OS LUXOS DEIXADOS POR BARROS DE ALENCAR APÓS A SUA MORTE— A HISTORIA DO INESQUECÍVEL REI DO BREGA – H
Sábado de manhã, a casa ainda meio desarrumada, o cheiro a café subindo da cozinha e a televisão ligada na Record. De repente, aquela voz toma conta da sala inteira. Olá, mulheres, segurem-se nas cadeiras. Olá, marmanjos, não façam besteira. Olá, vastorinha, eh, atenção. Alô, menina, segurem-se nas cadeiras.
E o auditório vinha abaixo. Lá estava ele de fato, dono absoluto [música] daquele palco, Barros de Alencar. Pode ser que o nome tenha escapado um pouco à sua memória com o tempo. Acontece, não tem problema. Mas a voz, essa ninguém esquece. Era a mesma que cantava Emanuela no rádio do carro naquela viagem de domingo para o interior, com a família inteira a acompanhar o refrão sem saber a letra direito.
Toda esta tristeza [música] em mim nasceu da Emanuela. A mesma de Quero beijar-te à mãos que tocava baixinho no salão [música] do clube quando o baile já ia terminando. E os casais juntavam-se para dançar bem devagar coladinhos. Quero beijar-te [música] à mão, minha querida. Esse era o Barros.
Entrava na casa das pessoas de manhã, fazendo graça, e à noite ainda embalava o seu romance. E olha, durante muito tempo foi o programa deste homem que segurou todo o Record nas costas. Auditório lotado, audiência lá em cima, gente a parar o su o sábado só para assistir. Agora deixa-me te fazer uma pergunta. Um tipo deste tamanho, com esta fama toda, tantos anos de televisão e de rádio quando ele partiu.
O que terá deixado para trás? A conta parece fácil, não parece? Mansão, dinheiro guardado, uma bela herança para quem ficou. Foi mais ou menos isso que muita gente imaginou quando Barros de Alencar morreu em 2017 e foram atrás de descobrir o tamanho da fortuna que um artista daquela dimensão teria juntado numa vida inteira. O que encontraram, eu vou-te dizer, mas só lá à frente, porque essa parte vale à espera.
Antes disso, preciso de te levar para o início de tudo. E o início fica bem longe dos holofotes de São Paulo, lá no meio do sertão da Paraíba, numa cidade pequena que tinha orgulho em produzir só duas coisas na vida, padre e músico. E atenção, Barros de Alencar regressa já. O Iraúna, sertão da Paraíba. [música] Se nunca ouviu falar, não se sinta mal, porque é o tipo de lugar que não aparece no mapa da maioria das pessoas.
Uma [música] pequena cidade encravada no meio daquele calor seco do Nordeste, onde a terra racha no verão. E a chuva é assunto de reza. Mas aquele cantinho de sertão tinha um orgulho engraçado. Dizia-se por lá que o Iraúna era terra de fazer duas coisas bem [música] feitas, padre e músico. E olha, no fim das contas a cidade não estava a mentir.
Foi aí, em 1932, que nasceu um menino chamado Cristóão Barros de Alencar. E o mundo daquele menino era pequeno. [música] Do lado de fora, o sertão. Dentro de casa, pouca coisa. Mas havia um objeto que mudava tudo. E talvez te lembres [música] bem dele, a rádio. Porque naquela altura o rádio não era apenas um aparelho em cima do móvel, [música] era a janela.
Era por ali que a voz do mundo inteiro entrava numa casa perdida no meio do nada. Notícia, música, novela falada, futebol narrado. Tudo chegava por aquela caixinha que [música] a família toda cercava ao fim da tarde, como quem se junta em torno de uma fogueira. E dá para imaginar este menino sentado no chão, de ouvido colado, escutando aquelas vozes bonitas e pensando: “Como é que um homem consegue chegar tão longe só a falar? E aqui eu preciso ser honesto consigo, porque tem uma coisa curiosa nesta história da infância deste homem. Quase nada sobrou
registado. Como é que era a casa dele, do que a família vivia, se passou fome ou passou um aperto, quase ninguém sabe dizer com certeza. Os livros [música] e as biografias apanham a vida dele já adulto, já a trabalhar. A meninice [música] ficou para trás meio apagada, como acontece com tanta gente do interior que veio do nada e não deixou fotografia.
E [música] olha só, guarda este pormenor do não deixou o rasto, porque ele [música] vai voltar lá para a frente desta história de uma forma que não espera. O que sabemos é que aquele menino cresceu e não largou o sonho da voz. E o sonho tomou forma no lugar mais natural do mundo para ele, o rádio. O primeiro trabalho a sério veio na rádio Borborema em Campina Grande, ainda na Paraíba.

Foi aí que Cristóão descobriu que aquela voz que ele tinha, grave, macia, feita para encher um ambiente, não era para ficar guardada, era para trabalhar. Só que Campina Grande cedo se tornou pequena para ele, porque quando um sujeito descobre [música] que tem algo que as pessoas gostam de ouvir, ele começa a olhar para o horizonte e [música] a perguntar-se até onde aquilo pode ir.
E foi exatamente o que aconteceu. Um dia, este rapaz do sertão fez as malas, despediu-se de pó que conhecia desde criança, e foi atrás de uma coisa que ainda nem tinha nome direito na cabeça dele. Foi atrás de um lugar onde a voz [música] dele pudesse ser ouvida por muito mais gente. Jura? Só 13? Ah, tem voz de 20 anos. E aí começou a peregrinação, porque na vida radiofónica daquele tempo, ninguém chegava ao topo de uma só vez.
Era degrau a degrau, cidade a cidade, emissora a emissora. E o Barros subiu cada um deles, saiu da Paraíba e caiu no Recife. Do Recife foi para Natal. De O Natal [música] fez-se novamente à estrada e desceu até Belo Horizonte. Cada paragem destas era uma rádio nova, um público novo, uma hipótese de mostrar aquela voz para mais pessoas.
Ele estava do jeito dele construindo um nome de tijolo em tijolo, até que em 1960 ele chegou onde toda a gente do rádio queria chegar, São Paulo. E aqui você precisa de compreender uma coisa, senão o resto da história não faz sentido. Naquela época, a rádio em São Paulo não era uma pequena brincadeira, [música] era um império.
E o dono de uma boa parte deste império era um homem chamado Assi Chatobrian. O chatô, como ficou conhecido, o sujeito mais poderoso [música] da comunicação brasileira, dono de um amontoado de rádios, jornais e emissoras espalhados pelo país inteiro. Trabalhar para ele era como jogar [música] na equipa grande. E foi exatamente nesta equipa que o Barros entrou.
Começou a rodar pelas rádios dos diários associados o grupo [música] do Chatô. Na rádio Cultura comandava um programa com um nome que dizia tudo, é só pedir. Na Rádio Tupi, [música] uma das mais ouvidas do Brasil apresentava a revista musical brasileira. E o Brasil que tocava nestas ondas era o Brasil da Jovem Guarda, o Roberto Carlos, o Erasmo, toda aquela turma que fazia a juventude ferver.
O Barros era a voz que apresentava tudo isto, que anunciava as músicas, que conversava com o ouvinte, que fazia a ponte entre o artista e a sala de estar das pessoas e fazia bem, tão bem que os prémios começaram a bater à porta. O prémio Roquete Pinto, o troféu paulista da revista da rádio, Prémio de Governador, [música] reconhecimento de gente que percebia do assunto.
Repara que já não era pouca coisa. Um rapaz que saiu de uma cidade que quase [música] ninguém sabia apontar no mapa estava ali no coração da rádio brasileiro, ganhando [música] prémio e sendo ouvido por multidões. Muita gente teria ficado por aí. Satisfeita já era mais do que a maioria conseguia. Jura? Só 13? Ah, tem voz de 20 anos.
Só que anunciar a música dos outros tinha um limite e era um limite que incomodava, porque há uma diferença enorme entre ser a voz que apresenta a canção e ser a voz que canta a [música] canção. O Barros passava os dias a colocar no ar sucesso dos outros, [música] aplaudindo o talento alheio, entregando ao público a emoção que vinha de outra garganta.
[música] E no fundo ficava aquela comichão, aquela pergunta que não se calava. E se em vez de anunciar ele próprio cantasse? E se aquela voz que enchia o estúdio, que já tinha ganhou o prémio, [música] servisse para fazer com que as pessoas se emocionarem com uma música dele e não de outro artista qualquer? Essa pergunta ficou a martelar.
Até ao dia em que ele resolveu [música] respondê-la, resolveu cantar. [ressonante] E foi assim, em 1966, que Cristóão Barros de Alencar deixou de ser apenas a voz que anunciava e virou a voz que emocionava. Saiu o primeiro disco, um compacto pela editora Chantecler e o rapaz do sertão colocou finalmente a própria música no mundo.
Mas o rebentamento de verdade, aquele que lhe fez o nome colar à boca do povo, veio na década seguinte, [música] nos anos 70, já pela A RCA Vittor, uma das maiores editoras do país. O Barros encontrou o jeito dele. [música] E de que maneira? Porque ele não cantava igual a toda a gente. Tinha um estilo que era só dele, uma marca registada. Ele declamava.
No meio da música, a voz parava de cantar e começava a falar como quem sussurra uma coisa ao ouvido da pessoa amada. Aquele romantismo derramado, sem vergonha nenhuma de ser romântico, [música] que hoje ouvimos e sorrimos, mas que naquela época derretia o coração de meio brasil. era brega no melhor sentido da palavra, daquele brega que toca fundo, que não tem frescuras, que fala de amor da maneira que o povo simples sente o amor. E depois vieram as músicas.
Presta atenção, porque provavelmente você [a música] conhece mais delas do que imagina, meu amor. Que muita gente chamava de Mónia. [música] Quem é? Quero beijar-te à mãos. Quero beijar-te [música] as mãos, a minha querida. E aquela que é talvez a mais lembrada de todas, [música] Emanuela. Toda esta tristeza em mim nasceu de Emanuela.
Agora fecha os olhos um segundo e pensa onde tocavam essas músicas. [música] Tocavam no rádio de pilhas em cima da frigorífico, enquanto [música] a mãe fazia o almoço de domingo. Tocavam na vitrola da sala, [música] naquele móvel de madeira que era o orgulho da casa quando chegava à visita.
E alguém colocava um disco para [música] criar clima e tocavam principalmente no baile no salão do clube da cidade com as luzes baixas quando aparecia o par [música] certo e o música certa começava e dois desconhecidos [música] aproximavam-se para dançar a noite inteira agarradinhos. Quanto à história de amor no Brasil, não começou exatamente assim, [música] com uma canção de Barros de Alencar tocando ao fundo.
Quanto casamento não nasceu de um Quero beijar-te à mãos num qualquer salão do interior? E tinha uma música em particular que dizia tudo sobre ele. Prometemos não chorar. Uma dessas que fazia o adulto crescido [música] engolir em seco no meio do baile. [música] Talvez seja esta a última vez em que tomamos café juntos. Porque o Barros mexia com um lugar do brasileiro [música] que pouca gente alcançava.
Ele não estava a fazer arte para crítico elogiar. Ele estava a fazer [música] música para gente comum sentir e gente comum sentia e muito. E olha só que interessante, por mais que o cantor já fosse grande, a música era ainda a parte menor desta história. Isso mesmo que você entendeu. Tudo isto que eu te contei até agora, a rádio, a [música] discos, os bailes, o Brasil a chorar com as suas canções, tudo isso ainda era só o aquecimento, [música] porque o maior salto da vida do Barros de Alencar não ia acontecer nas ondas hertzianas, nem no
suco de um disco. Ia acontecer num sítio que estava a entrar em cada casa do país naquele [música] momento e mudando tudo. Local com luz, com público, com câmara, a televisão. Maior audiência de toda a Record. Guarda essa frase porque nós já volta nela. Estamos em 1982. O Barros de Alencar chega à televisão de uma forma que pouca gente chega, com [música] programa próprio com o seu nome na tela.
O programa Barros de Alencar ia ao arbado por volta das 11 da manhã no Record e tornou-se um fenómeno. Aquele horário, que poderia ser um horário morto de fim de semana transformou-se no ponto de encontro de milhões de brasileiros. A família acordava, ligava a televisão e lá estava ele. E o programa era daqueles bem à moda antiga, da maneira que a gente amava.
Auditório lotado, plateia gritando, aquela energia que só os programas de auditório dos anos 80 tinham. Havia o palhaço Vassourinha fazendo a alegria da criançada. Tinha um corpo de bailarinas a dançar no palco. Havia [música] concurso, havia quadro, havia música, havia gente comum a virar estrela por um [música] dia e tinha, claro, o bordão que abria tudo e que ficou marcado para sempre.
Alô, mulheres, segurem-se às cadeiras. Alô, marmanjos, não façam asneiras. Era [música] o sinal de que o sábado tinha começado de verdade. Olá, vastorinha, eh, atenção. Alô, menina, segurem-se nas cadeiras. E houve um quadro que se tornou uma febre de um forma que ninguém [música] esperava. Era um concurso de imitadores do Michael Jackson. Isso mesmo.
O Michael Jackson estava a explodir no mundo inteiro naquela altura e o Barus [música] trouxe a mania para o seu auditório. E de todos os imitadores que passaram por ali, um rebentou. Uma menina chamada Lúcia Santos, que ficou conhecida como [música] Mik Jaca, do jeitinho abrasileirado de falar Michael [música] Jackson.

Ela imitava o rei da pop tão bem que se tornou uma atração nacional. saiu daquele palco direto paraa fama e foi o Barros quem abriu essa porta. Agora deixa [música] eu voltar a essa frase que eu lhe pedi para guardar, porque aqui vem a informação que vale a pena mandar para o grupo da família no WhatsApp agora mesmo.
O programa Barros de Alencar [a música] foi durante muito tempo o maior audiência de toda a Record, a emissora inteira e vejam a coincidência do destino. O programa saiu do ar em 1986, [música] logo no mesmo ano em que o Silvio Santos deixou de ser proprietário de parte do Record, como se o fim de um capítulo puxasse o fim do outro.
Para [a música] pensa no tamanho disso. Um homem que saiu de uma pequena cidade do sertão da Paraíba, que ninguém sabia [música] apontar no mapa, estava agora no comando do programa de maior audiência de uma das maiores emissoras do Brasil, [música] o menino que ouvia a rádio sentado no chão de terra. Tornou-se o dono do sábado brasileiro, [a música] chegou ao topo, ao topo de verdade.
E é aí que mora o problema, porque lá no topo ninguém costuma olhar para baixo. Quando [música] tudo está a correr bem, quando a público grita o seu nome e o público não para de subir, é difícil imaginar que um dia aquilo pode acabar. Ninguém naquele auditório cheio [música] sábado de manhã imaginava o que estava para vir. E o que veio [a música] começou tão devagar que quase ninguém se apercebeu da hora exata em que se iniciou a descida.
E atenção, Barrosencar regressa já. Agora imagina o contrário de tudo aquilo. Nada de auditório cheio, nada de público a gritar, [música] nada de luz de sábado de manhã. Imagina um pequeno estúdio de rádio de madrugada com pouca gente por perto. É para lá que esta história vai agora e ela vai mais devagar, porque é a parte difícil de contar.
Quando o programa saiu do ar, em 1986, [música] o Barros não parou. As pessoas de rádio não para, a rádio está [música] no sangue. Ele voltou paraas ondas que o criaram, passou uma temporada numa estação em Santos, no litoral, e depois regressou a São Paulo. Foi ficando nos bastidores, em horários mais pequenos, longe do holofote, [música] que um dia tinha sido só dele.
Chegou a ter um quadro chamado Momento Barros de Alencar, [música] que ia ao arrogo, um radialista chamado Kaká Siqueira, um sujeito que ficou do lado dele até ao fim. e que foi muitas vezes a voz que falou pelo Barros quando o Barros já não conseguia mais falar por si. [música] E é aí que está o nó desta história, porque tem uma crueldade escondida no destino deste homem.
O instrumento de trabalho dele, [a música] a ferramenta que tirou-o do sertão e levou-o ao cimo da televisão era a [música] voz. Era só isso que ele tinha e era tudo o que ele precisava, pois foi precisamente a voz que começou a falhar. Veio uma cirurgia delicada na garganta e, segundo quem acompanhou de perto, uma luta [música] contra um cancro que corroía exatamente o lugar de onde saía o seu dom.
Pensa na ironia. O homem que encheu salas, que fez o Brasil chorar declamando, que ganhou a vida com aquela voz macia, foi [música] ficar sem ela. Aos poucos, o som, que tinha sido a maior riqueza [música] da vida dele, foi-se apagando. E com o som, foi-se apagando também a presença dele nas ondas hertzianas até ele afastar-se de vez dos microfones.
E aqui preciso de pisar com cuidado, porque tem uma parte dessa [música] história que eu vou dizer-te, mas sem pôr a mão no fogo. Circulou por aí, numa fonte regional, a versão de que o Barros [música] teria passado os últimos anos em grande dificuldade, quase largado pelas ruas de São Paulo.
É uma história pesada, mas é só isso. Uma história, uma versão que apareceu num só lugar e que nenhum grande veículo confirmou. [música] Tem quem jure que foi assim e há quem diga que não, que estava amparado por perto pelos amigos da rádio que nunca o abandonaram. Eu conto-te as duas versões e deixo-o tirar a sua conclusão, porque não seria justo eu afirmar como verdade uma coisa que ninguém provou.
[música] O que sabemos com certeza é mais simples e mais triste. O homem que um dia foi o dono do sábado brasileiro, foi desaparecendo da rádio, foi ficando [música] doente, foi ficando quieto. Aquela voz enorme foi-se transformando em silêncio. Até que numa madrugada de Junho, o silêncio ficou definitivo. 5 de junho de [música] 2017.
Foi nessa madrugada que Cristóão Barros de Alencar partiu aos 84 anos num hospital no bairro da Muca em São Paulo. Tinha [música] entrado em coma no dia anterior com o coração já muito fraco, cansado de uma vida inteira. [música] E o enterro foi da maneira que quase ninguém esperaria para um homem que já tinha sido tão grande, [música] discreto, quase sem ruído, num cemitério em Guarulhos, na grande São Paulo.
A notícia da morte veio de um jeito quase caseiro. Uma mulher chamada Virgínia Barros anunciou através do Facebook [música] e aqui há mais um pormenor curioso. Até hoje ninguém sabe bem quem ela era. Alguns veículos [música] disseram que era irmã dele, outros que era filha. Nem este pedacinho da história ficou [música] claro. É como se o próprio Barros já tivesse começado a transformar-se em névoa antes mesmo de o corpo arrefecer. E agora [música] chegou a hora.
Lembra-se daquela pergunta que eu plantei lá no início e pedi-lhe para guardar a questão sobre o que um homem daquele tamanho [música] teria deixado para trás. Pois é, chegou a hora de responder. Porque quando o Barros morreu, as pessoas foram atrás e eu fui atrás junto. Procurei a mansão, um tipo que foi dono da maior audiência da Record, que vendeu um disco pela RCA, [música] que encheu o salão de baile por todo o Brasil.
Este gajo tinha que ter deixado uma bela casa, não é? Procurei [música] e não encontrei qualquer registo de mansão, sem morada de luxo, nada. Procurei o carro importado, aquele que todo o artista de sucesso da época fazia questão de [música] ter na garagem. Procurei, não encontrei. Procurei a fortuna, a conta bancária cheia, os investimentos, o dinheiro guardado [música] de tantos anos no topo.
Procurei o testamento, procurei o inventário, aquele processo que sempre surge quando alguém rico morre e a família se [música] se movimenta para dividir os bens. Procurei disputa de herança, briga de parente, qualquer sinal de que existia um património grande em jogo. E não encontrei nada, nada de nada.
Presta atenção ao tamanho disso, porque é de arrepiar. [música] O homem que fez parar todo o Brasil no sábado de manhã, o proprietário do maior programa de uma estação gigante, [música] o cantor que embalou o romance de norte a sul do país. Esse homem não deixou [música] rasto nenhum de riqueza. Nenhuma mansão, nenhum carro, nenhuma fortuna registada em cartório.
O título deste vídeo fala nos luxos deixados por Barros de Alencar. E a verdade, a verdade honesta [música] que a investigação constatou é que estes luxos simplesmente não estavam lá, nunca apareceram. Lembra-se que lá no início eu pedi-te para [música] guardar aquele pormenor da sua infância, do homem que não deixou o rasto, pois a vida fechou o círculo da mesma [música] forma que abriu.
Chegou sem rasto e partiu quase sem rasto também. E foi aí que [música] parei para pensar: “Se não foi dinheiro que este homem deixou, se não foi mansão, nem carro, nem [música] conta cheia, então o que foi?” Porque uma coisa eu sabia, um sujeito que fez [música] tudo aquilo não pode ter passado pela vida e não deixado absolutamente nada.
E não deixou, ele deixou. Só que o que ele deixou não estava em cartório [música] nenhum. A fortuna estava no lugar errado, ou melhor, a gente é que estava à procura no sítio errado, porque enquanto todo o mundo cavava atrás de mansão, de carro e de conta bancária, a verdadeira herança do Barros de Alencar estava num lugar para onde ninguém pensou em olhar.
Ela não estava num cartório, estava a tocar naquele preciso momento. E ainda hoje, se você pegar no telemóvel e procurar o nome dele nas plataformas de música, lá está. Emanuela, lá está. Quero beijar-te à mãos. Lá está. Prometemos não chorar. As músicas continuam vivas, continuam ao alcance de qualquer um, continuam prontas para emocionar quem quiser ouvir.
Um artista morre, mas a sua voz fica. E a voz do Barros ficou. E tem mais do que as músicas. Ele deixou aquele bordão que, 40 anos depois ainda faz as pessoas da sua idade sorrir só de lembrar. deixou a memória de um sábado de manhã que hoje já não existe, daquele Brasil de auditório cheio e família reunida em frente à televisão. Deixou a memória de ter sido o trilho de tantos namoros, tantos bailes, tantas noites que envelheceram bonito na cabeça de quem viveu.
[música] E olha, há uma lição meio calada nesta história toda daquelas que ficam connosco depois que o vídeo acaba. [música] A fama faz um barulho enorme. Enche auditório, ganha um prémio, vira manchete. Mas a fama é também a primeira coisa a ir embora. [música] Quando as luzes se apagam, ela desaparece rapidamente. Ora, o que uma pessoa deixa verdadeiramente no coração dos outros? Uma música que alguém ainda canta no duche, uma boa recordação, um pedaço de alegria numa manhã de sábado, isto é bem mais silencioso, mas pronto que fica. O Barros de Alencar talvez não
tenha deixado um cêntimo em cartório, mas deixou uma coisa que dinheiro nenhum compra e inventário nenhum divide. Ele deixou saudades [música] e no fim de contas quem sai da vida deixando saudades não saiu pobre coisa nenhuma. E lembrava-se do Barros de Alencar? Conta-me aí em baixo qual foi a a sua lembrança dele, [música] desapareceu do programa na Record naqueles sábados de manhã de auditório cheio, se foi das músicas a tocar na rádio e no baile ou se, veja só, nunca tinha ouvido falar deste homem até chegar aqui a este
vídeo. Escreve nos comentários, porque leio um a um e adoro saber quem viveu [música] estas histórias junto comigo. E se esta história te tocou de alguma forma, deixa o teu like e se subscreve o canal. É assim que nós mantém viva a memória desta gente que fez o Brasil e que não pode cair no esquecimento. Fica comigo aqui.
Que boa história temos sempre para contar.