ASSIM FOI A VIDA DE TIM MAIA – O REPUGNANTE SEGREDO QUE ELE ESCONDEU POR 28 ANOS – H

8 de março de 1998, Teatro Municipal de Niterói. Tim Maia entra em palco meia hora atrasado com o rosto molhado de suor, puxa o ar para cantar e a voz não sai. Sete dias depois, o maior nome do sou brasileiro morre num [música] quarto de hospital sozinho. Ninguém no Brasil teve coragem de dizer em voz alta o que escondeu durante 28 anos até acabar apagado atrás daquela cortina.

As pessoas próximas preferiram calar por diferentes motivos e o país enterrou o artista sem nunca conhecer a verdade real por detrás dos últimos meses de vida dele. Fique até ao final, porque vai perceber porque é que o cantor morreu abandonado com apenas 55 anos de idade. Mas o abandono não começou naquele palco [música] de Niterói.

A história começa muito antes, numa casa pobre da Tijuca, [música] em 1958, quando um rapaz de 16 anos viu a vida virar de pernas para o ar numa manhã de outono. Perdeu o chão debaixo dos pés em menos de 5 minutos. E foi aí que o menino chamado Sebastião Rodrigues Maia começou a construir sozinho, o que viria a ser uma das maiores vozes da música brasileira.

1963, uma cela numa cadeia de Deayonabit, [música] na Flórida. Um jovem carioca com apenas 20 primaveras, sem contacto direto com a mãe há meses. Uma violenta briga com outro preso mudou para sempre a trajetória [música] musical dele. E o motivo real da deportação foi silenciado durante décadas na imprensa.

11 temporadas depois, uma pilha de fitas magnéticas amontoada num quintal em Belfoxo. Os dois discos mais estranhos da carreira do artista. Ele deita a gasolina em cima e até fogo com as próprias [música] mãos. Tudo depois de descobrir uma verdade sombria sobre um guru chamado Manuel Jacinto Coelho. Essa história inteiro vai conhecer daqui a pouco.

E anos depois [música] daquela pilha de fitas queimadas, um microfone rola sozinho pelo chão do Teatro Municipal. Meia hora depois da hora anunciada no bilhete, a plateia em silêncio absoluto, o intérprete de azul da cor do mar a ser carregado sem forças [música] para fora do palco. E uma última frase engasgada na garganta dele minutos antes da ambulância chegar.

Uma vida cheia de reviravoltas que a imprensa brasileira nunca teve coragem de contar desde o início ao fim, que só se tornou nítida na tarde de Março de 1998, que fechou todas as portas do Souman num quarto de hospital em Niterói. Mas antes de tudo isto, há a Tijuca de 42 e um menino nascendo mais novo de 12 irmãos numa casa sem dinheiro para o leite [música] do dia seguinte. 28 de setembro de 1942.

Uma casa apertada no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. Uma mulher chamada Maria Imaculada põe no mundo o 12º filho. E o marido João Maia regista o recém-nascido [música] na conservatória com o nome de Sebastião Rodrigues Maia. Vivia de bicos e favores [música] dos vizinhos. João Maia vendia bilhetes de lotaria pelas ruas do centro.

voltava à tarde da noite com o pouco que tinha [música] ganha e Maria Imaculada partilhava o prato entre os 12 filhos na hora do jantar. Aos 8 anos, o mais novo da família virou [música] assunto na vizinhança inteira por causa de uma descoberta inesperada. Entrou no coro da Igreja Católica do bairro e o padre da paróquia [música] percebeu logo na primeira semana que a voz daquele mais novo tinha uma coisa diferente, um timbre demasiado grave para alguém tão jovem, uma força que ninguém explicava bem.

E o Don que iria sustentar toda a parentela pobre 19 anos mais tarde. Aos 12 de idade, recebeu de presente o primeiro violão da vida, um instrumento velho comprado por trocos numa loja de penhor. Passou a treinar acordes todas as as tardes na varanda de [música] casa. E foi aí que o mais novo conheceu um vizinho quase da sua idade chamado Erasmo Esteves, o futuro Erasmo Carlos.

Aos 15 anos, os dois amigos chamaram um terceiro colega do bairro para montar um trio musical que ninguém no O Brasil poderia imaginar o que aconteceria dali a pouco tempo. O terceiro colega chamava-se Roberto Carlos Braga, vivia perto dos dois na vizinhança carioca. O trio ganhou o nome de The Sputnics, homenagem ao satélite russo lançado nessa temporada, e passaram a tocar num programa de caloiros da Rádio Imperial aos sábados à noite.

Mas aquele sonho durou pouco mais de duas épocas até acabar da pior forma possível. Em 1958, o programa imperial saiu do ar. Os três parceiros ficaram sem palco. Erasmo e Roberto conseguiram outros contactos pelo bairro. Sebastião ficou sozinho e foi neste período que a tragédia bateu na porta do lar humilde. João Maia sentiu uma dor forte no peito numa manhã de outono.

Levou a mão ao ombro esquerdo, deu dois passos até ao meio da sala e caiu morto no chão de tábua corrida perante o mais novo de 16. O adolescente ficou parado a olhar para o corpo por vários minutos sem conseguir chamar ninguém. Depois do enterro no cemitério do Caju, o adolescente pobre tomou uma decisão radical.

Passou três meses numa pequena confeitaria do centro juntando dinheiro para uma passagem barata de navio até Nova Iorque e aos 17 de idade cruzou o oceano sozinho para tentar a sua sorte no país da Soul Music. Nova Iorque, início do ano de 1960. Um miúdo brasileiro de 17 anos desembarca sozinho no porto sem falar uma palavra de inglês, sem dinheiro para pagar um hotel, sem morada confirmada de nenhum familiar.

Passou os primeiros meses a dormir em vagões abandonados do metro. comia sanduíches fora de prazo [música] que os trabalhadores latinos deixavam nas mesas dos refeitórios de fábrica e aprendeu a língua na base da conversa com sem-abrigo e traficantes de bairros pobres. Aos poucos, uma família ameril americana de Terry Toown adotou o estrangeiro sem documentos.

Os anfitriões deram ao rapaz um nome novo de batismo. Passaram a chamar ao carioca Jimmy the Brazilian. passou a trabalhar em vários locais [música] no período duro, numa snack-bar popular, num abrigo de idosos abandonados, como ama de crianças ricas de Manhattan e como carregador em supermercados do subúrbio. Mas foi no meio dos bicos exaustivos que ele descobriu o som que mudaria para sempre a trajetória artística do músico.

Nos bares negros do Harlin, o estrangeiro conheceu a música que estava a dominar as rádios do início dos anos 60, o Soul da editora M Toown, o Rhythm and Blues da gravadora STEX ficou obsecado pelo estilo, aprendeu guitarra, observando músicos negros [música] a ensaiar em porões e formou um grupo vocal com mais quatro amigos chamado The Idioss.

Em 1963, três amigos da banda convenceram Jimmy a fazer uma coisa que iria destruir o sonho americano em poucas semanas. Os quatro levaram um carro roubado emprestado [música] por um conhecido do bairro, atravessaram o território americano numa viagem sem destino certo e foram cometendo pequenos furtos por onde passavam para conseguir gasolina, alimentos barata e cigarros.

foi detido cinco vezes na confusão inconsequente. A detenção [música] mais grave aconteceu em Deitonabit, na Florida. Um policial apanhou o forasteiro com canábis escondido no [música] bolso das calças e o juiz local decretou 6 meses de prisão numa penitenciária local. Foi na segunda semana atrás das grades que uma briga violenta com outro sujeito mudou para sempre o rumo do futuro cantor.

Um americano [música] branco passou a provocar o Jim no refeitório coletivo, chamou-lhe macaco, empurrou o prato de comida no chão e partiu para cima com uma faca improvisada de talheres amolgado. A reação do brasileiro foi tão brutal que os carcereiros precisaram de separar [música] os dois no chão com murros e gás.

O carioca saiu da luta com a mandíbula partida e três dedos torcidos. O adversário ficou com uma ferida grave [música] na altura do pescoço que necessitou de 15 pontos. E o incidente tornou-se [música] motivo suficiente para as autoridades acelerarem a deportação do clandestino de regresso ao Rio de Janeiro. Mas o motivo real da expulsão dos Estados Unidos foi omitido pela parentela durante décadas após a [música] morte do artista.

Em meados de 64, ele desembarcou num navio velho de carga no Porto Carioca, sem passaporte válido, com uma pequena mala de roupa usada e com o passado do marcado numa ficha criminal que só o governo dos Estados Unidos tinha acesso. O carioca voltou para a Tijuca com apenas 21 de idade. Maria Imaculada recebeu o filho a chorar à porta do Lar Antigo e ele descobriu à noite a ligar o rádio velho da cozinha que o antigo parceiro musical chamado Roberto Carlos tinha-se tornado o cantor mais famoso de todo o Brasil nos 4 anos em que esteve fora. Nos primeiros dias

após o regresso, decidiu procurar o antigo parceiro dos Sputniques em Copacabana. Roberto Carlos vivia então num apartamento moderno perto da praia ao lado da namorada e era a figura do ator mais requisitada da televisão nacional em pleno auge da Jovem Guarda. Chegou na portaria do edifício numa tarde quente de fevereiro de 1964, pediu ao funcionário da recepção anunciar a visita.

Esperou quase uma hora de pé no átrio e ouviu uma resposta seca que iria mudar para sempre o sentimento pelo velho amigo de infância. O homem da recepção voltou dizendo que Roberto Carlos não podia atender ninguém naquele momento. Pediu para o visitante voltar noutro dia e fechou a grade de ferro na cara do jovem carioca sem qualquer explicação.

Aquela recusa marcou o início de uma mágoa profunda que o dono da voz grave iria carregar durante 34 anos até à morte no hospital de Niterói. E a reação do rapaz, sem dinheiro nos bolsos, foi cair na marginalidade dura do rio logo nas semanas seguintes. Se aliou a um antigo [música] colega de infância num assalto pequeno, na habitação vazia de um comerciante do centro.

Levaram uma mesa, quatro cadeiras e um rádio velho de válvulas. Foram apanhados no meio da rua pela viatura da [música] polícia local. E apanhou tanto dos polícias numa sala de interrogatório fechada que perdeu os sentidos no chão durante vários minutos. Depois de sair do batalhão com [música] o corpo dorido, arranjou um bico como guia turístico pela orla.

Um grupo alargado de professores americanos tinha desembarcado no porto para conhecer o Cristo Redentor e o pão de açúcar. E o inglês fluente aprendido nos abrigos de Nova Iorque tornou-se a única fonte honesta de rendimentos naquele mês apertado, mas foi apresentando composições próprias para amigos [música] do meio artístico que a viragem real da trajetória começou a contentir.

acontecer [música] no início dos 70. compôs uma balada romântica batizada de Não vale a pena e o próprio Roberto Carlos, que tinha barrado a visita há tempos, gravou a canção num álbum novo em plena Jovem Guarda. Os royalties da faixa caíram na conta do compositor [música] pobre e deram o dinheiro necessário para alugar um estúdio pequeno e iniciar a gravação do primeiro LP [música] a solo.

Em 1970, o LP chegou às lojas de todo o pela editora Polidor, azul da cor do mar, tornou-se o hino do verão. Primavera tocou nas rádios de todo o país e o menino pobre da Tijuca [música] virou o maior nome do Sou Nacional em menos de 12 meses após o lançamento. Mas a fama súbita foi acompanhada de um vício destruidor que o artista tinha trazido [música] escondido dos escuros porões de Harlem.

Passou a consumir cocaína pura misturada com whisky e canábis antes de cada apresentação ao vivo. Batizou a mistura brutal de triatlo pessoal. entrava em palco cambaleando na maioria [música] das noites e o público delirava porque interpretava a confusão como espontaneidade genial do intérprete carismático.

Numa madrugada [música] de 73, invadiu o escritório principal do executivo André Midani na sede da Philips. partiu os móveis da sala inteiro com uma cadeira de madeira, [música] distribuiu comprimidos de L e este ID para os funcionários assustados e saiu deixando um bilhete escrito à mão com um pedido de aumento dos royalties. E foi nesse tempo de fama descontrolada que uma paixão intensa por uma jovem chamada Janette transformou-se numa das páginas mais duras da vida [música] íntima do cantor.

Janette era uma modelo de 20.000 e poucos anos, que trabalhava com desfiles de moda pela marginal. casou com o cantor numa cerimónia discreta no cartório da comarca. Passou a viver com o marido num apartamento novo na Barra e aguentou durante 3 anos o consumo bruto de substâncias e as crises nocturnas de ciúme sem motivo aparente.

Numa madrugada fria de 76, Janette deu entrada no serviço de urgência do Botafogo com o corpo cheio de nódoas negras [música] roxos, denunciou o marido famoso por agressão numa ficha assinada com testemunha. Mas quando o delegado intimou o [música] famoso a prestar depoimento, o casal apareceu à frente do batalhão abraçado.

Disseram que ela tinha caído da escada da varanda e abandonaram o local juntos sem que o inquérito fosse aberto. Mas o sucesso das rádios brasileiras, os concertos lotados pelo país e a mulher bonita em casa juntos nunca deram paz interior para o dono da voz grave. e foi na casa de um amigo compositor de nome Tibério Gaspar, numa noite quente de Janeiro de 74, que encontrou por acaso o livro que iria destruir a sua trajetória nos dois anos seguintes.

Janeiro de 1974, apartamento do compositor Tibério, Gaspar em Ipanema. O anfitrião serviu um copo de mescalina misturada com sumo de laranja ao amigo cantor e colocou na mesa da sala um livro grosso de capa vermelha com o título Universo em desencanto na lombada. Foliou as primeiras páginas ainda sob o efeito da substância alucinogénia.

Leu frases sobre planetas superiores e imunização espiritual. ficou obsecado pela ideia de uma humanidade exilada por engano num mundo animalizado e pediu emprestado o volume para levar de volta paraa própria habitação antes do amanhecer. Aos poucos, o compositor famoso passou a frequentar reuniões secretas de uma seita esotérica comandada por um homem misterioso chamado Manoel Jacinto Coelho.

Coelho tinha 61 anos e vivia num palacete simples no bairro Operário de Belfford Roxo, na Baixada Fluminense. que apresentava aos discípulos como racional superior, mensageiro direto de uma inteligência cósmica proveniente do planeta perfeito. Escrevia sem parar volumes numerados da mesma série desde os anos 30.

já tinha publicado mais de 700 livros até àquele momento e o novo adepto passou por um estranho ritual de desmagnetização que iria mudar radicalmente a [música] toda a rotina do artista em muito poucas semanas. Recebeu uma camisola e umas calças brancas das mãos do próprio guru numa cerimónia fechada em Belf Roxo. Cortou o cabelo comprido dos 70.

As bebidas [música] alcoólicas desapareceram da rotina no dia seguinte. Depois de 15 anos a consumir forte, a cocaína e a canábis saíram da vida. Adotou uma dieta sem carne vermelha e o sexo com Janette tornou-se uma coisa rara, permitido apenas para gerar filhos. Chegou mesmo a [música] aplicar as regras estranhas no grupo de acompanhamento denominado Vitória Régia.

convocou os oito membros para uma reunião no novo estúdio, distribuiu fardas brancas iguais para todos e exigiu que toda a banda lesse os livros do mestre antes de ensaiar qualquer canção nova. Mas a editora RC, a americana, passou-se com o rumo novo do artista brasileiro assim que ouviu as [música] fitas gravadas em estúdio no mês seguinte.

As letras novas falavam de imunização racional, OVNES e grão-mestre varonil. Os executivos da RC marcaram-na uma reunião de emergência para tentar demover o cantor e terminaram o contrato milionário quando perceberam que ele estava disposto a lançar tudo aquilo custasse o que custasse. Fundou então, por conta própria, uma pequena etiqueta denominada Seroma discos, utilizando as iniciais do nome de batismo.

Lançou dois LPs consecutivos baptizados Tim Maia Racional. volume 1 e volume 2, percorreu o Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo em Pessoa tentando distribuir as [música] cópias pelas lojinhas do subúrbio, mas as rádios nacionais se recusaram-se a tocar as músicas [música] esotéricas e os antigos fãs do Sou deram as costas em massa para a fase mística incompreensível.

chegou a enviar uma cópia do vinil paraa residência pessoal de John Lennon em Nova Iorque, esperando conversão do Beatle Inglês paraa doutrina da Baixada. Lennon respondeu por carta poucas semanas depois. disse que tinha achado [música] a sonoridade interessante, mas as letras absurdamente confusas para um ouvido estrangeiro. Gozou do [música] conceito de imunização espiritual em duas linhas finais escritas à mão.

E o cantor guardou a resposta engavetada durante meses sem mostrar a ninguém. Mas o bque final na fé cega do artista provinha de uma descoberta pessoal sobre a vida íntima escondida do próprio mestre no Verão de 75. Uma fiel discípula do movimento procurou o compositor num sábado à tarde para contar em choro que o santo líder mantinha relações sexuais secretas com pelo menos três mulheres da comunidade, todas casadas com outros adeptos devotos.

Coelho abusava da autoridade espiritual para levar as fiéis a um quarto reservado nas traseiras do casarão em Belfo e sabia que ninguém teria coragem de denunciar publicamente o Santo Homem por medo da retaliação da comunidade inteira. A reação do dono da voz ao descobrir a verdade suja sobre o líder foi tão brutal que o quintal do palacete tornou-se o palco de uma cena que ninguém dos vizinhos jamais esqueceu.

Numa manhã soalheira de Setembro de 75, empilhou no chão de terra batida todas as restantes cópias dos dois álbuns místicos. deitou gasolina em cima da pilha inteira e atiou fogo com um fósforo aceso diante dos moradores da rua, que assistiam da calçada com olhos arregalados. voltou para o antigo apartamento da Figueiredo, Magalhães, nesse dia, e fechou aquela fase branca com meio lro de cachaça, três charros da mais forte e uma carreira de cocaína pura na casa de banho.

Mas o regresso agressivo às substâncias veio juntamente com outras mudanças pessoais que iriam marcar a década de 80 de forma trágica. E o ídolo da Soul arranjou brigas novas com quase todas as editoras multinacionais nos 10 anos seguintes até o corpo começar a dar os primeiros sinais graves de esgotamento total. Fevereiro de 1981, ginásio Balbino, Cena de Salvador.

5000 pessoas à espera de pé há mais de 4 horas o anunciado concerto do dono da voz grave. E o cantor famoso simplesmente não apareceu no local combinado. O público jogou [música] cadeiras de plástico no palco vazio. A produção teve que devolver o dinheiro dos bilhetes vendido e o Soulman apareceu no ensaio da semana seguinte, rindo-se do episódio como se nada tivesse acontecido.

Aquela cena repetiu por cima e por baixo durante toda a década de 80. O intérprete lutava sozinho contra os executivos de quase toda a editora estrangeira instalada no Brasil. Rompeu contratos milionários por motivos pequenos. Xingou os produtores no meio de reuniões formais e deixou de pagar o menos 20 membros contratados pela banda de acompanhamento entre 80 e 83.

Enquanto o país continuava a rir das confusões [música] públicas do intérprete carismático, o próprio organismo do artista começou a dar sinais [música] graves de esgotamento profundo. Os cardiologistas do rio alertaram durante décadas sobre a pressão arterial descontrolada. [música] A diabetes avançou sem tratamento adequado até ao final da década.

O corpo do carioca passou de 85 kg para 140 kg em menos de 15 anos e uma embolia pulmonar diagnosticada em 93 deveria ter sido o primeiro aviso definitivo do fim próximo. Mas o carioque recusou-se a alterar a rotina. Fumava três maços de cigarro por dia. Não largava o whisk puro antes das apresentações e o sono não ultrapassava as 3 horas por madrugada.

chegou a rir-se dos exames feitos no consultório do Dr. Adib [música] Jateni em São Paulo. Enquanto o organismo dava sinais claros [música] de exaustão, três crianças cresciam em cantos diferentes do rio, transportando o apelido Maia, sem quase nenhum contacto com o pai famoso. Leo Maia nasceu em 77 de uma relação passageira do Soumen com uma bailarina fluminense.

cresceu ouvir o pai famoso na televisão sem nunca ter recebido um telefonema [música] de aniversário. Carmelo e Telma completaram o trio de filhos reconhecidos em notário, mas nenhum dos três viviam sob o mesmo teto do compositor durante a infância. E o padrão do abandono paterno que Sebastião tinha sofrido no fim dos anos 50 repetia-se agora noutra geração da família.

O único parente próximo que se tornou músico profissional foi o sobrinho Ed Mota, filho da irmã mais velha do artista. Ed cresceu a ouvir os discos do tio [música] na sala de casa e acabou tornando-se uma referência do Sou Nacional na década de [música] 90, sem quase nenhum apoio direto do tio famoso, que via o sobrinho crescer de longe, sem se envolver na carreira.

E foi em plena decadência física e afetiva que veio a decisão política mais estranha da toda a trajetória do dono da voz grave. Em 1997, o compositor filiou-se no Partido [música] Socialista Brasileiro, anunciou a candidatura ao Senado da República pelo Estado Fluminense. justificou a entrada na política, dizendo que não conseguia mais tolerar os pobres votando em candidatos de direita e passou a rodar pequenos comícios em quadras de escola do subúrbio com discursos improvisados ​​sobre justiça social.

subiu num palanque improvisado numa praça de Nova Iguaçu, com uma camisa aberta e uma garrafa de whisky na mão. Falou durante 40 minutos sem parar sobre a pobreza, a música brasileira e a reforma agrária e terminou o discurso cantando azul da cor do mar, a capela para 500 pessoas que assistiam em silêncio absoluto naquela tarde de Agosto de 97.

Mas nenhuma política mudaria o rumo verdadeiro que o organismo já estava tomando naquele final de década. No início de 98, a produção do canal A Multishow procurou o intérprete para uma grande projeto de televisão. Queriam gravar um especial ao vivo no Teatro Municipal de Niterói, com uma orquestra sinfónica grande por trás e as canções mais famosas do repertório todo em versão nova bem elaborada.

O contrato foi assinado em fevereiro. Antes do especial em Niterói, o Soulman participou em dois grandes festivais de verão pelo país. Fez uma apresentação no Planeta Atlântida do Rio Grande do Sul e também tocou na versão gaúcha do festival em Santa Catarina. Voltou paraa capital fluminense no final de fevereiro com o rosto demasiado abatido para o volume [música] de compromissos assumidos.

A data do concerto foi marcada para domingo, 8 de Março de 98. Uma orquestra de 30 membros foi contratada para a gravação. O bilhete foi anunciado nas rádios locais por R$ 20 e ninguém que comprou aquele bilhete para o evento da noite imaginava que ia assistir a última apresentação do maior [música] nome do Sou brasileiro em toda a história do país.

Domingo, 8 de março de 1998, 19h30, [música] um público de mais de 1000 pessoas ocupava as poltronas azuis do [música] Teatro Municipal de Niterói. A plateia estava vestida com um trage formal, cabelo arrumados e os bilhetes numerados na mão. A orquestra sinfónica de 30 elementos afinava os instrumentos em palco desde as 7 horas.

O horário marcado no bilhete passou sem sinal do cantor no camarim principal, meia hora para além do previsto, e a produção começou a receber chamadas preocupadas do realizador do especial. 40 minutos [música] depois, a banda Vitória Régia recebeu ordem para iniciar a introdução instrumental de Dhe o Brasil para segurar a espera prolongada.

E ninguém dos 1000 espectadores impacientes imaginava a cena que estava prestes a acontecer [música] no palco iluminado do municipal daquela apresentação especial. Tim Maia caminhou pesadamente até ao centro do estrado iluminado. O rosto suava debaixo dos refletores fortes de televisão. A camisa branca aberta no peito, marcava a pele com manchas escuras de humidade.

Segurou o microfone [música] com a mão direita e olhou para o auditório durante vários segundos sem dizer nenhuma palavra. A banda seguiu tocando a introdução instrumental de W Brasil. O Soul Man puxou o ar profundamente, abriu a [música] boca para soltar o primeiro verso da canção Conhecida e nenhum som saiu da garganta do maior intérprete do Sou Nacional nesse momento decisivo.

E o que aconteceu nos 20 segundos seguintes ficou marcado para sempre na memória de quem estava sentado no auditório carioca. fez um sinal desesperado com a mão esquerda para os músicos pararem a introdução instrumental. Deu dois passos vacilantes na direção da sesta lateral, tropeçou no cabo de um pedestal metálico e o microfone que segurava na mão direita, rebolava sozinho [música] pelo chão de madeira do palco para os primeiros aplausos confusos do público perplexo.

Um médico da própria audiência subiu correndo pela lateral esquerda. diagnosticou uma fortíssima crise de pressão arterial no meio do estrado iluminado. Chamou uma ambulância pelo telefone [música] do camarim principal e dois assistentes necessitaram de carregar o intérprete para fora do edifício, enquanto o público assistia em silêncio absoluto.

A sirene da ambulância tomou conta do noite fria, enquanto o corpo do ídolo do Sou era levado diretamente para um [música] hospital universitário próximo. Foi internado às 21:30 no Hospital Universitário António Pedro. O diagnóstico inicial confirmou a crise fortíssima de pressão arterial. Os médicos identificaram também uma embolia pulmonar em curso e decidiram induzir [música] o cantor a um coma profundo para evitar que o organismo rejeitasse os tubos de respiração artificial ligados na garganta. Nos três primeiros dias de

internamento, o quadro clínico até melhorou ligeiramente. Reduziram a dose dos remédios calmantes para tentar acordar o famoso paciente do coma induzido. Chegaram a chamar a família próxima para o quarto do centro de tratamento intensivo para receber notícias positivas. Mas a hemorragia digestiva que apareceu na manhã do quarto dia mudou tudo para pior.

A infecção generalizada avançou pelo organismo do intérprete com uma velocidade cruel que nenhum dos médicos do hospital conseguiu controlar mais nas horas seguintes. Domingo, 15 de Março de 1998, 1 da tarde e 3 minutos. O coração do maior nome do Sou brasileiro deixou de bater no sexto andar do António Pedro. A causa registada da morte foi o choque séptico, uma infecção generalizada junto de paragem cardiorrespiratória.

55 anos de vida plenos há menos de 6 meses. Nenhum dos três filhos reconhecidos estava presente na hora exata do último suspiro. Nenhum dos amigos famosos e jovem guarda apareceu para o a visita da manhã de domingo. Roberto Carlos, que 34 anos [música] antes tinha fechado a grade na cara do velho amigo, mandou apenas uma coroa de flores brancas [música] para o velório do dia seguinte.

E o país descobriu a notícia pela rádio da tarde nos intervalos do futebol dominical. E o velório do artista decorreu num local tão inesperado que a imprensa brasileira demorou horas a confirmar o endereço correto do velório para os fãs em choque total. O caixão preto foi colocado no centro do palco na manhã de segunda-feira, 16 de março, mesmo no lugar exato onde o microfone tinha caído sozinho sete noites antes.

Mais de 10.000 pessoas passaram pela porta principal do edifício durante o dia inteiro, cantaram azul da cor do mar em couro pela madrugada [música] seguinte e despediram o Smanço físico que tinha sido testemunha do último suspiro artístico do Rei do Sou. O corpo foi sepultado na terça-feira de tarde no cemitério do Caju, no centro do Rio de Janeiro, bem no mesmo pedaço de chão sagrado, onde João Maia tinha sido sepultado exatamente 40 anos antes, pai e filho [música] reunidos debaixo da terra depois de quatro décadas afastados

pela morte precoce. E o círculo do O abandono paterno fechava-se enfim naquele pedaço de terra carioca. E aqui é finalmente o segredo que Tim Maia escondeu do país [música] durante 28 anos cheios até ao último suspiro no António Pedro. Desde amanhã de Setembro de 70, quando gravou o primeiro LP na Polidor até à fatídica tarde de 98, o Souman sabia perfeitamente que estava destruindo o Prop, mas o próprio corpo aos poucos com cocaína, whisky à base durante as apresentações.

Cardiologistas alertaram durante décadas [a música] nos consultórios sem sucesso nenhum. Amigos íntimos e empresários preocupados tentaram intervir nos bastidores dos espectáculos sem conseguir vergar a teimosia do artista. E o carioca preferiu o silêncio profundo até o organismo travar de vez naquela tarde de domingo do último ano da vida.

28 anos de autodestruição programada que ninguém teve coragem de nomear em voz alta, enquanto o ídolo do Soul ainda respirava nos concertos do país e que só se tornaram evidentes para o povo inteiro quando o microfone rolou sozinho [música] pelo chão do teatro municipal num evento para a televisão. Talvez o que aconteceu com Tim Maia não cabe no rótulo simples de artista maldito que a imprensa gosta de colar em nomes brilhantes que morrem cedo porque a trajetória do rei do sou foi uma sequência de abandonos que começou muito antes da fama e seguiu [a música] por trás

dela até à hora do último suspiro no António Pedro. O primeiro abandono foi do pai que [música] caiu morto no chão de tábua corrida da Tijuca, quando o filho mais novo tinha apenas apenas 16 anos. Depois veio a grade de ferro fechado pelo [música] velho parceiro Roberto Carlos em plena Copacabana. Mais adiante chegou o guru de Belf [música] Roxo, que abusou da confiança sagrada dos devotos até a fé cega ir por água [música] abaixo.

E, por fim, as três crianças cresceram em cantos separados do rio, sem quase nenhum contacto com o próprio Sebastião. E talvez a lição mais dura desta [música] história esteja bem mais perto de casa do que nós imagina numa primeira leitura, porque toda a família brasileira guarda pelo menos um capítulo de abandono que ninguém teve coragem de [música] contar em voz alta.

Um pai que desapareceu cedo demais, um filho que preferiu a distância ou até o próprio corpo ser largado por décadas de descuido [música] com a saúde. Esse foi o segredo repugnante que o dono da voz grave carregou durante 28 anos até ao último suspiro em Niterói. Autodestruição, escolhido em câmara lenta, gole por gole, cigarro por cigarro, injeção por injeção, dia após dia, enquanto o país aplaudia o génio das canções, sem saber o preço que estava a ser pago, escondido nos bastidores da música.

Casas cheias de aplausos, discos de ouro nas editoras discográficas e rádios do país tocando as canções sem parar, não apagaram a mágoa da grade fechada na Copacabana. Também não preencheram o vazio da figura paterna que faltou desde os 16. O menino pobre da Tijuca tornou-se uma lenda, mas morreu sozinho num quarto de hospital em Niterói.

Talvez seja essa a maior lição que a trajetória do síndico do Brasil pode deixar para o país que ainda ouve azul da cor do mar nas noites de verão pela orla carioca. Aplauso nenhum cura a ausência do pai que morreu cedo demais. Casa cheia nenhuma substitui um telefonema carinhoso para alguém idoso e o dinheiro por si só nunca protegeu ninguém da autodestruição escolhida em segredo nos bastidores da vida quotidiana.

Se esta história dolorosa do Rei do Sou fez-te pensar em alguém da a tua família que anda a largar a saúde durante décadas em silêncio, ou em algum amigo antigo que desapareceu do teu convívio depois de uma mágoa mal resolvida. Entre em contacto com essa pessoa esta noite antes de dormir. Pode ser uma ligação rápida, uma mensagem carinhosa pelo telemóvel ou um encontro marcado para o fim de semana, porque uma conversa a tempo vale mais do que 28 [música] anos de silêncio.

E deixa cal e aqui em baixo nos comentários o nome da pessoa que veio-me à cabeça agora. Se inscreve no canal ativando o sininho para receber outras revelações que ninguém quer contar em voz alta em lado nenhum. Amen.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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