Aos 46 anos, ANTÔNIO MARCOS morreu ao lado de quem ninguém esperava – H
Como vai? Esta pergunta o Brasil inteiro já cantou na rádio, na festa, no casamento, até no funeral. Foi um dos maiores êxitos de Roberto Carlos. Mais de 700.000 cópias, 50 anos a tocar sem parar. Mas o homem que escreveu esta pergunta, ninguém a devolveu a ele há tempo. O seu nome era António Marcos, galã da jovem guarda, voz de uma geração inteira, e morreu aos 46 anos com o fígado destruído pela bebida, enquanto a música que deu a outro continuava a tocar no Brasil inteiro.
Para contar esta história, foram necessárias semanas ouvindo entrevistas de rádio dos anos 80 e cruzando os ficheiros do dicionário Cravo Albin. Todo o mundo lembra da música. Quase ninguém se lembra do homem. Porque enquanto o Brasil cantava aquela pergunta gentil, o António bebia para desaparecer dias inteiros e dizia a quem chegava perto que este mundo não tinha sido feito para ele.
A doença que levou o António não começou no fígado, começou muito antes, num lugar onde ninguém pensou em olhar. Se cresceu ouvindo a Jovem Guarda, se acredita que ninguém deve ser lembrado só pela música que deu a outro, inscreve-se no canal, porque é isso que nós fazemos aqui. envolve as questões que ficaram sem resposta e a do António Marcos ficou sem resposta durante 40 anos.
Antes de ser o galã que fazia o Brasil inteiro suspirar, o António Marcos era apenas um menino de São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. Um bairro cortado por carris de comboio com uma fábrica de produtos químicos enorme fumegando no meio de tudo. Quando o António nasceu, no dia 8 de novembro de 1945, São Miguel era isso.
periferia industrial. Gente a chegar de Minas, do interior, do Nordeste, atrás de trabalho. Em pouco mais de 20 anos, o bairro saltou de 4.000 para mais de 100.000 residentes. Um lugar que crescia de demasiada pressa, feito de operário e de sonho. O seu nome de batismo era António Marcos Pensamento da Silva, filho de Vicente, Alfaiate, e de Eunice, costureira.
A casa cheirava a tecido, a linha e máquina de costura. Não sobrava dinheiro. A família era numerosa, pelo menos sete irmãos. E o dicionário Cravo Alben descreve a origem do mesmo sem rodeios, como uma família de baixo rendimento, mas havia uma coisa naquela casa que valia mais do que dinheiro. Dona Elnice, a mãe, era poeta, escrevia versos e anos mais tarde algumas letras dela tornar-se-iam música na voz dos próprios filhos.
Quer dizer, a palavra, o verso, a rima. Isto já corria no sangue do António muito antes de ele saber o que ia fazer da vida. Desde cedo, foi um menino sonhador. Escrevia um poema, faltava às aulas para ir ao cinema, tocava guitarra na casa dos amigos, cantava nas formaturas da escola. Era são paulino de coração e era também um menino de saúde frágil, tão magro, que ele próprio gostava de contar, já adulto, que em criança tomou uma injeção de sangue de cavalo por conselho de uma benzedeira para ficar mais forte.
Verdade ou não? Esta virou a história a sua favorita sobre a própria infância. E cedo começou também a trabalhar para ajudar em casa. foi office boy a levar recado e documento de um lado para o outro. Foi caixeiro numa loja de sapatos. De dia, o moço dos recados. De noite, o menino que queria cantar.
E ele foi atrás. Passou pelos programas de caloiros, um deles no clube social da própria fábrica do bairro, a nitroquímica. passou pela rádio na Bandeirantes num programa de humor do Stevão San Girarde, onde cantava, tocava guitarra e imitava a voz dos cantores famosos. E em 1962 apareceu como caloiro na TV Record.
Não foi uma vitória que mudou tudo de uma vez. Foi degrau a degrau. Um concurso aqui, um rádio ali, uma pontinha na televisão. O António não rebentou. Ele foi subindo devagar, teimoso. Em 1966 surgiu a primeira chance de verdade. Ele entrou num quarteto vocal chamado Os Iguais, ao embalo da Jovem Guarda Paulista, e o grupo gravou para a RCA.
A música mais recordada deles, a partida, teve o seu tempo de rádio, não se tornou fenómeno nacional, não encheu estádio, mas também não passou em branco. Foi o suficiente para a RCA olhar para aquele rapaz magro e aperceber-se de uma coisa. A voz que se destacava ali no meio era a dele. Assim, em 1967, a editora discográfica fez o convite: Gravar sozinho.
E aqui há um pormenor que diz muito sobre quem era o António. Ele hesitou, teve medo, resistiu antes de aceitar. O primeiro disco a solo saiu e quase não tocou nas rádios. Quer dizer, com 20 e poucos anos, depois de tanto degrau, o António Marcos ainda não era o António Marcos. Era um menino de S. Miguel com uma voz bonita e um monte de porta fechada à frente.
E talvez seja por isso é que a história dele mexe tanto connosco. Porque o António não nasceu ídolo. Foi office boy, foi caixeiro, levou porta na cara e mesmo assim nunca largou o violão. E você também acredita que quem começou de baixo merece ter a história contada com respeito? Subscreve o canal e se quiser ir ainda mais fundo, tem o círculo por detrás da fama.

Por menos que um café por mês, recebe tudo o que nós pesquisamos e não cabe no vídeo. É onde estas histórias continuam. Porque o que ninguém imaginava naquele 1967 é que a coisa que ia tornar o nome do António Marcos eterno ainda estava há alguns anos de distância. E quando ela chegasse ia ser uma pergunta curta, simples, doce.
Só que esta pergunta não ia ser cantada por ele. Ia ser o maior presente que um artista já deu a outro. E o Comel. de uma vida inteira de contas que nunca ninguém veio pagar. Para chegar a como vai, primeiro a gente precisa de compreender uma amizade. Porque quando o António Marcos entregou esta música para o Roberto Carlos, os dois já vinham trocando canção há anos e foi de mão dupla.
Em 1967, quem deu um empurrão ao António foi o próprio Roberto. O primeiro grande sucesso dele como solista, tenho um amor melhor que o seu, era uma composição de Roberto e Erasmo Carlos. No ano seguinte, foi o António quem retribuiu. Deu ao Roberto a canção E não vou mais deixá-lo tão só. E não foi uma faixa qualquer jogada no meio do disco.
Foi a primeira canção do álbum, O inimitável, um dos discos centrais da carreira do rei. Quer dizer, quando o António bateu à porta do Roberto outra vez em 72, não era um desconhecido oferecendo uma canção, era um amigo, alguém que o rei já tinha gravado, já admirava. E a música que levou desta vez tinha uma história bonita por trás.
Segundo o relato que ficou sobre a composição, quem começou Como está? Foi o Mário, o irmão mais novo do António. O Mário tinha cerca de 19 anos e estava apaixonado por uma rapariga que não correspondeu. Meses depois, ainda ferido, sentou-se no piano em casa da mãe dos dois, a dona Eunice, aquela costureira que também era poeta, lembra-se? E ali saíram a melodia e os primeiros versos.
O Mário mostrou que ainda a meio para o irmão mais velho. E os dois terminaram a canção juntos. Quando ficou pronta, os dois irmãos tomaram uma decisão. Iam oferecer aquela música para o Roberto Carlos. Fazia sentido. O Roberto já tinha gravado o António antes, já tinha resultado. Conta-se que o António levou uma fita com a gravação de demonstração, entregou pessoalmente e disse que aquilo era um presente.
Agora, uma ressalva honesta, porque aqui neste canal não inventa. Esta frase, este momento da entrega vem de relatos contados muitos anos depois. Não existe uma entrevista de 72 onde o António conte isso com as próprias palavras. Então a gente conta como ficou na memória. Dois irmãos que fizeram uma canção lindíssima e decidiram dar de presente ao amigo e o presente tornou-se ouro.
O Roberto Carlos gravou o Como Vai te e colocou como segunda faixa do disco dele de 72 com arranjo do maestro Jimmy Wisner. E a música explodiu. Segundo o acevo da Folha de São Paulo e várias histórias do disco brasileiro, aquela gravação passou as 700.000 cópias. Virou um dos maiores sucessos do rei, daqueles que tocavam em toda a rádio, em toda a festa, em todo o fim de tarde, no Brasil inteiro.
E aqui está a primeira coisa desta história que dá vontade de contar para alguém. Uma das canções mais doces, mais cantadas, um dos maiores êxitos de toda a vida do Roberto Carlos, foi escrita por outro homem, um homem que hoje quase ninguém se lembra que existiu. Mas cuidado, porque aqui é demasiado fácil inventar uma tragédia que não houve.
Não existe qualquer declaração do António dizendo que sofreu, que se arrependeu-se, que sentiu que roubaram a música dele. Pelo contrário, no ano seguinte, em 73, gravou a própria versão de Como vai te num disco importante da carreira dele. Nunca deixou de assinar a autoria com o irmão. E lá em 87, o Roberto ainda gravaria outra música da dupla.
A amizade durou toda a vida. Então o que fica não é uma briga, é uma ironia mais silenciosa e mais funda. O António Marcos passou a vida a fazer o Brasil perguntar na voz dos outros: “Como vai você?” E ninguém lá no fim se ia lembrar de fazer essa pergunta para ele. E esta música teve uma vida muito mais longa do que a dele.
Em 2005, quando saiu o filme Dois filhos de Francisco, A voz do António, aí gravada em 73, foi trazida de volta e misturado em estúdio com as vozes de Zezé de Camargo e Luciano. E numa cena deste filme aparecia uma mulher que ainda vai ter um peso enorme nesta história, a Paloma Duarte, filha do António. Mas isso é assunto para mais para a frente.
No ano seguinte, foi a vez da Rebe Camargo gravar a canção. A pergunta simplesmente não parava de ser cantada. Mas enquanto a canção que ele deu de presente corria o país na voz dos outros, o António Marcos construía ao mesmo tempo a própria história, uma carreira de galã, de ídolo, de voz que fazia suspirar uma mulher e uma vida amorosa tão intensa e tão complicada como as canções que ele cantava.
Porque o homem que escreveu a pergunta mais gentil da música brasileira amava demais. E amar demais ia cobrar um preço, porque não se pode contar o António Marcos só como o homem que deu uma canção para o rei. Ele era por conta própria um dos maiores galãs da música brasileira. O primeiro grande sucesso nacional veio em 1968 com Tenho um amor melhor que o teu, aquela que o Roberto e o Erasmo tinham dado a ele.
Entrou no Top Days das Radios de São Paulo e a partir daí não parou mais. Não fico mais semuinho se eu pudesse conversar com Deus, menina de trança, até chegar aos 73, no maior sucesso da sua vida como cantor, o Homem de Nazaré. Vendas descritas em centenas de milhares de exemplares. Rádio tocando sem parar no início de 74. Quer dizer, entre 68 e 74, o António Marcos era rosto de televisão, de revista, de fotonovela, um ídolo de verdade.
As mulheres de todo o Brasil suspiravam por aquele moço de voz aveludada. Mas se há uma coisa que marca a vida do António tanto quanto a música, é o amor. Ele amava. Amava intensamente, amava sempre. A primeira lembrança amorosa vem lá de São Miguel, dos tempos de Menino, uma namorada de juventude que ficou na memória como Sidinha.
Algumas fontes dizem que foi ela, a inspiração de menina de trança, que o António teria apresentado nos espectáculos como uma canção para uma antiga namorada do bairro. Mas sendo honesto consigo, isso vem de memórias contadas muito depois. Não existe uma gravação, uma entrevista da época que confirme, fica como o que provavelmente foi.
Um primeiro amor de bairro guardado numa canção, mas o primeiro grande amor público da vida dele tem nome e tem rosto que a essa altura já conhece. Martinha, a Queijinho de Minas, a cantora da Jovem Guarda. Se viu o documentário que a gente fez sobre ela aqui no canal, você recorda essa história por dentro. Foi um namoro de verdade público por volta de 67 a 69, cerca de 2 anos.
E décadas depois, a A própria Martinha definiu aqueles dois anos como um conto de fadas e o António como o grande amor da sua vida. Mas já ali aparecia uma diferença que se ia repetir para sempre na vida dele. A A Martinha queria casar, o António queria basta juntar, ficar junto sem a formalidade do casamento.
E foi o que separou os dois. Quando acabou, uma revista da altura perguntou ao António o que a A Martinha tinha significado e a resposta dele ficou registada com estas palavras exatas: “Martinha foi um poema que vivi sem rancor, só respeito. Eles até trocaram canções. Ela gravou música dele, gravou música dela. O amor tornou-se repertório.
Só que no meio de tantos amores, há uma história que o O próprio António talvez nunca tenha compreendido por inteiro. Lá em 66, antes da fama explodir, teve uma relação com uma rapariga muito jovem chamada Miriam. Desta relação nasceu um menino, Manuel. E aqui entra uma das coisas mais delicadas desta história toda.
A Miriam seguiu a vida, casou com um outro homem e durante mais de 30 anos acreditou que o menino era filho do marido, que criou o Manuel como pai. A dúvida sobre quem era o verdadeiro pai só apareceu lá no início dos anos 2000, depois de esse casamento ter terminado. E a confirmação por exame de ADN feito com a família do António só veio em 2003.
Faz a conta connosco. O António Marcos morreu em 1992. A paternidade foi confirmada 11 anos depois da sua morte. Ou seja, o homem que cantava o amor como poucos, que tinha o Brasil aos pés, morreu sem nunca saber que tinha um primeiro filho. Não foi abandono, não foi rejeição, foi uma coisa mais triste e mais silenciosa do que isso.
Ele simplesmente nunca soube. E é aqui que dá para começar a ver uma coisa sobre o António Marcos. Este homem amava com uma intensidade que era bela e perigosa ao mesmo tempo. Entregava-se inteiro, rápido, fundo. E quando não resultava, sobrava um vazio que nunca aprendeu a preencher direito.
A Cidinha, a Martinha, a Miriam foram apenas o início, porque nos anos seguintes o António Marcos ia casar, não uma, não duas, mas três vezes. Três mulheres, três famílias, três despedidas e cada uma delas ia deixar uma marca mais funda que a anterior, naquele homem que amava demais e não sabia ficar sozinho. Três vezes o António Marcos montou uma família.
Três vezes teve casa, mulher, filho, um recomeço. E três vezes aquilo desmoronou-se nas mãos dele. A primeira foi com uma mulher que o Brasil inteiro conhece e que já teve a história contada aqui neste canal, Vanusa. Os dois conheceram-se depois de um festival da TV Record, no final de 69 e logo foram viver juntos.
Veio a Amanda, no fim de 71. Casaram pelo civil em fevereiro de em 74 nasceu a segunda filha, a Areta. Era por fora o casal perfeito da música brasileira. Dois jovens artistas, bonitos, apaixonados, com duas meninas pequenas, mas por dentro uma coisa já estava a comer aquela casa por baixo, a bebida. Segundo a própria Vanusa contou, muitos anos depois, o António desaparecia noites inteiras.
Uma vez desapareceu quase quatro dias. Bebia o whisky desde manhã cedo. E teve vez de ela ter de subir ao palco no lugar dele, porque não chegava a condição de cantar. E depois veio o dia em que partiu tudo. A Amanda, a filha mais velha, não queria mais ir paraa escola porque as outras crianças chamavam o pai dela de bêbado.
Quando Vanusa soube disso, pôs o António contra a parede, mandou-o escolher a bebida ou a família. E segundo ela, o António respondeu que nunca mais ia parar de beber. não lhe mentiu, falou a verdade. Ela mandou-o sair de casa. Ele saiu e nunca mais voltou para pedir para recomeçar. Reparem numa coisa, porque isto é importante para compreender este homem.
Mesmo no meio de tudo isto, a Vanusa fez questão de dizer, décadas depois de o O António nunca a agrediu, que era um cavalheiro e que regressava com flores para pedir desculpa pelas ausências. O problema nunca foi maldade. O problema era uma doença que ele próprio não conseguia largar e houve um pormenor cruel nesse fim.
Pouco tempo depois da separação, a Vanusa abriu uma revista à revista amiga e deu de caras com uma foto. O António sorridente, recém casado com outra mulher, uma atriz. A Vanusa contou que passou três dias chorando. Enquanto o Brasil via nas bancas o galã feliz num casamento novo, a mulher que acabara de deixar chorava escondida, com duas filhas pequenas para criar.
A mulher da foto era Débora Duarte, filha de um dos maiores atores do Brasil, o Lima Duarte. E com ela, o António viveu o auge material da vida dele. A revista mostrava a mansão dos dois no Morumbi. Piscina, um pequeno campo de futebol, sofá de veludo, bar de aço, o menino de S. Miguel Paulista, filho do alfaiate e da costureira, vivia agora num castelo.
Em 77, nasceu a filha dos dois, a Paloma Duarte, que ia tornar-se ela também uma grande atriz. E durante um tempo aquilo pareceu dar certo de verdade. Em 79, o casal até apresentava junto um programa na televisão, o cor-de-rosa e o azul, marido e mulher, lado a lado no pequeno ecrã para o Brasil inteiro ver.

Mas o mesmo padrão voltou lá para o início dos anos 80, o casamento com a Débora começou a rachar. E desta vez a queda do António foi mais funda. Ele próprio definiu o que sentiu com uma palavra. Disse que entrou em parafuso. Chegou a falar em largar tudo, abandonar a carreira e ir ser empregado de mesa em Amsterdam.
Reconheceu em público que era mais ou menos insuportável de suportar. Os dois ainda tentaram. Em 82 reconciliaram-se. Numa rádio nessa altura, o António apareceu dizendo que vivia uma fase nova, feliz, ao lado da mulher que amava. E a Débora ao vivo recitou-lhe um poema, mas não durou. A relação que a Débora definiu como 7 anos no total acabou para valer por volta de 83.
E aqui a honestidade manda dizer: “O álcool estava dentro daquela casa. Sim, mas a A Débora nunca disse que se separou por causa da bebida. Então a gente não vai meter-lhe na boca o que ela não disse”. A terceira mulher chegou quando o O António já vinha caindo. O nome dela era Rose, uma modelo quase 20 anos mais nova que ele.
Conta-se que se conheceram num aeroporto em Natal quando o António tinha 39 anos por volta de 84 85. Desta união nasceu o terceiro filho do António, o Pablo. E desta vez ficou um registo lindo. Em 87, o António gravou uma canção chamada Ele é tão lindo, uma homenagem ao filho pequeno. E na própria gravação entrou a voz da Rosa e os barulhinhos do menino.
É um dos poucos documentos sonoros que sobraram daquela terceira família. A voz de um pai gravando o amor pelo filho com a criança ali ao lado no estúdio, mas nem essa família o António conseguiu segurar. Por volta de 1990, ele saiu também dessa relação. E aqui a gente esbarra numa conta triste. Vanusa, Débora, Rosa, três mulheres, três filhos que teve e não viu crescer inteiros.
A Amanda, a Areta, a Paloma, o Pablo e o Manuel lá atrás, que nem sabia que existia. O homem que cantava o mais belo amor do Brasil não conseguia fazer o amor durar debaixo do próprio tecto, não por falta de sentimento, mas porque tinha uma coisa dentro dele, mais forte que qualquer mulher, mais forte do que qualquer filho, que nunca conseguiu vencer.
E nos anos 80 essa coisa deixou de se esconder. Ela tomou conta e o galã que o Brasil inteiro amava começou a desaparecer na frente de A coisa tinha nome e o nome dela era alcoolismo. Não era falta de carácter, não era frescura de artista mimado, era uma doença daquelas que a gente naquela época nem sabia bem como tratar, nem como falar sobre, e que foi devagar, tomando conta de tudo o que o António O Marcos tinha construído.
E aqui está a parte mais dolorosa. O António sabia. Não era um homem em negação. Numa entrevista, falou com uma clareza que assusta sobre a bebida e as drogas. Disse que davam à pessoa uma falsa sensação de criatividade, uma mentira de que ela ficava mais capaz, mais genial. E resumiu tudo numa frase só: “Tudo palhaçada”.
Quer dizer, via a armadilha por inteiro, sabia que era mentira e mesmo assim não conseguia sair dela, porque é exatamente assim que funciona a doença saber. Não é o mesmo que conseguir parar. Mas por que aquele homem bebia tanto? A Vanusa, que conviveu com ele nos anos mais intensos, tinha uma explicação.
Ela contava que quando perguntava ao António por ele se afundava daquela maneira, ele respondia sempre a mesma coisa: “Não sou deste planeta. O mundo é muito cruel e desigual”. A Vanusa dizia que o António sofria com a pobreza, com a injustiça, com a desigualdade do mundo à volta dele, que era demasiado generoso, sensível demais, um homem de pele demasiado fina para um mundo agreste e a bebida era o forma errada que ele encontrou de anestesiar aquilo que não sabia carregar. E o António lutou.
Isto é uma coisa que a história se esquece de contar. Não se entregou de braços cruzados. Ele tentou voltar para trás. uma e outra vez e de novo. A tentativa mais bela e mais cruel foi em 87. A Vanusa, mesmo já separada dele, fazia mais de 10 anos, decidiu ajudar. Organizou um espetáculo especial na televisão para reacender a carreira do António, mas pôs uma condição.
Ele tinha que se internar antes e ele aceitou. Passou cerca de três meses internado numa clínica. Três meses lutando para se manter limpo, para ter uma última oportunidade. Chegou o dia do concerto. O António saiu da clínica rumo ao teatro e no caminho ele bebeu. Chegou embriagado. A Vanusa teve de o segurar no camarim antes de subir ao palco.
Ele ainda conseguiu fazer o espetáculo, a voz, o profissional, aquilo nunca o abandonou de todo, mas os três meses de luta tinham desmoronado no percurso de uma viagem de carro. Foi assim a vida inteira dele nos anos 80. Subia e a sombra puxava para trás. E enquanto ele lutava por dentro, por fora, o mundo ia fechando as portas.
Devagar, o António foi perdendo terreno. As rádios já não tocavam os novos êxitos dele como antes. A televisão já não chamava por papel de galã para a novela. O ídolo dos anos 70 ia-se tornando uma lembrança, mas cuidado com o exagero, porque a verdade é mais digna do que o mito. O António não deixou de trabalhar.
Só nos anos 80 ele lançou quatro discos. Fez teatro infantil em 85, ao lado da filha Paloma. compôs, gravou, subiu ao palco. Ele não foi um homem que desistiu, foi um homem que continuou a tentar, com cada vez menos gente a olhar. E mesmo já muito doente, não largou. Em 91, depois de várias hospitalizações por causa do fígado, o António ainda fez uma época de espectáculos numa casa em São Paulo.
Ainda tentou preparar um disco novo. Queria gravar uma versão portuguesa de Imagine do John Lennon. O projeto não resultou, a gravadora quebrou, os direitos não vieram, mas foi mais ou menos nessa altura que ele entrou num estúdio para uma das últimas gravações da sua vida, uma versão de uma canção chamada Unchained Melody.
Guarda esse pormenor, porque o que esta música fala e o momento em que escolheu gravá-la só farão sentido completo daqui a pouquinho. Quando descobrir quem esteve do lado dele nos últimos dois anos da vida, porque nessa altura o corpo do António já estava a cobrar a conta de 20 anos de bebida, o fígado destruído, os internamentos cada vez mais seguidas.
O médico já sabia o que estava por vir. A família já sabia. Só faltava uma última pessoa a entrar nesta história. Uma mulher que ninguém esperava. Uma mulher cujo nome quando ouvir vai fechar esta história num círculo tão perfeito que parece coisa de guião de cinema, mas não é. Aconteceu de verdade. E foi ela quem segurou a mão do António Marcos até ao fim.
A mulher que ninguém esperava chamava-se Ana Paula. E quando descobrir quem ela era, toda esta história vai ganhar um outro sentido. A Ana Paula era filha de Nice Rossi e a Nice Ross tinha sido a primeira mulher de Roberto Carlos. O Roberto ajudou a criar a Ana Paula, tratava-a como uma filha. Então repara no círculo que aqui se fecha.
O António Marcos entrou na história da Jovem Guarda, escrevendo para o Roberto Carlos o maior presente que um artista deu ao outro. Como vai? E saiu da vida 20 anos depois, ao lado da filha que o próprio Roberto criou como sua. A vida do António começou e terminou orbitando o mesmo homem. Não foi um romance fácil.
A imprensa da época contou que o Roberto não via aquela relação com bons olhos. Queria proteger a Ana Paula da instabilidade que rodeava o António naquela fase. E dá para compreender, o homem que a Ana Paula escolheu amar já estava muito doente. Foi mais ou menos nessa altura que ele gravou aquela canção que te pedi para guardar.
Por amor, a versão portuguesa de Unchained Melody, a mesma música que o mundo inteiro tinha acabado de redescobrir no cinema num filme sobre um amor que nem a morte conseguiu separar. Foi das últimas coisas que o António Marcos gravou na vida. saiu num disco no fim de 91, 5 meses antes de ele morrer. E há um pormenor neste disco que aperta o peito.
Na contracapa tinha uma foto do António junto da Ana Paula. Agora, a honestidade que temos sempre com você aqui, não se pode dizer que o O António escolheu aquela música porque sabia que ia morrer, nem que gravou como despedida. Isso ninguém pode afirmar. Mas fica a coincidência. Um homem em fim de vida, ao lado de um último amor, gravando uma canção sobre um sentimento que atravessa o tempo e a distância.
Por vezes, a vida rima sozinha sem pedir licença. E aqui preciso de corrigir uma coisa que se conta há mais de 30 anos. Durante muito tempo, repetiram que o António Marcos morreu embriagado depois de embater com uma carrinha num poste. Mas o boletim médico do hospital, publicado nos jornais da época, conta outra coisa.
No domingo, 5 de abril de 1992, o António deu entrada no hospital Osvaldo Cruz em São Paulo à tarde, consciente, com dores na barriga e a pressão baixa, e tem atenção a isso, não alcoolizado. Não houve batida de carro, não houve bebedeira final. O que tinha era um corpo de 46 anos que não aguentava mais.
O fígado tinha chegado ao fim. O quadro agravou-se rapidamente. Fui paraa UCI. Insuficiência hepática fulminante. O sangue já não coagulava. E às 9:45 da noite desse domingo, o coração do António Marcos parou. Ele tinha 46 anos. Não os 47 que muita gente repete. 46. E depois aconteceu uma coisa que diz tudo sobre o tamanho daquele homem.
Centenas de fãs apareceram no velório, gente comum que tinha crescido a ouvir o homem de Nazaré, menina de trança, como vai você na voz dele? E ao redor do caixão estavam elas, a Vanusa, que tinha mandou-o embora de casa 16 anos antes, ajoelhada, a chorar, a Débora Duarte, o grande amor da sua vida em estado de choque, e a Amanda.
A filha, que um dia não quis ir paraa escola porque chamavam bêbado ao pai dela, desmaiou de dor e teve de ser socorrida. Todas as mulheres que aquele homem amou e que aquele homem perdeu estavam ali, no mesmo local, pela última vez, reunidas em redor do galã, que não soube ficar, mas que nenhuma delas conseguiu esquecer.
No dia seguinte, o corpo do António Marcos foi levado pro cemitério dos giraçóis, na zona sul de São Paulo. E aí, aos 46 anos, foi enterrado o homem que fez o Brasil inteiro cantar a pergunta mais doce da a nossa música, porque é isso que fica no fim. O António Marcos passou a vida fazendo o país perguntar na voz dos outros: “Como está?” Essa pergunta tocou em toda a festa, em toda a rádio, em todo o casamento durante 50 anos.
E no no entanto, o homem que escreveu estas três palavras foi-se embora aos 46 anos, sem que quase ninguém na correria da vida tivesse parado para fazer essa mesma pergunta-lhe. Como vai você, António? Mas talvez não seja tarde, porque hoje, mais de 30 anos depois, chegou até aqui, ouviu a história inteira, conheceu o menino de São Miguel, o galã, o homem que amava demais, o doente que lutou e caiu e lutou de novo.
E se essa história te tocou, então de alguma forma, agora tarde, mas a sério, alguém finalmente parou para lhe perguntar como estava. E esse alguém foi você. E se quer compreender ainda mais fundo esta história, há duas mulheres dela que já têm o documentário delas aqui no canal. A Vanusa, aquela que se ajoelhou chorando no seu caixão e que carregou essa dor até ao último dia da própria vida.
tem uma história tão devastadora que é difícil de acreditar que foi real. Tá aqui, ó. É só clicar. E a Martinha, o poema que viveu, o primeiro grande amor, também tem a história dela contada aqui da maneira que ninguém contou. Se subscreve o canal para não perder nenhuma destas histórias, porque é isso que fazemos aqui em Por trás da fama.
A gente devolve uma a uma as questões que ficaram sem resposta e ainda há muita gente à espera de alguém perguntar. Até à próxima.