Assim FOI a VIDA LUXUOSA de CHACRINHA – Morreu Sem Saber – H
30 de junho de 1988. Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, às 23h30 da noite. Numa casa avaliada em mais de R milhões deais em valores de hoje, demasiado grande para quem está morrendo. Um homem de 70 anos levanta-se para ir à casa de banho. Ele pesa menos de 50 kg. 15 dias antes, [música] ele gravou o último programa.
ficou sentado o tempo todo porque já não tinha fôlego para ficar de pé. Sete maços de cigarros [música] por dia durante 40 anos. O pulmão esquerdo removido em 1971. [pigarreia] O pulmão direito tomado por um tumor que ele próprio não sabia que tinha. Dois programas por semana na Globo. R$ 200.000 R$ 1.000 por mês de cachet fixo, mais do que qualquer outro apresentador da televisão brasileira naquela época.
Um esquema de jabá que movimentava milhões e que o próprio admitiu em rede nacional e uma buzina pendurada no pescoço que virou o som mais reconhecível da TV brasileira por 30 anos. E nessa noite, nessa casa, ele cai no chão do corredor. Enfarte agudo do miocárdio, insuficiência respiratória. Não há público, não há aplausos, não há chacretes.
Só o silêncio de um corredor escuro na barra da Tijuca. e a dona Florinda, a esposa de 41 anos, que vai encontrar o corpo. Mas a herança que Chacrinha deixou não [a música] destruiu os filhos pelo dinheiro, destruiu pelo peso. Um filho que ficou preso numa cama por [música] 43 anos, outro que morreu de Covid sozinho num hospital e uma viúva que sobreviveu 32 anos ao marido.
32, morreu um dia antes de completar 100 anos e enterrou dois dos três filhos antes de ir embora. Porque a herança de Chacrinha não foi uma conta bancária, foi um silêncio. E esse silêncio durou mais do que a carreira dele. Chacrinha era o homem mais alegre da televisão brasileira. Atirava bacalhau para a plateia, buzinava nos caloiros, gritava: “Terezinha! E quem não comunica se trumbica.
Usava roupas de lantejoulas [música] coloridas que brilhavam debaixo dos refletores do estúdio. Distribuía ananás como prémio. Perguntava: “Vais para o trono ou não vais?” E o Brasil inteiro respondia. 70 milhões de brasileiros todos os sábados à tarde colados à televisão por causa de um pernambucano do Agreste que não tinha nem o segundo grau completo.
Mas esse mesmo homem, em 1984, numa entrevista paraa Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que quase ninguém ouviu, admitiu que sofria de depressão. Depressão? O homem da buzina, do lantejoulas, do ananás, do Eu vim para confundir, não para explicar. Este homem passava os dias sozinho na beira da piscina da sua casa, com um rádio de pilha ligado ao lado, ouvindo o programação da concorrência.
A esposa, a senhora Florinda, ficava dentro de casa com um caderno, anotando o que as outras estações faziam. Quem ia no programa do Flávio Cavalcante? Quem aparecia na Tupi, que música tocou na Record? Tudo anotado, tudo reportado, como se a casa fosse uma central de inteligência e o inimigo fosse todo mundo que não fosse chacrinha.
Mas se a chacrinha era tão grande, se faturava R$ 200.000 por mês na Globo, se foi líder de audiência durante 30 anos, se fez e desfazia carreiras na música brasileira, se o Presidente da República deu-lhe um jantar, por quando saiu da Globo em 1972 esteve 10 anos sem dinheiro? Por que razão um homem que movimentava um esquema do jabá estimado em milhões por ano morreu sem que ninguém soubesse ao certo quanto valia o património dele? Como é possível que o seu filho tenha estado 43 anos tetraplégico numa cama?
43 anos. E quase ninguém no Brasil sabe disso. E a pergunta que ninguém faz. O que aconteceu com a família Barbosa depois de a buzina ter parado? Porque dois dos três filhos já morreram, a viúva já morreu e o único que ficou, Leleco, é o guardião de uma memória que pesa mais do que qualquer herança em dinheiro.
Existe uma entrevista de 1980 na Rádio Nacional, em que Chacrinha solta um palavrão em direto e sai do estúdio quando um cantor chamado Osvaldo Nunes acusa-o de jabá. Osvaldo disse, olhando para ele: “Tem jabá!” E o chakrinha: “Há jabá”. E Charinha respondeu: “Não vou discutir com este rapaz.” E saiu no ar em direto.
Existe o testemunho de Odair José, um dos maiores vendedores de discos dos anos 70, milhões de exemplares vendidos, que admitiu que para tocar no programa de chacrinha tinha que dar crédito de coautoria. a uma mulher que agendava as apresentações. Se pegar nos discos do Odair José dessa época, vai encontrar o nome dessa mulher como coautora.
Ela não escreveu uma nota, era uma laranja. E [ressonando] quem disse que não fui eu, foi o próprio Odair José. Existe o relato do cantor Rich, o do Menina Veneno, que conta que foi banido do programa do Chacrinha até ao dia da morte do apresentador, se anos sem aparecer, porque o escritório dele se recusou fazer uma caravana em Bangu.
[ressonando] E há a denúncia do capital inicial no publicado na Folha de São Paulo sobre como funcionava o esquema por dentro. Guarda esses nomes, guarda o jabá. guarda as caravanas, porque é aqui que a história do velho guerreiro ganha um peso que a buzina nunca teve. Mas para perceber como um pernambucano do Agreste tornou-se o dono da televisão brasileira e como esse poder consumiu tudo à volta dele, tem que regressar a Surubim, Pernambuco, 1917, quando José Abelardo Barbosa de Medeiros era ainda apenas um menino numa cidade que
até hoje tem menos de 70.000 habitantes. Surubim, Agreste de Pernambuco. 30 de setembro de 1917. O Brasil era um país de rádio, cavalos e estradas de terra batida. Imagine só, você nasce num local onde o maior acontecimento da semana é a feira, onde a distância até Recife de dia inteiro. A família tem dificuldades, mas a infância é confortável.
Há nada de miséria absoluta, [música] mas nada de luxo também. Aos 15 anos entras no Colégio Marista do Recife e aos 19, em 1936, [música] entra na faculdade de medicina. Medicina? O Chacrinha quase foi médico. O homem que ia atirar bacalhau para a plateia e buzinar aos caloiros quase virou o Dr. Abelardo, que media a pressão e receitava medicamento no interior de Pernambuco.
Em 1937, no terceiro ano da faculdade, dá uma palestra sobre o alcoolismo na rádio Clube de Pernambuco. E nesse dia alguma coisa muda. Descobre que gosta mais de falar do que de operar, que o microfone cabe melhor na mão dele do que o bisturi. Em 1938 quase morre de apendicite supurada. Os colegas já formados salvam a vida dele numa cirurgia de urgência.
E ainda convalecendo, e faz uma loucura, embarca como percussionista de um grupo chamado Bando Académico, num navio com destino à Alemanha. Um estudante de Medicina que quase morreu de apendicite, embarcando num navio transatlântico como tambor, mas não chega à [música] Alemanha. Em 1939 rebenta a Segunda Guerra [música] Mundial e o navio pára no Rio de Janeiro.
Abelardo Barbosa, de 21 anos, sem dinheiro, sem diploma, sem contacto nenhum no Rio de Janeiro, desembarca na capital federal. A mãe queria que ele voltasse. O pai queria que ele voltasse, a faculdade esperava que ele regressasse. Ele ficou. Anota esse pormenor. Ele fica porque a decisão de ficar no Rio de Janeiro em 1939 é a decisão que vai criar chacrinha, inventar o jabá da televisão brasileira e mudar o entretenimento do país para sempre.
O início é na rádio e o [música] início é duro. A locutor na rádio Tupi do Rio de Janeiro, 1939. Salário de locutor, menos de 500 reais por mês em valores de hoje. Não dava para nada. Mal dava para comer e pagar um quarto. De 1939 a 1943, 4 anos como locutor anónimo. 4 anos em que qualquer pessoa sensata teria desistido e voltado para Pernambuco para terminar a faculdade de medicina.
Em 1943, ele vai paraa Rádio Clube Fluminense em Niterói. A emissora está numa chacrinha, que era como se chamava, uma pequena quinta naquela região. E lança um programa de marchinhas de carnaval chamado Rei Momo na Chacrinha. O apelido cola Abelardo Chacrinha Barbosa. Do Dr. Abelardo para Chacrinha, de medicina para a Marchinha.
Em 1944, ele cria o casino da Chacrinha no rádio. Imaginem a cena, uma quinta em Niterói, sem público, sem cenário, sem orquestra. E o Chacrinha fingia, com efeitos sonoros, com barulho de copos e aplausos falsos, que ali dentro realizavam-se enormes festas e lançamentos de disco. Era tudo mentira, era tudo efeito sonoro. Mas o ouvinte acreditava.
E se o ouvinte acredita, não é mentira, é espectáculo. Nos anos 50, o casino da chacrinha no rádio transforma-se numa máquina de lançar hits. Estúpido cupido com Campelo. Sucesso nacional que dali saiu. Coração de luto com Teixeirinha. Outro sucesso que saiu dali. O Chacrinha tinha um instinto paraa música popular que nenhum produtor formado conseguia replicar.

Não lia a partitura, mas sabia, sentia o que o povo ia gostar. [música] Em 1947, casa com Florinda Barbosa. [música] Três filhos, José Amélio Leleco, José Renato, o Nanato e o Jorge. E guarda estes três nomes, porque a história de cada um deles é um capítulo de tragédia que o público nunca viu. Em 1956, a televisão chega à vida dele, a TV Tupi.
E depois vem o ciclo que se vai repetir durante três décadas. Chacrinha entra numa emissora. A audiência explode. Ele briga com alguém, sai e vai paraa outra. TV Tupi, TV paulista, TV Rio, TV Exelsior. Um nómada da televisão que deixava um rasto de audiência e estúdios quebrados por onde passava. 1965 TV Celsior.
Aqui ele já é grande, já tem público, já há caloiros, já há a buzina e aqui aparecem as chacretes. No início chamavam as vitaminas do Chacrinha. Foram mais de 40 ao longo dos anos. Nomes de fantasia para mulheres reais que obedeciam a um regime de controlo que Chacrinha impunha nos bastidores. Ele escolhia os nomes, escolhia os figurinos e escolhia quem entrava e quem saía.
A mais famosa Rita Cadilacou um fenómeno nacional sem nunca ter cantado uma música no programa. E o nome Cadilac foi dado por Chacrinha, não por ela. Foram mais de 40 chacretes ao longo dos anos, cada uma com um nome de fantasia inventado por ele. Rita Cadilac, Índia amazonense, Fernanda Terramoto, Suele Pingo de Ouro, Sandra Pérola Negra, Soninha Toda, Sarita Catatal, Valéria Monamur.
Nomes de personagens para mulheres reais. Nenhuma delas escolheu o seu próprio nome artístico. Nenhuma escolheu o seu próprio figurino. Nenhuma decidia quando entrava ou quando saía do programa. O regime era de controlo absoluto. Chacrinha definia tudo: o nome, a roupa, a coreografia, a posição no palco.
As chacretes tinham corpo e obediência. Voz não tinham. Opinião não tinham. Autonomia a não tinham. Eram peças de um espetáculo que pertencia a um só homem. Rita Cadilacou um fenómeno nacional, a mulher mais fotografada do Brasil na década de 70. Mas ela nunca cantou uma canção no programa, nunca teve um número a solo. Era uma bailarina conhecida por um nome que um homem escolheu para ela, como todas as as outras.
O fenómeno Rita Cadilac foi construído inteiramente dentro de um sistema [música] onde ela não tinha qualquer poder de decisão sobre a própria imagem e o dinheiro. Cada chacrete ganhava aproximadamente [música] 2.000 reais por mês. R$ 2.000, menos do que uma secretária júnior ganhava na mesma altura.
Para ser uma das mulheres mais famosas do Brasil, o salário era de 2.000$. A fama era gigantesca, o pagamento era humilhante e as condições eram claras. Quando machacret engordava, engravidava ou recusava uma ordem. E era substituída sem aviso, sem explicação, sem indemnização. Um biógrafo resumiu assim: Era como peça de máquina. Quebrou troca.
40 mulheres passaram por este sistema. 40 nomes de fantasia. 40 corpos que obedeciam e um homem que decidia tudo. O público via glamor, via brilho, via lantejoulas, via mulheres lindas sorrindo ao lado de um homem engraçado com uma buzina. Mas por detrás do sorriso tinha um contrato que pagava 2.
000$ e uma regra que dizia: “Ou obedece ou desaparece”. E muitas desapareceram. desapareceram sem explicação, sem despedida, sem menção. Foram apagadas como se nunca tivessem existido, porque no programa de Chacrinha ninguém era insubstituível, [música] exceto Chacrinha. Em 1968, no auge do tropicalismo, Caetano Veloso cantou Tropicáliia no programa de Chacrinha.
Era a noite da banana. Caetano, Gil ou os mutantes. Toda a gente passava pelo Chacrinha. O escritor José Agripino de Paula disse: “Chacrinha é a personalidade teatral mais importante do Brasil. O caos do programa era tropicalismo antes do tropicalismo ter nome. Em Dezembro de 1968, o AI5 fechou o congresso.
Gilberto Gil gravou aquele abraço como despedida antes de ser preso e exilado. E nessa canção homenageou Chacrinha, o velho guerreiro. É daí que vem o apelido. Um apelido que nasceu de uma canção de despedida escrito por um homem que ia ser preso pela ditadura. 1967, a Rede Globo contrata chacrinha e aqui a história muda de escala.
Na Globo, O Chacrinha faz dois programas por semana. A buzina do Chacrinha e a discoteca do Chacrinha. Sábado e quarta-feira. Líder absoluto de audiência nos dois dias, R$ 200.000 por mês de cachet fixo em valores atuais, e isso equivale a mais de 2,4 milhões de reais por ano só de salário. Fora o jabá, fora as caravanas, fora os contratos de publicidade.
Quando o Chacrinha estava no ar, o país parava, o trânsito abrandava, as lojas ficavam vazias. As famílias reuniam-se em torno de uma televisão, muitas vezes a única do quarteirão. 70 milhões de espectadores. Enquanto dormiu 8 horas nessa noite, o Chacrinha de 1970 já teria faturado o equivalente a R$ 65.000 só em Jabá, sem contar com o cachet.
E é nesta época que nasce o sistema financeiro que vai sustentar tudo. O bordão. Alô, alô, Terezinha. Talvez o grito mais famoso da televisão brasileira. Nasceu de uma publicidade. A tal Terezinha não existia. Era uma substituição para uma chamada de merchandising da água sanitária clarinha. 15.
000 por mês pelo merchandising em valores da época. E quando o contrato acabou, o Chacrinha não quis perder o bordão. Trocou a Clarinha pela Terezinha. Um bordão que nasceu de um jabá de a limpeza tornou-se património cultural do [música] Brasil. Essa era a genialidade dele, transformar o comercial em arte e a arte em comercial.
E ninguém sabia a diferença. O esquema do jabá funcionava assim. Uma editora discográfica CBS Philips Odeon. Queria que o artista novo aparecesse no programa de sábado. Tocar no Chacrinha significava vender disco. A gravadora entrava em contacto com a produção. Chacrinha aceitava, mas tinha um preço. O preço não era em dinheiro, era em trabalho gratuito.
O artista tinha de participar nas caravanas. As caravanas eram espetáculos que Chacrinha organizava nos subúrbios do Rio de Janeiro e de São Paulo. Nilópolis, Bangu, São João de Meriti, Caxias, Playback sem cachet, 10, 15 espetáculos por noite. Os artistas fingiam que estavam tocando.
O DJ parava o baile, ligava o playback. A banda fazia a mímica, desligava tudo, enfiava toda a gente num carro. e corria para o próximo clube. Edgar de Escandurra, guitarrista dos Ira, contou: “Estas caravanas eram jabás. Subia-se a um palco e tinha uma caixa e um prato para o baterista. Era uma moeda de troca. Quem fazia a caravana aparecia no sábado à tarde para 70 milhões de pessoas.
Quem se recusava era apagado. Rit, o inglês que rebentou com menina veneno, contou o que aconteceu quando recusou. A produção insistiu para que fizesse uma caravana em Bangu. Ele não foi nem nunca mais foi convidado para o programa. 6 anos até ao dia da morte de Chacrinha. Lembra da evidência que mencionei sobre o Oir José? É [pigarreia] aqui que ela entra.
Odair José vendia milhões de discos nos anos 70, mas para tocar no programa, tinha de dar crédito de coautoria a uma mulher que agendava as apresentações. Se pegar nos discos dele dessa época, vai encontrar o nome desta mulher como coautora. Ela não escreveu uma única nota, era uma laranja. O jornalista André Barcinski, autor do livro Pavões misteriosos, investigou e documentou tudo.
E o mais impressionante, Chacrinha admitiu numa entrevista ao programa preto no branco, disse em direto que todos se deixavam vender por uma boa quantia de dinheiro e citou nomes sem vergonha, sem desculpa. Do ponto de vista estritamente financeiro, o esquema era brilhante. O Chacrinha não pagava aos artistas. Eles trabalhavam gratuitamente nas caravanas.
As as gravadoras pagavam em favores, créditos de composição, concertos [música] gratuitos. Uma caravana de 10 espectáculos por noite, sem cachê [música] aos artistas, a gerava o equivalente a R$ 50.000 por noite para produção, entre bilhetes, patrocínios locais [música] e comissões das gravadoras.
Quatro noites por semana, quatro semanas por mês. Faz a conta, R$ 800.000 por mês, apenas em caravanas. Fora o cachet da Globo, fora o merchandising, fora os direitos de autor fantasmas. Guarda esse número, R$ 800.000 por mês em caravanas. Porque quando a chacrinha sair da Globo, este número vai passar a ser zero da noite pro dia. Mas todo o sistema tem um custo.
E o custo do sistema Chacrinha foi pago em quatro moedas: saúde, família, dignidade e solidão. Primeira moeda, a saúde. Chacrinha fumava sete maços de cigarros por dia para um momento e calcula: “Um maço tem 20 cigarros. Sete maços são 140 cigarros. Dividido por cerca de 16 horas acordado, dá um cigarro a cada 7 minutos.
An 140 cigarros por dia, 7 dias por semana, durante 40 anos. São mais [música] de 2 milhões de cigarros numa vida. Em 1971, removeram o pulmão esquerdo inteiro, uma cirurgia que na altura custava o equivalente a R$ 80.000 R e tinha uma taxa de mortalidade elevada. E ele sobreviveu e continuou a fumar. Com um pulmão só, continuou a fumar sete maços por dia.
O tumor alastrou para o pulmão que sobrou. Nos últimos anos, fez As sessões de quimioterapia, cada uma custando o equivalente a R$ 12.000 enquanto apresentava o programa. entrava na químio e ia para o estúdio. Saía do estúdio e ia para químo. [música] Leleco disse que o pai ficou extremamente magro, com uma aparência frágil, e disse uma coisa de arrepiar.
Não sabe se Chacrinha sequer sabia que tinha cancro. pára e pensa nisso. É possível que o homem não soubesse que estava a morrer, que os médicos ou a família tenham escondido o diagnóstico. Ou então sabia e fingia que não. E continuava a gritar Terezinha, com um pulmão e meio destruído por um tumor que propagava-se como fogo.
15 dias antes de morrer, registou o último casino do chakrinha. Ficou sentado o tempo inteiro, não conseguia estar de pé. Paulo Silvino e João Cléber tinham que substituí-lo ao vivo quando não aguentava. A Globo exibiu esta edição no no dia 2 de julho de 1988, dois dias depois da sua morte. O Brasil assistiu ao último programa de Chacrinha sem saber que já estava morto.
Segunda moeda: a família. Aqui a história pesa mesmo. Um biógrafo disse uma frase que eu quero que guarde. Pensava 24 horas no programa. Tudo para ele era o programa. E a família também tinha de pensar no programa. A família inteira existia em função do programa. Os três filhos trabalhavam na produção.
A esposa era espia da concorrência. A casa era uma extensão do estúdio, não era uma família, era uma produtora com laços de sangue e o produto era um só, chacrinha. Quem não comunica se trumbica. Esta é a primeira vez que esta frase aparece nesta história aqui. Ela significa poder, significa domínio, significa um homem que construiu um império de comunicação e arrastou a família inteira para dentro dele.
E aí veio a Semana Santa de 1971, a piscina da casa do empresário Artur Sendas, no Alto [música] Leblon. José Renato, conhecido por Nanato, tinha 21 anos. Era gémeo do Leleco, [música] era noivo da cantora Vanderlea, a ternurinha, ídolo da Jovem Guarda. Nanato mergulhou de cabeça na piscina. A água estava turva pelo cloro.
Ele não viu a barra de ferro ao fundo. Bateu a cabeça. Tetraplégico, 21 anos. Noivo da mulher mais famosa da Jovem Guarda, tetraplégico, num segundo, num mergulho numa semana santa. Vanderleia ficou com ele. A ternurinha largou tudo para cuidar dele. Largou a carreira, abandonou os palcos. Ficou ao lado de Nanato durante 7 anos.
7 anos mudar fralda, dar banho, alimentar, conversar com um corpo que não respondia. Depois separaram-se. Vanderleia reconstruiu a vida. Casou com o guitarrista Lalo Califórnia. Teve duas filhas. Voltou a cantar, mas nunca esqueceu. Em 2014, quando Nanato morreu, 43 anos depois, escreveu: “Xau, meu herói, meu amor.
Descanse em paz!” E o Nanato ficou preso numa cama na casa da Barra da Tijuca, com a mãe dona Florinda, cuidando dele dia e noite. O custo médico de manter um tetraplégico vivo, enfermeiros, equipamentos, medicamentos, adaptações na casa, girava cerca de R$ 15.000 por mês durante 43 anos. Faz a conta, R$ 7,7 milhões deais ao longo da vida.
Quase todo o património líquido que a família tinha, 43 anos, de 1971 a 2014. Quero que pare e pense no que isso significa. Quando o Nanato mergulhou naquela piscina, o Brasil era ainda uma ditadura militar. Não existia telemóvel, não existia internet. Quando morreu, o Brasil estava na era do WhatsApp.
Ele viu tudo isto de uma cama. Viu o pai morrer de uma cama. Viu a ditadura acabar de uma cama. Viu o Brasil ganhar o penta de uma cama. Passou mais tempo preso naquela cama do que livre na vida. 21 anos livres, 43 preso, mais do dobro. Chacrinha ficou extremamente abalado, mas não deixou de trabalhar. Não podia parar. O programa era tudo.
O programa não espera por filho nenhum. E é nesse mesmo ano, 1971, que remove o pulmão esquerdo. E no ano seguinte, 1972, luta com Bonnie, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o todo-pereroso da Globo, e sai da estação. A briga foi por causa de uma mulher chamada Cilda de Assis, uma médium espírita que incorporava entidades no vivo.
O Chacrinha roubou-a [música] do programa de Flávio Cavalcante, o rival diretamente dele na televisão, [música] e a colocou no ar na Globo, num horário nobre, em direto, sem avisar ninguém. A minissérie da Globo de 2020 reconstituiu a cena. Cilda entrou no estúdio, sentou-se numa cadeira e começou a canalizar espíritos perante milhões de espectadores.
A plateia ficou em silêncio. A equipe técnica ficou paralisada. E Bon, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o homem que estava a construir a Globo como uma emissora de nível, ficou furioso. Mandou tirar o programa do ar naquele dia. Chacrinha perdeu completamente o controle. Quebrou o cenário todo. Câmaras, refletores, placas de sinalização, tudo o que estava ao alcance das mãos.
saiu do estúdio sem camisa, vermelho de raiva, e foi direito para o escritório de Bonnie, no andar de cima. O assistente que estava no estúdio na semana seguinte era Agildo Ribeiro, tentando segurar as pontas de um programa cujo apresentador [música] tinha acabado de destruir o próprio set. A edição de 7 de dezembro de 1972 do Jornal do Brasil trouxe as duas versões.
Chacrinha disse que se demitiu porque a Globo alterou os horários dos programas dele sem consultar. A Globo disse que exibia o conteúdo fora dos padrões da emissora. A verdade é que os dois eram amigos. Bonnie admirava Chacrinha como poucos. Mas dentro da A Globo era guerra permanente. Bonnie queria elevar o nível.
Chacrinha queria ser chacrinha e não tinha como conciliar os dois projetos dentro da mesma emissora. A Globo processou chacrinha por quebra de contrato. O valor da ação, R$ 500.000 em valores atuais, meio milhão de reais em prejuízos. O homem mais popular da televisão brasileira. saiu do edifício da Globo processado, humilhado e sem emprego, e o cenário que destruiu foi reconstruído em dois dias.
A Globo seguiu em frente. A programação continuou. [pigarreia] As câmaras não pararam. O único que parou foi ele. E esse é o pormenor que ninguém conta. Chacrinha saiu da Globo, achando que voltaria em semanas. Achava que era insubstituível. e que a audiência ia cair, que Bonnie ia ligar a pedir desculpas. Nada disso aconteceu.
A Globo substituiu o horário dele com outra programação. A audiência oscilou, mas recuperou. E A Charinha esteve 10 anos do lado de fora, olhando pela janela das emissoras menores, à espera de um telefonema que só veio em 1982. 10 anos à espera, 10 anos a fingir que estava bem, 10 anos a dizer em entrevistas que tinha saído por vontade própria.
Mas toda a gente sabia, todo mundo no meio sabia que o Chacrinha tinha sido posto para fora. E no mundo da televisão, ser posto fora da Globo era o equivalente a uma sentença de morte profissional. Continuavas vivo, mas ninguém te via. E para um homem cuja existência dependia de ser visto, ser visto por milhões, ser visto todos os sábados, a ser visto como o centro do universo televisivo brasileiro, a invisibilidade era pior do que qualquer doença.
1971 e 1972. Em menos de 12 meses, o filho fica tetraplégico. Perde um pulmão, briga com o chefe, parte um estúdio ao vivo, perde o [música] emprego, leva um processo judicial, tudo de uma só vez. Imagine, tem 55 anos, o seu filho está tetraplégico, acabou de tirar um pulmão, é processado pela maior emissora do país e precisa de recomeçar.
O que faria? Terceira moeda, a dignidade. Quando saiu da Globo, Chacrinha voltou paraa TV Tupi, mas a Tupi não era a Globo. A audiência era menor, o orçamento era menor, o poder era menor e sem poder o sistema desmorona-se. Lembra-se do número que eu pedi para guardar? 800.000€ por mês em caravanas. Esse número passou a ser zero no dia em que saiu da Globo, porque sem audiência de 70 milhões, as editoras discográficas não mandavam os artistas.
Sem artistas não havia programa. Sem programa não havia jabá. Sem jabá não havia dinheiro. O ciclo inteiro avariou quando a tomada foi tirada. E a tomada era a Globo. O cachê na tupi desceu para R$ 30.000 R por mês, menos de 1 do que ganhava na Globo. A Tupi iria fechar em 1980. Era uma emissora moribunda com dívidas milionárias. Em 1978, foi para Bandeirantes.
Mesma lógica, menor audiência, menor dinheiro, poder menor. O cachê baixou ainda mais, R$ 25.000 por mês. Quem não comunica se trumbica. Esta é a segunda vez que esta frase aparece aqui. Ela significa outra coisa. Significa o custo de perder a plataforma. Chacrinha comunicava com 70 milhões de pessoas.
Sem a Globo comunicava-se com 3 milhões. E a diferença entre os dois números era a diferença entre R$ 800.000 R por mês e zero. A minissérie da Globo regista estes 10 anos com uma frase que diz tudo: “Com problemas de saúde e dinheiro escasso, ele precisa de se reinventar mais uma vez. Dinheiro escasso. O homem que mandava na televisão brasileira ficou sem dinheiro.
E aqui está o pormenor que explica tudo. Lembra que o seu esquema não era baseado em dinheiro direto? baseava-se em favores, em caravanas, em créditos de composição. Quando a audiência desaparece, os favores somem juntos. E resta um homem doente, sem poupança, sem investimento, sem património sólido, porque o património dele era imaterial, era influência.
E influência evapora-se no dia em que a câmara apaga. Retomou as caravanas pelo interior do Brasil. Voltou a fazer o que fazia nos anos 40. Cidades [música] pequenas do Nordeste, a do interior de São Paulo. O velho guerreiro com um pulmão só, um filho [música] tetraplégico em casa, depressão, e R$ 3.
000 puxou no interior quando conseguia. Caxê de R$ 3.000 quando já tinha ganho R$ 200.000 R por mês. Imagina cruzar com ele numa cidade do interior em 1979. O homem do lantejoulas e da buzina ali num palquinho de praça, fazendo um espectáculo para 200 pessoas, quando já o tinha feito para 70 milhões. Na Bandeirantes, Chacrinha ainda fazia a buzina e a discoteca, mas não era a mesma coisa.
O Brasil de 1978 era outro país. A Globo tinha-se tornado um monopólio. Dominava a audiência, dominava a publicidade, dominava a narrativa. Estar fora da Globo naquela altura era como ser o melhor jogador de futebol do mundo a jogar na segunda divisão. Ainda sabe jogar, mas ninguém está assistindo.
Os números contam a história melhor do que qualquer depoimento. Em 10 anos de exílio, de 1972 [música] a 1982, Chacrinha faturou aproximadamente [música] R$ 3 milhões deais no total. Soma tudo: cachet da Tupi, cachet da Bandeirantes, caravanas pelo interior, espetáculos em praças de pequenas cidades. R$ 3 milhões deais em 10 anos.
Se tivesse ficado na Globo, teria faturado aproximadamente R$ 24 milhões de reais no mesmo período, apenas de cachet fixo e caravanas. Uma diferença de R milhões de reais. 21 milhões de reais deitado fora por causa de uma médium espírita num estúdio de televisão. 21 milhões que teriam coberto os custos médicos de Nanato por quase três vezes.

21 milhões [música] que teriam garantido a reforma da dona Florinda. 21 milhões que teriam mudado completamente a história financeira da família Barbosa. Mas Chakrinha não pensava em longos prazo, nunca pensou. Ele vivia no presente, no presente do programa, no presente da audiência, no presente do aplauso.
E quando o aplauso parou, não havia poupança, não havia investimento, não havia plano B, havia apenas um homem doente numa pequena estação tentando parecer grande. Mas o exílio custou mais do que o dinheiro, custou relevância. Os novos artistas já não precisavam mais dele. Novos formatos foram surgindo, a audiência estava a mudar.
O público que cresceu nos anos 70 assistia a outros programas agora. O mundo girava e Chakrinha estava parado num estúdio mais pequeno, com uma equipa mais pequena, para uma audiência menor. E em casa, a mesma cena de sempre. Nanato na cama, Florinda com o caderno, os filhos na produção. A casa funcionava ainda como uma produtora, mas uma produtora que tinha perdido o seu único produto relevante.
Há uma máquina a funcionar no vazio, Florinda, assinalando a concorrência de uma emissora que já não competia com ninguém. Leleco, organizando a logística de caravanas, que já não enchiam um clube de bairro, e chacrinha à beira da piscina com o rádio de pilha, ouvindo o que os outros estavam a fazer, os outros que agora estavam no seu lugar.
Quarta moeda, a solidão. Em 1982, Chakrinha voltou à Globo, fez as pazes com Bonnie. O casino do Chacrinha voltou ao ar no dia 6 de março de 1982. A audiência voltou como se nunca tivesse ido embora. O cachê voltou a ser de R$ 200.000 por mês. As caravanas regressaram, [música] o jabá voltou, tudo voltou.
Mas o homem que voltou não era o mesmo. Tinha 65 anos, um pulmão, depressão diagnosticada, cancro avançando. E em casa o mesmo cenário. Nanato na cama, já com 11 anos de tetraplegia. Florinda com o caderno, os filhos na produção. Nada tinha mudado em casa, tudo tinha mudado nele. De 1982 a 1988, 6 anos, apresentou o casino na Globo, líder de audiência de novo.
Mas agora não gritava tão alto, não saltava, não corria pelo palco, dependia mais dos assistentes e o cigarro continuava. Sete maços por dia com um só pulmão. Em 1984, nessa entrevista à Rádio Nacional, falou sobre a depressão. Até deprimido, mesmo doente, até com o pulmão comido por cancro, o programa vinha antes de mais, antes da saúde, antes da família, antes dele próprio.
Em 1987, a escola de Samba Império Serrano fez um enredo em sua homenagem. Com a boca no mundo, quem não comunica se trumbica. Chacrinha desfilou no último carro alegórico. No mesmo ano, recebeu o título de Dr. Honoris Causa. O homem que largou medicina no terceiro ano recebeu o título de médico quase 50 anos depois.
[ressonante] E o presidente Sarnei deu um jantar de aniversário para ele no palácio do Planalto, o Presidente da República homenageando um apresentador de televisão. Foram as últimas vezes que a Charinha saiu de casa para algo que não fosse o programa. Meso no corredor da Casa da Barra da Tijuca, às 23h30 da noite, o corpo cedeu e a buzina calou.
Em 2018, o realizador Andrusa Wington lançou o filme Chacrinha, o velho guerreiro. Stepan Nerceian fez o Chacrinha velho. Eduardo Sterblitch fez o jovem. Orçamento R 12 milhões deais. Bilheteira R$ 4,5 milhões deais. Prejuízo comercial. O homem que reunia 70 milhões todos os sábado à tarde não conseguiu levar 500.000 pessoas ao cinema.
E talvez isso dizer mais sobre o Brasil do que sobre o filme. A memória de Chacrinha é forte demasiado para ser esquecida e demasiado fraca para vender bilhete. Bonnie [música] foi produtor associado do filme, o mesmo Bonnie que processou Chakrinha em 1972, [música] o mesmo que tirou o programa do ar por causa de uma médium espírita.
Este homem ajudou a fazer o filme sobre a vida do tipo que ele tirou da Globo. Se isto não é uma história brasileira, não sei o que é. Em 2020, a Globo transformou o filme numa mini-série de quatro episódios. O diretor disse numa entrevista que Chakrinha era extraordinário, talvez o maior ícone pop brasileiro do século XX, mas que optaram por retratá-lo como ser humano sem romantizar.
Uma pessoa com um lado solar e um lado menos solar. O lado menos solar é o que está ouvindo agora. Em 2009, o documentário Alô, Alô, Terezinha. A de Nelson Heineev registou depoimentos de quem com ele conviveu. Gravou as vozes que iam desaparecendo, os técnicos, os assistentes, os músicos, os chacretes, antes que desaparecessem de vez.
O documentário é importante porque é a única vez que muitas destas pessoas falaram publicamente. O técnico de som trabalhava nas caravanas, o assistente de palco que segurava os ananases, [música] o motorista que levava os artistas de um clube para o outro às 3 da manhã. Gente que viveu a máquina por dentro e que nunca teve microfone para contar o que viu.
Hoff deu microfone a estas pessoas e o que contaram confirma tudo. O brilho era real, mas o preço também era. Os bordões tornaram-se património linguístico do Brasil. Quem não se comunica se trumbica. Na televisão nada se cria, tudo se cópia. Eu vim para confundir, a não ser para explicar. Frases que qualquer brasileiro com mais de 40 anos conhece de cor.
Frases que se tornaram memes, tatuagens, T-shirts, mas que nasceram de um homem com depressão, que fumava 140 cigarros por dia. E o jabá, a herança mais complicada de todas. O jornalista André Barcinsk fez uma distinção importante no tempo de Chacrinha, o jabá era menos nocivo, porque o público ainda tinha de ir a uma loja e comprar o disco com o próprio dinheiro.
Se a música era má, ninguém comprava. O jabá passava pelo teste da realidade. Hoje o Spotify coloca música em playlists e ela toca sem ninguém pedir. A plataforma tem artistas falsos criados por ela própria. O jabá de Chacrinha, pelo menos, exigia que o consumidor aprovasse com o seu bolso. O de hoje elimina o consumidor da equação.
E a ironia final, o jabá de chacrinha era na televisão aberta gratuita. Hoje você paga ao Spotify para ouvir Jabá. O Chacrinha era corrupto? Era, mas o sistema que veio depois dele é mais corrupto e mais invisível. Pelo menos com o Chacrinha, sabia-se quem mandava. Sabia que tinha uma buzina, um homem e um preço.
Hoje o algoritmo decide e ninguém sabe quem pagou. O legado cultural é imenso e contraditório. Chacrinha inventou a televisão popular brasileira, inventou a interação com o público antes da internet existir. Inventou o conceito de se tornar viral décadas antes do termo ser criado. Um ananás atirado para a plateia era um meme analógico.
Uma buzina era um efeito sonoro que antecipou o TikTok em 50 anos. Mas o mesmo homem que democratizou a televisão, que trouxe o subúrbio pro horário nobre do que deu palco a artistas que nenhuma estação queria. Esse mesmo homem cobrou um preço altíssimo de todos os que por ele passaram. Artistas, [música] chacretes, família, todos pagaram.
E o que sobrou foi um silêncio que os filmes e as miniséries tentam preencher, mas que não conseguem. Porque o silêncio não é falta de informação, é falta de presença. E agora a herança, mas não a herança que lhe está a pensar. Não há luta de tribunal como o do Gugu, que deixou 1 bilião deais, 75% para os filhos, 25% para os sobrinhos.
E a mãe dos filhos recorreu à justiça. Não há como o do Zagalo, que deixou 62,5% para o filho mais novo, e os outros três processaram. Não há advogado na televisão a disputar o apartamento. A herança de Chacrinha foi pior do que qualquer luta de inventário, porque foi silenciosa, lenta, durou décadas. O o património estimado ao morrer, a casa na barra, os direitos de imagem, os royalties dos bordões, rondava os R$ 8 milhões de reais em valores atuais.
Parece muito, mas subtrai R 7,7 milhões de reais em custos médicos de 43 anos de tetraplegia do Nanato. Sobra o quê? Quase nada. O património foi comido por dentro por uma tragédia que durou mais do que a carreira. Primeiro, o enterro. O velório de Chacrinha foi no dia 1 de julho de 1988. O Chico Anísio esteve lá.
A Bonnie esteve lá. O velho guerreiro foi enterrado como uma figura pública. Mas no dia seguinte as câmaras foram embora, os jornalistas foram embora e a dona Florinda ficou com três filhos, um deles preso numa cama e uma casa que de repente ficou silenciosa demais. Florinda tinha 68 anos quando o marido morreu e a partir daí ficou mesma casa, mesmo bairro.
Só que agora já não precisava de anotar a concorrência. Agora precisava de cuidar de um filho tetraplégico, criar os netos e carregar o apelido Barbosa numa cidade que já estava a esquecer-me quem era a Chacrinha. A realidade financeira era brutal. A casa da Barra da Tijuca, que durante décadas funcionou como sede de produção, tornou-se uma espécie de enfermaria particular.
Os R$ 15.000 R$ 1000 por mês para manter Nanato vivo. Enfermeiros, equipamentos, medicamentos. Foram consumindo as economias da família ano após ano. Em 1995, Florinda teve de vender um Mercedes que Chacrinha tinha comprado em 1985 por R$ 150.000 [música] para pagar equipamento médicos. O carro do velho guerreiro [música] vendido para comprar uma cama hospitalar.
Ela nunca voltou a casar, nunca [música] saiu de casa, nunca deu entrevista reclamando. A mulher que passou 27 anos como espia de bastidores da televisão brasileira, esteve 32 anos como guardiã silenciosa de uma família em ruínas. Enquanto o mundo mudava à sua volta, o muro de Berlim caiu, a ditadura acabou, chegou a internet, surgiu o WhatsApp.
Florinda manteve a mesma rotina: cuidar de Nanato, gerir a casa, preservar o nome. Ela não recebia a pensão da Globo, não recebia a pensão do governo, não recebia royalties dos bordões que o marido tornou famosos. A propriedade intelectual de quem não se comunica se trumbica nunca foi registada. A frase mais famosa da televisão brasileira gerou Rais para a família que a criou. 0.
Foi isso que a dona Florinda recebeu em royalties durante 32 anos. Zero, nada. A frase estava em t-shirts, [música] em livros, em programas de televisão e em enredos de escola de samba. Estava [música] na boca do povo, estava no vocabulário do país. E a viúva do homem que a inventou não via um tostão. Nenhuma editora pagou, nenhuma estação pagou, nenhuma marca de t-shirts pagou.
A frase era de todos, menos de quem a criou. E a dona Florinda nunca processou ninguém, nunca contratou advogado de propriedade intelectual, nunca foi a um programa de televisão contar a própria história. A mulher que passou a vida inteira nos bastidores morreu nos bastidores, invisível, silenciosa, como sempre foi.
Só que agora o silêncio não era a escolha, era o abandono. O O Brasil esqueceu-se dela do mesmo jeito que esqueceu-se de Chacrinha nos 10 anos de exílio. Rápido, sem cerimónias, sem olhar para trás. 32 anos, de 1988 a 2020, a dona Florinda viveu como viúva do velho guerreiro. O Nanato morreu a 6 de Novembro de 2014, 63 anos, 43 deles numa cama. internado no hospital do Barrador.
Complicações respiratórias e cardíacas. Morreu às 6h15 da manhã, 15.720 dias. Eu fiz a conta. Se começasse a contar agora, um número por segundo demoraria mais de 4 horas me para chegar em 15.720. E cada um desses dias Nanato acordou na mesma cama. Cada um destes dias, a dona Florinda cuidou dele.
Cada um destes dias, a casa da Barra da Tijuca continuou a existir como se o tempo não passasse. Enquanto dormiu 8 horas nessa noite, Nanato completou mais um dia dos 15.700 que passou naquela cama. Enquanto jantou, assistiu televisão, enviou áudio no WhatsApp, O Nanato estava lá. na mesma cama, no mesmo quarto ou na mesma casa onde o pai morreu no corredor.
Tudo ali parou lá dentro, tudo menos o tempo. Jorge Barbosa, o primogénito, morreu a 2 de setembro de 2020, 72 anos, Covid-19. Internado no hospital samaritano, morreu só como milhares de brasileiros em 2020. Só que este era o filho do Chacrinha, o filho do homem que gritava: “Quem não se comunica se trumbica”. Morreu num hospital onde a família não podia entrar para comunicar com ele.
O Jorge era o mais reservado dos três filhos. Trabalhava como empresário, [música] ficava nos bastidores, nunca deu entrevista, nunca usou o apelido como cartão de visita, nunca capitalizou o nome chacrinha. dos três filhos foi o que mais tentou construir uma vida separada do programa, uma vida própria, longe dos refletores, longe da buzina, longe do peso de ser filho do velho guerreiro.
E ele contraiu o Covid em agosto de 2020. Durante a pior fase da pandemia no Rio de Janeiro. Os hospitais estavam lotados. O custo da UCI para doentes de COVID nos hospitais privados chegava a R$ 50.000 por dia. A família não podia visitar. Os protocolos eram rígidos, nenhum contacto, nenhuma comunicação. O homem que passou toda a vida tentando separar-se do legado do pai, morreu exatamente da forma que o bordão do pai descrevia, sem conseguir comunicar.
A ironia não é poética, é cruel. É o tipo de ironia que não serve para título de jornal, que não serve para um guião de filme, que não serve para nada além de doer. Jorge esteve internado durante semanas. A família enviava mensagens pelo telemóvel dos enfermeiros, recebia fotos dos médicos, acompanhava boletins médicos por WhatsApp.
Tudo mediado, tudo filtrado, tudo à distância. O filho do homem que falava para 70 milhões em directo estava a morrer atrás de uma porta fechada que ninguém podia abrir. Morreu no dia 2 de setembro de 2020, no hospital samaritano, 72 anos, sozinho, como 700.000 outros brasileiros. Mas aquele carregava o apelido do homem que inventou a comunicação na televisão brasileira.
A sobrinha Ana Paula escreveu: “Descansa em paz, tio amado. Sentiremos muita saudade.” André Barbosa escreveu: “Uma pessoa maravilhosa que todos os que conhecia amavam. Estou de coração partido.” Jorge morreu em setembro. Em outubro, a pandemia continuava. Os hospitais continuavam lotados, o Brasil continuava contando corpos.
E na casa da Barra da Tijuca, a senhora Florinda, de 99 anos, sozinha agora que o Jorge também tinha ido, seguia a mesma rotina que seguia há 32 anos. Ah, só que agora a rotina não incluía mais ninguém para cuidar. O Nanato já tinha morrido em 2014. Jorge acabara de morrer. Leleco estava vivo, mas não vivia com ela.
A casa que um dia albergava uma família inteira, uma produção inteira, um império [música] inteiro de televisão. Esta casa agora albergava uma mulher de 99 anos e o eco de tudo o que tinha sido. E [música] 44 dias depois, seguiu-se a matriarca. 44 dias. A 16 de outubro de 2020, faleceu dona Florinda, 99 anos, paragem cardíaca enquanto dormia, na mesma casa onde Chacrinha caiu no corredor 32 anos antes.
Ela morreu um dia antes de completar 100 anos. Um dia? Eu quero que você pare e calcule o peso desta frase. Um dia. A família estava a preparar-se para comemorar os 100 anos da matriarca e ela faleceu na madrugada do dia 16. O aniversário era no dia 17. Lele gravou um vídeo. Infelizmente, perdemos hoje de madrugada a nossa querida mãe, que amanhã completaria 100 anos de idade.
Presta atenção à voz dele. Não é a voz de um homem que perdeu a mãe. É a voz de um homem que perdeu a última pessoa. 44 dias antes enterrou o Jorge. 6 anos antes, [música] enterrou o Nanato. 32 anos antes enterrou o pai e agora [música] a mãe. Todos foram embora. Ele ficou. Sobrou O Lelec, o José Amélio, o gémeo do Nanato, o único herdeiro vivo, o homem que nasceu juntamente com o irmão que esteve 43 anos numa cama, o homem que viu toda a gente ir embora e ficou.
Em 2021, Leleco foi a São Januário ver o estúdio da Vasco TV batizado com o nome do pai. Chacrinha era um vascaíno fanático. O estúdio chama-se Abelardo Barbosa. O nome verdadeiro não a personagem. Aleleco disse: “Ficamos muito emocionados com esta homenagem. Ficamos, mas ficaram quem? O Jorge já tinha morrido, o Nanato já tinha morrido, A Florinda já tinha morrido.
O ficamos de Leleco inclui netos, bisnetos, sobrinhos, mas não inclui mais nenhum dos três que lá estavam quando Chakrinha estava vivo. O Ficamos de Lelec é o pronome mais solitário desta história inteira. Em 2023, num podcast chamado Papagaio Falador, Leleco chamou Dinho Ouro Preto de safado, porque o vocalista dos capital inicial tinha falado sobre o esquema das caravanas.
Lele perdeu a compostura, praguejou, ameaçou. Sérgio Malandro, visivelmente constrangido, tentou contornar, não conseguiu. Lele estava vermelho de raiva, defendendo um homem que morreu 35 anos antes, contra uma acusação que o O próprio Chacrinha já tinha admitido em vida. E talvez seja essa a imagem mais reveladora. Um filho sozinho num podcast a gritar para defender um pai que já não pode ser defendido.
Porque o pai já admitiu, porque o jabá existiu, porque as caravanas existiram. Tudo isto é facto. Mas Leleco não defende os factos. defende a memória, defende o homem, defende o pai que conheceu por dentro, não o personagem que o Brasil conheceu por fora. Quem não comunica se trumbica. Esta frase voltou três vezes nesta história e cada vez que voltou, o peso dela era diferente.
Na primeira vez era sobre o poder, sobre um homem que construiu um império de comunicação e arrastou toda a família para dentro dele. Quem comunicava reinava, quem não comunicava desaparecia. Na segunda vez era sobre a perda, sobre o preço de perder a plataforma. Sem a Globo, sem os 70 milhões, a comunicação parou [música] e o sistema inteiro se desmoronou. De R$ 800.
000 por mês para 3.000€ por concerto no interior. Na terceira vez é agora sobre o contrário do que diz. Porque o filho do homem que gritou esta frase a vida inteira morreu num hospital onde a família não podia entrar para se comunicar com ele. E o outro filho ficou 43 anos numa cama sem poder comunicar com ninguém.
E a viúva morreu um dia antes de completar 100 anos sem conseguir comunicar que ia embora. E o próprio chacrinha pode ter morrido sem saber que tinha cancro. Porque alguém decidiu não comunicar com ele sobre a própria morte? A frase que se tornou um bordão, que se tornou t-shirt, que virou tatuagem, que virou enredo de escola de samba.
Esta frase, quando se olha para a história inteira da família Barbosa, não é uma celebração da comunicação, é um aviso, uma profecia, uma maldição. Quem não comunica se trumbica. Mas quem comunica demais, quem faz da comunicação a razão de viver? Quem sacrifica a saúde, a família, os filhos, o próprio corpo, em nome de 70 milhões de de espectadores, este também se trumbica.
Só que ninguém vê, porque a buzina é demasiado alta para ouvir o silêncio que ela deixa quando pára. Chacrinha faleceu a 30 de junho de 1988, às 23h30 da noite, no corredor de uma casa na Barra da Tijuca. Mas a família dele demorou 32 anos a terminar de morrer junto. Naato em 2014, Jorge em setembro de 2020, Florinda em outubro de 2020, um dia antes de completar 100 anos.
E Lele ficou o último, o guardião, o homem que ainda luta por uma buzina que se calou há quase quatro décadas. Porque no fim a a herança de Chacrinha não foi uma casa de R$ 5 milhões deais, não foi um contrato de 200.000$ por mês, não foi um esquema de jabá de R$ 800.000 em caravanas. A herança foi o silêncio.
O silêncio que veio depois da buzina parou e que durou 32 anos. M.