OS LUXOS ABSURDOS ABANDONADOS POR TIM MAIA APÓS A SUA MORTE: POLÊMICAS, TRETAS, VÍCIOS E FIM TRISTE – H
tinha uma voz no Brasil que não se parecia com nenhuma outra. Motivo para sonhar, ter um sonho todo azul, azul da cor do mar. grave, rasgada, quente. Uma voz que entrava pelo rádio e ficava dentro da casa, no ouvido, na memória. Uma voz que fazia com que a boa música se tornasse música inesquecível. O próprio Roberto Carlos, que conheceu o dono dessa voz, quando os dois ainda eram miúdos na Tijuca, disse uma vez: “Ninguém cantava como o Tim, sabes? Ninguém fazia como ele.
Ninguém cantava uma música em português como Ninguém cantava como ele. Tim Maia, o pai do Sou brasileiro, o homem que tropicalizou o funk, o R e B, o samba e o a boossa numa só coisa, numa coisa que só ele sabia fazer. O cantor que encheu espectáculo, que vendia discos, que entrava na casa de milhões de brasileiros pela TV e pela rádio durante mais de 30 anos.
Só que por detrás dessa voz existia um homem que o Brasil nunca conheceu por inteiro. Um homem que criou a sua própria editora para não depender de ninguém, que comprou cinco imóveis no Rio de Janeiro, que pensava como empresário e gastava como rei, mas que também acumulou mais de 500 processos, R milhões de reais em dívidas, e chegou ao hospital no final da vida, sem seguro de saúde.
E essa história tem, pelo menos, três capítulos que quase ninguém contou bem. Tem o ritual que Tin fazia antes de subir para o palco, um ritual a que ele próprio chamava de triatlo e que não tinha nada a ver com o desporto. Vai entender daqui a pouco. Tem uma amizade que nasceu na Tijuca, que ajudou a construir a música brasileira e que terminou numa mágoa que Tin carregou até ao último dia de vida.
E tem uma noite de Março de 1998 num teatro em Niterói, em que Tim Maia subiu ao palco sabendo que não devia e nunca mais desceu. Para perceber como a coisa chegou a esse ponto, a gente precisa de voltar até uma casa na Tijuca, no Rio de Janeiro, onde 19 filhos partilhavam o mesmo teto e um deles entregava a marmita na rua para ajudar o pai a pagar a renda: Rio de Janeiro, zona norte, ruas empedradas, casas apertadas, famílias numerosas.
E quando digo grande, digo grande de verdade. que em casa dos Maia, o pai altivo e a mãe Maria Imaculada tiveram 19 filhos. 19.º Sebastião era o 18º. Para para que tivesse ideia do que era a vida naquela casa, 19 filhos, um fogão a lenha, um pai que trabalhou toda a vida e morreu sem nunca ter conseguido comprar uma casa própria.
Pagou a renda até ao último dia. O próprio Tim contou que em entrevista e a forma como falava dizia tudo. Não era mágoa, era constatação. Era o Brasil que aquela geração conheceu de perto. A minha mãe Maria Imaculada Maia e o meu pai altivo Maia. Eu sou o 18º filho deste casal que se amavam. E foi neste Brasil que o menino Sebastião começou a trabalhar cedo.
Entregava marmita na rua para ajudar na casa. Andava pelo bairro com as quentinhas empilhadas de porta em porta. O apelido colou rapidamente, Tião marmiteiro. Mas o miúdo tinha uma coisa diferente. Aos 12 anos, o pai deu-lhe uma guitarra e a partir dali, o menino que entregava a marmita de manhã passava à tarde tocando.
Começou na bateria, num grupo chamado Tijucanos do Ritmo, dentro de uma igreja do bairro. E foi ali naquelas ruas da Tijuca, que cruzou com outros miúdos que iam mudar a história da música brasileira. Jorge Benjor era um deles, Erasmo Carlos era outro e havia um miúdo de cachoeiro de Itapemirim que tinha acabado de chegar no Rio, um tal Roberto Carlos.
Tim e Roberto ficaram amigos. O próprio Roberto de Skitin ensinou-lhe a primeira batida de rock na guitarra. Em 1957, fundaram juntos um grupo vocal chamado Sputncks, nome tirado do satélite que a União Soviética tinha acabado de lançar. Era o Brasil dos anos 50, era a era da rádio. E aqueles miúdos da Tijuca não sabiam que estavam a montar ali no improviso o berço de uma geração inteira.
Mas Tin queria mais. Ele olhava para fora, ouvia Sou, ouvia o R e o B, ouvia coisas que o rádio brasileiro não tocava. E em 1959 tomou uma decisão que mudou tudo, vendeu o que tinha e foi para os Estados Unidos. Ficou 4 anos. Aprendeu inglês, estudou cinema e televisão numa universidade de Nova Iorque.
Conheceu a Soul Music de perto, não pelo disco, pela rua, pelo palco, pela pele. Namorou, cantou em grupo vocal, viveu uma outra vida do outro lado do mundo, longe da Tijuca, longe da marmita, longe dos 19 irmãos, até que a coisa desandou. Tim teve problemas com a lei. As versões variam. Há quem fale em posse de canábis, há quem fale em envolvimento com furto.

O que é facto é que foi preso e deportado de volta para o Brasil em 1964. O próprio Tim falava do assunto com aquele jeito dele. Miúdo, faz asneira, pô. Regressou sem nada, sem dinheiro, sem diploma, sem contrato, mas voltou com uma coisa que ninguém no Brasil tinha. 4 anos de sou americano dentro do peito, um inglês fluente e uma fome de vencer que nenhuma deportação ia apagar.
Eu fui paraos Estados Unidos com 16 anos e regressei com 21 anos. Eu passei a minha adolescência. Em 1970, lançou o primeiro disco, Tim Maia, o álbum que trazia o azul da cor do Mar, que esteve 24 semanas nas Paradas cariocas. e que apresentou ao Brasil uma coisa que o Brasil nunca tinha ouvido. Sou, funk, samba e bossa, misturados numa voz grave, rasgada, brasileira, uma voz que não copiava ninguém.
O menino da marmita tinha-se tornado o pai do brasileiro. E a a partir daí, o dinheiro começou a entrar. Disco atrás de disco, concerto atrás de espectáculo, sucesso atrás de sucesso. Em 31 anos de carreira, Tim lançou 29 álbuns de estúdio e três ao vivo. Ganhou prémios, encheu casas, virou nome obrigatório em qualquer rádio do país.
Só que Tin não era o tipo de artista que deixava outra pessoa tomar conta do dinheiro dele. Ele queria ser dono de tudo. E o que fez com essa ambição? Poucos Os artistas brasileiros tiveram a coragem de fazer. A maioria dos artistas brasileiros nos anos 70 funcionava assim.
Gravadora grande mandava, artista obedecia. A editora discográfica escolhia o repertório, definia o disco, controlava a distribuição, ficava com a maior fatia e pagava ao cantor uma percentagem que na maioria das vezes era pequena. E o artista aceitava porque não tinha alternativa. O Tim não aceitou. Ele olhava para este sistema e ficava revoltado.
Falava de lançamentos feitos sem autorização dele. Falava de percentagens miseráveis. Falava de relançamentos de disco que apareciam nas lojas e ele nem sabia. E falava de uma coisa que o público comum nem imaginava que existia, o jabá. O dinheiro que as editoras discográficas pagavam por fora para as rádios passarem determinadas músicas.
Tin descreveu o jabá como podendo atingir dezenas de milhares de reais por música. E ele sabia disso porque ele próprio precisava pagar quando queria que a rádio tocasse. Foi por causa desta raiva que Tin fez uma coisa que quase nenhum artista brasileiro fazia na época. Ele criou a própria editora discográfica.
Primeiro veio a Seroma. Abreviatura do nome completo dele, Sebastião Rodrigues Maia. Depois veio a vitória réia discos e Tim fazia questão de falar dela em toda a entrevista com aquele orgulho que só ele tinha. Presidente da vitória Regia Music, a única que paga aos domingos e após 21 horas. Não era só uma piada, era a declaração de independência.
Com a gravadora, Tin passou a controlar edição, gravação e circulação da própria obra. Era o dono do catálogo. Ele decidia o que lançar, quando lançar, como lançar. E isto no Brasil dos anos 70 era uma ousadia que pouca gente entendia e que muita gente na indústria não perdoava. E o dinheiro que entrou deu um resultado concreto.
O Tin comprou imóveis, nem um, nem dois, cinco. Uma casa na Lagoa Rodrigo de Freitas, outra no Recreio dos Bandeirantes, dois apartamentos na Barra da Tijuca e um cobertura na Tijuca, o bairro onde tudo começou. A casa da lagoa era especial, funcionava ao mesmo tempo como lar, estúdio e sede da editora discográfica.
Era ali que Tin gravava, editava, enviava e desmandava. Este dado é importante porque corrige uma coisa que muita gente repete sem pensar. Tim homem que torrou dinheiro numa festa e vício. Ele acumulou património de verdade. Pensava como empresário, como dono de catálogo, como homem de negócio.
Tinha visão, tinha ambição, tinha estrutura. Só que Tim também era Tim. E no preciso momento em que tinha nome, público, dinheiro e repertório para consolidar a sua posição como o maior artista independente do Brasil, tomou uma decisão que ninguém entendeu. Em 1975, Tin converteu-se à cultura racional, uma doutrina que reorganizou a sua vida de cima a baixo.
Deixou de beber, parou de fumar, mudou a alimentação, mudou o repertório, mudou toda a estética, mandou pintar instrumentos de branco, mandou pintar objetos da casa de branco, partes da própria casa de branco. Tudo tinha de ser branco porque a doutrina mandava. e lançou dois discos racionais independentes com letras sobre a doutrina e sonoridade, diferente de tudo o que tinha feito antes.
Venderam pouco. O terceiro ficou abandonado em estúdio durante décadas. A carreira comercial sofreu, o público estranhou, a indústria afastou-se. É um ponto que resume o tinha inteiro. O património existia, a estrutura existia, a a inteligência existia, mas tudo podia ser subordinado subitamente a uma obsessão, uma ideia, uma fase, um impulso.
O dinheiro entrava pela porta da frente e podia sair pela janela no mesmo dia se decidisse que ia sair. E tem uma história que se conta sobre ele, que se for verdade é a tradução perfeita disso. Dizem que Tim construiu uma casa, mas construiu no terreno do vizinho. Quando apercebeu-se do erro, já era tarde.
A história tornou-se lenda. é repetida em biografias e reportagens até aos dias de hoje. Não existe registo público que prove ou desminta de forma definitiva, mas o facto de toda a gente acreditar já diz alguma coisa sobre a personagem. Porque o Tin que pensava como empresário e o Tin que pintava a casa de branco eram o mesmo homem.
O Tin que comprava imóveis e o Tin que construía no terreno errado eram o mesmo homem. E era precisamente esse contraste, esta mistura de génio com caos que fazia dele quem era. Podia só cantava porque como paro de cantar faço asneira, pá. Só que este contraste tinha um preço e o preço não era só financeiro, era físico, era emocional, era pessoal.
E o que Tin fazia antes de subir ao palco, nos bastidores, longe dos olhares públicos, explica muita coisa sobre o que veio depois. Tim Maia tinha um ritual antes dos espectáculos. Quem com ele trabalhava sabia, quem era da banda sabia. Quem organizava o evento rezava para que nessa noite fosse diferente, mas quase nunca era.
Antes de subir ao palco, Tin consumia whisky, cocaína e canábis, os três juntos. E ele próprio deu nome a esse ritual. Chamava-lhe triatlo. Não era segredo, não era boato de bastidor, era rotina. E muitas vezes era exatamente era isso que fazia Tim atrasar o concerto em 1 hora, 2 horas, 3 horas ou simplesmente não aparecer.
O público à espera, a banda em palco, o promotor desesperado e Tim no camarim, no hotel, no carro ou em lugar nenhum. Quem foi ao concerto do Tim Maia nos anos 80 e 90 sabe do que eu estou falando. Você comprava o bilhete sabendo que tinha duas possibilidades. Ou ia ver um dos melhores concertos da a sua vida, ou ia voltar para casa sem ver nada.
E as duas possibilidades eram igualmente prováveis. Mas o triatlo era apenas uma parte do problema. O Tin também exagerava na comida. exagerava de uma forma que assustava quem convivia com ele. A própria mãe dele contou que aos 11 anos o menino já comia cinco bifes numa sentada e com o passar dos anos o corpo foi cobrando.
O Tim foi engordando, engordando, engordando até atingir os 140 kg no fim da vida. Ele mesmo sabia. Falava em entrevista que precisava de parar de comer, fazia tratamento, não conseguia. É fácil rir dessas histórias. É fácil transformar Tim Maia num meme, numa piada da internet, em sticker de WhatsApp. Mas quando a as pessoas param e olham de perto, o que se vê não tem graça nenhuma.
O que se vê é um homem brilhante, com um talento raro, travando uma guerra diária contra os próprios impulsos e perdendo. E no meio desta guerra tinha uma outra ferida. Uma ferida que não veio das drogas, não veio do álcool, não veio da comida, veio de uma amizade. Roberto Carlos. Os dois se conheceram na Tijuca, miúdos, nos anos 50.
º Tin foi quem deu oportunidade ao Roberto no início. Fundaram juntos os Sputnicks. Tim ensinou-lhe a primeira batida de rock na guitarra. Quando o Roberto chegou de Cachoeiro, de Itapemirim, sem não conhecer ninguém no rio, foi Tim quem abriu a porta. E depois subiu o Roberto. Subiu como poucos na história da música brasileira, jovem guarda, fama nacional, rei da música popular.
E Tin ficou olhando. Tin nunca foi convidado para participar no programa Jovem Guarda. Ele falava nisso com uma dor que não cabia em entrevista nenhuma. Disse uma vez: “O Roberto Carlos nunca me quis deixar fazer o Jovem guarda. Eu nunca fiz. Para Tim! Aquilo era traição. Era o amigo que ele ajudou no início, esquecendo-se dele quando chegou ao topo.
Só que a história tem outro lado. Roberto contou em mais de uma ocasião que tentou ajudar Tim, que foi ele que pediu ao CB. Esse dar uma oportunidade ao Tim para ele gravar lá, que falou: “Ajuda-o”. Mas T nunca acreditou nisso. Tin achava que Roberto não tinha feito nada por ele e guardou essa mágoa a vida inteira. Em entrevista, o Tim falou com aquela sinceridade que só ele tinha.
O Roberto já foi. Eu também já fui. Cada um do seu lado e já não dá. A ferida nunca fechou. Há quem diga que Timha razão, que Roberto podia ter feito mais por um amigo que o ajudou no início. Mas tem quem diga que o Roberto fez o que pôde e que Tin era demasiado orgulhoso para reconhecer. E a verdade é que nós não estava lá.
A gente não sabe o que aconteceu entre estes dois nos bastidores, nas ligações que ninguém ouviu, nas conversas que ninguém gravou. O que sabemos é que dois dos maiores nomes da música brasileira nasceram na mesma rua, cresceram juntos e morreram afastados e que esta história até hoje não tem final. Tin carregou estas tretas, estes vícios e esta mágoa durante 30 anos de carreira.
E durante 30 anos, o corpo foi cobrando, os contratos também, os processos também. Até que chegou o momento em que a conta tornou-se demasiado grande para um homem só. Tim Maia passou a vida a lutar com a indústria musical e a indústria passou a vida a lutar com ele. Não era briga pequena, era a guerra.
Tim processava gravadora. Gravadora processava. Os compositores cobravam direitos. Músicos cobravam verbas laborais. Rádios queriam jabá para tocar as suas músicas. Tim queixava-se que lançavam discos sem autorização, que faziam relançamento sem pagar, que toda a cadeia da música funcionava para sugar o artista. E o pior é que em muita coisa tinha razão.
O problema é que ter razão não paga a conta. E enquanto Tin lutava com o sistema, o sistema ia acumulando processo em cima de processo. Quando ele morreu, o nome Tim Maia carregava mais de 500 processos judiciais. 500. Músicos cobrando cachet, compositores disputando autoria, editoras discográficas a disputar catálogo, fornecedores a cobrar dívida, uma teia judicial tão grande que ninguém conseguia desenrolar.
E do outro lado da balança, o que é que tinha? Tinha património, os cinco imóveis no Rio, o catálogo da vitória réia, os direitos de autor de décadas de obra. Não era pouco, mas não era o suficiente para tapar o buraco. Quando a conta final foi feita, o número era este: cerca de R$ 3 milhões de reais em dívidas, contra cinco imóveis e um catálogo valioso, mas rodeado de litígio por todos os lados.

É aqui que os dois mitos sobre Tim Maia morrem ao mesmo tempo. O primeiro mito é o de que Tin morreu sem nada, não é verdade? Ele tinha imóveis, tinha catálogo, tinha obra registada. O segundo mito é o de que Tin tinha um império intacto. Também não é verdade. O que ele tinha era património real rodeado por passivo real. Nem falência, nem fortuna.
uma coisa no meio, uma coisa muito mais brasileira do que nós gostamos de admitir. Mas a conta não era só financeira, o corpo também estava cobrando. E estava a cobrar há anos. A a obesidade era crónica, a diabetes tinha se instalado, os problemas respiratórios iam piorando a cada estação. Em 1996, 2 anos antes de morrer, Tin teve uma gangrena de Fournier, uma infecção grave, perigosa, que exigiu cirurgia de urgência numa clínica da Gávia, no Rio de Janeiro.
Sobreviveu, mas o aviso era claro e Tin ignorou. Continuou comendo, continuou a beber, continuou fazendo o triatlo antes dos concertos. Continuou a subir ao palco com falta de ar. com o corpo a pedir para parar e continuou a ignorar tudo porque Tim Maia não parava. Tim Maia nunca parou para nada, nem para a doença, nem para processo, nem para conselho de médico.
E há um pormenor que dói mais do que qualquer número. Na semana da última internamento, a secretária dele contou-lhe imprensa que Tim andava nervoso, não por causa da saúde, por causa do dinheiro. um artista que vendeu milhões de discos, que encheu concertos em todo o Brasil durante 30 anos, que tinha um catálogo monumental e que nos últimos dias de vida estava nervoso com problema financeiro.
E quando chegou ao hospital pela última vez, Tim Maia não tinha qualquer plano de saúde, um dos maiores cantores que o O Brasil já produziu, 31 anos de carreira, 29 álbuns de estúdio, milhões de discos vendidos e sem seguro de saúde. Isso diz mais sobre a vida dele do que qualquer biografia de 500 páginas.
Mas Tha um concerto marcado em Niterói, dia 8 de março de 1998. Um concerto que ia ser gravado para a televisão e tornar-se disco ao vivo. E Tim Maia não cancelava um concerto, pelo menos não naquela noite. 8 de março de 1998, uma noite de domingo. Teatro municipal de Niterói, Rio de Janeiro. A casa cheia, câmaras posicionadas.
Aquele espectáculo ia ser especial, ia tornar-se uma gravação para TV e disco ao vivo. A banda Vitória Régia já estava em palco, o público à espera e nos bastidores, Tim Maia mal conseguia respirar. Ele sabia que não estava bem. Todos ao redor dele sabia. A falta de ar era visível. O corpo de 140 kg não aguentava mais. Os médicos já tinham avisado, a secretária já tinha avisado.
E o Tim naquela noite estava nervoso, não só pela saúde, mas pelos problemas financeiros que vinham tirando-lhe o sono nas últimas semanas. Qualquer pessoa razoável teria cancelado. Tin subiu ao palco. Quem tava lá nessa noite conta que a cena era de arrepiar. O Tin tentou cantar. A voz que durante 30 anos tinha feito o Brasil inteiro parar não saía.
O ar não vinha, o corpo não respondia. Ele insistiu, tentou novamente e não conseguiu. Saiu do palco direto para o hospital. Foi levado inconsciente para o Hospital Universitário António Pedro em Niterói. Crise hipertensiva, insuficiência respiratória, edema pulmonar. O quadro era grave desde o primeiro minuto e aí começou a última semana de Tim Maia. S dias internado.
O corpo foi cedendo aos poucos. Infecção generalizada, comprometimento pulmonar, comprometimento renal. Nos últimos dias hemorragia digestiva. Os médicos fizeram que podiam, mas décadas de excesso tinham cobrado um preço que nenhum hospital ia conseguir reverter. 15 de Março de 1998, 13:3. Tim Maia morreu, 55 anos, 140 kg.
O 18º de 19 irmãos, o rapaz que entregava a marmita na Tijuca, o miúdo que ensinou Roberto Carlos a tocar guitarra, o homem que criou a sua própria editora porque se recusava a obedecer, o cantor que fazia qualquer música ficar melhor só de abrir a boca. Calou-se! O Brasil soube pela televisão e quem tinha idade para acompanhar recorda.
Lembra-se do choque? Lembra-se daquela sensação de perder alguém que não era da família, mas que vivia dentro de casa pela rádio, pelo disco, pela TV? Tin não era parente de ninguém, mas era de todos. E aí começou outra história, uma história que dura até hoje, porque Tin deixou três filhos e a herança que deixou junto não vinha com o manual de instruções, vinha com mais de 500 processos, 3 milhões em dívidas e um valioso catálogo que todo o mundo queria controlar.
A disputa principal foi entre Carmelo Maia e Adriana Silva. Os dois lutaram na justiça pelo espólio, pelas editoras discográficas e Vitória Régia, pelos direitos de autor, por tudo. A luta subiu até ao Supremo Tribunal Federal e no final Carmelo foi reconhecido como o único herdeiro legítimo. Só que a novela não ficou por aqui.
Em 2024, Léo Maia, que muita gente no Brasil conhece como filho do Tim, entrou na justiça pedindo o reconhecimento de paternidade sócio-afetiva. O Tribunal de Justiça do Rio negou, manteve Carmelo como único filho juridicamente reconhecido e no mesmo ano veio mais uma reviravolta. Jeisa Gomes da Silva declarou publicamente que nem Carmelo seria filho biológico do Tim.
Uma declaração que até hoje não alterou o desenho jurídico da herança, mas que lançou mais uma camada de dúvida numa história que já era confusa o suficiente. 28 anos depois da morte de Tim Maia, o espólio ainda não encontrou paz. Os processos continuam, os litígios continuam, o dinheiro dos direitos autorais continua a entrar e continua sendo disputado.
Tin morreu em março de 1998, já lá vão 28 anos. Mas a voz dele, a voz dele não parou. Tin Maia morreu em 1998 e a sua música ficou mais viva do que nunca, não é? Força de expressão é número. Num levantamento do ECAD sobre espetáculos realizados no Brasil em 2025, Não Quer o Dinheiro apareceu em terceiro lugar entre as músicas mais tocadas do país inteiro.
Em São Paulo, ficou em primeiro. música mais tocada em concertos na maior cidade do Brasil, 27 anos depois da morte do autor. E há um número que mostra o tamanho do que tin homenagem consegue. O Corinthians, um dos maiores clubes do país, carrega hoje nos livros de contabilidade uma dívida de quase R milhões deais, R9.940.000, por ter utilizado uma adaptação de não quero dinheiro sem autorização, R milhões deais por uma música.
Uma música que Tim compôs, cantou e gravou há décadas. O catálogo dele tem 205 obras e quase 700 gravações registadas no ECAD. Pela lei brasileira, os herdeiros recebem direitos de autor durante 70 anos depois da morte. Isto significa que a obra de Tim Maia vai continuar a render até pelo menos 2068, mais 42 anos de receita de uma obra que foi construída no caos entre triatlo, luta de editoras discográficas, processo judicial e cinco bifes aos 11 anos.
O Tin não foi exemplo de nada e foi exemplo de tudo. Foi o menino que entregava a marmita e tornou-se o pai do brasileiro. Foi o amigo que deu oportunidade ao Roberto Carlos e morreu sem ter feito as pazes. Foi o empresário que criou a sua própria editora e o homem que acumulou 500 processos. Era o génio que fazia qualquer música ficar inesquecível e o homem que chamava whisky cocaína e canábis de triatlo.
O O Brasil não se lembra de Tim Maia porque a vida dele foi bonita. Lembra-se porque a arte dele era demasiado grande para caber no caos que se abateu. E no fim é isso que fica. Não fica a garagem, não fica a cobertura, não fica o processo, fica a voz, fica a música no churrasco de domingo, no rádio do carro, no concerto que toca Não quero o dinheiro.
E o estádio inteiro canta junto sem precisar de legenda. Fica o Tim. E tu como te lembras do Tim Maia? Como o cantor que fazia qualquer música ficar maravilhosa. Como o homem das polémicas e dos cancelamentos? Como o amigo que Roberto O Carlos perdeu? Ou como a voz que o O Brasil nunca mais conseguiu substituir? Conta-me nos comentários. Eu leio todos.
Se esta história te tocou, deixa o like e subscreve o canal. Aqui a gente conta as histórias que o Brasil viveu de verdade, daquelas que nos lembramos no almoço de domingo, no churrasco com o família, no carro que regressava do trabalho e na próxima semana volto com uma história que também começa na música, passa também pelo luxo e também termina de uma forma que ninguém esperava, outro nome que o Brasil inteiro conhece, outro bastidor que quase ninguém viu.
Se inscreve para não perder. Um abraço e até ao próximo.