OS LUXOS DEIXADOS POR WALDICK SORIANO APÓS SUA MORTE — A HISTÓRIA DO MAIOR CANTOR BREGA DO BRASIL – H

Este homem aqui, de chapéu preto e óculos de sol já foi um dos maiores cantores que este Brasil já viu. Enchia cinema, enchia um programa de auditório. Namorou herdeira de uma família abastada, andava de carrão. Tinha casa no Rio e em São Paulo. O rei da dor de cotovelo, o homem que fez cantar o Brasil inteiro: “Eu não sou cão não.

Eu não sou um cão, não.” [música] Mas antes de tudo isto, ele era apenas um menino no meio do sertão da Baía, pegando numa lata velha de conserva e cantando dentro dela como se fosse um microfone de verdade. Pois é, Wal Soriano. A maioria das pessoas olha para história de um cantor famoso e imagina que no fim da vida ficou lá tudo guardadinho.

A fortuna, as mansão, os luxo. Aí imagina o resto. Herdeiros a lutar por milhão, inventário cheio, faria todo o sentido. Só que não foi nada disso, muito diferente até, porque o que aconteceu com todo este dinheiro e principalmente o local onde este homem foi parar depois de morto, pouca gente sabe. E hoje vou contar-te [música] esta história do princípio ao fim.

Prepara o coração que esta vai mexer consigo. A história começa lá longe, no dia 13 de Maio de 1933, num lugarzinho chamado Brejinho das Ametistas. Fica no município de Caitit, [música] no interior da Bahia, bem no meio do sertão. E o nome que puseram nele foi Eurípedes. Euíedes [música] Vic Soriano.

Casa de gente simples, mas com música no interior. O pai tocava clarinete. [música] A mãe tinha uma voz bonita de encher os ouvidos. Quer dizer, o menino já nasceu com a música a correr no sangue de um lado e do outro. Só que aos 5 anos de idade, a vida deste menino deu uma reviravolta que ele ia carregar até ao último dia.

A mãe [música] separou-se do pai e foi-se embora. foi morar em São Paulo. E pouco tempo depois, no início dos anos 40, ela morreu por ali, longe do filho, cinco aninho de idade. [música] O menino ficou sem o mãe, sem o abraço, sem o colo. E olha, [música] guarda bem esse pormenor, porque é ele que vai explicar quase tudo o que vem depois na vida do Walck, desde o amor até o dinheiro.

Criado pelo pai, cresceu do maneira que toda a gente do sertão daquela época crescia em cima de um cavalo trabalhando no campo desde pequeno. Depois virou choferinho. E foi trabalhar no garimpo, apanhando ametista naquela terra dura. O tipo de infância que quem nasceu no Brasil dos anos 30, 40 conhece muito bem.

Ou porque viveu na pele ou porque viu de perto na casa do vizinho do compadre. Mas havia uma coisa neste menino que era diferente. Nas horas de folga do garimpo, quando os outros sentavam-se para descansar, ele não. Ele pegava numa lata velha daquelas de conserva, punha à frente da boca e cantava. Cantava como se aquela lata amassada fosse o microfone mais fino do mundo.

E cantava o quê? As músicas [música] que ouvia e adorava. Vicente Celestino, Nelson Gonçalves, Carlos Galhardo e o rei do baião, o nosso Luís Gonzaga. Depois o pai, vendo aquele talento fez um agrado. Deu de presente uma acordeão para o rapaz, não deu outra. O menino aprendeu a tocar e já foi se apresentar nos leilão da cidade, animando o povo.

Naquela idade toda, ele já se achava um artista e no fundo já era mesmo. Mas há um pormenor que muda tudo [música] nesta história, porque foi um filme, um simples filme de western daqueles que passava no cinema da cidade, que apanhou este menino do garimpo e transformou no homem de negro que o Brasil inteiro ia conhecer.

E a forma como isso aconteceu é demasiado engraçada. O Eurípedes era doido por filmes de far oeste, aquele cinema de bons e bandido, tiro, cavalo, pó. E um belo dia foi ver um filme de um tal de Durango Kid, um herói do faroeste, todo de preto, chapéu preto, roupa preta. O rapaz olhou para o ecrã e se apaixonou-se, não pela história, pela roupa.

Aí, tem atenção ao que ele fez. mandou fazer uma roupa igualzinha à do ator, igual arranjou um óculos Rayan Ban escuro e ainda foi atrás de um cavalo semelhante ao do filme. Se montava [música] todo de preto, dos pés à cabeça e desceu para o meio da praça da cidade, cavalgando como se fosse o próprio bom rapaz do cinema a sair da tela.

E o que fez o povo? Rio, a miudagem, os estudantes da cidade começaram a vaiar aquele rapaz fantasiado em cima do cavalo. E aí é que fica bom. Ele não baixou a cabeça, não, esporeou o cavalo e saiu a correr atrás dos alunos no meio da praça. Cavalo a todo o galope, espalhando a miudagem para todo o lado. Pode rir porque é para rir mesmo.

Mas repara numa coisa séria no meio da brincadeira. Foi a partir daquele dia em que o preto virou a cara dele. A roupa preta, o chapéu preto, o óculos escuros. Aquilo que ia ser a marca registada do maior brega do Brasil não saiu da cabeça de nenhum estilista, saiu de um western e de uma vaia. O pai, coitado, [a música] não estava a gostar nada daquilo.

Reclamava que o filho só queria saber de tocar e cantar. E nada de coisa séria, de trabalho a sério. Até que um dia o rapaz chegou para o pai e disse o que estava entalado. Disse que ia-se embora, ia tentar a vida na música longe dali. E soltou uma frase de macho ferido, daquelas que só quem tem muito orgulho e muita mágoa fala.

Se não vencesse na vida, nunca mais punha os pés de volta a casa. Não era conversa. Ele pegou-se num pau de arara, aquele camião pau duro que levava o nordestino para o sul, apinhado de gente e de sonho, e rumou para São Paulo. Chegou na grande cidade, sem nada. Foi bater de porta a porta nas rádio, oferecendo a voz, cantando para [música] quem quisesse escutar, atrás de um pequeno lugar para mostrar o talento.

E de tanto insistir, conseguiu uma carta de apresentação para uma editora discográfica, a Chantcler. Cantou, agradou e foi contratado. Só houve um problema. Na gravadora, resolveram que o nome artístico dele ia ser Valdik Soriano e não gostou nada. Lá na terra dele, todos o chamavam pelo primeiro nome, o [música] Eurípides, mas engoliu, aceitou e virou o Aldik para o resto da vida o primeiro sucesso, quem és tu.

Depois veio [música] tortura de amor, fúo de ti, música que rebentou não só aqui, mas atravessou a fronteira e fez sucesso fora do Brasil também. O menino da lata de conserva tinha vencido, podia regressar a casa de cabeça erguida. Só que a maior de todas as suas músicas, aquela que o Brasil inteiro ia decorar e cantar até hoje, nasceu da forma mais inesperado possível por causa de um avião atrasado. Pode acreditar.

Eu não sou cão, não. Foi assim, ó. O Aldik tinha um espectáculo marcado para cantar no Natal, só que o avião atrasou. E não se atrasou pouco, não. Empacou lá no Recife e o povo que estava esperando começou a queixar-se da vida, impaciente, maldizendo o atraso. Aí alguém, no meio daquela confusão de aeroporto, soltou a frase: “Eu não sou cão não.

” Queixando-se de ser tratado daquela maneira, largado à espera. O Waldick ouviu aquilo e qualquer coisa acendeu-o na cabeça dele, pegou na frase e no caminho ali mesmo foi montando a letra e a melodia de uma canção. Uma música que ia tornar-se praticamente o hino dele. Eu não sou um cão, não. Aquela do Para viver tão humilhado, prefiro amar-te.

Você conhece? O seu pai conhece, [música] a sua avó conhece. Todo mundo já cantou esta em algum canto da vida. Então, meu amigo? Foi ladeira acima. Nos anos 60 e 70, o Audic Soriano tornou-se um fenómeno. [música] Vendia disco que não tinha forma de acompanhar. Tava em todo o programa de auditório, todos os semana na televisão que a família inteira assistia junta na sala.

Teve até aquele momento [música] inesquecível no palco do Silvio Santos, os dois se abraçando e caindo juntos que o Brasil todo viu e riu. E não se ficou pela música não. O homem foi ao cinema. E aqui eu preciso que segure essa informação, porque ela [música] é do Cair Queixo. Um filme de Valdic Soriano chamado Paixão de um homem pôs mais de 1 milhão de brasileiros dentro do cinema lá em 1972.

1 milhão de bilhete vendido num tempo sem internet, sem rede social, sem nada. Só o passa-palavra e a fama do homem. Isso é mais gente do que enche o Maracanã lotado [música] 13 vezes seguidas. Um milhão de pessoa a pagar para ver o cantor de brega no grande ecrã. Isso mesmo que ouviu. E o dinheiro, claro, entrou.

Entrou muito. O peão de garimpo, o rapaz [música] que catava a ametista na terra dura da Baía, o servente que chegou em São Paulo num pau de arara sem um tstão no bolso. Agora andava de Ford Landal, um grande carro da época, um luxo para poucos. Tinha casa no Rio, tinha um imóvel em São Paulo, aparecia nas colunas social do jornal. E houve [música] mais.

Ele chegou a viver um romance com Beck Clabin. Isso mesmo, uma herdeira da poderosa família Clim, pessoas [música] da alta sociedade. O menino que cantava numa lata de conserva saía agora com a nata da elite paulista. Pode acreditar, porque é verdade. O jornal O Globo até deu-lhe um apelido que resume tudo. O Frank Sinatra dos pobres, porque ele era o galã, o dono da voz, o rei da dor de cotovelo, só que do povo, do trabalhador, da gente simples.

Tinha o dinheiro, tinha a fama, tinha o carrão e a herdeira. Estava tudo na mão. [música] Então responde-me uma coisa, como é que um homem que tinha tudo isto foi acabar a vida a tocar em barzinho pequeno no interior do Nordeste, longe de tudo? A conta começa a virar agora e ela é mais humana do que imagina. Agora preciso de voltar naquele detalhe que eu lhe pedi para guardar lá no comecinho.

[música] Lembra o menino de cinco aninho que ficou sem a mãe. Porque quem conheceu [música] o Waldic de perto conta uma coisa que explica muita coisa. Diziam que tinha um vazio lá dentro, um buraco que não enchia com nada. Um homem que em criança nunca foi apanhado no colo, nunca conheceu bem o que era o abraço de mãe, o afeto.

A mãe foi embora, morreu longe e que nunca cicatrizou. E depois, olha que coisa triste e humana ao mesmo tempo. Esse homem que foi abandonado pela mãe, passou a vida inteira à caça do amor, correndo atrás do colo que nunca teve, numa mulher, noutra, noutra e noutra. O O próprio Walik chegou a confessar que com todas as letras.

Disse que viveu [música] com 14 mulheres na vida. 14.º E completou [música] com aquela sinceridade meio amarga. E nenhuma deu certo. Realizaram-se três casamentos oficiais, sete, oito filho reconhecido, dependendo de quem conta, e um monte de história de amor pelo caminho. Teve a Maria Inês, por exemplo, uma professora de dança que ele [música] conheceu quando ela era muito nova e com quem viveu 18 anos.

Guardou [música] cartas, fez música para ela. O homem amava. amava demais, na verdade amava de uma forma que nunca era suficiente para dar conta daquele vazio de infância. E aqui entra o dinheiro. Todas estas famílias, todas estas mulher, todos estes filhos. O Walic sustentava, [a música] bancava a casa, bancava a vida de muita gente.

Somava que as noitadas, a boémia, a vida de artista que gasta o que ganha sem olhar para trás. [música] E o dinheiro, aquela fortuna toda que ele juntou no auge, foi escorrendo devagarinho, [música] escorrendo pelos dedos. E presta atenção neste ponto que é importante. Não teve [música] golpe, não houve trambique, ninguém lhe passou a perna, ninguém roubou a fortuna, não faliu em negócio nenhum.

O dinheiro do Wic desapareceu do jeito mais humano que existe. Gasto [música] com as pessoas, com o amor, com a família, com a vontade de preencher um buraco que vinha lá da infância. Há quem olhe para isso e abana a cabeça, dizendo [música] que foi irresponsável, que esbanjou, que não pensou no dia de amanhã. E há quem olhe e dizer ao contrário, [música] que ele só era um homem generoso que partilhava o que tinha, que não sabia viver de outro jeito.

E depois, sinceramente, quem é que pode julgar? [música] Fica a questão para si. Só que a vida tem destas. Enquanto o dinheiro entrava, estava tudo bem. O problema é que o mundo mudou, a a moda virou e quando o brega, o Cafona, saiu de cena e o público começou a rarear, o Walk foi descobrir uma verdade dura daquelas que dóem.

A fama não paga conta para sempre. Há uma coisa que a gente precisa falar sobre o Walek, porque o acompanhou a carreira inteira. Muita gente da elite, do pessoal fino, torcia o nariz para ele. Chamavam-lhe prego, [música] de grosso, de brega, de brega. Diziam que aquela música dele, de dor de cotovelo, de sofrência, era coisa de gente sem cultura.

E houve [música] gente que saiu na defesa do homem com unhas e dentes. Diziam assim: “Estas palavras feias, este desprezo todo, é invenção da burguesia, da gente rica que não engolia uma coisa só, que o povo, o trabalhador, as pessoas simples do Brasil amava demasiado o Aldexoriano. E ponto final! E depois fica no ar a pergunta, sem resposta [música] fácil.

De um lado, havia quem dissesse que ele era mesmo grosseiro, sem refinamento. Do outro, havia quem jurasse que isso era só snobismo de quem não suportava ver o povo feliz com o artista do povo. Quem que tem a razão? Isso aí eu deixo você resolver. Mas o preconceito não foi o único inimigo do Walk, teve o próprio governo.

[música] Lembras-te da música Tortura de Amor? Aquele sucesso dele ali dos anos 60? [música] Pois é, em plena ditadura militar, a música foi censurada e sabe porquê? Por causa de uma palavra só, no título tortura. O regime da época não tolerava aquela palavra a circular, ecoando na rádio, mesmo numa canção de amor que não tinha nada a ver com política.

Era só tortura de coração, de saudade. Não importou, cortaram. E foi assim entre o preconceito de uns e a mudança dos tempos, que a estrela do Waldik foi apagando aos poucos. A moda mudou, vieram outros ritmo, outros artistas e aquele brega dos anos 60 e 70 foi ficando para trás. O homem que enchia o cinema [música] com 1 milhão de pessoa foi, aos poucos cantando para plateia cada vez mais reduzida.

Nos anos 90, ele fez as malas e foi morar para Teresina, no Piauí. Depois, em Fortaleza. longe do eixo Rio São Paulo, longe do zolofote de antes. Fazia um pequeno espetáculo aqui e ali, para sobreviver e para fazer o que amava. Pus [música] três pontes de safena no coração e, como se não bastasse, ainda enterrou uma filha, uma dor que nenhum pai [música] deveria conhecer.

A vida do rei, da dor de cotovelo tinha-se virado ela própria, uma canção de tristeza. E foi mesmo no meio desta vida mais pequenina, mais simples, mais longe de tudo, [música] que batia à porta o pior de todos os avisos. Um diagnóstico. Um diagnóstico que o Wald, teimoso como era, fez questão de não aceitar. O Aud ele tinha um jeito, um jeito teimoso, cabeça dura, daquelas pessoas que conhecemos na vida e que não tem santo que o faça mudar de ideias.

[música] E uma das suas teimosias era com um médico. Ele não gostava. Fugia de [música] consulta, fugia a um exame, fugia a hospital. Há até uma história de que uma vez para escapar de um hospital, [música] o homem praticamente atirou-se do camião. Não queria saber. Para ele, [música] aquilo de estar a examinar-se, à procura de doença, era quase uma frescura, coisa de gente fraca.

E o Audi que não se via como fraco. Só que o corpo não pergunta se somos teimosos. Era um cancro da próstata. E aqui vem a parte que dói porque podia ter sido diferente. O cancro da próstata, quando é apanhado [música] cedo, tem tratamento, tem hipóteses de cura. O problema é que o Waldick, com aquela [música] birra de médico descobriu tarde, tarde demais.

Quando foram ver, a doença já se tinha espalhado, já se tinha tornado metástase. E mesmo assim, [a música] sabe o que ele dizia? repetia para quem quisesse ouvir. Eu não vou morrer de cancro, não. Falava aquilo com uma convicção danada, quase um bordão, [música] como quem desafia a própria doença de peito aberto.

Não ia se render. Quando o quadro apertou de vez, os filhos levaram-no para o Rio de Janeiro. Foi internado no Inca, numa unidade de cuidados para quem já não tinha mais que fazer, a não ser aliviar a dor. E foi ali no dia 4 de Setembro [música] de 2008, de madrugada, que o Waldic Soriano se foi, tinha 75 anos.

Agora [música] tenho um pormenor desta despedida que ninguém consegue cravar e que mostra bem como foi a vida amorosa, complicada deste homem. Umas pessoas próximas dizem que [música] ele morreu sozinho, abandonado, longe do carinho no fim. Mas uma das mulheres que adorou-o lá de Fortaleza jura de pé junto [música] que não, que ele não morreu sozinho, que tinha gente ao lado dele até ao último suspiro.

Duas versões, duas verdades. E de novo aquele homem rodeado de mulher e de amor, deixando para trás uma pergunta sem resposta. [música] Ele partiu acompanhado ou partiu só? O velório foi na Câmara Municipal [música] do Rio com fila de fãs para dar o último adeus e teve um momento de arrepiar. [música] Na hora de enterrar, lá no cemitério tocaram a música dele.

[música] Eu não sou cão não. Embalando a despedida do dono da voz. Aquele [música] mesmo verso para viver tão humilhado, ecoando na terra. Enterraram o homem, encerraram a história. Deve estar pensando, [música] só que não, porque a luta, pelo que o Walk deixou para trás estava na verdade só começando. Aí vem aquela pergunta que toda a gente faz quando um artista famoso morre.

E o dinheiro? O que é que sobrou de toda a aquela fama? E a resposta, no caso do Walck, é o retrato exato do homem que foi. Tinha um apartamento, [música] tinha uma casa, tinha uma pequena poupança guardada. Coisa de gente que teve, mas que não estava a nadar em ouro longe disso.

Nada de mansão faraónica, nada de cofre entupido de dinheiro. [música] Os imóvel, com o passar do tempo, acabaram por ser vendido. Mas o tesouro de verdade que o Aldex Soriano deixou não era nada disso. Não era uma casa, não era um carro, não era terra. O seu tesouro não dava nem para pegar com a mão, eram as [música] música.

O homem deixou cerca de 80 disco gravado e umas 800 composição feita ao longo da vida. E cada vez que uma música destas passa na rádio, numa festa, [música] numa novela, num barzinho por aí, pinga um dinheirinho de direito de autor. É o Ecade que cuida disso, que arrecada e transfere. Ou seja, mesmo depois de morto, o Waldick continuava à maneira dele, sustentando gente.

As músicas dele iam continuar trabalhando durante muito tempo depois que parou. E foi exatamente aí, neste dinheiro que estava sempre a pingar, [música] que a coisa aqueceu. Porque quem ficou administrando a herança, os direitos das músicas foi a última [música] esposa dele, a viúva, a Valda. E nem todos da família gostou.

Filho de outros casamentos começou a queixar-se, a questionar, a achar [música] que estava havendo coisa errada com o dinheiro. Chegaram a lutar por uma quantia lá pela casa dos R$ 500.000. Teve acusação séria de um lado, dizendo que andaram tirando dinheiro que não devia do inventário e teve a negação firme do outro lado, dizendo que não tinha nada disso, que era tudo mentira.

E depois, mais uma vez, não vou apontar [música] dedo para ninguém. De um lado, filho que se sente passado para trás, que pensa que tem direito ao que o pai construiu, do outro, a mulher que viveu quase quatro décadas ao lado do homem e diz que está tudo certo, tudo no sítio. Quem está com a razão nessa? Sinceramente, só quem viveu a história por dentro.

[música] Eu fico de fora e conto-lhe. Mas, ó, guarda o coração, porque toda esta briga por dinheiro, por 500.000, por direito de música, ela transforma-se em pó perto do que os fãs do Waldik foram descobrir [música] alguns anos depois. E o lugar desta descoberta foi o pior lugar possível. foi num cemitério. Quando o Waldk morreu, em 2008, foi sepultado num cemitério ali no Rio de Janeiro, o cemitério do Caju.

Passaram os anos e aquele túmulo do [música] homem que um dia encheu o cinema com 1 milhão de pessoa foi ficando para trás esquecido. [música] O tempo foi comendo a sepultura, a lápide rachou, a coisa foi-se deteriorando, acabando, largada [música] e agora presta muita atenção a este pormenor, porque ele aperta o peito.

Quem pagava a conta para manter aquele túmulo minimamente cuidado não era filho, não era esposa, não era família, era um fã. Um funk era advogado, que gostava tanto do Walck, que bancava do seu próprio bolso a manutenção da sepultura do [música] ídolo. Enquanto a família lutava por R$ 500.000 de herança. Era um estranho, um admirador, que cuidava do local onde o [música] corpo do homem descansava.

O menino que cantava numa lata de conserva, o Frank Sinatra dos pobres, o rei da dor de cotovelo, estava largado num túmulo caindo aos pedaços. Foi aí que os fãs mexeram-se, juntaram-se, se organizaram e iniciaram uma campanha com uma só missão: tirar o Waldic daquele abandono [música] e levá-lo para casa, para a Bahia, para terra onde nasceu e de onde um dia saiu num pau de arara, jurando só voltar se vencesse na vida.

[música] e conseguiram no dia 6 de maio de 2022, 14 anos depois da [música] morte, os resto mortal do Waldiquiano foram tirados do rio e levados [música] de volta para Caetit, o sertão da Baía. Foi enterrado ali, perto do pai e do irmão, com direito à missa com o povo da cidade reuniram para receber o filho ilustre que regressava a casa.

Mas e esta história há sempre um mas nem [música] todo mundo conta os factos da mesma maneira. Uma sobrinha do Walk veio a público dizer que esta versão do abandono era um exagero, que o túmulo nunca esteve maltratado, largado, [música] coisa nenhuma, que era apenas um túmulo simples, rústico, do jeito que o homem era, [música] e que esta história toda de sepultura abandonada foi meio inventada, meio montada para comover.

E depois outra vez, ó, os dois lado batendo de frente. De um lado, quem diz? Foi abandonado, foi humilhado até depois de morto, largado num túmulo rachado. [música] Do outro, a família a dizer nada disto, era simples, mas estava cuidado. Pararam de inventar. O homem que cantou para viver tão humilhado [música] foi terminar dividindo opinião até debaixo da terra.

Quem tem razão? Olha, mais uma vez esta eu passo-lhe. Mas no fim de tudo houve uma coisa que ninguém discute, uma coisa bonita no meio de toda esta confusão. Depois de uma vida inteira longe, de tanta cidade, tanto palco, tanta mulher, tanto sobe e desce, o Waldik voltou finalmente. voltou para o sertão da Bahia, para o lugar de onde nunca devia ter precisado de sair.

E é aí que esta história nos deixa pensar no fim das contas, porque o Vald Soriano teve tudo aquilo que o mundo diz que é sucesso. Houve o carrão, teve a casa, teve a herdeira rica de braço dado, teve o cinema cheio, teve o nome no jornal. E olhando de longe, dá para dizer que ele largou tudo aquilo escorrer pelos dedos, que deitou fora um património que muita gente sonharia em ter.

Só que talvez o luxo que o Walk abandonou não fosse o de mármore, sabe? Talvez o seu verdadeiro luxo fosse outro, o de ser um homem que passou a vida inteira à caça de um colo que perdeu com cinco aninho de idade, que adorou demais, gastou demais, viveu demais do maneira que dava conta, que nunca soube ser morno e que no fim de tudo, depois [música] de tanta volta, só queria mesmo uma coisa que nós aqui entendemos bem, regressar a casa.

Ele voltou, demorou, mas voltou. E no fundo, no fundo, é isso que fica. que podemos ter o mundo inteiro na mão e ainda assim transportar um vazio e que, por vezes, a única fortuna que importa verdadeiramente é o lugar de onde a gente veio. E você, o que é que acha? O Audi que morreu esquecido, largado pela própria família, ou foi um homem que viveu à sua maneira até ao último dia, sem se preocupar com o amanhã e está tudo bem [música] assim? Tem os dois lados nessa história.

Desce aqui nos comentários e diga-me o que pensa que quero muito saber. E se essa história mexeu consigo, deixa o seu like, subscreve o canal e ativa o sininho que tem muita história boa [música] a vir por aí, porque no próximo vídeo vamos contar a história de um outro ídolo do povo brasileiro, que também teve fama, dinheiro e multidão gritando o seu nome e que terminou a vida de uma forma que o vai surpreender ainda mais do que aquele.

Você não vai querer perder. Até lá.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

Recommended for You

View Archive arrow_forward