OS LUXOS DEIXADOS POR CLEMILDA APÓS A SUA MORTE – DOCUMENTÁRIO DA RAINHA DO FORRÓ – H
Se tem mais de 40 anos, já dançou esta música [música] numa festa junina de rua, num casamento no interior, num rádio de cozinha ligado demasiado alto numa manhã [música] de sábado, o seu delegado prenda o Tadeu. O seu delegado prenda o Tadeu, ele pegou minha irmã. Toda a gente cantava, toda a gente ria e quase ninguém sabia quem era a mulher que estava a cantar.
Está a chegar aqui na área nem volta. Através do nosso programa, ele está aqui para mostrar o seu talento, a sua Ela chamava-se Clemilda. Casou aos 15 anos num casamento arranjado pelos pais, deixou [música] dois filhos pequenos no Nordeste e apanhou um navio sozinha rumo ao Rio [música] de Janeiro. Serviu à mesa num restaurante, foi proibida pela censura da ditadura e foi coroada, rainha do forró pelas mãos do Chacrinha, em direto na frente do Brasil inteiro.
Uma vida destas não cabe numa só música. [música] E o que é que ela deixou quando partiu surpreendeu muita gente. Mas isso é o fim da história e nós vamos chegar lá juntos. Agora [música] prepara o coração, porque tudo isto começou numa casa de duas divisões no interior de Alagoas. Tenho uma casinha para viver, mas esta casinha agradeço ao povo Sipan.
É, não não tenho nada, mas tenho, tenho muito amor pelo poço de pan que devo [música] muito a eles. São José da Laje, interior de [música] Alagoas, 1 de Setembro de 1936. Nasce a mais nova de uma família que não não tinha nada sobrando. O pai era pedreiro, [música] a mãe Maria Ferreira da Silva era doméstica, casa de chão batido, fogão a lenha no exterior, água procurada e carregada.
O tipo de infância que quem nasceu no Brasil dessa época conhece bem. Ou porque viveu na pele, ou porque cresceu a ouvir o pai [música] e a mãe contarem. E vejam só o detalhe que muda tudo. Naquele Brasil, menina de família pobre no interior não [música] tinha futuro escrito, tinha destino. E o destino era o mesmo para [a música] quase todas.
No Natal de 1945, a família mudou-se para a palmeira dos Índios. Tinha 9 anos. Foi ali no agreste alagoano que ela cresceu de verdade, [música] na terra da feira de sábado, do acordeonista, na esquina do rádio de válvula que a vizinhança inteira escutava, [música] porque só uma casa da rua tinha aparelho.
Era assim que a música chegava, não havia outro jeito. E a [música] menina ouvia tudo, só que ninguém à volta levava aquilo a sério. Menina a cantar era graça de criança, coisa de festa de família, nada além disso. Cantar não era profissão. Cantar não punha comida na mesa. Em 1952, os pais arranjaram-lhe o casamento, com quem é que eles achavam certo do jeito que era feito naquele tempo, sem grande conversa.
[música] O rapaz chamava-se José Lúcio da Silva. Tinha 15 anos, pois é, 15. A idade que hoje é festa de [música] debutante com vestido alugado e valsa com o pai, ali era a [música] idade de se tornar dona de casa. E não era escândalo nenhum, era o normal. Era [música] o que acontecia com a filha do vizinho, com a prima, com a rapariga do outro lado da praça.
No ano seguinte, [música] veio o primeiro filho, José Adeíldo, natural de Palmeira dos Índios em abril de 1953. [música] Depois, por volta de 1956, nasceu o segundo em Maceió, José Roberto, o menino que todo o Nordeste conheceria [música] décadas mais tarde, como Robertinho dos Oito Baixos. Faça a conta comigo. Aos 20 anos de idade, já era casada, já era mãe [música] de dois e o casamento já estava a desmoronar.
E aqui vem a parte que precisamos de entender direito, porque é o coração de tudo o que veio [música] depois. Aquela mulher olhou em volta e viu a vida toda dela já decidida por outras pessoas. [música] Os pais decidiram com quem ela ia casar. A altura decidiu [música] o que ela ia ser. A pobreza decidiu até onde podia sonhar.
Só que havia uma coisa que ainda ninguém se tinha decidido por ela. E aos 24 anos, [música] esta mulher tomou uma decisão que até hoje divide quem conta essa história. Por volta de 1960, Clemilda arrumou o pouco que tinha, deixou os dois filhos pequenos com a mãe e embarcou num navio rumo ao Rio de Janeiro. Isso mesmo que acabou de ouvir.
Deixou os filhos, um com 7 anos, o outro com quatro e foi. E aqui preciso de parar um minuto contigo, porque esta é a parte que mais gera discussão até hoje. Há quem escute isso? E sinta um aperto no peito. [música] Mãe não abandona filho. Ponto final. É o que muita gente pensa e é uma opinião legítima com razão de existir. Mas [a música] tem também quem argumente que ela não abandonou coisa nenhuma, que deixou as crianças com a avó em casa segura, porque não tinha nada para dar a eles ali.
Que naquele Brasil ir para o sul era o que se fazia quando não havia mais o que fazer. Os paus de Arara subiam lotados todos os santos dias, cheios de gente, que deixou família para trás precisamente [música] para poder sustentar esta família. E aí fica a pergunta para si. Guarde a sua resposta, porque quero ler isto nos comentários.
O Rio de Janeiro de 1960 era a [música] capital do país e era a CPU e a capital do sonho. Era a cidade que aparecia na revista, que tocava no rádio, que todos no interior imaginava. sem nunca ter visto. E era também uma cidade que engolia gente do Nordeste sem dó, todos os dias, sem sequer [música] perguntar o nome. Clemilda foi engolida da forma mais comum possível, trabalhando.

Foi empregada em casas de família, trabalhou numa loja de roupa, cuidou de um idoso e acabou como empregada de mesa, servindo à mesa num restaurante do centro do Rio. Uma mulher nordestina com sotaque de alagoas transportando bandeja. atendendo freguês, ganhando pouco e mandando o que dava para os filhos lá longe.
Não tinha glamor nenhum nisso, tinha cansaço. Mas espera, porque tem mais. Aquele restaurante ficava ao [música] lado de um edifício muito específico, a rádio Mairin Veiga. E nessa altura, meu amigo, a rádio não era só a sair de uma caixinha. Rádio [a música] era espetáculo. Tinha auditório, havia plateia, havia fila na calçada.
As pessoas arranjavam-se para assistir a um programa de rádio do mesmo maneira que hoje se arranjam para ir ao teatro. Meditei, reflitei e concluí que tudo na vida é uma questão de boa desculpa. E adivinhem o que esta empregada fazia sempre que sobrava um tempinho? Ela entrava, sentava-se no auditório e ficava ali no meio do povo a olhar para o palco.
Olhando quem? Luís Gonzaga, Marinez, [música] Jackson do tamboril, Anastasia, os maiores, os donos daquilo tudo. Ela via de longe, do meio da plateia, com uniforme de trabalho ainda no corpo às [música] vezes, e voltava para o restaurante depois. No dia seguinte, mesma coisa. Ninguém naquele auditório fazia ideia de quem ela era e ela também não.
Guarde esta cena com carinho, porque no final desta história ela vai voltar e vai voltar de uma forma que arrepia. Só que naquele momento ela não sabia de nada disto. Ela só sabia que gostava de estar ali. E foi exatamente ali, outro lado daquela parede que estava o homem que ia virar a sua vida do avesso. Em 1964, [música] aquela empregada criou coragem e fez uma coisa que parecia loucura para quem a conhecia. pediu para fazer um teste.
Não era um teste qualquer, era para o Crepúsculo Sertanejo, programa dirigido por Raimundo Nobre de Almeida na Mairinque Veiga, ou seja, o mesmo edifício onde ela entrava de fininho para observar os outros a cantar. Agora com ela do outro lado do microfone e ela passou. Depois pergunta-se: [música] “Mas de uma hora para a outra?” Assim? Não foi de uma hora para a outra, não.
Foram 4 anos a servir à mesa e a escutar. 4 anos de escola, só que sem sala de aula e sem professor. Foi aí que ela conheceu [música] Gerson Filho. E aqui a gente precisa de perceber direito quem era esse homem, porque não era um principiante. Gerson Argolo Filho era alagoano de Penedo, acordeonista profissional, já tinha disco gravado, já era nome conhecido e ele tinha uma marca, o Folly de oito baixos, aquela concertina mais pequena, mais leve, que muita gente achava coisa de amador e que ele tocava de um modo que calava a boca a todo o
mundo. Ele era o artista feito. [música] Era a novata do interior de Alagoas. Deu no que deu. Os dois casaram e estiveram 28 anos juntos. 28 é mais tempo do que muita gente que conhece está casada até hoje. E o mais bonito é que não foi só casamento, não. [música] Foi sociedade, foi dupla. Foi Gerson quem empurrou a mulher para dentro do estúdio.
A sua estreia em disco não foi num disco dela, [música] foi no dele. Em 1964, ela cantou três faixas no LP. é para valer. [música] Da RCA Victor em 1966 apareceu de novo nos Retalhos do Nordeste e depois veio 1967 e veio o disco [canção] que mudou o patamar. Gerson Filho apresenta Clemilda. O nome dele à frente, o dela atrás.
Era assim que funcionava naquele tempo, mas era o seu primeiro disco. Só que há uma parte desta história que quase ninguém conta. [música] Enquanto isso acontecia no estúdio, a vida real dos dois era outra coisa completamente diferente. Montaram uma caravana. [música] E caravana naquela altura era isso mesmo que está a imaginar. Pegar a estrada e ir.
Circo de lona armado na beira da cidade, vaquejada numa fazenda no meio do nada. Cabaré, Festa Junina de Praça, rádio do interior, onde o locutor anunciava [música] o concerto três dias antes e aparecia toda a cidade. Junto [música] com eles rodavam nomes como Maria Feliciana, Meloso, Edgar dos Oito Baixos e Josa, o Vaqueiro do sertão.
Estrada de terra batida, cachet pequeno, [música] palco de madeira que baloiçava e público, muito público. Era esse o Brasil que fazia música nesse tempo. E é um Brasil que praticamente não existe mais. Em 1969, o casal tomou a decisão definitiva, [música] chega do Rio de Janeiro. Voltaram para o Nordeste de vez e se fixaram-se em Aracaju, capital de Sergipe.
Gerson montou um programa de forró na rádio AM e Clemilda, [música] que era alagoana, adoptou Sergipe como se tivesse nascido lá. E Sergipe adotou [música] ela de volta com uma força que ia durar o resto da vida dela. Anos depois, ela ia resumir tudo numa só frase. Disse que O Gerson foi a coisa mais importante que aconteceu na vida dela, não pela fama, pela segurança.
[música] Ele deu-lhe a única coisa que ninguém tinha dado até ali, alguém que acreditasse [música] e resultou. Nos anos 70, ela emplacou uma rotina que hoje seria impensável. [música] Um disco por ano, todos os anos. Sucesso atrás de sucesso em todo o Nordeste. [música] Só que foi exatamente esse tanto de música que acabou por colocar o nome dela numa mesa onde ninguém queria ser chamado.
Quem viveu os anos 70 e 80 no Brasil sabe que existia um lápis vermelho passando por cima de tudo. Música, novela, jornal, peça de teatro, letra de samba. Tudo passava por uma mesa em Brasília antes de lhe chegar ao ouvido. Era o departamento de censura e diversões públicas. E a gente sempre ouviu falar desta história associada a Chico Boarque, a Caetano, a Gilberto Gil, ao pessoal que fazia música de protesto e faz todo o sentido pensar em sim, porque foi essa [música] que ficou no livro de História. Só que a censura
tinha outra frente, uma que quase ninguém se lembra. Não era a censura política, [a música] era a censura moral. E ela não estava atrás de música que falasse de liberdade, estava atrás de música que falasse de safadeza. Adivinha quem entrou na mira? Uma senhora do forró do interior de Alagoas que cantava música de festa junina.
Existe um trabalho académico publicado [música] na revista Acervo do Arquivo Nacional dedicado exatamente a este caso. E o título que os sensores acabaram [música] consagrando é de arrepiar o diabinho de saia. Era assim que a rainha do forró era tratada nos papéis oficiais do regime militar. Agora vem o dado que quase ninguém sabe e este [música] é para mandares no grupo da família.
Agora em 1981, seis canções de Clemilda foram [música] proibidas de uma só vez. Seis numa canetada. E o mais curioso é o que a pesquisa desse mesmo artigo [música] revelou sobre a década anterior. Durante os anos 70 inteiros, Clemilda praticamente não [música] mandava música de duplo sentido para a censura.
Não era esse o repertório dela. O duplo sentido só se afirmou verdadeiramente no trabalho dela lá pelos anos 80, bem mais tarde. Ou seja, ela não foi censurada porque sempre tinha sido safada. Ela foi censurada bem no momento em que o regime já estava afrouxando em tudo o resto. Não é brincadeira não.
Enquanto o país caminhava para Bilto paraa abertura, [música] enquanto se discutia a amnistia e eleição direta, tinha um funcionário público sentado [música] numa mesa em Brasília a riscar o nome de uma cantora nordestina de forró. E aí vem a melhor parte desta [música] história toda, que é a resposta dela.
Clemilda ficava incomodada de verdade quando diziam que ela cantava [música] música de duplo sentido e ela rebatia sempre com o mesmo argumento. [música] Não era duplo sentido coisa nenhuma. Característica do programa. Sem chucalho não há problema. O pessoal diz: “Ai, onde está o chucalho?” Eu estou com chucado, dois chucado. O pessoal que escuta.
Era música cómica, [a música] era música engraçada, era graça, era uma piada de festa, era o mesmo humor que o povo do O Nordeste faz na feira, à porta de casa, em pleno São João. E olha, [música] tem aqui os dois lados. E eu vou apresentar os dois com o mesmo respeito. Há quem diga que ela estava a se defendendo, [música] que aquelas letras eram pura malícia e toda a gente entendia perfeitamente o que estava a ser dito.
incluindo [música] quem dançava. Mas tem também quem argumente que ela tinha toda a a razão, que aquilo era humor popular [música] do mesmo tipo que sempre existiu no Brasil inteiro e que só se tornou caso de [música] polícia porque quem cantava era mulher. Homem a cantar, o mesmo assunto naquela época, era chamado de engraçado.
Mulher a cantar era chamada de indecente. E depois fica a pergunta para tu resolveres [música] nos comentários. O que não se pode discutir é o resultado prático de tudo isto. Ela seguiu gravando, seguiu vendendo, seguiu enchendo a festa junina no Nordeste inteiro. Proibir seis canções de uma cantora popular tem um efeito muito engraçado, faz o povo querer ouvir ainda mais.
E 4 anos depois daquela canetada, uma música que ninguém apostava a umtustão furado ia colocar esta mulher dentro da maior estação de televisão do país. O Brasil estava a sair da ditadura. A inflação corria solta e nas rádios do O Nordeste começou a tocar uma música que colou-se ao ouvido do país inteiro. O seu delegado, Prenda o Tadeu.
Ele pegou na minha irmã e parava ali. Reticências. A música não terminava a frase, deixava o povo terminar. Seuegado Tadeu, ele pegou minha irmã. Composição [música] de António Sima com a própria Clemilda. Prenda ou Tadeu deu nome ao LP, editado pela Continental nesse ano e rebentou de um jeito que ninguém tinha previsto.
[música] Mas o segredo do sucesso, segundo a própria, cabe numa só sílaba. Perguntada sobre o que fazia aquela música pegar tanto, [música] Clemilda respondeu que a música não não tinha nada demais. O que o povo achou graça mesmo foi o ham, aquele ham que ela soltava a meio do refrão. Só isso. Caiu no gosto popular e [música] pronto.
Uma sílaba. Foi uma sílaba que abriu a porta da televisão brasileira para ela. Nesse ano surgiu o primeiro disco de ouro [música] e ela recebeu no programa do Bolinha na Bandeirantes. Quem viveu aquela época lembra o formato auditório cheio, público a gritar, apresentador de fato chamando o artista ao palco.
[música] Disco de ouro na TV era acontecimento nacional e depois veio o Chacrinha. [música] O casino do Chacrinha era outro patamar. Era buzina, era chacrete, era ananás a voar na plateia, era o velho guerreiro gritando ao microfone. [música] Domingo à tarde, Brasil inteiro parado em frente da televisão. Não existia lugar mais popular no [música] país.
Foi aí que Abelardo Barbosa deu a ela o título que ia carregar para o resto da vida, Rainha do forró. Pare um segundo para pensar no tamanho do mesmo. 25 anos antes, essa mesma mulher servia a mesa num restaurante e entrava escondida num auditório de rádio para ver os artistas de longe. Agora, ela era a artista e [música] o auditório era o do Chacrinha, mas ainda não tinha terminado.
Em 1987, ela voltou a emplacar com um forró cheiroso que o Brasil todo conhece por outro nome, [música] Talco no Salão. E este disco fez um número que precisa de ser dito com [música] calma. 100.000 exemplares vendidas, 100.000 discos de vinil. Numa época sem internet, sem streaming, [música] sem clique. 100.

000 pessoas que saíram de casa, foram a uma loja, contaram dinheiro na mão e levaram aquele bolachão debaixo do braço. Isto é encher o Maracanã, uma pessoa por acento. [música] O segundo disco de ouro surgiu por conta dessa marca e quem entregou nas mãos dela foi o próprio Chacrinha. [música] Nesse período, ela circulou pelos maiores palcos da televisão brasileira, apareceu ao lado dos trapalhões, [música] tornou-se presença certa em festa junina de norte a nordeste.
Era chamada, era paga, era [música] disputada. Uma cantora de forró de duplo sentido, mulher nordestina com mais de 50 anos de idade [música] no auge da audiência da TV aberta. Ela chegou lá. Agora vou-te pedir uma coisa. Guarda esse número. 100.000 exemplares. [música] Dois discos de ouro, o topo da televisão brasileira.
Porque este número vai voltar nesta história e vai voltar de um jeito que não está à espera. O ano que o brasileiro recorda pelo Plano Real, para o tetra Campeonato, para o O Romário e o Bebeto, fazendo aquele gesto de embalar na Copa dos Estados Unidos. [música] O ano em que todo o país estava respirando de novo esperança. Para Clemilda, [música] 1994 foi o ano em que Gerson morreu.
28 anos de casamento, 28 anos de estrada, de estúdio, de caravana, de circo, [música] de palco de madeira balançando o homem que a tinha empurrado para dentro da rádio, que colocou o seu nome no disco dele antes de [música] ela ter disco próprio, que acreditou primeiro. E aqui a história muda de tom.
Ela praticamente deixou de gravar. Não foi um adeus anunciado, não houve concerto de despedida, não teve entrevista de reforma, [música] simplesmente parou. A cantora, que passou a década de 70 a lançar um [música] disco por ano, recolheu a voz do estúdio e não voltou mais como antes. E o mundo lá fora não esperou por ela.
O forró que ela representava era o pé de serra, acordeão, zabumba, triângulo, três instrumentos e está feito. Só que os anos 90 chegaram trazendo guitarra, contrabaixo, [música] bateria, teclado e camião de som. Nasceu o forró eletrónico com banda grande, bailarina em palco e estrutura de espectáculo que o pé de serra nunca teve como acompanhar.
De repente, a rainha do forró estava a cantar um forró que a nova geração já achava antigo. E a comunicação social nacional fez o que a comunicação social nacional sempre faz. Foi-se embora, desapareceu o convite, desapareceu a chamada, desapareceu o telefone a tocar, mas ela não desapareceu, só mudou [música] de lugar.
E é aqui que esta mulher mostra de que era feita. Em vez de aceitar o [música] silêncio, Clemilda foi para a rádio. Assumiu de vez o forró no asfalto na APIP AM de Aracaju. Programa que ela tocou desde meados dos anos 80 e que se tornou a coisa mais importante da segunda metade da vida dela. Está a chegar aqui à área nem Walter.
Através do nosso programa. Ele está aqui para mostrar o seu talento. Só [música] de segunda a sexta-feira, todos os santos dias. Depois veio a versão televisiva na TV a Peripê aos domingos, o programa que mais tempo ficou no ar na história daquela emissora. E tinha uma marca registada que quem é de Sergipe reconhece na hora. O chocalho.
Ela sacudia o chocalho no meio da apresentação. Coisa simples, coisa parva, coisa de gente. Tornou-se assinatura. Não era mais o crinha. Já não era rede nacional, era rádio AM de manhã, ligada na cozinha enquanto a dona de casa fazia o almoço e o marido tomava café antes de sair para o trabalho. Era isso.
E não é que isso valia mais do que parece? Porque enquanto o Brasil se esquecia do nome dela, Sergipe não esqueceu nem por um dia. Ela tornou-se uma instituição, abria a porta para artista [música] local que não tinha onde tocar. levava o forró pé de serra para o interior de Sergipe, de Alagoas da Bahia de Pernambuco.
[música] Passou de Estrela Nacional, a guardiã de toda uma cultura, 30 anos nessa toada. 30 anos de microfone. E ela seguiu firme assim, com o chocalho na mão, até que em 2010 o seu corpo deu o primeiro aviso sério. Abril de 2010, Clemilda teve de se afastar do forró no asfalto. Quem assumiu o microfone no lugar dela foi o Meloso, companheiro de estrada desde os tempos da caravana.
Alguns [música] Os programas de televisão entraram em reprise. Foi tudo feito com jeito, sem alarido, da maneira que se faz quando a gente ainda tem esperança de que a pessoa volte logo. Ela não voltou como antes. [música] O corpo estava a cobrar o preço de uma vida inteira de estrada. Vieram o AVC. As fontes divergem se foram dois ou três.
E eu prefiro te dizer isto com honestidade a inventar um número. Veio o Mal Parkinson. Veio a osteoporose, veio a hipertensão arterial. A mulher que sacudia o chocalho de pé no palco [música] já subia sentada. E aí chegou 2014. E 2014 é o ano em que este história dá o nó. Porque foi nesse ano que aconteceram, ao mesmo tempo, as duas coisas mais opostas que pode imaginar. De um lado, a homenagem.
A TV A Aperipê produziu um especial chamado Todos Cantam Clemilda. [música] O Museu da gente sergipana montou uma exposição inteira a ela dedicada com o nome [música] Morena dos Olhos pretos, o mesmo nome da música que Gerson tinha feito para ela décadas antes. O forró Caju, prestou o tributo. [música] Genival Lacerda, amigo de 40 anos, subiu no palco para a homenagear do outro lado. E aqui precisa de se segurar.
[música] Foi aberta uma conta poupança no Banes em nome de Clemilda Ferreira da Silva para receber donativos do público para pagar o tratamento dela. Aí você pergunta: [música] “Mas como assim? É isso mesmo? A mulher que vendeu 100.000 cópias de um só disco?” A mulher que recebeu dois discos de ouro das mãos do Chacrinha ao vivo em frente ao Brasil inteiro.
[música] A mulher que gravou 40 LPS em 50 anos de carreira. Essa mulher precisou de uma vaquinha para pagar o hospital e teve mais. [música] Em junho de 2014, um advogado e escritor chamado [música] Valdemar Bastos Cunha lançou um livro de poesia no Museu da Gente Sergipana. O nome do livro é quase demasiado poético para ser verdade.
Versos quase esquecidos. Toda a receita foi destinada ao tratamento dela. [música] Pensa na cena. Um homem a vender livro de poesia para ajudar a pagar a hospitalização da rainha do forró. E foi um internamento longa. Ela entrou no final de maio no hospital da Polícia Militar. [música] Em julho foi transferida para o Hospital Primavera.
Em setembro depois de mais de 60 dias, chegou a sair da UCI e regressou. 5 meses no total, entre altos e baixos, com a família ao lado e todo o Sergipe acompanhando pelo rádio. No dia 26 de novembro de 2014, cerca das 4 da manhã, o corpo não aguentou mais. [música] Ela tinha 78 anos. Além dos AVC, tinha pneumonia. E o mais impressionante é que ela já tinha avisado o que achava [música] de tudo isso.
6 anos antes, em 2008, numa entrevista, Clemilda disse com todas as letras que homenagem que presta é a que se faz com a pessoa viva, que homenagem depois de morta não servia para nada, porque não vamos ver mesmo. E riu-se depois de falar e reverente até ao fim. O velório foi no centro de Aracaju, o funeral às 16 horas, no cemitério São João Batista, no bairro do Ponto Novo.
Centenas de pessoas foram despedir-se. O governador foi, a secretária da cultura foi e o povo [música] foi. Então a pergunta que sobra é só uma e agora ela dói um pouco mais do que quando este vídeo começou. O que foi que a rainha do forró deixou afinal? Existe em Aracaju [música] um lugar denominado Casarão da Clemilda.
Muita gente que por ali passa durante o forró Caju [música] jura que aquilo foi a casa da cantora. Faz sentido pensar assim. O nome está lá em letra grande na fachada, palacete da Clemilda. Só que [música] não, nunca foi dela. O casarão é um espaço temático montado pela autarquia de Aracaju na festa junina da cidade, idealizado pela cantora amorosa.
É cenário, é homenagem. Dentro dele funciona o palco Gerson Filho, batizado com o nome do [música] marido. Ou seja, o mais famoso palacete ligado ao nome dela é um palacete que ela nunca pisou como [música] dona. E essa é a metáfora perfeita para responder à questão deste vídeo. Porque eu fui atrás dos documentos e agora [música] vou-te contar exatamente o que existe e o que não existe sem enfeitar nada.
Não existe registo público de inventário. Não [música] existe testamento conhecido. Não existe escritura de imóvel em nome dela, nem descrição do bairro onde vivia, [música] nem carro, nem jóia, nem fazenda, nem conta com cifra que alguém possa apontar. [música] Nenhuma reportagem, em 50 anos de carreira descreveu a casa da Clemilda [música] como luxuosa.
Mas presta atenção a isto aqui, porque é importante e quase ninguém tem esse cuidado. Ausência de documento não é prova de pobreza, também não é prova de riqueza, é só ausência. Não dá para chamar Clemilda de milionária e não dá para dizer que ela morreu na miséria. A a verdade honesta é mais simples e mais semelhante à vida da maioria das pessoas.
Origem pobre, conforto e prestígio no auge, aperto no fim. Só que depois é [música] que se torna interessante, porque quando deixamos de procurar escritura e começa a olhar para o que realmente ficou, o inventário muda completamente de tamanho. Ficaram 40 LPS e seis CDs gravados ao longo de 50 anos de carreira.
Ficaram [música] dois discos de ouro verdadeiro com data e programa de televisão. Ficou Prenda o Tadeu, que ainda hoje toca [música] em festa junina de rua, em todo o Brasil, cantada por gente que nem sabe o nome de quem gravou. [música] Ficou um programa de rádio e televisão que rodou durante cerca de 30 anos e virou a casa de pequeno artista que não tinha onde tocar em Sergipe.
Ficou um filme Morena dos Olhos pretos do cineasta Isaac Dourado com o mesmo nome da canção que Gerson compôs para ela. Ficaram dois filhos músicos, José Adeíldo, baixista e Robertinho dos Oito Baixos, [música] que herdou do pai o Fle e da mãe o palco, e que continua a tocar [música] e a manter os dois vivos. cada vez que abre a concertina.
E ficou uma coisa que não cabe em cartório nenhum. Clemilda foi uma das mulheres que arrombou a porta de um mundo que era só de homens. Genival, Lacerda, Zenilton, João Gonçalves. [música] Era essa a equipa. Ela entrou e ficou. Ao lado de Marinez e Anastasia, abriu o caminho por onde depois passaram artistas [música] como Elba Ramalho.
Mas o nó mais bonito desta história é outro. Lembra-se da garçonete? Aquela rapariga que entrava no auditório da rádio Mairink Veiga no Rio de 1960, [música] com o cansaço do turno ainda nas pernas, só para ver de longe Luiz Gonzaga e Marinês cantarem, existe uma publicação internacional denominada Enciclopédia of Música Popular Latino-Americana.
Nela há uma lista dos maiores intérpretes de forró do Brasil. O nome de Clemilda [música] está nessa lista, juntamente com Luiz Gonzaga, juntamente com Marinez, os mesmos que ela ficava a olhar de longe, sentada na plateia, sem qualquer direito de sonhar com aquilo. Esse foi o luxo que ela deixou.
No final das contas, tem duas heranças na vida de qualquer [música] pessoa. Tem a que cabe num papel de cartório notarial e essa acaba. Ela divide-se, se vende, gasta-se e em duas gerações [música] já ninguém se lembra de onde veio. E tem a outra. Aqui aparece [música] quando toca uma música numa festa de rua e três gerações começam a cantar juntas [música] sem combinar nada.
Aqui aparece quando um filho pega no instrumento do pai e continua [a música] a tocar. Aqui aparece quando uma menina pobre de palmeira dos Índios, casou aos 15 anos, empregada de mesa aos 24, [música] termina com o nome numa enciclopédia do outro lado do mundo. Clemilda pediu que a homenageassem em vida, porque depois de morta ela não ia ver mesmo nada.
Ela tinha razão, mas errou numa só coisa. O que ela construiu não precisava dela para continuar a existir. [música] Agora quero saber de ti. Primeiro, a decisão de 1960. [música] Aquela mulher apanhar um navio e deixar dois filhos pequenos com a mãe para tentar a vida no rio. Para si, isto foi coragem de mãe ou foi escolha demasiado difícil para julgar? Escreve lá embaixo.
E segundo, já conhecia a Clemilda ou descobriu esta história agora? Se dançou, prenda o Tadeu em festa junina, comenta de que estado é que é. [música] Quero ver o Brasil todo aparecendo aqui. Deixa o like, se subscreve o canal e manda este vídeo para aquela pessoa da sua família que vai lembrar [música] desta música na hora.