Roberto Carlos aos 85: a Cirurgia, o TOC e as Perdas do Rei – H
Na manhã de 29 de junho de 1947, dia da festa de São Pedro no Cachoeiro de Itapemirim, um menino de 6 anos ficou preso debaixo de um vagão da estrada de ferro Leopoldina. Ele tinha ido ver o desfile das escolas com uma amiga. Uma professora viu o perigo e puxou a menina pelo braço. [música] Ele se assustou-se com o gesto brusco, tropeçou e caiu na linha férrea.
As rodas passaram por cima da perna direita. Na Santa Casa da cidade, a amputação foi feita [música] à altura da canela. A família não tinha dinheiro para uma prótese e atravessou o resto da infância [música] de muleta. A primeira perna mecânica só chegou quando tinha 15 anos. Esse menino chamava-se Roberto Carlos Braga.
Anos mais tarde, o Brasil inteiro passaria a chamar-lhe apenas rei. Em 24 de julho deste ano de 2026, [música] aos 85 anos, recebeu alta hospitalar após uma cirurgia à vesícula por videolaparoscopia previamente programada. Segundo o assessor Maurício Aires, o procedimento foi um sucesso e a agenda de concertos continua confirmada.
O susto durou pouco, mas foi suficiente para o país inteiro lembrar-se de uma só vez de tudo o que este homem já enterrou. E é aí que a história torna-se realmente estranha. Em 2003, Roberto gravou uma canção em que as primeiras letras de cada verso lidas de cima para baixo, formam o nome de uma mulher.
Ele conheceu esta mulher em 1977, nos bastidores de um concerto em Serra Negra. Tinha 16 anos. Os pais dela proibiram a aproximação. Os dois só voltaram a encontrar-se 13 anos depois. [música] E o que aconteceu entre aquele reencontro e o dia 19 de dezembro de 1999 é a maior dor da sua vida e o motivo pelo qual, uma única vez em 50 anos, o especial de Natal simplesmente não foi ao ar.
[música] A meio do caminho ainda tem o transtorno que ele próprio assumiu publicamente e que fez o maior sucesso da própria carreira desaparecer do repertório durante 30 anos. Se prefere história com nome, data e fonte em vez de boato, deixa o like e subscreve. É o combustível deste canal. Aos 9 anos, já tinha um trono. Não era metáfora. O programa infantil da Rádio Cachoeiro, a única emissora da região, tinha um quadro em que os jovens cantores disputavam a preferência do público e quem vencia sentava-se num trono até ser desbancado por outro. [música] Roberto
venceu tantas vezes seguidas que a produção teve de tirá-lo da disputa e declará-lo fora de concurso. A partir dali, era chamado apenas para abrir e fechar o programa. O cachet era de 60 cruzeiros velhos. Tudo aquilo tinha iniciado num dia de outubro de 1950, quando Laura Moreira Braga costurou uma roupa especialmente para a ocasião e empurrou o filho para a frente do microfone.
Ele cantou um bolero porto riquenho Amor e Mas Amor de Bob Capó. O programa era patrocinado por uma fábrica de doces e distribuía rebuçados às crianças. O Roberto recebeu o punhado dele e o convite para voltar na semana seguinte. Em casa, os vizinhos elogiaram. Foi então que disse à mãe, a frase que definiu o resto da sua vida.
Não queria mais ser médico, agora [a música] queria ser cantor. Ser médico era o que os pais mandavam-no responder quando perguntavam, porque a medicina era o caminho da ascensão social. Antes disso, tinha querido ser aviador, depois camionista, depois desenhador. A casa era modesta, no cimo de uma encosta, no bairro do Recanto.
O pai Robertino Braga era relojoeiro e tinha uma pequena loja no centro. A mãe era costureira e atendia uma vasta clientela, porque nessa altura quase não se vendia a roupa pronta. Os dois tinham saído do interior de Minas Gerais, já casados, para viver no Cachoeiro. O avô materno Joaquim Moreira era português. A avó Ana Moreira tinha ascendência indígena e negra.
Roberto foi o quarto e último filho e ganhou logo a alcunha de Zunga. Foi a mãe que lhe passou o pouco de violão que sabia, aprendido na adolescência. E foi ele quem depois procurou aperfeiçoar-se sozinho [música] pelo método do guitarrista canhoto. O acidente de 1947 não afundou só o menino, afundou a loja. Robertino acumulou dívidas com os fornecedores por causa das despesas e só conseguiu liquidá-las depois de fazer um apelo direto a eles.
O que o país conhece é a perna perdida. O que quase ninguém conta é que toda a família ficou a dever. Em 1952, aos 11 anos, Roberto ganhou o seu próprio programa semanal na rádio, 15 minutos, pontualmente às 12h30, cantando tangos, boleros e sambas canções. Em 1954, a mãe matriculou-o no Conservatório de Música de Cachoeiro, onde houve [música] aulas de piano duas vezes por semana.
No ano seguinte, gravou a voz pela primeira vez num disco de acetato, uma canção chamada Deusa, composta por um jornalista local. Em março de 1956, saiu definitivamente de cachoeiro, levando uma mala e uma guitarra. E aqui a história vira ao contrário. [música] O menino que era imbatível na cidade natal tornou-se um ninguém na capital.
matriculou-se na Turma da noite de um colégio em Niterói para deixar o dia livre e atravessava diariamente de ferry para bater com a porta da Rádio Nacional da Mying Vega da Tupi. Chegou a contactar o radialista Paulo Gracindo várias vezes [música] e nunca conseguiu uma oportunidade no programa dele.

No final do ano não tinha contrato com nenhuma estação e ainda chumbou o terceiro ano gimnasial por faltar às aulas. Chegou a considerar seriamente voltar para casa. [música] Só não voltou porque os pais tomaram a iniciativa de se mudarem para perto dele, para um sobrado em Lins de Vasconcelos. Foi num [música] curso de dactilografia feito por pura necessidade de arranjar emprego, que conheceu um rapaz chamado Octaávio I, assistente do apresentador Xianca de Garcia.
Octaávio arranjou-lhe um teste e em 1957, aos 16 anos, Roberto Carlos estreou-se na televisão, sentado numa lambreta cantando [música] Tuti Fruti. Primeiro cachê no Rio, 200 cruzeiros velhos. No mesmo [música] período, um colega de supletivo chamado Arlênio Lívio Gomes levou-o a um grupo de amigos que se reunia no bar divino, na esquina da rua do Matoso.
Entre eles estavam Tim Maia, Jorge Ben, Wilson Simonal e os irmãos Paulo César e Renato Barros. foi observando Tim Maia tocar que ele aprendeu a fazer rock na guitarra. Ainda em 1957, Tim Maia montou uma banda com Roberto e mais dois amigos, os Sputnicks ensaiavam na cave da casa do Maia. A estreia pública foi em dezembro desse ano, num evento da igreja de São Sebastião dos Capuchinhos, na Tijuca.
Duraram poucos meses. Depois de uma gravação no Clube do Rock de Carlos Imperial, Roberto esperou pelo apresentador no corredor e pediu uma oportunidade para se apresentar sozinho, [música] a imitar Elvis. Tim Maia descobriu a manobra e os dois discutiram em frente ao estúdio. Roberto não apareceu no concerto seguinte e a banda acabou ali.
O que veio depois foi uma sequência de portas fechadas que duraria anos. Sete editoras dizendo não, um emprego de dactilógrafo no Ministério das Finanças e [música] um primeiro disco que vendeu 512 cópias. A carreira só foi salva por um desentendimento entre um outro cantor e o novo diretor da editora. Uma briga em que Roberto Carlos não tinha absolutamente nada a ver.
Sérgio [música] Murilo era naquele momento um dos maiores cantores de rock do Brasil e estava contratado pela CBS. desentendeu-se com Evandro Ribeiro, o novo diretor da editora, e foi posto no frigorífico. Evandro estava a cortar contratados e não tinha qualquer interesse em manter um intérprete de bossa nova no elenco.
E Roberto Carlos era exactamente isso no papel. A vaga aberta pelo rival salvou-o. Mandaram no migrar de género. [música] Em abril de 1962, saiu o single Malena com boa repercussão nas rádios cariocas e depois a versão de Splish Splash feita por Erasmo. Logo a seguir os dois compuseram em conjunto. Parei em contramão foi a primeira colaboração da parceria mais longa da música brasileira.
Antes disso, o cenário tinha sido humilhante. [música] Depois do fracasso do primeiro disco, Roberto perdeu o emprego de Kruner na Discoteca Plaza e passou a cantar primeiro num cabaré e depois num bar frequentado por prostitutas. Carlos Imperial tentou enturmá-lo com a chamada turma da bossa nova. Ronaldo Bcoli, Carlos Lira, Roberto Menescal, Nara Leão.
O [música] grupo considerado elitista nunca lhe deu espaço e barrava qualquer tentativa dele apresentar-se nos clubes onde se reuniam. Bosco aconselhou-o simplesmente a desistir. Em dezembro de 1963, Parei na Contramão tornou-se o maior sucesso dele em São Paulo em poucos dias. Daí espalhou-se para o Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas.
Em agosto de 1964, veio o álbum É proibido fumar com o calhambec e o uso de baixo elétrico, coisa então rara em gravações brasileiras. Vendeu cerca de 12.000 1 cópias. E depois a Federação Paulista de O futebol revogou o contrato de transmissão com a TV Record. A emissora ficou com um buraco na tarde de domingo e teve de encher o espaço com um musical que ainda estava a ser planeado.
A ideia era um par de apresentadores, homem e mulher. [música] Escolheram Erasmo Carlos para o posto masculino e foi Erasmo quem sugeriu o nome de Roberto. Para equilibrar, acrescentaram Vanderlea. O contrato previa 4 milhões de cruzeiros mensais para cada um, mais percentagem na bilheteira e na venda dos videotapes.
A Jovem Guarda estreou a 22 de de agosto de 1965, em direto do Teatro Record. Em novembro saiu o álbum Jovem Guarda, puxado por Quero que vá tudo para o Inferno. O Jornal do Brasil escreveu que a canção estava ao mesmo nível das melhores dos Beatles. A audiência do programa saltou de 15,5% para 38%, atingindo os 2 milhões e de espectadores só em São Paulo e a liderança em cinco capitais.
Em menos de um ano, o rapaz que tinha vendido 512 exemplares era o maior fenómeno do país. A histeria tinha uma escala física. O Teatro Record passou a operar com uma equipa de 10 a 15 seguranças comandados por Sérgio Fleurry. E uma das estratégias utilizadas era colocar um sóia a encenar uma falsa saída para despistar as fãs.
Em abril de 1966, [música] o programa gravou uma edição especial para celebrar o aniversário de Roberto num cinema com capacidade para mais de 4.000 pessoas. Cerca de 15.000 ficaram do lado de fora. O exército teve de ser convocado para controlar a multidão. Sobre esse dia, afirmaria depois que foi um dos momentos mais emocionantes da carreira e que nunca poderia esquecer o que viveu naquela tarde de domingo no Cine Universo.
O sucesso trouxe também os imitadores e os assunto incomodava-o mais do que ele deixava transparecer. Já em 1965 tinha lançado o Sóia. Uma canção irónica sobre um homem que o copiava sem conseguir cantar tão bem. Ronivon despontou em 66 e foi apelidado de príncipe. A imprensa alimentou a rivalidade e chegou a circular a lenda de que Roberto teria gravado Querem acabar comigo com uma foto do Ronnie à sua frente, o que ele nega.
Mas o caso mais grave foi o do conterrâneo Paulo Sérgio. Sobre ele, [música] o próprio Roberto comentou que chegou a confundir-se ouvindo-o na rádio. Acredita-se que o álbum O inimitável de 1968 recebeu esse título precisamente por [música] causa disso. Em 1966, uma falha de produção quase destruiu a parceria com Erasmo.
O programa Show em Si, Monal preparou um pote porri [música] com as composições mais famosas de Erasmo, incluindo Parei na contramão e quero que vá tudo para o inferno. O problema é que aquelas canções eram de [música] dupla e os créditos foram dados unicamente a Erasmo. Os dois romperam. A parceria esteve suspensa por mais de um ano e o álbum [música] Epónimo de Roberto desse ano, o mais vendido de 66, traz apenas duas canções assinadas pelos dois.
Quem os reconciliou foi um filme. Roberto, atolado de compromissos, não conseguia terminar a letra de Eu Sou terrível e teve de pedir ajuda ao parceiro. Nos festivais, porém, a coroa não valia nada. Em 1967, ficou em quinto lugar com Maria Carnaval e Cinzas. E foi vaiado porque parte do público hostilizava a presença de um ícone da O Jovem Guarda, tido como alienado sob a ótica emepebista da época.
No fim de 68, voltou com a valsa madrasta [música] e foi fortemente vaiado outra vez, sem sequer avançar para a final. Ele gostou tanto da canção que a incluiu no disco seguinte, [música] assim mesmo. E foi então que decidiu ir buscar o reconhecimento a 7.000 km de distância. A 12 de fevereiro de 1968, num palco italiano, Roberto Carlos fez algo que nenhum outro brasileiro fez antes, nem depois.
Nesse mesmo ano, casou numa cidade da Bolívia e é deste casamento que advêm as duas maiores tragédias da sua vida. O palco era o festival de San Remo. As regras obrigavam cada canção a ser defendida em dupla. Um dos autores e um convidado internacional. [música] Roberto Carlos apresentou-se ao lado de Sérgio Hendrigo com Canzone Pertê, composta por Hendrigo e Sérgio Bardote a 12 de fevereiro de 1968.
A canção venceu, tornou-se uma das mais ouvidas de Itália nesse ano [música] e regressou ao Brasil ovacionado. Até hoje é o único brasileiro a ganhar Sanremo. No ano anterior, ele quase tinha participado e cancelou a apresentação há um mês do evento por causa de um mal entendido sobre as normas da concorrência.
Ainda em 1968, casou em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, com Cleonice Rossi, filha do publicitário Edmundo Rosse. Todo o Brasil conhecê-la-ia como Nice. Nice chegou ao casamento com uma filha pequena. Ana Paula era fruto de um namoro anterior com António Carlos Martinelli e o pai biológico não quis assumir a criança.
Roberto, por amor à mulher, apegou-se à menina e registou-a como filha dele. É um pormenor que raramente aparece nas biografias de Vitrine. Antes de ter o primeiro filho biológico, o rei já tinha escolhido ser pai de uma criança que outro homem tinha recusado. O primeiro filho do casal nasceu em Belo Horizonte a 14 de Dezembro de 1968 e recebeu o nome do pai, Roberto Carlos II, o segundinho, que o Brasil viria a conhecer como Dudu Braga.
[música] Nasceu com glaucoma de difícil tratamento, com menos de metade da capacidade visual e andou toda a vida de bengala e acompanhado. [música] Em 1971, nasceu a Luciana. Para Nice, Roberto tinha escrito ainda em 1967: [música] “Como é grande o meu amor por ti”. Mas havia um filho que não sabia que existia.
[música] Em 1965, um relacionamento passageiro com a modelo e comerciante Maria Lucila Torres [música] tinha gerado um rapaz, o Rafael. Maria Lucila nunca contou a Roberto que estava grávida por vergonha, porque tinha sido um caso breve, mas contava sempre ao filho quem era o seu pai. [música] Só nos anos 90, já adulto, O Rafael fez o teste de paternidade para concretizar o desejo da mãe.
Deu positivo e Roberto assumiu-o como filho legítimo. Poucos meses depois de finalmente conhecer o pai, o Rafael perdeu a mãe. Maria Lucila morreu vítima de cancro da mama. Entretanto, a viragem dos anos 70 reconfigurava tudo na carreira. O álbum O inimitável de 68 abriu não com um rock como todos os anteriores, mas com uma balada romântica e não vou deixar mais você tão só.
Foi o disco mais vendido do Brasil em 1969. O compositor Getúlio Cortes, que sempre entregava canções rock, [música] foi avisado para passar a compor temas românticos. A mudança de público veio junto. O adolescente ficou para trás, o adulto assumiu o lugar. Em 1972, o álbum anual tornou-se o primeiro LP no Brasil a atingir 1 milhão de cópias vendidas.
Em 24 de dezembro de 1974, [música] a Rede Globo exibiu o primeiro especial de Natal do cantor. A audiência foi enorme e a partir daí o programa passou a ser anual. Estava [música] criado o ritual de fim de ano mais duradouro da televisão brasileira. Os números dessa década são de outro planeta. O álbum de 1978 [música] com Café da Manhã, Força Estranha e Lady A Laura vendeu 1.00.000 exemplares.
Nesse mesmo ano, percorreu o país durante seis meses seguidos, sempre com casas lotadas. [música] Em 1979, quando o Papa João Paulo II visitou o México, foi saudado por um coro de crianças a cantar Amigo, evento transmitido em direto para centenas de milhões de pessoas. Em 1984, [música] Camionista foi executada mais de 3000 vezes nas rádios brasileiras num único dia.
No ano seguinte, o verde e o amarelo bateu a marca com 3500 execuções. Em 1994, ele superou os Beatles em vendas na América Latina. E no meio de tudo isto, escrevia sobre si próprio o tempo todo, mesmo quando o público pensava que estava a ouvir Canção de Amor. Traumas [música] de 71. e o divan de 72 são sobre o acidente da infância. Numa delas, ele canta sem metáfora nenhuma, [música] que aquelas recordações o matam e que é por isso que vai ali.
Aquela casa simples de 86 é sobre a partida de cachoeiro para o rio, [música] com os bênçãos do pai, a fé e uma guitarra. Tia Amélia, de 76 anos, [música] é para a tia que acolheu-o no Rio de Janeiro. E o rei que fugia da política escreveu depois de visitar Caetano Veloso no exílio em Londres, debaixo dos caracóis dos seus cabelos, sobre a vontade do baiano de regressar ao Brasil.
O casamento com Nice terminou em 1979. Começava então uma relação de quase uma década com a atriz Miriam Ross, sem filhos, a quem escreveu: “Eu preciso de ti”, em 1981. As fontes divergem sobre a duração exata. A Wikipédia fala em 11 anos. O jornal A Gazeta assinala 9 anos, com início em 1980 e sem oficialização formal da União.
[música] E há uma coincidência cruel nesta história. Em 1977, 2 anos antes da separação, um adolescente de 16 anos foi apresentada a ele nos bastidores de um concerto no interior de São Paulo. Quem fez a apresentação foi Ana Paula, a entiada. A rapariga era sua colega de escola. [música] O Roberto tinha 36 anos e os pais da rapariga proibiram terminantemente a aproximação.

Levariam 13 anos a reencontrar-se. E quando finalmente ficaram juntos, ele teve exatamente 3 anos e meio de casamento antes de a perder. O reencontro aconteceu em 1990, durante um concerto em Campos do Jordão, logo após o fim da relação com Miriam Rios. Chamava-se Maria Rita Simões Botelho. Era pedagoga e tinha 29 anos. Começaram a namorar em 1991.
Em abril de 1996, casaram numa cerimónia reservada a cerca de 20 pessoas. Foi o terceiro casamento dele e o único no civil. Decidiram não ter filhos. Em setembro de 1998, Maria Rita foi diagnosticada com cancro. As fontes divergem sobre a origem exata. A Folha de São Paulo, na edição de 21 de Dezembro de 1999, registou carcinoma neuroendócrino.
Outras publicações falam em cancro no útero e num tumor raro na região pélvica. Convergem no essencial. [música] Quando foi descoberto, já estava generalizado. Segundo o oncologista Sérgio Dani, o tumor estava na altura do diagnóstico do tamanho de um mamão papaia. O ano de 1998 é provavelmente o mais silencioso da carreira dele.
E quase ninguém repara nisso. Tinha o disco anual para gravar e a mulher internada na capital paulista. O álbum quase não saiu, foi lançado com apenas quatro canções inéditas. Todo o resto do disco foi retirado de um concerto que tinha feito no Olímpia em São Paulo. Entre as inéditos foi O baile da Quinta, parceria com Erasmo, com a participação de Dominguinhos.
Quem comprou aquele LP estava a comprar, sem [música] saber o retrato de um homem a tentar cumprir contrato enquanto a mulher morria. Em 1999, o estado dela agravou-se. O Roberto esteve ao lado da mulher durante toda a internamento, incluindo no instante em que ela morreu. Segundo o relato de Eb Camargo, passou os últimos dias sem dormir para estar disponível em qualquer momento em que ela conseguisse interagir.
Maria Rita faleceu a 19 de dezembro de 1999, aos 38 anos. Alguns veículos registam 20 de dezembro. A data que o próprio Roberto marca todos os anos é 19. Foi sepultada no dia seguinte no cemitério da Aclimação em São Paulo. No velório estiveram Ebbe Camargo, Chitãozinho e Chororó, Chico Anício, Tom Cavalcante, Ron e Vanderleia.
E aqui está o dado que mede o tamanho exato dessa dor, sem uma única palavra de exagero. Desde 1974, o especial de Natal na Rede Globo tinha ido para o ar todos os anos sem falhar. [música] Em 1999, não foi. Não apresentou o programa e não gravou o disco anual. A gravadora A Sony teve de lançar, no lugar do trabalho inédito, uma dupla coletânea com os 30 maiores êxitos e uma única nova faixa, a religiosa todas as Nossas Senhoras, escrita com Erasmo.
Foi a única vez em cinco décadas que o Natal brasileiro ficou sem o rei. Depois [música] veio um período de reclusão. Só retomou a carreira em novembro de 2000 com a digressão Amor sem Limite, estreada no Recife, título de uma canção feita em homenagem a Maria Rita. Nesse mesmo ano, rompeu o contrato com a Sony, a antiga CBS, depois de 39 anos de parceria.
Em 2003 surgiu o disco [canção] inteiro para sempre, é integralmente a ela dedicado, com nove canções inéditas. [música] Uma delas chama-se Acróstico e a primeira letra de cada verso lido em sequência de cima para baixo, forma a frase Maria Rita, o meu amor. Em entrevista à Globo, em dezembro de 2003, [música] ele explicou o que a letra de para sempre significava literalmente.
disse [música] que tudo neste mundo pode modificar-se, o que pode até mudar a posição do sol e do mar, e que aquela era a sua realidade, que sabia que ia amar Maria Rita eternamente e que mesmo [música] que tudo à volta se modificasse, ali no coração nada mudava. 25 anos depois da sua morte, a 19 de dezembro de [música] 2024, publicou no Instagram uma fotografia dela com um excerto de Primeira Dama, canção de 1991.
Chamou-lhe primeira dama da sua vida e grande amor. Nunca mais assumiu publicamente outro casamento. E foi logo depois desse período, ao começar tratamento terapêutico, que fez algo que nenhum ídolo daquele porte costuma fazer. admitiu publicamente em 2004 que tinha uma perturbação mental e explicou durante durante 30 anos o maior sucesso da A própria carreira tinha simplesmente desaparecido dos concertos.
O nome do transtorno é transtorno obsessivo compulsivo. Ele assumiu-o publicamente em 2004, depois de iniciar tratamento terapêutico e explicou [música] o que a condição tinha feito com o repertório. O o toque levou-o a um comportamento excessivamente supersticioso e a consequência prática foi o desaparecimento de canções inteiras do palco.
Pequeno-almoço, outra vez e Quero que vá tudo para o inferno saíram dos espectáculos. Não por desgaste, não por decisão artística, por medo. Havia até versos isolados que se recusava a cantar. Em É preciso saber viver, existe uma linha que diz se o bem e o mal [música] existem. Durante muitos anos, ele simplesmente não a cantava.
Em junho de 2007, numa temporada no Canecão, cantou a canção na íntegra pela primeira vez em muito tempo e falou do assunto de forma descontraída, apontando melhorias. Nesse mesmo concerto estiveram Gilberto Gil e Zeca Pagodinho, os jornalistas Nelson Mota e Leda [música] Nagle. O caso mais extremo foi o de Quero que vá tudo para o inferno.
A canção que tinha feito a audiência da Jovem Guarda Saltar de 15,5 para 38% [música] que o Jornal do Brasil comparou às melhores dos Beatles, esteve 30 anos fora do repertório. Só regressou em 2016, no especial de fim de ano, quando ele afirmou publicamente que tinha melhorado do toque. foi um homem de 75 anos a cantar em rede nacional a música que ele próprio se tinha proibido de si mesmo desde os 45.
Mas nem tudo nestes anos foi reconciliação. Em 2006, [música] a editora Planeta lançou Roberto Carlos em Detalhes, biografia não autorizada de Paulo César de Araújo, resultado de 16 anos de investigação e de testemunhos de cerca de 200 pessoas que atravessaram a trajetória dele. Roberto repudiou a obra, alegando conterem inemdades e foi à justiça.
A 27 de Abril de 2007, após longa audiência no Fórum Criminal da Barra Funda, foi determinado o recolha de todos os exemplares. O livro saiu das livrarias. Não foi um episódio isolado. Já em 1979, o ex-mordomo Nicolas Mariano tinha publicou um livro de memórias chamado O Rei e eu, retirado das livrarias por ação judicial, interposta pelo cantor.
Em 1983, Roberto processou o jornalista Rui Castro. por uma reportagem na revista Status, que detalhava os romances dele na época da Jovem Gua. Em 1993, impediu uma série de reportagens sobre a própria infância no jornal Notícias Populares. Em 2013, tentou impedir a venda de um livro sobre a Jovem Guarda, que tinha nascido de uma dissertação de mestrado na moda e na cultura.
[música] Em 2014, a Companhia das Letras publicou O réu e o rei do mesmo Paulo César de Araújo, contando os bastidores da proibição. E em novembro de 2013, O Roberto saiu do grupo Procure Saber: Formado por [música] Caetano Veloso, Chico Boarque, Dejavan, Erasmo, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Marisa Monte, que defendia precisamente a autorização [música] antevisão para biografias não autorizadas.
Havia também as perdas a acumular-se. [música] A 17 de abril de 2010, Laura Moreira Braga morreu aos 96 anos de infeção respiratória. A mulher que costurou a roupa para o primeira apresentação do filho, que lhe ensinou os primeiros acordes de guitarra, que dele ouviu aos 9 anos a frase sobre não querer ser mais médico.
A notícia da A morte dela chegou-lhe durante uma apresentação no Rádio City Music Hall em Nova Iorque. Lady [música] Laura de 1978 era para ela a estação de 74 também. Um ano depois, a 16 de abril de 2011, Ana Paula morreu subitamente de parada cardíaca no seu apartamento [música] em Moema, São Paulo.
Morreu nos braços do marido, o guitarrista Paulo Coelho Soares, que toca na banda de Roberto. A filha que tinha escolhido registar como sua, a que apresentara Maria Rita ao padrasto. As fontes divergem sobre a idade. [música] A Wikipédia lusófona indica 47 anos. O jornal A Gazeta indica 45.º Foi três dias antes do aniversário dele e a 8 de setembro de 2021, aos 52 anos, morreu Dudu Braga, vítima de um cancro no peritoneu, a membrana que reveste a parede abdominal.
O menino nascido com glaucoma em Belo Horizonte, que tinha o nome do pai, e andou a vida inteira acompanhado. [música] Somando, o rei enterrou a mãe, duas ex-mulheres, dois filhos e o grande amor da vida. Todos, exceto a mãe e a Ana Paula, levados pelo cancro. Depois de 2 anos de iato pela pandemia de Covid-19, regressou às digressões em 2022.
Vive numa cobertura triplex no edifício Golden Baía, na Avenida Portugal, na Urca, comprado nos anos 80, um discreto edifício de cinco andares, com vista para a Baahía de Guanabara e para o Cristo Redentor, a 30 m da paróquia de Nossa Senhora do Brasil, que ele [música] frequenta. Segundo a imprensa, mantém em sigilo a identidade de uma companheira, algo que nunca confirmou publicamente.
Foi de lá que saiu, em julho deste ano, para a cirurgia que fez o Brasil prender a respiração. A cirurgia da vesícula biliar por videolaparoscopia decorreu a 22 de julho de [música] 2026. Estava programada há tempo e o comunicado publicado nas redes dele [música] dizia que a recuperação seria rápida e não interferiria na agenda de concertos.
A 24 de julho, teve alta. O assessor Maurício Aires afirmou que a cirurgia foi um sucesso, [música] que ele já estava em casa a cumprir o protocolo médico e que a agenda continuava confirmada 15 e 16 de agosto no Rio de Janeiro, 22 e 23 em São [música] Paulo e a 6 de dezembro o navio em alto mar.
Aos 85 anos, continua a marcar datas no calendário. é o mesmo homem que atravessou a infância de muleta porque a família não tinha dinheiro para uma prótese [música] que vendeu 512 cópias do primeiro disco, que foi barrado pela turma da bossa nova e aconselhado a desistir, que cantou num bar de prostitutas para pagar contas e que depois enterrou a mãe, duas ex-mulheres, a filha que escolheu ter e o filho que levava o seu próprio nome, e voltou ao palco todas as vezes.
Se esta história te prendeu, quero saber uma coisa nos comentários e é específica. Qual foi o facto que mais te surpreendeu? O menino que se tornou Hor Concurso no Trono da Rádio Cachoeiro aos 9 anos ou o Natal de 1999? O único em cinco décadas em que o especial não foi para o ar? [música] Escreve aí, leio todos.
e ativa a inscrição no canal para não perder o próximo. [música] E já que estás por aqui, o vídeo que aparece agora no ecrã é sobre outra história de bastidores que a imprensa contou pela metade. Se esta te prendeu, esta vai prender-te mais ainda.