Aos 67 anos, ROBERTO LEAL e a TRAGÉDIA que ele nunca chegou a saber – H

Todo o brasileiro que ligou a televisão nos anos 70 conhece essa voz. A voz que fazia o país inteiro bater palmas e dançar como se Portugal ficasse ali do lado. Mas há uma coisa que quase ninguém sabe sobre o homem que cantava. Antes de ser Roberto Leal, foi um menino de 10 anos a chorar no porão de um navio argentino no meio do Atlântico.

Foram 13 dias de viagem e o próprio contou, muitos anos depois, que só parou de chorar no quinto. E houve outra coisa que ele nunca soube. Em 2019, quando o cancro já lhe tinha chegado ao fígado, a própria família tomou uma decisão, não contar. Morreu sem saber o tamanho do que transportava.

Para contar esta história, fomos atrás da autobiografia que publicou em 2011 As minhas Montanhas e das entrevistas que deu nos últimos meses de vida. Porque o Brasil inteiro decorou o Roberto Leal da festa, do sorriso, do arrebita, mas a história real deste homem começa num cais de Lisboa com um chapéu cinzento a desaparecer no meio de lenços brancos.

e termina na sala de casa dele em frente de uma câmara de televisão, nove dias antes do fim, cantando sem saber que era despedida. Vale da Porca não aparecia em mapa nenhum. Era uma aldeia de trás os montes, no norte de Portugal, sem electricidade, com casas de pedra cinzento e um inverno que entrava pelos ossos.

Foi aí que António Joaquim Fernandes nasceu a 27 de novembro de 1951, o penúltimo de 10 irmãos. E foi aí que o pai começou a ficar cego. Avelino Augusto Fernandes contava que primeiro apareceu uma espécie de névoa num olho. Em Vale da Porca não havia médico e sair dali era difícil. Quando finalmente chegou a Macedo de Cavaleiros, a névoa já se tinha tornado outra coisa.

Depois, o segundo olho fez o mesmo caminho. Vieram os hospitais. Longas temporadas no porto, em Lisboa, uma operação atrás da outra. O diagnóstico tinha um nome simples, quase banal, catarata. Só que aquela catarata não cedia. E um dia os médicos disseram a ele que não havia mais nada a fazer. Um homem do campo, com 10 filhos para criar, que já não conseguia ver a terra que lavrava, deixou de ver alguns dos próprios filhos nascerem.

Maria Júlia, a sua mulher, passou a carregar quase tudo sozinha. O que aconteceu depois? O Roberto contou no seu livro exatamente como o pai contava. Avelino estava deitado, preparando-se para dormir, quando disse ter visto uma mulher envolvida numa luz muito forte. Ela mandou-o confiar em Santo Ambrósio.

Em seguida, apareceu a figura do santo, com cara de que tinha uns 18 anos. Quando acordou, via uma claridade. Antes do meio-dia, segundo o que ele próprio dizia, já conseguia passar uma linha pelo orifício de uma agulha. A vista nunca voltou aos 100%, mas voltou. A família prometeu então que ia construir uma capela ao santo e construiu lá no alto do redondel capelinha pequena, erguida com as mãos deles.

Com o tempo chegaram os peregrinos, as promessas, as esmolas. Aquela capelinha tornou-se o santuário de Santo Ambrósio. Guarda essa imagem. Uma família que levantou uma capela porque uma luz tinha voltado. Ela vai voltar nesta história e da segunda vez não vai ser para dar luz nenhuma, porque a vista do pai voltou, mas a fome não foi embora.

Não dava para pagar 10 bilhetes de uma só vez. Assim a família foi indo aos poucos em levas ao longo de 6 anos. Primeiro a filha mais velha, Maria Alice, depois Manuel Luiz, depois as irmãs. Cada um que chegava ao Brasil trabalhava e enviava dinheiro para pagar a passagem do próximo. O pai foi por último, sozinho, com visto de turista. Deixou em Vale da Porca a mulher e seis filhos, desde o mais velho de 17 até ao menor de 2 anos.

As terras foram ficando abandonadas. Os que sobraram não tinham força para lavrar. Depois de matar o último porco, nem porco novo dava mais para comprar. Em janeiro de 1962, chegou a vez deles. A mãe arrumou o Kikobe, as roupas, comida para a travessia e para os primeiros dias e um barrilzinho de azeite. Um tio, Manuel Patrício, levou Maria Júlia e as seis crianças de comboio de Vale da Porca para Lisboa.

Na capital, três hotéis recusaram-se a hospedar a família. Crianças a mais. No Kais, na altura do embarque, foi este tio que ficou para trás. Roberto lembrava-se do chapéu cinzento dele. Lembrava-se dos olhos molhados debaixo da aba, dos lenços brancos a baloiçar no cais, do apito do navio que descreveu como um grito, e da figura do tio a perder-se no meio da multidão, pedindo para não ser esquecido, porque nunca se ia esquecer.

A travessia era para durar menos tempo. Durou 13 dias, uma caldeira avariou e o navio teve de parar na madeira para consertar. Eles não desceram. Viajaram na classe de baixo, em camarotes que na memória dele estavam uns 10, 15 m abaixo do nível do mar. A televisão daquele rapaz era a escotilha por onde via os peixes passarem.

Passou três dias sem conseguir comer entre o enjoo e a tristeza. A mãe conseguiu que ele comesse bacalhau cru dessalgado ali mesmo debaixo da água do camarote. Anos mais tarde, resumiu aqueles dias numa só frase: “Só parou de chorar a partir do quinto dia de viagem. O navio entrou primeiro pela baía de Guanabara, depois seguiu para o porto de Santos e foi lá no Cais que aquela família ficou inteiro de novo pela primeira vez em 6 anos.

Subiram à serra do mar em três carros emprestados. São Paulo era janeiro, um calor húmido, pegajoso, que nunca tinha sentido. Vinham de um inverno de trás os montes. Sentiu falta do cheiro da terra molhada, da lenha, do fêno, e encontrou fumo, óleo, buzina, cabo de luz por todo o lado. Até o céu parecia menos azul. Ainda no carro, descobriu que ali ninguém falava autocarro, falava autocarro.

A primeira casa foi na Vila Maria, zona norte, na rua sete, do lado do pequeno jardim zoológico do senhor Agenor. Algumas noites, o menino acordava assustado com o rugido dos leões. Com 12 anos, já estava trabalhando numa sapataria e estudando à noite. A família combinou comer carne só no domingo até liquidar o empréstimo das passagens.

Se chegou até aqui, provavelmente é porque alguém da sua família também se foi embora um dia. Ou porque é dessa geração que aprendeu a dançar ouvindo este homem na televisão. É para vocês que fazemos este canal para contar as histórias inteiras, não só a parte bonita. Se inscreve aqui connosco, porque aquele rapaz da rua 7 ia virar em poucos anos o português mais amado Brasil.

E o alcunha que carregou a vida toda não foi ele que escolheu, foi um professor. E tem tudo a ver com um outro Roberto. O apelido nasceu num salão de aulas de música na comunidade portuguesa de São Paulo. O professor chamava-se Manuel Marques. Tinha um ginásio com 70, 80 alunos. Ensinava acordeão, viola, guitarra portuguesa e canto e levava a turma para tocar nas festas da colónia.

O António morava longe de todos e mesmo assim era sempre o primeiro a chegar ao autocarro. Um dia o professor brigou com um aluno atrasado e apontou para o menino como exemplo: “Aquele ali vive muito mais longe do que você e nunca se atrasa. Aquele ali é leal.” Pouco tempo depois, chamou o rapaz de lado e disse que já tinha o nome artístico dele.

Leal, porque és leal e dedicado. E Roberto, porque tu vais ser o Roberto Carlos dos Portugueses. Ele contou no livro que aquela comparação o encheu de orgulho. Não era só um nome bonito, era uma missão. Alguém que levantasse a música portuguesa dentro do Brasil. Só que entre e receber o nome e virar o nome, passaram anos duros.

O pai pegou no dinheiro emprestado para pagar o primeiro compacto do filho. A gravadora entregou-lhe 300 exemplares na mão para ele mesmo vender. Vendeu 40 aos amigos. O resto tentou empurrar na feira juntamente com o bacalhau e o queijo que a família vendia. Gravou um segundo disco numa pequena editora. Também não aconteceu nada durante quase dois anos.

Tocou em aniversário e festa com um grupo de rapazes, sete ou oito, apertados num carro velho, indo de bairro em bairro. Foi nestas festas que ele reparou numa coisa. Quando ele cantava ou a rebita uma canção portuguesa com guitarra eléctrica por cima, o salão parava, as pessoas riam e tentavam dançar. Um locutor da rádio Tupi, o Barros de Alencar, entendeu que antes dele.

O diferencial não era o repertório brasileiro que o rapaz insistia em cantar, era aquilo. Conseguiu lançar o disco e depois vieram s meses de nada. Sete meses com a música a tocar na rádio de um só locutor, enquanto as outras estações evitavam o disco porque se tinha tornado descoberta do Barros e Barros era rival dos outros. As vendas não saíam do lugar.

Desesperado, decidiu tentar a sua sorte no rio. Barros entendeu aquilo como desconfiança e rompeu o contrato. Ele foi para o rio sem contrato, sem editora ao lado, com algumas mudas de roupa, uns trocos e o disco debaixo do braço. Ficou numa casa dividida em Copacabana, daquelas que empresário usava para amontoar artista iniciante.

Todos os dias ia para a Rádio Globo tentar entrar num programa. Ficava num corredor que os candidatos chamavam de corredor da morte. Tinha uns 30 na frente dele. Entravam três, quatro por dia. Segunda, terça, quarta, quinta. Na sexta-feira ainda não tinha cantado uma nota e o dinheiro acabou. pegou as coisas e foi paraa rodoviária voltar para São Paulo. Derrotado.

No caminho, lembrou-se de uma reportagem que tinha lido no autocarro sobre um apresentador que descobria gente nova. Mudou de ideias no meio do percurso e exigiu que o divulgador da editora o levasse na TV Globo. Chegaram senhora marcada. Um conhecido na portaria deixou os dois entrarem. Era sábado. Chakrin estava escolhendo os discos do programa do dia seguinte com a secretária, a Ana Líia.

Perguntou o que o rapaz cantava e o rapaz, em vez de pôr o disco a tocar, cantava ali mesmo, sem música, sem nada, apenas a voz no meio da sala. Chacrinha virou-se para a secretária e mandou colocar ele para cantar no domingo seguinte. Domingo, 3 de outubro de 1971. Estava escalado quase no fim do programa e pensou que ia ser cortado por falta de tempo.

Nesse dia, a Globo ia entrar em direto no Maracananzinho na final internacional do Festival da Canção. Só que houve um problema técnico na transmissão e a produção mandou esticar o programa uns minutos. Aqueles minutos foram os dele. Chacrinha anunciou o rapaz como o português mais bonito do Brasil. Dois pares de um rancho folclórico dançaram atrás dele.

Quando ia saindo do palco, o Chacrinha segurou-lhe o braço, perguntou-lhe público se queria mais e mandou tocar o arrebita de novo do princípio. Cantou duas vezes seguidas para um país inteiro que estava com a televisão ligada à espera a final do festival. Chacrinha contratou -lo para sete programas seguidos. Segundo a autobiografia, a canção entrou nessa semana em 65º lugar na Parada de São Paulo.

Na semana seguinte estava em 45º, depois em 17º, depois em oitavo, na quinta semana, em primeiro, daí em diante a sua vida virou estrada. cinco, seis espectáculos por semana, circos com 1000, 2000 pessoas, onde levava 70% da bilheteira, cinco apresentações numa única noite no Recife, 50 e dois grandes espectáculos num ano só no Rio de Janeiro, quase um por semana.

Na mesma cidade cantou de Porto Alegre a Macapá, do interior do Amazonas a São Luís. Em 72, Chacrinha coroou-o, rei da juventude brasileira. As fontes discográficas atribuem mais de 150.000 cópias a cada um dos discos Carimbó Português e Rock Vira. No fim da vida, dependendo de quem conta, as vendas dele estavam entre os 15 e os 18 milhões de discos.

Mas nenhum destes números explica bem o que aconteceu. Pegou numa música que até então quase só tocava dentro da Associação Portuguesa, pôs guitarra elétrica, trajagado e coreografia que dava para imitar em casa e transformou aquilo em festa da televisão brasileira. Transformou a saudade de imigrante em alegria de domingo, pouco depois da estreia, um casal português parou-o na rua.

Segundo a sua memória, disseram uma frase que nunca esqueceu, que era o Portugal deles, como nunca tinham visto na televisão do Brasil. 28 anos depois, em abril de 1999, o Datafolha fez uma sondagem e perguntou aos brasileiros, sem dar qualquer opção, que português famoso vinha à cabeça deles. 44% não souberam referir ninguém. O nome mais recordado do país, 15%, na frente de Camões e de Pedro Álvares Cabral, foi o do menino do navio.

No meio desta avalanche toda, encontrou também a mulher da sua vida, uma estudante de direito de nome Márcia Lúcia, lhe foi apresentada à porta de uma rádio. Casaram em Julho de 74. Ela ia acabar assinando com ele quase 400 canções, quase 90% de tudo o que gravou. E foi juntamente com ela que, no auge de tudo isso, fez a coisa mais estranha da carreira dele.

Largou o Brasil por uns meses e foi gastar dinheiro a filmar uma história que ninguém no país conhecia. A história de uma aldeia sem eletricidade, de um cego e de uma capela no alto de um monte. A primeira coisa que fez com o história do pai não foi um filme, foi uma canção. Em 1977, em plena fase mais movimentada da carreira dele, Roberto sentou-se com a Márcia Lúcia e os dois escreveram juntos: “O milagre de Santo Ambrósio.

Entrou no disco Rock Vira, no meio das músicas de festa. A letra quanto o que aconteceu nessa noite em Vale da Porca. A capelinha, a luz, um cego que voltou a ver. Repara no tamanho do gesto. O gajo vendia discos de festa, era rei da juventude brasileira, fazia 52 espectáculos por ano só no Rio, e colocou no meio deste repertório a história mais íntima da sua família, escrita a quatro mãos com a mulher.

No ano seguinte, ele fez uma coisa ainda mais estranha. Fazia 16 anos que não pisava Portugal. 16. Saiu com 10, voltou com 26, já famoso. Os nove irmãos foram levá-lo ao aeroporto. O avião ia aterrar no porto, mas a névoa fechou tudo e desviaram-se para Lisboa. De Lisboa, foi diretamente para aldeia. Quando o carro atravessou a serra do Marão, escreveu que o coração apertou o passo e depois veio a parte que quem já regressou a casa depois de muito tempo compreende sem necessitar de explicação.

A estrada estava igual, igual até nos buracos, mas a aldeia tinha encolhido. Não tinha encolhido de verdade. Era ele que tinha guardado ela grande na memória de menino. E agora? Ela cabia num olhar. Só ficou 10 dias. Foi com esta viagem ainda quente que decidiu filmar. O milagre e o poder da fé foi rodado em 78, realizado por Hércules Brezeguelo com Roberto como protagonista.

Jofre Soares fazia de pai e no elenco tinha Chacrinha, El maravilha, Lolita Rodriguez, meio Brasil da televisão, dentro de um filme sobre uma aldeia portuguesa que ninguém conhecia. Ele mesmo depois admitiu que aquilo foi feito com uma ingenuidade que hoje seria impossível. Uma longametragem quase sem dinheiro, com muito pouco recurso técnico, feito por gente que acreditava demais.

Sobre a atuação do próprio, foi ainda mais duro. Dizia que se via na ecrã e não gostava do que via. E o filme mudou uma coisa da história real, uma coisa importante. No filme, o filho enriquece, leva o pai de volta para Portugal e o milagre acontece lá no santuário com a câmara parada em cima do rosto do velho. É o clímax.

É bonito de ver. Só que não foi assim. Avelino recuperou a vista deitado na cama da casa dele sozinho, sem público. A capela veio depois, como promessa paga. Guarda este pormenor, porque ele explica uma coisa. 40 anos depois, quando Roberto Leal morresse, quase todos os jornais iam repetir que o pai tinha recuperou a visão dentro da capelinha de Santo Ambrósio.

Esta versão não vem da vida dele, vem do filme dele. A ficção contou a história tantas vezes que se tornou a versão oficial. O filme estreou a 12 de março de 1979. A crítica detonou. Chamaram-lhe ingénuo, mal dirigido, tecnicamente pobre. Um dos jornais deu uma estrela de três e o público fez fila.

O Roberto foi pessoalmente ver o que estava a acontecer no dia da estreia. A fila do Cine Paiçandu duplicava o quarteirão e dobrou o quarteirão por oito semanas seguidas. Tinha família inteiro, havia freiras, havia um grupo de igreja. E tinha, segundo o que o diretor contou-lhe, gente que nunca tinha entrado num cinema na vida. No fim da carreira do filme, quase 942.

000 mil espectadores, um dos filmes brasileiros mais vistos desse ano. Mas há uma coisa desse mesmo dia que quase ninguém sabe. Enquanto a fila dobrava o quarteirão, estava arrasado. Alguém tinha questionado a sua fé por causa do filme. Tinha sugerido que aquilo era exploração ou encenação. E ele contou anos depois que a única coisa capaz de tirá-lo do sério era quando mexiam com a fé dele.

o maior sucesso de bilheteira da sua vida e ele passou o dia machucado. Talvez por isso o gesto que melhor explica este homem não seja o filme nem a canção. Enquanto o pai dele esteve vivo, todos os anos, todo o ano O Roberto oferecia um espectáculo inteiro pra comissão da capela de Santo Ambrósio. Não enviava cheque. levava a banda, montava o palco e tocava gratuitamente.

Com esse dinheiro e com as moedas que os romeiros iam deixando, a comissão foi ampliando a construção. A capelinha que a família tinha erguido no cimo do redondel foi virando aos poucos o santuário de Santo Ambrósio. Ele nunca disse que construiu aquilo. Disse que cantava e que os outros construíam. sobre a aldeia, escreveu uma frase que resume os seus 67 anos numa linha: “Vale da porca seria durante toda a minha vida o o meu lar”.

E impôs uma regra a si próprio que cumpriu até ao fim. Nunca ia à Vale da Porca sem passar por Santo Ambrósio, nem depois de o pai morrer, principalmente depois de o pai morrer. Há muita coisa desta pesquisa que não cabe em 30 minutos páginas inteiras do livro dele, histórias da aldeia, bastidores do filme. Quem faz parte do círculo por detrás da fama recebe tudo isto num post depois de cada documentário.

O link fica aqui em baixo para quem quiser ir mais fundo. que esse homem passou toda a vida a ser, nas palavras dele, testemunha viva de uma luz que voltou. 40 anos depois daquela estreia, os médicos iam encontrar alguma coisa na perna direita dele, e o tratamento desta coisa ia começar devagar a apagar-lhe a luz. Durante quase dois anos, o Brasil inteiro viu Roberto Leal a trabalhar normalmente.

Espetáculo, televisão, sorriso, trage colorido, o mesmo homem de sempre. E durante esses mesmos dois anos, ele estava a fazer cirurgia, sessão de radioterapia e não contou a ninguém. Não começou com uma mancha, começou com dor, uma dor que nascia no fim da coluna e descia. Ele descreveu assim com estas palavras.

Era uma dor que começava no final da coluna e estendia-se para a minha perna direita. No início pensaram que era hérnia discal, coisa de quem passou a vida em cima de um palco numa estrada, a dormir em ônibus. Coisa da idade. Só que a dor foi ficando estranha. Teve altura em que já não sentia nada do joelho para baixo.

A perna direita simplesmente desaparecia. Quando os exames finalmente disseram o nome daquilo, o nome era melanoma, cancro de pele. E já já não estava só na pele. Isso foi por volta de 2016 e si. A conta exata nem ele deu depois. Vieram três cirurgias e 10 sessões de radioterapia. Ele nunca disse publicamente as datas, nem os hospitais, nem o que foi operado exatamente em cada uma. Só o número tres, 10.

E o público durante todo este período continuou a ver o homem da festa. Foi depois da radioterapia que os médicos encontraram outra coisa, duas cataratas. Para quem chegou agora, esta palavra pode não não significar nada, mas quem está com a gente desde o início deste vídeo já entendeu. Catarata foi a palavra que tiraram ao pai dele.

Avelino Augusto Fernandes ficou cego de catarata em Vale da Porca. Foi operado no Porto, foi operado em Lisboa e ninguém conseguiu resolver. Até à noite em que contou ter visto uma luz. E a Mancel a ver. A família ergueu uma capela por causa daquela luz. O filho escreveu uma canção sobre ela, fez um filme sobre ela.

Passou 50 anos dizendo que era testemunha viva daquilo e agora voltava a mesma palavra. No filho. Só que desta vez não houve noite nenhuma, não houve luz, não houve manhã. com o homem a ver de novo. E não foram apenas as cataratas. Ao mesmo tempo em que lhe embaciavam a vista, o tumor avançava por dentro e provocou um deslocamento da retina no olho direito, duas coisas a empurrar na mesma direção, uma vinda do tratamento, outra vinda da doença.

Em janeiro de 2019, numa entrevista à televisão portuguesa, ele disse com todas as letras: “Já não vejo nada da vista direita”. Pensa no que esta frase significa vindo deste homem em específico. A carreira inteira dele foi construída em cima de cor. Trage bordado, lenço, saia rodada, luz de palco, pessoas a dançar. Vendeu 15, 18 milhões de discos vendendo alegria que se enxerga. O olho direito apagou.

Foi então que decidiu falar. 30 de dezembro de 2018. Um domingo. Ele abriu a casa dele para a Record, para o Geraldo Luiz no Domingo Show. A emissora anunciou daquela maneira, o homem que quebrava do anos de silêncio. Ele não chorou, não pediu pena. Falou da possibilidade de morrer com uma serenidade que assustou muita gente que assistia.

Se este caminho é o único caminho possível, não tenho escolha. E logo a seguir emendou a frase que resume a fé que transportava desde a aldeia, que tinha a certeza de que o amor venceria toda a dor. Uma semana depois, no dia 7 de de janeiro, repetiu tudo em direto, agora para a televisão de Portugal. Os dois países ficaram a saber com sete dias de diferença e depois veio a parte que ninguém esperava.

Voltou a trabalhar, não parou, não se recolheu, continuou subindo ao palco com o corpo, já não respondendo, com um olho apagado, com a perna que por vezes desaparecia do joelho para baixo. Até que chegou o dia em que as pernas já não o deixaram fazer o espetáculo inteiro em pé e ele fê-lo sentado. Há imagem disso.

Ele sentado numa cadeira no meio do palco a cantar as mesmas músicas de festa que fizeram o Brasil dançar há 50 anos e agradecendo o público por estar ali. Segundo o relato que acompanha esta gravação, ele disse que nunca tinha imaginado fazer um espetáculo sentado. Mas há uma coisa nesta história que ainda não te contei. Enquanto dava estas entrevistas, enquanto cantava sentado, enquanto dizia com toda a calma do mundo que aceitava o caminho que fosse, não estava sabendo de tudo.

Tinha uma informação sobre o seu próprio corpo que a família tinha decidido não passar adiante. Uma decisão tomada em silêncio entre eles e mantida até ao fim. E foi o filho dele que contou depois. No dia 16 de setembro de 2019, na casa de Portugal, no bairro da Liberdade em São Paulo, o caixão de Roberto Leal estava aberto para quem quisesse se despedir.

E o filho, o Rodrigo, parou em frente aos jornalistas e contou uma coisa que ninguém esperava ouvir num velório. Contou que a família tinha mentido ao pai. Agora presta atenção nesta parte, porque é aqui que quase toda a gente entende errado. O Roberto sabia que tinha cancro. Ele próprio tinha contado na televisão, tinha falado com repórter dos dois países, tinha dito na cara do Brasil que aceitava o caminho que fosse.

O que ele não sabia era o tamanho, porque enquanto falava daquele jeito sereno, o melanoma estava avançando e cada vez que aparecia um ponto novo no fígado dele, alguém da família traduzia-lhe aquilo numa versão mais pequena. Rodrigo repetiu na frente dos repórteres a frase exata que utilizavam. Está com uma manchinha só. Uma manchinha só.

E antes que julgue esta família, ouve o motivo. Porque o Rodrigo explicou e o motivo muda tudo. A frase que ele disse foi esta: “Ele não parou, foi o que o fez viver”. Eles tinham olhado para o pai deles a vida inteiro e sabiam exatamente que tipo de homem era aquele. Um sujeito que aos 10 anos já trabalhava, que vendeu um disco na feira juntamente com bacalhau, que esperou cinco dias num corredor de rádio sem comer direito, que fazia cinco espectáculos numa noite no Recife.

Aquele homem não sabia existir parado. Eles acreditavam que no dia em que soubesse o tamanho real da coisa, ele ia parar e que se parasse, morria antes. Então, driblaram, foi a palavra que o filho utilizou, driblaram para que a cabeça dele nunca fosse abaixo e funcionou de uma forma quase absurdo. Com o cancro já no fígado, Roberto Leal tinha concerto marcado até maio de 2020. Homem nenhum.

Agenda 8 meses de trabalho, se acha que vai morrer. O Rodrigo disse mais uma coisa nesse velório, e essa talvez seja a chave de tudo. Disse que conseguiram preservar o pai com aquela imagem feliz, bonita, da forma que ele gostaria de ser lembrado. Não foi uma mentira para enganar. Foi uma mentira para deixar um homem continuar a ser quem era até ao último dia possível.

E é por isso que o dia 6 de setembro de 2019 é tão difícil de assistir hoje. Naquela sexta-feira, a Band foi a casa dele. A repórter Verusca Bchá gravou uma visita e Roberto abriu a casa como quem recebe uma visita mesmo. Mostrou os discos, mostrou as recordações de 50 anos de carreira, chamou àquele canto da casa o túnel do tempo, contou como o Chacrinha tinha abriu-lhe a porta em 71.

e imitou o chacrinha. Ali na sala, com 67 anos e um olho apagado, imitou o velho guerreiro, cantou trechos à capela, cantou chora, Carolina, deu uns passos de dança na frente da câmara e no meio da conversa aconteceu a coisa mais perturbadora desta história inteira. sem que ninguém perguntasse, começou a falar das vezes em que quase tinha morrido.

Contou de um acidente de viação. estava sozinho, embateu atrás de um camião, o carro ficou destruído e ele disse que nunca tinha compreendido como é que tinha sobrevivido àquilo. Segundo ele, na hora pensou uma coisa, que Deus tinha destruído o que não valia nada e deixado a única coisa que valia a pena, que era a vida.

Ele disse isso na televisão brasileira, cantando, dançando, rindo dentro da própria casa. Nove dias antes de morrer. Aqui é onde a história fecha em cima dele. Naquela mesma sala, nesse mesmo minuto em que agradecia a Deus por ter sobrevivido, o melanoma já estava disseminado no fígado dele. A família sabia, os médicos sabiam. O Brasil ia saber em dias.

Ele não. Para ele era uma manchinha só. Na segunda-feira seguinte, dia 9, foi para o hospital fazer o tratamento que fazia de 15 em 15 dias. Coisa de rotina. Já tinha ido dezenas de vezes. Dessa vez não voltou para casa, piorou lá dentro. No dia 11, a notícia chegou ao público. Roberto Leal estava internado no hospital samaritano numa unidade semi-intensiva.

Em algum momento daqueles últimos dias, alguém lhe contou finalmente: “Não se sabe quem, não se sabe quando, não se sabe com que palavras, só se sabe que ele entendeu.” Quem contou isto foi o José de Sá, seu empresário, e amigo há 47 anos, quase meio século, ao lado do mesmo homem.

Segundo o José de Sar, as últimas palavras que ouviu do Roberto foram três. Não vai dar. Três palavras de um homem que passou a vida inteira a fazer dar. Que fez dar quando eram 300 discos para vender na feira. que fez dar quando eram sete meses sem tocar na rádio nenhuma, que fez dar quando estava sem dinheiro na estação rodoviária do Rio, indo embora, derrotado naquela cama pela primeira vez em 67 anos, disse que não ia dar e desta vez ele tinha razão.

3:37 da manhã. Domingo, 15 de setembro de 2019. Segundo a assessoria do cantor, o melanoma tinha chegado ao fígado e provocado uma síndrome de insuficiência hepatorrenal. O hospital samaritano confirmou o óbito. 67 anos. Na manhã seguinte, às 7 da manhã, abriram a casa de Portugal no bairro da Liberdade e a fila começou.

As chegaram pessoas com o que tinham dele, disco na mão, retrato antigo, t-shirt, bandeira de Portugal e bandeira do Brasil. As duas lado a lado, sem ninguém achar aquilo estranho. Bandeira da portuguesa de desportos. No meio das coroas de flores tinha uma enviada pelo presidente de Portugal. E dentro daquele salão, no velório, as pessoas cantavam as músicas dele.

Uma senhora explicou para um repórter que aquelas canções tocavam em todas as festas da família dela, que os mais velhos se lembravam de Portugal através daquela voz. Não estavam a enterrar apenas um cantor, estavam enterrando o som que a casa deles fazia. 1:40 da tarde. O caixão saiu. Saiu em cima de um camião aberto do Corpo de Bombeiros de São Paulo, coberto de flores com as duas bandeiras, e a rua aplaudiu.

Depois começou a cantar de novo. Foi assim até ao cemitério de Congonhas. 57 anos antes, um rapaz tinha saído de Portugal a ver desaparecer um chapéu cinzento no meio de lenços brancos. Naquela tarde em São Paulo, foi o contrário. Era ele que estava a ir embora. E eram os outros que agitavam bandeira e cantavam do lado da rua.

Do outro lado do Atlântico, Vale da Porca estava de luto. A televisão portuguesa subiu à aldeia e filmou gente a chorar por um homem que continuava a ser dali. A Câmara de Macedo de Cavaleiros lembrou que nunca esqueceu as raízes transmontanas e regressava sempre que podia. O jornal da região resumiu numa manchete só.

Morreu o maior embaixador de trás os montes. E o José Cid, que tinha rodado com ele, disse uma frase que desmonta 50 anos de preconceito em cima daquele repertório de festa. disse que Roberto foi um homem que fez música popular sem ser populeira. Durante a vida inteira, perguntaram-lhe de de que lado era, português ou brasileiro, como se fosse preciso escolher.

Em 1997, cansou-se da pergunta e respondeu do forma como sabia responder. Escreveu uma canção inteira sobre isso. Chamou-lhe português do Brasil. A letra diz, em resumo, que no Brasil era o português e em Portugal era o brasileiro, que numa terra tocava um instrumento, na outra tocava outro e que já sabia quem era.

Ele nunca escolheu uma margem. Fez casa no meio. A distância, que tinha sido a coisa que mais magoou aquele menino de 10 anos no porão do navio, virou o local onde o homem adulto passou a viver. E ele transformou este em cinco décadas de música, mais de 17 milhões de discos vendidos e um país inteiro a bater palma. Há uma última coisa.

Depois que o pai morreu, continuou com a regra que tinha imposto a si próprio. Nunca ia à Vale da Porca sem passar em Santo Ambrósio. Já não ia pelo pai. Ea porque aquela capelinha que a família tinha erguido com as suas próprias mãos por causa de uma luz que voltou, era o único lugar do mundo onde conseguia estar nos dois países ao mesmo tempo.

O filho, o Rodrigo, hoje leva as canções do pai de regresso a Portugal e ao Brasil. Chama ao projeto uma ponte entre gerações. Pont. A palavra certa para alguém que nasceu numa montanha e passou a vida atravessando um oceano. Se você chegou até aqui, é porque esta história mexeu com alguma coisa lá dentro. Talvez porque em sua casa também tocava Roberto Leal no domingo.

Talvez porque alguém da a sua família também foi embora um dia e nunca mais voltou inteiro. Tem outra história parecida com esta aqui no canal. A de um homem que também se tornou símbolo de uma geração e que também carregou sozinho uma coisa que ninguém desconfiava. Está a aparecer aqui na tela agora.

Porque o menino que chorou no navio nunca deixou de sentir saudades. Ele só descobriu uma coisa que quase ninguém descobre, que dava para transformar saudade em festa. Yeah.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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