LEMBRA DO ZECA PAGODINHO? FEZ MUITO SUCESSO NO RÁDIO E NA TV, QUASE PERDEU TUDO E HOJE VIVE ASSIM… – H
Pensa comigo um instante. Quando foi a última vez que viu o Zeca Pagodinho na televisão? Não no telemóvel, não vídeo que alguém mandou no grupo da família, na televisão mesmo. Aquela do domingo à tarde com a casa cheia, o almoço a terminar e o programa ligado na sala. Deixa a vida levar-me a vida dela. Já lá vai tempo, né? E faz todo o sentido você pensar que ele desapareceu, porque teve uma época em que o homem estava em tudo.
Deixa a vida levar-me. Deixa a vida me levar. Leva erro. Sou feliz e agradeço muito Tocava no rádio do táxi no churrasco do vizinho, no anúncio de cerveja que passava no intervalo da novela. Você não precisava de gostar de samba para saber cantar aquele refrão. Todo o mundo sabia. Era impossível passar um dia sem esbarrar nele. Aí de repente, silêncio.
Qual foi a pior coisa, a coisa que o mais detestava e que teve de fazer? Trabalhar é mau. É mau. É só que a história por detrás deste silêncio não é a que está imaginando. Porque antes de desaparecer da sua televisão, este sambista chegou num lugar que quase nenhum artista brasileiro alcançou.
E depois de chegar aí, começou a pagar uma conta que ninguém viu, uma conta pesada. Tem que ajudar em todo o lado. Mas lá é lá é sentimento para si que conhece a região como ninguém. Hoje vou contar-te as duas partes dessa história. Como o menino de Irajá chegou ao topo do Brasil e o preço que pagou por ter chegado lá.
Mas para perceber o tamanho da queda, você precisa de saber de onde ele saiu. Que de fácil acreditar que a vida não é só isto que se vê, certo? Como diz Paulo, a história começa em 1959, em Irajá, zona norte do Rio. E olhem o primeiro pormenor curioso. O nome dele não é José, como quase toda a gente pensa toda a vida, é Jessé.
Gessé Gomes da Silva Filho, o mesmo nome do pai. Quarto de cinco filhos, casa de subúrbio carioca. Naquele tempo em que a rua ainda era de terra, o portão vivia aberto e o vizinho entrava sem bater. O pai tocava cavaquinho na sala e a mãe, dona Neia, tocava a casa, aquele Brasil onde criança estudava de manhã e trabalhava à tarde, porque a conta em casa não fechava sozinha.
Quem cresceu nos anos 60 e 70 conhece esta cena de perto, ou porque viveu, ou porque viu acontecer na casa do vizinho. E ele trabalhou desde cedo, estudou até à quarta classe, só isso. Depois foi para rua ganhar dinheiro da maneira que dava. Foi feirante carregando caixa, foi contínuo, foi office boy a correr o centro do rio com pasta debaixo do braço. E foi anotador do jogo do bicho.
Sabe exatamente quem era esse homem. Todo o bairro brasileiro tinha um. O senhor da esquina com o caderninho na mão, o lápis atrás da orelha, que conhecia toda a gente pelo apelido e sabia a vida da rua inteira. Esse era o futuro desenhado para ele, nada mais. Mas havia o samba, havia o bloco boio de Irajá, onde era a mascote da ala, tinha as aulas de capoeira e tinha os pagodes em casa da tia Doca lá em Madureira, onde a miudagem ficava de pé, encostada à parede, apenas olhando os mais velhos tocarem, porque sentar-se à mesa
ali era privilégio de quem já tinha nome. E foi precisamente ali, neste canto de madureira, que o Gessé se tornou outra coisa. Pessoal começou a chamar-lhe pagodinho. Colou, nunca mais saiu. O apelido nasceu antes da fama, muito antes. Só que para sair da esquina de Irajá e chegar ao Brasil inteiro, faltava uma coisa.
E essa coisa decorreu numa mesa de bar em Olaria, uma mesa onde ninguém o deixava chegar perto. Ele continuava a anotar o jogo do bicho de dia, mas à noite havia uma coisa que puxava-o para a rua. Existia ali um lugar perto em Olaria, onde se realizava a melhor roda de samba do Rio de Janeiro. E quando digo a melhor, é a melhor mesmo. Chamava-se Cacique de Ramos.


Era numa mesa de bar, com o povo à volta, sem palco, sem bilhete, sem luz colorida. Nessa mesa estava sentada a nata do samba brasileiro, Almir Guineto, Jorge Aragão, sombrinha, o pessoal do fundo de quintal, gente que já era gente e ele estava de pé do lado de fora olhando, porque sentar-se naquela mesa não era para qualquer pessoa.
Ele foi até lá com um amigo, um tal Arlindo Cruz, que ainda ia tornar-se um dos maiores compositores do país, mas que naquela noite nem queria ir. Os dois pediram licença para tocar um bocadinho. A resposta veio seca. Pode, mas cuidado. Dois miúdos do subúrbio a pedir espaço no meio dos mestres. E aí vem o pormenor que muda tudo.
Nessa roda, a aprovação era na hora. Não havia teste, não havia editora, não tinha contrato. Cantou. E o pessoal gostou? Senta-se, não gostou? Continua de pé. Ele próprio conta que aparecia lá gente a querer entrar e que simplesmente não combinava. ia embora da mesma forma que chegou. Com eles os dois foi diferente. Quando o pessoal da mesa viu que os miúdos não estavam a fazer tempo, abriram espaço e havia uma mulher que ia naquela roda, Bet Carvalho.
Cantora consagrada, disco vendendo, nome feito no Brasil inteiro, mas que fazia questão de lá ir ouvir compositor novo. Ela ouviu aquele menino cantar e percebeu uma coisa que ninguém tinha percebido. Ele cantava com uma divisão diferente de todos. Ele explica isso até hoje de uma forma simples. Cantar o mesmo samba 10 vezes sai diferente às 10.
A Bet decidiu nessa noite que ia gravar com ela. Tinha apenas um problema. Ele não queria. Não queria palco, não queria televisão, não queria ser artista. Queria compor, beber com os amigos e regressar a casa a pé. Então ela não perguntou nada, armou uma armadilha e ele caiu direitinho. A armadilha foi assim: concerto da Bet Carvalho, na Asa Branca, no Rio.
Ele estava sentado numa mesa da plateia, tomando a dele, sem plano nenhum para noite. Depois vieram buscá-lo no meio do salão. A Bet quer falar consigo. Ele foi até ao camarim. Ela pegou numa camisa e entregou-o na mão dele. Disse que era só para ver se servia. Ele vestiu, achou bonita, ficou naquela onda de quem ganhou o presente.
No segundo seguinte, ouviu o seu próprio nome ao microfone, a porta a abrir e um empurrão nas costas. Estava no palco com a camisola da armadilha no organismo, sem ter combinado nada com ninguém em frente a uma casa cheia. Não teve como fugir, cantou e ainda há mais. Nessa mesma noite, ele acabou preso, uma confusão parva envolvendo uma repórter de uma revista.
Ciúme e mal entendido. A polícia passou e levou. A turma do fundo de quintal teve de ir buscá-lo à delegacia do palco para a cadeia em poucas horas. Não é brincadeira não. Dali para a frente a coisa só subiu. Em 1985 saiu a colectânea raça brasileira com composições dele e vendeu 100.000 cópias.
No ano seguinte veio o primeiro disco a solo e este não vendeu bem, este explodiu. Mais de 1 milhão de exemplares. Para terem uma noção, eram 12 músicas no disco. Tocaram as 12, todas. Não é comum isso acontecer a ninguém em época nenhuma. Coração em desalinho. Judia de mim que virou banda sonora de novela. Judia de mim. Vai judia. Se não sou merecedor de amor.
O Brasil inteiro a cantar um sambista de Irajá que tinha estudado até à quarta série. Aí pergunta: “E o que é que ele fazia com todo este sucesso? Fugia! Fugia do Chacrinha, fugia da Xuxa, fugia da Angélica. Chegava ao estúdio, dava uma desculpa qualquer e ia-se embora antes de gravar.
E não era frescura de artista, havia ali uma coisa que doía nele. Naquela época, cada artista tinha o seu camarim. O cantor tinha o seu, o apresentadora tinha o seu, cada um com o seu espaço, com o seu nome na porta, menos o pessoal do samba. O samba ficava todos apertados juntos num camarim só, ao fundo do corredor.
Ele via aquilo e ia embora. Quem o tirou desta foi o Bira Presidente, com uma bronca que se tornou lição de vida. Bira disse mais ou menos assim: “Quando não se vai, eles acham que estamos bem assim e param de chamar toda a gente e olha quanto emprego estás a dar aí.” Ele parou, pensou e compreendeu já não era só ele e ficou: Aceitou a camisola.
O que veio depois foi o maior auge que um sambista já viveu neste país. Nos anos 90, assinou com a editora grande, a que é hoje a Universal. E foi ali que o seu samba mudou de tamanho. Chegou um produtor chamado Rio do Hora, com uma ideia diferente, colocar violino ou boé orquestra em cima do pagode de mesa de bar. Ele deixou.
Sempre foi assim. Ele faz a sua parte, o outro faz a dele, atira-se para o mundo e pronto. Deu certo de uma forma que ninguém previu. Vieram faixa amarela, verdade, Maneiras, seu balancê. E em 2002 surgiu aquela que já cantou sem se aperceber. Deixa a vida me levar, tornou-se um hino. Tocava em casamento, num velório, num churrasco de domingo. Foi parar até ao videojogo.
A música entrou no FIFA de 2004 e teve miúdo do mundo inteiro a jogar à bola no consola, ouvindo samba de xerém, sem compreender uma palavra. No ano seguinte, surgiu o acústico MTV. Vendeu 530.000 CD e 210.000 1000 DVDs. Isto numa época em que já se falava que mais ninguém comprava disco.
E os prémios: 4 Gramies Latinos, três deles seguidos de 2000 a 2002. Até hoje é o artista mais indicado da categoria na história. Agora o número que fecha a conta. Em 2004, a revista A Veja publicou 18 discos e 12 milhões de cópias vendidas em 26 anos de carreira. 12 milhões. É como se naquele Brasil, um em cada 15 brasileiros tivesse um disco dele guardado em casa. Esse era o topo.
Não há lugar mais alto para um sambista chegar a este país. E aí vem o pormenor que muda tudo. Ele nunca soube quanto que deu. Não é força de expressão. Ele mesmo diz a rir que nem sabe onde fica o banco. Quem cuida do dinheiro é a Mónica, a sua mulher há quase 40 anos. e ela dá-lhe mesada. Quando foi se reformar, levou a família toda juntos, toda a gente achando que ia sair rico de lá. Saiu com 4.000 reais por mês.
Esta é a reforma de um dos maiores sambistas da história do Brasil. Pois é, ele estava no ponto mais alto da carreira, com o país inteiro a cantar as músicas dele. E foi exatamente aí que os os problemas começaram a chegar, um atrás do outro. O primeiro problema começou com uma proposta demasiado boa para recusar.
Setembro de 2003, uma marca de cerveja, a nova Shin, procurou-o para ser garoto propaganda. O valor estimado do contrato, R 1 milhão deais. Era a campanha do Experimenta, aquela que lhe viu mil vezes no intervalo da novela com Luciano Hul, Fernanda Lima, Thiago Lacerda, Aline Moraes, Zeca, no meio de todos eles.
O contrato ia até setembro de 2004. Agora prepara o coração. Em Março de 2004, com o contrato ainda valendo, Zeca Pagodinho apareceu num comercial da Brama. E não foi um comercial qualquer. Ele cantava um samba a gozar, precisamente da marca que estava a pagar ele. O Brasil parou para comentar. Virou piada de escritório, tornou-se assunto de mesa de bar, tornou-se manchete de jornal e chamada de programa de televisão.
Nesse ano não tinha como conversar sobre publicidade no Brasil sem que alguém citasse este caso. Mas espera, porque há uma parte dessa história que quase ninguém conhece. Aquilo tornou-se processo e um processo dos grandes. A briga não foi entre o Zeca e as cervejeiras, foi entre as agências de publicidade, uma acusando a outra de jogo sujo.
Em junho de 2011, 7 anos depois, o Tribunal de Justiça de S. Paulo condenou a agência responsável pelo comercial da Brama a pagar cerca de R milhões deais por concorrência desleal. 20 milhões. Naquela época, este comprava um prédio inteiro num bairro nobre de São Paulo. E há um pormenor que é quase poesia. Este caso hoje é estudado numa faculdade de direito no Brasil inteiro, como exemplo de como um contrato deve funcionar.
O sambista de Irajá, que deixou de estudar na quarta série, tornou-se matéria de prova para estudante de Direito. E depois fica aquela discussão que se mantém até hoje. Tem quem dizer que ele fez o que qualquer trabalhador faria. Apareceu proposta melhor, mudou de equipa e o cuidado com o contrato era problema de quem escreveu o contrato.
Mas há também quem argumente que palavra dada é palavra dada, prazo é prazo e que dinheiro nenhum devia comprar isso. Fica a pergunta para si. Eu não vou responder por ninguém. Essa foi a quezília que virou notícia no país inteiro. Todo o mundo viu. Mas o problema seguinte ninguém viu, porque este acontecia todos os dias no meio da rua, longe de qualquer câmara.
A gente olha para a fama e pensa: “Deve ser bom demais. Toda a gente te conhece, todo mundo te trata bem, toda a gente quer estar perto. E faz sentido pensar assim, porque é isso que aparece na foto. Só que tem uma conta que ninguém mostra. O homem simplesmente já não conseguia andar na rua.
E não estou a falar de tapete vermelho e aeroporto. Estou a falar de coisa básica. Ir ao mercado, ir ao médico, ir ao enterro. Enterro, aliás, tornou-se um problema sério para ele. Ele foi despedir-se de um amigo, um cavaquinista antigo. Chegou lá e apareceu gente a pedir para ele ir até ao capela do lado, porque o falecido de lá era fã dele.

A família queria foto, foto junto do caixão. Ele nem sequer conseguiu estar perto do próprio amigo. Cumprimentou a família de longe e foi embora. E há uma que é ainda mais forte. Um dia estava a sentir-se mal, com taquicardia, o coração disparado, pegou na filha pequena pela mão e foi até o centro de saúde. Chegou lá, sentou-se na frente do atendedor para medir a pressão.
O atendente olhou para a cara dele, reconheceu e fugiu. Não correu para ir buscar médico, correu para chamar os outros e tirar uma fotografia. Ele conta que pensou ali que ia morrer naquela cadeira. E aí pergunta: “Mas por que não se habitua?” Porque não tem como. Ele próprio explica que a pessoa não sabe como ele está por dentro. Pode estar doente, pode estar de luto, pode estar a regressar de um enterro, mas a foto é sempre agora, sempre naquele exato momento e sempre com aquela conversa de vira para aqui que a luz está melhor quando o telemóvel com câmara chegou à mão de
todos, acabou de vez. Antes a pessoa precisava de ter uma máquina fotográfica. Depois, toda a gente passou a ter uma no bolso. E o que mais dói na história é o que ele perdeu junto. Ele já não pode ir a uma roda de samba de bairro. Sem segurança é impossível. E em segurança ele não vai, porque não é o jeito dele.
Assim, simplesmente não vai. O sujeito que aprendeu tudo de pé à porta de uma mesa em Oaria, ficou sem poder entrar em mesa nenhuma. Enquanto perdia a rua, o samba estava a perder uma coisa muito maior. Agora, tem atenção a esta, porque esta é a que mais o incomoda até hoje. Você recorda-se de quando o rádio ficava ligado o dia inteiro dentro de casa, na cozinha, na oficina, no carro, na obra e tinha programa de samba de manhã, à tarde e de madrugada.
Havia apresentador que era referência, tinha hora marcada, tinha gente à espera. Hoje não há quase nada. Ele próprio diz com aquela tristeza mansa: “Falta um programa de samba na televisão brasileira”. Mas o buraco maior não é esse. O buraco maior está no compositor. Naquele tempo, entrar num disco do Zeca Pagodinho era ganhar na lotaria. E não é força de expressão.
Ele conta que compositor que emplacava uma música no seu disco dava entrada em apartamento. Houve gente que comprou casa, uma música, uma só. Ele diz do forma mais curta possível: “Hoje não há nada”. E depois vem a parte que ninguém imagina. Nem sempre o nome do compositor aparece.
Toca a música na rádio, canta na televisão e o autor daquilo simplesmente não é citado. Ele já ligou para a emissora para cobrar, já ligou a lutar, dizendo que tinham que falar o nome do autor. Houve uma vez que a coisa foi ainda mais esquisita. Numa música que era dele com Arlindo Cruz, os dois nomes desapareceram e no lugar apareceram outros três compositores que não tinham nada a ver com aquilo.
Ele ligou para gravadora e resolveu à força. E foi por isto que ele criou o quintal do pago a ideia é simples e bonita. Uma vez por ano, enchia a casa de compositor. Comida, cerveja, mesa posta, por vezes dois dias seguidos. Cada um cantava três músicas. E ele não ficava por perto porque diz que o gajo fica envergonhado quando o vê a olhar.
Ficava andando pelo quintal de longe. E o critério era um só. Quando a música pegava fogo no quintal, quando os outros compositores começavam a cantar junto à música de um colega, ele olhava para o produtor de longe. Aquele olhar queria dizer: “Este depois entrou no disco.” De 500 canções ouvidas, ele escolhia 12.
E aquilo tornou-se muito maior do que um disco. O quintal tornou-se um programa de televisão e o compositor, que era apenas compositor, passou a ter espetáculo próprio, cachet, nome à porta. Gente anónima virou artista porque abriu o quintal de casa. Mas nenhum destes problemas, nem o processo, nem a rua, nem o samba a perder espaço, compara-se ao que veio depois, porque agora a conta ia chegar dentro de casa.
Vemos o homem no palco, cerveja na mão, aquele sorriso, e pensa que a vida dele é aquilo o tempo inteiro. E faz sentido pensar assim, porque é a única coisa que a gente vê. Mas ele próprio já explicou como funciona. Ninguém sabe como está o artista quando sobe para aquele palco.
Pode estar zangado em casa, pode estar preocupado com um filho, pode estar partido por dentro e mesmo assim tem que entrar dizendo boa noite, alegria. Tudo bem com vocês? O jeito que ele encontrou foi este. Pega na alegria da plateia lá em baixo, traz para dentro e devolve ao povo. E ele teve muita coisa para carregar.
Em janeiro de 2013, Xeren foi ao chão numa cheia. A água levou rua, casa e até entrou no seu sítio. Não mandou nota, não postou nada, subiu para um quadriciclo com a filha na garupa, atravessou uma rua alagada, distribuindo sopa, cabaz de alimentos e roupa, e cobrou às autoridades na frente da câmara. Isso foi o mais fácil. Em 4 de janeiro de 2015, ainda no clima de passagem de ano, morreu o filho mais velho dele, Elias Gabriel, de 28 anos, complicação nos pulmões.
O Zeca estava se a recuperar de uma cirurgia à coluna. Sentiu-se mal no velório e não conseguiu ficar. Não conseguiu ficar no funeral do próprio filho. A única coisa que ele conseguiu dizer sobre aquilo foi uma pergunta. O que é que se diz sobre a morte de um filho? Não tem resposta para isso. Nunca teve. No mesmo ano, ele perdeu o pai. O senhor Gessé aos 87.
Em 2019, perdeu Bet Carvalho, a mulher que empurrou-o para o palco com a camisa emprestada. E em agosto de 2025 perdeu Arlindo Cruz. Arlindo não era só parceiro de música, era compadre, padrinho de um dos seus filhos, o tipo que continuava a insistir: “Vamos compor Zeca”. Quando o Zeca só queria conversar. E há uma história dessa noite que explica tudo.
Arlindo teve um AVC em 2017. Zeca soube da notícia por telefone minutos antes de subir ao palco, numa cidade do interior de São Paulo. Teve que cantar mesmo assim. Ele diz que foi o pior concerto da vida dele. O espetáculo não acabava nunca e a cabeça estava a 1000 km dali. Depois desse dia, criou uma regra que se segue até hoje.
Não atende mais telefone antes de um concerto. Nenhum. Quando Arlindo se foi embora, 8 anos depois a despedida foi curta e em vídeo, da forma que amigo fala de amigo. Sofreu muito, agora merece descansar um pouco e o corpo dele também começou a cobrar. Cirurgia à coluna, diabetes, catarata operada, internamento por COVID em 2021.
Depois de tudo isto, o processo, a rua perdida, o samba sem espaço, os enterros, muita gente jurou que o Zeca Pagodinho tinha-se recolhido de vez. E é aí que esta história dá a volta que ninguém esperava. Eis a resposta da pergunta que trouxe para este vídeo. Zeca O Pagodinho não foi esquecido nem um pouco. Hoje tem 3.1.
000 pessoas a ouvi-lo todos os meses só numa plataforma de música. tem 4 milhões de seguidores nas redes. Este ano está numa digressão em estádio com Alioni e Jorge Aragão, que se estreou no Maracanã. Em 2023, tornou-se enredo de escola de samba na Sapucaí. Em 2025 foi o primeiro sambista da história a ser homenageado pelo prémio UBC.
E a vida dele está a tornar-se filme. A cinebiografia começou a ser gravada este ano. Então, onde é que está o desaparecimento? está na sua televisão e no seu rádio. Foi de lá que ele saiu, não do Brasil. E a outra metade da explicação é a escolha dele. Mede a glicose antes de beber a primeira cerveja porque é diabético e leva isso a sério.
Se interna duas vezes por ano por vontade própria, apenas para fazer checkup e descansar. Faz espetáculo espaçado com data marcada com folga porque já não quer tomar o tempo do avô. E olhe que esta, no carnaval do ano passado, recusou um cachet de cerca de R$ 400.000. R$ 1000 para ficar em casa 100 vezes a reforma dele num fim de semana só.
O motivo, nas suas palavras, cansa, já foi o tempo, passou. Ele vive entre dois endereços. Uma casa na barra da Tijuca, com disco de ouro na parede, altar de São Jorge na sala e um colchão atirado no chão para rebolar com os netos. São sete netos. O último nasceu em maio e o sítio em Xerém, que comprou em 1991 e chama-lhe uma casa de verdade, quase um quarteirão de terreno com boi, cavalo, galinha e mais de 40 gatos.
Ele circula por lá num triciclo vermelho, levando visita na garupa. Foi aí que fez a coisa mais bonita desta história toda. Os seus filhos estudavam música em casa e a miudagem da rua jogava à bola no campinho do quintal. Quando a professora chegava, ninguém queria sair do jogo. Aí ele perguntou à professora quanto é que ela cobrava para dar aulas a todos aqueles meninos. Todos.
Comprou um piano preto, fechou uma laje no terreno da frente e colocou o piano lá dentro. Aquilo virou o Instituto Zeca Paguadinho. Hoje passa de 250 crianças com aula, projeto com cavalos e uma horta comunitária do tamanho de um campo de futebol. Agora eu quero saber de ti. O Zeca acertou em abrandar o ritmo para viver com os netos ou acha que ele ainda tinha muito palco pela frente? Escreve aí em baixo: opção um, acertou em cheio.
Opção dois, parou cedo demais. Eu leio todos os comentários. Deixa o like e subscreve no canal, que é o que nos mantém contando estas histórias.