OS LUXOS DEIXADOS POR BELCHIOR APÓS A SUA MORTE — DOCUMENTÁRIO COMPLETO DO ÍCONE DA MPB – H
No ano passado morri, mas este ano eu não morro. [música] No ano passado morri, mas este ano eu não morro. [música] Demais. Já cantou essa frase? Todo mundo já cantou. Ela tocou na rádio de padaria, numa festa de aniversário, num churrasco de domingo. Esta frase acompanha o brasileiro há quase 50 anos. Quem escreveu foi um rapaz do sertão do Ceará.
Cantava na feira quando o menino foi frad cantor. Abandonou o quarto ano de medicina e foi para o rio à boleia num avião do correio aéreo, sem guitarra, sem dinheiro, dormindo num estaleiro de obra. Não Quero falar-lhe, [música] meu grande amor, as coisas. Este rapaz transformou-se em Belkior, vendeu meio milhão de cópias com um só disco e as músicas dele entraram em casa da gente e não saíram mais.
Eu sei [canto] que o o amor é uma coisa boa, [música] mas também sei que qualquer canta [canto] mais pequeno do que a vida. Só que depois a história dá uma volta que ninguém esperava. [música] Um belo dia, no auge da vida, este homem simplesmente parou. Deixou de cantar, deixou de [música] atender, deixou de aparecer. Moro lugar-comum, [música] junto daqui, [canto] chamado Brasil.
Desapareceu do mapa durante quase 10 anos e o Brasil inteiro a perguntar: “Cadê o Belor?” Quando morreu, em 2017, veio a pergunta que sempre surge: “O que será que ficou de tudo aquilo?” [música] Quero começar por dizer que não concordo em absoluto com a a posição demonstrada. E aí começou a confusão.
Tem gente [música] que jura que ele deixou uma fortuna escondida. Há gente que jura que ele morreu sem um tstão furado. [música] Cada um conta uma versão diferente e ninguém mostra prova nenhuma. Eu fui atrás [música] e o que encontrei é bem mais estranho do que as duas versões. Vem comigo. Essa história começa numa casa de esquina no Sobral, numa noite de lua cheia de 1946.
Sobral, Ceará, 26 de outubro de 1946, 6 horas da tarde de um sábado, lua cheia no céu. [música] Numa casa da rua Santo António, a dona Mariinha Paiva, a parteira mais conhecida da cidade, a mesma que dizem ter feito o parto do Renato Aragão, traz ao mundo mais um menino. Puseram-lhe o nome de Antônio Carlos, em homenagem ao compositor que fez o guarani.
O apelido já era da família Del Kor. Agora tem atenção ao tamanho desta família, porque isso explica muita coisa. [música] O pai, o senhor Otávio, era comerciante e juiz de paz, homem respeitado, daqueles que a cidade inteira conhece pelo nome. Tinha a letra mais bonita da região e naquele [música] tempo isso era título, estás a ver? Quem escrevia bonito escrevia os documentos de todo o mundo.
O senhor Otávio [música] teve 23 filhos. 23.º Ouviu direito? [música] Com a dona Dolores, a segunda mulher, foram 11. E o nosso António Carlos era o 13º de toda a fila. Se você cresceu no Brasil dos anos 50 e 60, você sabe o que é uma casa destas. Panela grande no fogão, prato para todos, roupa passando de irmão para irmão. Ninguém era o centro das atenções porque não dava.

Aprendia-se [música] cedo que para ser ouvido tinha de ter alguma coisa boa para dizer. E ele tinha. Dona Dolores cantava no coro da igreja e foi dela [música] que veio a primeira lição de música. O avô tocava flauta e saxofone. Naquela casa o som era coisa normal do dia a dia. O menino [música] saiu cantador de feira. Veja bem, chegava à feira e cantava.
E era repentista, respondia em verso na hora. Que é aquele dom que ou se tem ou não se adianta querer. Estudou o piano no colégio dos padres, pegou no canto gregoriano, línguas, filosofia. Aos 16 foi paraa Fortaleza estudar. Você já deve estar a montar o quadro na cabeça. Menino pobre do interior que estudou e venceu na vida.
[música] E não é bem assim. Não era pobre. Era família simples com pai respeitado e livro dentro de casa, que é outra coisa. Mas o que lhe aconteceu aos 17 anos ninguém adivinha, porque antes de qualquer palco, antes de qualquer disco, este rapaz entrou num mosteiro [música] e esteve lá dentro 3 anos atendendo por outro nome. Em 1963, o rapaz sobe à serra de Guaramiranga e entra [música] no mosteiro dos capuchinhos, frades italianos. Silêncio.
Rotina rígida, hora marcada para tudo. Deixou de ser António Carlos e passou a atender por Frei António de Sobral, 3 anos ali dentro. A filosofia, o latim, os clássicos lidos devagar. Depois foi para Fortaleza continuar os estudos no convento. E depois, no fim de 66 fez as malas e foi-se embora.
Aquele caminho não era o dele, mas repara numa coisa, nada daquilo se perdeu. Porque o Bkoris, o das letras compridas e cheias de ideia nasce aí. Homem que lia Dante no original, que discutia a filosofia alemã, que sabia mexer nas palavras como quem mexe numa ferramenta. Isso não caiu do céu. Este foi construído em três anos de silêncio na serra.
Saiu do convento e foi fazer o que a família queria. medicina na Federal do Ceará. E o rapaz [música] ia bem, ia muito bem. Só que Fortaleza naquela altura estava [música] a fervilhar. Final dos anos 60, faculdade cheia de gente nova, muita conversa, muito guitarra em roda. E foi aí que ele encontrou a sua turma.
Wagner, que era de Oóz, Ednardo, Roger, Rogério, Tete, [música] Amelinha, Fausto Nilo, gentei que tinha ido para a capital estudar e acabou por fazer outra coisa. A imprensa batizou depois aquele grupo de pessoal do Ceará. Ele estudava de dia e cantava de noite. Festival aqui, programa de rádio ali. Até que chegou a hora de escolher.
Em 71, no quarto ano de Medicina, Belquior abandona a faculdade. Quarto ano, pensa comigo, faltando pouco. A família orgulhosa, o diploma quase na mão, a vida resolvida e o rapaz vira costas para tudo aquilo para ir cantar. Se você tem um filho, sabe o tamanho desta conversa em casa. E se foi esse filho um dia, sabe ainda melhor.
[música] Tomou o rumo do Rio de Janeiro. E aqui a história fica boa. Foi à boleia num voo do Correio Aéreo Nacional, sem bilhete, sem dinheiro, sem plano nenhum. Chegou lá, ficou uns dias em casa de um tio, depois foi [música] a rodar, sofá de amigo, apartamento emprestado em Copacabana e houve [música] altura em que dormiu em obra mesmo.
Construção civil, cimento, andime, um homem culto, quase médico, dormindo em obra para tentar a vida na música. E foi assim, sem guitarra e sem lugar para dormir, que arranjou coragem de enfrentar a maior cantora do Brasil, [música] ainda em 71, o rapaz, sem morada fixa, vence o Festival Universitário da MPB na TV Tupi com À hora do almoço.
Quem cantaram foram Jorginho Teles e Jorge Neri. No centro [música] da sala, em frente da mesa, no fundo do prato, comida e tristeza foi o seu primeiro nome numa bolacha de vinil. Bom, mas festival ganha muita gente. Prémio não paga renda e ele nem renda tinha. O que muda a vida do o homem é outra coisa.
Belquior descobre que eles Regina vai estar num estúdio ensaiando num dia em que também rolava a gravação de Toquinho e Vinícius e ele decide ir lá. Agora imagina a cena. Um cearense magro, de voz esquisita, [música] vivendo em obra, sem guitarra, sem gravador, sem nada para mostrar, a não ser a boca. E do outro lado, Elise Regina, a maior, a mulher que fazia a gravadora inteira tremer.
Ele chegou e pediu assim, na cara dura, dá-me as condições de mostrar as minhas músicas e vejam o pormenor que só quem conhece Elise entende. Ela deu. Ela ouviu o rapaz e levou Mucoripo [música] com o Fagner para o disco dela de 72 Elizando Belor. O Brasil inteiro ouviu. Depois disso, a coisa engrenou. Roberto Carlos gravou, Nelson Gonçalves gravou, Osvaldo Montenegro gravou, mas o golpe de mestre veio em 75 com falso brilhante, aquele espetáculo que se transformou em disco e se tornou Marco. Elis tirou-lhe duas músicas,
velha roupa colorida e Como Nossos Pais, como Nossos Pais, na voz da eles, em plena ditadura, tornou-se outra coisa, tornou-se hino. Quero contar-lhe como vivi [música] e tudo o que me aconteceu. Pessoas a cantar [música] aquilo com a garganta apertada, compreendendo cada palavra sem necessitar de explicação.
Ele nunca fez pouco, viu? Dizia [música] que Eliz descobriu a música dele e reinventou, que o aval dela foi o que abriu tudo. E depois, com esse crédito na praça, entra em estúdio para [música] fazer o disco dele. Só que teve pessoas na editora que não queriam esse disco nem pensar. O problema era a voz, aquele jeito anasalado, meio arrastado, que não se parecia com nada que tocava na rádio. Ouviu e torceu o nariz.
Isto não vende, ninguém vai querer ouvir. Quem bancou foi André Midani, o presidente da editora discográfica. bateu o pé e mandou gravar. Junho de 76, sai a alucinação. Capa com aquela foto solarizada do Januário Garcia. Produção do Marco Mazola. No interior, uma sequência de música que até hoje ninguém explica direito como saiu tudo de uma só vez.
Apenas um rapaz latino-americano, como os nossos pais, velha roupa colorida, sujeito de sorte a palo seco, fotografia 3×4, 30.000 1 exemplares no primeiro mês e passou de meio milhão no total. Meio milhão de discos numa época sem streaming, sem internet, sem nada. Cada cópia destas foi alguém a entrar numa loja, tirando o dinheiro do bolso e levando-o para casa.
O rapaz que dormia em obra se tornara ídolo nacional. E é precisamente aí, com o Brasil na mão, que a sua vida começa a tomar um rumo que ninguém, nem os amigos mais próximos, conseguiu prever. Depois de alucinação, Belkior virou-se outra coisa. Os parceiros de estrada descrevem-no como máquina. [música] E não é força de expressão, não.
Teve noite de fazer três espectáculos. Três. Descia de um palco, entrava no carro, subia para outro. [música] Jorge Melo, que trabalhou anos com ele, resume assim: era um homem completamente entregue à carreira. Veio [música] coração selvagem em 77. Era uma vez um homem [música] e o o seu tempo em 79, paraíso em 82 e foi emendando praticamente um disco por ano [música] até virar o século.
Ele circulava com o Caetano, com o Chico, com Gil, com a Rita ali, com o Zé Ramalho, não é? Estava na TV, estava no festival, estava na rádio, passou [música] por uma editora grande, teve até um selo próprio. E aí vem a pergunta que já deve estar fazendo ali do outro lado. Quanto será que este homem juntou? [música] É uma pergunta justa.
Gajo que vendeu meio milhão de cópias, que teve música gravada por Eliz, por Roberto Carlos, [música] que correu o Brasil 25 anos em cima de palco, a conta na cabeça da gente fecha sozinha, ganhou muito. Só que aqui [música] a história trava porque não existe, nunca apareceu. Não tem documento, não tem declaração, não tem cifra fiável em lugar nenhum sobre quanto o Belkior faturou na vida.
[música] O que há é gente a falar. Tem site por aí que fala em a fortuna milionária, património escondido. Naquela conversa há quem jure o contrário, [música] que nunca viu dinheiro a sério. Cada um conta uma versão e ninguém mostra um papel. E vejam só a ironia desta história.
O [música] único número sólido que apareceu não apareceu no auge, apareceu depois, muitos anos depois, quando já tinha desaparecido do mapa e a justiça foi mexer nas contas dele. Aí descobriram que as músicas do Belkor estavam a render cerca de R$ 40.000 por mês, [música] todos os meses direitinho, 40.000$ mensais, salário de diretor de empresa a pingar sem parar.
Só que ele não podia encostar-se àquele dinheiro, estava tudo bloqueado. Guarda isso na cabeça, porque quando lá chegarmos à frente, este pormenor vira a coisa mais estranha de toda a história. Agora volta comigo [música] para meados dos anos 2000, porque foi aí, num atelier de artista plástico em São Paulo, que Belkior conheceu uma mulher e dali para frente nada mais foi igual.
200526 São Paulo, o Ateliê do Aldemir Martins, um dos grandes da pintura brasileira. É lá que Belquior conhece Edna Assunção de Araújo, produtora cultural, [música] gente do meio das artes. E o negócio pegou fogo rapidamente, só que tinha um detalhe. Belki era casado com Ângela havia 35
anos. 35. dois filhos criados, uma vida inteira construída em conjunto. Ele terminou [música] e não terminou apenas o casamento, foi se afastando dos filhos, dos irmãos, dos amigos de estrada, [música] um a um. No final de 2006, telefona ao empresário e dá- o recado: “Deixa de marcar um concerto, não quero mais”. O motivo que deu queria [música] pintar e queria terminar uma tradução da Divina Comédia do Dante para uma linguagem que o brasileiro comum entendesse.
[música] Pensa nisto um segundo. O homem estava a trocar o palco por Dante Aliguieri. 2007. A família diz que perdeu o contacto de vez. Último telefonema, última notícia, 2008. E a coisa [música] desanda. Ângela entra na justiça cobrando 7.000$ de pensão. Ele não paga. Tem outra filha em São Carlos com pensão em atraso também, não paga.
E é em outubro desse ano que se realiza a cena que ficou marcada. Melor estaciona um carro no aeroporto de Congonhas, um Hyundai Sonata e vai-se embora. Simplesmente vai-se embora, não volta para buscar. O carro esteve lá semana, mês, ano. Quando os jornalistas foram atrás, a dívida de estacionamento já passava de R$ 18.000. R$ 18.000 R$ 1.
000 de estacionamento, só de deixar o carro parado. Março de 2009, deixa o flat em São Paulo sem pagar os últimos meses. E o que ficou para trás nessa mudança [música] é de embrulhar o estômago. O segundo automóvel, um Mercedes largado na garagem ao lado. Roupa, rascunho [música] de música, cartão de crédito, documento, o passaporte, o computador com a tradução do Dante, [música] anos de trabalho ali dentro e os quadros.

Belkior tinha uma coleção guardada da naquela casa que [música] servia de atelier. Obra dele, obra dos outros. A casa foi selada e ficou fechada. Quando abriram, a humidade tinha comido tudo. Anos de pintura, ecrãs que nunca mais ninguém vai ver. Apodrecimento dentro de uma casa trancada em São Paulo, enquanto o proprietário já se encontrava do outro lado da fronteira, porque foi para lá que foi, Uruguai, com Edna.
E aqui a coisa torna-se uma novela nacional. O Brasil [música] percebe que Belquior desapareceu e vira febre. Onde está o Belquior? Em todo [música] canto. A internet, que nessa altura estava a começar a dar as rapazes, não perdoou. [música] Puseram-no na ilha do Lost, puseram-no na capa de disco dos Beatles.
Cada dia aparecia uma. Enquanto o país se ria, dois mandados de prisão eram emitidos contra ele. As contas bloqueadas. Todo o mundo achava que ninguém ia achar aquele homem nunca mais. Só que depois o Fantástico foi atrás e achou. Agosto de 2009, domingo à noite. Você provavelmente estava em casa a jantar na frente da TV quando aquilo entrou no ar.
[música] A repórter Sônia Brid tinha encontrou Belquior numa pequena cidade do Uruguai chamada San Gregório de Polanco, local pequeno, longe de tudo. E aí vem a parte que ninguém esperava. Ele não fugiu da câmara, não [música] se escondeu, não fez cara de quem foi apanhado, deu uma entrevista, falou com calma e disse que não tinha assumido coisa nenhuma.
em São Paulo. Adição do Fantástico passou quatro semanas à tua procura, não conseguiu te achar. Evidentemente que eu estava aqui. Mas eu vivo em São Paulo. Estava a descansar, a compor, [música] pensar na vida, trabalhar num novo projeto, traduzindo música pro espanhol. Prometeu o disco de inéditos, [música] prometeu voltar aos palcos.
Falava como quem estava de férias, [música] não como quem estava em fuga. Agora, quem viu aquilo em casa ficou dividido, porque de um lado tinha um homem lúcido, tranquilo, dono do seu próprio nariz. [música] Do outro tinha um filho sem pensão, pessoas a processar, mandado de detenção na mesa do delegado.
Os dois quadros eram verdade ao mesmo tempo e é é isso que torna esta história difícil de julgar. Ele continuou a rodar Monte Videl, colonia Del Sacramento e depois Artigas lá na fronteira. Ficou hospedado num hotel casino [música] e ficou a dever cerca de R$ 35.000. O hotel apresentou queixa na polícia, aconteceu semelhante no Rio.
[música] Aconteceu em São Paulo, 2013 e ele reaparece, desta vez no Porto [música] Alegre. foi bater à porta da Defensoria Pública aquele homem, o autor de Como Nossos Pais, procurando [música] Defensoria Pública. Chegaram a vê-lo a entrar num prédio de bairro de classe média, [música] com uma malinha na mão e material de pintura debaixo do braço.
Quem segurou a barra foram fãs [música] e um advogado, o Jorge Cabral, que lhe abriu a casa. Belkior passou uma temporada num sítio em Gaia. E o que ele fez ali é a parte mais bonita disto tudo. Não bebia, [música] não comia carne vermelha, tomava chá, passeava, cuidava das ovelhas. Lia, lia muito. [música] Foram cerca de 40 livros nesse período.
Escrevia sem parar, tanto [música] que gastou duas canetas até ao fim. Duas canetas. Pensa no tanto de papel que isso dá. [música] Quem conviveu com ele jura: não era depressão, não era loucura, não era senilidade. O homem estava inteiro, escrevia música nova, tinha mais de 20 prontas, [música] só que cantar ele não cantava e quando insistiam respondia com uma frase que diz tudo sobre aquele sujeito.
Dentista não sai para o meio da rua a fazer canal. Agora preciso que fiques [música] comigo nos minutos seguintes, porque é aqui que esta história vira do avesso. E a questão que abriu este vídeo começa a ganhar resposta. Chegou a altura de colocar as duas versões sobre a mesa. E vou contar-te as duas com o mesmo peso, porque as duas existem de verdade. Começa pela que dói.
Tinha filho à espera de pensão que não chegava. A dívida à Ângela juntou uns R$ 300.000, com a filha de São Carlos, cerca de R 90.000. Hotel a cobrar em tribunal, mais 47.000. e ainda tinha um processo laboral movido pelo ex-secretário [música] dele, o Célio Silva, com condenação de 1 milhão deais, dois mandados de detenção, contas bloqueadas, apartamento em execução.
E há uma coisa que pesa mais que dinheiro. [música] Em 2011, morreu dona Dolores, a mãe, a [música] mulher que ensinou aquele menino a cantar. Ele não foi ao funeral. Quem é filho sabe o que isso significa. Não há como não sentir. Agora há outra versão. E ela também é verdade. Em 2009, a General Motors ofereceu um cachet milionário para ele fazer um anúncio publicitário.
[música] O dinheiro na mesa resolvia metade dos problemas dele de uma atacada. Ele disse não. Um [música] homem endividado, com a justiça no pé, recusando dinheiro avultado para não vender o nome. Isto não é comportamento [música] de burlão. burlão leva o dinheiro e ele nunca aterrou de vítima, nunca deu entrevista chorando, nunca pediu uma vaquinha, nunca não culpava ninguém, [a música] vivia de favor e não se queixava de nada sobre a Edna.
Assim, a discussão nunca acabou. [música] Há um amigo dele que diz até hoje com todas as letras que ela fez lavagem cerebral naquele homem, que a sua vida só andou para trás depois [música] que os dois conheceram-se. Há outro que diz o contrário. O artista plástico José Roberto Aguilar, por exemplo, [música] via ali dois sonhadores que juntaram as utopias e resolveram viver da forma [música] deles.
Quem tem razão? Sinceramente, ninguém sabe e provavelmente ninguém saberá nunca. [música] Mas o pormenor mais estranho da toda esta história é outro e é este aqui. Lembra-se dos R$ 40.000 por mês que as músicas [música] dele rendiam? Aquele dinheiro continuou a entrar o tempo todo, enquanto ele dormia [música] num sítio emprestado, enquanto pegava fiado num hotel, enquanto tomava chá e dando de ovelha no interior do Rio Grande do Sul, como nossos pais, passava na rádio de todo o canto do Brasil e virava dinheiro no nome dele. Só que estava tudo travado
pela justiça. Belkior passou os últimos anos da vida sendo [música] um homem que gerava rendimento todos os meses e não podia tocar nela. rico no papel, sem [música] um tstão no bolso. E foi assim, nesta situação que ele chegou ao local onde tudo [música] terminou. Santa Cruz do Sul, interior do Rio Grande do Sul, uma casa de dois andares confortável, emprestada por um jovem empresário que se tornou fã.
Foi ali que Belquior passou o último ano e pouco da vida, ao lado de Edna. Meditava, escrevia, desenhava, andava na rua sem ninguém reconhecer. Madrugada, de 30 de abril de 2017, foi dormir ouvindo música clássica e não acordou mais, 70 anos, rutura da horta, morte natural, a dormir. O Brasil acordou no domingo com a notícia.
[música] Camilo Santana, governador do Ceará, decretou três dias de luta oficial e mandou trazer o corpo para casa. E aí aconteceu uma coisa que quem viu não esquece. Velaram ele no Teatro São [música] João no Sobral de manhã à tarde, no Dragão do Mar em Fortaleza. Passaram mais de 11.000 pessoas nos dois velórios. 11.000 para um homem que passou 10 anos a fugir de gente.
Foi sepultado no dia 2 de maio no mesmo jazigo do pai [música] e da mãe. E agora a questão que abriu este vídeo. O que ficou? De bem material? Quase nada. Os carros foram parar a depósito público com dívida superior ao valor dos mesmos. O apartamento penhorado, [música] os quadros comidos pela humidade, as roupas foram doadas. [música] Houve inventário, sim, mas número nunca apareceu, nem nessa altura, nem hoje.
Quem fala em fortuna está a dar pontapés. A A Edna [música] desapareceu outra vez. A família precisou de a intimar judicialmente para tratar do inventário. E em fevereiro de 2018, ela ficou de fora das decisões sobre a obra. Foi-se embora [música] sem cobrar nada. Falam até de uma mala de couro preto com as últimas criações dele dentro.
Uns dizem que ficou com ela, outros que se [música] perdeu. Até hoje ninguém achou. Mas há uma coisa que nenhum oficial de justiça conseguiu penhorar. 218 canções, 348 gravações registadas. Como Nossos Pais, [música] é a música dele mais tocada e mais regravada do Brasil. E continua a ser. Isso rende e vai render [música] para os seus filhos até cerca de 2087.
Tem mais de 30 músicas inéditas guardadas com Jorge Melo. Tem sete letras que apareceram no Arquivo Nacional dentro de Papel da Censura. E há uma geração que nem sequer era nascida cantando ele hoje. O hemicida pegou sujeito de sorte e colocou-o a amarelo. Os moços descobriram Belkior sozinhos. Belkior escreveu que morreu o ano passado, mas nesse ano não morre.
Ele fez esta frase aos 29 anos. sem imaginar que ela ia explicar a sua própria vida. Porque o homem foi-se embora de tudo aquilo que costumamos achar que é a vida da gente. Carro, casa, palco, aplauso, dinheiro no banco, tudo isso ele largou e tudo isto apodreceu, foi penhorado ou passou a ser dívida.
Só que a música ficou ficou na tua casa, na minha, [música] no rádio, na guitarra do vizinho, na garganta de um rapaz de 20 anos que nem sabe direito quem foi este cearense. No fim das contas, é isso que fica de qualquer um da gente. Não é o que nós juntamos, é o que deixamos na vida dos outros. E nisto, meu amigo, [música] o rapaz do Sobral foi rico como poucos.
Agora quero saber de ti. Belkior fugiu da vida ou escolheu a vida dele? Escreve lá em baixo: “Um, foi irresponsável com quem dele dependia. Dois, foi corajoso. Largou tudo e viveu como quis.” Ou três, foi um pouco dos dois. [música] Deixa o teu like e subscreve o canal que ajuda demais. E se esta história te tocou de alguma forma, envia para alguém que também cresceu a ouvir [música] Belkior.
Um abraço e até à próxima.