Assim Foi a Vida Trágica de Reginaldo Rossi — O Fim Humilhante que a Família Escondeu por 4 Anos – H
Na manhã do dia 20 de dezembro de 2013, o filho de Reginaldo Rossi abriu as contas do banco do pai. Tinha acabado de perder o homem que fez cantar o Brasil inteiro empregado de mesa durante três décadas e precisava organizar o funeral. [música] As contas estavam a zero. Não havia dinheiro para o caixão, não havia dinheiro para o cemitério, não havia nada.
A família que tinha assistido há décadas de concertos lotados, de discos vendendo aos milhões, de um nome que era sinónimo de brega romântico no Brasil inteiro, esta família teve de pedir um jazigo doado para enterrar o rei do brega. Roberto Rossi quebrou o silêncio sobre este apenas em março de 2017, 4 anos depois do funeral, numa entrevista ao Domingo Show da Record.
Quando o meu pai faleceu, eu e a minha mãe procurámos nas contas, mas não tinha nada, nada, nada. Para conseguir enterrá-lo, contamos com a doação de um jacigo. A gente ganhou o jacigo e todo o funeral fica até ao fim. Porque o que estava por detrás do desaparecimento de uma fortuna construída em quase cinco décadas de carreira é uma história que o Reginaldo Rossse escondeu do Brasil durante todo o auge.
Antes de chegar àquele dezembro de 2013, é necessário perceber de onde veio esse homem. E a origem dele começa com uma irregularidade. 14 de fevereiro de 1944, Recife, Pernambuco. O menino que nasceu nesse dia não foi registado pelos pais. Foram os avós paternos Iván Batista dos Santos e Antónia Rossi, que foram ao cartório e registaram o neto como se fosse filho deles.
Reginaldo Rodríguez dos Santos entrou no mundo com o papel errado, com os pais errados no documento, com uma identidade construída sobre uma irregularidade que ele nunca escolheu. Esta ferida de origem, o abandono silencioso dos pais biológicos, a adoção informal pelos avós, a identidade construída sobre o que não era, vai aparecer de diferentes formas ao longo de toda a sua vida.
Mas nesse mês de fevereiro de 1944, o menino ainda não sabia disso. A família mudou-se para o Rio de Janeiro, quando ainda era pequeno. voltou para o Recife quando tinha 13 anos [música] e foi de volta à capital pernambucana que o adolescente encontrou duas coisas que iam definir o rumo da tudo, a matemática e a música.
O jovem Reginaldo era bom em números, bomo o suficiente para entrar na faculdade de engenharia do Recife no início dos anos 60.º Uma conquista real para um jovem de origem humilde, [música] mas a música estava do outro lado. Ele começou a frequentar os clubes e bares do Recife nos fins de semana.
Descobriu os Beatles, fundou a primeira banda de rockd nordeste brasileiro, de Silver Jets, e foi tomado por uma certeza que o colocaba numa encrucilhada directa com la faculdade. [música] A engenharia perdeu. Em 1963, com 19 anos, o Reginaldo foi ao Rio de Janeiro pela segunda vez. Desta vez com um objetivo claro, assinar com uma gravadora.
Em 1964 conseguiu a CBS Records fechou o contrato com o jovem pernambucano, a mesma CBS do Roberto Carlos. Por um curto período, [música] o Reginaldo chegou a tocar na banda do próprio Roberto Carlos. Uma passagem histórica que poucos brasileiros conhecem, os dois futuros reis do popular brasileiro, partilhando o mesmo palco nos anos 60.
O primeiro grande sucesso surgiu ainda em 1964. A canção O pão ao estilo Jovem Guarda rodou nas rádios do país, mas o rock dos anos 60 foi perdendo força no Brasil com a viragem para os anos 70 e o Reginaldo foi perdiendo junto buscando una nova identidade musical durante toda a la década passando por diferentes estilos românticos até encontrar o que ia definio.
Em 1970 gravou Monamour, meu bem, meu mal. [música] Uma canção francesa que sinalizava a viragem. O brega romântico estava a chegar e chegou de vez em 1987. Garsom. Uma canção simples sobre a traição amorosa que tocou em algo tão específico e tão universal ao mesmo tempo que se tornou um hino.

O empregado de mesa que testemunha o lamento do homem traído. A cachaça como testemunha, a mesa como confessionário. O Brasil inteiro cantou e Reginaldo Rossi tornou-se o rei do brega. Mas enquanto o Brasil cantava garçom nos bares e nas festas, havia uma outra história a acontecer nos bastidores, que o Reginaldo escondia com a mesma eficiência com que segurava o microfone nos concertos.
Eram três vícios e os três destruíram tudo. O primeiro era o jogo, baralho de cartas, mesas de bar, madrugadas longas. Roberto Rossi descreveu o pai na entrevista de 2017 com uma precisão que não deixava margem para interpretação. O meu pai era viciado em jogo. Não podia sentar-se à volta com um baralho e uma bebida que punha tudo a perder.
Tudo a perder. Não parte tudo. Ao longo das décadas de carreira, Reginaldo foi vendendo imóveis para sustentar o vício. [música] Imóveis que tinha comprado com o dinheiro dos concertos, dos discos, das décadas de trabalho. Ele vendia um, jogava, vendia outro, jogava outra vez e não permitia que a família interferisse.
A segunda revelação de Roberto na mesma entrevista foi direta. O meu pai era muito centralizador e tentei durante uma altura gerir as contas dele, mas não tinha como. [música] Um homem que não deixava ninguém perto das próprias finanças enquanto as esvaziava nas mesas de jogo. O segundo vício era o cigarro.
Fumava desde a adolescência, sem parar. Décadas de dependência que iam cobrar o preço mais brutal de todos no corpo de um homem de 69 anos, a doença que o matou. O terceiro vício era o álcool, o whisky escocês especificamente consumido nas mesmas madrugadas das mesas de baralho. O combustível que mantinha o jogo funcionando até ao amanhecer.
Três vícios que coexistiram durante quase 50 anos, que alimentavam-se mutuamente, que eram escondidos do público com uma eficiência que só a fama permite. Porque quando és o rei do brega, o Brasil faz fila para te ver, não para te observar. Em 2008, o Reginaldo tentou uma saída, filhose ao PDT e lançou candidatura a vereador em município de Jabuatão dos Guararapes, na região metropolitana do Recife.
Uma tentativa de recuperar rendimento, de encontrar uma estabilidade que a carreira musical já não garantia com la mesma consistência. Os registos do Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco são claros. Reginaldo Rossi não foi eleito. A derrota eleitoral foi pública, humilhante de uma forma que as derrotas privadas nunca são, porque aconteceu com o nome e o número e percentagem de votos publicados em documento oficial.
voltou para a carreira, para os concertos pelo Nordeste, para as noites em que o público ainda queria ouvir empregado com aquela voz rouca e aquele sotaque do Recife, mas o corpo estava a cobrar. Nos últimos concertos de 2013, o empresário Sandro Nóbrega, que trabalhou com o Reginaldo durante 24 anos, apercebeu-se de algo que não era habitual.
Nos últimos quatro concertos, ele estava sentado, coisa que nunca fez. Comentei e ele disse que estava cansado. O Reginaldo era meio manhoso. Podia ser que estava a sentir algo e não dizia. Os dois últimos concertos aconteceram nos dias 21 e 22 de novembro de 2013 no Manhattan Café Teatro no Recife. Cas depois o Reginaldo deu entrada nel hospital Memorial San José con dores fortes no tórax e nas costas.
Os médicos encontraram um derrame pleural, excesso de líquido entre as pleuras do pulmão, preocupante, mas ainda assim investigável. No dia 9 de dezembro, fizeram uma toracentee. Retiraram 2 L de líquido escuro do pulmão. 2 L. O líquido foi para o laboratório. No dia 11 de dezembro, o resultado confirmou o que os médicos temiam. Cancro de pulmão.
Uma doença que estava escondida no organismo do cantor há meses ou anos enquanto continuava se apresentando. Segurava o microfone, cantava garçom para plateias que não sabiam que estavam a ver um homem doente. O tratamento começou imediatamente. Quimioterapia, hemodiálise, a equipa médica tentando estabilizar um quadro que já estava demasiado avançado.
Nos dias seguintes, a sedação profunda. Na manhã de sexta-feira, 20 de dezembro de 2013, às 9:25, Reginaldo Rossi morreu na UCI do Hospital Memorial São José, falência múltipla de órgãos, tinha 69 anos e as contas bancárias estavam a zero. O filho Roberto Ross tinha 8 meses de luto pela frente antes que a tragédia seguinte chegasse.
Celei de Neves, a esposa do Reginaldo, passou primeiros meses de 2014 na Casa da Família na Avenida Boa Viagem. O imóvel nobre que o Reginaldo tinha sonhado transformar numa pousada com obras adiantadas, quartos [música] prontos, estrutura de recepção que nunca recebeu ninguém. O filho adoptivo José Joelson descreveu os meses finais da mãe com uma frase que diz mais do qualquer relatório médico.
[música] Ela morreu de tristeza. Mesmo depois do pai morrer, ela chamava por Rossi pela casa vazia. No dia 15 de agosto de 2014, 8 meses depois do marido, Celei de Neves morreu de enfarte. Tinha 67 anos, dois velórios em 8 meses, dois enterramentos. E Roberto Rossi, o único filho biológico do rei do brega, ficou sozinho com o que sobrou.
O que restava era La Caça e na Boa Viagem, um imóvel avaliado em aproximadamente R 5 milhões de reais pela localização privilegiada à Beiraamar do Recife e uma dívida de Ipto de R$ 800.000 acumulada ao longo dos anos. E o Roberto foi para o Rio de Janeiro para trabalhar como motorista de aplicação.
O filho do homem que vendeu milhões de discos durante cinco décadas de carreira, que foi aclamado como rei do brega pelo O Brasil inteiro, que tinha uma fortuna que a jogatana foi comendo imóvel por imóvel. Este homem conduz pelas ruas do Rio de Janeiro para pagar as próprias contas. Não é metáfora. É a informação que Roberto Rossi deu ao Domingo Show em março de 2017.
E há uma última coisa sobre esta história que precisa de ser dita. Nos últimos meses de vida, o Reginaldo Rossi compôs uma canção. Nunca foi gravada, ficou no papel. O título era Vá procurar outro. A última obra del rey Dobrega, inédito, não gravado, perdida nos papéis de um homem que morreu com las contas seradas, [música] tinha o mesmo assunto de sempre.
O amor que se vai embora, a traição, o abandono. Escreveu sobre o abandono até ao fim. O mesmo tema que começou com aquele registo no cartório de 1944, quando os avós colocaram o seu nome no lugar dos pais. Hai algo nesta simetria que não parece casual. O menino que foi registado porque não era os seus pais, passou a vida a cantar sobre o abandono e traição.
Tornou-se o símbolo nacional de quem foi deixado para trás. E olfim foi também deixado pelo dinheiro que a O jogo levou, pela saúde que o cigarro destruiu, pelo corpo que não resistiu. A história de Reginaldo Rossi é frequentemente contada como uma história de vícios. Os três vícios que destruíram a fortuna, o cigarro que provocou cancro, o rogo que esvaziou as contas.
Mas há uma leitura diferente que diz algo sobre o que estava debaixo dos vícios. Os vícios não aparecem do nada. Crescem em espaços que precisam de ser preenchidos, espaços de ansiedade, de angústia, de uma relação complicada com o próprio valor pessoal. Um homem que chegou ao mundo registado pelos avós, porque os pais não puderam ou não quiseram assumi-lo, carregou algo sobre identidade e pertença que nunca foi completamente resolvido.
Não é especulação clínica, a observação de que alguém que passou a vida a cantar sobre abandono, com uma precisão emocional que tocava milhões de pessoas, provavelmente sabia muito sobre o abandono por dentro e que o baralho de cartas, o whisky e o cigarro talvez fossem o preço que pagava para não ter de ficar sozinho com este conhecimento.
O Roberto Rossi conduz pelo Rio de Janeiro. A casa da Boa Viagem tem R$ 800.000 em Ipto Pendente. O razigo do cemitério Morada da Paz na Paulista, na região metropolitana do Recife, foi doado. E garçon continua a tocar nos bares de todo o Brasil todo o fim de noite, quando alguém precisa de uma canção que compreenda o que é ser deixado para trás.
Porque o Reginaldo entendia desde antes de aprender a andar. Se essa história fez-te pensar em alguém, num vício que a família não consegue tocar, numa ferida de origem que ninguém nomeou, num património que está a ser destruído em silêncio, leva essa reflexão contigo hoje, porque os vícios que não são enfrentados continuam e os filhos pagam o preço em moeda que não escolheram dever.
Mas para compreender completamente o que aconteceu com la fortuna de Reginaldo Rossi, é preciso recuar para o período do apogeu, os anos 80 e 90, e observar como la destruição foi acontecendo em câmara lenta enquanto o Brasil cantava em conjunto. Garsom chegou a 1987, num momento específico da cultura popular brasileira.
O país estava a sair da ditadura, [música] renegociando identidades, redescobrindo o que era ser popular, sem ter de pedir desculpa. Obrega, que durante años fue tratado como el primo pobre de la música brasileira, el género de las clases baixas do nordeste, el estilo que a crítica cultural do rio e de São Paulo prefer ignorar, encontrou no empregado uma canção que atravessou fronteiras de classe.
Não era só o público do brega que cantava, era o Brasil inteiro. Essa ubiquidade teve um preço específico para o Reginaldo. Quando uma canção entra neste nível de penetração cultural, o artista passa a ser chamado para tudo. Espetáculos em capitais, espetáculos no interior, espectáculos em festas privadas, espectáculos em eventos corporativos.
A agenda se expande de uma forma que parece boa notícia, mas que tem uma consequência particular alguém com o perfil do Reginaldo. Mais dinheiro, mais noites, mais de bar, mais baralho. O ciclo se alimentava-se a si próprio. E havia um componente adicional que o Fígio Roberto revelou na entrevista de 2017, que explica por a família não ter conseguido intervir. Reginaldo era centralizador.
Num homem com vícios destrutivos, o um controlo financeiro rígido não é sinal de competência gerencial. É sinal de que sabia que se alguém tivesse acesso às contas, a destruição seria visível. E o Reginaldo não queria que a destruição fosse visível, nem para a família, nem para os empresários, nem para o público.
Mantinha as aparências do palco, mantinha o sorriso da imagem pública e nas margens da madrugada apostava o que tinha sobrado do concerto da noite. Existe um perfil psicológico bem descrito na literatura sobre jogadores compulsivos que combina de forma inquietante com o que sabemos sobre o reg. Rossi, o jogador compulsivo raramente é visto [a música] como tal pelas pessoas de fora, porque geralmente mantém uma função social, trabalha, aparece, cumpre as obrigações públicas.
O que não aparece são as horas entre uma obrigação e outra, as madrugadas, as mesas, os imóveis que vão saindo do património para cobrir as dívidas. O Reginaldo vendia imóveis durante décadas, a um artista de verdadeiro sucesso, e o sucesso do Reginaldo Rossi foi real, medido em vendas físicas, em concertos, em décadas de carreira, acumular bens imóveis é o investimento natural.
El forma de transformar o rendimento de concertos, variável e imprevisível, em património estável. Cada imóvel vendido para cobertura de dívidas de jogo era uma aposta dupla perdida. Primeiro o dinheiro que foi para a mesa, depois o ativo que foi para pagar a dívida da mesa. [música] E ao longo de décadas património foi desaparecendo sem que o Brasil soubesse, sem que o público que cantava garçom nos bares se apercebesse, sem que a imagem do rei do brega mostrasse qualquer sinal do que estava a acontecer por baixo. Este é um dos aspetos mais
perturbadores desta história. Não o que aconteceu, mas como aconteceu sem que ninguém visse. A fama é um isolante eficiente. Coloca o artista numa redoma, onde as pessoas à volta têm interesse em manter a aparência de normalidade. O empresário quer continuar a vender espectáculos, a editora quer continuar vendendo discos.
A família quer continuar a amar o pai, o marido, o ídolo e o artista aprende a comportar-se de formas que confirmam esta narrativa de normalidade. O Reginaldo Ross foi um mestre nisso durante quase três décadas depois do empregado, até que o corpo parou de cooperar. O cigarro fumado desde a adolescência, 50 anos de dependência, foi criando silenciosamente o ambiente para a doença que o matou.
Câncer de pulmão não aparece do dia para a noite. É uma construção lenta, de décadas, de dano acumulado que o organismo vai compensando até não conseguir mais. O Reginaldo chegou ao final de novembro de 2013, sentado nos palcos, coisa que nunca tinha feito. E o empresário de 24 anos de parceria anotou, mas o Reginaldo disse que estava cansado.
Esta resposta, estou cansado. É a resposta de um homem que sabe que tem algo errado e prefere não nomear, que sabe que nomear vai exigir a ação e que a ação vai expor coisas que ele preferia que não fossem expostas. Os dois últimos concertos aconteceram no Manhattan Café Teatro nos dias 21 e 22 de novembro de 2013.
O Reginaldo segurou o microfone pela última vez. Cantou o Garçom. O público cantou em conjunto. C dias depois, ele estava no hospital com 2 L de líquido escuro no pulmão. O diagnóstico de cancro veio em 11 de dezembro. Ele faleceu em 20 de dezembro. Desde os primeros síntomas hasta la muerte fueron menos de un mes. Y en aquele mes, en cuanto los médicos tentaban salvar o que o cigarro de 50 anos tinha destruo, las contas bancárias confirmavam o que a jogatina de três décadas tinha feito. Não havia nada.
Agora pensa no peso desta cena por um momento. Roberto Rossi tinha acabado de perder o pai. Precisava de organizar um enterro. abriu as contas e encontrou zero. Um homem cujo pai vendeu milhões de discos, que tocou nos maiores palcos del nordeste durante décadas, que tinha uma canção que entrou para o imaginário coletivo de um país de 200 milhões de pessoas e não havia dinheiro para o funeral.
A dignidade do enterro vinha de uma doação. O rácigo do cemitério Morada da Paz na Paulista, na região metropolitana do Recife, foi cedido por alguém que compreendeu a situação e preferiu que o rei do brega não fosse enterrado de qualquer maneira. Essa é a parte da história que a imprensa de O mexerico narra como tragédia da fama e extraia mesmo.
Mas há uma dimensão desta história que vai para além da fama e do dinheiro, a dimensão do que acontece com as pessoas que ficam. Celei de Neves tinha 67 anos quando o marido morreu em dezembro de 2013. Tinha passado as décadas mais produtivas da vida ao lado de um homem talentoso, carismático e com três vícios pesados que ela não conseguia controlar.
Nos oito meses seguintes à morte do Reginaldo, ela continuou na casa da Boa Viagem e chamava pelo marido. O filho adoptivo José Joelson descreveu esta cena com uma simplicidade que é mais pesada do que qualquer dramatização. [música] Ela morreu de tristeza. Mesmo depois do pai morrer, ela chamava por Rossi pela casa vazia.
Chamava por um homem que tinha apostado as poupanças da família em mesas de bar durante 30 anos. Chamava por um homem cujo cigarro a tinha deixado sozinho aos 67 anos, sem um cêntimo nas contas. Chamava por ele mesmo assim. Porque o amor que as as pessoas sentem por figuras complicadas raramente é simples. Raramente o amor que há sentido de fora.
Esse o amor que formou-se ao longo de décadas, que sobreviveu a coisas que deveriam tê-nolo destruído e que continua depois da pessoa vai embora. Celei lamava pelo Ross e pela casa vazia. E em 15 de Agosto de 2014 o coração dela parou. Enfarte: meses depois do marido, Roberto Rossi organizou dois funerais em 8 meses e depois foi para o Rio de Janeiro.
A caça da boa Viagem ficou para trás, o imóvel com o sonho inacabado da pousada, os quartos com camas e suportes de televisão prontos para receber hóspedes que nunca chegaram e uma dívida de R$ 800.000 em Iptu, que vai crescendo a cada ano. O Roberto conduz pelas ruas do Rio para pagar as suas próprias contas.
Pensa nessa distância por um momento. A Avenida Boa Viagem é uma das ruas mais valorizadas do Recife. O imóvel do Reginaldo naquela avenida vale hoje aproximadamente 5 milhões deais. É um ativo real, concreto, herdado, mas tem R$ 800.000 R$ 1.000 de dívida de Ipto. O filho que herdou esse ativo não tem como pagar a dívida, não há como vender sem liquidar primeiro [música] e não tem rendimentos suficiente do trabalho como motorista de aplicação para resolver a equação.
É uma armadilha patrimonial, um ativo enorme que está inacessível, porque a dívida que o envolve é maior do que a capacidade de pagamento do herdeiro. Esta é a herança real do rei do brega para o único filho biológico. Não o nome, não os discos, não os concertos gravados. Uma caça que vale 5 milhões e uma dívida de 800.
000 e um trabalho de motorista de aplicação que não resolve nenhum dos dois. Há uma última coisa sobre esta história. A última composição de Reginaldo Rossse se chamava-se Vá procurar outro. Nunca foi gravada. ficou no papel. Uma canção que o rei do brega escreveu nos últimos meses de vida e que o mundo nunca ouviu na voz dele.

O título é o mesmo tema de sempre: o abandono, a traição, [música] o fim de uma relação. O homem que pede para a mulher que se foi embora procurar outro porque ele já não tem mais o que oferecer. que o maior sucesso da A carreira de Reginaldo Rossi foi uma canção sobre o abandono e que a última música que compôs, inédita, foi também sobre o abandono, que a ferida de origem, o registo no cartório feito pelos avós, porque os pais não puderam ou não quiseram, e o tema central da toda a obra sejam o mesmo tema.
Isto não é coincidência biográfica bonita para preencher uma conclusão. Essa observação de que as feridas que não são tratadas aparecem em tudo o que fazemos, no que cantamos, no que apostamos, no que bebemos, no que fumamos y en las últimas palabras que escribemos antes de ir embora, va a procurar otro como si ele soubesse que ia.
Como se a última coisa que quis dizer ao mundo era exatamente o que o mundo tinha dito para ele desde 1944. Vá, não há mais nada aqui. Se essa história fez-te pensar em alguém, num vício que está a destruir algo em silêncio, numa ferida de origem que nunca foi nomeada, num património que está a ser apostado sem que a família consiga ver, leva consigo essa reflexão hoje.
Porque os vícios que não são enfrentados continuam e os fijos pagam o preço em moeda que não escolheram dever. O Roberto Rossi paga concorridas de aplicação no Rio de Janeiro, enquanto Empregado de mesa toca nos bares do Brasil inteiro todos os fim de noite. Para completar esta história com a honestidade que ela merece, é necessário falar de algo que raramente surge nas narrativas sobre artistas que perderam fortunas para vícios.
A questão de quem sabia e o que fez com esse conhecimento. Sandro Nóbrega trabalhou com Reginaldo Rossi durante 24 anos, 2/3 de toda a carreira pós empregado de mesa. Um homem que conhecia a agenda do artista, as finanças dos concertos, a rotina de bastidores. Sandro percebeu que o Reginaldo estava sentado nos últimos quatro espetáculos.
Comentou o Reginaldo disse que estava cansado e o Sandro aceitou. Não há julgamento nisso. É a situação clássica do círculo profissional de um artista. Pode ver sinais, pode comentar, mas raramente tem poder real para intervir. O artista é o produto. O produto é o chefe. E quando o chefe diz que está tudo bem, a hierarquia profissional raramente permite ir mais além.
Mas há uma questão que fica. O que teria acontecido se alguém tivesse insistido? Não em novembro de 2013, quando os sintomas já eram claros demais. Mas nos anos anteriores, nos espectáculos dos anos 2000, quando el Reginaldo ainda estava a vender imóveis, mas a carreira ainda funcionava. Quando alguém próximo do suficiente para ver a destruição financeira, poderia ter forçou uma conversa que ninguém parecia querer ter.
Esta pergunta não tem resposta, mas tem peso, porque ela é a questão que existe em qualquer família onde existe um vício funcional. O vício de alguém que continua a aparecer, trabalhando, cumprindo obrigações externas enquanto destrói tudo o internamente. Como se força uma conversa com alguém que parece estar bem? Como nomeia o problema quando a pessoa que tem o problema tem mais poder na relação do que você? Como o filho de alguém famoso diz ao pai que o está a ver destruir o património da família? [música] O Roberto tentou. Ele diz que na
entrevista de 2017. Tentou administrar as contas, não havia como. O pai não deixava. E depois acompanhou à distância até que as contas estivessem zeradas e precisava de encontrar um jazigo doado para enterrar o pai. Essa sequência, tentativa de ajuda, resistência do pai, impotência do filho, consequência devastadora, não é específica de Reginaldo Rossi.
É a sequência que se repete em centenas de milhares de famílias brasileiras onde há um vício não tratado. A diferença é que na maioria destas famílias não existe imóvel na boa viagem para herdar, não há nome famoso, não existe a possibilidade de uma entrevista ao Domingo Show. Há apenas o vício, a destruição e a família tentar sobreviver ao que ficou.
Reginaldo Rossi foi o rei do brega, mas a estrutura da história dele é a estrutura de qualquer família brasileira que convive com o jogo, com a bebida, com o cigarro que ninguém consegue parar. A fama muda a escala, não altera a dinâmica. E é por isto que o empregado de mesa ainda funciona depois de quase 40 anos.
Não porque seja uma canção tecnicamente excepcional, embora seja boa e simples, construída sobre uma progressão harmónica direta e uma narrativa de 2 minutos que qualquer pessoa compreende à primeira escuta. Funciona porque habla de abandono com uma precisão emocional que só advém de alguém que conhece o assunto por dentro. O empregado de mesa como testemunha do homem deixado, a mulher que se foi embora com outro, a cachaça como companhia, a mesa de bar como o único local onde as coisas fazem sentido.
Reginaldo Rossi viveu em mesas de bar, e não a mesa de empregado de mesa, a mesa do baralho, do whisky, das madrugadas que esvaziavam as contas. Mas a sensação era a mesma, a sensação de que a mesa era o único local onde as coisas faziam sentido. E por isso a canção é boa, porque quem escreveu percebia de verdade o que era aquele lugar.
Hai uma última dimensão desta história que precisa de ser dita antes de encerrar. A imagem pública que o Reginaldo Rossi construiu ao longo das décadas era a do homem simples, do nordestino humilde, que chegou onde chegou pela música. Uma imagem de autenticidade que o distinguia dos artistas mais produzidos, mais construídos, mais calculados.
Essa imagem não era falsa, era incompleta. O Reginaldo era de origem humilde. A trajetória dele, de menino registado pelos avós no Recife, para o rock carioca dos anos 60, [música] para o brega que conquistou o Brasil nos anos 80, é genuinamente uma trajetória de chegada. Mas a imagem de simplicidade omitia o que se passava em baixo.
As apostas, os imóveis vendidos, o património que ia assumindo enquanto o nome crescia. Esta separação entre imagem pública e a realidade privada não é desonestidade propositada, é o resultado natural de uma carreira construída sobre a performance pública de uma identidade. O rei do brega tinha de ser o rei do brega e o rei do brega não podia aparecer nos concertos contando que tinha apostado o dinheiro do último cachet numa mesa de baralho até ao amanhecer.
Então, a imagem continuou e a destruição continuou [música] em paralelo, em silêncio, até que não havia mais como separar as duas. Quando o Roberto abriu as contas em Dezembro de 2013 e encontrou zero, as duas histórias finalmente se tocaram. A história que o Brasil conhecia e a história que a família vivia.
E o resultado foi um jacigo doado e um filho que dirige aplicação no Rio de Janeiro. Se você chegou até ao final deste vídeo pensando em alguém, num familiar, num amigo, em alguém que sabe que está a viver uma versão desta história, leva esta reflexão consigo hoje. Porque o vício que não é enfrentado continua. E a última canção que o Reginaldo Rossi compôs antes de morrer, inédita, não gravada, perdida no papel de um homem que foi embora com as contas a zero, tinha um título que diz tudo: “Vai procurar outro”. Como se última coisa
que o rei do brega quis dizer ao mundo era exatamente o que o mundo tinha dito para ele desde antes de aprender a andar. Vai, procura outro. Não tem mais nada aqui. Existe ainda um capítulo desta história que a maioria dos narrativas sobre Reginaldo Rossi omite completamente. O capítulo do que ele era quando não [música] estava em palco.
Não os vícios. Esse capítulo já foi contado. O capítulo do que ele dizia, de como se comportava, do lado da personalidade que aparecia em entrevistas e que o Brasil foi esquecendo depois da morte. Em diferentes momentos da carreira, o Reginaldo deu declarações à imprensa que geraram polémica e que foram tratadas na época como peculiaridades do artista, o irónico nordestino, o homem do povo que fala sem filtro.
Mas algumas destas declarações dizem algo sobre a forma como via as mulheres que ia além da ironia. A mais citada: “A melhor coisa do mundo é fazer sexo com uma mulher feia. Pensam que ninguém as quer, que vai ser a última da vez delas e dão tudo. Uma frase que na altura foi recebida com risos em muito lugar, que hoje seria recebida de forma diferente, não porque o mundo se tornou sensível demais, mas porque a frase revela algo sobre a mentalidade de quem a disse.
A ideia de que as mulheres com menos acesso a validação social são mais fáceis de usar. a instrumentalização do baixo autoconceito de outra pessoa como vantagem pessoal. Essa é a parte do retrato de Reginaldo Rossi, que não cabe na narrativa do artista simples e autêntico do Nordeste, e que coexistia com el hombre que escrevia canções sobre abandono com uma profundidade emocional real. As pessoas são contraditórias.
Alguém pode escrever sobre a dor com genuína sensibilidade e ao mesmo tempo, têm comportamentos que causam dor em outras pessoas. Estas duas coisas coexistem. E nomear as duas não é cancelar o artista, é ver o homem completo. O Reginaldo Rossi completo era um artista de talento genuíno que entendia o abandono de uma forma que a maioria das pessoas não compreende.
Era também um homem com vícios que destruíram um património e deixaram o filho sem recursos. E era também um homem com afirmações sobre mulheres que refletiam uma visão de género que muitas pessoas, incluindo muitas das que cantavam garçom, não partilhavam. Tudo isto ao mesmo tempo, durante quase cinco décadas de carreira.
E quando você junta tudo, a ferida de origem de 1944, [música] os vícios de três décadas, as declarações polémicas, o jazigo doado, o filho motorista de aplicação, o que tem, não é uma história simples sobre um artista que perdeu tudo. É uma história sobre o custo real de não resolver as coisas que precisam de ser resolvidas.
O Reginaldo nunca resolveu a questão do registo feito pelos avós, nunca falou sobre isso publicamente de forma substancial, nunca parece ter trabalhado impacto que aquele início teve na forma como se relacionava com el mundo e pagou por isso de formas diferentes ao longo da vida, nas apostas que esvaciavam as contas, no cigarro que destruiu o pulmão, no álcool que alimentava as madrugadas, nas declarações que revelavam uma visão de outras pessoas como instrumentos.
Tudo isto é o preço de uma ferida original não tratada, que vai encontrando saídas ao longo do tempo. Esta observação não serve para justificar nada. A responsabilidade pelas escolhas do Reginaldo Rossi é do Reginaldo Rossi. E as consequências destas escolhas foram transportadas principalmente por quem não fê-las, pelo filho Roberto, pela esposa Celei, pelo filho adotivo José Joelson, mas serve para compreender, [a música] porque compreender é diferente de justificar e perceber como funcionam estas histórias, como as feridas de origem se transformam
nos vícios, como os vícios destróem patrimónios, como os patrimónios deixam filhos sem recursos, é o que permite que estas histórias sirvam para algo para além do entretenimento. Garçon tocou pela primeira vez em 1987. Já passou os 30 anos e ainda toca toda a noite em bares do Nordeste e do Sul e do Centro-Oeste e em qualquer lugar onde alguém precisa de uma canção que entenda que é ser deixado.
Reginaldo Rossi compreendeu esse sentimento desde antes de poder nomeá-lo e passou a vida inteira cantando sobre ele enquanto vivia uma versão diferente da mesma história. não o abandonado pelo amor, mas o homem que foi sendo abandonado por tudo o que tinha construído. Uma aposta de cada vez, um imóvel de cada vez, um espectáculo sentado de de cada vez, até que não havia mais nada nas contas.
E o Brasil precisou de um jazigo doado para enterrar o rei do brega. Esta é a história que a canção não conta, mas que a vida contou por ela. Uma última coisa antes de fechar. O Roberto Rossi tem hoje a antiga casa da família na Boa Viagem, um imóvel de 5 milhões deais com R$ 800.000 de dívida de Ipto, num cálculo frio, a matemática ainda é positiva.
[música] O imóvel vale mais do que a dívida. Se a dívida fosse liquidado, o imóvel poderia ser vendido. Oxo biológico do rei do brega teria recursos. Mas liquidar R$ 800.000 de Ipto com salário de motorista de aplicação não é uma equação que se resolva facilmente. E enquanto a equação não se resolve, a casa fica lá.
com os quartos que o Reginaldo preparou para a pousada que nunca abriu, os suportes de televisão que nunca receberam televisões, o sonho inacabado de um homem que apostou tudo e sobrou este imóvel como último ativo. Há algo de muito específico na imagem desta casa que resume a história de Reginaldo Rossi, melhor do que qualquer outra coisa.
Um homem que passou a vida a cantar sobre o que é perder, tentou no fim construir um local para receber pessoas, uma pousada, [música] um restaurante, um espaço onde a vida noturno que tinha vivido nas mesas de baralho pudesse ser ressignificada numa coisa produtiva. E não conseguiu terminar.
Não porque não quisesse, porque a doença chegou mais cedo, porque as contas estavam a zero, porque o cigarro de 50 anos estava a destruir o pulmão, enquanto os quartos da pousada esperavam os primeiros hóspedes. O sonho ficou parado a meio como a última canção que ficou no papel, como a herança que ficou presa na dívida de Iptu, como a vida de um homem que compreendeu o abandono melhor do que a maioria das pessoas e nunca conseguiu deixar de ser abandonado pelos pais no cartório de 1944, pelo dinheiro nas mesas de baralho, pelo corpo no hospital em dezembro de 2013.
Se esta história te fez pensar em alguém ou em alguma coisa da tua própria vida, a única coisa que vale a pena levar é esta. As coisas que não são resolvidas não desaparecem. Aparecem em outras formas, em vícios, em dívidas, em sonhos inacabados, em filhos que herdam peso de escolhas que não fizeram.
O Reginaldo Rossi entendeu isso de uma forma que ele mesmo talvez não soubesse nomear e colocou esse entendimento em canções que o Brasil ainda canta enquanto o filho conduz pelo Rio. E a casa da Boa Viagem espera.