, o pequeno Yamal parecia destinado a ser cercado por encontros capazes de mudar sua história. Poucos meses depois do seu nascimento, a sua família participou da campanha da UNICEF, que eu comecei falando nesse vídeo.

 Hoje Lamini Amal se destaca porque mostra não só talento em campo, mas ele também entende a importância da própria história. Ele não tenta esconder de onde veio, pelo contrário, transforma suas origens, sua família e o bairro onde cresceu em partes importantes de quem ele é. Como afirmou recentemente em uma entrevista, minha mãe me teve aos 16 anos. Isso sim é pressão de verdade.

 Meu pai precisou recolher coisas na rua para conseguir levar a comida para casa. Ele também faz referência ao bairro onde cresceu com frequência e isso aparece com força quando ajudou a Espanha a vencer a França e chegar à final da Copa do Mundo. Em diferentes momentos apareceu com o nome de Rocafonda, bairro de Mataró, onde passou parte da infância.

 Ele também costuma comemorar os gols formando com os dedos o número 304, referência aos últimos números do código postal 08304 da região. Isso pode parecer apenas uma comemoração, mas esse gesto carrega muito significado. Rocafonda é um bairro popular, marcado pela presença de famílias imigrantes e muitas vezes visto de forma preconceituosa.

 E ao levar esse número para grandes estádios, Lamin mostra que não sente vergonha de suas origens. Ao celebrar o bairro onde cresceu, reconhecer o sacrifício dos que vieram antes, ele oferece a milhões de filhos e netos de imigrantes e migrantes, um espelho no qual também podem se reconhecer. A sua história mostra que pertencer a um novo país não exige esquecer o lugar de onde a sua família veio.

 É possível ser espanhol sem deixar de carregar o Marrocos, a Guinequatorial, Rocafonda e todas as pessoas que abriram o caminho antes dele. Mas existe uma contradição dura nessa história. Quanto mais Lamini e Amalu afirma suas origens, mais essas mesmas origens são usadas para atacá-lo. E a Malu se tornou um dos principais alvos de racismo, xenofobia e islamofobia ligados ao futebol espanhol.

Os ataques aparecem nas redes sociais e também nos estádios, muitas vezes tentando transformá-lo em estrangeiro dentro do próprio país onde nasceu. Um levantamento do Observatório Espanhol do Racismo e da Xenofobia da Espanha identificou mais de 33.000 conteúdos de ódio relacionados ao futebol. Entre os jogadores mencionados, Yamaal concentrou 60% dos ataques racistas identificados, seguido por Vinicius Júnior com 29% e Kil Mbappé com 3%.

Por exemplo, em abril de 2026, durante o amistoso entre Espanha e Egito em Barcelona, parte da torcida espanhola entoou um cântico que usava a palavra muçulmano como provocação contra os adversários. E embora os gritos fossem dirigidos à seleção egípcia, Yal foi atingido diretamente por eles, afinal ele também é muçulmano.

 O jogador deixou o campo visivelmente incomodado e não participou da tradicional volta para agradecer a torcida. No dia seguinte, ele decidiu se manifestar publicamente em uma mensagem nas redes sociais. Ele afirmou que sentiu orgulho de sua fé e reconheceu que o cântico não havia sido criado especificamente contra ele.

 Ainda assim, explicou que transformar uma religião em insulto era desrespeitoso e intolerável. E esse respeito e defesa à suas origens também aparece na forma como fala da mãe e da avó, reconhecendo o trabalho e os sacrifícios das mulheres da família. e também aparece na relação carinhosa com o irmão mais novo, Kane.

Durante a Copa do Mundo de 2026, Kanalizou nas arquibancadas por sua espontaneidade e pelo entusiasmo com que acompanhava o irmão. Em meio à pressão de uma competição mundial, Yama aparecia abraçando o menino, carregando-o no colo e dividindo com ele momentos que poderiam ser apenas seus. E essa relação revela algo importante.

 E a não parece enxergar sua conquista como uma vitória individual. O sucesso também serve para proporcionar a família uma vida diferente daquela que ele conheceu na infância. O irmão mais novo representa justamente essa mudança. Uma nova geração que pode crescer com mais segurança e oportunidades. Mas o jogador também inspira porque apresenta aos meninos outra maneira de compreender a força e a masculinidade.

Em uma época em que tantas influências negativas ensinam garotos cada vez mais cedo a confundir masculinidade com frieza, agressividade e desprezo pelo afeto. Yam oferece uma imagem diferente e ele faz isso sem precisar transformar cada gesto em discurso. Ele beija o irmão, abraça a mãe e avó, demonstra carinho e reconhece publicamente as pessoas que fizeram parte de sua caminhada.

 mostra que um homem pode ser forte sem se tornar insensível, pode ser competitivo dentro de campo sem esconder o afeto fora dele. Isso é importante em um tempo em que muitos jovens são ensinados a associar poder à arrogância, ao individualismo e a necessidade constante de demonstrar superioridade. Mas o orgulho de Yama não aparece apenas quando ele fala da família ou homenageia Rocafonda.

 Ele também se manifesta quando o jogador usa sua visibilidade para demonstrar solidariedade a pessoas que estão muito além de sua realidade imediata. Em maio de 2026, durante o desfile em um ônibus aberto que celebrou mais um título espanhol do Barcelona, o jogador apareceu erguendo uma bandeira palestina diante de milhares de torcedores.

 Essas imagens circularam rapidamente pelas redes sociais e foram interpretadas por muitos fãs, ativistas e atletas como um gesto público de apoio ao povo palestino. E pra muitas pessoas em Gaza, o gesto teve um significado imenso. A força daquela imagem estava justamente em quem segurava a bandeira. Yama não era um torcedor anônimo no meio da multidão, e sim uma das maiores estrelas do futebol mundial, cercado por câmeras, patrocinadores e milhões de seguidores.

Ao levantar a bandeira Palestina naquele momento, ele sabia, ou pelo menos ele podia imaginar que seu gesto seria visto, discutido e, provavelmente atacado. E foi exatamente o que aconteceu. Enquanto muitas pessoas elogiaram sua atitude, outras passaram a questionar seu direito de representar a Espanha.

 Autoridades israelenses também criticaram publicamente o jogador e acusaram seu gesto de incentivar o ódio, interpretação que foi contestada por outras pessoas que defenderam a sua liberdade de expressão. E essa reação mostra uma contradição bem importante. Yama pode ser celebrado como espanhol quando marca gols, quando conquista títulos, mas quando expressa uma posição que desagrada determinados grupos.

 A sua nacionalidade volta a ser colocada em dúvida. Por isso, a bandeira palestina aqui também se conecta à história que a mal carrega. Filho de pai marroquino, de mãe nascida na guineatorial, criado em uma família muçulmana. Ele sabe que identidades podem ser transformadas em motivo de suspeita, de exclusão e até mesmo de violência.

 Isso não significa que ele fale em nome de todos os palestinos, mas significa que diante de uma enorme visibilidade, ele escolheu não agir como se aquele sofrimento não existisse. Por isso, erguer uma bandeira palestina não foi um gesto neutro, foi uma escolha. A imagem chegou até Gaza, onde Yamaal passou a ser homenageado em murais e celebrado por pessoas que enxergaram naquele ato uma forma de reconhecimento.

E talvez seja isso que torneo tão significativo. O jogador mostrou que o orgulho das próprias raízes não precisa produzir fechamento ou indiferença em relação aos outros. pode produzir solidariedade. É por isso que seu exemplo ultrapassa o campo do futebol. E talvez seja justamente aí que a trajetória de Yama dialogue de forma tão forte com o futebol brasileiro.

[limpando a garganta] O Brasil também é um país em que muitos jogadores saem de famílias pobres, negras ou periféricas. E antes de contratos milionários, existiram mães sobrecarregadas, pais que enfrentaram dificuldades, longos deslocamentos, falta de dinheiro e famílias inteiras reorganizando a própria vida para sustentar o sonho de uma criança.

 Mas nem sempre quando alcançam fama, esses jogadores adquirem consciência sobre origem, raça, desigualdade e pertencimento. Eles conquistam dinheiro, fama, visibilidade, porém evitam se posicionar diante do racismo, da pobreza e da falta de oportunidades que continuam atingindo jovens com histórias muito parecidas com as suas.

 Além de Laminiam, Kil Mbappé é outro jogador cuja postura ultrapassa o campo do futebol. Há anos, o jogador se recusa a associar sua imagem a empresas de apostas e a outros patrocinadores cujos produtos considera prejudiciais. [música] E essa decisão já provocou conflitos com a Federação Francesa de Futebol, que utiliza coletivamente a imagem dos jogadores em campanhas publicitárias.

 Em 2026, o jogador voltou a demonstrar incômodo após sua imagem aparecer em uma ação ligada à casa de apostas Bet Click. Para ele, não faria sentido ganhar dinheiro promovendo empresas que afetam justamente as famílias e os jovens das comunidades populares onde ele cresceu. Isso também mostra uma diferença importante em relação a muitos jogadores brasileiros.

Com poucas exceções, isso dá pra gente contar quase nos dedos. No Brasil, atletas que vieram de bairros pobres e periferias frequentemente emprestam seus rostos a casas de apostas, mesmo sabendo que esse mercado lucra principalmente com a esperança e o desespero de pessoas que sonham encontrar no jogo uma saída rápida para as dificuldades financeiras.

São trabalhadores endividados, jovens atraídos pela promessa de dinheiro fácil e famílias que vem parte da renda desaparecer em plataformas promovidas justamente por seus maiores ídolos. É claro que jogadores não são os únicos responsáveis pelo crescimento das apostas. Existe uma indústria poderosa patrocinando clubes, campeonatos, programas esportivos e influenciadores, mas aceitar ou recusar um contrato também é uma escolha.

 Quando o Mbappé abre mão de associar sua imagem a esse mercado, ele mostra que nem todo o dinheiro precisa ser aceito. Mostra que um jogador pode reconhecer que sua influência produz consequências muito além do campo. E também mostra sobretudo que não basta dizer que nunca esqueceu a comunidade onde cresceu. É preciso pensar se as marcas que você promove ajudam essa comunidade ou lucram com sua vulnerabilidade.

Porque responsabilidade social não se mede apenas pelas doações feitas depois que a fortuna foi construída. Ela também aparece no dinheiro que alguém tem coragem de recusar. E o que a gente observa entre muitos jogadores brasileiros é que eles agem com muita neutralidade referente a diversas questões e também eles demonstram um profundo afastamento de suas origens.

Alguns atletas tratam o Brasil quase apenas como o lugar onde nasceram ou como a seleção que representam durante apenas algumas semanas. moram no exterior, constróem uma imagem pública cada vez mais ligada ao luxo e parecem se afastar dos problemas, das culturas e das pessoas que formam o país de onde vieram.

 E muitas vezes também parecem não compreender completamente o que representa uma vitória da seleção brasileira para quem continua vivendo a realidade por aqui. Porque para milhares de trabalhadores que acordam cedo, enfrentam ônibus lotados, trens cheios, jornadas cansativas, uma Copa do Mundo pode significar alguns momentos de alegria coletiva.

 Não porque o futebol resolva os problemas do país, mas porque durante algumas horas ele oferece uma pausa, um sentimento de união e a possibilidade de celebrar em meio a uma rotina marcada por dificuldades. E quando esse Brasil deixa de fazer parte das preocupações dos jogadores, a seleção perde parte de seu sentido coletivo.

 Ela passa a parecer apenas um grupo de atletas milionários defendendo uma marca e não pessoas carregando as expectativas e os afetos de um país inteiro. E é justamente por isso que Laminiam nos faz pensar. Ele ainda é muito jovem, mas a sua trajetória já ensina algo poderoso. Nossas raízes não são um peso que precisamos abandonar para seguir adiante.

 E talvez essa seja uma lição importante, não só pros jogadores brasileiros, mas para todos aqueles que deixaram o país em busca de novas oportunidades. Construir uma vida no exterior, aprender outro idioma e criar vínculos com uma nova cultura não exige romper com o lugar de onde viemos. Por isso, talvez a pergunta não seja apenas porque Lamini Amal deveria inspirar uma geração inteira.

 A pergunta também é: que tipo de exemplo esperamos dos jovens que se tornam ídolos? Apenas jogadores que fazem gols e acumulam dinheiro, ou pessoas capazes de mostrar que é possível chegar ao topo sem esquecer de onde vieram e sem abandonar as causas que nos lembram de que o sucesso não pode nos tornar indiferentes ao sofrimento dos outros.

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Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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