ESSA VIÚVA GAÚCHA PERDEU CINCO NOIVOS… O PADRE REVELOU A VERDADE MACABRA — Porto Alegre, 1967 – H

Bem-vindo a esta viagem por um dos casos mais macabros e aterradores da história de Porto Alegre. Antes de começar, convido-te a deixar nos comentários aqui em baixo de onde está a ver este vídeo e a que horas. E também, se gosta de histórias como esta, subscreva o canal para mais casos diários. Pronto.

Agora aumente o volume e vamos começar. No Outono de 1967, quando as folhas amareladas dos plátanos começavam a cobrir as ruas empedradas do bairro Cidade Baixa em Porto Alegre, o O padre António Machado enfrentava o dilema mais perturbador dos seus 23 anos de sacerdócio. Sentado no seu gabinete na igreja do Rosário, com as mãos trémulas, segurando uma chávena de café já frio, ele contemplava o arquivo de certidões de óbito que havia reunido ao longo dos últimos meses.

Cinco nomes masculinos, cinco cerimónias fúnebres, todos ligados à mesma mulher. Isaura Correia da Silva tinha 41 anos quando chegou ao bairro em 1962. Vinda do interior de Pelotas, trazia consigo apenas uma mala de couro gasto e a reputação de viúva enlutada. Os vizinhos da rua Lopo Gonçalves recordavam a sua chegada numa tarde chuvosa de Março, quando alugou um sobrado de dois pisos com janelas viradas para o pátio da igreja.

Era uma mulher de estatura média, cabelo escuros, sempre apanhados em coque baixo, que usava exclusivamente roupas pretas e falava com um sotaque característico da campanha gaúcha. O primeiro a se interessar por Isaura foi Joaquim Santos, marceneiro de 52 anos, que morava dois quarteirões adiante, na rua João Alfredo.

Homem viúvo há 3 anos, tinha-se habituado à solidão até avistar Isaura durante as missas dominicais. Começaram a conversar após os cultos, caminhadas que se estendiam pelas tardes de outono. Os vizinhos notavam como Joaquim parecia rejuvenecer, assobiando melodias enquanto trabalhava na sua oficina de madeira. Em dezembro desse mesmo ano, procurou o padre António para solicitar os papéis do casamento.

A cerimónia foi marcada para janeiro de 1963. Isaura aparentava uma felicidade discreta, cumprimentando os convidados com sorrisos contidos. Joaquim, por sua vez, não conseguia disfarçar a euforia. Durante o banquete realizado no salão paroquial, alguns presentes comentaram sobre a diferença de temperamento entre os noivos.

Ela permanecia silenciosa na maior parte do tempo, respondendo apenas quando diretamente questionada. Falava por ambos, descrevendo planos para renovar a casa e ampliar a marcenaria. A lua-de-mel durou exatamente 16 dias. Em 17 de janeiro, Joaquim foi encontrado morto na sua cama pelo aprendiz da marcenaria, que tinha ido buscá-lo para o trabalho.

O corpo estava frio, sem sinais exteriores de violência. O médico municipal, Dr. Renato Pereira, emitiu a certidão de óbito indicando morte natural por paragem cardíaca. Isaura, que tinha passado a noite em casa de uma tia, no bairro Menino Deus, demonstrou um pesar adequado durante o velório e o funeral. Vestida de negro rigoroso, ela recebia os pêames com dignidade silenciosa.

Três meses após o funeral de Joaquim, Isaura começou a frequentar a missa das 7 da manhã, hora a que a igreja recebia sobretudo comerciantes e trabalhadores que iniciavam o seu horário de trabalho cedo. Foi assim que conheceu António Vargas, proprietário de um açoug na rua da praia. Homem robusto, de 46 anos, nunca se tinha casou por se dedicar integralmente ao negócio herdado do pai.

A cortejo seguiu padrão semelhante ao anterior: conversas após a missa, passeios pelas redondezas, visitas a casa de Isaura nos fins de semana. Em setembro de 1963, António procurou o padre António para os preparativos matrimoniais. Durante as conversas prénupciais, o pároco notou que Zaura respondia de forma mecânica às questões sobre os deveres conjugais e a vida familiar.

As suas respostas eram tecnicamente corretas, mas desprovidas de qualquer entusiasmo ou emotividade genuína. António Vargas, entretanto, parecia completamente absorvido pela perspectiva do casamento, chegando a expandir o açoug e contratar um funcionário adicional para ter mais tempo livre. O segundo casamento de Isaura foi celebrado em outubro desse ano.

A cerimónia decorreu sem incidentes, mas alguns convidados mais atentos notaram que a noiva mantinha a mesma expressão impassível durante toda a celebração. António Vargas morreu na sua lua-de-mel 22 dias após o casamento. Desta vez, o corpo foi encontrado por Isaura, que relatou a polícia ter acordado durante a madrugada e percebido que o marido não respirava.

Novamente, o O Dr. Renato Pereira concluiu por morte natural, atribuindo o falecimento a uma possível embolia pulmonar. Durante o velório de António Vargas, algumas senhoras do bairro começaram a comentar em sussurro sobre a coincidência. duas mortes em menos de um ano, ambos de homens saudáveis ​​que tinham casado com a mesma mulher.

O padre António, que celebrara ambas as cerimónias, começou a sentir uma inquietação que não conseguia nomear. Observava durante os cultos e notava como ela parecia alheia aos comentários e olhares que recebia. A sua devoção mantinha-se inabalável, participando de todas as atividades religiosas com a mesma regularidade de sempre.

O terceiro pretendente surgiu no início de 1964. Carlos Bittencur era funcionário da câmara municipal, trabalho que exercia há 15 anos no setor das obras públicas. Homemdico de 43 anos, vivia sozinho numa casa na rua Fernandes Vieira desde a morte da mãe, dois anos antes. Começou a reparar em Isaura durante as missas vespertinas de domingo e iniciou gradualmente conversas cordiais após os cultos.

O relacionamento seguiu o padrão já estabelecido. Encontros regulares, passeios pelo bairro, visitas supervisionadas. Carlos era diferente dos antecessores pela sua natureza mais reservada e analítica. Fazia perguntas específicas sobre o passado de Isaura, interessando-se pelos pormenores da sua vida em Pelotas e pelas circunstâncias que a trouxeram a Porto Alegre.

Ela respondia com a mesma parcimónia de sempre, fornecendo informações básicas, sem elaborar pormenores ou demonstrar emoção. Durante as conversas pré-matrimoniais com o padre António, Carlos referiu a sua preocupação com as mortes dos anteriores maridos, mas concluía sempre que eram coincidências lamentáveis ​​da vida.

O casamento foi celebrado em março de 1964. O padre António notou que a congregação estava visivelmente mais pequeno. Muitos dos habituais participantes preferiram não comparecer à cerimónia. Carlos Bittenencurt morreu 27 dias após o casamento. A sua irmã, que morava em Caxias do Sul e tinha vindo para a cerimónia, exigiu que fosse realizada uma necrópsia mais detalhada. O Dr.

Renato Pereira, pressionado pela família do falecido, solicitou análises laboratoriais mais específicas, mas os resultados não indicaram a presença de substâncias tóxicas conhecidas. A morte de Carlos Bitencur marcou o início da uma mudança na perceção da comunidade local sobre Isaura. As conversas em Os sussurros tornaram-se mais frequentes e diretas.

Alguns comerciantes do bairro começaram a evitá-la, mudando de passeio quando se haviam aproximar. O padre António decidiu investigar discretamente os antecedentes de Isaura, enviando cartas aos párocos de Pelotas para obter informações sobre a sua vida anterior. As respostas chegaram em maio desse ano. O padre Benedito Oliveira da Sé de Pelotas confirmou que Isaura se tinha casou três vezes na cidade entre 1955 e 1961.

Todos os três maridos tinham morrido em circunstâncias semelhantes, morte súbita durante o primeiro mês de casamento, sem sinais externos de violência atribuídos a causas naturais pelos médicos locais. A documentação anexa às cartas incluía certidões de óbito e registos paroquiais que corroboravam o padrão repetitivo.

O quarto pretendente apareceu no final de 1964. Mário Teixeira era reformado da aviação férrea, homem de 58 anos que tinha regressou a Porto Alegre após trabalhar durante duas décadas em cidades do interior do Estado. Havia perdido a esposa por pneumonia 3 anos antes e procurava companhia para os anos finais de vida.

Diferentemente dos anteriores, O Mário tinha uma pensão confortável e propriedades rurais em Gravataí, o que o tornava pretendente e economicamente atrativo. O relacionamento com Mário seguiu o padrão estabelecido, mas com uma diferença significativa. Insistia em conhecer melhor o passado de Isaura antes de formalizar qualquer compromisso.

durante seis meses fez perguntas detalhadas sobre a sua família, as suas origens, os motivos de tantos casamentos e óbitos. Isaura respondia com evasivas educadas, mudando de assunto ou alegando dificuldades em recordar pormenores dolorosos. Mário, entretanto, parecia satisfeito com as explicações e decidiu prosseguir com os planos matrimoniais.

O casamento foi celebrado em janeiro de 1965. A cerimónia contou com uma presença mínima: apenas os noivos, duas testemunhas obrigatórias e o padre António. A comunidade local havia na prática boicotado o evento. Durante a cerimónia, o pároco notou como as suas próprias mãos tremiam ao proferir os votos matrimoniais.

Começava a suspeitar que estava participando em algo profundamente errado, mas não possuía evidência concretas para fundamentar as suas preocupações. Mário Teixeira morreu 31 dias após o casamento. O corpo foi encontrado por Isaura na manhã seguinte, nas mesmas circunstâncias dos casos anteriores. Desta vez, porém, o Dr.

Renato Pereira decidiu solicitar uma investigação mais rigorosa, incluindo análises toxicológicas avançadas em laboratórios de São Paulo. Os resultados demoraram seis semanas a chegar e, novamente, não indicaram a presença de venenos conhecidos ou substâncias que pudessem causar morte súbita. A morte de Mário Teixeira provocou uma reação diferente na comunidade.

Alguns vizinhos começaram a fazer comentários abertos sobre a maldição que parecia acompanhar Isaura. Outros sugeriam o envolvimento com práticas de feitiçaria ou feitiçaria. O O padre António, entretanto, mantinha-se cético em relação a explicações sobrenaturais e começou a documentar sistematicamente todas as informações disponíveis sobre os casos.

Durante o Inverno de 1965, Isaura diminuiu a sua frequência nas missas e aparições públicas. quando saía de casa, era para atividades essenciais, como compras de mantimentos ou visitas médicas. Ela parecia consciente da crescente hostilidade da vizinhança, mas mantinha a mesma compostura serena de sempre. O padre António visitava-a quinzenalmente, ostensivamente para oferecer conforto espiritual, mas na realidade para observar o seu comportamento e procurar pistas sobre a sua verdadeira natureza.

O quinto e último pretendente surgiu no início de 1966. Eduardo Silveira era comerciante de tecidos, proprietário de uma loja na rua dos Andradas, que herdara do sogro após a morte da primeira mulher 5 anos antes. Homem de 49 anos, tinha três filhos adultos que viviam noutras cidades. Eduardo conhecia os rumores sobre Isaura, mas considerava-os superstições de pessoas ignorantes.

aproximou-se dela gradualmente, demonstrando interesse genuíno pela sua pessoa e desconsiderando completamente os comentários maliciosos da vizinhança. Durante os meses de cortejo, Eduardo fez questão de investigar pessoalmente os antecedentes de Isaura. viajou a Pelotas, conversou com antigos vizinhos, examinou documentos e certidões.

Concluiu que era vítima de uma extraordinária sequência de coincidências trágicas e que os boatos locais eram produto de mentes supersticiosas e malévolas. A sua determinação em defendê-la publicamente criou divisões ainda maiores na comunidade, com alguns apoiando a sua posição racional e outros considerando-o ingénuo ou enfeitiçado.

O O casamento de Isaura com Eduardo foi realizado em Abril de 1966. A cerimónia decorreu numa atmosfera de tensão palpável. O padre António, que tinha tentado dissuadir Eduardo nas semanas anteriores, celebrou a união com evidente relutância. Durante a homilia, fez referências veladas aos perigos de ignorar os sinais que a providência envia aos homens.

Eduardo, entretanto, manteve-se firme na sua decisão, demonstrando carinho genuíno por Isaura durante toda a cerimónia. Eduardo Silveira morreu 29 dias após o casamento. A diferença desta vez foi que a sua morte não passou despercebida às autoridades locais. O delegado Osvaldo Ferreira, que tinha acompanhado os casos anteriores com crescente suspeição, ordenou uma investigação formal imediatamente após o falecimento.

Isaura foi interrogada durante três dias consecutivos, respondendo a todas as perguntas com a mesma calma e coerência de sempre. As suas respostas eram consistentes, as suas explicações plausíveis, a sua conduta irrepreensível. As análises forenses ao corpo de Eduardo foram as mais detalhadas realizadas até então.

Médicos-legistas de Porto Alegre e especialistas de São Paulo examinaram todos os órgãos, analisaram fluidos corporais, investigaram possíveis vestígios de substâncias orgânicas e sintéticas. O processo durou 4 meses e custou uma quantia considerável aos cofres públicos. O resultado final foi idêntico aos anteriores, morte por causas naturais, sem indícios de envenenamento ou violência física.

O O padre António, entretanto, não se conformava-se com a ausência de evidências materiais. Durante os meses seguintes à morte de Eduardo, iniciou uma investigação pessoal mais profunda sobre a história de Isaura. estabeleceu correspondência com párocos de várias cidades do Rio Grande do Sul, procurando vestígios da sua passagem em outras localidades.

Gradualmente, começou a descobrir um padrão que se estendia muito para além de Pelotas e Porto Alegre. As cartas que recebia ao longo do final do 1966 e início de 67 revelavam uma história aterrorizante. Isaura tinha transitado por pelo menos sete cidades diferentes entre 1948 e 1962. Em cada localidade casara com homens de meia idade, viúvos ou solteiros, todos com alguma estabilidade financeira.

Em todos os casos, os maridos morriam dentro do primeiro mês de casamento, em circunstâncias idênticas às observadas em Porto Alegre. O padre Benedito Oliveira de Pelotas enviou documentação adicional que tinha solicitado aos cartórios locais. Os registos revelavam que Isaura sempre herdava os bens dos maridos falecidos, mas nunca permanecia tempo suficiente para os usufruir completamente.

Vendia as propriedades rapidamente por valores abaixo do mercado e desaparecia da cidade no prazo de seis meses após a morte do cônjuge. O padrão era consistente e repetitivo. casamento, morte, herança, venda, mudança. Em fevereiro de 1967, o padre António recebeu uma carta do padre Jerónimo Costa de Santa Maria, que mudaria completamente a sua compreensão do caso.

O pároco informava que havia encontrados registos de uma mulher com características idênticas às de Isaura, que tinha atuado na cidade entre 1938 e 1942. O nome registado era diferente, Maria Conceição dos Santos, mas a descrição física, a idade aparente e o padrão de comportamento eram absolutamente idênticos. A descoberta do padre Jerónimo levantava uma possibilidade perturbadora.

Se as datas estivessem corretas, o mulher identificada como Maria Conceição teria atualmente mais de 65 anos. Isaura, no entanto, aparentava ter no máximo 45 anos quando chegou ao Porto Alegre em 1962. Isto implicava duas possibilidades igualmente inquietantes. Ou os registos estavam incorretos ou havia algo fundamentalmente antinatural na cronologia da vida de Isaura.

O padre António decidiu confrontar Isaura com estas descobertas. Marcou um encontro em o seu gabinete sob o pretexto de discutir assuntos relacionados com a sua participação nas atividades paroquiais. Durante a conversa, apresentou gradualmente as provas que havia recolhido, os registos de pelotas, as correspondências de outros párocos, o padrão repetitivo de casamentos e mortes.

Isaura ouviu tudo em silêncio, com a mesma expressão serena de sempre. Quando o padre terminou a sua exposição, Isaura permaneceu em silêncio durante vários minutos. Depois, com voz calma e pausada, confirmou a veracidade de todas as as informações apresentadas. Admitiu ter casado com 16 homens ao longo de quase 30 anos, seguindo sempre o mesmo padrão.

Confirmou que todos os tinham morrido dentro do primeiro mês de casamento e que ela sempre herdara os seus bens. Confirmou também que mudava de cidade regularmente para evitar suspeitas e investigações. A confissão de Exaura, porém, não incluía a admissão de culpa ou método. Quando questionada sobre como os homens morriam, ela simplesmente respondia que não sabia.

afirmava que acordava pela manhã e encontrava os maridos mortos ao seu lado. Nunca tinha administrado medicamentos, venenos ou qualquer substância. Nunca havia empregado violência física. Os homens simplesmente deixavam de respirar durante o sono, sempre na segunda ou terceira semana após o casamento. O padre António perguntou se ela sentia remorsos ou culpa pelas mortes.

Isaura respondeu que se sentia-se triste pela perda de companhia, mas não se considerava responsável pelos falecimentos. Segundo a sua perceção, ela era uma mulher destinada à viuvez, alguém que trazia infortúnio, involuntário aos homens que se aproximavam dela. Não escolhia conscientemente causar mortes, mas tinha aprendido a aceitar que era a sua natureza inevitável.

A explicação de Isaura sobre a sua idade aparente também era perturbadora. Ela afirmava ter 57 anos, apesar de aparentar pelo menos 10 anos menos. Atribuía isso a vida regrada, alimentação simples e ausência de vícios como o álcool ou o tabaco. Segundo ela, a constante mudança de cidades e a vida sem grandes preocupações financeiras contribuíam para preservar a sua aparência jovem.

O padre António, entretanto, sabia que estas explicações não eram suficientes para justificar a A discrepância cronológica identificada nos registos de Santa Maria. Durante Março de 1967, o padre António agonizou sobre o que fazer com a informação obtida. Legalmente não havia evidência de crime. Moralmente acreditava estar perante algo profundamente maligno.

Mesmo que não conseguisse compreender completamente a sua natureza, decidiu procurar orientação do arcebispo Dom Vicente Sherer, relatando todo o caso, sem omitir pormenores. O arcebispo ouviu o relato completo durante as sessões privadas na sua residência. Após consultar documentos canónicos e conversar com outros membros do clero, Dom Vicente decidiu que o caso exigia intervenção eclesiástica formal.

Ordenou que Isaura fosse submetida a exames espirituais conduzidos por um padre, especializado em casos extraordinários. enviado especialmente de São Paulo para esta finalidade. O padre Estevão Rodrigues chegou a Porto Alegre em abril de 1967. Especialista em fenómenos anómalos e casos que envolviam possível influência diabólica, conduziu uma série de entrevistas e observações de Isaura durante duas semanas.

O seu relatório final, enviado diretamente ao arcebispo, concluía que não havia evidência de possessão demoníaca, bruxaria ou qualquer fenómeno sobrenatural identificável. Segundo o padre Stevão, Isaura apresentava características psicológicas extremamente incomuns, mas não necessariamente patológicas, no sentido médico tradicional.

Ela demonstrava ausência quase total de empatia emocional, capacidade anormal de manipulação interpessoal e uma frieza interior que poderia ser interpretada como psicopatia grave. Entretanto, a sua inteligência era normal, a sua consciência da realidade estava preservada e ela não apresentava delírios ou alucinações. O relatório do padre Estevan incluía uma recomendação perturbadora.

Isaura deveria ser afastada do convívio social normal, não por representar perigo imediato identificável, mas por a sua mera presença parecer exercer influência destrutiva sobre os homens vulneráveis. Ele não conseguia explicar o mecanismo pelo qual os maridos morriam, mas era convencido de que existia uma ligação causal entre os casamentos e os falecimentos.

Em maio de 1967, o arcebispo Dom Vicente tomou uma decisão sem precedentes na história da Arquidiocese de Porto Alegre. ordenou que Isaura fosse isolada num convento de clausura em Bento Gonçalves, sob supervisão das irmãs da Congregação do Imaculado Coração de Maria. A medida não tinha um caráter punitivo formal, sendo apresentada como uma oportunidade para reflexão espiritual e o afastamento das tentações mundanas.

Isaura aceitou a determinação, sem protestos ou resistência. Em junho desse ano, acompanhada pelo padre António e duas freiras da congregação, viajaram para Bento Gonçalves, onde passaria o resto da sua vida em isolamento voluntário. O convento era uma construção austera do século XIX, situada numa colina afastada da cidade, rodeada por vinhas e floresta autóctone.

Durante os dois anos seguintes, o padre António manteve correspondência regular. com a madre superiora do convento, a irmã Catarina dos Santos, acompanhando a adaptação de Isaura à vida religiosa. Os relatos eram invariavelmente positivos. Ela participava em todas as atividades espirituais, demonstrava obediência exemplar, ajudava nos trabalhos domésticos sem queixas.

parecia ter encontrou a paz na vida contemplativa e nunca manifestou desejo de regressar ao mundo exterior. Em setembro de 1969, a Irmã Catarina enviou uma carta perturbadora ao padre António. Isaura tinha morrido durante o sono, nas mesmas circunstâncias misteriosas que caracterizaram as mortes dos seus maridos.

Na manhã anterior tinha participado normalmente em todas as atividades religiosas, conversando cordialmente com as outras freiras durante o jantar. Quando não apareceu para as orações matinais, encontraram-na morta na sua cela, sem sinais de doença ou sofrimento. O médico, que examinou o corpo de Isaura concluiu pela morte natural, provavelmente devido à paragem cardíaca.

Não havia indícios de violência, envenenamento ou qualquer anormalidade física que pudesse explicar o falecimento súbito. Foi sepultada no cemitério do convento numa cerimónia simples, com presença apenas das freiras da congregação. O padre António não compareceu ao funeral, alegando compromissos inadiáveis ​​na paróquia.

Anos depois, quando o padre António já tinha sido transferido para outra diocese, soube que o túmulo de Isaura se tornara objeto de curiosidade mórbida. Alguns moradores locais afirmavam que flores colocadas sobre a sepultura murchavam rapidamente, independentemente da época do ano ou das condições climáticas.

Outros relatavam sensações de mal-estar ao aproximar-se do local. A madre superiora ordenou que o túmulo fosse mantido sem identificação e que Os visitantes externos fossem desencorajados. O caso de Isaura Correa da Silva nunca foi oficialmente solucionado. Os Os arquivos da investigação policial foram classificados como morte natural por causa indeterminada e transferidos para os arquivos mortos da esquadra central de Porto Alegre.

Os registos paroquiais foram selados por ordem do arcebispo e depositados nos arquivos diocesanos, com acesso restrito a investigadores autorizados. O padre António nunca mais falou publicamente sobre o caso, mesmo após a sua reforma. Décadas mais tarde, quando jovens investigadores da Pontifícia Universidade Católica iniciaram um projeto sobre fenómenos anómalos na história regional, encontraram referências dispersas ao caso nos arquivos diocesanos.

Entretanto, a maior parte da documentação havia desaparecido ou sido destruída durante uma reorganização administrativa em 1975. Restavam apenas fragmentos, alguns cartas, certidões de óbito e relatórios incompletos. Em 1982, um jornalista de investigação do jornal O Zero Hora tentou reconstituir a história de Isaura para uma série de reportagens sobre crimes não resolvidos.

Conseguiu localizar o padre António, já reformado, e vivendo numa casa de repouso em Caxias do Sul. O ancião sacerdote, então com 83 anos, recusou-se terminantemente a comentar o assunto, limitando-se a dizer que alguns mistérios era melhor permanecerem enterrados. A casa onde Isaura viveu na rua Lopo Gonçalves foi demolida em 1978 para a construção de um edifício residencial.

Durante as escavações para os alicerces, os operários encontraram objetos pessoais enterrados no quintal, alianças de casamento, alianças, pequenas jóias e documentos parcialmente decompostos. O material foi entregue à polícia, mas nunca foram identificados os proprietários originais. Os objetos permaneceram no depósito da esquadra até serem descartados numa limpeza geral em 1985.

O convento de Bento Gonçalves, onde Zaura passou os seus últimos anos, foi desativado em 1993. As freiras da congregação foram transferidas para outras unidades e o edifício vendido a uma empresa de vinícolas. Durante a reforma para transformar o local numa pousada turística, o cemitério conventual foi esumado e os restos mortais transferidos para o cemitério municipal da cidade.

O túmulo de Isaura estava vazio quando foi aberto, fenómeno atribuído pelas autoridades à decomposição acelerada devido às condições do solo. Hoje, mais de 50 anos depois dos acontecimentos, o bairro A Cidade Baixa mantém poucos vestígios da época em que Isaura ali viveu. A igreja do Rosário ainda funciona, mas com congregação muito mais pequena.

Moradores antigos mencionam ocasionalmente histórias sobre uma viúva misteriosa que trouxe infortúnio aos homens do bairro, mas os pormenores foram sendo distorcidos pelas sucessivas recontagens. transformando-se numa lenda urbana sem base factual aparente. Os ficheiros policiais sobre o caso foram digitalizados em 2008 e transferidos para a base de dados do Instituto Geral de Perícias.

Os investigadores que tiveram acesso aos documentos notaram inconsistências cronológicas e lacunas nas investigações que tornam impossível uma reconstituição precisa dos acontecimentos. Alguns especulam que as evidências importantes foram deliberadamente omitidas ou destruídas, mas não há provas dessa conspiração. Fim da narrativa é muito pequeno.

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Continuarei a partir de onde parei. Bem-vindo a esta viagem por um dos casos mais macabros e aterradores da história de Porto Alegre. Antes de começar, convido-te a deixar nos comentários aqui em baixo de onde está a ver este vídeo e a que horas. E também, se gosta de histórias como esta, subscreva o canal para mais casos diários.

Pronto, agora aumente o volume e vamos começar. No Outono de 1967, quando as folhas amareladas dos plátanos começavam a cobrir as ruas empedradas do bairro Cidade Baixa em Porto Alegre, o O padre António Machado enfrentava o dilema mais perturbador dos seus 23 anos de sacerdócio. Sentado no seu gabinete na igreja do Rosário, com as mãos trémulas, segurando uma chávena de café já frio, ele contemplava o arquivo de certidões de óbito que havia reunido ao longo dos últimos meses.

Cinco nomes masculinos, cinco cerimónias fúnebres, todos ligados à mesma mulher. Isaura Corrêa da Silva tinha 41 anos quando chegou ao bairro em 1962. Vinda do interior de Pelotas, trazia consigo apenas uma mala de couro gasto e a reputação de viúva enlutada. Os vizinhos da rua Lopo Gonçalves recordavam a sua chegada numa tarde chuvosa de Março, quando alugou um sobrado de dois pisos com janelas viradas para o pátio da igreja.

Era uma mulher de estatura média, cabelo escuros, sempre apanhados em coque baixo, que usava exclusivamente roupas pretas e falava com um sotaque característico da campanha gaúcha. O sobrado que Isaura escolheu para residir tinha uma história peculiar que poucos conheciam. Construído em 1892 pelo comerciante português, Manuel Tavares, tinha albergado três famílias diferentes ao longo dos anos, todas marcadas por tragédias inexplicáveis.

A primeira família, os Tavares, perdeu dois filhos em acidentes domésticos sucessivos entre 1895 e 1897. A segunda, Os Oliveira, mudou-se após apenas 6 meses devido a perturbações noturnas que nunca conseguiram identificar. A terceira família, os Cardoso, aí residiu durante quase 20 anos sem incidentes até se mudarem para São Paulo em 1961.

Quando Isaura visitou a propriedade pela primeira vez, acompanhada do corretor de imobiliário, Sebastião Fernandes, ela percorreu todos os quartos em silêncio absoluto, tocando as paredes com as palmas das mãos, como se estivesse sentindo algo que escapava aos sentidos comuns.

O corretor, homem experiente de 55 anos, relatou posteriormente aos vizinhos que nunca tinha visto uma arrendatária examinar uma casa com tanta minúcia, sobretudo os quartos e o porão, onde permaneceu durante quase 20 minutos sem pronunciar uma palavra. O primeiro a interessar-se por Isaura foi Joaquim Santos, marceneiro de 52 anos, que morava dois quarteirões adiante, na rua João Alfredo.

Homem viúvo há 3 anos, tinha-se habituado à solidão até avistar Isaura durante as missas dominicais. Joaquim possuía uma oficina de madeira que herdara do pai, um alemão que se estabeleceu no Porto Alegre no início do séc. A oficina funcionava no térrio da sua residência, uma casa térrea de tijolo à vista com telhado de duas águas construídas seguindo o modelo tradicional dos imigrantes europeus.

A marcenaria de Joaquim era conhecida na região pela qualidade dos móveis por medida e trabalhos de restauro. Tinha aprendido o ofício ainda menino, observando o pai transformar tábuas em bruto em peças de mobiliário que duravam gerações. As suas mãos calejadas conheciam cada tipo de madeira pelo toque, cada ferramenta pelo peso, cada técnica de acabamento pela tradição familiar.

Durante os três anos de viuvez, trabalhou com intensidade obsessiva, como se o ruído das ferramentas pudesse abafar a solidão que tomou conta da casa após a morte de Estela, sua esposa. Começaram a conversar após os cultos, passeios que estendiam-se pelas tardes de outono. Os vizinhos notavam como Joaquim parecia rejuvenecer, assobiando melodias enquanto trabalhava na sua oficina de madeira.

Pela primeira vez em anos, ele passou a fazer a barba diariamente, a trocar de roupa após o trabalho e até mesmo comprou um frasco de água-de-colónia na farmácia da esquina. Dona Mercedes Pereira, que morava em frente à marcenaria, comentava com as outras senhoras da rua como era tocante ver um homem a redescobrir a alegria de viver. Em dezembro desse mesmo ano, procurou o padre António para solicitar os papéis do casamento.

Durante a conversa no gabinete paroquial, Joaquim falou com entusiasmo sobre os planos que havia feito para o futuro. Pretendia alargar a oficina, contratar um aprendiz e até mesmo construir um segundo andar na casa para acomodar a nova esposa. havia poupado dinheiro suficiente durante os anos de viuvez e sentia-se financeiramente preparado para recomeçar a vida matrimonial.

O padre António, que conhecia Joaquim desde a sua chegada à paróquia 15 anos antes, notou uma transformação radical no comportamento do marceneiro. O homem antes taciturno e introvertido, mostrava-se agora falador e otimista, fazendo planos detalhados para o futuro com uma excitação que roçava a euforia.

Quando questionado sobre Isaura, as suas respostas eram evasivas, mas entusiasmadas, como se ela possuísse qualidades que não conseguia expressar por palavras. A cerimónia foi agendada para janeiro de 1963. Isaura aparentava uma felicidade discreta, cumprimentando os convidados com sorrisos contidos. A lista de convidados era modesta, alguns vizinhos próximos, colegas de trabalho de Joaquim e as poucas pessoas que Isaura tinha conhecido durante os seus meses no Porto Alegre.

Ela não tinha mencionado familiares em pelotas que pudessem comparecer, alegando que preferia uma cerimónia simples e íntima. Durante os preparativos da cerimónia, o O padre António conduziu as conversas pré-matrimoniais obrigatórias. Isaura participava nos encontros com pontualidade, mas as suas respostas às questões sobre a vida conjugal e os planos familiares eram tecnicamente corretas, sem demonstrar entusiasmo genuíno.

Quando questionada sobre o seu primeiro casamento, ela fornecia informações básicas sobre o falecido marido, um comerciante de pelotas que tinha morrido de pneumonia, mas evitava detalhes emocionais ou pessoais. Joaquim, por sua vez, mostrava-se ansioso por discutir cada aspecto da vida matrimonial. falava sobre os móveis que pretendia construir para a casa, as melhorias que iria fazer na propriedade e até mesmo sobre a possibilidade de ter filhos, apesar da idade avançada de ambos.

O padre notou que enquanto Joaquim planeava o futuro com um entusiasmo quase infantil, Isaura simplesmente concordava com um sorriso educado, mas distante. A cerimónia decorreu sem incidentes. Isaura usava um vestido cinzento escuro. Não seria apropriado usar branco numa segunda união”, explicou. e uma pequena tiara de flores brancas que Joaquim tinha encomendado especialmente na florista da rua dos Andradas.

Joaquim vestia o seu único fato comprado especialmente para a ocasião e transportava uma aliança de ouro que tinha forjado pessoalmente na sua oficina, gravando as iniciais de ambos no interior da jóia. Durante o banquete realizado no salão paroquial, alguns presentes comentaram sobre a diferença de temperamento entre os noivos.

Ela permanecia silenciosa na maior parte do tempo, respondendo apenas quando diretamente questionada. Ele falava por ambos, descrevendo planos para renovar a casa e ampliar a marcenaria. A Dona Mercedes observou que Isaura apenas tocava na comida no prato, comendo pequenas porções com movimentos mecânicos. enquanto mantinha o olhar fixo em algum ponto distante, a lua de mel durou exatamente 16 dias.

Joaquim tinha planeado uma viagem para Gramado, mas Isaura sugeriu que permanecessem em Porto Alegre, conhecendo pontos turísticos da cidade e aproveitando para organizar a casa. Passaram os primeiros dias a visitar o mercado público, o Teatro São Pedro e fazendo longas passeios pelo centro histórico. Joaquim mostrava-se radiante, apresentando exaura aos comerciantes que conhecia e falando com orgulho sobre a sua nova esposa.

A 17 de janeiro, Joaquim foi encontrado morto na sua cama pelo aprendiz da marcenaria António Carlos Rodrigues, que o tinha ido buscar para o trabalho. Era um rapaz de 18 anos que trabalhava com Joaquim há do anos, aprendizagem do ofício da marcenaria. António Carlos tinha o hábito de chegar à oficina às 7 da manhã e quando Joaquim não apareceu até às 8 horas, decidiu procurá-lo na residência.

O corpo estava frio, sem sinais exteriores de violência. Joaquim jazia no leito matrimonial em posição natural, como se tivesse morrido durante o sono. As suas roupas de dormir estavam arranjadas, o rosto sereno, as mãos cruzadas sobre o peito, numa posição que poderia ter sido natural ou arranjada pós mortem.

Não havia indícios de luta, objetos partidos ou qualquer perturbação no quarto que sugerisse morte violenta. O médico municipal, Dr. Renato Pereira, emitiu a certidão de óbito, indicando morte natural por paragem cardíaca. O Dr. Renato era formado pela Faculdade de Medicina do Porto Alegre, com 28 anos de experiência em medicina legal.

tinha atendido centenas de casos de morte súbita ao longo da sua carreira e considerou o falecimento de Joaquim dentro dos padrões normais para um homem de 52 anos que trabalhava com esforço físico intenso. Isaura, que tinha passado a noite em casa de uma tia no bairro do Menino Deus, demonstrou pesar adequado durante o velório e o enterro.

A tia em questão era a dona Joana Ferreira, viúva de 68 anos que Isaura tinha conhecido através de conhecidos comuns na igreja. A Dona Joana confirmou que Isaura tinha chegado a sua casa por volta das 9 da noite anterior, explicando que Joaquim tinha bebido um pouco demais durante o jantar e que preferia deixá-lo descansar sozinho.

Vestida de negro rigoroso, recebia os pêames com silenciosa dignidade. Durante o velório, que durou duas noites, segundo o costume local, Isaura permaneceu junto do caixão, recebendo as condolências dos presentes. Suas lágrimas eram discretas e apropriadas, o seu comportamento exemplarmente digno. Vários presentes comentaram a admirável compostura da jovem viúva perante uma perda tão súbita e inesperada.

O funeral realizou-se no cemitério da Santa Casa com inumação na parte reservada aos católicos. O padre António conduziu a cerimónia fúnebre, observando atentamente o comportamento de Isaura durante toda a celebração. Ela acompanhou cada momento do ritual com atenção respeitosa, respondendo às orações no momento adequado, mantendo-se sempre próxima do caixão até ao momento do enterramento final.

Três meses após o funeral de Joaquim, Isaura começou a frequentar a missa das 7 da manhã, hora a que a igreja recebia sobretudo comerciantes e trabalhadores que iniciavam o seu horário de trabalho cedo. era um grupo mais pequeno e mais íntimo que a Congregação Dominical, composta basicamente por pessoas que procuravam um momento de reflexão antes de enfrentar as responsabilidades diárias.

Foi assim que conheceu Antônio Vargas, proprietário de um açoug. Homem robusto de 46 anos, nunca se tinha casou por se dedicar integralmente ao negócio herdado do pai. O açog Vargas funcionava há 23 anos no mesmo local. Uma loja estreita, mas bem organizada, com balcões de mármore e ganchos de ferro, onde penduravam as carnes frescas.

O António levantava todos os dias às 5 da manhã para ir ao mercado público comprar a mercadoria, regressando à loja antes das 7 para abrir o estabelecimento. A rotina de António era rigorosamente planejada. Após a missa da manhã, trabalhava no talho às 17 horas, quando fechava o estabelecimento e regressava a sua casa na rua General Paranhos.

Vivia sozinho numa casa térrea, herdada dos pais, onde mantinha uma vida simples e ordenada. Jantava sempre no mesmo restaurante da rua dos Andradas. lia o jornal Correio do Povo antes de dormir e aos domingos visitava o túmulo dos pais no cemitério da redenção. O cortejo seguiu um padrão semelhante ao anterior: conversas após a missa, passeios pelas redondezas, visitas a casa de Isaura nos fins de semana.

António demonstrava uma adoração quase infantil por Isaura, presenteando-a com flores toda quinta-feira e pequenos presentes que comprava nas lojas do centro. Ela recebia as atenções com gratidão educada, mas sem a reciprocidade emocional que parecia esperar. Durante os passeios dominicais, António falava sobre os seus planos para expandir o açou, talvez abrir uma segunda loja na zona norte da cidade.

Mencionava a possibilidade de contratar colaboradores para ter mais tempo livre, viajar com Isaura para conhecer outras cidades, talvez até mudar-se para uma casa maior no bairro dos Moinhos de Vento. Aura ouvia com aparente atenção, fazendo comentários apropriados, mas nunca contribuindo com sugestões ou demonstrando entusiasmo pelos planos propostos.

Em setembro de 1963, António procurou o padre António para os preparativos matrimoniais. Durante as conversas prénupciais, o pároco notou que Isaura respondia de forma mecânica às questões sobre os deveres conjugais. e a vida familiar. As suas respostas eram tecnicamente corretas, mas desprovidas de qualquer entusiasmo ou emotividade genuína.

Quando questionada sobre as suas experiências no primeiro casamento, ela fornecia respostas vagas sobre ajustar-se às necessidades do marido e manter a harmonia doméstica. António Vargas, entretanto, parecia completamente absorvido pela perspectiva do casamento. Durante as sessões preparatórias, falava com pormenor sobre as remodelações que pretendia fazer na casa, os móveis que compraria e até sobre a possibilidade de ter filhos.

chegou a expandir o açoug e a contratar um funcionário adicional para ter mais tempo livre após o casamento. Comprou utensílios domésticos novos, mandou pintar a casa toda e até instalou um telefone, luxo raro na época, para que Isaura pudesse manter contacto com amigas e conhecidos. O segundo casamento de Isaura foi celebrado em outubro desse ano.

A cerimónia decorreu sem incidentes, mas alguns convidados mais atentos notaram que a noiva mantinha a mesma expressão impassível durante toda a celebração. A Dona Mercedes, que havia Assistiu também ao primeiro casamento, comentou posteriormente que Isaura parecia estar a cumprir uma obrigação social, em vez de celebrando uma união por amor.

Durante a celebração, o padre António observou discretamente o comportamento de Isaura. Ela seguia todos os rituais com precisão mecânica, respondendo às questões no momento correto, sorrindo quando apropriado, mas os seus olhos permaneciam vazios de qualquer emoção genuína. Era como assistir a uma atriz experiente, representando um papel que conhecia perfeitamente, mas em que não acreditava.

O banquete foi realizado no mesmo salão paroquial do casamento anterior. António havia encomendado um jantar mais elaborado, com pratos que incluíam carnes especiais do seu próprio açogue. Ele circulava entre os convidados, recebendo cumprimentos e falando animadamente sobre os planos para a lua-de-mel. Isaura, sentada à mesa principal, comia pequenas porções e respondia educadamente quando abordada, mas não iniciava conversas, nem demonstrava interesse espontâneo pelas celebrações.

António Vargas morreu em a sua lua-de-mel, 22 dias após o casamento. O casal tinha decidido passar os primeiros dias na própria casa, aproveitando para organizar a vida doméstica e conhecer melhor a rotina um do outro. António planeava retomar o trabalho no açoug, mas com horários reduzidos para dedicar mais tempo à nova esposa.

Desta vez, o corpo foi encontrado por Isaura, que relatou à polícia ter acordado durante o madrugada e percebeu que o marido não respirava. Segundo o seu depoimento ao delegado Osvaldo Ferreira, ela acordou por volta das 3 da manhã devido a um ruído na rua e ao virar-se na cama, reparou que António estava imóvel e frio.

Tentou acordá-lo durante vários minutos antes de compreender que estava morto. A posição do corpo era semelhante à encontrada no caso anterior. António jazia de costas, os braços ao longo do corpo, expressão facial serena. Não havia sinais de luta, convulsão ou agonia. As suas roupas de dormir estavam arrumadas, o quarto em perfeita ordem.

Nenhum objeto fora do lugar. A única diferença notável era um ligeiro odor doce no ambiente que Isaura atribuiu a um frasco de água-de-colónia que se havia partido na casa de banho durante a noite. Novamente o Dr. Renato Pereira concluiu por morte natural, atribuindo o falecimento a uma possível embolia pulmonar.

A embolia pulmonar era um diagnóstico comum na época para as mortes súbitas sem causa aparente, especialmente em homens de meia- que realizavam trabalho físico intenso. O médico não considerou necessário realizar uma necrópsia mais detalhada, seguindo os protocolos médicos standard da época. Durante o velório de António Vargas, algumas senhoras do bairro começaram a comentar em sussurros.

sobre a coincidência. Duas mortes em menos de um ano, ambas de homens saudáveis ​​que haviam casado com a mesma mulher. A Dona Mercedes foi a primeira a verbalizar o que muitas pensavam. Não é natural uma mulher ficar viúva duas vezes em tão pouco tempo, especialmente com homens novos e fortes. Os comentários começaram discretamente durante as conversas após a missa ou nos encontros casuais no mercado.

Gradualmente, as especulações tornaram-se mais diretas e específicas. Algumas mulheres mencionavam histórias que tinham ouvido falar de viúvas que traziam azar aos maridos. Outras falavam sobre plantas venenosas que cresciam naturalmente na região e poderiam ser utilizadas para fins maliciosos por pessoas com conhecimento específico.

O padre António, que celebrara ambas as cerimónias, começou a sentir uma inquietação que não conseguia nomear. Durante as suas orações noturnas, encontrava-se a pensar obsessivamente nos dois casos, tentando identificar algum padrão ou sinal que pudesse ter passado despercebido. Observava Isaura durante os cultos e notava como ela parecia alheia aos comentários e olhares que recebia.

A sua devoção permanecia inabalável, participando em todas as atividades religiosas com a mesma regularidade de sempre. O terceiro pretendente surgiu no início de 1964. Carlos Bittencur era funcionário da câmara municipal, trabalho que exercia há 15 anos no setor das obras públicas.

Homemdico de 43 anos, vivia sozinho numa casa na rua Fernandes Vieira desde a morte da mãe, do anos antes. A sua função na prefeitura envolvia fiscalizar pequenas construções e manutenção de edifícios públicos, trabalho que o mantinha ocupado a visitar diferentes pontos da cidade durante a semana. Carlos possuía uma personalidade analítica e cautelosa.

Características que o tornavam eficiente no seu trabalho, mas também o faziam questionar situações que outros aceitariam sem reflexão. Ele tinha notado os comentários sobre as mortes dos maridos anteriores de Zaura e, ao contrário de outros homens que se interessaram por ela, decidiu investigar discretamente os factos antes de se comprometer emocionalmente.

Começou a reparar em Isaura durante as missas vespertinas de domingo e gradualmente iniciou conversas cordiais após os cultos. O relacionamento seguiu o padrão já estabelecido. Encontros regulares, passeios pelo bairro, visitas supervisionadas. Entretanto, Carlos era diferente dos antecessores pela sua natureza mais reservada e analítica.

Fazia perguntas específicas sobre o passado de Zaura, interessando-se pelos pormenores da sua vida em Pelotas e pelas circunstâncias que a trouxeram a Porto Alegre. Durante os meses de cortejo, Carlos conduziu a sua própria investigação sobre os antecedentes de Isaura. Conversou discretamente com vizinhos que conheceram os seus anteriores maridos, visitou os locais onde trabalhavam e até consultou os registos de óbito na câmara municipal.

Todas as informações que obteve confirmavam a versão oficial dos factos. Dois homens saudáveis ​​tinham morrido de causas naturais. após se casarem com Isaura, ela respondia às perguntas do Carlos com a mesma parciimónia de sempre, fornecendo informações básicas, sem elaborar pormenores ou demonstrar emoção. Quando mencionava ter ouvido comentários sobre as mortes anteriores, ela dizia simplesmente que entendia as preocupações das pessoas, mas que não não podia fazer nada para mudar o que tinha acontecido. A sua atitude era de

resignação tranquila, como se tivesse aceito que seria sempre vista com suspeita devido às coincidências trágicas. Durante as conversas pré-matrimoniais com o padre António, Carlos mencionou as suas preocupações com as mortes dos anteriores maridos, mas concluía sempre que eram coincidências lamentáveis ​​da vida.

O padre, entretanto, começou a notar um padrão nos comportamentos que observava durante essas conversas. Carlos demonstrava a mesma obsessão crescente por Isaura que tinha notado nos pretendentes anteriores, falando sobre ela com uma frequência e intensidade que pareciam desproporcionais ao tempo de relacionamento.

O casamento foi celebrado em março de 1964. O padre António notou que a congregação estava visivelmente mais pequeno. Muitos dos habituais participantes preferiram não comparecer à cerimónia. Os comentários sobre as mortes anteriores tinham-se espalhado pela comunidade e várias pessoas consideravam inadequado participar no que viam como uma união amaldiçoada.

Durante a cerimónia, o padre observou que Isaura mantinha a mesma compostura serena dos casamentos anteriores. Ela seguia os rituais com precisão, respondia às questões no momento adequado e até sorria discretamente quando apropriado. Carlos, por sua vez, demonstrava uma felicidade radiosa que contrastava com a atmosfera tensa do ambiente.

Ele parecia genuinamente apaixonado e otimista em relação ao futuro, ignorando completamente os olhares desconfiados dos poucos convidados presentes. Carlos Bittencur faleceu 27 dias após o casamento. Sua irmã, a senhora Helena Bitencurt, que vivia em Caxias do Sul e tinha vindo para a cerimónia, exigiu que fosse realizada uma necrópsia mais detalhada.

Dona Helena era professora primária, mulher instruída e determinada, que não aceitou facilmente as explicações médicas Standard. Ela tinha notado durante o casamento que algo parecia estranho no O comportamento de Zaura, embora não conseguisse definir exatamente o quê. O O Dr. Renato Pereira, pressionado pela família do falecido, solicitou análises laboratoriais mais específicas, incluindo exames toxicológicos básicos disponíveis na época.

As análises foram realizadas no laboratório da Santa Casa da Misericórdia e demoraram três semanas para ficarem prontas. Os resultados não indicaram presença de substâncias tóxicas conhecidas, mas o médico observou algumas irregularidades menores que não conseguiu explicar satisfatoriamente. O corpo de Carlos apresentava sinais de desidratação ligeira e alterações na coloração da pele, que poderiam indicar intoxicação por substâncias orgânicas não identificáveis ​​pelos métodos disponíveis na época.

Entretanto, estas alterações também poderiam ser explicadas por processo de decomposição natural ou por condições médicas que não tinham sido diagnosticadas em vida. O Dr. Renato concluiu que, apesar das irregularidades observadas, não houve evidência suficientes para contestar o diagnóstico de morte natural.

A morte de Carlos Bitencur marcou o início de uma mudança na perceção da comunidade local sobre Isaura. As as conversas em sussurros tornaram-se mais frequentes e diretas. Alguns comerciantes do bairro começaram a evitá-la, mudando de passeio quando haviam aproximar-se. O padeiro da rua, João Alfredo, passou a encerrar a loja mais cedo, quando sabia que ela poderia aparecer.

O farmacêutico da esquina instruiu os seus funcionários a observarem atentamente qualquer compra que ela fizesse, sobretudo medicamentos que pudessem ser utilizados de forma inadequada. O padre António decidiu investigar discretamente os antecedentes de Isaura, enviando cartas aos párocos de Pelotas para obter informações sobre a sua vida anterior.

Utilizou a sua rede de contactos eclesiásticos para rastrear registos de casamentos, batismos e óbitos que pudessem estar relacionados com a história pessoal de Isaura. O processo foi lento e complicado, pois os arquivos paroquiais nem sempre eram bem organizados, e a comunicação entre as dioceses dependia exclusivamente do correio.

As respostas chegaram em maio daquele ano. O padre Benedito Oliveira, da Catedral de Pelotas confirmou que Isaura tinha casado três vezes na cidade, entre 1955 e 1900. e 61. Todos os três maridos tinham morrido em circunstâncias semelhantes, morte súbita durante o primeiro mês de casamento, sem sinais externos de violência, atribuídos a causas naturais pelos médicos locais.

A documentação anexa às cartas incluía certidões de óbito e registos paroquiais que corroboravam o padrão repetitivo. José Maria dos Santos, comerciante de 40 anos, morto em novembro de 1955, três semanas após o casamento. Francisco de Oliveira, funcionário público de 38 anos, falecido em março de 1957, um mês após o casamento.

Roberto Silva Machado, proprietário rural de 45 anos, faleceu em setembro de 1961, 19 dias após o casamento. Os registos de Pelotas revelavam também que Isaura herdava sempre os bens dos maridos falecidos. mas nunca permanecia tempo suficiente para os usufruir completamente. Vendia as propriedades rapidamente, sempre por valores abaixo do mercado, e mudava-se da cidade dentro de poucos meses após cada morte.

O padrão era consistente: casamento, morte, herança rápida, mudança. O quarto pretendente surgiu no final de 1964. Mário Teixeira era reformado da aviação férrea, homem de 58 anos que tinha regressou a Porto Alegre após trabalhar durante duas décadas em cidades do interior do Estado. Havia perdido a esposa por pneumonia 3 anos antes e procurava companhia para os anos finais de vida.

Diferentemente dos anteriores, O Mário tinha uma pensão confortável e propriedades rurais em Gravataí, o que o tornava pretendente economicamente atrativo. Mário havia trabalho como supervisor de estação ferroviária em pequenas cidades ao longo da linha que ligava Porto Alegre ao interior do estado. Era um homem prático e organizado, habituado a lidar com horários e procedimentos precisos burocráticos.

A sua casa, na rua General Paranhos estava sempre impecavelmente arrumada, reflexo de décadas de vida disciplinada. Quando se reformou, pretendia dedicar-se a passatempos que nunca havia tido tempo para cultivar, jardinar, leitura e talvez viagens para conhecer outras regiões do país. A rotina de Mário incluía passeios matinais pelo Parque da Redenção, leitura de jornais no café da esquina e visitas semanais ao centro da cidade para resolver assuntos bancários e comerciais.

Era durante estas visitas ao centro que passava frequentemente pela igreja do Rosário, onde eventualmente decidiu assistir às missas vespertinas. Foi assim que conheceu Isaura, notando imediatamente a sua postura serena e o seu devoção aparente. O relacionamento com Mário seguiu o padrão estabelecido, mas com uma diferença significativa.

Insistia em conhecer melhor o passado de Zaura. antes de formalizar qualquer compromisso. Durante seis meses, fez perguntas detalhadas sobre a sua família, as suas origens, os motivos de tantos casamentos e óbitos. Sua experiência profissional a lidar com documentação e procedimentos oficiais o tornava-se naturalmente cauteloso em relação a situações que parecessem irregulares.

Aura respondia com evasivas educadas, mudando de assunto ou alegando dificuldades em recordar pormenores dolorosos. Quando pressionada sobre as circunstâncias específicas das mortes anteriores, ela dizia simplesmente que preferia não reviver momentos tão tristes. Mário interpretava esta relutância como sensibilidade natural de uma mulher que tinha sofrido perdas repetidas e gradualmente deixou de insistir nos questionamentos.

Mário, entretanto, parecia satisfeito com as explicações e decidiu prosseguir com os planos matrimoniais. Ele tinha feito as suas próprias investigações discretas, conversando com vizinhos e consultando registos públicos disponíveis. Todas as informações obtidas confirmavam que Isaura era uma viúva respeitável que tinha sido vítima de uma série extraordinária de coincidências trágicas.

A sua pensão da ferrovia e as suas propriedades em Gravataí garantiam estabilidade financeira suficiente para sustentar ambos confortavelmente. O casamento foi celebrado em janeiro de 1965. A cerimónia contou com uma presença mínima. apenas os noivos, duas testemunhas obrigatórias e o padre António. A comunidade local havia na prática, boicotado o evento.

As poucas pessoas que compareceram eram sobretudo conhecidos de Mário, que não tinham conhecimento detalhado sobre a história de Isaura. Durante a cerimónia, o padre António notou como as suas próprias mãos tremiam ao proferir os votos matrimoniais. Começava a suspeitar que estava participando em algo profundamente errado, mas não possuía evidência concretas para fundamentar as suas preocupações.

Cada casamento que celebrava parecia uma sentença de morte para o noivo, mas todas as evidências legais e médicas indicavam que as mortes eram naturais e inevitáveis. A homília que o padre preparou para a ocasião foi deliberadamente curta e focada nos aspetos espirituais do matrimónio. Ele evitou as referências habituais à felicidade terrena e longevidade conjugal, concentrando-se na importância da fé e da resignação à vontade divina.

A Isaura e o Mário ouviram as palavras com uma atenção respeitosa, mas o padre notou que nenhum dos dois parecia emocionalmente envolvido com o significado espiritual do sacramento. Mário Teixeira morreu 31 dias após o casamento. O corpo foi encontrado por Isaura na manhã seguinte, nas mesmas circunstâncias dos casos anteriores. Desta vez, porém, o Dr.

Renato Pereira decidiu solicitar uma investigação mais rigorosa, incluindo análises toxicológicas avançadas em laboratórios de São Paulo. A pressão da comunidade local e das suas As próprias suspeitas crescentes levaram-no a procurar métodos de análise mais sofisticados do que os disponíveis localmente. As análises foram conduzidas no Instituto Médico Legal de São Paulo, que possuía equipamentos e técnicas mais avançadas para a deteção de substâncias tóxicas.

O corpo foi transportado em condições especiais para preservar ao máximo as evidências que pudessem estar presentes nos tecidos e fluidos corporais. Os resultados demoraram seis semanas para chegar e, mais uma vez, não indicaram presença de venenos conhecidos ou substâncias que pudessem causar a morte súbita.

O relatório detalhado dos Os especialistas de São Paulo mencionavam algumas irregularidades menores na composição química dos fluidos corporais, mas nada que pudesse ser definitivamente identificado como causa da morte. Havia vestígios de compostos orgânicos não identificados que poderiam ser subprodutos naturais da decomposição ou substâncias derivadas de plantas comuns na região.

Os especialistas concluíram que, com base nos métodos disponíveis na época, não era possível determinar uma causa não natural para a morte. A morte de Mário Teixeira provocou uma reação diferente na comunidade. Alguns vizinhos começaram a fazer comentários abertos sobre a maldição que parecia acompanhar Isaura. Outros sugeriam envolvimento com práticas de feitiçaria ou bruxaria.

A Dona Mercedes organizou uma reunião informal em sua casa, onde várias senhoras do bairro discutiram a possibilidade de procurar autoridades eclesiásticas para investigar possíveis influência diabólica. O padre António, entretanto, mantinha-se cético em relação a explicações sobrenaturais e começou a documentar sistematicamente todas as informações disponíveis sobre os casos.

criou um ficheiro detalhado com cópias de certidões de óbito, depoimentos de testemunhas e observações pessoais sobre o comportamento de Zaura durante cada casamento e funeral. A sua formação em seminário tinha incluído estudos sobre fenómenos alegadamente sobrenaturais e sabia distinguir entre a superstição popular e as evidências objetivas de anomalias inexplicáveis.

Durante o Inverno de 1965, Isaura diminuiu a sua frequência nas missas e aparições públicas. Quando saía de casa, era para atividades essenciais, como compras de mantimentos ou visitas médicas. Ela parecia consciente da crescente hostilidade da vizinhança, mas mantinha a mesma compostura serena de sempre. As suas compras no mercado local se tornaram rápidas e funcionais, evitando conversas desnecessárias comerciantes ou outros clientes.

O padre António a visitava quinzenalmente, ostensivamente para oferecer conforto espiritual, mas na realidade para observar o seu comportamento e procurar pistas sobre a sua verdadeira natureza. Durante estas visitas, notava que a casa estava sempre impecavelmente limpa e organizada, sem qualquer indício de atividades suspeitas.

Isaura recebia-o com educada cordialidade, servia café e bolachas e conversava sobre assuntos religiosos com conhecimento aparentemente genuíno das escrituras e tradições católicas. O quinto e último pretendente surgiu no início de 1966. Eduardo Silveira era comerciante de tecidos, proprietário de uma loja na rua dos Andradas, que herdara do sogro após a morte da primeira mulher, 5 anos antes.

Homem de 49 anos, tinha três filhos adultos que viviam noutras cidades e uma situação financeira estável que lhe permitia viver confortavelmente, sem necessidade de expandir dramaticamente os negócios. A loja de tecidos de Eduardo estava estabelecida no mesmo local há mais de 20 anos, fornecendo materiais para costureiras e alfaiates da região centro do Porto Alegre.

Ele conhecia pessoalmente a maioria dos os seus clientes regulares e mantinha relacionamentos comerciais baseados na confiança mútua e no conhecimento acumulado sobre as preferências e necessidades de cada pessoa. Sua primeira esposa, a senhora Carmen, tinha sido uma presença constante na loja, ajudando no atendimento e na organização do stock até à sua morte por complicações cardíacas.

Eduardo conhecia os rumores sobre Isaura, mas considerava-os superstições de pessoas ignorantes. Aproximou-se dela gradualmente, demonstrando interesse genuíno pela sua pessoa e desconsiderando completamente os comentários maliciosos da vizinhança. A sua atitude racional e objetiva em relação aos boatos locais o Diferenciava significativamente dos pretendentes anteriores, que tinham sido influenciados subconscientemente pelas suspeitas da comunidade.

Durante os meses de cortejo, Eduardo fez questão de investigar pessoalmente os antecedentes de Isaura. viajou a Pelotas, conversou com antigos vizinhos, examinou documentos e certificados disponíveis nos cartórios locais. Visitou os locais onde ela tinha vivido, as igrejas que frequentara e até os cemitérios onde os seus maridos anteriores estavam sepultados.

Sua investigação foi metódica e abrangente, conduzida com a mesma atenção aos pormenores que aplicava nos seus negócios. concluiu que ela era vítima de uma extraordinária sequência de coincidências trágicas e que os boatos locais eram produto de mentes supersticiosas e malévolas. A sua determinação em defendê-la publicamente criou divisões ainda maiores na comunidade, com alguns apoiando a sua posição racional e outros considerando-o ingénuo ou enfeitiçado.

Eduardo não se intimidava com as pressões sociais e chegou a confrontar abertamente pessoas que faziam comentários maldosos sobre Isaura. O O casamento de Isaura com Eduardo foi realizado em Abril de 1966. A cerimónia decorreu numa atmosfera de tensão palpável. O padre António, que tinha tentado dissuadir Eduardo nas semanas anteriores, celebrou a união com evidente relutância.

Durante a homilia, fez referências veladas aos perigos de ignorar os sinais que a providência envia aos homens. Mas Eduardo permaneceu imperturbável perante das advertências indiretas. Eduardo, entretanto, manteve-se firme na sua decisão, demonstrando carinho genuíno por Isaura durante toda a cerimónia.

Ele tinha preparado a celebração com cuidado especial, contratando músicos para a cerimónia e organizando um banquete mais elaborado do que os anteriores. Sua atitude desafiadoramente otimista contrastava dramaticamente com a atmosfera tensa que dominava o ambiente. Durante a cerimónia, Zaura manteve o seu comportamento característico.

seguiu todos os rituais com precisão, respondeu às questões adequadamente e sorriu discretamente quando apropriado. Entretanto, o padre António notou uma diferença subtil nos seus olhos, uma intensidade que não tinha observado nos casamentos anteriores, como se ela estivesse particularmente focada em cada pormenor da celebração.

Eduardo Silveira faleceu 29 dias após o casamento. A diferença desta vez foi que a sua morte não passou despercebida às autoridades locais. O delegado Osvaldo Ferreira, que tinha acompanhado os casos anteriores com crescente suspeição, ordenou uma investigação formal imediatamente após o falecimento. A pressão pública tinha atingido níveis que tornavam impossível tratar a morte como mais um caso rotineiro.

A investigação incluiu interrogatórios detalhados, busca minuciosa na residência e análise de todos os objetos pessoais de Eduardo que pudessem fornecer pistas sobre as circunstâncias da sua morte. Isaura foi interrogada durante três dias consecutivos, respondendo a todas as questões com a mesma calma e coerência de sempre.

Suas respostas eram consistentes, as suas explicações plausíveis, a sua conduta irrepreensível durante todo o processo. O comissário Osvaldo Ferreira era um homem experiente que havia investigado centenas de casos ao longo da sua carreira. Aplicou todos os métodos de interrogatório disponíveis à data, procurando inconsistências no depoimento de Isaura, contradições na sua versão dos factos ou qualquer indício comportamental que pudesse revelar culpa ou dissimulação.

Entretanto, Isaura demonstrava uma serenidade inabalável que frustrava todas as tentativas de encontrar falhas na sua narrativa. As análises forenses do corpo de Eduardo foram as mais detalhadas realizadas até então. Médicos médicos legistas de Porto Alegre e especialistas de São Paulo examinaram todos os órgãos, analisaram fluidos corporais, investigaram possíveis vestígios de substâncias orgânicas e sintéticas.

O processo durou 4 meses e custou uma quantia considerável aos cofres públicos, incluindo o transporte de especialistas. e equipamentos especializados não disponíveis localmente. O resultado final foi idêntico aos anteriores. Morte por causas naturais, sem indícios de envenenamento ou violência física. Os relatórios médicos concluíam que Eduardo tinha morrido de paragem cardíaca, possivelmente relacionada com estress emocional ou condições médicas não diagnosticadas.

Não havia evidências físicas de intoxicação, ferimentos ou qualquer intervenção externa que pudesse ter causado a morte. O padre António, no entanto, não se conformava com a ausência de provas materiais. Durante os meses seguintes à morte de Eduardo, iniciou uma investigação pessoal mais profunda sobre a história de Isaura.

estabeleceu correspondência com párocos de várias cidades do Rio Grande do Sul, procurando vestígios da sua passagem noutras localidades. Utilizou a sua rede de contactos eclesiásticos para rastrear registos que pudessem revelar um padrão mais amplo de comportamento. Gradualmente, começou a descobrir um padrão que se estendia muito para além Pelotas e Porto Alegre.

As cartas que recebia ao longo do final de 1966 e início de 67 revelavam uma história aterradora. Isaura tinha transitado por pelo menos sete cidades diferentes entre 1948 e 1962. Em cada localidade casara com homens de meia idade, viúvos ou solteiros, todos com alguma estabilidade financeira. Os registos de Santa Maria, Caxias do Sul, Passo Fundo, Cruz Alta e Uruguaiana revelavam o mesmo padrão repetitivo: chegada discreta à cidade, integração na comunidade religiosa, casamento com o homem local, morte súbita do marido dentro de quatro

semanas, herança dos bens, venda rápida das propriedades, mudança para a nova cidade. O ciclo repetia-se com precisão mecânica há quase duas décadas. O padre Benedito Oliveira de Pelotas enviou documentação adicional que havia solicitado aos cartórios locais. Os registos revelavam que Isaura sempre herdava os bens dos maridos falecidos, mas nunca permanecia tempo suficiente para os usufruir completamente.

Vendia as propriedades rapidamente por valores abaixo do mercado e desaparecia da cidade no prazo de seis meses após a morte do cônjuge. O padrão era consistente e repetitivo. Casamento, morte, herança, venda, mudança. Em fevereiro de 1967, o padre António recebeu uma carta do padre Jerónimo Costa de Santa Maria, que mudaria completamente a sua compreensão do caso.

O pároco informava que havia encontrados registos de uma mulher com características idênticas, as de Isaura, que tinha atuado na cidade entre 1938 e 1942. O nome registado era diferente, Maria Conceição dos Santos. Mas a descrição física, a idade aparente e o padrão de comportamento eram absolutamente idênticos. A descoberta do padre Jerónimo levantava uma possibilidade perturbadora.

Se as datas estivessem corretas, a mulher identificada como Maria Conceição teria atualmente mais de 65 anos. Isaura, no entanto, aparentava ter no máximo 45 anos quando chegou a Porto Alegre em 1962. Isto implicava duas possibilidades igualmente inquietantes. Ou os registos estavam incorretos ou havia algo fundamentalmente antinatural na cronologia da vida de Isaura.

O padre António decidiu confrontar Isaura com estas descobertas. marcou um encontro em o seu gabinete sob o pretexto de discutir assuntos relacionados com a sua participação nas atividades paroquiais. Durante a conversa, apresentou gradualmente as provas que havia recolhido, os registos de pelotas, as correspondências de outros párocos, o padrão repetitivo de casamentos e óbitos observado em múltiplas cidades ao longo de quase 30 anos.

Isaura ouviu tudo em silêncio, com a mesma expressão serena de sempre. As suas mãos permaneciam calmamente cruzadas no colo. Sua respiração era regular e tranquila, não demonstrando qualquer sinal de nervosismo ou surpresa. Quando o padre terminou a sua exposição, ela permaneceu em silêncio durante vários minutos, como se estivesse a considerar cuidadosamente as informações apresentadas.

Quando finalmente falou, Isaura confirmou a veracidade de todas as informação apresentada com uma franqueza que surpreendeu o padre. Admitiu ter casado com 16 homens ao longo de quase 30 anos, seguindo sempre o mesmo padrão. Confirmou que todos os tinham morrido dentro do primeiro mês de casamento e que ela sempre herdara os seus bens.

Confirmou também que mudava de cidade regularmente para evitar suspeitas e investigações prolongadas. A sua confissão foi apresentada com a mesma serenidade que caracterizava todos os os seus comportamentos. Ela falava sobre as mortes múltiplas, como se estivesse descrevendo fenómenos naturais inevitáveis, sem demonstrar culpa, remorso ou qualquer emoção intensa.

Era como ouvir um relatório objetivo sobre acontecimentos que tinham acontecido com outra pessoa, e não uma confissão pessoal sobre atos que tinha cometido ou testemunhado. A confissão de Isaura, porém, não incluía a admissão de culpa ou método. Quando questionada sobre como os homens morriam, ela simplesmente respondia que não sabia.

Afirmava que acordava pela manhã e encontrava os maridos mortos ao seu lado. Nunca tinha administrado medicamentos, venenos ou qualquer substância. Nunca havia empregado violência física. Os homens simplesmente deixavam de respirar durante o sono, sempre na segunda ou terceira semana após o casamento. Segundo a sua versão dos factos, era uma mulher amaldiçoada ou destinada pela providência a causar infortúnio involuntário aos homens que aproximavam-se dela com intenções matrimoniais.

Não escolhia conscientemente causar mortes, mas tinha aprendido a aceitar que era a sua natureza inevitável. Casava-se sempre na esperança de que desta vez seria diferente, mas o resultado era invariavelmente o mesmo. O O padre António perguntou-lhe se ela sentia remorso ou culpa pelas mortes. Isaura respondeu que se sentia triste pela perda de companhia, mas não se considerava responsável pelos falecimentos.

Segundo a sua perceção, ela era uma mulher destinada a viuv, alguém que trazia infortúnio, involuntário aos homens que se aproximavam dela. Não escolhia conscientemente causar mortes, mas tinha aprendido a aceitar que era a sua natureza inevitável. Quando questionada sobre por continuava casando, sabendo do padrão de mortes, ela explicou que a solidão era insuportável e que sempre esperou que o próximo casamento fosse diferente.

Além disso, os recursos financeiros obtidos através das heranças eram necessários para a sua sobrevivência, uma vez que não possuía outras competências ou meios de sustento. A sua lógica era fria e prática. Ela precisava de companhia e de recursos, e o casamento era a única forma socialmente aceitável de os obter.

A explicação de Isaura sobre a sua idade aparente também era perturbadora. Ela afirmava ter 57 anos, apesar de aparentar pelo menos 10 anos menos. Atribuía isso a vida regrada, alimentação simples e ausência de vícios como o álcool ou o tabaco. Segundo ela, a constante mudança de cidades e a vida sem grandes preocupações financeiras contribuíam para preservar a sua aparência jovem.

Entretanto, as suas explicações não eram suficientes para justificar a A discrepância cronológica identificada nos registos de Santa Maria. Durante Março de 1967, o padre António agonizou sobre o que fazer com a informação obtida. Legalmente, não havia evidências de crime. Moralmente, acreditava estar perante algo profundamente maligno, mesmo que não conseguisse compreender completamente a sua natureza.

As confissões de Exaura eram voluntárias e detalhadas, mas não constituíam prova legal de homicídio intencional. decidiu procurar orientação junto do arcebispo Dom Vicente Sherer, relatando todo o caso sem omitir pormenores. Preparou um dossier completo, incluindo cópias das certidões de óbito, correspondência com outros párocos, depoimentos de testemunhas e as suas próprias observações comportamentais recolhidas ao longo de 5 anos.

O documento tinha mais de 50 páginas e representava a investigação mais minuciosa que já tinha conduzido sobre qualquer assunto. O arcebispo ouviu o relato completo durante duas sessões privadas na sua residência. Dom Vicente era um prelado experiente que tinha lidado com diversos casos extraordinários ao longo da sua carreira eclesiástica.

Após consultar documentos canónicos e conversar com outros membros do clero, incluindo especialistas em direito canónico e teologia moral, decidiu que o caso exigia intervenção eclesiástica formal. Dom Vicente ordenou a Isaura que fosse submetida a exames espirituais conduzidos por um padre especializado em casos extraordinários, enviado especialmente de São Paulo para esta finalidade.

O especialista escolhido foi o padre Stevão Rodrigues, doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, com experiência específica em fenómenos anómalos e casos que envolviam possíveis influência diabólica ou distúrbios psicológicos complexos. O padre Estevão Rodriguees chegou a Porto Alegre em abril de 1967.

Durante duas semanas, conduziu uma série de entrevistas e observações de Isaura, aplicando métodos desenvolvidos pela igreja para distinguir entre fenómenos sobrenaturais genuínos, distúrbios psicológicos e fraudes deliberadas. Suas sessões incluíam exames teológicos, avaliações psicológicas rudimentares disponíveis na altura e observações comportamentais detalhadas.

O seu relatório final, enviado diretamente ao arcebispo, concluía que não havia indícios de possessão demoníaca, bruxaria ou qualquer fenómeno sobrenatural identificável pelos critérios eclesiásticos standard. Isaura demonstrava o conhecimento adequado da doutrina católica, respondia apropriadamente às orações e símbolos religiosos e não apresentava reações anómalas a objetos sagrados ou rituais de bênção.

Segundo o padre Estevão, Isaura apresentava características psicológicas extremamente incomuns, mas não necessariamente patológicas no sentido médico tradicional. Ela demonstrava ausência quase total de empatia emocional, capacidade anormal de manipulação interpessoal e uma frieza interior que poderia ser interpretada como psicopatia grave.

Entretanto, a sua inteligência era normal, a sua consciência da realidade estava preservada e ela não apresentava delírios ou alucinações. O relatório incluía observações detalhadas sobre o comportamento dos Isaura durante as entrevistas. Ela respondia a todas as questões com calma e precisão, fornecendo informações factuais, sem demonstrar emoção adequada à gravidade dos assuntos discutidos.

Quando questionada sobre os sentimentos pelos maridos falecidos, as suas respostas eram tecnicamente apropriadas, mas emocionalmente vazias, como se ela compreendesse intelectualmente as reações esperadas, mas não as experimentasse genuinamente. O relatório do padre Estevão incluía uma recomendação perturbadora.

Isaura deveria ser afastada do convívio social normal, não por representar perigo imediato identificável, mas por a sua mera presença parecer exercer influência destrutiva sobre os homens vulneráveis. Ele não conseguia explicar o mecanismo pelo qual os maridos morriam, mas era convencido de que existia uma ligação causal entre os casamentos e os falecimentos que transcenderam as explicações médicas ou psicológicas convencionais.

Em maio de 1967, o arcebispo Dom Vicente tomou uma decisão sem precedentes na história da Arquidiocese de Porto Alegre. ordenou que Isaura fosse isolada num convento de clausura em Bento Gonçalves, sob supervisão das irmãs da Congregação do Imaculado Coração de Maria. A medida não tinha um caráter punitivo formal, sendo apresentada como uma oportunidade para reflexão espiritual e o afastamento das tentações mundanas.

O Convento do Imaculado Coração de Maria em Bento Gonçalves era uma instituição contemplativa fundada em 1885 por freiras francesas que vieram ao Brasil para desenvolver trabalho missionário. A construção original de arquitetura neogótica adaptada ao clima local, estava situada numa colina arborizada a 3 km do centro da cidade, rodeado por vinhas e mata nativa, que garantiam o completo isolamento do mundo exterior.

Isaura aceitou a determinação sem protestos ou resistência. Em junho desse ano, acompanhada pelo padre António e duas freiras da congregação, deslocou-se a Bento Gonçalves, onde passaria o resto da sua vida em isolamento voluntário. Jo.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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