Aos 73 anos, LENO: a MENTIRA de amor que o Brasil nunca deixou morrer – H
Durante quase 60 anos, o Brasil acreditou numa história de amor que nunca aconteceu. Len morreu aos 73 anos sem nunca ter conseguido apagar da cabeça dos fãs uma versão que a própria editora inventou para vender disco. Por isso passou décadas, repetindo em cada entrevista a mesma correção, que quase ninguém queria ouvir a mesma frase, reformulada de mil maneiras diferentes, batendo sempre na mesma parede de uma legenda que já se tinha tornado maior do que a verdade.
E o motivo pelo qual preferiu arriscar a carreira inteira a continuar a fingir, este motivo poucas pessoas conhecem até hoje. Os arquivos da CBS e as próprias entrevistas que deu ao longo de 60 anos contam uma versão bem diferente da que se tornou lenda. O que está aqui em causa não é apenas uma música de rádio ou um romance de revista de um clube de fãs.
É a diferença entre a história que fabricaram para Leno viver e a vida que ele realmente teve. Uma vida que incluiu um disco inteiro perdido durante 25 anos, censurado por um governo militar. Décadas de disco a solo que ninguém ouviu direito e uma despedida final que fechou um círculo aberto muito antes de qualquer editora aparecer na frente dele.
Provavelmente acha que Leno e Lilian foram aquele casal lindo que a fama acabou por separar. Mas o próprio Lennel até ao último ano de vida fazia questão de corrigir isso na cara dos qualquer repórter que perguntasse e o motivo pelo qual insistia tanto nisso tem a ver com uma parte da própria identidade artística que esta lenda ajudou a apagar.
A história começa muito antes de qualquer gravador existir na vida deles. Len e Lilian conheciam-se desde os 6 anos de idade. Eram vizinhos em Copacabana, no Rio de Janeiro. Dois miúdos que partilhavam a mesma rua e aos poucos começaram a imitar juntos os êxitos de rock que pegavam nas rádios de pilha da época.
Aos 15 anos já cantavam juntos de verdade, ensaiando em varanda de um apartamento, sem imaginar que aquele passatempo de adolescente um dia teria plateia. Mas a vida deles separou-se antes de se juntar de vez. A família de O Leno voltou para o Nordeste, para Natal e os dois estiveram 4 anos inteiros sem se ver.
uma amizade de infância interrompida mesmo no meio, sem qualquer explicação que uma criança pudesse entender direito. Em 1965, Leno regressou ao Rio já com 16 anos e o reencontro foi imediato. Ele e a Lilian voltaram a cantar juntos como se os 4 anos de distância nunca tivessem existido. Foi Renato Barros, líder do grupo Renato e os seus Blue Caps.
quem ouviu os dois a cantar numa dessas rodas informais de amigos e decidiu levá-los para fazer um teste na CBS. Não foi um convite qualquer. O Renato já era compositor de peso dentro da editora e a sua palavra abria a porta que a maioria dos adolescentes do Rio de Janeiro nem sonhava bater. Os dois foram aprovados na hora e de uma semana para outra, dois miúdos que brincavam de cantar numa calçada de Copacabana estavam sentados no interior de um estúdio profissional, contratados pela mesma editora que já tinha no elenco nomes
como Roberto Carlos, Vanderleia e Jerry Adriane. Os maiores ídolos da Jovem Guarda, todos sob o mesmo tecto, todos sendo moldados pela mesma máquina de fabricar histórias que em poucos meses ia decidir também o destino de Leno. Em 1966 saiu o primeiro compacto. Devolva-me composição da própria Lilian em parceria com Renato Barros e Pobre Menina.
As duas explodiram nas rádios de norte a sul do país, quase da noite para o dia. O primeiro LP veio na sequência, trazendo ainda Eu não sabia que existias. Mais um sucesso que ficaria décadas tocando em programas saldosistas de fim de tarde. Logo a seguir veio o segundo álbum da dupla Não Acredito que implacou tanto a faixa título como coisinha estúpida nas rádios esta última.
E a cor veio Zerks ADW, uma versão de Leno para uma canção americana prova de que os dois já dominavam tanto o repertório romântico quanto reinterpretações mais ousadas de rock estrangeiro, muito antes de qualquer dos dois pensar numa carreira a solo. Anos depois, Devolve Me ainda seria regravada por artistas de outra geração completamente diferente, como Adriana Calcanhoto, prova de que aquelas canções sobreviveram bem para além da dupla adolescente que as gravou primeiro num estúdio onde nem imaginavam o tamanho do
que estavam a começar. De repente, o Leno e Lilian eram um dos nomes mais tocados da Jovem guarda. Duas vozes, um só microfone, o Brasil inteiro a cantar junto no rádio da cozinha. Se é desta geração que cresceu a ouvir pobres menina tocar num qualquer fim de tarde, sabe exatamente do que estamos a falar.
E se este tipo de história te toca, este é é um bom momento para se inscrever no canal e ativar o sininho, porque toda a semana trazemos um documentário assim, contando o que ficou escondido atrás da música. Quem quiser ir mais além também pode entrar no círculo por trás da fama, por menos do que um café por mês, com acesso antecipado a estes histórias, porque o sucesso de Leno e Lilian não se ficou pela música.
A gravadora precisava de mais do que duas vozes bonitas para vender disco todos os meses. Precisava de uma história para estampar capa de revista. E a história que escolheram contar não era propriamente verdadeira. Bastou o primeiro disco passar nas rádios para a imprensa decidir sozinha o que Leno e Lilian eram um para o outro.
As revistas de clube de fãs da época não perguntavam, simplesmente afirmavam. Reportagens inteiras descreviam os dois como o casal apaixonado que a Jovem Guinha revelado ao Brasil. Cartas de fã chegavam às centenas imaginando data de casamento. Apresentadores de rádio ao vivo perguntavam aos dois quando é que ia acontecer a pedida e riam-se quando os dois tentavam desconversar no ar.

Lennel soube exatamente o que estava acontecendo desde o início. Numa das raras entrevistas em que voltou a falar sobre isso, já décadas depois, foi direto. Percebeu logo no primeiro disco que a editora ia rotular a luz como o casal romântico para vender mais. Românticos, cada um à sua maneira. Os dois até eram um casal.
Segundo o próprio Leno, nunca o foram. Vale lembrar o contexto. No auge da Jovem Guarda, praticamente toda a revista de banca de jornal disputava a atenção do mesmo público adolescente. E o ingrediente mais vendável não era o talento musical em si, era a narrativa emocional em torno dele.
Um casal de ídolos rendia mais capa do que dois artistas solteiros e independentes. Isso explicava porque é que a imprensa preferia insistir na versão romântica, mesmo depois de ouvir repetidas vezes os próprios protagonistas, negando afinal, corrigir a história significava perder um ângulo de venda garantido todas as semanas. Só que corrigir a imprensa não adiantava muito quando a imprensa não tinha qualquer interesse em ser corrigida.
Quanto mais os dois negavam o romance nos bastidores, mais forte crescia a legenda nas bancas. Todas as semanas Leno e Lilian se apresentavam no programa de TV Jovem Guarda, comandado por Roberto Carlos na TV Record, a mais importante montra daquela geração inteira, vista simultaneamente por milhões de adolescentes em todo o Brasil, em direto, sem edição, sem segunda oportunidade de corrigir uma imagem que já estava a ser construída em tempo real.
Cada aparição alimentava ainda mais cartas de fã perguntando sobre o casamento. Cada entrevista de rádio repetia a mesma pergunta capiciosa sobre quando seria a pedida. E o mais curioso é que esta mesma máquina de fabricar histórias estava a rodar ao redor de praticamente todo o elenco da CBS naquele momento. Roberto Carlos vestia o papel de galã inatingível.
Vanderleia transportava a imagem de menina frágil e sofredora. E cada artista novo que chegava recebia um guião emocional pronto a vestir mesmo antes de abrir a boca para cantar. A vida real de cada um importava bem menos do que a versão que cabia numa capa de revista de banca de jornal. Leno aos poucos foi ficando cada vez mais incomodado com o papel que tinham escrito para ele sem perguntar.
Não era só o rótulo de par romântico que incomodava, era a sensação de que a A música em si também estava a ser empurrada para um molde único. Sempre o mesmo verniz açucarado, sempre a mesma promessa de final feliz. E foi numa direção meio inesperada que ele encontrou uma primeira válvula de escape.
Começou a aproximar-se de um parceiro de composição baiano que também não tinha paciência nenhuma para a imagem fabricada de ídolo pop. Um então desconhecido chamado Rausito Seixas, que trabalhava nos bastidores da própria CBS há pouco tempo, ainda longe da fama que teria como Raul Seixas. Enquanto Lílian seguia Craft e Cuidado dentro do formato romântico que continuava a fazer sucesso comercial, Leno ia atrás cada vez mais de canções cruas, pessoais escritas ao lado de Raul nos intervalos das gravações oficiais.
versos que nada tinham a ver com o que a editora esperava ouvir. O Raul se tornaria, poucos anos depois o maior símbolo nacional de recusar exatamente o tipo de molde que a indústria empurrava em cada jovem artista dessa geração, o cara que faria da própria rebeldia uma marca registada.
Só que antes de virar símbolo de rebeldia com o próprio nome estampado na capa, Raul ainda ia testar esta recusa escondido atrás do nome de outra pessoa. E essa pessoa era Lenel. Resistir ao guião da fama custa caro, contudo e em 1968, esta resistência ia custar mais do que Leno imaginava. Enquanto a imprensa insistia em vender Leno como metade de um romance fabricado, construía em paralelo e quase em silêncio, uma reputação bem mais sólida do que qualquer legenda de revista, a de compositor de confiança dentro da própria CBS. Leno passou a
escrever canções para outros artistas do elenco, principalmente para Renato e os seus Blue Caps, parceria que resultou no Hit Quando a cidade Dorm. Dividiu crédito de composição também com Renato Barros, com Paulo César e com Ed Wilson num círculo de compositores que praticamente sustentava uma boa parte do repertório da Jovem Guarda, que tocava nas rádios naquele momento, um núcleo pequeno de artistas a escrever uns pros outros boa parte da banda sonora de uma geração inteira.
Era um trabalho que exigia talento reconhecido pelos próprios colegas de editora, bem longe da imagem de namoradinho de capa de revista que o público via de fora. Esta dupla identidade ídolo pop de um lado, compositor técnico e respeitado do outro, é que ajuda a explicar porque Leno, ao contrário de tantos outros ídolos daquela geração, não se contentou em repetir a mesma fórmula durante o resto da carreira.
Ele sabia, mais do que ninguém de fora podia perceber, que tinha talento suficiente para sustentar algo maior do que o papel que a editora tinha-lhe escrito. Enquanto colegas de elenco se acomodavam na fórmula que já funcionava, o Leno ia aos poucos, acumulando a confiança técnica que só quem escreve música para os outros consegue desenvolver a certeza de que sabia construir uma canção de raiz, não só interpretar o que lhe mandavam cantar.
Em 1968, Leno e Lilian separaram-se como dupla. A imprensa da época e uma boa parte do público até hoje sempre tratou este fim como o desfecho natural de um romance que não deu certo. Um casal que brigou, um coração partido, o fim inevitável de uma história de amor pop que tinha começado numa capa de revista.
Era uma explicação simples, redonda, fácil de vender numa manchete, muito mais fácil do que admitir que dois adolescentes tinham simplesmente crescido em direções artísticas diferentes. Mas não foi isso que aconteceu. O motivo real foi desentendimento profissional. Len queria uma direção artística diferente, mais dura, mais autêntica, bem longe da fórmula romântica que os tinha lançado ao sucesso.
Lilian, por sua vez, seguia um caminho que continuava a funcionar exatamente dentro daquele formato, com resultados comerciais que ainda justificavam manter o molde. Os dois cresceram artisticamente em direções opostas e a dupla simplesmente não cabia mais nos planos de nenhum dos dois, não por falta de amizade, mas por excesso dela.
Dois amigos de verdade sabem reconhecer quando um projeto em comum já cumpriu o próprio ciclo. Leno lançou o primeiro álbum da carreira a solo ainda em 1968 e emplacou a pobreza nas rádios, provando que conseguia sustentar o sucesso comercial mesmo sozinho, fora do formato de dupla que o tinha lançado. Mas o gesto mais radical dele surgiu dois anos depois.
E é aqui que a história de Leno deixa de ser sobre um romance inventado e torna-se uma história bem mais dura sobre censura, poder e uma fita que quase desapareceu para sempre. Entre novembro de 1970 e janeiro de 1971, Len estúdios CBS para gravar um álbum conceptual denominado Vida e Obra de Johnny McCartney, uma espécie de ópera rock sobre um roqueiro fictício obsecado pela fama, uma personagem que, sem desface nenhum, falava sobre o próprio Leno e sobre todo o mundo que a indústria da música transformava em produto.
O apelido da personagem não foi um acaso. Len era birol maníaco declarado desde criança. Sempre preferiu os Abelhas aos Rolling Stones e batizar o próprio alterego de McCartney era, ao mesmo tempo, homenagem e piada interna sobre o tamanho do próprio ego artístico que ele mesmo estava a expor ao público.
chamou o Rausito Seixas para dividir a produção, disposição e composição. Convocou o grupo de rock pesado Aolha, uma banda jovem recém-chegada de uma digressão pela Europa, transportando um equipamento e uma sonoridade que praticamente ninguém tinha ouvido no Brasil ainda. Trouxe também a banda uruguaia Lost Shakers, o próprio Renato e os seus blue caps, e ainda conseguiu participações do trio Ternura e dos Golden Boys, uma equipa de artistas que em qualquer outro contexto estava associado precisamente ao pop mais doce da
época, ali reunido ironicamente para gravar o disco mais pesado e mais contestatário da carreira de Leno. Foi tecnicamente o primeiro álbum brasileiro gravado em oito canais, uma ambição sonoro e uma ambição técnica que não não tinham nada a ver com o pop açucar que o tinha transformado em ídolo Tin apenas 4 anos antes.
As letras falavam de reforma agrária, de tortura, de repressão, de drogas. E o Brasil, em 1971, vivia sob censura de um regime militar que não deixava este tipo de conteúdo passar batido. O Departamento de Censura vetou pelo menos metade das faixas do disco. Curiosamente, uma das canções mais pesadas do álbum sobre uma viagem de ácido escapou ao veto.
O título: “Apanhei uma Apolo”, confundiu os sensores que não perceberam do que a letra realmente falava. Um disfarce que hoje soa quase cómico, mas que na época era diferença entre gravar ou não gravar. A editora, que esperava receber mais um álbum pop açucarado no estilo Jovem Guarda, assustou-se com um som pesado do restante e desistiu do lançamento na hora.
No fim, ficou apenas um EP de quatro faixas, lançado isoladamente em 1970 e um hoje disputado a peso de ouro entre colecionadores, enquanto todo o álbum estava fechado num cofre da CBS. Len tentou reaver as fits master. A resposta que recebeu da editora foi que elas seriam apagadas, regravadas por cima com outro material, uma prática comum nos estúdios da época, quando a fita virgem custava caro e artista contrariado custava ainda mais.
Ele acreditou por mais de duas décadas que o trabalho mais ambicioso da sua carreira simplesmente tinha deixado de existir apagado não por acidente, mas por decisão administrativa de alguém que nunca teve de justificar aquilo para ninguém. Só em 1994, 23 anos depois, o investigador e produtor Marcelo Frey encontrou as fitas originais intactas nos ficheiros da Sony, a editora que tinha herdado o catálogo da antiga CBS.
Lennel recomprou os direitos, criou o próprio selo batizado, não por acaso, de Natal Records, o nome da cidade onde nasceu, e lançou o disco de forma independente em 1995, em edição limitada. Tornou-se o item de colecionador quase da noite para o dia, disputado a peso de ouro entre os fãs de rock brasileiro, mas passou longe do grande público, décadas depois de quando deveria ter sido ouvido.
Pensa no tamanho dessa aposta perdida. No auge comercial da carreira, com uma fórmula vencedora aprovada nas mãos, Leno decidiu gravar o disco mais arriscado que podia e viu-o ser vetado por um governo, arquivado por uma editora discográfica e quase apagado de vez. Ele sabia o preço que estava a pagar e pagou durante 25 anos, sem sequer saber se um dia alguém ouviria aquilo.
Só que romper com a imagem fabricada não significava romper com Lilian verdadeira. A amizade, a de verdade, a que começou aos seis anos numa calçada de Copacabana, seguia viva por detrás de toda aquela revira-volta. Em 1972, Leno e Lilian voltaram a apresentar-se juntos. Gravaram mais dois discos pela CBS, sem repetir o estrondo comercial da década anterior, mas com algo mais importante intacto, a parceria de verdade.
Entre os dois, sem guião nenhum por trás, desta vez dois artistas adultos, decidindo, por conta própria, que aquela amizade ainda valia a pena ser levada para o palco, sem precisar de nenhum produtor para convencer os dois disso. Depois disso, cada um seguiu o próprio caminho, cada vez mais distante daquele rótulo de dupla romântica.
Leno continuou a lançar discos a solo, sempre com um pé no rock mais autoral, compondo também para outros artistas ligados à Renato e os seus blue caps. Nos anos 80 e 90, com breves reencontros pontuais entre os dois, Leno seguiu na estrada, praticamente sem parar, tocando pelo país inteiro para plateias que nunca deixaram de pedir os sucessos antigos.

Em 1996, Lilian voltou a percorrer o Brasil ao lado de Leno numa grande tornê que resgatava os êxitos da Jovem Guarda para plateias que já tinham crescido a ouvir aquelas músicas décadas antes, muitas vezes, os próprios filhos dos fãs originais, descobrindo o pobre menina pela primeira vez através dos pais, num tipo de público que misturava quem tinha vivido aquele auge e quem só conhecia pelas histórias. contadas em casa.
E mesmo passados 30 anos, a legenda do romance ainda seguia colada aos dois feito etiqueta que ninguém consegue arrancar. Em 2015, depois de 10 anos sem atuar juntos, Len e Lilian reataram a dupla num concerto na Virada Cultural em São Paulo, com música inédito, os dois já na casa dos 65 anos, subindo a um palco montado ao ar livre para uma multidão que misturava quem tinha vivido o auge da Jovem Guarda, com curiosos de outra geração que só conheciam aquelas canções de ouvir os pais cantarem em casa. As matérias que
anunciaram o regresso voltaram a chamar-lhes mais uma vez aquela dupla romântica da Jovem Guarda, como se meio século de correcções não tivessem servido para absolutamente nada. Sobre tudo isso, Len resumiu de uma forma só dele. Disse em entrevista que sempre foi irónico perante o próprio sucesso. E talvez fosse exatamente esta ironia que permitia rir de uma legenda que nunca ia embora de verdade.
A mesma ironia que décadas antes tinha-se tornado um disco inteiro escondido numa gaveta da CBS. E é aqui que fica claro o tamanho real do lugar de Leno na história da música brasileira. Ele não teve o estrelato individual de Roberto Carlos, nem a longevidade mediática de Vanderleia, mas foi um dos poucos nomes daquela geração inteira da Jovem Guarda, que conseguiu ao mesmo tempo fazer parte da equipa de maior sucesso comercial do país e produzir escondido um dos discos mais respeitados do rock brasileiro entre quem realmente percebe do assunto. duas
carreiras dentro de uma só. A que o Brasil conheceu de cor, cantando pobre menina no duche, e a que quase ninguém ouviu, guardada numa gaveta por 25 anos. Enquanto isso, longe dos holofotes, seguia uma vida bem mais simples do que qualquer legenda sugeria. continuou a fazer espetáculos Brasil afora, praticamente até à pandemia, sempre em atividade, sempre em viagem, sempre transportando a mesma guitarra que aprendeu a tocar quando ainda nem sonhava com a CBS nenhuma.
Lançou ainda mais discos autorais tentando ir além do repertório da Jovem Guarda. O meu nome é Gileno, em 1976, com regravações e composições próprias, incluindo uma releitura de Luar do Sertão, que religava o artista às próprias raízes nordestinas em plena era do rock nacional. e Encontros New Temp, nenhum deles repetindo o sucesso comercial da fase com Lilian, mas mantendo o Leno em atividade constante como artista, não só como nostalgia viva de uma década.
Já em 2016 e 2017, com quase 70 anos, ainda lançava material novo, o single Poeira Interestelar e o álbum ao vivo Banda Sonora. Chegou até a colaborar em trabalhos do próprio filho, Diogo Straus, que vive no Rio de Janeiro e produz música eletrónica de vertente indie e pop. Nova geração, som novo, produção completamente diferente da guitarra rock que definiu o pai, mas o mesmo apelido que começou tudo isto numa calçada de Copacabana décadas antes de qualquer estúdio digital existir.
E nos últimos anos, antes de parar de vez, vivia em Petrópolis com a própria mãe, o mesmo homem que o Brasil insistia em ver como galã de romance de revista estava na prática partilhando casa e rotina com uma senhora idosa numa cidade de montanha, longe de qualquer palco. Mas enquanto o país ainda perguntava sobre um romance que nunca existiu, a vida real de Leno seguia um caminho muito mais silencioso e muito mais duro.
Leno enfrentava um cancro no pâncreas. Havia meses quando, a 26 de novembro de 2022, publicou nas redes sociais que precisava de se internar. Estava fraco, debilitado, e não escondeu isso dos fãs que o acompanhavam há quase 60 anos. Não era um artista obrigado por assessoria de imprensa a divulgar boletim médico.
Era um homem de 73 anos, sozinho em frente ao telemóvel, decidindo contar a quem sempre acompanhou a sua carreira que o corpo estava a perder a batalha. O mesmo Leno, que passou a vida negando um guião que a imprensa insistia em escrever por ele, escolheu, no fim escrever a própria despedida com as próprias palavras, sem legenda inventada, sem versão editada, sem ninguém decidindo por ele o que contar.
Depois de seis décadas em que praticamente tudo nele tinha sido decidido por outras pessoas, dois meses antes daquele post, tinha perdido a própria mãe, a mulher com quem partilhava a casa em Petrópolis há anos. Len enfrentou a doença numa fase bem específica da vida, sem a pessoa que, depois de seis décadas de fama e de um disco inteiro perdido durante 25 anos, ainda era a sua companhia mais constante todos os os dias.
Dois lutos quase encostados um no outro, um atrás do outro, sem tempo de respirar entre um e outro. Ele chegou a regressar a casa por um período curto, como se o corpo quisesse dar mais um tempo antes do fim, mas não resistiu. No no dia 8 de dezembro de 2022, Leno faleceu em Natal a mesma cidade onde tinha nascido 73 anos antes.
A mesma cidade que o separou de Lilan durante 4 anos quando era ainda criança. A mesma cidade que deu o nome à editora discográfica que ele próprio criou para resgatar o disco que quase perderam para sempre. Não foi no rio onde fez fama. Não foi em Petrópolis onde vivia há anos. Foi no Natal, o único lugar que esteve presente em cada capítulo da sua vida, mesmo antes de existir um microfone, uma gravadora ou uma legenda de revista.
Ele fechou sozinho um círculo que tinha começado muito antes de qualquer gravador aparecer à frente dele. A cidade que o viu nascer também prestou as suas próprias homenagens. Grupos e bandas de tributo à Jovem Guarda publicaram uma nota a lamentar a partida da vanguarda do movimento, recordando que Lennel tinha sido lançado no meio artístico pelo próprio Renato Barros e que, pela proximidade da parceria quase podia ser considerado mais um membro dos Blue Caps.
Lilian, a companheira de há mais de 60 anos, publicou uma curta mensagem no Instagram assim que soube. Pediu que Deus o recebesse no paraíso e confortasse a família e os amigos dele. Foi um adeus simples de quem realmente conhecia a pessoa por detrás da lenda. Não o pá romântico que o Brasil insistiu em inventar desde o primeiro compacto, mas o amigo de infância que, mesmo depois de 60 anos, seis décadas de fama e um disco perdido durante um quarto de século, continuava a ser a primeira pessoa a a quem ela recorria na hora de se despedir
em público. Lilian não escreveu sobre saudades de um romance, escreveu sobre um amigo e décadas depois de qualquer revista ter tentado decidir o contrário, foi exactamente essa palavra amigo que resumiu. Melhor do que qualquer manchete nunca conseguiu, o que os dois realmente foram um para o outro a vida inteira.
Quando Leno morreu, os tributos que chegaram diziam mais sobre o tamanho real do seu legado do que qualquer legenda de revista nunca tinha dito. A A Fundação José Augusto, instituição cultural do Rio Grande do Norte, publicou uma nota destacando o quanto Leno tinha ajudado a levar a música potiguar para o resto do Brasil e do mundo, deixando como herança canções que atravessaram gerações inteiras.
O O próprio perfil de Renato Barros, o homem que descobriu Leno ainda adolescente numa calçada do Rio, escreveu que a amizade dos dois tinha durado até à partida de cada um e que certamente iriam reencontrar-se. Estudiosos do rock nacional passaram a descrever só depois da sua morte um lugar de honra que Lenn deveria ter ocupado há décadas na história do género no Brasil.
reconhecimento tardio, mas real, do tipo que raramente chega em vida para artistas que nunca se encaixaram bem no molde que a própria fama exigia deles. É irónico, mas revelador. O mesmo artista que passou 60 anos a ser reduzido a o outro nome de uma dupla romântica, apenas recebeu no obituário o reconhecimento de artista completo, versátil, criativo, produtor discográfico e espectáculos dos próprios amigos.
O Leno de verdade, não a personagem. Não foi em vida que esse reconhecimento chegou. Foi só depois, quando já não havia tempo para ele próprio ouvir, nem para corrigir mais nenhuma legenda de revista, nem para ver o próprio nome finalmente associado ao talento que sempre teve. Leno passou a vida inteira a tentar corrigir uma história que a própria indústria escreveu por ele.
E de um maneira estranha, talvez tenha sido só depois da sua morte que essa correcção finalmente ganhou força a sério. que foi exatamente nesse momento, no luto, que a palavra que Lílian escolheu para despedir-se não foi amor, foi amigo. Um disco que a censura tentou apagar levou 25 anos para encontrar quem quisesse ouvi-lo de verdade.
Uma amizade que a imprensa tentou rescrever como romance demorou 60 anos a ser chamada pelo nome certo e só na hora da despedida. Uma carreira de compositor de mão cheia, capaz de escrever hit para os amigos de gravador, levou até depois da morte receber o reconhecimento formal que merecia há décadas. Existe um padrão aí que vale a pena notar.
Quase tudo o que era verdade na vida de Leno. Demorou demasiado tempo para ser visto pelo que realmente era reconhecido, corrigido, redescoberto, sempre um passo atrás do próprio artista que o viveu. Mas há uma parte desta história que ainda ninguém contou até ao fim, porque menos de 2 meses e meio depois de escrever aquela despedida ao parceiro de uma vida inteira, foi a vez de Lilian enfrentar sozinha uma notícia que mudaria tudo.
E a forma como ela decidiu viver os últimos capítulos da própria história é uma reviravolta que o O Brasil, mais uma vez nunca chegou a entender direito. Yeah.