O prazo de 90 dias venceu na quarta e na quinta o MP disse que nem tornozeleira segura Deolane – H
O Ministério Público de São Paulo sustentou esta quinta-feira que uma tornozeleira eletrónica no tornozelo de Deolane Bezerra não seria suficiente para garantir a ordem pública. A frase está no pedido que o Gaeco e a procuradoria de justiça levaram ao juiz e o juiz concordou. Deolane continua presa.
Quem acompanha este caso comigo recorda o vídeo em que a mãe dela publicou a carta escrita da cadeia 13 dias depois do terceiro não da justiça. Aquele terceiro não se transformou num quarto, passou a ser um quinto e agora passou a ser um sexto. O que ninguém está a contar hoje é a data. Quarta-feira, 19 de agosto, foi o dia 90 da prisão preventiva de Deolane.
90 dias é o prazo que a lei dá para um juiz olhar de novo para uma prisão como essa e dizer se ainda se justifica. O relógio chegou ao fim e a resposta veio na quinta-feira. Um dia depois, com o Ministério Público escrevendo preto no branco, que ela é um dos braços financeiros do primeiro comando da capital e que pulseira no tornozelo não resolve.
Hoje, sexta-feira, Deolane Bezerra completa 92 dias presa. O que está em jogo aqui não é abstrato. A carteira de advogada dela está suspensa desde 25 de junho e essa suspensão pode ser esticada até 360 dias. A filha mais nova, de 10 anos, escreveu num espelho que não consegue viver normalmente enquanto a mãe estiver lá.
E a liberdade dela agora depende de uma tese jurídica que ainda não foi julgada por ninguém. Por que razão o melhor criminalista do país entrou neste caso e mesmo assim não conseguiu tirar ela de lá? Por que razão o Tribunal de Justiça negou mesmo o pedido para ela cumprir a prisão numa sala especial? Uma prerrogativa que a lei confere a um advogado.
Por que razão o Supremo Tribunal de Justiça, quando manteve a prisão em junho, ainda fez questão de pedir pressa ao Tribunal de São Paulo? Porque a Ordem dos Advogados agiu uma semana depois de ela virar marcha atrás e não antes? E por entre todas as as pessoas detidas na mesma operação é o nome dela que aparece com este carimbo de risco para a ordem pública? Fica comigo até ao fim, porque no último terço deste vídeo vou ler contigo o que estava escrito num bilhete rasgado encontrado num esgoto prisional em julho de 2019.
São cinco palavras. Elas explicam melhor do que qualquer decisão judicial, porque a pulseira não entra nessa conta. Na manhã de 21 de maio do corrente ano, um quinta-feira, agentes do Gaeco e da Polícia Civil bateram à porta de uma casa em Barueri, na grande São Paulo. Havia seis mandados de detenção preventiva.
Um deles tinha o nome de Deolane Bezerra Santos. Os outros incluíam pessoas da família de Marcos Williams Herbas Camacho, o Marcola. Vamos começar pelo relógio, porque é o relógio que explica a semana. A prisão preventiva no Brasil é uma medida que o juiz toma antes do julgamento, quando entende que soltar aquela pessoa naquele momento traz algum risco.
Ela vale enquanto existir o risco e vale contra quem ainda não foi condenado por coisa nenhuma. Justamente por ser uma medida tão forte aplicada a quem ainda não foi julgado. A lei obriga o juiz a rever a decisão a cada 90 dias. Este prazo corre sozinho, independentemente de a defesa pedir ou de haver recurso pendente. Quando ele rebenta, alguém tem de olhar para aquilo outra vez e assinar por baixo.
Deolane foi detida a 21 de maio. Conta com o dedo, 10 dias de maio, 30 de junho, 31 de julho e mais 19 de agosto da 90. Quarta-feira, 19 de agosto de 2026, foi o dia em que o relógio bateu. A defesa dela sabia-o, claro, todo mundo que trabalha com processo penal sabe. E foi exatamente por isso que a movimentação começou antes.
Três dias antes do termo do prazo, na segunda-feira, 17 de agosto, veio a público o sexto pedido de libertação. Sexto, não é erro de contagem. Só que este sexto pedido tem uma diferença dos cinco anteriores e é uma diferença enorme. Nos cinco primeiros, a defesa pediu a liberdade. Neste pediu que o todo o processo fosse anulado.
Guarda essa informação porque volto a ela no meio do vídeo e ela é o motivo de metade dos canais estarem a prometer que ela saia a qualquer momento. Enquanto isso, do outro lado da mesa, o Ministério Público não ficou à espera que o juiz perguntar. O Gaeco e a procuradoria de justiça apresentaram um pedido de manutenção da prisão e o argumento que usaram é o que dá título a este vídeo.
Escreveram que Deolan ocupa a posição de um dos braços financeiros do PCC e que as medidas cautelares alternativas, incluindo o uso de tornozeleira eletrónica, seriam insuficientes para garantir a ordem pública. Repara no que esta frase está dizendo. Ela não está a dizer que Deolane vai fugir. Tornozeleira resolve fuga. É para isso que ela serve.
O aparelho apita quando a pessoa sai do área permitida. O que o Ministério Público está a dizer é que existe um tipo de risco que continua a existir mesmo com ela em casa, vigiada, com hora para entrar e sair. Um risco que não tem nada a ver com ela desaparecer do mapa. Na quinta-feira, 20 de agosto, o juiz analisou os dois requerimentos e ficou com o do Ministério Público.
A prisão foi mantida. Nesse mesmo dia, o Record colocou a notícia no Cidade Alerta e o vídeo passou as 88.000 visualizações em poucas horas. A TV Gazeta abriu o jornal da Gazeta com a manchete de que o MP pediu a renovação da prisão. A TV Jornal do SBT foi para o ar perguntando se Deolan poderia deixar a prisão a qualquer momento.
Três emissoras diferentes, na mesma noite, com a mesma história. O Brasil inteiro acordou hoje, sabendo que ela não saiu. Agora o pedaço que quase ninguém colocou no ar. Essa não é a primeira vez que Deolane Bezerra dorme numa cela. Em 4 de setembro de 2024, foi detida no Recife, na Casa da Família, durante a operação Integração da Polícia Civil de Pernambuco.
A investigação visava jogo ilegal e branqueamento de capitais e tinha iniciado em abril de 2023. Foi levada para a sede do Departamento de Repressão dos crimes patrimoniais. A mãe dela, Solange, foi presa junto. E aí vem o número que muda tudo. Ao fim da noite de 23 de setembro de 2024, o Tribunal de Justiça de Pernambuco mandou libertar 17 pessoas detidas nessa operação.
Deolani e Solange estavam na lista. Faz a conta comigo. 4 de setembro até 23 de setembro. 19 dias. 19 dias em 2024, 92 hoje é quase cinco vezes mais tempo, com a mesma mulher, o mesmo apelido, a mesma mãe a fazer campanha à porta, o mesmo discurso de perseguição, o mesmo equipa de advogados caro. Alguma coisa mudou a meio do caminho e vale a pena perceber o quê? Porque ninguém fica mais culpado com o passar do tempo.
Processo penal não funciona assim. O que mudou foi a morada da acusação. Em Pernambuco, em 2024, a palavra central da investigação era o bingo. Jogo ilegal, dinheiro a rodar por casas de aposta, lavagem através de empresas de fachada ligadas ao ramo. É um crime grave, é um crime organizado, mas é um crime que a justiça brasileira trata como económico.
Solta com providência cautelar, responde em liberdade, discute nos autos. Foi exatamente o que aconteceu com os 17. Em São Paulo, em 2026, a palavra central é outra, é facção. E não uma facção qualquer. A investigação coloca o nome dela ao lado do núcleo de comando do primeiro comando da capital, com seis mandados cumpridos no mesmo dia, alguns deles contra familiares de Marcola.
Quando a palavra facção entra no processo, o cálculo do juiz muda de natureza. Ele deixa de perguntar apenas se a pessoa vai fugir ou destruir prova. Ele passa a perguntar outra coisa. E essa outra coisa é o que a lei chama de ordem pública. Traduzindo para português que nós dizemos: “Se essa pessoa voltar para casa amanhã, a estrutura que está a ser investigada continua a funcionar através dela.

E é aí que a pulseira de tornozelo perde a utilidade, porque o aparelho controla onde está o corpo. Ele não controla quem liga, quem visita, quem assina, quem transfere. Guarda isso também, fará sentido completo mais paraa frente. Tem um pormenor da semana passada que passou despercebida e que quero que tenha na cabeça antes de eu ir para a defesa.
A 9 de junho, a quinta turma do Supremo Tribunal de Justiça manteve a sua prisão por unanimidade. Unanimidade quer dizer que nenhum dos ministros discordou. Nenhum. E na mesma decisão, o STJ fez algo que não é obrigado a fazer. pediu celeridade ao Tribunal de Justiça de São Paulo. Pediu pressa. Um Tribunal Superior pedindo pressa a um tribunal estadual num caso de prisão preventiva é um recado.
Pode ser lido de duas maneiras e é honesto colocar os dois em cima da mesa. Pode ser o tribunal dizendo que quer o mérito resolvido logo porque a pessoa está presa e prisão longa incomoda. E pode ser o tribunal a dizer que quer aquele processo a andar, porque vê peso no que está ali dentro. Nas duas leituras, o resultado prático foi o mesmo.
Ela ficou. A 2 de julho, o ministro Ribeiro Dantas negou mais um pedido de libertação imediata, desta vez em decisão individual. Dia 42. Cinco dias depois de tornar-se arguida por organização criminosa e branqueamento de capitais, a Ordem dos Os advogados do Brasil de São Paulo se mexeu.
No dia 25 de junho, a OABSP suspendeu preventivamente a inscrição dela. Na prática, Deolan está proibida de advogar. O prazo inicial dessa suspensão é de 90 dias e a lei permite prorrogar sucessivamente até ao limite de 360. A defesa reagiu com força. Disse que foi surpreendida pela notícia de que a medida foi tomada sem o devido processo e classificou a decisão com duas palavras que vale a pena reter, errada e absolutamente inadequada.
Anunciou o recurso imediato para repor o direito dela a trabalhar. Repara na sequência. 9 de junho, o STJ mantém. 25 de junho, a Ordem dos Advogados suspende. 2 de julho, o STJ volta a negar. E em algum momento desse intervalo, o Tribunal de Justiça de São Paulo negou também a pedido para que ela cumprisse a prisão em sala de Estado-Maior.
Vê se último ponto merece meio minuto, porque é o mais técnico e o mais revelador. O Estatuto da Advocacia diz que advogado preso antes de decisão definitiva deve ficar em sala especial. E se não existir lugar adequado em prisão domiciliária. É uma prerrogativa da profissão. A defesa pediu isso. O tribunal negou.
Ou seja, nem pela porta da carteira de advogada ela conseguiu sair. E poucos dias depois foi essa mesma carteira que a ordem suspendeu. 25 de junho. A ordem tira a carteira. Em algum ponto próximo, o tribunal nega a prerrogativa que o carteira dava. Uma coisa fechou a porta da outra. Ela está na cadeia feminina de Tupi Paulista, no interior de São Paulo, com contacto restrito com a família.
Eu Quero fazer-te uma pergunta antes de virar para o bloco seguinte e quero de verdade a sua resposta na caixa de comentários. Em 2024, ela saiu em 19 dias, passa agora para 92. Na sua leitura, o que mudou foi a Deolane ou foi o processo? Escreve lá em baixo porque eu leio. E se acha que a resposta é simples, espera até ver quem é o advogado que está a tentar tirá-la de lá. Chama-se Auri Lopes Júnior.
Se não é da área do direito, este nome não diz nada. Se é, acabou de levantar a sobrancelha. Auri Lopes Júnior é uma das maiores referências do país em processo penal. Livro dele é bibliografia obrigatória em faculdade de direito. Advogado que exerce em Tribunal Superior estuda o que ele escreve. Quando um caso complicado necessita de uma tese nova, de um argumento que ninguém tentou ainda, é para gente como ele que se liga.
E aqui está a coisa mais interessante que apareceu nos comentários dos vídeos sobre este caso esta semana. Num vídeo com mais de 500 comentários, o que mais gerou discussão passou longe do palavrão e da piada de sempre. Foi uma pessoa a escrever mais ou menos isto. Se a Deolane contratou o Auri Lopes Júnior, que é uma referência nacional, e nem ele conseguiu tirá-la daí até agora, pelo que o buraco é bem mais em baixo do que imaginamos.
89 pessoas gostaram deste comentário, 16 responderam. E, honestamente, quem escreveu que entendeu melhor o caso do que muita manchete, porque é isso mesmo, a qualidade da defesa torna-se um termómetro do tamanho da acusação. Quando a melhor equipa do campeonato entra em campo cinco vezes e volta cinco vezes sem golo, o problema deixa de ser a equipa.
Vamos então olhar para o que essa defesa tentou, uma a uma, porque a sequência conta uma história. O primeiro movimento foi o óbvio. Abias corpos pedindo a revogação da preventiva, com o argumento clássico de que não existiam elementos concretos para manter uma pessoa presa antes do julgamento. Negado.
O segundo caminho foi a prerrogativa profissional. Ela é advogada. Advogado preso antes de decisão final tem direito à sala de estado-maior e se não houver sala adequada tem direito à prisão domiciliar. Esse pedido chegou ao Tribunal de Justiça de São Paulo e o Tribunal negou. O terceiro foi para cima, para o Tribunal Superior de Justiça.
9 de junho, quinta turma, cinco ministros, unânime pela manutenção. O quarto foi um pedido individual direto a um ministro, tentando uma providência cautelar de libertação imediata sem esperar o colegiado. 2 de julho. Ministro Ribeiro Dantas. Negado. O quinto chegou àquela sequência que contámos no vídeo do início do mês.
O terceiro não, que fez a família ir a público. E o sexto é o de agora, segunda-feira, 17 de agosto. Nesse sexto, a defesa mudou de estratégia por completo. Parou de discutir se deve ficar presa, passou a discutir se aquele processo existe. A tese é a seguinte: e vou explicar devagar porque ela é engenhosa. A denúncia descreve uma organização criminosa com características transnacionais, movimentação de dinheiro, estrutura empresarial.
Ora, diz a defesa, se a acusação é de organização criminosa transnacional, quem tem competência para julgar isto no O Brasil é a justiça federal e não um juiz estadual de São Paulo. E se o juiz estadual nunca teve competência, pelo que tudo o que assinou é nulo, a prisão é nula, as buscas e apreensões são nulas, a própria denúncia cai.
Se esta tese for aceita, Deolane não sai por benevolência de ninguém. Ela sai porque o processo evapora. Foi por isso que nos últimos dias viu miniatura amarela a gritar que ela pode ser libertada imediatamente, que o processo pode ser anulado, que é uma jogada de mestre. Um advogado comentador chamou de jogada de mestre ao vivo e o corte deste rodou.
Agora respira porque tem o outro lado da mesa e o outro lado tem nome. O promotor Lincoln Gaquia rebateu. Gaquia, para quem não conhece, é um dos promotores que mais tempo dedicou ao combate ao primeiro comando da capital no estado de São Paulo e vive com escolta há anos por causa disso. A resposta dele foi direta.
Toda a investigação tratou de recursos movimentados dentro do estado de S. Paulo. Não há operação internacional descrita nos autos. Se não há transnacionalidade, não há competência federal. E o juiz estadual é o juiz natural do caso. E olha o pormenor cronológico que quase ninguém juntou. Este sexto pedido veio a público na segunda-feira.
O prazo dos 90 dias venceu na quarta-feira. A decisão saiu na quinta. A defesa antecipou-se ao relógio, jogou a carta mais forte que tinha três dias antes de terminar o prazo, provavelmente para que a tese estivesse na mesa do juiz no momento exato em que fosse obrigado a reavaliar a prisão e o relógio passou por cima a si próprio.
Isto não quer dizer que a tese tenha morrido, quer dizer outra coisa e a diferença importa. O pedido de anulação ainda não foi julgado. O que foi julgado na quinta foi a revisão obrigatória da preventiva, que é um procedimento diferente. Então, quando vir alguém a afirmar hoje que ela vai ser libertada, entenda que esta pessoa está a falar de uma possibilidade em análise, não de um facto.
E quando se vir alguém a afirmar que ela nunca mais sai, entenda que essa pessoa também está a dar pontapés. Enquanto os tribunais decidem, a família decidiu falar. Em 26 de julho, a filha mais nova de Deolane escreveu uma frase num espelho e alguém fotografou. A menina tem 10 anos. Ela escreveu: “Mãe, enquanto estás aí, não consigo viver normalmente.
Só sei que te amo muito.” Solange Bezerra, avó da menina e mãe de Deolane, publicou o foto. Cinco dias depois, a 31 de julho, uma sexta-feira, Solange publicou outra coisa, uma carta manuscrita que Deolane mandou de dentro da cadeia. Na carta, Deolane pede calma à família e pede que a mãe descanse.
Diz que esta é a terceira vez que invadem a vida delas com a intenção de as destruir. E escreve uma frase que fez manchete em meio Brasil nesse fim de semana. Deus nunca colocar-me-ia num lugar desse se não fosse para me formar mais tarde. Foi essa carta que nós comentámos aqui no vídeo do dia 1eo de agosto e ela chegou 13 dias depois do terceiro não da justiça.
Some 20 dias aquela carta e chega na decisão de quinta-feira. Sobre o dia o dia dela lá dentro existe informação pública e existe boato. E vou separar os dois. público. Ela está na cadeia feminina de Tupi Paulista, no interior Paulista, com contacto restrito com familiares. Público também. A promotora de justiça Eliana Passarelli, que exerce no caso, deu uma entrevista televisiva explicando que a abordagem policial na casa dela foi agradável e previsível, descartando o abuso de autoridade, que a comissão policial precisava de ser numerosa
por envolver facção, que o horário de madrugada é padrão para evitar fugas de informação e que a retirada do alongamento do cabelo dentro da unidade segue uma norma de segurança penitenciária, com a finalidade de evitar o risco de fuga e piolho. Circula, sem confirmação de fonte identificável, um monte de versão sobre como ela estaria emocionalmente, com quem partilharia a cela, quem a visitou. Isso trato-o como o que é.
Se aparecer prova pública, a leitura altera-se. Há uma coisa que aparece nos comentários de todos os vídeos deste caso e que preciso de tocar, porque ignorar seria desonesto para consigo. Sempre que o nome dela sobe, alguém puxa o nome de MC Kevin. Deol foi casada com ele e faleceu em maio de 2021, ao cair da varanda de um hotel no Rio de Janeiro.
Um comentário com quase 40 gostos nesta semana sugeria que ele sabia de alguma coisa e foi calado por isso. Não existe nenhuma investigação pública, nenhuma queixa e nenhuma decisão judicial ligando à morte de MC Kevin, a operação Vernix ou ao que está a ser apurado agora. O que existe é uma coincidência de nomes na mesma biografia e a internet fazendo o que a internet faz.
Eu registo que se fala e registo com a mesma clareza que não há base pública para tratar isso como um facto. Se um dia aparecer documento, voltamos aqui e conversa de novo. Outro nome que reapareceu nos comentários foi o de Frank, que segundo várias pessoas vinha dizendo há anos que ela lavaria dinheiro para o crime organizado.
59 curtidas nesse comentário. Vale como termómetro do que a audiência está a recordar. Não vale como prova, porque acusação em direto não é uma peça processual. Ora, o que está de facto em jogo para ela em números? A cartão de advogado, suspenso desde 25 de de junho, prorrogável até 360 dias. Se o processo disciplinar da ordem chegar ao fim com condenação, a suspensão deixa de ser preventiva.
A liberdade, 92 dias e contando contra 19 dias em 2024. A guarda emocional da filha de 10 anos, que está com a avó desde maio e que já foi a público por duas vezes. E a coisa mais difícil de medir, que é a posição pública dela. Deulan construiu uma carreira toda em cima de ser a mulher que responde, que enfrenta, que aparece. 92 dias sem poder responder é uma eternidade para quem dela vive.
Deixa eu faço-te a segunda pergunta do vídeo e essa é a mais espinhosa. Tornozeleira eletrónica é usada no Brasil por pessoas condenada por coisas muito piores do que branqueamento de capitais. Gente que cumpre pena em regime semiaberto sai de casa todos os dias com o aparelho no tornozelo. Então porque é que a tornozeleira não serviria para ela? ou o Ministério Público tem razão e existe um tipo de risco neste caso que uma pulseira no tornozelo simplesmente não cobre.
Pensa nisso com calma e escreve: “Quero ler os dois lados e vou responder aos comentários mais bem argumentados, porque a resposta a esta pergunta não está em nenhuma decisão de 2026. Ela está num pedaço de papel rasgado que Os agentes penitenciários encontraram num esgoto em julho de 2019. Presidente Venceslau é uma cidade do Oeste Paulista, longe de tudo, com pouco mais de 60.000 habitantes.
Quem não é de lá conhece a cidade por um só motivo. É onde se encontra a penitenciária segundo, uma das unidades de segurança máxima onde o estado de São Paulo guarda as lideranças do Primeiro Comando da capital. Em julho de 2019, os guardas prisionais fizeram uma varredura numa cela dessa unidade e encontraram fragmentos de papel manuscrito descartados, bilhetes rasgados, deitados fora do jeito que se deita fora, aquilo que não pode ser encontrado.
Os agentes remontaram os pedaços. Num deles havia uma referência a uma pessoa. A referência não trazia nome, não trazia apelido, não trazia documento, trazia cinco palavras. A mulher da transportadora. Esta frase escrita à mão por alguém preso numa cela de segurança máxima em 2019 é o marco zero de tudo o que viu esta semana.
7 anos depois, ela desemboca numa decisão judicial de uma quinta-feira de agosto de 2026. A polícia começou a procurar que transportadora era esta e encontrou perto, muito perto. O nome comercial é Lopes Lemos Transportes Limitada. O nome de fantasia, aquele que fica na fachada e no camião, é lado a lado. A sede fica em Presidente Venceslau, a cerca de 300 m da penitenciária.
Segundo 300 m é a distância de uma caminhada de 4 minutos. Do portão da empresa dava para ver o muro. Os investigadores registaram nos autos que consideraram o nome de fantasia irónico e sugestivo. E é difícil discordar. uma empresa chamada Lado a Lado, instalada literalmente ao lado da prisão, onde estava a cúpula da facção.
O que a investigação sustenta e o que a justiça acabou por reconhecer é que esta transportadora foi instrumento utilizado pelo crime organizado para lavagem de dinheiro e que os proprietários reais dela, por detrás dos nomes que apareciam no papel, eram dois irmãos, Marcos Williams Herbas Camacho, o Marcola, e Alejandro Camacho, conhecido por Gordão.
Segundo a investigação, os dois tomavam decisões sobre a compra de ativos e estratégia de negócio a partir de dentro da prisão. Uma empresa de camiões sendo gerido por reclusos a 300 m da cela deles. Dentro desta estrutura aparece a figura de um gestor financeiro identificado como Everton de Souza, o player.
A função descrita nos autos era orientar quais as contas que receberiam os lucros destinados a Marcola e a Gordão. E é exatamente aqui que o nome de Deolane Bezerra entra no processo 7 anos depois do bilhete. Segundo a investigação, no telemóvel do administrador da transportadora, foram encontrados comprovativos de depósitos diretos para duas contas de Deolane.
Duas contas comprovativos. O papel que a acusação lhe atribui é específico e é necessário repetir com cuidado que é isso que a acusação sustenta. Não uma condenação. A tese do Ministério Público é que Deolani emprestava a respeitabilidade social dela para a fase de integração do dinheiro.
A integração é o último passo da lavagem. Aquele em que o dinheiro sujo já limpo regressa à economia formal parecendo dinheiro comum. Para essa etapa funcionar, precisa de alguém acima de qualquer suspeita, alguém com fama, com carreira, com carteira da Ordem dos Advogados, com milhões de seguidores. Foi por isso que os investigadores escreveram que houve movimentos financeiras expressivas e incompatibilidades patrimoniais no nome dela, para além de indícios de ligação com os membros do núcleo de comando da facção.
Mas ainda não é isso que responde à pergunta da tornozeleira. O que responde está na outra metade do bilhete de 2019. E essa parte, sinceramente, é a mais pesada de todas que li a preparar este vídeo. Os documentos encontrados no estabelecimento prisional não citavam a mulher da transportadora só como alguém que movia dinheiro.
Segundo a apuração, aquela figura aparecia com uma tarefa atribuída, reunir endereços dos agentes públicos. Endereços de agentes públicos. Agente público, nesse contexto, quer dizer procurador, juiz, delegado, polícia, agente penitenciário. A gente que trabalha nas unidades como a de presidente venceslau. Agente que assina uma decisão contra a fação.
Um morada não é dinheiro. Um endereço não lava nada. Um endereço só serve para uma coisa, para alguém saber onde é que a pessoa dorme. Agora volta comigo para quinta-feira, 20 de agosto de 2026, e lê de novo o que o Ministério Público escreveu. Que medidas alternativas, incluindo tornozeleira eletrónica, seriam insuficientes para garantir a ordem pública? Faz sentido agora? La tornozeleira responde a uma questão.

Onde está o corpo dessa pessoa? Ela apita se o corpo sai da zona. Ela é excelente nisso. O que esta acusação descreve acontece independentemente de onde o corpo dela se encontra. Contas bancárias funcionam a partir de casa, telefonemas funcionam a partir de casa. Informação funciona de casa.
Um endereço anotado num papel viaja igual estando a pessoa numa mansão em Barueri com pulseira no tornozelo ou sem pulseira nenhuma. Por isso, ninguém solta. Por isso, o Supremo Tribunal de Justiça foi unânime. Por isso, o Tribunal de Justiça negou mesmo a sala especial de advogada. Por isso, a Ordem dos Advogados tirou-lhe a carteira cco dias depois de ela se ter tornado ré.
E por isso, o melhor processualista penal do Brasil apresentou seis pedidos e voltou seis vezes. “O buraco é mais em baixo”, escreveu aquele comentador anónimo com 89 gostos. Ele tinha razão. O buraco fica a 300 m de um muro em Presidente Venceslau e foi escavado em 2019, quando ninguém no Brasil ainda tinha ouvido falar da Dra. Deolane.
Vale por dizer, com a mesma firmeza, o que a defesa responde a isso? A defesa sustenta que não há prova de dolo, que o depósito em conta não prova conhecimento da origem do dinheiro, que a referência num bilhete de 7 anos atrás, sem nome e sem apelido, não identifica pessoa alguma e que o todo o processo está no juízo errado. Nada disto foi julgado ainda.
Deolane Bezerra não foi condenada por nada neste caso. É arguida e arguida responde à acusação, não a sentença. E é bom recordar uma coisa que a própria história do caso ensina. Em setembro de 2024, em Pernambuco, 17 pessoas detidas numa enorme operação, com manchete em rede nacional, saíram todas em 19 dias, porque um tribunal entendeu que a prisão não se sustentava.
Aconteceu uma vez, pode acontecer de novo. O que a gente sabe hoje com data e com assinatura é isto. O prazo venceu na quarta-feira. A decisão veio na quinta-feira e ela ficou. Tem um lado desta história que ficou de fora de quase todas as coberturas desta semana e é o lado que mais me interessa como gente, não como processo.
A família dela não se calou um único dia destes, 92. Quem falou primeiro foi Daniele Bezerra, irmã de Deolane. E ela não falou sobre culpa, sobre dinheiro, sobre facção. Ela falou sobre a cena da prisão. O que Daniele questionou publicamente foi o formato. Ela chamou de espetáculo televisivo e de invasão vechatória.
escreveu amanhã de 21 de maio, do ponto de vista de dentro da casa, uma mulher a dormir, uma criança de 9 anos no quarto ao lado e homens entrando com espingarda. E fez uma pergunta que se tornou frase repetida por meio Brasil. Porquê só ela? Daniele foi mais longe e classificou a divulgação das imagens da prisão como abuso da Constituição Federal e como desrespeito pela presunção de inocência.
É um argumento que tem peso jurídico de verdade e vale a pena perceber porquê. A presunção de inocência é o princípio que diz que ninguém é culpado antes do trânsito em julgado. Quando as imagens de uma prisão viram conteúdos televisivos no mesmo dia com câmara a acompanhar, o efeito prático na cabeça do público antecipa uma condenação que ainda não existe.
É uma discussão antiga no direito brasileiro e ela não nasceu com a Deolane. A resposta veio da acusação com nome e apelido num programa de televisão. A procuradora de justiça, Eliana Passarelli, foi para o ar e rebateu ponto por ponto. Sobre o alegado abuso, ela foi categórica. Não houve abuso. A abordagem na residência, segundo a mesma, foi absolutamente legal e previsível.
sobre o número de polícias, explicou que uma investigação envolvendo facção criminosa exige um grande contingente, tanto para evitar fugas como para garantir a segurança dos próprios agentes. Sobre o horário, disse que a madrugada é padrão numa operação deste tipo, porque garante eficácia e reduz o risco de fuga de informação antes da hora.
E sobre a transparência, lembrou que as polícias militar e civil usam câmaras exatamente para dar suporte jurídico e registo das ações. Passarelli tratou ainda de um pormenor que se tornou assunto de fofocas e que ela devolveu para o campo da norma, a retirada do alongamento do cabelo dentro da unidade prisional. Segundo ela, aquilo segue uma norma de segurança penitenciária, com a finalidade de evitar risco de fuga e de piolhos.
E vale para toda a gente que entra naquela unidade com nome famoso ou sem nome nenhum. Você pode achar a resposta fria. Muita gente achou, mas ela é a resposta oficial dada por quem assina o caso e ela existe. Em 26 de julho, Daniele voltou a falar, desta vez sobre o estado da irmã. disse que Deolan estava nas palavras dela se adequando.
É uma palavra pequena e triste para descrever 90 dias. E no dia 3 de agosto, com Deolane presa havia 75 dias, foi a vez de Solange. A mãe publicou nas stories com uma música gospel ao fundo, uma mensagem dirigida diretamente à filha. Escreveu que naquela batalha Deus estava a trabalhar em silêncio e que sairia honrada, como sempre. sairás honrada.
Duas semanas e meia depois desta frase, o juiz manteve a prisão. Vale a pena registar também, porque faz parte do quadro, que a família sustenta desde o primeiro dia a tese da perseguição. Solange chegou a perguntar publicamente até quando é que esta perseguição vai durar e sugeriu que o caso serviria de cortina de fumo para outros escândalos do país.
É a leitura da família. está registada, tem fonte e o espectador tem direito a conhecer os dois discursos antes de escolher um. Do exterior, o caso saiu do território da tagarelice e caiu no colo de outro público inteiro. Um canal de saúde e treino com quase 900.000 inscritos publicou 37 minutos sobre o assunto e passou de 140.
000 visualizações em 4 dias com mais de 500 comentários. Ontem, um podcast de quase 2 horas juntou um delegado especialista em segurança e um advogado criminalista para esmiuçar o processo. Este é o comportamento típico de um caso que deixou de ser sobre uma influencer e tornou-se trcional. Falta responder a uma questão prática e é a que mais gente me enviou.
E agora? Quando é que alguém olha para isto de novo? A resposta está na mesma regra que abriu este vídeo. A revisão da preventiva é obrigatória de 90 em 90 dias e o relógio reinicia a cada decisão. A decisão saiu na quinta-feira, 20 de agosto. Contando 90 dias a partir daí, o próximo prazo obrigatório calha em 18 de novembro de 2026, uma quarta-feira.
Isso quer dizer que ela fica até novembro? Não necessariamente. Qualquer coisa pode acontecer antes. O julgamento do pedido de anulação da competência, uma decisão de tribunal superior, uma alteração no cenário da investigação. O que a data de 18 de novembro garante é o piso. Se nada de extraordinário acontecer, é aí que alguém volta a ser obrigado a assinar embaixo.
E se quando chegarmos a 18 de novembro, Deolane ainda estiver em Tupi Paulista, o número no ecrã vai ser outro, 181 dias. Terceira e última pergunta para si, e essa é a que mais divide. Se aquele bilhete de 2019 tivesse levado a polícia até uma mulher sem seguidor nenhum, sem programa de televisão, sem nome, acha que este caso teria chegado até aqui com esta força toda? ou é precisamente o contrário.
E ela está presa há 92 dias porque é famosa e porque a fama dela era, segundo a acusação, a ferramenta de trabalho. Escreve lá em baixo. E se mudou de opinião no meio do vídeo, escreve isto também, que é o comentário mais honesto que existe. Vantes de fechar, devo a lhe a resposta àquela pergunta que a irmã fez em maio e que ficou solta desde então.
Porquê só ela? Porque a premissa da questão está errada e isso é verificável. No dia 21 de maio não foi cumprido um mandado. Foram seis. Seis mandados de detenção preventiva na mesma operação, na mesma manhã. E entre as outras pessoas alcançadas estavam integrantes da A família de Marcola, o homem apontado como o verdadeiro proprietário da transportadora de presidente Venceslau.
Ela foi a única cujo rosto todos reconheceram. É diferente de ser a única presa. E isso ajuda a explicar por que a cobertura ficou tão desequilibrada. Os outros cinco nomes não vendem miniatura, o dela vende. Então, o Brasil inteiro passou três meses a discutir uma mulher e praticamente ninguém discutiu a estrutura que a investigação diz ter existido à sua volta desde antes de ela ser famosa.
Porque essa é a parte que mais me impressiona nesta cronologia. E quero deixar registado com clareza. Em julho de 2019, quando aqueles bilhetes foram remontados numa cela de presidente venceslau, Deolane Bezerra ainda estava a construir o personagem pública que conhecemos. A Dra. Deolane, que o Brasil inteiro viu na televisão, a viúva do MC Kevin, a mulher que se tornou fenómeno de audiência em reality e transformou o seu próprio nome em marca, tudo isto ainda ia acontecer.
A investigação, segundo a investigação publicada, começou por mensagens de Telegram e por papel rasgado, sem nome de celebridade nenhum dentro. Vafama chegou depois. E é essa a ordem dos acontecimentos que deita por terra a versão mais confortável para ambos os lados. Derruba quem diz que inventaram um caso para apanhar uma influencer, porque o caso é anterior à influencer, e derruba quem diz que estava tudo escancarado desde sempre, porque a polícia demorou 7 anos para amarrar um bilhete a uma conta bancária. 7 anos entre um pedaço de
papel no esgoto e um juiz a assinar numa quinta-feira de agosto que pulseira no tornozelo não basta. Foi por causa destes 7 anos que a defesa mudou de tática no sexto pedido. Discutir prova exige entrar num processo com 7 anos de investigação dentro. Discutir competência é atacar a base de tudo de uma só vez.
Do ponto de vista técnico, é a jogada mais racional que restava. Se ela vai funcionar, ninguém sabe, porque ainda não foi julgada. Então, este é o retrato de hoje, sexta-feira, 21 de agosto de 2026. Deolane Bezerra está na cadeia feminina de Tupi Paulista há 92 dias, com contacto restrito com a família. Ela é arguida, não é condenada.
O prazo legal de revisão da prisão expirou na quarta-feira e a resposta veio na quinta. Fica. O Ministério Público sustentou que ela é um dos braços financeiros do PCC e que nem tornoseleira eletrónica seria suficiente para garantir a ordem pública. E o juiz acolheu. A carteira de advogada dela continua suspensa e pode continuar suspensa até perfazer 360 dias.
O sexto pedido, o que quer anular todo o processo, continua sem julgamento. E a filha de 10 anos continua em casa da avó, com uma frase escrita num espelho que já deu a regressa no Brasil. A mãe dela disse que Deolane sairia honrada. A promotoria disse que não houve abuso nenhum. As duas frases continuam de pé, uma contra a outra, e nenhuma das duas foi decidida por um juiz.
Ainda se lembra da pergunta que fiz no início sobre por o melhor processualista penal do país entrou seis vezes e voltou seis vezes de mãos vazias? A resposta é mais fria do que parecia. Ele não está a perder por falta de argumento. Ele está a esbarrar numa palavra que a lei brasileira trata como categoria à parte. E essa palavra é ordem pública.
Enquanto o processo disser facção, nenhum recurso convencional abre aquela porta. O objeto que sobrou desta semana toda é pequeno e cabe na palma da mão. Uma tornozeleira eletrónica que nunca chegou a ser colocada em ninguém e que o Estado brasileiro achou insuficiente antes mesmo de tentar. e fica uma condição no ar, que é o que vai decidir o próximo capítulo.
Se o Tribunal de Justiça de São Paulo julgar o pedido de competência nas próximas semanas e acolher a tese de que o caso é federal, a prisão, as buscas e a denúncia caem juntas e Deolan sai imediatamente sem que ninguém tenha discutido uma vírgula do mérito. Se o tribunal negar, o próximo carimbo obrigatório é o dia 18 de novembro e o número no ecrã passa a ser de 181 dias.
7 anos para escrever cinco palavras num bilhete e transformá-las numa cela. Quanto tempo acha que a justiça brasileira vai levar a decidir se aquelas cinco palavras eram mesmo sobre ela? M.