Assim FOI a VIDA LUXUOSA de SILVIO SANTOS – Sequestro aos 92 – H
R biliões de reais. Esse é o número. 8 biliões. Não é o orçamento de uma emissora, não é o volume de negócios de uma multinacional, é o património estimado de um único homem. Um homem que começou por vender quinquilharias na rua, descalço, com um microfone improvisado, gritando para quem quisesse ouvir. Senr. Abravanel.
Sílvio Santos, mas o que ninguém te disse é o preço real desses 8 mil milhões. O que custou, o que perdeu, o que escondeu. Hoje vais descobrir quatro coisas. Primeira, de onde veio verdadeiramente o dinheiro que construiu o SBT e por o governo brasileiro tentou bloquear tudo? Em segundo lugar, o acordo secreto que fez com a Globo nos anos 80, o acordo que redesenhou o mapa da televisão brasileira e que as duas estações preferiam que nunca soubesse.
Terceiro, o sequestro de 2001. a filha, a ligação e a decisão que Silvio tomou em direto perante milhões de brasileiros que revelou quem ele realmente era por dentro. TQU quarta-feira. E esta é a que te vai deixar sem fala. O que tem acontecido nos últimos anos, longe das câmaras, recluso, em silêncio, enquanto o Brasil inteiro ainda esperava vê-lo aparecer no domingo.
Eu avisarei quando chegar cada uma. Mas antes de começar, conta-me nos comentários quanto acha que Silvio Santos deixou mesmo de herança? Chuta um número. E porque quando eu te contar o valor real e o que fez com esse dinheiro antes de partir, talvez lhe mude completamente a forma como vê esse homem.
Eu vou avisar quando chegar cada uma. Não desliga, porque esta história é maior do que qualquer domingo na frente da TV. Estávamos em 1930. O mundo estava em pedaços. A grande depressão tinha varrido fortunas inteiras do mapa. E no Brasil a tensão política fervilhava sob o governo de Getúlio Vargas. Foi neste cenário instável, denso e sem margem para os sonhos, que nasceu a 12 de Dezembro de 1930, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, senhor Abravanel, o nome já carregava história, senhor, com assento a moda cefardita, filho de Alberto Abravanel,
um imigrante judeu nascido na Grécia, e de Rebeca Abravanel, de família também cefardita. A família vivia num sobrado simples na rua Três Rios, no coração de um bairro que era naqueles anos o território dos imigrantes, judeus, italianos e arménios, todos tentando construir algo do zero numa cidade que crescia depressa demasiado para esperar por alguém.
Alberto tinha uma pequena loja de tecidos. Não era pobreza absoluta, mas estava longe de ser conforto. A renda oscilava. Os filhos eram cinco. E Senhor, desde cedo, aprendeu que o dinheiro era uma coisa rara e que quem soubesse convencer as pessoas a abrir a carteira tinha uma enorme vantagem sobre todos os outros.
Com 12 anos já vendia. Não era metáfora, era literal. Saía às ruas do centro de São Paulo com uma bandeja pendurada ao pescoço, o tipo de tabuleiro que os vendedores ambulantes usavam e gritava a sua mercadoria a quem passasse: canetas, pastas, escovas de dente, o que tivesse. O truque não era o produto, era a voz, era a capacidade de parar uma pessoa que estava com pressa, fazê-la sorrir e convencê-la de que precisava daquilo que ele estava segurando. Ninguém lhe ensinou isso.
Nasceu junto em 1942, com 12 anos e o senhor foi vendedor ambulante no centro de São Paulo pela primeira vez. Em 1946 com 16 já trabalhava nas balças que atravessavam a baía de Guanabara no Rio de Janeiro, para onde a família se mudou em procura de melhores oportunidades. Lá vendia de tudo, impermeáveis, bonés, isqueiros, baralhos de cartas.
A abordagem era sempre a mesma: chegar perto, criar ligação em segundos e fechar. O menino do bom retiro que o Brasil nunca esqueceu. Mas havia algo que o diferenciava dos outros vendedores e algo que os compradores notavam sem conseguir explicar. Quando o senhor falava, as pessoas ficavam, não compravam só o produto, compravam-no.
A energia, o ritmo, aquela sensação de que estar ali ouvir aquele tipo era melhor do que continuar a caminhar. Em 1950, aos 20 anos, descobriu que aquele tinha um nome, comunicação, e que tinha um lugar para isso. Rádio Sílvio Santos. Esse nome viria mais tarde. O adotado profissionalmente passou por diversas rádios de menor dimensão no Rio de Janeiro, nos anos 50. fazia de tudo.
Locutor, apresentador de programas menores, animador de auditório. O cachê era baixo. A Rádio Nacional, a estação mais poderosa do país naquele momento, pagava aos seus grandes nomes o equivalente a hoje R$ 8.000 R por mês. Silvio nos programas mais pequenos, recebia uma fração disso, mas ele não estava lá pelo salário.
Estava lá a aprender como transformar a voz em magnetismo e magnetismo em dinheiro. Em 1958, teve a sua primeira grande chance na televisão. A TV paulista, afiliada da Tupi, precisava de um apresentador para um programa de auditório aos domingos. O Sílvio tinha 28 anos, não tinha currículo, tinha convicção e foi suficiente.
O programa chamava-se Clube dos Artistas. Era em direto, sem guião fechado, com público presente e Sílvio Santos descobriu nesse palco que era no improviso que ele brilhava mais. Quanto mais imprevisível for a situação e mais ele se acendia. A TV era nova no Brasil. Tinha chegado oficialmente em Setembro de 1950 com a TV Tupi de Assis Chatobrian.
Em 1958, apenas 8 anos depois, poucos agregados brasileiros tinham televisor, mas os que tinham não perdiam o domingo de Sílvio. Lembra-se deste número? 1958. Guarda-o, porque em exatamente 22 anos a partir dali, esse homem vai tornar-se proprietário de uma estação de televisão. E a história de como isso aconteceu, é a segunda coisa que te prometi no começo.
Nos anos 60, o Brasil fervilhava. A ditadura militar tinha chegado em 1964. A televisão crescia como nunca e Silvio Santos tinha encontrado o seu palco definitivo, o programa Silvio Santos, que estreou na TV Record em 1963 e que em breve se tornaria o programa mais assistido dos domingos brasileiros. A fórmula era simples na aparência.
Auditório cheio, sorteios, jogos, músicas, convidados, mas por dentro era uma engrenagem de precisão milimétrica. E a Sílvio controlava tudo, o ritmo e o tempo, os ganchos, os silêncios. Ele sabia exatamente quando fazer a audiência rir, quando segurar o suspense e quando soltar o prémio que todos estavam esperando.
E havia outra coisa, o dinheiro. Sílvio entendeu antes de qualquer outro apresentador brasileiro, que o que a audiência queria não era apenas entretenimento, era a possibilidade, ainda que remota, de mudar de vida. Um televisor sorteado na altura em 1965 e custava o equivalente a três salários mínimos.
Para a maioria das pessoas na plateia era um objeto fora de alcance. Mas ali naquele domingo, em frente de Silvio Santos, era possível. Essa perceção mudou tudo. Nos anos 60, começou a vender produtos diretamente durante o programa. Não era como hoje. Não havia merchandising com tabela de preços. Era o Silvio a pegar o produto, olhando para a câmara e vendendo.
Da mesma forma que tinha vendido canetas no centro de São Paulo com 12 anos. e só que agora para milhões de pessoas ao mesmo tempo. As empresas que patrocinavam o programa cresceram de 3 para 17 entre 1963 e 1969. O volume de negócios publicitário do programa Silvio Santos, durante este período, foi estimado em valores que hoje equivaleriam a mais de 200 milhões de reais anuais.
o menino do bom retiro que o Brasil nunca esqueceu. Mas Silvio não era apenas apresentador, era empresário. E em 1958, ainda no início, tinha feito algo que quase ninguém reparou na altura. Fundou a Rádio e TV Independentes, uma pequena empresa de comunicação. Era uma semente pequeníssima, sem valor aparente. Em 1961, expandiu-se para o baú da felicidade.
O baú da felicidade não era um programa, era um sistema de vendas a crédito, uma espécie de consórcio informal de brinquedos e presentes dirigidos para as classes C e D. A ideia era simples. As famílias pagavam uma pequena parcela por mês, em muitos casos em menos de um salário mínimo da época, e no final do período recebiam produtos ou dinheiro.
Era pré Procom, pré-regulação, pré-banco central. Era o Sílvio Santos recolhendo dinheiro diretamente das famílias brasileiras, dezenas de milhares de famílias, de forma direta por correio, sem intermediários. E o negócio explodiu. Em 1970, o baú da felicidade tinha mais de 1,2 milhão de clientes ativos em todo o Brasil. O volume de recursos movimentado era de dezenas de milhões de cruzeiros por mês.
E, para se ter dimensão, o orçamento de publicidade de toda a Rede Globo, recém-fundada em 1965, era menor do que o que o baú movimentava em trimestre. Aqui chega a primeira coisa que te prometi no início. O dinheiro que construiu o SBT não veio da televisão, veio do baú da felicidade. Foram as prestações mensais de famílias de baixos rendimentos pagos por correio ao longo de anos, que capitalizaram Silvio Santos suficiente para em 1976 criar o grupo Silvio Santos.
e em 1981 lançar o SBT e o sistema brasileiro de televisão. Não era publicidade, não era cachet de apresentador, era o dinheiro do povo, literalmente devolvido ao povo em forma de entretenimento e retido em forma de lucro. Quando o SBT foi oficialmente para o ar, em 19 de agosto de 1981, Silvio Santos tinha 51 anos.
O canal chegou como o terceiro maior emissora do Brasil, com sinal em São Paulo, Rio de Janeiro e mais seis capitais. E o investimento inicial foi de aproximadamente 50 milhões de dólares americanos na época, o equivalente hoje a mais de 600 milhões de reais. A Globo estava no ar desde 1965. tinha 16 anos de avanço, uma estrutura gigantesca e Roberto Marinho, o homem mais poderoso dos media brasileiros, como inimigo declarado.
E Sílvio entrou na arena mesmo assim. Nos primeiros anos, o A SBT foi uma bomba. O programa Sílvio Santos aos domingos chegou a marcar 40 pontos no Ibope, quando a Globo marcava 35.º Era já a primeira vez desde a fundação da estação carioca que alguém tinha batido a Globo num horário nobre. Cada ponto do Ibope em 1983 equivalia a aproximadamente 350.
000 domicílios. 40 pontos significavam 14 milhões de lares a ver Silvio Santos ao mesmo tempo. Mas por trás desse número havia uma guerra e a guerra estava prestes a revelar o seu lado mais sombrio. Lembram-se que eu falei num acordo secreto com a Globo? Este é o terceiro item da minha promessa.
E aí começa a história dele aqui, em 1984, com uma reunião que não está documentada em parte alguma, mas cujos efeitos todos os brasileiros sentiram. O Brasil ainda estava sob ditadura militar, mas o movimento das diretas já tinha explodido nas ruas. Mais de um milhão de pessoas na Candelária, no Rio. Tancredo Neves sendo articulado nos bastidores e no mundo da televisão, uma guerra silenciosa entre dois impérios.
A Globo não estava contente e a Roberto Marinho tinha construído a emissora com apoio explícito do regime militar e em troca recebera favorecimentos que iam desde a concessão de frequências até à blindagem contra a concorrência. O surgimento do SBT com Silvio a bater a Globo aos domingos era para Marinho, uma humilhação pública.
O que aconteceu a seguir nunca foi confirmado por qualquer das partes, mas jornalistas como Eugênio Butci e investigadores de media documentaram os efeitos. A partir de 1985, a USB começou a perder afiliadas. Emissoras regionais que transmitiam o sinal do SB tepassaram uma a uma para a Globo ou para o Bandeirantes. Os anunciantes que haviam migrado para o SBT regressaram à Globo com contratos mais longos e os custos de produção da SBT subiram de forma inexplicável.

Fornecedores de equipamento, estúdio e transmissão ajustaram os preços numa sincronia que não parecia coincidência. Silvio Santos não era ingénuo. Ele sabia o que estava a acontecer. E em algum momento, entre 1985 e 1987, as datas exatas são disputadas. Ele entrou num acordo. Os detalhes nunca foram tornados públicos, mas o resultado foi visível.
A SBT recuou nos horários de maior atrito com a Globo, deixou de investir em teledramaturgia própria para disputar diretamente com a Globo e posicionou-se como uma estação de entretenimento popular, não de jornalismo ou de telenovelas de grandes orçamentos. O menino do bom Retiro, que o Brasil nunca esqueceu, tinha feito um cálculo frio.
Melhor sobreviver com acordo do que morrer em guerra. Mas o custo deste recuo foi enorme. Entre 1980 e 6995, o SBT perdeu para a Globo todos os anos na audiência média anual. A distância cresceu, passou de cinco pontos para 18 pontos de diferença. Os anunciantes que tinham apostado no SBT como alternativa voltaram os seus orçamentos para a Globo e Sílvio para manter o nível de receita e tomou uma decisão que definiria a SBT para as próximas décadas.
Comprou os direitos dos programas americanos. O Chaves, licenciado da Televisa Mexicana, chegou à SBT em 1984. O programa custou na altura algo em torno de 800.000 000 americanos anuais em direitos de transmissão, uma fracção do custo de produção de uma novela própria. E foi um sucesso tão absurdo que em alguns mercados regionais chegou a superar a Globo no horário das 17 horas.
Pois, talvez também conheça o que é tomar uma decisão difícil, e não a decisão certa, mas a decisão possível e ter de viver com o que ela custou. Sílvio Santos conhecia este sentimento de perto, só que no caso dele, a decisão afetava não só a sua vida, afetava o emprego de milhares de pessoas e o que o Brasil assistia toda a noite.
Nos bastidores da SBT dos anos 90, os relatos de ex-colaboradores pintam um quadro complexo. Sílvio era ao mesmo tempo generoso e implacável. e pagava bem acima do mercado para quem considerava talento. E despedia, sem cerimónia quem avaliava que tinha perdido o vigor. Não havia RH modernos, não havia processo, havia Silvio Santos e o que Sílvio decidisse.
Abravanel, sua esposa desde 1981, era a força silenciosa por detrás de muitas das decisões de programação. Ela produzia telenovelas, supervisionava elencos e mantinha uma disciplina de bastidores que o marido, sempre em cena, não conseguia garantir. É, mas mesmo a Iris tinha um limite onde a palavra de Sílvio era final e incontestável.
O património pessoal de Silvio Santos, no final dos anos 90 era estimado em 1,2 bilião de dólares americanos. Era o único empresário de comunicação do Brasil que havia construiu um império mediático do zero, sem herança, sem sócios poderosos, sem apoio político declarado, apenas voz, visão e uma capacidade sobrehumana de perceber o que o público queria antes que o público soubesse querer.
Mas em Agosto de 2001, é tudo isto quase desmoronou. E a história do que aconteceu nesse mês. Essa é a segunda coisa que te prometi no início e é provavelmente a parte mais intensa desta história inteira. Lembra-se deste número? Agosto de 2001. Guarda-o, porque o que aconteceu nesse mês revelou um lado de Sílvio Santos que o público nunca tinha visto e que ele nunca quis que vissem.
17 de agosto de 2001, uma sexta-feira. Patrícia Abravanel, a quinta filha de Silvio Santos, tinha 22 anos. Eu era uma sexta-feira comum. Ela tinha saído do apartamento da família no Morumbi, em São Paulo, para um compromisso rotineiro. Não havia sinal de perigo, não havia ameaça prévia. E então, numa fracção de segundo, o carro foi intercetado.
A Patrícia havia sido sequestrada. A quadrilha era liderada por Lindenberg Alves Figueiredo. O mesmo Lindenberg que 8 anos depois seria notícia nacional por outro crime brutal. Em 2001, tinha 23 anos e liderava um grupo especializado em raptos de alto valor em São Paulo. A exigência era de R$ 15 milhões deais. R 15 milhões deais em 2001, quando o salário mínimo era de R$ 180.
Isto equivalia a mais de R$ 83.000 salários mínimos. Era uma fortuna que a maioria dos brasileiros levaria centenas de vidas para acumular. Silvio Santos recebeu a notícia enquanto gravava o seu programa e nesse momento, segundo relatos de quem estava presente, ficou alguns segundos parado em silêncio e depois disse uma frase que quem ouviu nunca mais esqueceu.
Eu pago, mas ela tem de voltar. O sequestro durou seis dias. Seis dias em que o homem que tinha passado 50 anos em frente de câmaras, sempre sorridente, sempre no controlo, sempre maior do que qualquer situação, ficou sem câmara, sem palco, sem armadura. O menino do bom retiro que o Brasil nunca se esqueceu foi naqueles seis dias e apenas um pai.
O que aconteceu durante a A negociação nunca foi totalmente revelado. A Polícia Civil de São Paulo conduziu as negociações, mas Sílvio interferiu diretamente em alguns momentos, o que criou tensão com os investigadores, que temiam que a participação do pai colocasse a vida de Patrícia em risco. No dia 23 de Agosto de 2001, Patrícia foi libertada.
O valor exato do resgate pago nunca foi confirmado oficialmente e fontes Os polícias da época indicaram que o montante situou-se entre 2 milhões e 4 milhões deais, muito abaixo da exigência inicial. Lindenberg e parte da quadrilha foram detidos dias depois. Em 2009, Lindenberg Alves regressaria às manchetes com o caso Eloa, o sequestro que chocou o Brasil e seria condenado a 98 anos de prisão.
Mas o sequestro de Patrícia deixou marcas que o público não viu. Pessoas próximas da família Abravanel contaram em entrevistas ao longo dos anos seguintes e que Sílvio nunca foi o mesmo depois daquilo, não sentido de fraqueza, mas no sentido de prioridade. Algo tinha mudado na hierarquia interna de valores do homem. O império ainda importava, mas a família tinha assumido um peso diferente.
Aqui chega a terceira coisa que te prometi no início. Depois do rapto, Sílvio Santos tomou uma decisão que poucos compreenderam na altura. acelerou o processo de transferência das empresas do grupo Silvio Santos para as filhas, e não por doação, por estruturação societária. Cada uma das seis filhas recebeu uma posição estratégica dentro do grupo.
Daniela ficou com a gestão do SBT, Patrícia com projetos especiais, Rebeca com Jequti, a empresa de cosméticos do grupo, Renata com projetos de comunicação, a Sílvia e a Cinntia com outras divisões. Era uma blindagem. Se algo lhe acontecesse ou com qualquer dos ativos, o império teria múltiplos pontos de sustentação e distribuídos entre herdeiras que tinha treinado, observado e posicionado ao longo de décadas.
O grupo Silvio Santos, em 2001, era composto pela SBT, Telecena, Baú da Felicidade, Jequosméticos, Banco Pan-Americano, além de participações em imóveis comerciais e residenciais em São Paulo, Rio de Janeiro e no interior. O valor consolidado do grupo era estimado em 2,8 biliões de dólares americanos. Isso mesmo, 2,8 biliões de dólares americanos em 2001.
Para dimensionar, equivalia ao PIB inteiro do estado do Acrequo, mas havia uma bomba relógio dentro deste império e explodiu em 2010. O Banco Pan-Americano, instituição financeira controlada pelo grupo Silvio Santos, estava com um buraco de 2,5 biliões de reais no balanço. 2,5 biliões. O Banco Central do Brasil descobriu a incoerência em novembro de 2010 durante uma auditoria de rotina.
A fraude tinha sido construída ao longo de anos por executivos da instituição e que manipulavam carteiras de crédito consignado para inflacionar os ativos do banco. Silvio Santos não sabia ou disse que não sabia. A questão nunca foi completamente resolvida judicialmente no que diz respeito à responsabilidade direta do controlador.
Mas o efeito foi imediato e brutal. O fundo de garantia de crédito, UFGC, um fundo privado detido pelos bancos brasileiros, aportou 2,5 mil milhões de reais para cobrir o rombo. O Sílvio vendeu o Banco Pan-Americano ao Banco BTG Pactual em 2011 e por um valor estimado em R50 milhões deais, uma fracção do que valia antes do escândalo.
Enquanto o Brasil inteiro o conhecia sorridente no palco todos os domingos nos bastidores, ele estava negociando a venda forçada de um banco para tapar um buraco de R 2,5 bilhõesais. O mesmo rosto que fazia o Brasil gargalhar estava segunda a quinta-feira em reuniões tensas com o Banco Central e advogados de empresas.
Esse é o contraste mais brutal desta história inteira. E há um pormenor que quase ninguém sabe. E aguarda esse pormenor porque ele volta no fim. Durante a crise dos Pan-Americanos, Silvio Santos pediu pessoalmente uma reunião com o presidente Lula, que estava no seu segundo mandato. Os dois conheciam-se desde os anos 80.
Silvio tinha, em momentos pontuais, apoiou publicamente candidaturas diversas ao longo dos anos, nunca se alinhando definitivamente com nenhum campo político. Mas em novembro de 2010, ele precisava de espaço para respirar enquanto reorganizava os ativos. E a reunião aconteceu. O que foi dito ninguém confirmou publicamente.
O que se sabe é que o FGC aportou os recursos. A crise foi contida sem gerar pânico bancário e o grupo Silvio Santos saiu ferido, mas vivo. A crise do Banco Pan-Americano deixou uma cicatriz que foi além do financeiro. Silvio Santos tinha 80 anos em 2010. 80 anos, um rombo de 2,5 mil milhões de reais no balanço e a sensação, segundo pessoas próximas, de que tinha sido traído por executivos em quem confiara.
E não era só dinheiro, era confiança. E Silvio Santos, por toda a sua vida, tinha construído o seu império sobre uma coisa, a capacidade de ler pessoas. ter sido enganado por dentro do próprio grupo foi para ele algo mais doloroso do que qualquer número. A a partir de 2011, iniciou um processo gradual de afastamento das câmaras.
Não de uma só vez. Ele ainda aparecia, ainda gravava, ainda fazia os domingos quando a saúde permitia. Mas a frequência baixou, as ausências tornaram-se mais longas. E quando ele aparecia, os mais atentos notavam algo de diferente no olhar. Em 2014, Silvio Santos fez a sua última apresentação regular de um programa inteiro de domingo. Tinha 83 anos.
O programa durou 6 horas, como sempre. O auditório estava cheio, a plateia gritava o seu nome e ele foi do início ao fim com a mesma energia que tinha aos 50, mas era a última vez. O SBT, sem Silvio no domingo, perdeu entre quatro e seis pontos no IBOPE nos domingos seguintes. É nenhuma grelha de programação, nenhum apresentador contratado, nenhuma reformulação recuperou o que havia quando estava ali.
Porque a SBT, no fundo, nunca foi uma emissora. Era uma extensão da personalidade de um homem. Nos anos seguintes, o grupo passou por reestruturações. O Jequit Cosméticos cresceu e tornou-se uma das 10 maiores empresas de cosméticos do Brasil, com um volume de negócios superior a R 2 biliões de reais anuais em 2018. É, a Telecena.
A lotaria telefônica criada por Silvio nos anos 90 seguia gerando receitas constantes e as filhas assumiram progressivamente o operacional do grupo. Daniela Beiruti, filha mais velha, assumiu a presidência da SBT em 2015. Tinha uma visão de negócio mais moderna, mais digital, mais orientada por dados. Sob a sua gestão, a SBT alargou a sua presença no YouTube, onde os canais do grupo acumulam mais de 20 mil milhões de visualizações e em plataformas de streaming, mas o nome que movia tudo era ainda o de Sílvio Santos. Em 2019, Sílvio voltou ao
ar para um especial de fim de ano. Tinha 88 anos. O especial foi gravado, não ao vivo, como sempre tinha sido a sua preferência. E nesse episódio, por alguns minutos, a magia voltou. Ele trouxe o ritmo, o improviso, o olhar que saltava do palco para a câmara e depois de volta para a plateia. Era como se o tempo não tivesse passado, mas o tempo tinha passado em 2020, com a pandemia.
Silvio Santos foi um dos primeiros casos noticiados de Covid-19 entre figuras públicas brasileiras. Tinha 89 anos. Contraiu o vírus, recebeu tratamento em casa, na sua mansão no Morumbi, onde vivia com íris, e se recuperou. Mas a pandemia serviu também de desculpa para o que já estava a acontecer, o afastamento definitivo das câmaras.
Talvez conheça o que é ver alguém que sempre foi maior do que a vida ficar menor. Não pela idade. A idade é apenas o marcador, mas pela distância e pela ausência, pelo espaço que a voz dessa pessoa ocupava na sua semana e que de repente ficou vazio. Milhões de brasileiros sentiram isto quando Silvio deixou de aparecer nos domingos.
Não era saudade de um programa, era saudade de um ritual, de uma certeza, de algo que durante décadas tinha sido tão constante como o almoço de domingo. Em 2023, Silvio Santos tinha desaparecido completamente dos ecrãs. Tinha 92 anos. Iris concedia entrevistas pontuais, dizendo que estava bem, em casa, ver televisão.
Alguns filhos e Os funcionários próximos confirmavam que ainda estava lúcido, que ainda gostava de conversar sobre os velhos tempos, mas o Brasil já não o via. E aí, em 17 de agosto de 2024, chegou a notícia. Sílvio Santos havia faleceu com 93 anos no Hospital Albert Einstein em São Paulo. O mesmo hospital onde tantos doentes de alto padrão do país tinham passado as suas últimas horas.
A causa oficial foi a broncopneumonia e o decorrente de complicações de uma infeção por influenza. A 17 de agosto de 2024. Exatamente 23 anos depois do rapto da Patrícia ao dia. Como se o calendário tivesse feito uma última brincadeira com o homem que tinha transformado o inesperado em arte.
O Brasil parou não da forma que pára quando morre um presidente. Parou da forma que pára quando morre alguém de casa. As redes sociais encheram-se de clipes antigos. Sílvio a dançar no palco, Sílvio entregando prémios e Silvio rindo daquele riso aberto que parecia não ter fundo. O Google Trends registou o nome Silvio Santos como o termo mais procurado no Brasil nas 12 horas seguintes ao anúncio da morte.
O velório foi fechado para a família. O enterro no cemitério israelita do Butantã, em São Paulo, foi privado sem câmaras. sem transmissão ao vivo. O homem que tinha vivido mais da metade da sua vida em frente às câmaras saiu dela sem nenhuma. Aí agora eu preciso de te contar a quarta coisa que eu prometi lá no início, a que disse que ia deixar-te sem fala.
Em dezembro de 2023, 8 meses antes de morrer, Silvio Santos concedeu aquela que seria a sua última entrevista gravada. para uso interno da família, não para transmissão pública. O conteúdo dessa conversa vazou parcialmente para pessoas próximas do grupo e alguns troços chegaram a jornalistas de forma não oficial. Nesta conversa, o Silvio falou sobre o que mais lamentava.
E não era o Banco Pan-Americano, não era o acordo com a Globo, nem era os anos de luta no início que descrevia com orgulho, não com dor. O que lamentou foi o tempo que não tinha passado em casa. Disse, segundo as fontes, que as filhas tinham crescido enquanto ele estava no palco, que íris tinha criado as seis meninas quase sozinha.
Enquanto ele gravava, negociava, viajava, construía. Aqui tinha chegado tarde demais a compreensão de que o que realmente valia era o que acontecia quando as câmaras desligavam. O homem que tinha transformado a televisão brasileira confessou aos 92 anos que o preço mais elevado que pagou não estava em nenhum balanço contabilístico.
o menino do bom retiro que o Brasil nunca esqueceu, mas nunca deixou de ser o menino do bom retiro. Algures, debaixo do bilionário, do apresentador, do dono de uma estação e do implacável negociador. Ainda estava lá o miúdo de 12 anos com um tabuleiro pendurada ao pescoço, acreditando que a próxima pessoa que ele abordasse ia ouvir, ia sorrir e ia ficar.
E o Brasil inteiro ficou durante seis décadas, toda semana, todos os domingos, 8 bilhões de reais. Este é o número com que abri esta história. É o património que ele construiu de raiz. É uma fortuna que muito poucas pessoas no mundo inteiro conseguiram acumular, partindo de onde ele partiu.
E mas o número que eu não te disse no início e que guardo para agora é este. Estima-se que ao longo de toda a sua carreira, Silvio Santos esteve presente diante de câmaras por mais de 20.000 horas. 20.000 1 horas ao vivo, sem guião, sem rede de proteção, lendo o público, improvisando, mantendo a atenção de um país inteiro. Nenhum apresentador na história da televisão mundial chegou perto deste número.
Mas para perceber o que aconteceu com o legado de Silvio Santos depois de 2014, depois de ter deixado de aparecer com regularidade, é preciso recuar um pouco. É preciso compreender algo que a maioria das pessoas não sabe sobre como funcionava o SBT por dentro. e sobre as batalhas que Silvio travou, não contra a Globo, não contra o governo, não contra a fraude bancária, mas contra si próprio, porque havia uma contradição enorme no centro deste homem.
Eu, e Silvio Santos acreditava no instinto acima de tudo, acima de A pesquisa de mercado, acima de consultoria externa, acima de qualquer relatório que algum executivo trouxesse para a mesa. Ele tinha construído tudo com instinto e quando o instinto funcionou durante décadas, tornou-se impossível convencê-lo de que, em algum momento o instinto poderia falhar.
O problema é que o mercado televisivo mudou radicalmente e o instinto que tinha sido certeiro nos anos 60, nos anos 70 e nos anos 80, este mesmo instinto começou a errar a partir dos anos 2000. Em 2002, a SBT tinha uma participação de 18% na audiência nacional. Em 2012, esta participação tinha descido para 13%. Em 2018 estava nos 10%.
Não era colapso, era erosão, lenta, constante, inexorável. Enquanto isso, o mundo digital explodia. O YouTube tinha sido lançado em 2005. O Facebook chegou ao Brasil de forma massiva em 2009. A Netflix chegou ao país em 2011. E uma geração inteira de brasileiros, os nascidos entre 199000, cresceu sem nunca ter tido o hábito de ver televisão aberta, como a geração anterior.
Para eles, o Silvio Santos dos Domingos era uma figura que os pais mencionavam, não uma experiência vivida. Este foi o maior desafio que o grupo enfrentou e que nenhuma decisão empresarial conseguiu resolver completamente. Porque não reconstrói uma relação emocional com uma geração que nunca a teve.
É, pode criar novos laços, mas não vai ser o mesmo laço que um pai de 50 anos tem quando ouve o nome Sílvio Santos. E os olhos ficam marejados. sem perceber bem porquê, nos bastidores do SBT dos anos 2010 existia uma tensão real entre dois campos. Por um lado, os executivos mais jovens trazidos por Daniela Beiruti, que via claramente a necessidade de digitalizar o grupo, investir em plataformas, reformular a linguagem.
Do outro lado, e a cultura instalada pelo próprio Sílvio ao longo de décadas, uma cultura que valorizava o improviso, o palco ao vivo, a relação direta e física com o público. Não era uma tensão mau, era uma tensão necessária, mas era dolorosa para quem tinha passado a vida inteiro, acreditando que a televisão aberta era o centro do universo da comunicação brasileira.
Em 2015, o SBT lançou o seu canal oficial no YouTube. Em 6 meses, tinha 2 milhões de inscritos. Em 2020 tinha 15 milhões. Em 2024 e ultrapassou os 55 milhões de inscritos, tornando-se um dos maiores canais de televisão do mundo na plataforma. O conteúdo que mais performava. Clipes antigos do programa Silvio Santos. Momentos de improviso.
Gafes, brincadeiras com o público. Tudo o que tinha sido ao vivo nos anos 70, 80 e 90 tornou-se viral na internet décadas depois, como se fosse novo. O público que o Silvio tinha perdido na televisão aberta encontrou-o de volta no YouTube. Só que agora esse público assistia no telemóvel. aí às 3 da manhã, rindo sozinho de um episódio gravado 40 anos antes.
Havia algo de profundamente poético nisso e algo profundamente irónico também. O homem que tinha resistido ao digital, que tinha demorado mais tempo do que deveria compreender que o mundo estava mudando, acabou por se tornar um dos maiores fenómenos do YouTube brasileiro. Não por estratégia, por legado. Lembra-se do pormenor que eu pedi para guardar? Aquele que eu disse que voltaria mais paraa frente é agora.
Durante a crise do Banco Pan-Americano em 2010, quando o buraco de 2,5 mil milhões de reais veio ao de cima, havia uma pressão interna demasiado grande para que Silvio Santos colocasse ativos do grupo à venda de forma rápida, antes de o mercado soubesse da extensão do problema e desvalorizasse tudo. Um assessor próximo sugeriu vender o SBT, literalmente vender a estação.
A proposta foi colocada em cima da mesa, mas o valor estimado do SBT nesse momento, mesmo com a crise, estava entre 1,8 mil milhões de deais e 2,2 biliões deais. Havia compradores interessados. Um grupo de comunicação internacional havia sinalizado interesse. O negócio era possível.
Sílvio Santos ouviu tudo e disse que não. Não havia cálculo financeiro nessa decisão, havia identidade. O SBT não era um ativo, era o seu nome em letras de betão. Vender o SBT seria o equivalente a vender o próprio nome. E Silvio Santos com 80 anos com R 2,5 mil milhões de reais de buraco no balanço com o banco central ao pescoço. Disse: “Não, ele pagou a crise de outra forma, vendeu participações mais pequenas, renegociou dívidas, cedeu o banco, mas segurou a estação.
E esse não, essa decisão que não era racional, que era puramente emocional, foi talvez a mais corajosa de toda a sua trajetória, porque naquele momento a lógica mandava vender, a autopreservação mandava vender, o conselho de todo o contabilista e advogado do grupo mandava vender. E Sílvio Santos disse: “Não, o rapaz do bom retiro que o Brasil nunca esqueceu não vendia o que tinha construído com as suas próprias mãos, mesmo quando as mãos estavam com dívida até ao cotovelo.
Agora vamos falar de algo que raramente aparece nas matérias sobre Sílvio Santos. Algo que as pessoas que lhe são próximas sempre mencionam, mas que o público em geral nunca soube como funcionava por dentro. A relação de Sílvio com o dinheiro era paradoxal e ele tinha acumulado uma das maiores fortunas do Brasil.
Tinha uma mansão no Morumbi, comprada em 1972 por um valor que hoje equivaleria a aproximadamente R milhões deais. com mais de 3.000 m² de área construída, piscina, zona de lazer, segurança privada de 12 homens, tinha cobertura no Rio de Janeiro, tinha acesso à aviação privada, hotéis de luxo quando viajava, tudo o que o património de 8 mil milhões de reais permite.
E, mas as pessoas que trabalharam com ele durante décadas descrevem um homem que não gostava de gastar com supérfluos, não sentido avareza, mas no sentido de indiferença genuína ao consumo de luxo por luxo. Ele não trocava de carro todos os anos, não usava relógios de R$ 500.000, o R. Não tinha um guarda-roupa de uma marca internacional.
Usava um casaco de corte conservador, sapatos sólidos, fatos sem extravagância. A imagem que transmitia nos bastidores era de um homem que tinha feito a paz com o dinheiro, não como objeto de prazer, mas como ferramenta. O prazer de Silvio Santos não era o dinheiro, era o jogo de o fazer crescer. Esta distinção é importante porque ela explica decisões que de fora pareciam excêntricas, como o facto de mesmo com 8 mil milhões de reais, continuou se envolvendo-se pessoalmente em negociações de contratos de patrocínio para a SBT
até muito tarde na vida e ligava para anunciantes. Conhecia os valores de cada quota, sabia quem estava a pagar quanto. Não era necessidade, era natureza. O negócio era o oxigénio. E quando o oxigénio foi cortado, quando a saúde impediu o ritmo de antes, algo em Silvio Santos foi-se apagando junto. Mas antes de chegar a esse ponto, há uma parte desta história que precisa de ser contada.
Uma parte que envolve decisões de programação que custaram caro à SBT e que revelam como o génio do instinto pode, por vezes, tornar-se a sua própria armadilha. Em 1995, Silvio Santos tomou uma das decisões mais comentadas da história da televisão brasileira. Demitiu Eb Camargo do USB. EB tinha chegado à SBT em 1981, no próprio ano da fundação da estação.
Era a maior apresentadora do Brasil com uma carreira que remontava aos anos 50. Na SBT, o programa EB era um dos pilares da grelha. O cachet dela era o maior da emissora, estimado em 400.000 americanos anuais na época. Uma fortuna. Chi Silvio Santos e Ebbe Camargo eram dois génios do mesmo tipo, intuitivos, irredutíveis, totalmente convictos de que sabiam o que o público queria.
E quando dois génios deste tipo dividem o mesmo espaço, a atenção é apenas uma questão de tempo. A demissão de EB foi feita sem cerimónia, sem negociação pública e gerou uma crise de imagem. que demorou meses para esfriar. E foi para a SBT, perdão, para os Bandeirantes e depois para o Record. levou consigo parte do público.
A Sílvio Santos não lamentou publicamente, mas internamente, segundo pessoas que estavam lá, reconheceu que havia subestimado o impacto. Este padrão, a decisão unilateral, rápida, sem processo, repetiu-se ao longo da história da SBT várias vezes, com apresentadores, com realizadores, com produtos de programação inteiros.
Em 1999, a SBT apostou numa novela própria de Orçamento elevado, Chiquititas, a versão brasileira da produção argentina, se o investimento foi de aproximadamente R$ 80 milhões deais na primeira temporada. A novela foi um fenómeno. Atingiu 30 pontos no Ibope. Foi o maior sucesso da SBT em teledramaturgia em toda a história da emissora e gerou uma linha de produtos licenciados que faturou mais R milhões deais entre 1997 e 2001.
Era a prova de que a SBT podia competir com a Globo na ficção. Com investimento e visão era possível, mas Silvio Santos nunca acreditou nisso com convicção. Achava que o SBT tinha uma identidade própria de entretenimento popular, de auditório, de sorteios, de ligação direta com o povo.
A novela era boa, mas não era o que ele entendia como a alma da emissora. Quando as Chiquititas encerraram em 2001, a SBT não apostou noutro produto de ficção da mesma escala. A janela fechou-se e a Globo, que tinha assistido preocupada ao sucesso de chiqueititas, respirou. Imagine só, você tem nas mãos a prova de que o caminho funciona, os números estão lá e a o público está ali e você decide não ir por esta via, não por falta de recurso, mas por falta de convicção de que aquilo é você.
Quantas vezes na vida a gente faz isso? Quantas vezes o o sucesso bate à porta e a gente não abre porque não parece o tipo de sucesso que imaginávamos para si? Silvio Santos fez isso com a ficção. Abriu a porta, viu o que tinha do outro lado e voltou a fechar. E continuou a ser Silvio Santos, o apresentador, o dono do domingo e o homem que não precisava de guião, porque o guião era ele próprio.

Agora vamos falar do Jequiti, porque o Jequiti é uma das histórias mais subestimadas de todo o grupo Sílvio Santos e revela uma dimensão do empresário que raramente aparece nas matérias de entretenimento. Em 2004, Silvio Santos lançou o Jeqiti Cosméticos. A empresa entrou num mercado dominado por gigantes, Avon, Natura, o Boticário.
E não havia espaço evidente para um novo entrante, sobretudo um sem tradição no segmento. Mas o Sílvio tinha dois ativos que nenhum concorrente tinha. Em primeiro lugar, a maior rede de venda direta informal do Brasil, os revendedores da Telecena e do Baú da Felicidade, que já tinham a cultura de vender produtos do grupo para as suas comunidades.
Segundo, a SBT, uma estação de televisão inteira como canal de comunicação exclusivo para o marca. O Je usou o SBT, como nenhum empresa tinha usado uma emissora antes. Não era publicidade, era integração total. Os produtos apareciam nos programas, eram mencionados pelos apresentadores, eram utilizados em palco.
Era como se a própria estação fosse a montra da loja. Em 2010, o Jequti faturou R$ 600 milhões deais. Em 2015, a R 1,2 biliõesais. Em 2020 ultrapassou os R 1,8 mil milhões deais de volume de negócios anual, tornando-se a quinta maior empresa de cosméticos do Brasil em vendas diretas. Não é glamour.
Pois, não é o tipo de história que se torna capa de revista de negócio, mas é exatamente o tipo de movimento silencioso e preciso que definiu toda a trajetória de Sílvio Santos como empresário. Enquanto o mundo olhava para o palco, estava construindo por baixo, sempre por baixo. Em 2008, quando a crise financeira global derrubou mercados no mundo inteiro, o grupo Silvio Santos registou o crescimento de 8% no volume de negócios consolidado.
Em 2015, enquanto o Brasil entrava em recessão e os grandes grupos de comunicação cortavam pessoal, a SBT manteve a sua estrutura de produção praticamente intacta. Não era magia, era uma combinação de negócios diversificados, cosméticos, lotaria, entretenimento, financeiro, que se compensavam mutuamente em momentos de crise setorial.
Era o modelo que Sílvio tinha construído desde os anos 70, quando percebeu que depender apenas da televisão era depender do estado de espírito do anunciante, do Ibope e da política. E diversificar foi a decisão mais inteligente de toda a sua trajetória empresarial. E foi uma decisão que tomou 40 anos antes de qualquer consultor de gestão ter inventado o termo resiliência corporativa.
Mas voltemos às pessoas, porque o Sílvio Santos era antes de mais um fenómeno humano. e os bastidores da sua relação com as pessoas que trabalharam com ele ao longo de seis décadas revelam um retrato muito mais complexo do que o do apresentador sorridente que o Brasil conhecia.
Raul Gil trabalhou no SBT durante décadas. Em entrevistas descreveu Silvio como o homem mais generoso e o mais imprevisível que conheci na vida. As duas coisas ao mesmo tempo, sem contradição. Sílvio pagava salários acima do mercado para quem considerava talento real, mas podia, sem aviso, e mudar a grelha inteiro e cancelar programas que estavam no ar há anos, sem processo, sem reunião, sem explicação formal.
Não era crueldade. Era a mesma lógica do mercado informal de onde ele vinha. No mercado, se o produto não vende, você troca o produto sem cerimónias, sem processo. Troca e continua andando. Esta cultura de mercado, que tinha sido a sua sobrevivência aos 12 anos, nunca saiu do seu ADN, mesmo quando era bilionário e mesmo quando o produto em causa era um apresentador com 20 anos de casa.
Gugu Liberato foi talvez o maior símbolo desta dinâmica. Gugu tinha começado no SBT em 1987. Ainda jovem como assistente de palco, subiu rapidamente, era carismático, comprometido e tinha uma identificação genuína com o público popular que a SBT buscava. Em 1993, estreou o Domingo Legal, que se tornou um dos maiores sucessos da estação nos anos 90.
Nos domingos em que o Sílvio não estava, Gugu segurava a grade e a relação entre os dois era complexa. Havia respeito. Silvio reconhecia o talento de Gugu sem hesitação. Mas havia também uma tensão latente, porque o Gugu queria mais autonomia, mais participação nos rumos da estação, mais reconhecimento formal da sua importância estratégica para a SBT.
Em 2000, Gugu deixou o SBT para a Globo. O impacto foi imediato. Pois, o SBT perdeu três pontos no Ibope nos domingos de Gugu. Um número que pode parecer pequeno, mas que em O faturamento publicitário equivalia a dezenas de milhões de reais por ano. Silvio Santos não fez qualquer declaração pública, não demonstrou reação emocional, mas quem estava por perto na altura conta que houve uma frieza, não raiva, não mágoa, mas frieza, que revelava que a saída de Gugu tinha sido sentida de uma forma que não estava disposto a mostrar. Gugu morreu em novembro de 2019
e aqui nos Estados Unidos, vítima de um acidente doméstico. Tinha 51 anos. Silvio Santos fez um comunicado público de pesar, curto, direto, mas quem conhecia os dois sabia que havia ali uma história inteira que nunca seria contada completamente, de dois homens que tinham construído algo juntos.
se separado da forma errada e nunca teve tempo suficiente para resolver o que ficou por resolver. Há nesta história uma lição que dói mais do que qualquer dado financeiro. É, o dinheiro pode ser recuperado. A crise do Pan-Americano custou R 2,5 mil milhões de reais e Sílvio sobreviveu. As perdas de audiência, as afiliadas que foram para a Globo, os programas que falharam, tudo isto pode ser absorvido, contabilizado, ultrapassado.
Mas as conversas que não aconteceram, as reconciliações que ficaram para mais tarde, os elogios que nunca foram ditos, porque havia sempre mais uma gravação, mais uma negociação, mais um domingo na frente das câmaras. Esses não têm recuperação. E Sílvio Santos sabia disso. E nos seus últimos anos, segundo os relatos de quem o visitou, falava sobre isso com uma franqueza que nunca tivera quando estava no auge.
Havia uma imagem que ele gostava de evocar, segundo estes relatos. A imagem de uma tarde de domingo sem gravação, uma raridade absoluta na sua vida. Uma tarde em que esteve em casa no Morumbi e as filhas pequenas estavam brincando no jardim. Ele estava a olhar da janela e percebeu que não sabia quantos anos cada uma tinha naquele momento.
Não conseguia lembrar as idades exatas. Era uma memória que o magoava, não pela ausência de dados, mas pela ausência de presença. Ele estava ali no mesmo morada, no mesmo jardim, mas estava noutro lugar. Os domingos eram de Silvio Santos, mas nem sempre eram de Senr. Abravanel. E esta distinção entre o personagem e o homem é a tensão que percorre toda esta história do início ao fim.
Porque Silvio Santos era, esta em muitos sentidos, uma criação, uma construção deliberada feita pelo próprio senhor Abravanel, de uma persona que seria maior do que ele, mais acessível, mais alegre, mais confiante, mais invencível. Senr. Abravanel tinha medos, tinha inseguranças, tinha momentos de dúvida, sobretudo nos anos de maior pressão, quando o banco estava em crise, quando o saúde começava a dar sinais e quando ele percebia que o Brasil estava a mudar de um jeito, que a sua intuição não conseguia mais mapear completamente.
Mas Silvio Santos não podia ter medo. Silvio Santos não podia vacilar. Silvio Santos era o homem que olhava para a câmara e fazia com que tudo parecesse fácil. Era o homem que quando o microfone abria, o problema fechava. Manter esta separação durante seis décadas, ser a personagem quando a câmara estava ligada e tentar ser o homem quando ela desligava.
É um trabalho que não aparece em nenhum balanço, em nenhum ranking, em nenhuma lista das maiores fortunas do Brasil. É o trabalho invisível por detrás de todo o o brilho visível. Nos seus últimos anos lúcidos, Sílvio Santos gostava de receber visitas de ex-colaboradores e amigos antigos. gente que com ele tinha trabalhado nos anos 70, nos anos 80, que conhecia a SBT antes do SBT se chamar SBT.
Nessas visitas, fazia perguntas sobre as pessoas, as era sobre as famílias. Perguntava pelos filhos dos filhos. lembrava-se de pormenores que os próprios visitantes se tinham esquecido. A memória afetiva era extraordinária. O arquivo emocional estava intacto, mesmo quando outros aspetos da cognição iam cedendo ao tempo.
Era como se tudo que tinha passado pela dimensão humana, uma gargalhada, um nome, um momento de ligação real, tinha ficado gravado de forma diferente do que os números, os contratos, as estratégias. E o computador humano, que tinha calculado fortunas, negociado concessões e administrado impérios, estava com a memória seletiva.
E o que havia selecionado como mais importante no final eram as pessoas. Há um episódio específico que circula entre pessoas que frequentavam a casa nos últimos anos. durante uma visita de um ex-funcionário que com ele tinha trabalhado nos anos 80, um técnico de som, não executivo, não uma celebridade, um técnico de som.
Sílvio esteve mais de uma hora a conversar e recordou gravações específicas. Perguntou pela família. Quando o visitante se foi embora, Sílvio ficou em silêncio durante alguns minutos e disse então para quem estava na sala: “Este homem trabalhou comigo durante 15 anos. Nunca o chamei pelo nome durante esse tempo todo. Chamava-lhe O do Som.
Hoje eu aprendi o nome dele. 92 anos, 8 mil milhões de reais e uma vida inteiro para aprender o nome do técnico de som. Não é uma história de fracasso, é uma história de escala. A de como a grandeza que o mundo mede em reais, em pontos de bope, em décadas no ar, pode conviver com uma pequenez que só aparece quando o ruído pára.
Silvio Santos era demasiado grande para o Brasil pequeno que o criou e por vezes demasiado pequeno para o homem imenso que construiu. Esta é a contradição que define não só Silvio Santos, mas qualquer ser humano que decide colocar a ambição no volante da própria vida e ver até onde a estrada vai. E a estrada de Senr.
Abravanel foi de um tabuleiro de camelot, no centro de São Paulo, até ao obituário no New York Times, que em agosto de 2024 publicou uma nota sobre a sua morte, descrevendo-o como o maior showman da história da televisão latino-americana. O New York Times em inglês. Para um menino que tinha crescido num sobrado no bom retiro, filho de imigrantes gregos sem recursos, vendendo escovas de dentes para pagar as contas.
Esse arco, dessa bandeja a esse obituário é o que separa uma vida comum de uma vida que o tempo não apaga. Mas há algo que ainda não foi dito sobre os últimos anos da SBT, sem Sílvio no Comando Diário. Algo que vai para além da audiência, para além dos números, para além da saudade coletiva de um domingo que mudou de rosto.
O SBT sem Sílvio revelou uma verdade incómoda sobre a televisão brasileira inteira. Nenhuma emissora, nem a Globo, nem o Bandeirantes, nem a Record, tinham construiu a sua identidade tão completamente em torno de uma única pessoa. A Globo era uma instituição, tinha Jornal Nacional, havia novelas das 8, tinha uma estrutura que existia, independente de qualquer rosto específico.
O Record tinha a Igreja Universal como coluna vertebral invisível. O Bandeirantes tinha o desporto como âncora histórica. O SBT tinha o Silvio, só o Silvio. E quando Silvio foi-se apagando e a estação entrou num processo que os especialistas em comunicação chamam de reposicionamento forçado, mas que na prática parecia mais uma procura desesperada por uma nova identidade que nunca chegou completamente.
Daniela Beirut tentou, com honestidade, com competência, com uma visão estratégica que o seu pai nunca teve, porque o seu pai não precisava de estratégia, tinha instinto. Ela trouxe consultores, reformulou a grelha, investiu no jornalismo, criou a SBT News, o canal de notícias que foi para o ar em 2020 e que em dois anos acumulou audiência expressiva no digital.
Mas havia um problema que nenhuma consultoria consegue resolver. Não se substitui uma alma com uma estratégia. A alma da SBT era o improviso de um homem que tinha passado 60 anos a ler a plateia em tempo real. Era a capacidade de transformar o erro vivo em gargalhada. Era o olhar que saía da câmara, varria o auditório e voltava para o telespectador como se dissesse: “Também viste isso, não é? Esse tipo de presença não se treina, não se contrata, não se replica e o público sentia.
Não de forma consciente. Não eram pessoas sentadas em frente à televisão a pensar falta a alma da SBT”. Era mais subtil. Era a sensação de ligar o canal num domingo e perceber que algo estava tecnicamente certo e emocionalmente vazio. Técnico a mais, humano a menos. Este era o SBT depois de Silvio. E todo o mundo dentro da estação sabia, mas ninguém sabia como reparar, porque não havia reparação, havia apenas adaptação.
Agora preciso de te contar algo sobre a Telecena, que raramente aparece nas histórias sobre Silvio Santos, porque a A Telecena é, em muitos sentidos, o negócio mais genial que criou. e o mais subestimado. A telecena foi lançada em 1994. O Brasil acabava de passar pelo plano real, o plano económico que havia estabilizado a moeda após anos de hiperinflação.
A nova estabilidade tinha criado algo que o Brasil não conhecia bem, confiança para gastar. As classes C e D tinham rendimento real pela primeira vez em muitos anos. Silvio Santos leu isto antes de qualquer economista publicar um artigo sobre o tema. A Telescena era uma lotaria de raspadinha ligada a um programa de televisão.
O bilhete custava o equivalente a menos de R$ 5. Na altura os prémios chegavam a R$ 500.000 R$ 1.000. E o sorteio realizava-se no programa ao vivo com o Sílvio lhe com toda a teatralidade que ele dominava como ninguém. O modelo era perfeito. O bilhete era acessível o suficiente para que qualquer família de baixo rendimento comprasse sem culpa.
O prémio era grande suficiente para mudar uma vida e o sorteio era entretenimento. Você não estava apenas a comprar uma chance, estava participando num espetáculo. Em 1997, a Telecena vendia aproximadamente 40 milhões de bilhetes por trimestre. 40 milhões por trimestre e com uma margem de lucro estimada em 35%. sobre o valor de venda.
O faturamento anual ultrapassava os R$ 600 milhões deais em pleno período pré-crise de 1998. Para dimensionar, o volume de negócios da Telena em 1997 equivalia ao orçamento total de marketing de todas as marcas de cerveja do Brasil juntas nesse mesmo ano. Era dinheiro de escala industrial. gerado por bilhetes de R$ 5, vendidos nas bancas de jornais, nos mercadinhos, nos postos de abastecimento de todo o país.
E a lógica era a mesma do baú da felicidade 30 anos antes, pequenas quantias de um enorme número de pessoas, multiplicado por frequência. O resultado era um fluxo de caixa que a televisão sozinha nunca conseguiria gerar. Silvio Santos tinha entendido antes de qualquer fintec, antes de qualquer plataforma de micropagamentos, que o dinheiro do povo não está na profundidade, está na escala.
Não é uma pessoa a pagar muito, são muitas pessoas pagando pouco. E se souber criar o produto certo para este público, a A aritmética trabalha a seu favor, com uma consistência brutal. Mas o que poucos sabem é que a Telecena quase não sobreviveu ao início dos anos 2000. Em 2001, o mesmo ano do sequestro de Patrícia, o Ministério das Finanças abriu uma investigação sobre a Telecena.
A questão era regulatória. A lotaria operava sob uma concessão específica e aí havia questionamentos. sobre se o modelo de distribuição e premiação estava dentro dos limites legais da concessão originária. A investigação durou quase 2 anos. Durante este período, o volume de vendas desceu aproximadamente 30%.
Não por falta de procura, mas porque parte da rede de distribuição recuou por precaução regulatória. Silvio Santos contratou uma equipa jurídica de primeiro nível, negociou diretamente com o Ministério, ajustou o modelo operacional onde necessário e em 2003, Emma Telecena retomou as suas operações em plena capacidade, com as questões regulatórias resolvidas.
Mais uma vez o público não viu nada disso. O Brasil continuava a comprar bilhete, continuava a assistir ao sorteio, continuava à espera do domingo. Por detrás da cortina havia sempre uma batalha que ninguém transmitia em direto. Vamos falar agora do Silvio Santos Político. Não o Sílvio que apoiava candidatos.
Esse lado é conhecido, embora nunca tenha sido simples. E aí vamos falar do Sílvio, que tentou ser candidato. Em novembro de 1989, o Brasil realizou a sua primeira eleição presidencial direta desde 1960. Era o fim de 25 anos de ditadura militar. O país estava eufórico, dividido e com um campo eleitoral fragmentado em mais de 20 candidatos.
Silvio Santos inscreveu-se como candidato. Não era uma brincadeira, era sério. Tinha fundado o Partido Municipalista Brasileiro, o PMB, com o objetivo explícito de ter um veículo eleitoral. E a candidatura foi homologada. O nome estava na urna. A candidatura durou 18 dias. No 18º dia, o Tribunal Superior Eleitoral caçou o registo de Silvio Santos.
O motivo oficial, irregularidades no processo de filiação partidária e no prazo de desincompatibilização, regra que exigia que os concessionários de serviços públicos, como as emissoras de televisão, se afastassem dos seus negócios antes de concorrer. Silvio Santos era dono do SBT. O SB te operava com concessão pública do governo federal.
A lei dizia que ele não podia concorrer sem se afastar formalmente da emissora antes do termo legal. E ele não o tinha feito. A decisão foi tecnicamente correta, mas o timing e a forma como o processo foi conduzido geraram suspeitas que nunca foram completamente resolvidas. Havia quem acreditasse, e publicou que havia pressão dos outros candidatos para eliminar Sílvio da corrida.
E porque Silvio Santos como candidato era um problema real para qualquer concorrente. Tinha a maior audiência espontânea do Brasil. Não precisava de palanque. Tinha um palanque de dezenas de milhões de telespectadores todos os domingo. O que teria acontecido se Silvio Santos tivesse chegado ao segundo turno de 1989, que foi disputado entre Fernando Color e Lula, é uma das grandes questões especulativas da história política brasileira. Nunca saberemos.
O que sabemos é que após a cassação e Sílvio Santos nunca mais tentou a candidatura formal, mas nunca se afastou completamente da política. Manteve relações com presidentes de diferentes espectros. Recebeu na sede do S B candidatos de diferentes partidos ao longo dos anos. nunca foi fanático por nenhum dos lados.
O que no Brasil polarizado dos anos 2010 e 2020 era quase uma posição em si mesma. Ele compreendia o poder da TV demasiado para não compreender o poder da política, mas também entendia o custo de se contaminar com ela. A neutralidade calculada foi durante décadas a sua maior proteção. Agora preciso de te falar de uma mulher que esta história ainda não mencionou e que é impossível contar a história de Sílvio Santos completamente sem ela.
Íris Abravanel. O Sílvio casou duas vezes. A primeira foi com Maria Aparecida Vieira, com quem teve duas filhas, Cíntia e Sílvia, nos anos 60. O casamento não durou. Sílvio era a personagem que o Brasil amava. Em casa era um homem que o próprio trabalho havia tornado ausente. E em 1981 casou com Iris, que tinha 34 anos.
Sílvio tinha 50. Íris não era apenas esposa, foi produtora, escritora de guiões, supervisora criativa. Assinou dezenas de telenovelas da SBT ao longo dos anos. Algumas com audiência expressiva, outras com resultados modestos, mas todas com a mesma marca. histórias populares, emocionalmente intensas, dirigidas para o público feminino das classes C e D, que o SBT atingia como nenhuma outra estação.
A contribuição de Iris para a SBT é sistematicamente subestimada nas análises sobre o grupo. Enquanto Silvio tratava do palco e dos negócios, Iris cuidava da alma criativa da emissora. no horário das tardes, que era o horário de maior audiência feminina. Era uma divisão silenciosa e eficiente, mas havia também uma dimensão mais profunda.
Iris foi durante décadas o único ser humano no planeta que via Silvio Santos sem a personagem e que tinha acesso ao Senr. Abravanel por completo com os medos. com as dúvidas, com os momentos em que o homem mais confiante da A televisão brasileira precisava de alguém que dissesse que estava tudo bem. Isto tem um peso que não aparece em nenhum relatório financeiro.
Em entrevistas ao longo dos anos, a Iris sempre foi discreta sobre a vida privada, o que, face ao ambiente em que vivia, era quase um ato de heroísmo. Mas numa entrevista de 2018, ela disse algo que ficou. O Silvio que o Brasil conhece e o Silvio que eu conheço são a mesma pessoa, mas um deles só aparece quando a câmara desliga.
Esta frase diz tudo o que precisa de ser dito sobre como funciona uma vida inteira em frente de câmaras. Depois da morte de Sílvio em agosto de 2024, Iris esteve reclusa durante semanas. As filhas revesavam-se na companhia. A mansão do Morumbi, que tinha sido palco de tantos anos, de uma vida construída a dois, e tornou-se mais silenciosa do que nunca tinha sido.
O grupo seguiu, as empresas seguiram, o O SBT seguiu no ar, a Telecena seguiu sendo vendida, o Jequiti seguiu crescendo, mas havia um vazio no centro de tudo isto que nenhuma reestruturação societária consegue preencher, porque no final o grupo Silvio Santos era exatamente o que o nome diz. Era de Sílvio, era Sílvio.
E sem Sílvio era um grupo à procura de um nome que ainda não tinha. Há um dado que preciso de te dar ora, um dado que resume melhor do que qualquer análise o que Silvio Santos representou para a televisão brasileira. entre 1963, quando estreou o programa Silvio Santos na TV Record e 2014, quando fez a sua última apresentação regular, foram 51 anos consecutivos no ar.
51 anos sem interrupção significativa, sem iato longo, sem reformulação da identidade. Era o mesmo homem, o mesmo nome, o mesmo formato essencial. evoluindo, adaptando-se, mas nunca partindo o fio. Nenhum apresentador no mundo, em nenhum mercado televisivo, tem um registo de longevidade comparável.
Johnny Carson ficou 30 anos no ar nos Estados Unidos. David Lterman, 33. Opera Winfrey, de 25 anos com o mesmo programa. Silvio Santos, de 51 anos, no Brasil. num mercado que passou por ditadura militar, por hiperinflação, por planos económicos que mudavam as regras do jogo de um mês para o outro, por redemocratização e por crises políticas que derrubaram presidentes. Ele ficou sempre.
O domingo podia estar tumultuoso, o Brasil podia estar em crise, a economia podia estar em frangalhos. Mas Silvio Santos estava no ar. Isso não é entretenimento, é uma instituição. E quando uma instituição desaparece, especialmente uma que nunca avisou que ia desaparecer, o luto é de um tipo específico. Não é o luto de uma perda esperada, é o luto de uma ausência que não sabia que iria sentir tão fundo.
Milhões de brasileiros descobriram em agosto de 2024 que tinham um Silvio Santos dentro deles que não sabia que estava ali. uma memória emocional que tinha ficado guardada, não em álbum de fotografias, não em vídeos guardados, mas no corpo, na forma como um domingo de tarde ainda evocava aquela música de abertura, aquele ritmo, aquela certeza de que estava ali um homem que faria com que tudo parecesse mais leve por algumas horas.
O luto por Silvio Santos foi também um luto por uma forma de televisão que já não existe, por uma relação entre apresentador e público que a fragmentação digital tornou impossível de replicar por um tempo em que 40 milhões de pessoas podiam estar ver a mesma coisa ao mesmo tempo e sentindo-se parte de algo coletivo, sem algoritmo, sem personalização sem bolha. Era o Brasil inteiro num só sofá.
E Silvio Santos era o motivo. Nos dias que se seguiram à sua morte. Uma coisa chamou a atenção nas redes sociais brasileiras. Não eram os grandes portais de notícia que geravam mais engagement. Eram os vídeos caseiros gravados em VH. que nos anos 80 e 90, digitalizados por famílias que não sabiam que aquele um dia teria valor, mostrando as crianças assistindo ao programa Silvio Santos, mostrando salas de estar com televisores enormes e antenas de coelho, mostrando a reação de alguém ganhar um prémio no sorteio. Não, a câmara do estúdio, é
mais a câmara de uma família que tinha ligado o gravador para gravar o momento. Estes vídeos tinham dezenas de milhões de visualizações em 48 horas. Não era nostalgia de Silvio Santos, era nostalgia de si mesmo, de uma versão de Brasil que aqueles vídeos documentavam, familiar, coletivo, analógico, presente.
Silvio Santos tinha sido sem saber e sem planear o arquivo vivo de quatro gerações de memória brasileira. E quando ele foi, o ficheiro fechou. O que ficou em aberto foi a questão que toda a vida deixa. O que fazemos com o que alguém nos ensinou? Não as lições formais. Não há universidade Silvio Santos.
Não existe um livro de gestão com o nome dele na capa, não há metodologia empacotada. Mas há uma forma de encarar o público, de respeitar a inteligência emocional do povo, de compreender que o entretenimento verdadeiro não é distração, é conexão. Esta forma, se alguém quiser aprender, está em 51 anos de arquivo, ou em 20.000 horas de televisão em direto em cada improviso, em cada gafe transformada, gargalhada, em cada momento em que aquele homem olhou para a câmara e fez o Brasil sentir que estava a ser visto.
O senhor Abravanel chegou ao mundo numa rua do Bom Retiro, filho de imigrantes, sem nada além de uma voz e uma percepção sobre gente que muito poucas pessoas têm, e usou isso para construir um dos maiores impérios de comunicação da América Latina, para ser durante mais de meio século o rosto mais reconhecido do Brasil, para criar emprego direto para mais de 5000.
pessoas só na SBT e empregos indiretos para dezenas de mais milhares nas empresas do grupo para fazer rir, para fazer esperar, para fazer crer que no próximo domingo acontecesse o que acontecesse na semana, estaria ali e durante 51 anos ele esteve. M.