A Face Oculta da Fama: Como o Cantor Mais Amado do Povo Perdeu a Fortuna e Terminou Num Túmulo Abandonado

Há histórias que parecem saídas diretamente de um guião de cinema, repletas de reviravoltas trágicas, picos de glória inalcançáveis e quedas vertiginosas. A trajetória de Waldick Soriano, imortalizado como o “Rei da Dor de Cotovelo” e apelidado pela imprensa da época como o “Frank Sinatra dos pobres”, é, indiscutivelmente, uma das narrativas mais fascinantes e dolorosas da cultura popular brasileira. O homem de chapéu preto e óculos escuros inseparáveis dominou a rádio, encheu salas de espetáculos até rebentarem pelas costuras e fez o país inteiro cantar a plenos pulmões as suas mágoas de amor. Porém, por trás do glamour dos carros de luxo e dos romances com herdeiras da alta sociedade, escondia-se uma ferida que nunca sarou, um vazio emocional tão profundo que acabou por engolir a sua fortuna e ditar um fim de vida marcado pela solidão e pela controvérsia.

Para compreendermos a verdadeira essência da tragédia e do sucesso de Waldick Soriano, precisamos de recuar no tempo e viajar até ao interior profundo do Brasil. No dia 13 de maio de 1933, num modesto e empoeirado recanto chamado Brejinho das Ametistas, situado no município de Caetité, em pleno sertão da Bahia, nascia um menino batizado de Eurípedes Waldick Soriano. Criado no seio de uma família humilde, a música sempre foi a banda sonora da sua casa. O seu pai era clarinetista e a sua mãe possuía uma voz que encantava quem a ouvisse. O destino parecia traçado nas estrelas, mas a crueldade da vida interveio cedo demais. Aos cinco anos de idade, o pequeno Eurípedes sofreu o golpe mais devastador que uma criança pode suportar: a separação dos pais. A mãe partiu para São Paulo e, tragicamente, faleceu pouco tempo depois, a milhares de quilómetros de distância do filho.

Este detalhe é fundamental para desvendar o enigma que Waldick Soriano viria a ser. Aquele menino de cinco anos ficou órfão de mãe, privado do carinho, do afeto maternal e do colo que toda a criança desesperadamente necessita. A psicologia moderna diria que um trauma destas proporções numa idade tão tenra forma cicatrizes indeléveis na alma. E foi precisamente com essa dor invisível que ele cresceu. Trabalhou arduamente nas roças secas do sertão, andou a cavalo, tornou-se motorista de profissão e até se embrenhou no trabalho árduo dos garimpos à procura de ametistas. Mas nas suas horas de descanso, o seu espírito transcendia a pobreza e o cansaço. Pegava numa velha lata de conservas amolgada, encostava-a aos lábios como se fosse o microfone mais sofisticado do mundo, e punha-se a cantar os sucessos de Vicente Celestino e de Nelson Gonçalves.

A génese da sua famosa e inconfundível persona visual ocorreu de forma hilariante, mas profundamente reveladora. Numa ida ao cinema local, o jovem apaixonou-se cegamente por um filme de faroeste protagonizado por Durango Kid, um justiceiro vestido de preto da cabeça aos pés. Inspirado, Eurípedes mandou fazer um fato igualzinho, arranjou uns óculos escuros e montou-se num cavalo negro. Quando desceu à praça central da cidade ostentando o seu novo visual, foi recebido com uma monumental vaia pelos estudantes locais. Longe de recuar perante a humilhação, ele esporeou o cavalo e perseguiu a multidão que troçava dele. A partir desse momento de insubmissão, o fato preto, o chapéu e os óculos escuros passaram a ser a sua armadura inquebrável contra um mundo que o tentava deitar abaixo.

Com a ambição a ferver-lhe nas veias e após um conflito geracional com o pai, que não via futuro na música, atirou-se para a aventura. Prometeu que só voltaria a casa se vencesse na vida. Embarcou num “pau de arara”, aqueles camiões rudimentares carregados de migrantes cheios de sonhos, rumo à imensa metrópole de São Paulo. A cidade grande não foi branda nos primeiros tempos. Bateu de porta em porta, suplicou por audições nas rádios, até que finalmente conseguiu chegar à editora Chantecler. A sua voz poderosa e carregada de emoção genuína conquistou os produtores de imediato. A única exigência foi abandonar o nome “Eurípedes” e adotar comercialmente o seu segundo nome. Assim nasceu, para o mundo, Waldick Soriano.

A sua ascensão foi qualquer coisa de extraordinário. Músicas como “Quem És Tu” e “Tortura de Amor” atravessaram fronteiras, cimentando o seu estatuto de estrela além-mar. Contudo, o momento de viragem que o transformaria numa verdadeira lenda viva, numa instituição nacional, surgiu do imprevisto mais mundano possível: um voo atrasado no aeroporto do Recife. O clima entre os passageiros era de extrema irritação e fúria pela longa e desgastante espera. No meio do caos e da confusão das pessoas que reclamavam da falta de respeito, alguém vociferou indignado: “Eu não sou cachorro não!”. A frase atingiu Waldick como um relâmpago de inspiração. Ali mesmo, nos corredores frios do aeroporto, começou a arquitetar a letra e a melodia do hino que o imortalizaria. “Para viver tão humilhado, eu prefiro amar você”, cantou ele, expressando o sentimento de um povo inteiro que se sentia desdenhado e pisado diariamente.

Rei do brega, Waldick Soriano canta amor e enfrenta preconceito com  sucessos | Acervo

Nas décadas de 60 e 70, Waldick era um autêntico furacão. As vendas dos seus discos batiam recordes estratosféricos. Era presença obrigatória e constante em todos os grandes programas televisivos de horário nobre, onde partilhou o ecrã com gigantes do entretenimento, gerando momentos hilariantes que ficaram cravados na memória coletiva de várias gerações. Mas a sua influência não se cingiu à música. Ele também foi conquistar o grande ecrã. O filme “Paixão de um Homem”, de 1972, um autêntico fenómeno social, arrastou mais de um milhão de espectadores para as salas de cinema. Numa era pré-digital, sem redes sociais ou marketing viral na internet, conseguir números que equivalem a lotar o mítico estádio do Maracanã treze vezes consecutivas é um feito quase inacreditável e revela a verdadeira dimensão e magnitude da sua popularidade fenomenal.

Com o estrondoso sucesso, vieram a riqueza e os luxos inimagináveis para um antigo trabalhador braçal das poeirentas minas da Bahia. O menino da lata de conservas agora circulava soberbamente a bordo de um majestoso Ford Landau, um símbolo de poder na época. Adquiriu propriedades valiosas no Rio de Janeiro e em São Paulo, frequentando os círculos mais elitistas e as festas mais exclusivas da alta sociedade. Foi neste ambiente restrito que viveu um mediático romance com Beck Klabin, herdeira de uma das famílias mais ricas e poderosas do país. Ele era, a todos os níveis, a personificação do sonho inatingível que se tornou realidade, o ídolo amado pelas massas e temido pela elite cultural, que não conseguia disfarçar o profundo desprezo pelo seu estilo rotulado de “cafona” ou “brega”.

No entanto, por detrás de todas aquelas cortinas de veludo, a criança órfã de cinco anos ainda chorava. E é aqui que a história assume os seus contornos mais humanos e trágicos. A vasta fortuna de Waldick Soriano não se esfumou devido a esquemas obscuros, burlas financeiras de empresários inescrupulosos ou maus investimentos na bolsa. O dinheiro escorreu-lhe por entre os dedos através de uma busca incessante, quase obsessiva, pelo amor que lhe fora roubado na infância. Ele próprio confessou, com uma notável e crua honestidade, que chegou a viver maritalmente com catorze mulheres diferentes, nenhuma delas preenchendo o vazio existencial crónico de que padecia. Assumiu três casamentos oficiais, reconheceu inúmeros filhos e manteve dezenas de paixões avassaladoras pelo caminho, financiando o sustento de várias famílias alargadas e suportando financeiramente muitas das pessoas que se cruzaram consigo. Ele não era apenas um boémio; era um homem generoso até à sua própria ruína, tentando comprar, através do sustento financeiro e da devoção material, o afeto incondicional que nunca teve oportunidade de experimentar nos braços de uma mãe.

O desgaste não tardou a cobrar o seu preço impiedoso. As tendências musicais foram alterando radicalmente ao longo dos anos, com novos ritmos e novas caras a invadirem a indústria discográfica. Aliado a este fator, o implacável regime militar então vigente no país encarregou-se de censurar a canção “Tortura de Amor”, não por conter qualquer teor subversivo ou político, mas unicamente pela inclusão da palavra “tortura” no título, numa época marcada pelo medo e pela repressão institucionalizada. Sem espaço para respirar, o espaço mediático de Waldick encolheu. O homem que antes cantava para milhares passou a atuar para centenas, e depois para dezenas, em pequenos bares e modestos restaurantes espalhados pelo Nordeste, vivendo refugiado longe dos implacáveis holofotes das grandes metrópoles culturais do eixo Rio-São Paulo.

Infelizmente, a teimosia e o orgulho que o haviam salvo da humilhação na juventude transformaram-se agora na sua condenação. Sempre com uma aversão quase doentia a médicos, a agulhas e a hospitais, considerando a procura por cuidados de saúde um inaceitável sinal de fraqueza, recusou sucessivamente exames de rotina que poderiam ter evitado a tragédia final. O diagnóstico de cancro da próstata, quando finalmente foi feito, chegou irremediavelmente tarde. A metástase já tinha alastrado implacavelmente pelo seu corpo outrora vigoroso. Mas o velho leão teimava em não se render e dizia orgulhosamente a todos que não ia morrer de cancro. Em setembro de 2008, aos 75 anos de idade, Waldick Soriano deu o seu último suspiro na impessoalidade de uma unidade de cuidados paliativos no Instituto Nacional de Câncer (INCA), no Rio de Janeiro. Pairou, até ao derradeiro instante, o amargo debate de quem jurava que ele morrera na mais profunda solidão, abandonado pelos que outrora se banqueteavam na sua mesa, contrastando com a versão de uma das suas antigas paixões que afirmava ter ficado a segurar a sua mão até ao apagar definitivo da luz.

Após a sua morte, o drama familiar adensou-se numa batalha judicial vergonhosa. Sem as propriedades milionárias ou contas recheadas de outrora, o seu verdadeiro legado eram as quase oitocentas composições autorais que o Ecade continuava e continuará a arrecadar sempre que alguém tocar uma música sua na rádio, numa novela ou num bar. Esse dinheiro transformou-se no pomo da discórdia familiar, gerando acusações ferozes e trocas de argumentos feios à volta de meio milhão de reais cobrados em direitos de autor. E enquanto a família se engalfinhava na justiça por causa dos espólios financeiros, acontecia, ironicamente, o momento de maior desolação desta narrativa.

Musicaria Brasil: WALDICK SORIANO, 05 ANOS DE SAUDADES

O túmulo do homem que fizera chorar um milhão de pessoas nos cinemas jazia num estado de degradação chocante no cemitério do Caju. A sepultura estava completamente abandonada pelos entes queridos e rachada pela erosão do tempo, e quem pagava as módicas despesas de manutenção mensal era um completo desconhecido, um admirador e advogado leal à sua memória. Somente em maio de 2022, catorze anos volvidos sobre a sua morte física e sob enorme pressão de um movimento organizado por devotos fãs, os seus restos mortais foram finalmente transladados do Rio de Janeiro de regresso ao coração poeirento da Bahia. Voltou finalmente a casa, ao lugar de onde havia partido num humilde transporte décadas antes, prometendo voltar como vencedor.

Para lá da disputa das heranças e das glórias poeirentas dos discos de vinil riscados, o que realmente resta da odisseia de Waldick Soriano é a compreensão profunda de que todos os holofotes do mundo jamais conseguirão apagar a escuridão da falta de um abraço materno. Ele provou que um homem pode ter tudo — os carros de luxo, a companhia das mulheres mais lindas da sociedade e multidões a gritarem fervorosamente o seu nome — e, no entanto, viver e morrer enclausurado num desamparo que começou na infância. Ele cantou “Eu não sou cachorro não”, exigindo dignidade e respeito para um país inteiro, sem nunca ter conseguido resgatar, completamente, a criança solitária que havia dentro de si mesmo. O seu desfecho não é apenas o conto de uma fortuna desperdiçada na boémia, mas o retrato fiel e agridoce de um ser humano imperfeito que se entregou inteiramente à vida e ao povo que sempre o amou com uma paixão inesquecível.

 

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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