Aos 82 Anos, Wanderléa Revela a Maldição da Piscina e a Dor Que Escondeu Atrás do Sorriso da Jovem Guarda
O Brasil, e grande parte do mundo lusófono, conhece de cor e salteado o sorriso vibrante e contagiante da “Ternurinha”. Era a menina de minissaia e botas brancas até ao joelho que, todas as tardes de domingo, incendiava o palco da TV Record e fazia um país inteiro vibrar ao som do rock and roll em plena década de 60. Wanderléa não foi apenas mais uma cantora; foi a primeira verdadeira estrela pop feminina da América do Sul, um furacão de carisma que definiu o comportamento e a moda de toda uma geração. Contudo, por trás dessa imagem imaculada, colorida e que transbordava a ilusão da invencibilidade, esconde-se uma narrativa de sofrimento tão sombria que a própria artista precisou de quarenta anos de silêncio absoluto para ganhar a coragem de a transpor para o papel.

Esta não é apenas mais uma história biográfica sobre os bastidores brilhantes da fama, os discos de ouro ou os aplausos ensurdecedores. Trata-se, sim, de um mergulho lancinante nas profundezas e labirintos do luto prolongado. É o relato cru de uma mulher que foi repetida e implacavelmente testada pelo destino, enfrentando tragédias brutais que partilham um cenário macabramente familiar e assombroso: uma piscina. A primeira vez que a água cruzou o seu caminho de forma dramática, roubou-lhe o homem que acreditava ser o grande amor da sua vida. Na segunda vez, um golpe ainda mais atroz arrancou-lhe dos braços o seu filho pequeno de apenas dois anos. Hoje, a celebrar 82 anos de uma existência singular, a artista despe a carapaça mediática e revela o ser humano de carne, osso e cicatrizes, marcado por perdas consecutivas que, muito provavelmente, teriam destruído definitivamente qualquer um de nós.
O primeiro capítulo deste calvário começou, no entanto, muito antes dos holofotes da Jovem Guarda se acenderem, num tempo marcado por uma inocência prematuramente roubada. Nascida em 1944 — uma correção fundamental, já que a indústria e a própria imprensa perpetuaram durante décadas a lenda de que nascera em 1946 —, na cidade de Governador Valadares, no interior de Minas Gerais, Wanderléa Charlup Boere Salim cresceu no seio de uma família numerosa e barulhenta de emigrantes libaneses. Convivia com treze irmãos sob o olhar vigilante de um pai conservador e austero, que idealizava um futuro modesto e inteiramente doméstico para as mulheres da casa. Contudo, com uns meros três anos de idade, e enquanto apontava maravilhada para o rádio lá de casa posicionado no alto de uma prateleira, a pequena Wanderléa já sentenciava o seu destino perante a mãe: um dia seria ela a cantar lá dentro.
Apesar da determinação pueril, o mundo cobrou o seu primeiro e mais sangrento tributo quando a cantora celebrava apenas dez anos. Num país e numa época onde a segurança já apresentava fissuras severas, a vida esbofeteou a família Salim. A sua irmã mais velha, Leninha, no viço dos seus 17 anos, foi mortalmente atingida por uma bala perdida durante um violento tiroteio no Rio de Janeiro. De forma súbita e irreparável, o véu de proteção infantil foi rasgado sem qualquer piedade. Wanderléa conhecia de forma traumática o terror absurdo e irracional da morte prematura. Este foi apenas o tiro de partida para um percurso onde o luto seria uma companhia intrusiva. Na autobiografia recém-lançada, um documento vitalício em formato de diário, esta perda ganha um lugar de destaque absoluto, provando que, muito antes de se converter no símbolo idílico de toda a juventude, Wanderléa foi a criança a quem a violência urbana roubou a irmã e a paz de espírito.
Contudo, contrariando todas as lógicas da paralisia emocional, a dor serviu de combustível para uma carreira vertiginosa. Aos quinze anos de idade, Wanderléa já pisava os palcos de clubes noturnos e boates cariocas, atuando na clandestinidade burocrática de quem necessita de autorizações judiciais e parentais por ser menor. O pai, num misto de conformismo e assombro perante a força vulcânica da rapariga, capitulou e acabou por acompanhá-la ao momento fulcral de assinar o seu primeiro contrato discográfico com a emblemática CBS. Ali, o universo conspirou. Nos corredores efervescentes da gravadora, cruzou o olhar com um rapaz magro e magnético chamado Roberto Carlos. Perto dele, deambulava também Erasmo Carlos. Sem o saberem, esses três jovens estavam a fundar a santíssima trindade do entretenimento televisivo.
A 22 de agosto de 1965, o programa “Jovem Guarda” estreava, pulverizando registos de audiência de uma ponta à outra do Brasil e monopolizando milhões de lares frente ao ecrã. Numa época de chumbo e asfixia social, sufocada sob o manto negro e conservador da ditadura militar brasileira, Wanderléa materializou-se como um grito rebelde de emancipação e liberdade. Vestia atrevidas calças à boca de sino, envergava minissaias nunca antes vistas naquele contexto e punha o país inteiro a imitar os seus penteados. A sua influência ultrapassou os discos de vinil; transformou-se num potentíssimo fenómeno de merchandising, impulsionando coleções de moda e originando as cobiçadas bonecas com a sua efígie pela Fábrica Estrela. Ascendeu a um patamar de adoração divina, tornando-se o pilar comportamental das raparigas de uma época inteira. Mas a conta dessa imensa exposição mediática não tardaria a chegar, de forma cruel e num formato de pesadelo aquático.
No apogeu deslumbrante da sua carreira, a cantora viveu um romance arrebatador com José Renato Barbosa de Medeiros. Nanato, como era tratado por todos, era filho da lendária figura televisiva, o apresentador Chacrinha. Numa vida engolida pela histeria coletiva, Nanato era a antítese do ruído ensurdecedor. Representava o refúgio seguro, a voz serena, a promessa palpável de constituir um lar sólido. Viveram apaixonados ao longo de sete anos intensos e estavam na iminência de subir ao altar para cimentar os seus votos.
Tudo convergiu, contudo, na Semana Santa do ano de 1971. O casal, acompanhado por amigos, fugiu para o calor e sossego de uma fazenda abrigada no interior. Num gesto perfeitamente corriqueiro, relaxado pelo ambiente de férias, Nanato tomou a decisão fatal de refrescar-se, atirando-se de cabeça para a piscina. Tragicamente, calculou mal a profundidade da zona de mergulho. O embate surdo contra o cimento ditou um castigo irredutível: destruição completa da coluna cervical. No auge dos seus tenros e férteis vinte e poucos anos, o filho de Chacrinha transformava-se subitamente num tetraplégico aprisionado pela paralisia no seu próprio corpo.
A “Ternurinha”, a mulher habituada a ostentar um sorriso radiante diante das luzes dos projetores, passou imediatamente a povoar madrugadas desesperantes nas alas sombrias dos hospitais, dedicando-se incansavelmente ao empurrar de uma cadeira de rodas. Recusou abandonar o homem que idolatrava. Contudo, guiado por uma dignidade comovente e uma vontade abnegada de não transformar a própria desgraça numa prisão vitalícia para a sua parceira, Nanato impôs o fim doloroso do noivado. Exigiu que Wanderléa retomasse as rédeas da sua vida de sucesso. Esta separação não consensual arrastou a artista para um abismo de depressão assustador, começando a germinar nela um raciocínio assombroso de que uma nuvem negra impiedosa pairava deliberadamente sobre todos aqueles que lhe eram queridos. O destino afigurava-se como um caçador perverso, escolhendo de forma aleatória as suas presas mais valiosas.
O luto, outrora sufocante, encontrou com o passar do tempo na música o antídoto que lhe permitiu respirar de novo. Nos longínquos e prolíficos anos 70, impulsionada pelo encontro criativo com gigantes como Egberto Gismonti, Wanderléa desfez-se habilmente do rótulo juvenil para mergulhar de cabeça nas camadas ricas e sofisticadas da Música Popular Brasileira (MPB). Durante essa travessia artística de renascimento e libertação musical, o destino colocou no seu horizonte Lalo Califórnia. O exímio guitarrista e produtor viria a tornar-se no seu marido, restituindo-lhe o tão aguardado solo seguro que a instabilidade da fama lhe furtava constantemente. Deste amor sólido e maduro floresceu Leonardo, o primeiro filho do casal, nascido em 1982.
A experiência milagrosa da maternidade, que Wanderléa sentiu bater-lhe à porta aos 38 anos, representou o sol radiante após anos soterrada num inverno rigoroso e impiedoso de infortúnios. Foram vinte e quatro meses precisos de encantamento absoluto e um deleite doméstico que acalmou, temporariamente, as águas de uma vida marcada pelo tormento crónico. Mas o pesadelo regressou para exigir o pagamento máximo e insuportável no ano de 1984.
O macabro cenário das suas angústias montou o palco com o mesmo elemento: uma piscina. Num dia rotineiro e perfeitamente normal, Wanderléa não se encontrava na paz do seu lar. Desempenhava estoicamente a sua função pública no frenético estúdio de televisão do canal SBT, em São Paulo, participando de forma sorridente e carismática no aclamado programa de Flávio Cavalcanti. Cumpria profissionalmente aquilo para a qual uma nação inteira se formara a assistir. Em casa, à margem da supervisão rigorosa num hiato fatal de descuido, o seu pequeno Leonardo andava de triciclo nas imediações do recreio da casa.
Numa queda que nenhuma testemunha pareceu prever no milésimo de segundo adequado, a criança precipitou-se para o fundo das águas cristalinas. Quando o alarme soou e o socorro se tentou materializar, tudo era já estéril e tardio; a vida do menino esvairá-se e o fôlego perdera-se tragicamente no local. Subitamente, as proporções desta desgraça multiplicavam-se aos olhos da artista e do público. Treze anos após ver o futuro destruído pela água quando um noivo ficara estendido na beira de uma piscina, o mesmíssimo e irónico líquido engolia letalmente os parcos anos de vida do seu descendente. A destruição emocional de Wanderléa foi de tal forma excruciante que ela abraçou sentimentos de culpa demolidores, arrastando-se pelos vidros quebrados da depressão clínica onde o peso de estar a sorrir num espetáculo televisivo no exato momento da morte do filho a carcomia sem piedade por dentro.
A crueldade metódica do destino prosseguiu. O impacto aterrador desta perda fraturou irreversivelmente a orgânica familiar. Embora legalmente se mantenham enlaçados no compromisso de um matrimónio até aos dias que correm, as feridas não cicatrizadas ditaram um molde não convencional de vida em habitações independentes, dada a incapacidade esmagadora de partilharem diariamente as memórias espectrais que deambulavam na habitação outrora feliz. Wanderléa retomou a farsa protetora que o show business assim dita: os concertos, as sessões de autógrafos, a imagem de artista incansável frente às objetivas fotográficas, enquanto as entranhas padeciam isoladas.
Posteriormente à criança falecida, não lhe foi consentido qualquer intervalo da roda-viva fúnebre. Um punhado de anos esvaziou a sua vida paterna, seguindo-se, na incontornável tragédia do ano de 1994, o falecimento penoso do seu queridíssimo irmão Bill. Este desempenhava, mais que um papel de parentesco genético, a primordial função de estilista de excelência e pilar estrutural na intimidade da cantora, vitimado implacavelmente numa luta dolorosa travada ao longo de uma década inteira contra a epidemia avassaladora da SIDA.
Sem mecanismos mentais de expurgação, uma torrente desmesurada de aflição, stresse crónico e pânico oculto canalizou-se violentamente para o templo sagrado da cantora — o seu próprio corpo biológico. Como ela assume abertamente no documentário visceral da sua vida, tamanha somatização orgânica materializou-se irremediavelmente através de um agressivo cancro no útero feminino. No clímax de decisões cruciais que afetam profundamente a essência da mulher, Wanderléa submeteu-se a uma radical histerectomia, ato cirúrgico castrador que a extirpou definitivamente de acolher vida dentro do seu corpo. Simultaneamente nas páginas confessionais agora desvendadas ao grande público, ela rompe o manto da clandestinidade médica referindo-se abertamente à sua experiência pessoal de abortos sofridos secretamente antes de ultrapassar o limiar dos seus 30 anos, escancarando a ferida exposta de uma vergonha moral cravada num país de valores esmagadoramente e intransigentemente fechados a realidades clandestinas.
Sobreviver perante o infortúnio sucessivo afigura-se como um triunfo monumental do instinto animal e de preservação da sua própria consciência existencial. Perder lenitiva proteção de irmandade através das armas de fogo infantis, ver o grande pilar conjugal desfazer os braços de pernas inócuas em mergulhos rasos, enterrar a promessa infantil no ventre das águas amaldiçoadas de casa, sucumbir a uma doença incurável o amigo estilista incondicional da alma da estrela para fechar com a perda brutal da capacidade biológica e reprodutiva, são fardos que ditariam o suicídio ou a debilidade crónica profunda de uma mulher frágil.
Porém, e a sublinhar toda a genialidade da musa perene, no momento temporal presente, contando 82 anos, prossegue numa estrada iluminada, editando discografia sublime vocacionada para a musicalidade folclórica original do Chorinho, e fazendo os palcos abanarem nos seus périplos constantes por cidades e lugarejos do interior. Sem Erasmo Carlos, desaparecido tragicamente ao cair do ano 2022, perante uma reclusão quase eremita de um já desbotado Roberto Carlos, é Wanderléa quem se ergue estoica, vibrante e magistral, provando sem equívocos nenhuns ao seu exército intergeracional de ouvintes que a perenidade artística funciona brilhantemente quando um coração mutilado escolhe a recusa perentória ao luto vitalício. Ao final das contas somadas deste espetáculo aterrorizador que é o viver pleno, canta porque quem ousa fazê-lo sobrepõe com a dignidade indomável da alma uma resiliência imorredoura aos trágicos arranjos infelizes que o palco escuro do próprio mundo lhe entregou cruelmente no guião original da sua dor infinita e não silenciada.