OS LUXOS ABANDONADOS POR BARRERITO APÓS A SUA MORTE — DOCUMENTÁRIO | BARRERITO DO TRIO PARADA DURA – H

Barrerito, o grande cantor brasileiro, gravou uma música em homenagem aos mamonas. Com vocês, Barrerito. Se tem mais de 40 anos, já cantou uma canção do Barrerito. Pode ser que nem sabia o seu nome, mas cantava no rádio do carro, na festa do peão, no churrasco de domingo com aquele som ligado no volume que o vizinho queixava-se: “Fuscão preto, telefone mudo, as andorinhas.

” Aquela voz fina, arrastada, que subia por cima de todo o mundo. E o dono [música] tinha um nome: Élcio Neves Borges, um menino de família de agricultores do interior do Rio. A história dele é uma das mais bonitas [música] e das mais duras que o sertanejo brasileiro já produziu. Esta noite é uma pessoa muito especial, tem muita garra, tem muita força, tem muita energia e isso ele transmite para todos nós.

Há circo, há o jato, há disco de ouro, tem também um avião caindo numa tarde de chuva. [música] Depois sofremos aquele acidente aéreo que fui parar à cadeira de rodas, onde estou até hoje. E há [música] um baú guardado até hoje que quase ninguém sabe que existe. Vem comigo. Vamos voltar para 1942. São Fideles fica no norte fluminense, longe do rio que sai no postal.

Nada de praia. Nada de Copacabana. Ali é roça, cana, gado terra vermelha. Foi [música] nesse local que no dia 22 de outubro de 1942 nasceu El Élcio Neves Borges. A família era de agricultores e família de agricultor no Brasil [música] dos anos 40 e 50, já sabe como era. Ou porque viveu ou porque ouviu o seu pai contar.

Casa simples, chão batido ou cimento queimado, fogão [música] a lenha que fazia com que a casa inteira cheirasse a fumo, água que vinha do poço, na lata, na cabeça, [música] criança a acordar às 5 da manhã, não porque fosse disciplinada, mas porque tinha serviço para fazer antes da escola, quando tinha escola. E no meio disto tudo, uma coisa só ligava aquela casa com o resto do mundo, o rádio, aquele aparelhão de válvulas grande feito um móvel que demorava uns bons segundos para aquecer antes de sair som.

A família inteira à volta e de lá vinha o bolero, vinha [música] rancheira mexicana, vinha a moda de viola, era a única janela. Foi [música] ali que aquele menino descobriu que gostava de cantar. E ele não começou sozinho, não. [música] Lá pelo comecinho dos anos 60, o Écio formou um duo com o próprio irmão. Dois irmãos a cantar do forma que se fazia naquele tempo.

Sem contrato, sem editora, sem plano [música] nenhum. Cantava porque gostava, cantava porque a voz saía bonita e as pessoas paravam para ouvir. Só que a dupla com o irmão durou pouco tempo. O que veio depois foi aquela vida que todo o cantor, sertanejo, raiz daquela geração, conheceu, a peregrinação.

Ele fez dupla com Flor da [música] Índia, depois com um mineiro chamado Criolo. Uma parceria aqui e outra ali. Cidade pequena, palco improvisado, rádio local, anos e anos rodando sem rebentar. E há um pormenor curioso deste período que quase ninguém sabe. [música] O seu nome artístico nem era o Barreirito, era o Barreirinho.

Assim mesmo com jeitinho de [música] alcunha de interior. Só que era apaixonado por aquilo que ouvia no rádio de válvula quando era menino. Bolero, rancheira, música [música] mexicana. E, segundo ele mesmo contava, decidiu dar uma espanholada no próprio nome. Barreirinho passou a ser Barreirito. Foi um pormenor pequeno, mas foi este nome que o Brasil inteiro ia decorar.

E foi mais ou menos nessa altura que cruzou o caminho de um outro cantor também de origem simples, que ia mudar a sua vida para sempre, um sujeito chamado Creoni. Eh, éramos só Creone e Barrerito. E nós uma vez decidimos fazer uma excursão eh para Belo Horizonte, conhecer a capital mineira e trabalhar por ali uns tempos, certo? Barrerito e Creone [música] encontraram-se e aconteceu aquela coisa rara que ninguém consegue explicar direito.

[música] As duas vozes se encaixaram. Barrerito fazia a primeira voz, aquela mais fina, que ia lá em cima. Creoni fazia a segunda, mais grave, segurando por baixo. E quando as duas se juntavam, saía um negócio que não era nem um nem outro, era uma terceira coisa. Gravaram como dupla três LPs. Segundo o registo do dicionário Cravo Albin.

Não era pouco para a época, só que também não era o estouro. Aí entra o terceiro personagem dessa história. [música] E há um pormenor aqui que quase ninguém sabe. O nome Trio Parada Dura já existia antes deles. Isso mesmo que está a ouvir. O grupo tinha sido formado em 1973 com outros membros Delmir e Delmon. E quem ficou com os direitos do nome foi um acordeonista chamado Mangabinha, ou seja, o nome era dele.

O grupo estava lá parado sem os cantores. Em 1975, o Mangabinha chamou a dupla Creone e Barrerito para formar a segunda geração. E foi essa a formação, Creone, [música] Barrerito e Mangabinha, que se tornou a mais famosa da história do grupo, [música] aquela que qualquer brasileiro de 40 e poucos anos reconhece de imediato.

Dois cantores de fato à frente, o acordeonista do lado, aquele visual sertanejo raiz de festa de peão. Agora, se está a imaginar o estádio lotado, palco de arena, ecrã gigante, segura essa imagem, porque não era assim. Nos anos 70, espetáculo de música sertaneja. Grande não existia. [música] Não tinha esta estrutura de hoje, com camião de som e camarim com ar condicionado.

O trio Parada Dura se firmou onde dava para se firmar naquela época, no circo, lona de circo. Aquela que chegava à pequena cidade, montava no terreno baldio e virava o acontecimento do mês. A criançada corria atrás do camião. O povo comprava entrada à porta e entre um número e outro subiam três homens para cantar. E o outro [música] palco era a rádio.

A viúva dele, Eliane, diz uma frase que resume tudo. [música] Barrerito era essencialmente um artista de rádio. Aquela rádio AM [música] que apanhava chiado, que a gente sintonizava rodando o botãozinho com cuidado de cirurgião e que era o trilho sonora do sítio, do camião, da oficina, da cozinha.

Foi o rádio que levou aquela voz para o Brasil inteiro. E o disco que abriu a porta chamava-se Castelo de Amor. [música] Ali quero construir o nosso castelo de [música] amor. Depois veio a Casa da Avenida. Aquela casa de dois [música] andar é a mais bonita da avenida. Veio cruz pesada em 78. [música] Veio blusa vermelha em 80, um atrás do outro.

A estrada de terra batida virando [música] estrada de asfalto, o circo a tornar-se teatro, o teatro a tornar-se cidade grande. E depois chegou 1981, o ano em [música] que tudo explodiu de uma vez. Em 1981, o trio Parada Dura lançou o disco que virou o jogo Último a Deus. Dentro dele, duas canções que iam sair do disco e tornar-se património da cultura popular brasileira, uma chamada [música] Arapuca e outra chamada Fuscão, mais de 35 anos.

Eu não preciso de explicar o que fuscão preto significou. Aquela música tocava em tudo. Tocava na rádio, tocava no bar, tocava na carrinha do vizinho, tocava no bar da esquina. Às 11 da manhã de domingo. Era daquelas que o brasileiro cantava sem sequer saber a letra inteira. chegava ao refrão e o país todo entrava junto.

E não se ficou por aí não. Telefone mudo, as andurinhas, o médico e a criada, o carro [música] e a faculdade. Mineiro não perde o comboio. Barco de papel, umas atrás das outras. O trio Parada Dura acumulou ao longo da carreira 11 discos de ouro e três de platina. Número que naquela época não se conquistava com algoritmo, nem com playlist.

Se conquistava [a música] com disco vendido ao balcão da loja, um por um. E no meio desta avalanche estava a voz do Barrerito. [música] O historiador Gustavo Alonso, que escreveu um dos livros mais conceituados sobre a história do sertanejo no Brasil, é [música] Direto. O trio tinha no Barrerito a sua voz principal, mas espera porque tem mais.

Anos mais tarde, o Eduardo Costa, numa ao vivo com o Leonardo, soltou uma frase que para quem é do meio, pesou como pedra, que considera o Barrerito o maior cantor da história do país, quando o assunto é música sertaneja e foi mais longe. Disse que nunca ninguém fez uma segunda voz como aquele homem fazia. Agora vem a pergunta que toda a gente faz quando ouve esta parte da história.

E o dinheiro? A maioria das pessoas olha para o sertanejo dos anos 80 [música] e imagina que era tudo mais modesto, mais terra a terra, que a farra de jato e camarim só começou com o sertanejo universitário. E faz sentido pensar assim, porque a imagem que ficou daquela geração é a do tipo de bota e chapéu simples, do lado de um autocarro velho.

Só que a realidade era bem diferente. Quem o conta é a própria viúva, a Eliane Barrerito, já usufruía naquela época dos luxos típicos dos sertanejos [música] de hoje. Show perto, ia com o próprio carro, show longe, Mato Grosso, [música] Rondônia, aqueles cantos que demoravam dois dias de estrada. O contratante mandava um jato buscar. Não era ele que pagava, [a música] era o contratante.

E gostava de aparecer, gostava mesmo. Barrerito era vaidoso, do maneira que só um artista de [música] palco é vaidoso. Andava de anel de ouro no dedo, corrente de ouro ao pescoço e inventava corte de cabelo que ninguém na cidade tinha coragem para copiar. Chegava e a gente sabia que tinha chegado. E tem uma informação sobre ele desse período que, sinceramente, é difícil de acreditar.

Diziam que Barrerito era o único artista capaz de gravar um LP inteiro em 24 horas. Um disco completo do início ao fim, num único dia, numa altura em que gravação era em fita, sem correção digital, sem ajuste de afinação no computador, [música] sem repetir o take 100 vezes. Ele entrava no estúdio e saía com o disco pronto.

Manda essa informação a alguém hoje e vê se acreditam. Estava tudo no sítio. a [música] voz, o grupo, o público, o dinheiro, o jato. E foi exatamente depois, no melhor momento da vida dele, que o telefone tocou com mais um convite de show, uma pequena cidade em Minas Gerais chamada Cruzilia. Estávamos em setembro de 1982.

Dia 6 de setembro de 1982. O avião com o trio Parada Dura levantou voo do campo de Marte em São Paulo. Destino: Cruzilha, em Minas Gerais. Antes uma paragem técnica em Campinas para abastecer. rotina, coisa que aquele grupo fazia dezenas de vezes por ano. Mas antes do avião sair do solo, aconteceu uma coisa que ninguém daquele grupo esqueceu para o resto da vida.

Tinha ali o Zé Bétio, aquele radialista que qualquer pessoa que ouvisse rádio no interior de São Paulo nessa época conhecia de nome e de voz. E o Zé Bétio brincando, da maneira que a gente brinca sem pensar duas vezes, virou-se para o piloto e disse: “Cuidado, hein? Vai matar o meu trio”. Foi uma piada. Toda a gente se riu.

Só que ninguém estava preparado para o que veio depois. O tempo virou. Chuva forte, vento. E o avião teve de tentar aterrar numa cidade chamada Espírito Santo do Pinhal, no interior de São Paulo. A pista era curto, a chuva batia de lado, o avião caiu. E aqui entra a primeira parte inacreditável desta história.

Todo mundo saiu vivo. Todos eles. Numa queda de avião pequeno, com chuva, com vento, em pista curta. Ninguém morreu, mas um deles não saiu inteiro. O Creoni, anos depois, contou pormenorizadamente numa entrevista [música] a EPTV como foi lá dentro. Ele próprio tinha quebrado três [música] costelas. Estava ferido, dorido, tentando perceber o que tinha acontecido.

E no meio dos destroços, ele ouviu a voz do amigo Barrerito disse uma frase só. Não sinto nada nas minhas pernas. Tinha sofrido uma lesão grave na coluna vertebral. E aí entra o detalhe. mais cruel de toda esta história, aquele que dói saber. Segundo os relatos, a retirada dele de dentro daqueles destroços foi feita pela pequena porta da cabine, da maneira que dava, no desespero de quem quer salvar alguém rápido.

E este movimento, feito com a melhor das intenções, teria agravado ainda mais a lesão na coluna. Ninguém teve culpa, ninguém fez por mal. Era um homem ferido, um avião destruído, um tarde de chuva e pessoas a tentar ajudar da forma que sabia. Mas foi ali, naqueles poucos minutos, que a vida do Barrerito dividiu-se em duas. Antes dessa tarde, era um cantor de 39 anos no auge absoluto da sua carreira, dono da voz mais reconhecida do sertanejo do país, que chegava nos espectáculos de jato e saía do palco com o chão a tremer.

[música] Depois dessa tarde, ele era um homem que não ia andar nunca mais. E aí pergunta: “Mas como assim? Um cantor sertanejo num [música] tempo em que ninguém falava em acessibilidade, num país onde o palco era feito de tábua [música] e escada improvisada. Como é que ele continua? Pois, ele continuou. Menos de um ano depois daquela queda, Barrerito estava de volta ao palco.

E foi aí que começou a parte mais dura desta história, porque voltar atrás foi só o início do que ainda ia enfrentar. Em 1983, o trio Parada Dura lançou o disco Luz da a minha vida. Nele, uma música que o O Brasil ia cantar sem fazer a mínima ideia do que tinha acontecido ao homem que estava a cantar Bicho Bom é mulher.

E a imagem do palco naquela época era diferente de tudo o que o sertanejo já tinha visto. Três homens, [música] dois de pé e um sentado. Barrerito cantava na cadeira de rodas no meio dos dois companheiros. O investigador André Punt descreve-o como algo muito diferente do que existia no [música] sertanejo. E é verdade.

Naquele meio, naquele momento do Brasil, a imagem do cantor era a do homem [música] forte, de botas, de chapéu, plantado no palco. Não tinha referência nenhuma para o que estava a acontecer [música] ali. E o público aceitou. O público continuou a encher. Mas agora quero que repare numa coisa. Repare nas capas dos discos [música] dessa fase.

Segundo os relatos. e a própria viúva. A cadeira de rodas era evitada nas [música] capas do trio. O homem que ali estava, na primeira voz a segurar o grupo inteiro, não aparecia como ele realmente era. [música] Manteve-se no grupo até 1987, 5 anos depois do acidente. E aí ele saiu. E é aqui [música] que este a história tem o seu momento mais delicado, porque existem duas versões sobre o porquê de ele ter saído e as duas [música] vem de pessoas que lá estavam.

A versão do Barrerito, contou o próprio. Inclusive [música] numa entrevista a um Carlos Massa que nessa altura ainda estava começando o Ratinho. E o que ele disse foi duro. Afirmou que fizeram de tudo [música] para que ele saísse para colocarem uma pessoa perfeita no lugar dele e narrou episódios de humilhação na hora de subir ao palco porque alguém [música] tinha que o carregar.

E nem sempre isso era feito com o cuidado que um ser humano merece. A versão do Creone é outra. O Creon conta [música] que o Barrerito simplesmente não queria mais viajar de avião e que, sabendo que o grupo tinha uma agenda pesada e o [música] Brasil inteiro para rodar, não quis atrapalhar, foi uma decisão dele. [música] Repare que as duas versões concordam no facto. Saiu em 1987.

O que muda é o motivo. Uma diz que foi empurrado, [música] a outra diz que foi escolha. Há quem diga que um homem que acabou de perder as pernas num acidente trabalhar para o grupo merecia o grupo inteiro se adaptando a ele, custasse o que custasse. Mas há também quem argumenta [canção] que o medo de voar depois de uma queda é uma coisa tão real, tão humana, que segurar um homem naquela rotina dos aviões seria uma crueldade ainda maior.

E depois fica a pergunta a ti que tás a ouvir-me. Escreve aí em baixo o que achas, porque [música] o facto é o seguinte: aos 45 anos de idade, sem grupo, sem as pernas e com a maior voz do sertanejo brasileiro ainda dentro do peito, [música] O Barrerito teve de fazer o que ninguém pensava que ele ia fazer, começar tudo de novo sozinho.

Em 1987, saiu o primeiro disco a solo. O nome era Onde estão os meus passos? Repare no título, reparem [música] bem. Um homem que já não anda a perguntar numa música onde foram parar os seus passos. E depois aconteceu uma coisa que parece pequena, mas que muda tudo. Ele apareceu na capa, na cadeira de rodas.

Aquilo que era escondido nas capas do trio tornou-se a identidade dele. Não tinha mais nada para disfarçar. Ele era aquilo e ia cantar sobre aquilo. [música] E o Brasil deu-lhe um apelido. Aquele apelido que só vem quando o povo te adota de verdade. O cantor das andurinhas. Vieram os discos um atrás do outro pela Copacabana e pela RGE.

Está do jeito que eu queria. Artista do povo. Momentos de amor. O espetáculo precisa de prosseguir. Olha o nome daquele. Bolero da Saudade. Noite de plantão. Recordações, O Filho do Mundo. Oito. Nove LPs em pouco mais de 10 anos com um homem cadeirante rodando de o Brasil de estrada num tempo em que rampa de acesso era coisa que praticamente não existia.

Mas há uma parte dessa fase que quase ninguém sabe. Ele não fez música [música] gira sobre superação. Ele foi direto à ferida. Uma das suas músicas chama-se Maldito [música] avião. Outra chama-se Cadeira Amiga, outra chama-se Morto por Dentro. Pensa no tamanho da coragem disto. Numa época em que artista não falava de dor em público, em que o homem brasileiro não falava de sentimento nem dentro de casa, este sujeito apanhou a coisa mais dorida da sua vida, deu-lhe nome, pôs melodia e mandou para a rádio tocar.

Pro Brasil inteiro ouvir no camião, na cozinha, na oficina, transformou a tragédia dele em repertório e o povo cantou junto. E, depois, em 1997, o telefone voltou a tocar. Do outro lado, o Creone. 10 anos depois da separação, os dois juntaram-se outra vez, agora com um acordeonista chamado Voninho e formaram um grupo novo, o trio Auto Astral.

Gravaram o CD dor de cotovelo. Apareceram na televisão, voltaram [música] para a estrada juntos, como nos velhos tempos. Depois de tudo o que tinha acontecido entre eles, aquelas duas vozes estavam de volta no mesmo microfone. Só que o trio alto astral durou muito pouco tempo. 12 de agosto de 1998, Belo Horizonte.

Um enfarte [música] foi isso. Barrerito faleceu em Belo Horizonte no dia 12 de Agosto de 1998 de enfarte. Tinha 55 anos. A revista A Veja noticiou: “O trio alto astral, que mal tinha começado, [a música] acabou ali.” E aí começa a parte desta história que eu acho a mais impressionante de todas.

Um cantor que vendeu um disco de ouro, que correu o Brasil de jato, [música] que usava um anel de ouro e uma corrente de ouro, que colocou fuscão preto na boca do país inteiro. Esse homem morre? E a pergunta natural, a pergunta que qualquer pessoa faz é: “O que é que ele deixou?” E faz todo o sentido perguntar isso, [música] porque nós acompanhámos a vida inteira dele até aqui.

A gente sabe que havia dinheiro a passar por ali, só que quando se vai procurar, acontece uma coisa estranha. Não tem quinta, não tem mansão, não tem cifra. Procura no jornal da época, procura em processo, procura em qualquer registo público. Não tem número nenhum, nunca apareceu inventário, nunca apareceu disputa, nunca apareceu avaliação de espóo.

Tudo que se vê por aí num site que fala em fortuna de famosos é um pontapé, não tem fonte. O que existe de verdade é outra coisa e é muito mais bonita. Existe uma casa na região sudoeste de Belo Horizonte, onde vivia com a esposa, a Eliane. E na fachada desta casa tem uma placa luminosa colorida com o nome dele escrito [música] Barrerito.

Ele mesmo idealizou aquilo. Era o jeito dele de dizer a toda a rua quem morava ali. Faleceu em 98. A Eliane continua acendendo aquele letreiro toda a noite. Pensa nisso um segundo. [música] Quase 30 anos. Uma mulher que acende a luz com o nome do marido todas as noites para [música] rua ver, para a memória não apagar. E dentro dessa casa existe um baú.

Dentro do baú estão os discos de ouro, de prata e de platina, os figurinos que utilizava em palco, gravações que nunca foram lançadas. E essa é a parte que me impressiona. Quase uma centena de letras de músicas inéditas, [música] sem letras, escritas por ele, guardadas, que o Brasil nunca ouviu. [música] A casa foi mantida praticamente intacta.

Tornou-se um memorial de uma pessoa só. Mas deixou uma última coisa e essa não cabe em baú nenhum. As músicas dele continuam a tocar. [música] Uma consulta ao EekAD mostrou as cinco composições dele mais executadas na rádio, em concerto e em música ao vivo. Castelo de [música] amor. Bobeou. A gente pimba.

Bicho bom é mulher. Amaremos. E onde estão os meus passos? Cada vez que uma destas toca [música] em algum canto do Brasil, gera direito de autor. E pela lei brasileira, direito de autor vale por 70 anos depois da morte do autor. Ou seja, as músicas do Barrerito vão continuar a render até por volta de 2068. Um homem que morreu em 1998 vai continuar a sustentar a memória dele durante 70 anos depois de ter partido.

Agora há um último ponto desta história [música] que continua em aberto e eu vou-te contar com o cuidado que o assunto merece. A Eliane afirma que ela e o Barrerito não tiveram filhos. Só que há [música] dois cantores no Brasil que se apresentam publicamente como filhos dele. Um deles chegou a fazer uma digressão nacional chamada [música] Tal Pai, tal Filho, cantando telefone mudo, As andorinhas e Fuscão preto.

O outro canta gospel. Nenhuma fonte pública esclarece filiação legal. Não é papel de ninguém aqui afirmar o que não está confirmado. [música] Fica como está. Uma pergunta em aberto na história de um homem que já houve demasiada pergunta na vida. No final do dia, é assim que a gente mede. O Barrerito saiu de uma casa de agricultor no interior do rio, sem nada, e chegou onde poucos brasileiros chegam.

Perdeu as pernas a meio do caminho, no melhor momento da vida, e não perdeu a voz. Foi empurrado para fora do próprio grupo ou saiu por conta, depende de quem conta, e [ressonando] recomeçou aos 45 anos. sozinho, cantando a sua própria dor, sem pedir pena a ninguém. Tem gente que morre e deixa cifra.

Ele morreu e deixou uma voz que o Brasil não conseguiu esquecer. Sem letras dentro de um baú e uma luz acesa na fachada de uma casa em Belo Horizonte. Talvez fortuna seja isso mesmo, aquilo que continua [música] a acontecer depois de nós vai-se embora. Agora conta-me aqui embaixo qual destas cantava mais alto. Fuscão preto, telefone mudo ou as andurinhas? Escolhe uma e escreve-nos comentários.

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Perdeu as pernas a meio do caminho, no melhor momento da vida, e não perdeu a voz. Foi empurrado para fora do próprio grupo ou saiu por conta, depende de quem conta, e [ressonando] recomeçou aos 45 anos. sozinho, cantando a sua própria dor, sem pedir pena a ninguém. Tem gente que morre e deixa cifra.

Ele morreu e deixou uma voz que o Brasil não conseguiu esquecer. Sem letras dentro de um baú e uma luz acesa na fachada de uma casa em Belo Horizonte. Talvez fortuna seja isso mesmo, aquilo que continua [música] a acontecer depois de nós vai-se embora. Agora conta-me aqui embaixo qual destas cantava mais alto. Fuscão preto, telefone mudo ou as andurinhas? Escolhe uma e escreve-nos comentários.

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Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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