APÓS 54 ANOS DA MORTE DE LEILA DINIZ, SUA FILHA EXPÕE O QUE FIZERAM COM ELA E COMO SOBREVIVEU – H
A Janaína cresceu rodeada [música] por amor, mas carregando uma ausência que ninguém conseguiu preencher. Enquanto o Brasil inteiro conhecia Leila Diniz, a filha não guardava a recordação nem [música] sequer de um abraço. Este é o meu uniforme preferido. O outro não se pode mostrar na televisão. Décadas mais tarde, [música] ela abriu os diários da mãe, revelou o que fizeram para tentar ocupar aquele vazio e contou como [a música] sobreviveu à dor de ter uma mãe que não teve.
Tem encontro marcado com a mãe que não tive. Foi assim que Janaína definiu a [música] busca que começou mais de cinco décadas depois da morte de Leila Diniz. Pare por um instante [música] e pense no peso desta frase. Janaína Diniz cresceu a saber que a mãe sorria porque havia fotografias.
[música] Descobriu o som da voz dela nos filmes e nas entrevistas. Ouviu amigos a contar como Leila ria, como entrava num ambiente, o que pensava e até como reagia quando estava contrariada. mas não conseguia se recordar um abraço [música] consciente. Não se lembrava da voz da mãe chamando pelo seu nome. Não houve [música] tempo de fazer uma pergunta e ouvir o resposta diretamente dela.
Leila Diniz deixou no dia 14 de junho de 1972. [música] A Jana estava a poucos dias de completar os seus s meses. Para o Brasil desaparecia uma atriz de 27 anos que tinha enfrentado a censura, [música] desafiado os costumes e transformado-se num dos maiores [música] símbolos de liberdade feminina do país. Ela quebrou tabus numa época em que a repressão dominava o Brasil.
Escandalizou ao exibir a barriga grávida. Para aquela bebé desaparecia algo mais simples [música] e insubstituível, a mãe que deveria acompanhá-la pelo resto da [música] vida. Veja bem, A Janaína não cresceu sem afeto, não. Ela foi rodeada pelo pai, Rui Guerra, pela avó, [música] pelas tias e por amigas de Leila Dinis.
A atriz Marieta Severo entrou ainda mais profundamente na sua [música] vida e as filhas dela com o Chico Boar tornaram-se irmãs [música] de coração. O problema é que o amor não funciona como uma troca. [música] Uma pessoa pode receber carinho de muitas mulheres e continuar a sentir falta da própria mãe. E foi exatamente isso que aconteceu.
[música] Janaína Diniz passou a sua vida rodeada por histórias sobre Leila. Quanto mais conhecia o mito que o Brasil admirava, mais percebia tudo aquilo que havia [música] perdido como filha. Muito orgulho de ser filha de uma pessoa tão importante e principalmente tão querida. Quando era criança, Janaína criou [música] uma explicação para suportar a ausência.
Na história que inventava para si mesma, Leila Dinis [música] não tinha faleceu no acidente. O avião tinha caído, mas a mãe sobrevivia, [música] só que tinha perdido a memória. Um dia, alguém a encontraria [música] algures distante e diria: “Você é Lila Diniz. A sua filha está à espera por si no Rio de Janeiro. A menina esperava por [música] este aviso.
Também tinha um sonho que se refletia. Encontrava Leila Diniz em um parque de diversões. Mãe e filha brincavam juntas até não aguentarem mais. Só que no final cada uma seguia para um dos lados. Tente sentir a força dessa imagem. Até no sonho [música] em que conseguia encontrar a mãe, a Janaína precisava de a perder outra vez.
Ainda havia pequenos [música] flashes que ela não sabia se eram recordações reais ou cenas criadas pela [música] necessidade de ter vivido alguma coisa com a mãe. Anos depois, viu numa [música] fotografia um lugar que aparecia nesses flashes e levava um susto. Aquele cenário existia. Era um espaço onde a mãe a amamentava. E Janaína começou a perguntar-se [música] se alguma parte dessa convivência tinha ficado guardada no corpo, mesmo sem uma memória organizada.
Chegou então a uma constatação dolorosa. Tinha passado mais tempo com Leila [música] Diniz dentro da barriga do que fora dela. A famosa [música] fotografia da mãe grávida de Vikini ganhou outro significado. Para o público era a imagem de uma mulher [música] a romper tavos. Para Janaína era o registo do período em que permaneceu mais tempo junto da mãe.

Essa é a diferença entre a fotografia [música] histórica e o olhar de uma filha. Leila não seguia moda nenhuma. A Leila não tinha muito assim seguir regra, ela ia fazendo e depois ela criava moda. O Brasil via a mulher que escandalizou os conservadores. A Janaína olha para aquela barriga e se reconhece ali, protegida antes de a vida separar as duas.
O que aconteceu a Zanaína torna-se ainda mais difícil. Quando conhecemos a infância de Leila Diniz, a mãe biológica da atriz, Ernestina, [música] teve de ser internada para tratar de uma tuberculose. Os pais separaram-se e a menina passou a ser cuidada por outros familiares. Depois foi criada pela segunda mulher de seu pai.
A Leila tinha aproximadamente 7 meses, a mesma [música] idade em que Janaína perderia a convivência com ela. Não eram situações iguais. Leila Diniz foi afastada da mãe por doença e por mudanças na família. A Janaína perdeu Leila definitivamente, mas as duas carregaram praticamente desde a mesma fase da vida, a ausência da mulher que deveria [música] estar ali.
Marieta Severo conhecia esta história. Segundo ela, Leila não queria que a filha sentisse [música] a falta materna que tinha marcado a sua própria infância. Por isso o que aconteceu parecia ainda mais [música] doloroso. Leila Diniz sabia como era crescer a ser cuidada por outra mulher e ao [música] mesmo tempo, tentar compreender onde estava a mãe.
Quando a Janaína nasceu, ela teve a hipótese de construir uma história diferente. Poderia oferecer presença, [música] colo, memórias e aquela intimidade que só se forma com os anos. Só que mãe e filha tinham pouco menos de 7 meses. Leila [música] Diniz acreditava que ainda havia muito tempo. Fazia flanos, trabalhava e tentava aprender a ser mãe enquanto [a música] continuava a viver intensamente.
Não imaginava que a mesma ausência atravessaria duas [música] gerações. E ainda tem algo mais doloroso. que pouco antes do acidente, Leila Diniz escreveu sobre [música] o medo de não estar presente o suficiente para Jana ainda. Parecia quase uma premunição. [música] Para quem acompanhava a atriz pelas manchetes, ela [música] parecia não ter medo de nada.
Falava sobre o amor e liberdade [música] com uma franqueza rara. não se vergava aos julgamentos [música] e não aceitava viver de acordo com o comportamento que a sociedade esperava de uma mulher. Ela não percebia porque se tinha tornado um mito de mulher revolucionária, porque que ela era considerada uma feminista, porque só queria ser livre, feliz e ela própria.
Mas a maternidade [música] revelou uma insegurança que o público quase não conhecia. Numa das últimas anotações recuperadas depois [música] do acidente, Leila Dinize escreveu: “As saudades de Janaína são muitas. Será que estou a ser a mãe que ela [música] merece?” Logo depois, registou a sua preocupação, porque a ama passava mais [música] tempo com a menina do que ela.
A atriz receava perder espaço na rotina [música] da própria filha. Agora deixa-me te dizer uma coisa. Isto muda completamente a imagem da mulher segura que o Brasil via. Leila Diniz não estava a fugir da maternidade, estava a viajar em trabalho e [música] sentindo culpa por estar longe. Jenaína era uma vê.
mudava a cada semana e [música] defendia de cuidados o tempo inteiro. Enquanto a mãe atravessava países, a vida da filha continuava no Rio de Janeiro. Quantas mulheres não conhecem esta sensação? [música] precisam de trabalhar. Contam com a ajuda das outras pessoas e mesmo amando profundamente os filhos, se interrogam se estão a oferecer [música] presença suficiente.
Leila Dinizfís [música] inteiro, mas diante de Janaína carregava uma dúvida comum a tantas mães. Ela acreditava que [a música] voltaria e recuperaria aquele tempo. Imaginava chegar a casa, [música] pegar a filha ao colo e continuar de onde tinha parado. Não sabia que estas palavras seriam lidas décadas depois [música] pela menina que cresceu, procurando exatamente a mãe preocupada que nelas aparece [música].
Antes de ser transformada num mito, Leila Diniz foi professora [música] de crianças. Imagine só. Nascida em Niterói, no dia 25 de março de 1945, [música] formou-se no magistério e trabalhou com a educação pré-escolar. Este começo ajuda a ver uma mulher diferente daquela [música] que costuma surgir apenas nas histórias sobre escândalos e romances.
Ainda muito jovem, Leila Diniz conheceu o cineasta e dramaturgo Domingos de Oliveira. Ele foi o [música] seu primeiro grande companheiro que a aproximou-se ainda mais do teatro e do cinema. Um dia, quero casar na igreja. Houve gráuta, eu faço o que eu quero. Durmo com toda a gente. Gosto de ti. Com quem quer dormir comigo e com quem quero dormir.
Depois viveu uma relação marcante com o [música] cineasta Rui Guerra. Foi com o Rui que a Leila Diniz teve [música] a a sua única filha, Janaína Diniz Guerra, nascida em 19 de novembro de 1971. A carreira avançou [música] à pressa. Leila trabalhou no teatro, no cinema e na televisão. [música] Participou em ilusões perdidas.
A primeira novela exibida pela [música] TV Globo tornou-se uma das mulheres mais faladas do V. falava de [música] sexo, amor e relacionamento sem o cuidado que as as atrizes eram obrigadas a manter naquela época. [música] A sua entrevista ao jornal O Fasquim provocou tanta reacção que a censura do regime militar passou a ser associada ao nome dela.
Tenho 24 anos e desde os 16 que Procuro viver sozinha mear. Mas J Anaína não queria conhecer apenas a figura das manchetes. Queria saber quem era a Leila Diniz quando [música] não havia câmaras. Como ela seria dentro de casa, que conselhos daria? Como reagiria aos [música] medos da filha? Que mãe se tornaria aos 30, aos 40 [música] e aos 50 anos.
Leila Diniz deixou [música] aos 27. Em 2026 teria completado [música] 81 anos de idade. E a Janaína chegou a uma idade [música] em que a mãe nunca teve a oportunidade de alcançar. precisou viver a juventude, a maturidade [música] e a própria maternidade, sem poder perguntar à mãe como tinha enfrentado estas fases. O Brasil conheceu uma mulher interrompida no [música] auge.
Para a filha, passou décadas procurando a pessoa que ainda estava começando a existir. A fotografia de Leila Diniz grávida [música] de Vikini tornou-se uma das imagens mais conhecidas da cultura brasileira. Nesse período, as mulheres grávidas eram incentivadas [música] a esconder o corpo sob roupas largas. Veila foi à fraia, mostrou a barriga e viveu a gestação sem vergonha [música] nenhuma. O país viu uma provocação.
Ela estava [música] apenas a viver a própria gravidez. Para Janaína, a fotografia não mostra apenas uma atriz revolucionária, mostra a sua mãe à espera [música] por ela. Leila continuou a trabalhar e se recusou-se a desaparecer socialmente depois [música] de engravidar. ao mesmo tempo começava a lidar com as cobranças da maternidade.
Segundo Janaína, os pais tinham [música] feito um combinado. Leila Diniz cuidaria mais diretamente da filha nos primeiros 7 anos. Depois, Rui Guerra assumiri [música] uma participação ainda maior. Porém, a vida obrigou o Pai a começar muito antes do que os dois tinham planeado. Este pequeno pormenor mostra que havia um [música] futuro organizado na cabeça de Leila Diniz.
Ela imaginava-se acompanhando os primeiros [música] anos, ensinando, protegendo e formando a menina. [música] E a atriz Marieta Severus estava perto desde o início. Leila e Marieta conheceram-se em 1966 durante a novela O Sheik de Agadir. Eram duas jovens atrizes, [música] cheias de flanos, construindo a carreira num Brasil cada vez mais reprimido [música] pela ditadura.
Eu conheci a Leila quando fui fazer o shake do HD e foi assim, amor à primeira vista. A amizade saiu dos estúdios e entrou na vida pessoal. Marita Severo acompanhou a gravidez [música] e contou que ouviu o primeiro choro de Janaína antes do próprio pai. Antes mesmo de a menina compreender o que era uma família, Marieta [música] Severo já estava ali.
Depois do acidente, esta A amizade deixaria de ser apenas uma recordação de juventude. Passaria a sustentar a infância da filha que Leila não pôde criar. Em 1972, [música] Leila Diniz viajou para a Austrália por causa do filme Mãos Vazias, exibido [música] no festival de cinema de Adelite. Janaína ficou no Rio sobineasta [música] e amiga Ana Maria Magalhães.
Durante a viagem, a saudade aumentou. A Leila viu cangurus, observou [música] as mães carregando os seus filhotes e comprou um postal para a filha. Escreveu que estava com saudades. Imaginou voltar à Austrália dali [música] a cerca de do anos, desta vez com a Janaína e vê-la correndo pelos parques, rodeada por animais [música] e pelo verde.
No fim, prometeu: “Volto em breve, amor”. E assim assinou mamã canguru. O cartão chegou ao Brasil um dia antes do acidente. Já parou para pensar no que representa? Enquanto aquela mensagem entrava na casa levando uma promessa [música] de reencontro, Leila Dinise estava a fazer o caminho de volta.
Não escreveu como alguém que se despedia, escreveu como uma mãe que tinha [música] planos simples para o futuro. Voltar, abraçar a filha e, algum tempo [música] depois viajar com ela. Não havia previsão de desfedida, havia saudade e vida pela frente. A mensagem da mamã canguru tornou-se uma das poucas falas dirigidas [música] diretamente à Janaína, que atravessaram o tempo.
Ela não precisou de ouvir de outra [música] pessoa que a mãe a amava. Leila Diniz deixou isso escrito, só que o avião que deveria levá-la de volta nunca completou a viagem. No dia 14 de junho de 1972, o voo 471 da Japan Airlines despenhou-se nas proximidades de Nova Deli, na Índia. Leila Diniz deixou aos 27 anos. Naquele momento, Janaína já estava no mundo havia quase 7 meses.
A imagem da gravidez continuaria famosa, mas a criança que aparecia naquela barriga estava no rio à espera da mãe. Para o Brasil, a morte interrompeu uma carreira de enorme impacto. Há uma hora nasci, às duas me batizei. As três estava a namorar, às 4 eu me casei. Para Rui Guerra, começou a tarefa de criar a filha sem a companheira.

Para Marieta Severo, desapareceu uma amiga que ela imaginava ter ao seu lado por toda a vida. Para Janaína, a dimensão da Verda só apareceria com o tempo. Um bebé não compreende um acidente de avião, não sabe o [música] que significa a morte. e não consegue perguntar porque é que a mãe não voltou.
A dor surgiu depois, conforme A Janaína cresceu e apercebeu-se de tudo o que não viveria. Leila Diniz não estaria no primeiro dia de aulas, não a acompanharia na adolescência, não daria conselhos [música] depois de uma decepção, não poderia explicar quais as histórias sobre a a sua vida eram verdadeiras e quais tinham sido aumentadas. Janaína Diniz herdou fotografias, filmes, cartas e diários.
Perdou também o país inteiro disposto a falar sobre sua mãe. Só que cada pessoa conhecia uma Leila diferente. Domingos conhecia a jovem companheira. Rui Guerra conhecia a mulher com quem teve uma filha. Marieta Severus conhecia a amiga. Os diretores conheciam a atriz. O público conhecia o símbolo de liberdade. [música] Desanaína precisava de juntar todas estas versões para tentar encontrar a mãe.
Houve um momento do ano em que a ausência tornava-se impossível de esconder as homenagens do dia da mãe na escola. Enquanto as outras crianças preparavam presentes e sabiam para quem entregá-los, Janaína Diniz ficava aflita. [música] A pergunta era simples e devastadora. Para quem vai este presente? A cada ano escolhia uma pessoa.
Podia entregar a uma das mulheres que a cuidavam, mas o exercício da escola deixava claro que Leila Diniz não estava ali para receber. Aquilo que durante o resto do ano podia ser protegido pelo carinho da família aparecia destacado [música] perante a turma. É por isso que Janaína explicou que certas tentativas [música] de confessar a Firda podem aumentar a dor.
Quando uma figura pública parte, deixando uma criança, todos querem ajudar. rodeiam o filho de homenagens, [música] recordações e afeto. A intenção é boa, o efeito nem sempre é. [música] A criança passa a ocupar um enorme espaço no sentimento dos adultos, maior do que consegue compreender. Quanto mais tentam preencher o lugar de quem partiu, mais deixam [música] claro que aquele lugar está vazio. Foi assim na escola.
O presente existia, a homenagem existia, chegavam as outras mães, Leila Dinisnal. E não era apenas a falta de uma mulher famosa, era a ausência de alguém que ensinaria Janaína a ser filha, mulher e mais tarde mãe. Já adulta, contou que a perda também influenciou a sua própria maternidade. Demorou a ter um filho [música] porque esperava condições perfeitas que nunca chegariam.
Sem ter vivido, uma mãe por perto criou um [música] modelo ideal. e cobrou-se para não falhar. A ausência de Leila não ficou presa à infância. acompanhou Janaína até ao momento em que ela própria precisou de descobrir [música] como cuidar de uma criança. Depois da morte de Leila, muitas mulheres aproximaram-se de Janaína, a avó, a CIA, as [música] amigas da família e em especial a Marieta Severo, ofereceram cuidados.
ainda costumava brincar que ao perder a mãe acabou rodeada pelas mães [música] do mundo. Era verdade. Chegava aos locais e encontrava mulheres dispostas [música] a adotá-la afetivamente. Mas quando a tragédia voltava a doer, ela queria a própria mãe. Esse é o ponto [música] que precisa de ser compreendido. Jenaína Diniz não desvalorizava o amor que [música] recebeu.
pelo contrário, fala com carinho sobre as mulheres que a acolheram. O que ela revela é que nenhuma soma de afetos apaga a necessidade original. Marieta Severo permaneceu. Ela ajudou a alimentar, orientar e incluir [música] Janaína na rotina da sua casa. Quando a menina tinha dificuldade em comer, a avó preparava croquetes e Marieta Severo prometia gelado em troca do arroz e feijão.
Estes pequenos detalhes [música] mostram uma infância concreta. Como qualquer criança, a Janaína fazia birra, era cuidada, recebia limites e crescia no meio de uma família. [música] Marieta Severo dizia: “A minha relação com a Janaína é enorme, é a minha filha”. Na mesma lembrança, reconhecia que a sua maior dor era ver a falta que Leila Diniz fazia à menina.
Isto é importante porque Marieta Severus nunca fingiu que podia substituir a amiga. Ela adorou a Janaína [música] e ao mesmo tempo respeitou o lugar de Leila. ajudou a manter a mãe presente nas histórias, nas fotografias [música] e nos sete diários que ficaram guardados durante anos. [ressonante] Em casa de Marieta Severo e Chico Voarque, Janaína cresceu ao lado de Sílvia, Helena [música] e Luía.
As filhas do casal tornaram-se as suas irmãs de coração. As fotografias mostram Janaína, ainda pequena, junto da Marieta e [música] das meninas. Mas o vínculo foi muito para além das imagens. Ela participou nas brincadeiras, das leituras, das refeições e do quotidiano daquela família. Quando falou sobre o Capuchinho Amarelo, livro de Chico Voarque, que marcou a sua infância, Janaína Diniz lembrou que a obra tinha escrito [música] para as crianças que viviam à redor dele e resumiu. Eu era uma delas.
A frase diz muito. A Janaína não era uma visitante recebida por pena, era uma das crianças daquela casa. Crescer com as filhas de Marieta Severo deu-lhe pertença. Havia irmãs, uma rotina familiar e pessoas que a conheciam para além da tragédia. Mesmo assim, existia uma diferença. As meninas construíam memórias diretamente com a própria mãe.
Janaína defendia das memórias dos outros para montar a imagem de Leila Diniz. Eu quanto mais ouvia, mais sentia uma contradição. Uma entrevista disse que sentia como se conhecesse a mãe profundamente. Mas ver os filmes, ouvir a voz ou ler o que Leila escrevera fazia o vazio aumentar. A proximidade do arquivo confirmava à distância da vida real.
Era possível assistir a Leila Diniz andando, rindo e falando num ecrã. Não era possível interromper a cena e pedir uma resposta. Era possível ver a mãe abraçando outras pessoas. Janaína não conseguia recuperar a sensação do próprio abraço. O Brasil possuía muitas imagens de Leila Diniz. A filha precisava de transformar essas imagens em uma relação.
Roi Guerra entregou à Janaína os diários de Leila Diniz quando esta tinha 15 anos. Nesse momento, a adolescente não quis mergulhar no material, estava envolvida com movimento estudantil e queria mudar o mundo. Os cadernos da mãe podiam esperar. Anos mais tarde, perto dos 30, tentou abrir um deles.
O corpo reagiu antes que ela conseguisse organizar o que sentia. Janaína Dinis contou que ficou sem conseguir mexer-se direito, com as pernas fracas e os braços moles. Precisou de ser levada a um psiquiatra. Ela pensava que lidava bem com a morte da mãe. Conseguia falar sobre Leila Diniz. Mas abrir o diário era diferente.
Era como ouvir a mãe a falar diretamente com ela. Por isso, o encontro teve de ser adiado. Os sete cadernos não guardavam apenas factos. tinham poemas, reflexões, opiniões, dúvidas e pensamentos que a figura pública nunca tinha mostrado por inteiro. Ali estava a mulher por detrás do mito. Janaína Diniz anunciou o projeto de um filme chamado Despedaços, construído pelo olhar de uma filha tentando encontrar a mãe que não teve.
Também planeou uma série documental baseada nos diários. O nome despedaços resume a sua vida. Ela recebeu um cartão da mamã Kangoru, uma fotografia da gravidez, uma cena de um filme, a recordação de Marieta Severo, o relato de Rui Guerra, uma frase de domingos. Um lugar onde foi amamentada, um sonho no parque de diversões.
Recebeu fragmentos e teve de passar décadas a juntar tudo para formar uma mulher que partiu demasiado jovem para contar a sua própria história à filha. Hoje A Janaína trabalha como diretora, argumentista e produtora. construiu o seu caminho no cinema e tornou-se também guardiã da memória de Leila Diniz. A bebé que não pôde ser protegida pela mãe cresceu e passou a proteger a história dela.
Depois de tantas pesquisas, entrevistas, filmes e páginas de diário, uma pergunta foi feita a Janaína. O que ela perguntaria a Leila se pudesse encontrá-la? Da resposta não começou por política, feminismo, censura ou carreira. Primeiro ia pedir colo. É difícil encontrar uma frase que resuma melhor esta história.
Antes de querer explicações, Janaína Diniz quis ver o gesto mais simples que uma filha esfera da mãe. Depois faria perguntas. queria falar sobre as contradições das duas, sobre a liberdade, a solidão e tudo o que Leila Dinis poderia ter-lhe ensinado como mulher, mas primeiro viria ao colo. É por isso que a frase da filha carrega tanta força.
Ela tinha um encontro marcado com a mãe que não teve, não com a atriz da fraia, não com o símbolo que enfrentou a ditadura, não com a mulher transformada em personagens pelas manchetes, com a mãe. Janaína Diniz teve um pai na sua vida. Teve Marieta Severo como mãe de coração. Cresceu ao lado de irmãs e recebeu carinho de muitas mulheres.
Nada disto precisa de ser diminuído para que a falta de Leila D seja reconhecida. O amor não apaga a ausência, ajuda uma pessoa a sobreviver-lhe. No fim, o cartão da Austrália continua a guardar a promessa que não poôde ser cumprida. Ela Dinise imaginou voltar com Janaína e vê-la a correr por um parque entre cangurus e muito verde.
No entanto, a mãe e filha nunca fizeram essa viagem. Décadas mais tarde, Janaína iniciou outra [música] viagem. Abriu fotografias, filmes, recordações e diários. foi em direção à jovem professora, a atriz, a mulher perseguida, a amiga de Marieta Severo e a mãe que sentia culpa por estar distante. Para cada pedaço encontrou uma prova.
Leila Dinis sentia saudade, perguntava-se se estava a ser uma boa mãe. Fazia planos, queria voltar. Agora diz-me aqui uma coisa. Será que o amor de uma mãe de coração, tal como Marieta Severo, pode aliviar a falta da mãe que partiu? Ou este é um vazio que uma filha transporta para sempre? Conta-nos aqui nos comentários o que pensa e diga também a cidade de onde está a assistir.
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