Clemilda: A Fome, a Censura e o Fim Trágico da Rainha do Forró que o Brasil Esqueceu
Se tem mais de quarenta anos e cresceu com raízes ou ligações à cultura popular brasileira, é quase impossível que nunca tenha dançado ou ouvido uma das suas músicas. Numa festa popular, num arraial de verão, num rádio de cozinha sintonizado no volume máximo numa manhã de sábado ou até mesmo num casamento numa aldeia longínqua. Os versos que imploravam ao delegado para prender o Tadeu tornaram-se num autêntico hino não oficial de várias gerações. Toda a gente cantava, toda a gente soltava gargalhadas com a letra irreverente, mas, incrivelmente, quase ninguém conhecia a fundo a verdadeira essência da mulher que dava voz àquela melodia contagiante. O seu nome era Clemilda. Uma mulher que desafiou as estatísticas, que quebrou as amarras de um destino cruel e que, ao longo de uma vida repleta de glórias e tormentos, construiu um império cultural que terminou de uma forma que ninguém poderia prever. Esta é a história não contada da Rainha do Forró.

Para compreendermos a magnitude da superação de Clemilda, temos de viajar no tempo e aterrar no interior profundo de Alagoas, no Brasil. Nascida a 1 de setembro de 1936, na pequena localidade de São José da Laje, ela era a filha caçula de uma família onde a escassez era a única certeza do dia a dia. O pai trabalhava como pedreiro, desgastando o corpo de sol a sol, enquanto a mãe labutava como empregada doméstica. A casa onde cresceu era de chão batido, o fogão era a lenha e a água tinha de ser acartada à força de braços. Era o retrato fiel de um Brasil profundo, esquecido e impiedoso, onde as crianças não tinham o direito de sonhar com o futuro, pois o destino já lhes estava traçado desde o berço. Para as raparigas daquela época e daquela geografia, a vida resumia-se a crescer rapidamente, casar cedo e procriar.
Aos nove anos, a família mudou-se para Palmeira dos Índios. Foi neste cenário de agreste que Clemilda começou a despertar para o mundo. O seu contacto com a música era rudimentar, mas profundamente mágico. Naquela época, a música não vinha de plataformas digitais; vinha do único rádio de válvulas que existia na rua, ao redor do qual os vizinhos se reuniam em silêncio religioso para escutar. A jovem menina adorava cantarolar, mas o seu talento embrionário era encarado apenas como uma brincadeira de criança. Cantar não era visto como uma profissão digna, muito menos como uma forma de colocar comida na mesa. A dura realidade impôs-se rapidamente e, aos quinze anos de idade, os seus pais arranjaram-lhe um casamento. Na altura em que as jovens de hoje planeiam festas de debutantes, Clemilda vestia o papel de dona de casa. Aos vinte anos, já era mãe de dois rapazes: José Adeíldo e José Roberto, este último que mais tarde viria a ser conhecido como o talentoso músico Robertinho dos Oito Baixos.
O casamento, construído sob as fundações frágeis de um acordo imposto, rapidamente começou a desmoronar. Clemilda viu-se encurralada numa vida que não tinha escolhido. Os pais tinham decidido o seu marido, a sociedade tinha decidido o seu papel, a pobreza tinha limitado os seus horizontes. Contudo, aos vinte e quatro anos, uma força incontrolável apoderou-se dela. Num ato de pura rebeldia e desespero, tomou uma decisão que ainda hoje gera debates acesos e julgamentos severos: empacotou os parcos pertences que possuía, deixou os dois filhos pequenos aos cuidados da avó materna e embarcou num navio em direção ao Rio de Janeiro. Para muitos, foi um abandono imperdoável. Para outros, foi um ato de sobrevivência extrema, a única fuga possível numa era em que os migrantes nordestinos rumavam ao sul do país nos chamados camiões “pau de arara”, abdicando da proximidade familiar para tentar garantir o sustento de quem ficava para trás.
O Rio de Janeiro de 1960 não teve piedade da jovem alagoana. A capital prometia glamour nas revistas, mas na prática oferecia trabalho árduo e invisibilidade. Clemilda foi engolida pela metrópole. Trabalhou como empregada doméstica, serviu ao balcão em lojas e acabou a trabalhar como empregada de mesa num movimentado restaurante no centro da cidade. Carregava bandejas pesadas, suportava o cansaço lancinante e enviava o pouco dinheiro que lhe sobrava para os filhos no Nordeste. O acaso, no entanto, quis que esse restaurante ficasse situado mesmo ao lado da lendária Rádio Mairink Veiga. Naquele tempo, a rádio era um espetáculo de massas. Com os trocos que lhe sobravam e roubando tempo ao seu descanso, Clemilda entrava de forma anónima no auditório. Com o uniforme de trabalho ainda vestido, sentava-se na plateia e observava divindades musicais como Luiz Gonzaga, Marinês e Jackson do Pandeiro brilharem no palco. Ela era apenas mais um rosto na multidão, uma espectadora fascinada e silenciosa.
Em 1964, a sua audácia voltou a falar mais alto. Num rasgo de coragem, pediu para fazer um teste de voz para o programa “Crepúsculo Sertanejo”. Para espanto de muitos, a rapariga das bandejas passou com distinção. Foi nos corredores mágicos da rádio que o seu destino se cruzou com o de Gerson Filho, um já conceituado mestre do acordeão de oito baixos. A faísca foi imediata. Gerson não só se tornou no seu marido durante vinte e oito longos anos, como foi o principal arquiteto da sua carreira musical. Formaram uma dupla imbatível, tanto na vida amorosa como nos palcos. O seu primeiro registo fonográfico ocorreu num disco dele. Juntos, abraçaram uma vida nómada, percorrendo o Brasil em caravanas precárias, atuando em circos de lona, montando palcos de madeira poeirentos no interior do país, e levando a alegria genuína do forró às populações mais isoladas.
No entanto, a ascensão da cantora não se fez sem inimigos poderosos. Nos anos setenta e oitenta, o Brasil vivia sob o jugo opressivo da ditadura militar. Enquanto a história oficial recorda frequentemente a censura aplicada a intelectuais e músicos de intervenção política, como Chico Buarque ou Gilberto Gil, esquece-se frequentemente da censura moral. E foi exatamente aí que Clemilda, uma mulher do forró, se tornou num alvo abater. Apelidada de forma depreciativa pelos documentos oficiais do regime como o “diabinho de saia”, Clemilda sofreu perseguições por cantar temas de duplo sentido, carregados daquele humor maroto e inocente típico das festas populares nordestinas. Apenas em 1981, os censores baniram seis das suas músicas de uma só vez. A hipocrisia era gritante: se um homem cantasse aquelas letras, era considerado um génio do humor popular; sendo mulher, era taxada de indecente e perigosa para os bons costumes.
Apesar de todas as proibições governamentais, a voz do povo falou mais alto. A censura teve o efeito oposto ao desejado, transformando-a num autêntico fenómeno de massas. O pico da sua glória chegaria em 1985 com o tema “Prenda o Tadeu”. O refrão inacabado, complementado por um simples e atrevido “hum” emitido pela cantora, tornou-se num sucesso estratosférico e incontrolável. As portas da televisão abriram-se de par em par. A ex-empregada de mesa que olhava o palco a partir da plateia estava agora a receber discos de ouro das mãos de Chacrinha, o apresentador mais icónico da televisão brasileira. Com vendas que ultrapassaram a impressionante marca de cem mil cópias — num formato físico, comprado com dinheiro contado nas lojas —, Clemilda foi oficialmente coroada como a Rainha do Forró. Tornou-se presença assídua nos programas de maior audiência do país, conquistando um estatuto de estrela que parecia indestrutível.
Contudo, a vida tem uma forma implacável de nos lembrar da nossa mortalidade e efemeridade. Em 1994, o grande amor da sua vida, Gerson Filho, faleceu. Esta perda devastadora, aliada à transformação galopante da indústria musical — que começou a trocar a autenticidade crua do forró tradicional pelas baterias e guitarras estridentes do forró eletrónico —, empurrou Clemilda para longe dos holofotes nacionais. Mas ela recusou-se a desaparecer na amargura. Regressou a Sergipe e dedicou-se de alma e coração à rádio e à televisão local. Durante trinta anos, com o seu inseparável chocalho na mão, apresentou programas diários, tornando-se uma verdadeira instituição cultural. Ela converteu-se na guardiã absoluta da memória do forró “pé de serra”, abrindo espaço para dezenas de artistas em início de carreira que não encontravam apoio noutro local.
O derradeiro e mais doloroso capítulo da sua odisseia começaria a escrever-se em 2010. O corpo que suportou décadas de estradas esburacadas, noites sem dormir e palcos precários começou a ceder. Vários acidentes vasculares cerebrais, a doença de Parkinson e uma severa osteoporose retiraram-na violentamente do seu habitat natural. E foi então, em 2014, que o Brasil assistiu a um cenário de partir o coração. A mulher que havia vendido fortunas em discos e enchido os maiores auditórios do país encontrava-se numa situação de extrema vulnerabilidade financeira. Para custear os seus dispendiosos tratamentos hospitalares e internamentos em unidades de cuidados intensivos, foi criada uma conta poupança pública para receber doações. Amigos e admiradores, incluindo escritores que venderam livros de poesia para reverter os lucros a seu favor, mobilizaram-se numa vaquinha solidária. A Rainha do Forró dependia agora da caridade do seu povo para poder respirar. A 26 de novembro de 2014, o seu coração cedeu definitivamente perante uma pneumonia brutal. Tinha 78 anos de idade.
A morte de Clemilda levantou uma onda de consternação e muitas interrogações. Como pôde alguém com tanto sucesso partir daquela forma? Falou-se num suposto luxo deixado, num célebre “Casarão da Clemilda”. A verdade, porém, é bem mais crua e poética. O referido casarão não passava de um cenário temático montado pela prefeitura local para homenageá-la nas festividades de São João. Não havia testamentos recheados de milhões, nem propriedades extensas, nem cofres com joias raras. O inventário material de Clemilda era assustadoramente humilde. Contudo, o seu verdadeiro testamento foi infinitamente superior a qualquer património imobiliário.
Ela deixou um acervo imortal de quarenta discos de vinil e seis CDs. Deixou dois filhos que dão continuidade ao seu imenso talento musical. Deixou o caminho aberto a golpes de catana para que outras mulheres, no futuro, pudessem brilhar num universo musical outrora dominado em exclusivo por homens. Mas, acima de tudo, o seu maior luxo foi a imortalidade cultural. Numa prestigiada enciclopédia internacional de música popular latino-americana, o nome de Clemilda repousa eternamente lado a lado com Luiz Gonzaga e Marinês. Aqueles mesmos ídolos que a jovem garçonete alagoana observava, exausta e de longe, nas noites quentes do Rio de Janeiro, são hoje os seus pares perante a História. As fortunas financeiras acabam, diluem-se no tempo e na ganância das gerações seguintes. Mas o momento em que uma música toca num rádio, e todo um povo canta a uma só voz, isso é eternidade. E Clemilda, a eterna Rainha do Forró, conquistou o seu trono para sempre.